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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dúvida


Aloísio acordou e foi arrebatado, quase instantaneamente, pelas lembranças da noite anterior. Tudo ficou muito claro á despeito da escuridão quase absoluta do lugar onde estava. Pensou em gastar algum tempo recriminando-se, mas não tinha certeza se valeria de alguma coisa, afinal, o que estava feito estava feito. O que deveria fazer? Elegeu rapidamente sua primeira prioridade ao perceber que estava nu. Precisava vestir-se. Sentou na cama com dificuldade, tentando manter o silêncio. Não fazia ideia de que horas poderiam ser. Levantou-se, e deu um passo, pisou em uma peça de roupa. Apanhou-a e reconheceu como sendo sua. Vestiu a peça sem respirar. Ele sentiu o tecido frio da camiseta sobre a pele quente dos ombros e dos braços. Ajeitou-se fazendo o mínimo ruído possível, passando a mão para desfazer o amarrotado da roupa. Procurou suas roupas de baixo tateando com cuidado a cama onde dormira, mas estava escuro, e ele não fazia ideia de onde a peça poderia estar.
Olhou no chão, abrindo bem os olhos para tentar superar a escuridão que inundava o cômodo, mas não logrou sucesso, mal conseguia distinguir as formas que percebia pelo chão. Chamou-lhe a atenção uma pequena peça amarfanhada, embolada perto do pé da cama, inclinou-se em silêncio e a apanhou, desenrolou a peça com cuidado, achando o toque do tecido algo estranho. Não era o que procurava, era uma calcinha. Largou-a rápido, não com nojo, mas acometido por uma súbita onda de recato.
Ele que, se não estava muito enganado, tivera aquela peça ínfima e íntima de roupa entre os dentes algumas horas atrás, agora achava que não era correto a ficar segurando.
Tateou o chão ao redor da cama, não usava calças e não se sentia bem agachando em demasia naquele estado. Encontrou suas calças. Vestiu-as rápido, e dirigiu-se, tão silenciosamente quanto possível à porta do quarto, entretanto, escuro que estava, deu uma topada violenta no pé de uma poltrona. Gritou em silêncio, soltando muito ar pela boca semi cerrada. Segurou a maçaneta da porta e começou a girá-la com o máximo cuidado, mas estacou.
Que rumo de açao era aquele que estava tomando? Fugindo feito um ladrão na madrugada (Ou, pelo menos ele achava que era de madrugada...) e deixando ela sozinha ali?
Ela, Roberta, á quem ele considerava tão especial á tanto tempo, e agora, depois de um deslize, um ótimo deslize, diga-se de passagem, ele colocaria toda a relação que partilhavam a tantos anos á perder por causa de sua covardia? Por causa de sua vergonha?
Não que houvesse nada de vergonhoso no que ele e Roberta haviam partilhado na noite anterior, de forma alguma. Eram ambos jovens, livres e desimpedidos, e não deviam nada á ninguém. Chegaram á casa de Roberta para assistir um filme e comer sorvete, alheios ao inverno inclemente que castigava Porto Alegre naquele mês de junho. Assistiram O Poderoso Chefão, objeto de culto de Aloísio, e pela qual Roberta nutria certa reticência, e comeram metade de um pote de sorvete sabor Alpino.
Após o filme, ligaram a TV e ficaram jogados nos almofadões do chão rindo e amaldiçoando a própria gula. Aloísio e Roberta eram amigos de longa data, já haviam feito aquilo mil vezes, mas, naquela noite, havia algo de diferente.
Aloísio não saberia explicar, talvez fosse um brilho diferente no vermelho dos cabelos de Roberta, talvez fosse a alvura de sua pele, o rosado de seus lábios, ou seus olhos estivessem mais encantadores do que de costume, ou talvez ele apenas tenha renegado a máscara de fingida distância que usava para disfarçar seu profundo apreço por ela, nutrido desde sempre.
Ele tomou a mão dela entre as suas e a beijou. Ela sorriu pra ele como quem sorri para um amigo, e ele, talvez por alguma forma tola de orgulho masculino ferido, sentiu-se diminuído, e tocou seu rosto, não como um amigo. E a beijou nos lábios. Roberta pareceu surpreendida no início, mas correspondeu. Ele a tomou nos braços e a levou para o quarto, despiram um ao outro, com pressa e em silêncio, ouvindo apenas o som das próprias respirações e os estalos dos beijos que trocavam.
