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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Top-10 Cinema 2020

 Nem preciso dizer que esse foi o ano da minha vida adulta em que eu menos fui ao cinema desde sempre. Com as salas de exibição fechadas desde meados de março e mais ou menos reabertas brevemente em outubro apenas para fechar de novo quando o pessoal achou que a pandemia era coisa do passado e o sistema hospitalar começou a vergar sob o peso da demanda, os estúdios resolveram adiar a imensa maioria de suas grandes produções, ou tentar estratégias alternativas de lançamento que desagradaram um bocado de diretores e fizeram com que nem todos os filmes pudessem ser vistos por toda a audiência ao mesmo tempo.
Não foi nada fácil chegar à lista de preferidos desse ano miserável, mas ei, com um pouco de esforço, serviços de streaming e um VPN razoável, o capita encontrou dez filmes favoritos em 2020.
À lista:

10 - Resgate


Além de ter criado a franquia John Wick, Chad Stahelski tem outro grande mérito: Criar um ambiente propício para coordenadores de dublês assumirem o comando de longas-metragens em Hollywood.
Sam Hargave seguiu os passos de Stahelski e, em parceria com os irmãos Russo e a Netflix lançou em abril desse ano o ótimo Resgate, onde Chris Hemsworth vive o mercenário Tyler Rake tendo que encarar a operação de extração mais violenta de sua vida ao tentar resgatar o filho de um chefão do tráfico de drogas em Bangladesh.
Não se deixe enganar pela trama básica, Resgate é um longa agressivo e direto a respeito das consequências da violência que eleva seu jogo com coreografias de luta espertíssimas, sequências de ação espetaculares e atuações honestas dos protagonistas criando duas das horas mais divertidas que eu passei esse ano.

9 - Problemas Monstruosos


Pra ser cem por cento honesto, eu ainda me flagro surpreso com o quanto Problemas Monstruosos é bom, ou até em dúvida se o filme é realmente tão bom assim, ou se ele é apenas menos ruim do que a premissa sugeria. Mas eu não preciso ir muito além de um breve exame no longa para chegar à conclusão de que ele é bom sim!
A fita sobre um meteoro e resíduos nucleares causando mutações nas formas de vida invertebradas da Terra que foi lançada direto em VoD pela Paramount tem personagens complexos com motivações bem definidas (até o cachorro do filme entra nessa!!!), sequências de ação plenamente justificadas pelo roteiro e laços emocionais se formando entre os personagens diante dos olhos da audiência em uma aula de como é que se narra uma história através de empatia.
O longa de Michael Matthews é terno, divertido, emocionante, e ainda tem Jessica Henwick em cena.
Sério, esse filme não tinha o direito de ser tão bom...

8 - Parasita


Eu assisti Parasita no início do ano, e novamente há algumas semanas, na TV. Minha impressão inicial a respeito do filme não mudou, porém. Eu continuo não achando Parasita essa maravilha toda que falam, e é possível que em um ano mais recheado de grandes lançamentos, ele não tivesse entrado na minha lista de melhores.
Ainda assim, o longa de Bong Joon Ho a respeito da paupérrima família Kim tentando tirar uma casquinha da fortuna dos Park tem suas qualidades (talvez a principal tenha sido fazer Hollywood olhar para o cinema asiático além do dinheiro da China). Há boas ideias no roteiro, uma edição caprichada e um final bastante pujante, e ainda que eu ache que tudo isso só é muito impactante para pessoas que não sabiam da existência de pobreza no mundo, Parasita fez por merecer seu lugar ao sol.

7 - Joias Brutas


O conto moral destruidor de nervos dos irmãos Safdie pode não ser a grande atuação da carreira de Adam Sandler (pra mim segue sendo Embriagado de Amor), mas é uma das mais tensas e competentes sessões de cinema de 2020.
Desde o início do longa, quando conhecemos o negociador de pedras preciosas viciado em apostas Howard Ratner é impossível não ficar na ponta da cadeira roendo as unhas pelos próximos cento e sessenta e tantos minutos.
Toda a atmosfera do filme é opressiva, o perigo das más decisões tomadas pelo protagonista está presente em cada frame, não há um segundo de paz para a audiência porque Ratner não para de fazer merda, e nós somos mesmerizados pela forma natural com a qual esse sujeito destrói cada recôndito de sua própria vida de uma maneira tão completa que mesmo os momentos de catarse não duram mais do que uma fração de segundo.

6 - Adoráveis Mulheres


Muita gente deve ter se perguntado por que Greta Gerwig resolveu fazer a enésima adaptação do livro de Louisa May Alcott sobre a vida e os sonhos das irmãs March ao invés de qualquer outra coisa... Bem, basta assistir ao delicado drama de época da diretora para entender porque.
Nas mãos de Gerwig o filme se torna menos um drama romântico sobre a rivalidade entre irmãs que se amam mas competem entre si para se tornar um conto a respeito do que felicidade significa para cada pessoa, e de como devemos ser capazes de entender o que a busca por essa felicidade significa para aqueles que amamos.
Sem jamais colocar a sua mensagem na frente da história que narra e contando com o trabalho de primeira de um elencaço na ponta dos cascos, Greta Gerwig entregou uma das mais delicadas e aprazíveis sessões de cinema de 2020, e deixou tremendamente claro que o sucesso de Lady Bird não foi acidental.

5 - Soul


Após passar algum tempo fazendo sequências de seus longas mais bem-sucedidos, a Pixar voltou aos originais em 2020, primeiro com o bom Dois Irmãos: Uma Aventura Fantástica e depois com esse excepcional Soul, a animação que ousa embrulhar perguntas profundas como qual é o sentido da vida e como alimentamos nossa alma em uma aventura divertida para toda a família que, bem à moda da Pixar, contrabandeia lágrimas e questionamentos profundos como o fato de que mesmo a falta de objetividade da existência pode abarcar felicidade, e que a vida, por mais caótica e dolorosa que possa ser ás vezes, é, assim como a morte, uma parte da jornada pela qual todos nós devemos passar...
Trabalho de gênio do co-diretor Pete Docter que vai se juntar aos clássicos fundamentais do estúdio de animação.

4 - Mank


A obra prima em perolado preto e branco engendrada por David Fincher a partir de um roteiro escrito por seu falecido pai é um conto a respeito do preço da criatividade em Hollywood e de como um estranho no ninho precisa lutar para encontrar seu espaço entre pessoas que não o consideram um par que é cozido em fogo baixo sem jamais se apressar ou se desculpar por suas posições.
Ancorado no talento de um esculhambado Gary Oldman, Mank usa o período em que Herman Mankiewicz ficou confinado em um rancho escrevendo o roteiro de Cidadão Kane e pensando nas decisões que o levaram até ali para lançar uma luz, ainda que parcialmente ficcional, sobre os bastidores do poder político e financeiro na Hollywood da era de ouro e a confecção de um dos maiores clássicos do cinema em todos os tempos.

3 - O Som do Silêncio


O longa a respeito de um baterista de punk metal que perde a audição do dia para a noite, nas mãos erradas, ou com um elenco menos competente, poderia ser um dramalhão difícil de assistir.
Sob a batuta de Darius Marder e estrelado por um Riz Ahmed no auge da forma, porém, o longa se torna uma história tão elegante quanto emocionante a respeito de deficiência, vícios e sobrevivência. Um longa simultaneamente agressivo e contido sobre encontrar o seu lugar no mundo após perder algo que amava, que coloca a audiência nos sapatos do protagonista através do uso soberbo do design de som, e mostra a todo mundo que ator Riz Ahmed é capaz de ser.
Uma pérola tardia no catálogo de dezembro da Amazon Prime.

