Enquanto o amor da minha vida e eu não encontramos outra série de que ambos gostemos igualmente (aparentemente The Pitt é a única), vamos assistindo algumas de que um gosta muito e o outro suporta assistir Fallen Skies, The Bear... O Poder e a Lei, Um Cavaleiro dos Sete Reinos... E, quando estou sozinho em casa, assisto uma das que ela realmente não suporta, como, por exemplo, The Boys ou Geração V.
Embora eu tenha parado de fazer as resenhas do programa há algum tempo, assisti a todas as temporadas da adaptação da obra de Garth Ennis e Darick Robertson para o Prime Video, ainda que, à certa altura, eu tenha me dado conta de que estava acompanhando a série muito mais por hábito e teimosia do que por prazer.
A segunda temporada de The Boys já não havia sido tão boa quanto a primeira. Nem tudo o que funcionara naqueles primeiros episódios de estreia sobreviveu aos anos seguintes, e essa tendência só se acentuaria conforme a série caminhava para o desfecho.
O terceiro ano trouxe algumas boas ideias. A principal delas foi, sem dúvida, Soldier Boy, vivido por Jensen Ackles. Bastante diferente de sua contraparte dos quadrinhos, o personagem era apresentado como o "pai" do Capitão Pátria e, talvez, o único ser vivo capaz de derrotá-lo, embora nós saibamos que isso não aconteceu, mesmo com Maeve além de Hughie e Bruto turbinados por Composto V temporário para ajudar no quebra.
Com a saída de Maeve, a quarta temporada apresentou a Mana Sábia (Susan Heyward), super cujo poder é a inteligência extraordinária que passa a orientar os planos de um Capitão Pátria cada vez mais paranoico e decidido a levar seus delírios de grandeza até as últimas consequências. A temporada se encerrou com o assassinato Victoria Neuman dando fim a qualquer chance de aliança entre os Boys e quaisquer Supers já que Bruto parece acreditar que apenas o fim de todos os produtos da Vought pode dar fim à guerra.
Entre uma temporada e outra ainda tivemos Gen V, um spin-off que parecia prometer consequências importantes para a série principal, incluindo a Marie Moreau (a ótima e gatíssima Jaz Sinclair), apresentada como uma potencial adversária para o Capitão Pátria, um vírus capaz de matar Supers e uma trama envolvendo Victoria Neuman e Mana Sábia que acabaram abandonadas com o cancelamento da série.
Então, finalmente chegaram os episódios derradeiros de The Boys e, sem entrar em muitos detalhes, até porque não lembro de todos, basta dizer que o último ano manteve a trajetória descendente de qualidade que acompanhou The Boys desde sua segunda temporada. A trama tornou-se mais enrolada do que uma orgia de minhocas, enquanto o gore e o choque pelo choque passaram a substituir aquilo que antes era sustentado por bons personagens e uma narrativa sólida.
Mas esse não é o verdadeiro problema da série.
O problema é que The Boys encolheu.
O mundo que antes parecia existir para além de seus protagonistas foi desaparecendo aos poucos. A Vought deixou de agir como um conglomerado com interesses próprios. Stan Edgar tornou-se irrelevante. Os Sete deixaram de ter agendas individuais. Aos poucos, tudo passou a existir apenas em função do Capitão Pátria ou do Bruto.
Essa mudança fica particularmente evidente no próprio Capitão Pátria. Nas primeiras temporadas, a pergunta nunca foi se ele conseguiria vencer um confronto. Era óbvio que conseguiria. A tensão estava em descobrir o que ainda o impedia de agir livremente. Quando esses freios desapareceram, a série resolveu o problema diminuindo a competência do próprio personagem. Isso é evidenciado quando boa parte da quinta temporada revolve em torno da ideia de impedir que o vilão consiga o composto V original, ou então ele se tornará imortal e invencível. Ainda assim, quando ele obtém a fórmula (em uma patacoada que descaracteriza o Soldier Boy e depõe contra a alardeada super inteligência da Mana Sábia), o roteiro cria uma nova solução que jamais havia sido mencionada para o problema: Recriar em Kimiko a explosão removedora de V do Soldier Boy. Não é uma vitória conquistada pelos protagonistas, são os escritores mudando as regras do jogo nos acréscimos da partida.
À despeito de alguns bons momentos nos episódios finais, especialmente entre Bruto e Hughie, é difícil assistir à série sem perceber que, no começo, havia uma narrativa carregando uma mensagem. No final, havia uma mensagem sendo transmitida através de uma narrativa.
Pode parecer uma diferença pequena, mas não é. Quando a mensagem passa a ser o objetivo de uma história, a voz dos personagens começa a desaparecer. Hughie, Francês e Bruto percorrem essencialmente o mesmo arco dramático diversas vezes. Conflitos reaparecem sem evolução, enquanto a trama passa a priorizar a reafirmação de seus posicionamentos em detrimento do desenvolvimento dos personagens e da trama. À certa altura, um personagem aparece para dizer como é difícil concluir uma história com diversos protagonistas. Ao invés de consertar sua narrativa, The Boys prefere fazer uma piada com metalinguagem para reconhecer o defeito.
A série também passou a confiar menos na inteligência do espectador. Não por ter se tornado política, sempre foi, muitas obras, algumas das melhores o são, mas porque deixou de confiar na compreensão do espectador. Antes a série sugeria. Depois começou a sublinhar. Em seguida passou a repetir. E, por fim, martelar uma posição política que já estava perfeitamente clara desde o primeiro episódio.
E não me entenda mal: Pessoalmente eu concordo com boa parte das críticas políticas feitas por The Boys. O meu problema nunca foi a mensagem.
O problema é que personagens, causalidade e estrutura dramática foram sendo sacrificados para reforçar uma mensagem que já havia sido compreendida há muito tempo.
Ainda considero a primeira temporada de The Boys uma das melhores adaptações de quadrinhos já produzidas para a televisão. Justamente por isso é tão frustrante ver onde a série terminou, não porque suas ideias tenham mudado, elas sempre estiveram lá e sempre foram pertinentes, o problema foi outro:
Histórias não sobrevivem apenas por defender boas causas. Elas sobrevivem porque conseguem fazer com que essas causas pareçam inevitáveis dentro do mundo que constroem. No começo The Boys fez isso melhor do que qualquer outra série de super-heróis havia feito até então, mas infelizmente, em algum momento, começou a acreditar mais na força de sua mensagem do que na voz de seus personagens e justamente aí, The Boys deixou de ser uma grande história.
"Eu não te dei escolha... Eu não ia parar."
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