É difícil acreditar que já tem cinco anos desde a última vez que o Homem-Aranha deu as caras no cinema em live Action, mas foi no distante ano de 2021 que Tom Holland envergou o colante azul e vermelho pela última vez, ao dividir a tela com Tobey Maguire e Andrew Garfield em Homem-Aranha - Sem Volta pra Casa, um filme que, a despeito de seus problemas, foi um deleite por conta do festival de nostalgia que foi rever Alfred Molina, Jamie Foxx, Willem Dafoe e Cia. de volta na pele daqueles personagens que nós havíamos visto desde 2002.
Hoje eu finalmente encontrei um assento na sala de cinema mais perto da minha casa para conferir o novo longa que, eu preciso confessar, estava com urticária de tanta ansiedade pra assistir desde o primeiro trailer.
No longa, Peter Parker está totalmente dedicado ao seu papel de herói defensor de Nova York. Ele não tem mais uma vida pessoal com que se preocupar (o filme não nos diz do que é que ele vive, como paga o aluguel ou compra comida), ele é apenas o amigão da vizinhança e, após anos fazendo isso, ele está no seu auge.
O Homem-Aranha jamais foi tão capaz, limpando Nova York praticamente sozinho (em uma divertida montagem que o mostra enfrentando o Escorpião (um bem-vindo retorno de Michael Mando, finalmente usando o traje verde com a cauda ciborgue), o Tarântula, o Bumerangue, o obscuro Ramrod (que eu nem sei se tem um nome em português...) e o Lápide em breves cenas gravadas em câmera ultra lenta com 420 frames por segundo homenageando capas clássicas de artistas como Steve Ditko, John Romita Sr., Sal Buscema, Eric Larsen e Alex Saviuk. O cabeça de teia foi capaz até mesmo de desmantelar a organização criminosa da família mafiosa Manfredi, do vilão Cabelo de Prata (que recentemente teve uma versão na série do Homem-Aranha Noir, com Nicolas Cage.), é uma boa relação com as forças da lei, incluindo bombeiros, para-médicos e policiais como a detetive DeWolff (Liza Colón-Zayas, de O Urso), demonstrando uma competência que lhe concedeu até mesmo a chave da cidade (não sabemos como foi a vida do Aranha enquanto o Rei do Crime era o prefeito...).
Mas, se o lado Homem-Aranha da equação está por cima da carne seca, a metade Peter Parker não está. Após o feitiço do Dr. Estranho fazer o mundo esquecer quem ele era, Peter jamais esteve mais sozinho e distante de todos aqueles a quem ele amava. E, quando a solidão e o isolamento começam a cobrar seu preço fisicamente, e causar alterações na fisiologia do herói ao mesmo tempo em que um misterioso telepata começa a atacar o Departamento de Controle de Danos aparentemente em busca de uma poderosa arma, o Homem-Aranha precisará usar toda a extensão de seus poderes para evitar que isso aconteça, em uma série de eventos que o fará cruzar o caminho dos seus amigos perdidos, da Viúva Negra, do Justiceiro e até mesmo do Incrível Hulk.
Homem-Aranha - Um Novo Dia é, disparado, o melhor filme do Homem-Aranha estrelado por Tom Holland, e o melhor momento do personagem sob a tutela compartilhada Sony/Marvel acima, até, das participações do personagem nos filmes d'Os Vingadores, onde ele sempre recebeu uma chance de fazer uma boa participação (dando a impressão de que Christopher Markus e Stephen McFeely entendiam melhor o personagem do que Daley e Goldstein e McKenna e Sommers, roteiristas da trilogia "Casa".). Esse Peter paga um alto preço pela responsabilidade que o seu poder trouxe consigo, ele tem dificuldade em equilibrar sua vida dupla, ele quer se reaproximar das pessoas que fizeram parte de sua vida, especialmente de MJ (Zendaya, talvez em sua melhor participação na série), mas teme o risco em que isso os colocará. O Homem-Aranha não é o super-herói mais popular do mundo (o Batman que me desculpe, mas não chega nem perto...) por conta de seus poderes ou do traje, mas porque ele é um personagem fácil de se relacionar, e, quanto mais ele sofre, melhor fica. Especialmente porque, ao contrário da Feiticeira Escarlate, do Justiceiro ou de Jessica Jones, Peter jamais fica amargurado pelas perdas que a vida lhe traz. Ele engole em seco, respira fundo, e segue fazendo o melhor que pode porque ele se recusa a ser uma vítima mesmo quando a desgraça o soterra.
Destin Daniel Cretton (de Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis e da excelente Magnum) parece entender isso, e, junto com Chris MacKenna e Eric Sommers (no que é, facilmente seu melhor script após dois roteiros apenas OK), faz desse filme quase um reboot leve da franquia que finalmente traz ao MCU o Homem-Aranha que eu conhecia nos quadrinhos. Um sujeito que segue se levantando não importa quantas vezes a vida tente derrubá-lo.
Se os roteiristas finalmente acertaram a mão, também é preciso parabenizar o diretor. Após o trabalho mediano de Jon Watts, que parecia meio pasteurizado e saído de uma linha de montagem, Destin Cretton traz de volta ao cinema um filme do Homem-Aranha com cara de filme. As cores, o enquadramento, os sets e as sequências de ação são excepcionais. O novo traje, em particular, virou meu xodó. O melhor uniforme que o Homem-Aranha já usou em live Action, superando até mesmo a fantasia usada por Garfield no segundo Espetacular Homem-Aranha. Quem também merece aplaudo é o elenco. Tom Holland saiu da lanterna no meu ranking de Homens-Aranha, deixando claro que, com o material certo, tira o papel de letra. Zendaya está bem, Jacob Batallon não é mais irritante, Sadie Sink está sensacional no papel de antagonista, Colón-Zayas é uma doçura como DeWolff, enquanto Mark Ruffalo é ótimo como sempre no papel de Banner e Marisa Tomei esbanja competência em breves aparições em flashback, mas, meu destaque não poderia ser outro que não Jon Bernthal.
Eu confesso que esperava que seu Justiceiro seria castrado para aparecer no filme censura livre do Homem-Aranha, especialmente após assistir Justiceiro: Uma Última Morte. Era difícil acreditar que, aquele personagem que surgiu na segunda temporada de Demolidor poderia dar as caras no colorido universo do personagem mais amado pelas crianças do mundo, mas, nas palavras de Trevor Slattery "puta merda, puta merda", não é que Bernthal não só consegue interpretar o mesmo personagem nesse filme, mas também ter um arco que torna o Justiceiro e o Homem-Aranha uma das melhores parcerias que eu já vi na telona? E isso vindo de alguém que, no geral, não morre de amores pelo Justiceiro.
Eu não sei o que o futuro guarda para o MCU. Os filmes pós Ultimato foram, no geral, bem mais ou menos ou bem bosta, e há alguns que eu sequer assisti (Thor 4, Pantera Negra 2, Quarteto... Não vi nenhum), e eu não sei como me sinto a respeito de Vingadores: Doutor Destino, mas, após Um Novo Dia, uma coisa é certa:
O Homem-Aranha ainda tem muita lenha pra queimar.
"-Então, você é Peter Parker, ou é o Homem-Aranha?
-Sou os dois."


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