2 - Jojo Rabbit


É provável que nenhum outro diretor além de Taika Waititi fosse capaz de imaginar uma comédia dramática sobre amadurecimento estrelada por uma criança que tem Adolf Hitler como amigo imaginário, mas que bom que ele o fez.
Desde os créditos de abertura Waititi deixa claro que Jojo Rabbit é um filme estranho, mas durante sua metragem de pouco menos de duas horas ele toca a audiência das maneiras mais belas ao narrar uma história sobre como a empatia é o estado natural das pessoas, e sobre como a bondade e o amor ao próximo podem perseverar mesmo em meio aos momentos mais sombrios da humanidade.
Sendo capaz de arrancar gargalhadas e lágrimas da audiência em igual medida, Jojo Rabitt é o filme perfeito para se assistir nos estertores de um ano infernal como 2020.

1 - 1917


Sam Mendes fica com o primeiro lugar da lista em 2020 graças a 1917. O longa que o diretor concebeu como forma de homenagear os feitos do avô, veterano da "guerra para acabar com todas as guerras" é a proverbial obra prima da carreira de um diretor repleto de realizações sensacionais no currículo.
Mostrando a corrida desesperada dos soldados Schofield (George McKay) e Blake (Dean Charles Chapman) para impedir que um batalhão caia em uma armadilha dezessete quilômetros nas entranhas do território ocupado pelo exército alemão, 1917 mostra a guerra como o verdadeiro vilão do filme sem jamais desviar os olhos da bondade que se nega a ser varrida pela brutalidade do conflito.
Tecnicamente soberbo, com atuações excepcionais e uma direção de mestre de Mendes, 1917 foi a mais sensacional sessão de cinema da qual eu desfrutei esse ano, e fica com a medalha de ouro. 

Top-10 Negativo Cinema 2020

 Hoje o ano de 2020 vai nos deixar, e, se alguém quiser saber, já vai tarde. Com as centenas de milhares de mortos, o colapso do sistema capitalista, e o holofote jogado sobre a falta de preparo dos governantes e a ignorância completa do povo parece leviandade reclamar dos cinemas fechados e dos lançamentos adiados, então eu não farei isso.
Apenas irei dizer que 2020 foi um ano atípico também nos cinemas, e que eu nem sempre encontrei ânimo para assistir filmes horrorosos apenas para poder rir deles na hora de escrever essa lista. Com a quantidade limitada de longas sendo lançados esse ano, fosse em salas de exibição, streaming ou aluguel digital, para chegar aos dez da lista de piores, tive que usar critérios diferentes do habitual que colocaram aqui filmes que, em um ano normal, provavelmente teriam escapado, mas essa é minha lista, e eu assino embaixo.
À ela:

10 - Tenet


Até mesmo os melhores diretores de cinema erram a mão quando o conceito se sobrepõe à história. Isso fica dolorosamente claro em Tenet, longa metragem de mais de duzentos milhões de dólares que naufragou nas bilheterias mesmo com a assinatura do deus dos nerds Christopher Nolan, que se apaixonou pela ideia do fluxo invertido do tempo e fez dela a protagonista de um filme que é tão tecnicamente brilhante quanto emocionalmente vazio.
Se não há nada na tela com que a audiência possa estabelecer algum tipo de conexão, nem todas as sequências de ação visualmente geniais do mundo fazem com que o filme funcione. Sem a presença de um Robert Angier, um Bruce Wayne ou um Dom Cobb, Tenet é apenas uma sucessão de diálogos expositivos seguidos de grandes cenas de ação que é tão bonito de olhar quanto estéril.

9 - O Homem Invisível


Enquanto os grandes estúdios de Hollywood se acotovelam pela chance de conseguir sua própria franquia multibilionária de super-heróis, a Blumhouse mostra que se pode fazer muito dinheiro investindo muito pouco (ao menos para os padrões de Hollywood).
Foi esse cartão de visitas que fez a Universal ceder uma de suas propriedades intelectuais mais longevas, para que Jason Blum o tornasse uma dessas máquinas de fazer muito com pouco, e o resultado foi esse O Homem Invisível de Leigh Whannell que transformou o cientista louco no marido abusivo de Cecilia Kass.
Se há alguma decisão correta em O Homem Invisível, é ancorar o filme nas costas de Elisabeth Moss, que tem talento se sobra para vender a imagem de mulher assombrada pelo abuso, infelizmente essa é provavelmente a única boa decisão do longa que é corrido, previsível, inconsistente e descartável...

8 - Era Uma Vez um Sonho


Ron Howard é um cineasta que já deixou sua marca em Hollywood. O homem fez filmes como Apollo XIII, Uma Mente Brilhante, Rush, Frost/Nixon... Ninguém coloca em dúvida a extensão de seu talento como diretor. O que também não deve ser posto em dúvida é que volta e meia ele entra numas e faz uns dramalhões com descarada tendência papa-prêmios que geralmente saem pela culatra.
É o caso desse Era Uma Vez um Sonho, onde nem o trabalho de duas atrizes de grosso calibre é o suficiente para salvar o longa de soar pretensioso e moralista com sua história a respeito de um jovem tentando fugir da areia movediça que é a pobreza do lado mais caipira e branco dos Estados Unidos. Apesar de boas atuações e algumas boas ideias, o longa não consegue evitar de se tornar um novelão de duas horas...

7 - Convenção das Bruxas


Robert Zemeckis já foi uma das grandes promessas do cinemão norte-americano quando surgiu para o grande público com De Volta para o Futuro. Ele alcançaria altíssimos níveis de prestígio com longas como Contato, Náufrago e Forrest Gump e depois se apaixonaria pela ideia de fazer filmes com captura de performance e entraria em um tipo de purgatório criativo de onde tira a cabeça vez por outra.
O desnecessário remake de Convenção das Bruxas não é uma dessas saídas de Zemeckis do purgatório. O longa é infantil demais, alcança seu ápice no começo do segundo ato e se torna tão tedioso e excessivo daí em diante que parece que o diretor estava interessado demais em garantir a qualidade técnica do longa para se preocupar com roteiro ou direção do elenco.

6 - Mulan


A versão em live action de Mulan é mais um exemplo da dificuldade que alguns estúdios têm de entender que força e infalibilidade não são a mesma coisa.
Na tentativa de criar uma "personagem feminina forte" como protagonista, o longa dirigido por Niki Caro rouba de Mulan a tenacidade, engenhosidade e até o livre-arbítrio que a versão animada transbordava. Aqui, Mulan deixa de ser uma jovem que se recusa a ser derrubada e que procura formas de contornar suas óbvias desvantagens físicas para se encaixar no exército imperial chinês para se tornar uma lutadora de kung-fu mágica que chuta lanças e é mais forte e hábil que todo mundo porque nasceu com um chi maior que o dos outros.
O resultado é uma Mary Sue das mais murrinhas em um filme que é tão visualmente belo quanto pobre em sua mensagem de que, pra vencer em qualquer campo, basta nascer especial.

5 - Bad Boys Para Sempre


Olha as caras de Marcus e Mike nessa foto. É mais ou menos a mesma expressão que eu tinha no rosto quando Bad Boys Para Sempre acabou.
O mais novo filme da franquia Bad Boys iniciada no distante ano de 1995 envelheceu como Martin Lawrence, e está tão inchada e sem graça quanto. O longa, apenas produzido por Michael Bay, que deixou a cadeira de diretor para Adil El Arbi e Bilall Fallah, é um amontoado de clichês de gênero temperado com um drama que não se sustenta e uma temática de confronto de gerações que causa bocejos resultando num produto tão barulhento quanto descartável e a recorrente promessa de "uma última vez" que é desmentida ainda no meio dos créditos quando o longa acena com a possibilidade de mais uma sequência se ainda houver alguém disposto a pagar pra assistir a porcaria...