Aloísio e Roberta fizeram amor. Não fora apenas sexo, não entre das pessoas que se conheciam á tanto tempo e confiavam tão profundamente uma na outra.
Aloísio sabia que fora muio mais do que sexo, e isso o assombrava. Assombrava por que Aloísio conhecia sua falta de jeito no tocante á relacionamentos, ele sabia, em seu íntimo, que era muito melhor amigo do que namorado,e isso que nem era um amigo tão bom assim. Em relacionamento Aloísio era tão emocionalmente retardado que fazia um esforço sobre-humano para não agir como seus instntos sugeriam, com iss, os relacionamentos de Aloísio eram exaustivos pra ele, tão exaustivos que ele perdia o ânimo em pouco tempo, e logo estava no dilema de voltar, ou não, á vida de solteiro.
E, sendo honesto como era, quase honesto demais (Mas apenas quase.), Aloísio logo terminava seus relacionamento que raramente eram duradouros.
E agora ali estava ele, sentindo-se o último dos homens enquanto executava uma slenciosa fuga. Ele estava apavorado, apavorado por que imaginava estar colocando á perder uma amizade que prezava como poucas, por que estava afastando alguém com quem tinha uma conexão que considerava especial, mas, ao mesmo tempo, apavorado por que a noite anterior fora perfeita. Excetuando-se a culpa decorrente, o medo de perder o que tinha, tudo havia sido ótimo. Bonito. Natural. Por que o que tinha com Roberta sempre foi mais do que amizade, sempre conviveram com uma cúmplice sombra de flerte que oxigenava a amizade, como se um desse ao outro sinais de que eram do sexo oposto, de que poderia haver mais ali. E Aloísio sempre percebia isso, fosse ao ouvir a risada cristalina dela, que tinha uma qualidade de risada infantil, fosse quando se perdia admirando seu perfil refinado, ou quando a olhasse nos olhos enquanto ela falava.
E agora, ali estava Aloísio, com o metal frio da maçaneta da porta do quarto de Roberta na mão, amaldiçoando sua própria conduta, seu jeito de ser. O que faria? O que faria? Como conseguiria trocar certo, a amizade duradoura e cúmplice que tinha com Roberta pelo duvidoso e um relacionamento? Ainda mais doloroso por que o "duvidoso" em questão era de responsabilidade sua, e sua apenas.
Roberta suspirou, um suspiro longo, revigorante. E Aloísio quis se virar. Tudo o que ele queria era se virar. Mas não sabia se devia.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Resenha Cinema: A Estrada


Há filmes que são injustiçados pela crítica, outros são injustiçados pelo público, e, há ainda o caso dos filmes injustiçados pelo circuito exibidor. Só esse fenômeno explica as salas de cinemas de Porto Alegre inundadas com Alices, Homens de Ferro, Titãs furiosos enquanto um filmão como A Estrada permanece á mais de um mês esquecido em três salas de circuito alternativo, com algumas em horário único.
Ontem fugi á minha regra, e aceitei um convite pra pegar uma matiné, sessão das cinco da tarde na Casa de Cultura Mário Quintana (Nunca sei qual sala é a Norberto Lubisco, qual é a Eduardo Hirtz e qual é a Paulo Amorim...), lar tradicional de filmes que já saíram de cartaz, ou que não têm público, mas testemunhas.
Já vi bons filmes lá, Gladiador, O Sexto Sentido, mas é uma sala acanhada, a tela pouco maior que uma televisão bem grandona, som meia boca, mas enfim, é uma sala físicamente confortável, onde se pode espichar as pernas e se recostar pra ver um bom filme. E foi exatamente o que, na companhia de umas outras dez testemunhas, vi ontem, um bom filme. Muito bom, até.
A Estrada narra a luta diária de um homem (Viggo Mortensen, cada vez mais entrando pro time dos maiores intérpretes de sua geração.) e seu filho (Kodi Smit-Macfee, o piá parece ter futuro) em um mundo que acabou.
