Faz algum tempo que eu não faço isso, então eu peço desculpas se estiver meio enferrujado, mas, vamos lá:
Após alguns anos entregue à uma gerência que parecia não saber ao certo o que fazer com seus personagens de quadrinhos, a Warner colecionou um tremendo festival de quase acertos e erros crassos que fazia lá muito sentido considerando o plantel de super-heróis que o estúdio tinha em seu catálogo... A empresa que podia fazer filmes com Superman, Batman e Mulher-Maravilha, três dos quatro personagens que eu colocaria em um Monte Rushmore conceitual de super-heróis, parecia não ter muita ideia do que fazer com esses personagens porque os colocava nas mãos de cineastas e roteiristas que não entendiam o que fazia esses personagens funcionarem em primeiro lugar.
Passamos anos vendo Zack Snyder ver o Superman como um deus desejando ser um homem e o Batman como um sociopata assassino (e meio burro, haja vista que exterminava capangas mas poupava o Coringa)... Durante o reinado de Snyder, tivemos alguns pontos brilhantes, como Mulher-Maravilha, que interpretou Diana como uma guerreira de imenso poder com uma alma gentil e algo ingênua (ao menos em seu primeiro filme solo), Aquaman, que usou de maneira bastante competente a versão do personagem interpretada por Jason Momoa e Shazam (eu realmente gostei daquele primeiro filme). Houve, também, algumas boas ideias que foram mal executadas (eu gosto de Flash. Achei que o filme tem um arco bastante definido para o personagem, boas sacadas de viagem no tempo e conversa com os demais filmes dos personagens da Liga da Justiça), alguns desastres tão completos que foram arquivadas sem jamais ver a luz do dia (Batgirl...), e Adão Negro, um filme tão bosta que foi uma bala de prata disparada direto no coração de um universo que claudicava sob a batuta de executivos de visão curta.
Mas eis que a Warner resolveu jogar o que ainda restava do Snyderverso pela janela e cooptar James Gunn, que fizera fama no cinema indie e ganhou os holofotes ao co-criar, a versão MCU dos Guardiões da Galáxia, um inesperado sucesso que se tornou a improvável segunda melhor trilogia da Marvel no cinema (Capitão América ainda é a melhor.).
Gunn assumiu o comando da DC no cinema após realizar os ótimos O Esquadrão Suicida e Pacificador para a Warner, mostrando que ele entendia tanto de personagens secundários de uma editora, quanto da outra, mas, a primeira iniciativa de Gunn nesse novo DCU, foi o pai de todos os super-heróis, Superman, que ganhou um filme que foi minhas sessões de cinema favoritas de 2025, e meu filme favorito do Superman em todos os tempos. Após o sucesso (moderado) do último filho de Krypton nas bilheterias ficou a pergunta:
Qual o próximo personagem da DC a ganhar sua versão no cinema?
A resposta pegou a maioria dos fãs de surpresa. Enquanto a maioria de nós imaginava que o Batman ou a Mulher-Maravilha, os outros pilares da Trindade sagrada da DC se uniria ao Superman sob o sol amarelo desse novo universo, na verdade quem apareceu foi alguém que nós havíamos visto brevemente ao final de Superman: Supergirl.
A escolha, estranha para a maioria, foi justificada por Gunn que disse que, nessa nova fase da DC no cinema, os filmes recebem luz verde conforme a qualidade dos roteiros propostos ao estúdio. Então, se um grande roteiro da Supergirl ou, pasmem, do inimigo do Batman, Cara de Barro surge na mesa de Gunn, esse filme recebe prioridade sobre outras (e mais óbvias) escolhas. E, segundo Gunn, o roteiro de Supergirl apresentado por Ana Nogueira (que adapta a ótima série Supergirl: Mulher do Amanhã) era bom demais pra passar, sem contar que a personagem central dera as caras ao final de Superman, o que já a colocava um passo à frente de eventuais caras novas, então, voilá:
Supergirl, 2026, que eu assisti na semana passada, mas sobre o qual resolvi falar só agora.
Supergirl nos mostra Kara Zor-El (a engraçadinha Milly Alcock, a versão mais jovem de Rhaenyra Targaryen em A Casa do Dragão), que, conforme ficamos sabendo em Superman, viaja pelo espaço procurando bares em planetas orbitando sóis vermelhos para, com seus poderes enfraquecidos, poder se embebedar. Conforme seu 23° aniversário se aproxima, Kara e Krypton seguem viagem juntos, enquanto ela ignora as ligações de Clark (David Corenswet), que deseja ardentemente que ela volte para a Terra e dê uma chance para que o planeta se torne um lar para ela, tanto quanto é, para ele.
Ao mesmo tempo, um grupo de piratas espaciais liderado por Krem dos Morros Amarelos (Matthias Schoenaerts) chega ao planeta da jovem Ruthye (Eve Ridley), e, após matar sua família para roubar as armas criadas por seu pai, um talentoso ferreiro, a deixa para trás para remoer sua perda.
Eventualmente os caminhos de Ruthye e Kara se cruzam, e a jovem pede que a kryptoniana a ajude a obter sua vingança. Se inicialmente a Supergirl não está interessada em se juntar à cruzada da jovem, as coisas mudam quando Krem rouba a nave de Kara e acerta Krypto com um dardo envenenado que os piratas usam para tortura, e que matará o super cão em três dias, a menos que ela seja capaz de rastrear o vilão e tomar o antídoto que ele carrega consigo.
Essa jornada coloca Kara e Ruthye em uma jornada que as fará encarar perigos, encontrar aliados inesperados, e fazer com que as duas sejam forçadas a repensar sua forma de ver a vida após a tragédia.
Supergirl não é tão bom quanto Superman. Nem de longe. Também não é tão bom quanto O Esquadrão Suicida ou Pacificador, mas não é um filme tão ruim quanto o fracasso de bilheteria daria a entender.
O longa acerta em centrar a atenção em Kara. Milly Alcock manda muito bem como a jovem amortecida por uma vida de tragédia que não consegue encontrar seu lugar após ver seu lar e sua família serem vagarosamente destruídos. É fácil entender porque ela não é uma pessoa completa e otimista como seu primo, especialmente quando vemos, em flashbacks, como ela foi forçada a dar adeus a todas as coisas que amava antes de ser desovada na Terra.
O restante do elenco é bom. Eve Ridley é ótima no papel da vingativa Ruthye, David Krumholtz faz um ótimo trabalho com uma pequena participação como Zor-El, e Jason Momoa interpreta Jason Momoa interpretando Lobo, que meio que está lá e é exatamente o que se esperaria dessa versão do personagem. Quem deu azar foi Schoenaerts, que ficou com o palito mais curto e ganhou um papel genérico de vilão psicopata, que, vá lá, cumpre a proposta.
A direção de Craig Gillespie é segura, as cenas de ação são boas o suficiente, e se os efeitos visuais não são particularmente assombrosos, estão em par com o que o gênero tem proporcionado nos últimos anos. A trilha sonora é razoável, com direito a algumas canções engraçadinhas surgindo em momentos específicos e o design de produção, apesar do esmero, deixa o espaço sideral do DCU praticamente igual ao da Marvel e o de Star Wars...
No geral, Supergirl é um filme que, longe de ser perfeito, faz sua parte para esticar as fronteiras desse DCU com uma história que, a despeito de suas falhas, tem coração e personalidade. De minha parte, vale a ida ao cinema.
"-Eu me preocupo que você não encontre sua gente.
-Esse é o problema, Clark... Eu não tenho gente."

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