4 - Bloodshot


Eu não faço ideia de como seja Bloodshot enquanto quadrinho. O longa metragem é baseado numa série de gibis publicada nos EUA pela Valiant Comics e seria a pedra fundamental de um Universo Cinemático Valiant, a ser realizado e conduzido pela Sony na esteira do sucesso do longa. 
Mas Bloodshot não fez sucesso. Difícil dizer se pela chegada da pandemia do Covid-19 ou se porque o filme é horroroso. Na trama, um soldado fodão vivido por Diesel é morto por um terrorista junto com sua esposa, e então trazido de volta à vida por um cientista que passa a usá-lo como uma arma após injetar nano-robôs em seu sangue e torná-lo super-humano.
O filme flutua entre fita de ação e de ficção científica sem convencer em nenhum dos frontes, tem atuações canhestras, efeitos visuais meia-boca e um roteiro que mira RoboCop mas acerta no RoboCop de 2014 provavelmente sepultando a franquia sonhada pela Sony.

3 - The Tax Collector


David Ayer só sabe fazer um filme.
Ei, se o cara pode fazer sempre a mesma coisa quando dirige um longa de milhões de dólares eu posso dizer sempre a mesma coisa quando avalio o trabalho dele.
Em Tax Collector o cineasta alcança um novo ponto baixo em sua relativamente bem-sucedida carreira ao não conseguir entregar nem mesmo as coisas que costumavam funcionar em seus outros filmes, como boas sequências de ação e de tensão. 
Mal ajambrado, pobremente escrito e com uma estrutura modorrenta, The Tax Collector é um filme óbvio erigido sobre estereótipos e violência sem substância que provavelmente tem como única qualidade ser relativamente curto.

2 - Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa


Aves de Rapina era uma das galinhas dos ovos de ouro da Warner após o sucesso de bilheteria de Esquadrão Suicida e de Margot Robbie ter se tornado a queridinha de Hollywood por sua acertada atuação como a sidekick do Coringa no longa de 2016. Infelizmente, entre idas e vindas do projeto que foi de um longa estilo Bonnie & Clyde com o casal de palhaços a um longa sobre um grupo de mulheres enfrentando o vilão Máscara Negra na Gotham City mais misógina já imaginada por alguém, o filme se perdeu.
Desejando ardentemente ser o Deadpool da DC, Aves de Rapina entrega um filme que não tem grandes cenas de ação, não é engraçado, e nem fiel aos quadrinhos, morno e aborrecido, o longa de Cathy Yan consegue a proeza de ser pior que o Esquadrão Suicida de David Ayer, e isso, meus amigos, é proeza pra ninguém botar defeito.

1 - Artemis Fowl


Eu confesso que, quando Artemis Fowl foi lançado, eu fiquei me perguntando porque a base de fãs da série literária havia ficado tão ofendida com o filme dirigido por Kenneth Branagh. Mas isso foi apenas até ver o filme e ficar ofendido não apenas como amante de cinema, mas também como ser humano com um cérebro funcional.
A tentativa da Disney de ter seu próprio Harry Potter, uma franquia baseada em livro infanto-juvenis com a qual uma base inteira de fãs pudesse crescer e amadurecer enchendo os cofres do Mickey de bilhões é tão malograda que é difícil saber quais defeitos apontar primeiro.
Com um protagonista desprovido de qualquer carisma, uma mitologia sem sentido e bagunçada e uma trama incoerente e vazia, Artemis Fowl foi a sessão de cinema (em casa) mais excruciante de 2020, e ganha o topo do pódio e o título de pior dos piores.










 







sexta-feira, 12 de junho de 2020

Top 10 Casa do Capita: As Melhores Comédias Românticas do Cinema

E, novamente chegamos ao dia dos namorados. É hora de sentar no sofá, no escuro, segurar o rosto entre as mãos e passar a noite se lamuriando por não ter ninguém ao seu lado, ou furar a quarentena, ir jantar fora com a pessoa amada e vocês dois pegarem Covid-19 e morrerem, ou, quem sabe, ficar em casa, pedir pizza e trocar presentes comprados pela internet enquanto assistem a um filminho romântico...
Para auxiliar os optantes por essa última alternativa, nesse ano, vamos elencar dez dos melhores representantes do sub-gênero mais popular dos filmes de amor: As comédias românticas, em mais um infame top-10 Casa do Capita.
À lista:

10 - Ressaca de Amor (Nicholas Stoller, 2008)


O longa mais recente da minha lista é mais velho que a minha sobrinha, o que faz com que eu me sinta irremediavelmente um ancião. De toda a sorte, ainda que Ressaca de Amor (tenebrosa tradução do título original, Esquecendo Sarah Marshall) seja provavelmente o filme mais engraçado da lista, não é difícil imaginar pessoas torcendo o nariz para sua presença aqui.
Ainda assim, o longa de Nicholas Stroller, co-roteirizado pelo protagonista Jason Segel, é um dos mais honestos retratos de como uma situação ruim, mas familiar, pode impedir uma pessoa de tentar encontrar felicidade verdadeira.
Na trama, Peter Bretter (Segel) é dispensado pela namorada, a estrela de TV Sarah Marshall (Kristen Bell). Na tentativa de esquecer o pé na bunda, Peter resolve passar férias no Havaí apenas para descobrir que Sarah e seu novo namorado, o roqueiro inglês Aldous Snow (Russel Brand, praticamente interpretando a si próprio, e ótimo no papel), estão hospedados no mesmo resort que ele.
Se inicialmente a situação parece um pesadelo de proporções bíblicas, logo Peter se vê partindo pra outra e flertando com a adorável recepcionista do hotel (uma Mila Kunis transbordando doçura e beleza).
À primeira vista parece bastante convencional, mas além de ser uma comédia romântica para um determinado estado de espírito, Ressaca de Amor ainda tem um inspirado elenco de apoio que conta com Jonah Hill, Paul Rudd e Bill Hader, cada fala do filme é repleta de propósito cômico, e o jantar no terceiro ato do filme é um daqueles festivais de desconforto alheio dos quais a gente ri, nem que seja de nervoso. Adicione-se a isso a trágica balada a respeito do coração partido do Conde Drácula, e eu tenho certeza de que a presença de Ressaca de Amor nesse top-10 se torna mais do que merecida.

9 - Procura-se Amy (Kevin Smith, 1997)


Existia uma sensibilidade nos trabalhos iniciais de Kevin Smith que, certa vez, fez a revista Set considerá-lo um dos jovens diretores de cinema mais promissores em atividade, e chegar a citá-lo como o sujeito que melhor falava de relacionamentos desde Woody Allen.
Claro, todos nós sabemos que, eventualmente, Smith resolveu que queria ganhar a vida como nerd profissional ao invés de cineasta, e, que bom pra ele. O nativo de Nova Jersey continua fazendo filmes aqui e ali, ele recentemente lançou um Jay & Silent Bob Reboot, mais uma visita ao mundo de suas comédias mais rasgadas, e flertou com estilos variados, fazendo filmes de terror e suspense, como Red State e The Walrus, mas provavelmente o ponto mais alto de carreira de Smith, junto com Barrados no Shopping, seja Procura-se Amy, onde o autor de quadrinhos underground Holden (Ben Affleck) se apaixona pela colega Alyssa (Joey Lauren Adams), apenas para ficar arrasado ao descobrir que ela é lésbica.
Isso, no entanto, não o impede de começar uma amizade com ela, e, à revelia das advertências de seu amigo Banky (Jason Lee) eventualmente, um relacionamento romântico que parece fadado à tragédia.
Rodado a toque de caixa por Smith com seus amigos e namorada nos papéis principais, Procura-se Amy é um longa verborrágico, todo galgado nos diálogos de seus personagens que gentilmente revela a hipocrisia que cerca relações amorosas, ultrapassando os clichês tradicionais do gênero e se concentrando nas inseguranças que todos os seres humanos, sejam gay ou hétero, inevitavelmente compartilham.