Não temos muitas pistas de como o mundo acabou, mas temos a impressão que que eventos climáticos podem ter sido a causa do mundo frio, onde animais e plantas pereceram, a eletricidade não existe mais, e nem a civilização.
No cenário estéril e cinzento criado com maestria pelo fotógrafo Javier Aguirresarobe, pai e filho andam inexoravelmente em direção ao sul, á costa, onde esperam encontrar uma recompensa para sua tenacidade.
Não é uma jornada fácil para os personagens, que convivem com a ameaça da inanição, de uma natureza moribunda e, mais perigoso, dos demais sobreviventes da terra devastada, então habitada por canibais, ladrões e andarilhos.
O pai luta para manter o ânimo do menino contando histórias de coragem e bravura, prometendo que eles, pai e filho, são os bons sujeitos, os que carregam o fogo interno. A jornada, porém, é muito mais de teimosia do que de fé, e o objetivo, é apenas um pretexto para seguir caminhando, procurando por comida e abrigo, e não se entregarem á um destino cada vez mais obscuro.
Ao longo dessa jornada, o personagem de Mortensen se vê mais de uma vez em situações onde sua boa índole é colocada à prova, e ele tem que escolher entre manter a fachada de normalidade e decência com a qual tenta proteger seu rebento, e a necessidade de agir como um sobrevivente e garantir o amanhã do menino á qualquer custo, tudo isso enquanto se vê assombrado pelas lembranças de sua esposa e da vida que levava antes da tragédia que vitimou á ele e ao mundo (Flashbacks iluminados com uma luz dourada linda).
Não é uma jornada fácil para o público também. A atmosfera opressiva formada pela boa escolha das locações, da fotografia, da trilha sonora de Nick Cave (Excelente.), a direção segura de John Hillcoat e a atuação dos protagonistas e do elenco de coadjuvantes (Que traz nomes como Charlize Theron, Robert Duvall, ótimo, e Guy Pearce, se especializando em pontas), ás vezes se torna pesada, o que está longe de ser um defeito, na verdade é sinal da lição de casa bem feita pela equipe técnica.
No final das contas, A Estrada resulta em um filme excelente, que talvez não tenha o ritmo arrastado do livro de Cormack McCarthy, mas que não deve, de forma alguma, ofender aos fãs do autor, e ainda traz um olhar diferente ao batido tema do mundo pós-apocalíptico com uma história intimista galgada, não em sequências de ação avassaladoras, mas no amor de um pai por seu filho. Á despeito do tom pesado do filme, é um belo olhar.

"Se ele não é a palavra de Deus, Deus jamais falou..."

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Frankenstein


Ele se olhava no espelho e sabia exatamente o que estava vendo. Não quer dizer que gostava do que via. Pele demais, na própria opinião. Se fosse vaidoso ou burro, ou tivesse dinheiro sobrando, talvez pudesse cogitar fazer uma plástica. Remover o excesso de pele. Mas não era vaidoso, nem tinha dinheiro sobrando. Olhava o espelho e contabilizava as imperfeições. As sombrancelhas demasiado espessas, o nariz bobo, os olhos miúdos, os dentes em desalinho. Ele olhava aquele sujeito no espelho, e sabia exatamente quem ele era.
Era um bom sujeito. Pelo menos assim o considerava. Não era um sujeito fácil, podia ser muito teimoso, ás vezes, era uma pessoa de difícil convívio, não gostava muito de falar sobre certos assuntos, e sobre outros falava em excesso. Nem sempre estava disponível para os amigos. Talvez, seu maior defeito fosse esse. Ele gostava de estar só, por isso faltava á seus amigos quando eles o queriam por perto. Compensava isso tentando estar presente quando seus amigos precisavam, o que nem sempre conseguia, mas ao menos tentava, e achava que era justo.
Era avesso á conhecer pessoas novas, era tímido, cauteloso, sim, mas não covarde. Não tomava decisões impensadas e não arrastava ninguém para sua melancolia quando ela se apresentava. Era irônico, sardônico, sarcástico, debochado, mas não mau. Pelo menos não o tempo todo.