8 - Um Lugar Chamado Notting Hill (Roger Michell, 1999)


Um Lugar Chamado Notting Hill provavelmente nem é a minha comédia romântica favorita com Hugh Grant, meio que o garoto-propaganda do gênero (Eu, francamente, prefiro Um Grande Garoto...). Ainda assim, a simplicidade da trama do longa escrito por Richard Curtis, que faz com que Anna Scott (Julia Roberts) a estrela de cinema mais famosa do mundo, se apaixone pelo sujeito comum que tem uma loja de livros de viagem no bairro de Notting Hill, em Londres e, mais do que isso, o faça sendo apenas uma garota, em frente a um garoto, pedindo que ele a ame, elevam o filme muito além do básico.
A auto-piedade quase patológica de Grant e a estridência por vezes excessiva de Roberts os tornam opostos que a audiência acredita que possam se atrair graças ao trabalho do diretor Roger Michell e de Curtis, que calibram a história de Anna e Will de maneira quase imaculada, fazendo com que o longa seja um campeão de reprises na TV a cabo que eu quase sempre acabo revendo, seja pelo exercício de nonsense da sequência com as entrevistas para a revista Cavalos & Cães de Caça, seja pela maneira como Rhys Ifans eleva a tendência do "amigo excêntrico" a níveis estratosféricos ou pelo restante do encantador elenco de apoio que ajudam a carregar o longa até a obrigatória corrida no clímax que se tornou uma das epítomes do gênero.

7 - Uma Linda Mulher (Gary Marshall, 1990)


Olha a Julia Roberts aí, de novo... E no filme que colocou a ruiva e seu enorme sorriso, no mapa das estrelas Hollywoodianas com o tipo da história a respeito de uma puta com coração de ouro que só a Disney poderia financiar.
A variação de Minha Bela Dama que troca a florista de Londres por uma prostituta de Los Angeles é turbinada, em grande parte, pela presença de Roberts, então uma novata metendo o pé na porta de Hollywood, e de Richard Gere, então um dos galãs fundamentais do cinemão norte-americano contando a história da prostituta Vivian, que aceita três mil dólares para ser a acompanhante do homem de negócios milionário Edward durante uma semana.
A despeito de sua história mais do que previsível, o diretor Gary Marshall conseguiu tirar uns coelhos da cartola para turbinar o charme do filme, a começar pela inegável química do casal protagonista, uma série de atores competentes interpretando coadjuvantes gostáveis (como Laura San Giácomo e Hector Elizondo) ou detestáveis (o George Costanza Jason Alexander dando aula de como ser asqueroso), tudo embrulhado em romance com R maiúsculo pra nenhuma tia velha botar defeito, em um dos longas que ajudou a consolidar a fórmula das comédias românticas dos anos 90, que se tornaria a regra a partir de então.

6 - O Diário de Bridget Jones (Sharon Maguire, 2001)


Eu já devo ter dito antes, aqui mesmo nesse espaço, que Bridget Jones é uma das personagens femininas fundamentais da sétima arte. A personagem que é apresentada à audiência de pijama, comendo bolo e tomando vinho ao som de "All by Myself" é uma hipérbole com a qual quase todas as mulheres parecem ser capazes de se relacionar em algum nível.
Por isso, apenas, o primeiro dos três filmes estrelados pela loira já mereceria uma menção honrosa em qualquer lista de comédias românticas, mas há mais do que a heroína vivida por Renée Zellweger e sua busca por melhorar como pessoa e encontrar o amor antes dos quarenta nesses filmes.
Apesar de muita gente detonar as sequências, eu, pessoalmente, gosto igualmente de todas as partes da trilogia Jones, ainda que seja inegável que o longa inaugural é a grande primeira impressão da série, com o estabelecimento do divertido triângulo amoroso de Bridget, Daniel Cleaver (Hugh Grant, de novo...) e Mark Darcy (Colin Firth), e repleto de momentos memoráveis como a sopa azul, blusões de natal feios, uma das melhores cenas de luta mal coreografadas da história do cinema, além de um clímax de comédia romântica tão satisfatório quanto absurdo, com a rechonchudinha Bridget perseguindo o amado pelas ruas nevadas de Londres usando apenas uma jaqueta, tênis e calcinhas de zebra.

5 - Simplesmente Amor (Richard Curtis, 2003)


É bem provável que "a comédia romântica definitiva" esteja em um posto mais alto da lista de muitos leitores. Eu mesmo adoro Simplesmente Amor, tenho o filme na estante e sempre que ele está passando na TV, eu acabo vendo ao menos por algum tempo.
A grande força do longa do papa do gênero Richard Curtis, sua enorme quantidade de personagens (praticamente todos os atores britânicos vagamente relevantes aparecem no filme, geralmente usando um grande blusão de gola rolê) e linhas narrativas paralelas que confluem para a apoteótica véspera de natal, também é, em parte, sua fraqueza.
Por vezes parece que nós não estamos vendo um filme, mas uma coleção de trechos de filmes. Há um claro desequilíbrio entre essas pequenas histórias, com algumas excelentes, como a do roqueiro decadente Billy Mac, de Bill Nighy, ou o terno romance ininteligível de Colin Firth e Lúcia Moniz, e outras, como a do jovem garçom Colin viajando para os EUA para comer americanas encantadas com seu sotaque, nem tanto... Ainda assim, é bem provável que apenas os muito azedos se incomodem com isso o suficiente para deixar o longa de 2003 de fora de uma lista desse tipo.


4 - Jerry Maguire: A Grande Virada (Cameron Crowe, 1996)


Jerry Maguire, talvez não se encaixe, propriamente, nos parâmetros mais restritivos de uma comédia romântica prototípica porque há muita coisa acontecendo no longa de Cameron Crowe o tempo todo, de modo que o romance, por vezes, fica relegado ao segundo ou terceiro plano.
Essa impressão, porém, só dura até o momento em que o roteiro reconduz os personagens e a audiência de volta até a preocupação com o papel que nós permitimos que o amor desempenhe em nossas vidas, por mais competitiva, cínica, egoísta e incompleta que essa vida possa ser.
Interpretado com um desespero implosivo por um Tom Cruise em um dos melhores momentos de sua carreira, Jerry Maguire é um agente esportivo que se descobre tendo uma crise de consciência com a falta de coração de sua profissão que lhe custa o emprego. A única pessoa que o segue é a secretária Dorothy Boyd (Renée Zellweger exibindo uma apaixonante mistura de fragilidade e pés cravados no chão). As histórias dos dois se entrelaçam e, se separam e se atam novamente enquanto os dois são puxados pra longe um do outro seja pelas circunstâncias profissionais, seja pelas inseguranças de um ou do outro, até o desfecho que poucas comédias românticas convencionais teriam colhão pra entregar, com o glorioso momento de auto-afirmação definitivo em que Jerry percebe que a única coisa que faz essa vida de merda valer a pena é o amor. "Eu estou procurando a minha esposa.", e, claro, o clássico "você me ganhou no olá".


3 - Embriagado de Amor (Paul Thomas Anderson, 2002)


O frenético quase musical a respeito de pessoas violentas e isoladas que descobrem que não precisam se condenar à própria tristeza e solidão é Paul Thomas Anderson destilando emoção em quantidades industriais e engarrafando em um terno azul.
Barry Egan é uma genial criação de Adam Sandler, que pega seus tradicionais acessos de fúria e lhes dá uma função justamente ao não permitir que eles tenham pra onde explodir.
Nada de ganhar torneios de golfe, nada de lutar com tenores ou de perseguir valentões irlandeses. Ele precisa conduzir uma pequena empresa, lidar com trocentas irmãs e com um buraco do tamanho do Havaí em seu coração.
E então surge Lena Leonard (Emily Watson), que olha para Barry e ao invés de ver um desajustado qualquer, vê harmonia. O desejo dela dá início a uma história de amor que nubla os sentidos dando ao filme uma cara de sonho que jamais se desfaz, tornando totalmente aceitável que os personagens ajam da maneira que agem. As oportunidades abundam como milhas aéreas oferecidas com pudim no mercado, e todos têm o poder de entrar em um avião e perseguir seu amor antes que ele se vá, e tornar-se mais forte do que qualquer operador de tele sexo possa imaginar.

2 - Feitiço do Tempo (Harold Ramis, 1993)


Frequentemente imitado ou referenciado o clássico dirigido por Harold Ramis é, sem sombra de dúvida, um dos filmes mais reassistíveis dessa lista.
E, se o espectador assistir esse longa vezes o suficiente, ele inevitavelmente irá descobrir, ao menos, três coisas: Que Bill Murray é um dos maiores protagonistas cômicos do cinema, capaz de ancorar um longa inteiro apenas com seu talento, que o filme é carregado de uma pujante e casual lição de vida que fica no meio do caminho entre A Felicidade Não se Compra e filosofia budista que de alguma forma faz sentido na complexidade e simplicidade de suas ideias, com o protagonista sendo seu próprio pior obstáculo, e a sua gentil produtora a motivação para que ele aprenda a viver além de si próprio, ou ainda que o roteiro que usa o poder narrativo do cinema de uma forma que nenhuma comédia mainstream jamais havia feito até então para nos mostrar o insuportável homem do tempo Phil (Murray) preso na cidade de Paunxotawney em um dia da Marmota que se repete aparentemente ad eternum, até ele perceber que está se apaixonando pela sua produtora, a doce Rita (Andy McDowell).
Seja como for, o verdadeiro segredo de O Feitiço do Tempo é que, não importa se tu está vendo pela primeira vez ou pela quadragésima, o filme sempre deixa um sorriso na nossa cara.

1 - Harry & Sally: Feitos Um para o Outro (Rob Reiner, 1989)


Os clássicos não morrem jamais.
O diretor Rob Reiner e a roteirista Nora Ephron não fizeram apenas uma comédia romântica. O gênero existe desde a época do cinema mudo, afinal de contas, mas eles certamente estabeleceram as regras que ainda hoje regem esse gênero.
Não basta a coleção de frases que permanecem na cabeça da audiência que ainda hoje é capaz de recitar de cabeça, o longa ainda tem uma apaixonante Meg Ryan com seus cabelos que parecem plumas, suas ombreiras e seus jeans com cintura no pescoço, e um Billy Cristal surpreendentemente charmoso com sua misantropia inclemente e com quem Ryan partilha uma química tão neurótica quanto inegável e que, francamente, poucas vezes foi repetida em um filme.
Some-se a isso o humor seco que Carrie Fisher empresta à melhor amiga de Sally, Marie, que eventualmente começa a namorar o melhor amigo de Harry, Jess, vivido por Bruno Kirby e nós temos um esforço de ternura ímpar de Reiner e Cia., que jamais pesa a mão no sentimentalismo e nem tampouco sonega risadas.
Homens e mulheres podem ser amigos ou o sexo sempre estará entre eles?
Nós talvez jamais tenhamos uma resposta definitiva, mas ver Harry e Sally tentando responder a essa pergunta certamente é uma das melhores maneiras de pensar a respeito, e o número um nesse romântico pódio.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Top-10 Negativo - Cinema 2019

Apesar de ter ido poucas vezes ao cinema esse ano, minha relação cada vez mais próxima com os serviçoes de streaming e o Google Play Video me mantiveram bastante municiado de filmes para assistir ao longo desse 2019 e, não vou mentir, em mais de uma ocasião eu aluguei um filme especificamente porque achava que ele tinha potencial pra acabar nessa lista, aqui.
Tarefa facilitada pela produção industrial de filmes porcaria que Hollywood tem jogado nos cinemas em sua desesperada luta por lucros cada vez mais gordos ao final de cada período fiscal e pela falta de noção de grande parte da audiência, capaz de transformar as maiores porcarias em sucessos bilionários.
Para lembrar: Quanto mais alta a posição na lista, pior;
À lista:

10 - Casal Improvável


Seth Rogen chegou ao auge de sua carreira como ator em 50%, longa onde contracenou com Joseph Gordon-Levitt alguns anos atrás. De lá pra cá, o ator jamais saiu da zona de conforto, fazendo tipos maconheiros e desastrados de bom coração que são pegos em situações malucas por força das circunstâncias.
Casal Improvável, dirigido pelo mesmo Jonathan Levine de 50% não é uma mudança de paradigma para a carreira de Rogen. Muito antes pelo contrário. É mais do mesmo em nível máximo. A grande diferença aqui é que a situação maluca na qual esse maconheiro desastrado de bom coração se envolve por força das circunstâncias é um romance com a potencial candidata democrata à presidência dos EUA, Charlotte Field (Charlize Theron) que foi sua babá na adolescência e por quem ele nutria uma paixonite.
Uma tradicional comédia romântica sobre opostos que se atraem, Casal Improvável peca por mais do que ser apenas chato e sem graça, mas por criar um casal protagonista desprovido de qualquer migalha de química. Se Rogen e Theron tivessem uma fagulha que fosse de genuína atração, talvez o longa fosse vagamente assistível, como não é o caso, é uma desses longas que mofará no catálogo do Amazon Prime Video até ser esquecido.

9 - Projeto Gemini


Ang Lee deve ter entrado no escritório do presidente da Paramount e dito "Eu sou um diretor três vezes vencedor do Oscar e quero fazer um filme de ação onde Will Smith enfrenta Will Smith.". Diante dessa premissa o presidente da Paramount deve ter respondido algo como "Cala a boca e pegue meu dinheiro", e Lee, sem ter sido confrontado com nenhuma pergunta não mencionou que ainda não tinha um roteiro e acabou sendo levado pela empolgação com as novas tecnologias que queria experimentar e fez o filme unicamente com base nessa premissa sem ter mais do que um fiapo de trama para a construção do longa.
É a única explicação que eu encontro para o tanto de dinheiro investido em um longa que tem tanta cara de filme de orçamento médio da década de 1990. Projeto Gemini é um filme de ação sem sequências de ação memorável, de natureza episódica e trama destrambelhada que em momento algum justifica o grau de talento envolvido no filme, do elenco cheio de nomes respeitáveis ao trabalho de CGI da Weta Workshop para criar o Will Smith jovem ao diretor de O Segredo de Brokeback Mountain e A Vida de Pi.

8 - X-Men: Fênix Negra


Fênix Negra deveria ter sido muitas coisas.
A despedida dos X-Men da Fox... A adaptação definitiva de uma das maiores histórias dos mutantes dos quadrinhos... Um longa de super-herói divertido e empolgante...
Mas o filme não foi nada disso.
Nas mãos inexperientes de Simon Kindberg, longevo produtor e roteirista da série, Fênix Negra se tornou um filme ora aborrecido, ora constrangedor que, sim, foi melhor que X-Men 3, mas esteve muito, muito longe de chegar perto de fazer justiça ao arco fundamental de Claremont e Byrne. Com uma bela trilha sonora de Hans Zimmer e o elenco de peso se esforçando pra trabalhar com um script defeituoso que ainda passou por extensas alterações por conta de similaridades com Capitã Marvel, Fênix Negra foi um desafinado canto do cisne para uma série que teve momentos espetaculares ao longo de quase duas décadas, mas que, em seus momentos finais jamais encontrou o equilíbrio de seus dias mais brilhantes.