Aquele sujeito, no espelho, sabia quem era. Era fruto de seu ambiente e das mazelas de sua vida, claro, mas era, acima de tudo, um produto de escolhas próprias. Aquele sujeito era quem escolhera ser. Levara mais de vinte anos para ser aquela pessoa, e, com mil demônios, ele até que se orgulhava disso.
Não que fosse motivo de orgulho, todas as pessoas são assim, elas são fruto de seu ambiente e de sua tragédia pessoal, seja ela abissal ou microscópica (Embora a tragédia pessoal de cada um tenha a dimensão que cada um está disposto á outorgá-la.), mas acima de tudo, somos quem queremos ser. Somos frutos das escolhas que fazemos á cada encruzilhada da vida.
Aquele sujeito no espelho sabia disso, e abraçava a responsabilidade de ser o doutor Frankenstein de seu próprio monstro de retalhos. Aquele camarada de cabelo arredio e sorriso contido refletido ali estava ciente de ser quem era e de ser responsável por ser quem era. Ele ria com flagrante ironia daqueles que não sabiam quem eram, que ainda não haviam desenvolvido a própria identidade fosse por não se responsabilizar pelas próprias escolhas, fosse por puro descaso.
Aquele cara no espelho achava que todos tinham a obrigação para consigo mesmo de saber quem eram. E de se responsabilizar por quem eram e por como afetavam aqueles ao seu redor.
E ele, ao olhar o camarada refletido no espelho, não pôde se furtar o prazer de dizer:
"Está vivo!"

Miau?


Ela era uma sombra, uma presença felina e abstrata, quase como aquele bichano que, vez por outra aparece nos fundos da sua casa, e você alimenta, e afaga e recebe um pouco de atenção em troca, mas apenas brevemente, pois aquela criatura é demasiado livre, ou demasiado desconfiada, ou ambos, e some na noite outra vez. E aí, o que você tem sempre, por interessantes que sejam, são apenas vestígios.
Um suspiro, um sorriso, uma saudade
Fragmentos, nunca inteira de verdade
E, também, tu nem sequer tem o direito de reclamar, afinal, o que foi que tu ofereceu de concreto? Muito pouco. Claro, tu estava ali, quando era conveniente, e isso é quase nada. Mecanismos de defesa excessivamente funcionais de parte á parte. A relação de ambos é como devem ser os abraços entre dois autistas.
Um pé, os olhos, os lábios, nariz, a mão
As pequenas gotas de uma grande abstração
Tão longe um do outro, quem sabe, um pequeno passo á cada dia, doze séculos pra cumprir toda a distância, mas quem estaria disposto á dar o salto? Esperaria-se que a felina o fizesse, afinal, os gatos têm o dom da agilidade e do equilíbrio. Mas ainda não... Ainda não...
Embrulhos, alôs, mexendo com minha cabeça
Presentes adoráveis e ela uma não-presença
Paciência, diriam, alguns, é virtude dos sábios, tu é paciente, pra não dizerem que nada tem em comum com os sábios. Mas vez que outra, te pega pensando, e se?
Palavras cálidas ao telefone, verdadeiras mas distantes, como atrair essa felina, tirá-la de sua toca?
Atiçar sua curiosidade? Ela é cautelosa em demasia.
Ela é uma gata escaldada, eu uma banheira de água fria.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Humano Demais.


Isabela se aproximou e emaranhou o cabelo de Otávio. Assim como adultos fazem quando veem uma criança fofucha que merece um afago. Ele passava do lado dela e ela se inclinou pro lado, como se pra olhá-lo bem, por inteiro, e sorriu, ato contínuo, esfregou a mão espalmada sobre a cabeça de Otávio, escabelando-o. Ainda sorrindo, piscou-lhe o olho esquerdo, e passou a mão em seu ombro enquanto seguia sem caminho.
Otávio sentiu como se tivessem lhe chutado as gônadas e cuspido em sua cara.
Ela, a Isabela, para Otávio, a guria mais gata do terceiro ano, lhe tratava como se trata ao primo retardado que se vê no Natal.
E ele era louco por ela. Ela... Linda, quase um metro e oitenta de altura, esguia, mas não uma tábua, os cabelos castanho-escuros lisos emoldurando-lhe o rosto de feições distintas para então caírem sobre os ombros repletos de sardas, o sorriso franco, os olhos, um capítulo á parte, com aquela dobrinha sob a pálpebra inferior, dando uma aparência mais franca ao sorriso, e fazendo com que os olhos sorrissem com facilidade. Ah, a Isabela.