7 - Vidro


Fragmentado fez todo mundo imaginar que M. Night Shyamalan havia retornado à sua melhor forma. O longa sobre o homem com transtorno de personalidade dissociativa que se transformava em um monstro era um longa divertidíssimo em si próprio e, para surpresa da audiência, ainda era uma sequência secreta de Corpo Fechado, um dos melhores longas da carreira do diretor.
Quando Vidro foi anunciado com os retornos de Bruce Willis e Samuel L. Jackson juntando-se a James McAvoy e Annia Taylor-Joy, todos ficaram esperando pelo que deveria ser um tremendo filme.
Como estávamos errados.
Pretensioso e monótono, o longa mantém seus protagonistas trancados em um hospital psiquiátrico por uma insuportável terapeuta que fica os convencendo de que eles não têm super-poderes por cerca de dois terços do filme...
Quando alguma coisa finalmente acontece, é anti-climático e mal ajambrado, e deixa a audiência com um gosto ruim na boca se perguntando se a "melhor forma" de M. Night Shyamalan é que não foi o acidente de percurso...

6 - Dumbo


Ver um bebê elefante alçar voo por dentro de um circo através das lentes de Tim Burton só poderia ser uma coisa espetacular...
Em 1994.
Em 2019 versão live action de Dumbo é inflada com um sem-número de novos elementos, personagens e desdobramentos para aumentar os econômicos sessenta e quatro minutos de projeção da versão animada de 1941 com resultados desastrosos. Os novos elementos não funcionam e os antigos são diluídos tornando o filme absolutamente estéril.
Dumbo é mais uma demonstração do ocaso de um cineasta que, na maior parte das vezes, parece estar tentando fazer uma imitação de si próprio porque não encontra mais projetos que realmente o interessem. É de se pensar que os melhores trabalhos recentes de Burton sejam Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas e Grandes Olhos, dois filmes desprovidos das assinaturas mais marcantes e óbvias da filmografia do diretor.

5 - Esquadrão 6


Michael Bay é um diretor com a cara do cinema-pipoca da década de 90. Ele criou parte da identidade visual dessa vertente cinematográfica com cara de videoclipe onde a forma é mais importante do que o conteúdo e foi extremamente bem-sucedido em seu metiê durante um bom tempo. Eu mesmo sou um amante de trabalhos de Bay. O primeiro Transformers, Bad Boys, A Rocha... São todos filmes divertidos dentro de sua proposta.
O problema é que Bay não evoluiu, e seu estilo de fazer cinema se tornou datado.
Isso fica evidente em Esquadrão 6, comédia (?) de ação estrelada por Ryan Reynolds sobre um misterioso bilionário que financia um grupo de agentes secretos que fazem justiça com as próprias mãos onde governos têm medo de se meter.
Absolutamente histérico de maneira negativa, com um roteiro sem sentido e piadas sem graça Esquadrão 6 é a epítome do cinema de Michael Bay e uma demonstração cabal das razões pelas quais ele é um cineasta cada vez mais irrelevante.

4 - Brightburn


-E se o Superman fosse um psicopata?
-E se ele fosse o vilão de um filme de terror?
-Bó, vamos fazer um filme disso...
Brightburn é o resultado que se poderia esperar de uma conversa como essa dando origem a um longa metragem. O filme é menos a narrativa de uma história e mais a extrapolação de como seria se o Superman fosse um psicopata juvenil em um filme de horror. De que maneiras ele iria massacrar pessoas com requintes de crueldade usando seus poderes conforme se tornava mais e mais poderoso...
Não tinha nenhuma chance de ser bom, mas nas mãos de um cineasta muito competente e inventivo, poderia, ao menos, ser uma hora e meia de diversão escapista, David Yarovesky não é muito competente e nem inventivo, e filma o longa com a cartilha dos filmes de terror da década de 80 embaixo do braço.



3 - Star Wars: A Ascensão Skywalker


Há um ditado entre torcedores colorados que diz que, quando a gente menos espera que o Internacional possa fazer algo de bom, aí mesmo é que ele não faz.
Essa poderia ser a tagline dos Star Wars da Disney. A irregularidade dos longas que se dividem entre bom, OK, ruim e péssimo alcança o patamar inédito de "nhé" nesse último lançamento. Não chega a ser um feito para ser desprezado. O estado da franquia após o resultado pavoroso de Os últimos Jedi não deixava margem para nada que não fosse continuar rumo ao abismo ou tentar fazer controle de danos, e nenhuma das duas opções era boa.
A Ascensão Skywalker tenta desesperadamente fazer controle de danos, e se o longa tem alguma qualidade é o "vai se foder" monumental que ele grita ao longa anterior o tempo inteiro.
Infelizmente, isso está longe de ser o suficiente para salvar a trilogia. O longa é equivocado. Estéril. Vazio...
Não há nada para se odiar nesse último filme da trilogia sequência porque ninguém mais se importa, e quando o longa termina com a linhagem Skywalker destruída e um Palpatine como único usuário da Força da galáxia, a sensação de melancolia só não é maior do que o ódio por Kathleen Kennedy e Ryan Johnson.


2- MIB - Internacional


Um exemplo clássico do que é a atual política de criação de Hollywood é esse MIB - Internacional:
O longa pega uma franquia que já fez muito sucesso comercial e a recauchuta usando dois astros que já demonstraram talento e carisma para segurar um filme nas costas como pé de apoio na esperança de cativar audiências com uma marca conhecida e atores queridos pelo público, mas esquecem de um roteiro que justifique a produção do filme.
O resultado é o que se poderia esperar:
MIB - Internacional é um produto desprovido de alma ou cérebro que à certa altura desiste de fazer sentido e se concentra em lutar desesperadamente para parecer divertido mas jamais consegue sê-lo.
As coisas acontecem porque sim, e os personagens fazem as coisas porque sim. E a audiência tem que gostar porque, afinal de contas, a Sony investiu pesado no filme e colocou Tessa Thompson e Chris Hemsworth como protagonistas do negócio, ora bolas...

1 - Exterminador do Futuro: Destino Sombrio


A franquia Exterminador do Futuro deveria ter terminado em 1992.
Tudo o que veio depois é lixo puro, cada tentativa de enfiar outro apocalipse atômico goela abaixo da audiência e pior do que a anterior e Destino Sombrio mantém essa média: É pior do que Genesis.
Eu digo isso porque Genesis jamais mentiu que era uma volta às origens, jamais enganou a audiência fingindo que era uma história que merecia ser contada. O longa se assumia como um caça-niqueis meia-boca e paciência, e ainda tinha Emilia Clarke, uma gracinha, no elenco.
Gênesis, por sua vez, é carregado de arrogância e prepotência dignas de James Cameron sem o talento inegável do cineasta para lhe dar lastro.
O filme é tão ruim quanto Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, mas tentando surfar na onda do politicamente correto ao colocar um monte de "personagens femininas fortes" para quebrar o pau achando que isso, por si só, torna um filme bom. Não torna. A prova é que esse grotesco fracasso de bilheterias foi o pior filme que eu vi nesse ano.

Top-10 Cinema 2019

Se no ano passado eu fui pouco ao cinema, acredito que nesse ano eu tenha ido ainda menos.
Novamente eu aluguei filmes em profusão, e assisti um bocado de filmes em serviços de streaming que tem se tornado a saída não apenas para diretores incapazes de disputar espaço nas salas de exibição com os blockbusters fabricados sob encomenda pelos grandes estúdios. Mas a verdade é que o cinema vem perdendo espaço entre minhas formas de entretenimento favoritas. Eu assisti muito mais séries. Me apaixonei pelo Smithsonian Channel, e li avidamente livros sobre História e ciência e as republicações encadernadas d'A Espada Selvagem de Conan...
Ainda assim, não passei um final de semana sem ver ao menos uns três ou quatro filmes, embora venha preferindo rever longas que já havia assistido do que arriscar duas horas da minha vida com más apostas, ainda assim, consegui ficar em dúvida sobre quais filmes comporiam tanto minha lista de melhores quanto de piores do ano, o que fiz, ao menos na lista de melhores, com um pingo de peso na consciência.
À lista:

10 - Meu Nome é Dolemite


Eddie Murphy finalmente ganha um veículo capaz de devolver-lhe ao posto de astro de Hollywood em Meu Nome é Dolemite, a arejada e irônica biografia do comediante Rudy Ray Moore, um aspirante a showman fracassado que acertou na loteria ao criar o cafetão lutador de king-fu que se comunicava através de rimas profanas Dolemite.
Eu francamente não lembro quando fora a última vez que eu havia rido assistindo a um filme de Eddie Murphy, e nem quando fora a última vez que ele pareceu estar trabalhando com gosto. Despido de vaidades e estrelismos Murphy se mantém gorducho e sorridente para contar não apenas a história de vira-lata dando certo de Moore, mas também da família de amigos que o ajudaram a realizar seu sonho no palco e nas telonas (incluindo o excelente ladrão de cenas Wesley Snipes). Embrulhado em uma gloriosa coleção de ternos e chapéus coloridíssimos e brandindo uma bengala para amparar seu gingado Murphy torna a história de Moore a sua própria, uma declaração de excelência em comédia e mostrando que ainda tem um lugar garantido no rol dos maiores comediantes de Hollywood.

9 - John Wick: Parabellum


Quem poderia imaginar que um filme de vingança com cara dos longas de Charles Bronson nos anos 1980 poderia fazer não apenas Keanu Reeves ser redescoberto por Hollywood, mas dar origem a uma muito bem sucedida franquia e até a uma nova forma de fazer filmes de ação?
John Wick - De Volta ao Jogo fez tudo isso, e continuou fazendo em John Wick: Um Novo Dia para Matar e seguiu em Parabellum, terceiro longa da franquia de Chad Stahelski que está nesta lista menos pela história que narra (que incorre tanto em alguns furos quanto em uma vasta demanda por suspensão de descrença) e mais por seu estilo e personalidade. Da sequência inicial que tem o protagonista enfrentando hordas da matadores usando facas, machados, pistolas cavalos e livros como arma até o violento combate a três no encerramento do longa, John Wick: Parabellum é uma aula de como dizer tudo a respeito de seus personagens sem precisar falar a respeito. As ações de cada arquétipo que dá as caras na tela é testemunho de quem essas pessoas são, e ninguém fala menos e age mais do que John Wick;
O assassino é trazido a vida por um Keanu Reeves que abraça com gosto a fisicalidade de um papel com cada soco, tiro, facada e pontapé em um longa que vive por seus exageros, está orgulhoso deles, e os usa para pintar com pinceladas de sangue o retrato do anti-herói definitivo do cinema contemporâneo.


8 - História de um Casamento


O cataclismo devastador do divórcio conforme ele obriga as metades de um casal a reconfigurarem suas noções de si ao se apartarem é vista pela lente de Noah Baumbach de maneira agonizante, tocante e por vezes hilária no que é provavelmente o filme mais humano de 2019. Cada decisão tomada pelos personagens, cada palavra dita por eles, cada emoção que eles transmitem parece genuína, honesta e verdadeira conforme a separação de Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), que começa civilizada, amigável, até, paulatinamente se transforma em algo medonho conforme a influência dos advogados gananciosos e egoístas começa a mudar a percepção de ambos sobre o caso, transformando a decisão sobre a guarda do filho do casal em um cabo de guerra que ameaça matar tudo o que já houve de bom entre o casal.
O roteiro afiado de Baumbach e sua direção cheia de closes de mágoa e raiva nos mostra os protagonistas navegando por um mar de ressentimento até uma explosiva confrontação final.
Poucos filmes foram tão tão competentes na hora de retratar emoções, e muito do crédito recai sobre Johansson e Driver, que estão simplesmente devastadores em suas performances seja sozinhos, seja duelando em cena.

7 - Homem-Aranha: No Aranhaverso


A cada ano que passa o gênero de filmes de super-heróis se aproxima mais de um muro. E 2019 poderia ser o ano em que essa barreira foi alcançada com o inacreditavelmente enorme Vingadores: Ultimato.
Os filmes de super-heróis não ficarão maiores do que aquilo. Ponto.
Mas enquanto o gênero ameaça colapsar sob o peso de suas ambições financeiras inversamente proporcionais à suas ambições artísticas, a Sony deu uma tremenda bola dentro ao dar luz verde para um filme de super-herói que é ambicioso e criativo e surpreendente como nós ainda não havíamos visto.
A melhor animação desse ano (a Pixar que me desculpe) é tecnicamente magnífica, uma lindíssima sinfonia animada que mistura quadrinhos dos anos 60 com grafite e computação gráfica que vai muito além de uma mídia historicamente associada ao entretenimento infantil para narrar a história de Miles Morales (Shameik Moore) por uma Nova York que se vê subitamente destituída de seu maior protetor. Quando Miles recebe a ajuda e o treinamento de um Peter Parker de 42 anos que é arrastado até seu universo em meio a uma crise de meia-idade que é possivelmente o mais sofisticado retrato de um super-herói nas telonas, o longa recebe um tremendo upgrade em sua ternura conforme somos levados a uma aventura encabeçada por meia-dúzia de homens-aranha enfrentando uma vasta galeria de vilões alternativos.
Se nada disso funcionasse, Homem-Aranha: No Aranhaverso ainda seria alicerçado na maior e mais bela carta de amor que o mais popular herói dos quadrinhos jamais recebeu.

6 - Ad Astra


Piratas na Lua, babuínos assassinos em gravidade zero, comércio espacial e quedas da estratosfera em direção à Terra... Ad Astra pegou as coisas mais familiares de ficções científicas convencionais e encheu de uma nova vida que elevou o filme muito além de seus pares.
O major Roy McBride (Brad Pitt) parte em uma jornada rumo ao espaço profundo em busca do pai, Clifford (Tommy Lee Jones) que ele julgava estar morto. Parece, mesmo, uma ficção científica tradicional, mas o diretor James Grey apresenta sua história de uma maneira singular, misturando elementos familiares e novos de maneira que o longa seja ao mesmo tempo familiar e surpreendente em sua visão da história de um homem desesperado por comunhão investigando o firmamento em busca do pai ausente que o abandonou.
Esse amálgama mantém a audiência se perguntando se está gostando do filme, ou não, sem conseguir tirar os olhos da tela conforme a história se desenrola até que o final chega e nós conseguimos ver o retrato completo de uma maneira tão pujante e significativa quanto silenciosa, tão ítmima quanto majestosa.
Adicione a tudo isso uma das melhores performances da carreira de Brad Pitt, conseguindo a proeza de ocultar um perceptível turbilhão de dor sob uma superfície de calma quase patológica, efeitos visuais espetaculares, direção e cinematografia na ponta dos cascos e nós temos uma das melhores ficções científicas em anos.

5 - Green Book: O Guia


Existe um certo tipo de cinema feito para mexer com as emoções e expectativas da plateia de uma maneira quase mecânica em sua previsibilidade e que ainda assim, não conseguimos odiar.
Green Book: O Guia, longa de Peter Farelly em uma rara jornada cinematográfica sem o seu irmão Bobby é um dos mais claros exemplos desse tipo de filme, aqueles onde nós somos capazes de antever tudo o que irá acontecer na próxima cena, mas ao invés de ficarmos aborrecidos ou desapontados com isso, damos um sorriso. É o tipo de história edificante que mexe com as aspirações mais puras que até o mais cínico de nós tem, de que podemos todos ser melhores.
Claro, apenas isso talvez não fosse o suficiente para narrar a aventura do pianista clássico Don Shirley e do brutamontes ítalo-americano Tony Vallelonga em sua turnê pelo sul dos Estados Unidos, mas Farelly fez o certo e cercou-se de dois atores sensacionais para os papéis principais do longa: Mahershala Ali e Viggo Mortensen.
Os dois intérpretes elevam Green Book: O Guia muito acima do que o longa seria com atores menores no elenco principal, e tornam aqueles sorrisos da audiência a cada curva segura do caminho mais abertos e sinceros. Talvez o Oscar de Melhor Filme tenha sido um exagero para Green Book (agora Peter Farelly tem dois Oscar, e Martin Scorsese tem um...), mas a culpa não é do longa. É um filme calculado e seguro, sim, mas um sentimento honesto com o qual a audiência permanece muito tempo depois de assistir.

4 - Era Uma Vez em... Hollywood


A história de dois caubóis da TV dos anos cinquenta que estão envelhecendo e se tornando irrelevantes a passos largos até recuperarem a auto-estima por tempo o suficiente para deitar a porrada em uns hippies sujos e proteger uma linda loira grávida da morte certa pode parecer um bocado reacionária.
Talvez isso explique a crítica especializada estar tão dividida com relação ao nono longa de Quentin Tarantino, que irritou todo o pessoal do politicamente correto com seu retrato de Bruce Lee e do movimento hippie e sua misoginia e blá, blá, blá...
As pessoas parecem não ter entendido que Era Uma Vez em... Hollywood não é um manifesto de intenções de nenhuma espécie, mas uma viagem estilo anos 1960 do que poderia ter sido. Uma colagem fetichista da Hollywood dos anos 1960 que usa a morte de Sharon Tate nas mãos da família Manson para simbolizar o fim da inocência no cinemão hollywoodiano e imaginar como seria se heróis desse mesmo cinemão moribundo pudessem ter feito algo para evitar a tragédia em um desfecho que é tão eufórico e excessivo quanto de cortar o coração.
Tarantino cria uma história para examinar um momento no mundo dos cinemas que criaram seu vasto e obscuro rol de referências em uma Hollywood dos anos 1960 que é visivelmente um de seus trabalhos mais apaixonados e cheios de compaixão em anos, apresentando as histórias interligadas de um astro cujo tempo passou e uma estrela em ascensão para quem tudo é fresco e novo para preservar um momento no tempo que representa a beleza das coisas que estão fadadas a mudar.

3 - Coringa


Outro filme que não foi totalmente compreendido pela crítica especializada e vilipendiado tanto pela turma do politicamente correto quanto pelos reaças de plantão no que, pra mim, é testemunho de seus acertos, Coringa foi o filme de gibis de que até Martin Scorsese seria capaz de gostar tanto por sua abordagem com os pés cravados na realidade quanto por render homenagens abertas ao tipo de cinema que Scorsese inaugurou na década de 1970.
O longa de Todd Phillips foi mal-visto por liberais que temiam a "potencialização da cultura incel" e a violência praticada por homens brancos, e por conservadores preocupados com a mensagem de "guerra de classes" que o longa trazia embrulhada, mas Coringa não é a respeito disso.
O longa co-escrito por Scott Phillips é uma história sobre uma alma torturada que não encontra seu lugar no mundo. Sobre o que a cultura de olhar apenas para seu próprio umbigo pode fazer com pessoas que são ignoradas pelo sistema e por seus semelhantes e sobre até onde uma pessoa pode afundar na auto-piedade quando não tem a quem recorrer.
Para nos guiar por essa descida rumo às profundezas da loucura Todd Phillips conseguiu Joaquin Phoenix que encheu Arthur Fleck de nuances e humanidade permitindo que a figura retorcida e desesperada em cena jamais parecesse um completo vilão, mas sim uma pessoa que jamais recebeu a ajuda de que precisava até estar além de qualquer resgate

2 - O Irlandês


Construído ao redor do presumido assassinato do líder sindical Jimmy Hoffa em 1975, o longa de três horas e meia de duração de Martin Scorsese é notável tanto pelo que tem quanto pelo que não tem, no caso, o longa não tem grandes sequências de câmera única como a entrada de Ray Liotta e Lorraine Bracco no night club em Os Bons Companheiros, não tem sequências brutais de violência gráfica e nem canções dos Stones em sua trilha sonora para aumentar a adrenalina.
O Irlandês é um exercício de abnegação de Scorsese que retira de cena seus truques e movimentos mais habituais para permitir que seu elenco nos mostre a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), que narra de uma cadeira de rodas em uma casa de repouso católica a sua vida como caminhoneiro, matador eventual da máfia e líder sindical. A vida de Sheeran é repleta de arrependimentos, não pelo que foi feito, mas pelo que foi feito e não foi sentido.
Sob a batuta de Scorsese O Irlandês jamais tenta se esconder atrás de movimentos exaltados ou saídas fáceis, mas acompanha o ritmo de seu elenco que envelhece a olhos vistos diante da audiência graças a maquiagem digital e prática para garantir que o longa jamais deixe de parecer a narrativa de um ancião olhando para trás.
Com um elenco soberbo encabeçado por De Niro, Al Pacino e um soberbo Joe Pesci O Irlandês é mais uma aula de cinema de Martin Scorsese e mais um tijolo na gloriosa edificação de um dos cineastas fundamentais não apenas de nosso tempo, mas da sétima arte como um todo.

1 - Vingadores: Ultimato


Martin Scorsese tem todo o direito de dizer o que quiser a respeito dos filmes da Marvel, e pronto.
Scorsese é o maior diretor de cinema em atividade no mundo hoje e se ele não gosta dos filmes o mínimo que qualquer pessoa com dois neurônios tem que fazer é respeitar a opinião do sujeito, por mais que discorde dela.
Uma das coisas que Scorsese disse quando explicou porque não gosta dos filmes do MCU foi que os atores eram incapazes de transmitir emoção por conta da falta de profundidade dos roteiros.
Bem, nesse ponto eu discordo de Marty. Havia gente chorando literalmente tão alto no final de Ultimato na sessão em que vi o filme que outros espectadores ficavam pedindo silêncio.
Os melhores filmes fazem a audiência sentir alguma coisa, seja tristeza, alegria excitação ou ansiedade, arte capaz de extrair emoção genuína da plateia é especial, e com Vingadores: Ultimato, nós sentimos tudo isso, e mais. Ás vezes ao mesmo tempo, e isso torna o filme mais do que especial. O torna mágico.
Enquanto ponto culminante de um empreendimento que se estende a onze anos e vinte e dois longas-metragens Vingadores: Ultimato tem tudo aquilo que a audiência queria ver. Tudo o que a audiência esperava ver. E coisas que a audiência jamais pensou que veria. Tudo embrulhado em uma única e espetacular embalagem. Para conseguir fazer tudo isso em um único filme os diretores Joe e Anthony Russo e os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely criaram um trabalho em uma escala que o cinema viu em poucas ocasiões. Os atores, em especial os seis Vingadores originais, criaram um nível de gravidade que elevou o material, e enquanto momento imenso após momento imenso rolavam um sobre o próximo em uma bola de neve que se tornaria uma das maiores (senão a maior) sequência de ação da história do cinema, nós só podíamos olhar maravilhados não apenas para esse filme, mas para toda a história que nos trouxe até aqui. De Homem de Ferro a Capitã Marvel, todos os vinte e dois longas do MCU têm DNA em Ultimato. Um longa que, mais do que um filme mágico, é seu próprio universo mágico.