O Otávio era apaixonado por ela desde o sexto ano do ensino fundamental. Haviam feito alguns trabalhos juntos ao longo dos últimos anos. Ele lembrava de todos. Artes na sexta série. Ele desenhou, ela pintou e apresentou. Matemática na sétima série, ela fez tudo, e foi amável o suficiente pra deixar ele assinar o nome na capa e garantir as nota que lhe salvaria o bimestre. Na oitava, Português, um grupo grande ela e ele mal se falaram, e Biologia, ele fez tudo, ela só fez a apresentação, que Otávio tinha vergonha de fazer, e tirou nota mais alta que ele, que nem se importou, na verdade, achou muito justo. Ele até mencionou o fato numa conversa no ano seguinte, mas ela não lembrava, apenas sorriu, arrancando-lhe um suspiro.
No primeiro ano do Ensino Médio não fizeram nada juntos, mas no segundo trabalharam juntos em Química, trabalho em dupla, ambos sentados côxa á côxa nas classes duplas do laboratório, Otávio fazendo esforço de monge zen-budista pra prestar atenção ás fórmulas das experiências quando as intermináveis pernas de Isabela estavam ali, ALI(!), tão perto, ao alcance da mão, e ao mesmo tempo, tão inatingíveis.
Isabela não era apenas atraente. Na verdade, era bem provável que, se fizessem uma pesquisa entre os alunos do colégio baseada em opinião aleatória, Isabela não estaria entre as dez meninas mais votadas no quesito beleza. Mas, se perguntasse "Isabela é bonita?" a imensa maioria diria que sim. Ela era bonita, quem olhava por un instante e prestava atenção percebia isso claramente, entretanto, ela, á despeito da altura, não tinha o tipo de beleza que saltava aos olhos. Não era uma beleza óbvia, era uma beleza que requeria admiração aos detalhes. Bastava olhar e eles estariam ali, todos os pequenos detalhes que faziam de Isabela uma menina tão bonita.
E Otávio tinha a dedicação necessária. Embora não houvesse, em primeiro lugar, se apaixonado pela aparência de Isabela. Foi pela personalidade dela. Ela era dessas gurias legais que, em algum momento da adolescência, todo o guri quer ter como melhor amiga, ou, com muita sorte, como namorada. Tinha personalidade forte, era expansiva, não era do tipo fadinha, patricinha, praticava esportes, tinha resposta pra qualquer insulto na ponta da língua, ria de piadas e assistia seriados e filmes maneiros, e não as porcarias que as outras gurias gostavam. Isabela era ideal. Era perfeita.
O problema é que Otávio não era.
Otávio era tão na média, mas tão na média, mas tão na média, que em uma enciclopédia de respeito, ao lado do verbete medíocre, poderia, sem nenhuma injustiça, haver uma foto de Otávio.
Ele tinha estatura média, peso médio, calçava 41, o tamanho médio do pé dos guris de sua idade, branco, cabelos e olhos castanhos, tirava notas médias, enfim, Otávio era uma ode ambulante á mediocridade. A única coisa em que Otávio se sentia, de fato, fora da média, era nos esportes, em que era particularmente ruim, e seu gosto musical, que ele considerava particularmente bom. O problema é que Otávio não via, em nenhum desses pontos, um que pudesse destacá-lo em meio á multidão. E Otávio tinha para si que, se não se destacasse em nada, Isabela jamais o veria como nada além daquele cara com quem ela fizera alguns trabalhos entre o ensino fundamental e o médio, e essa era uma perspectiva dolorosa. Não que Otávio fizesse drama á respeito. Ele gostava de Isabela, claro, mas não era um desses adolescentes deslumbrados que pensa que a sua namorada do ensino médio será o amor de sua vida até o final de seus dias, não, ele tinha a saudável consciência de que, um namoro do ensino médio é um namoro do ensino médio, e estava OK com essa perspectiva, a perspectiva que o assombrava era a de não ter oportunidade de tentar engrenar um relacionamento, por curto que fosse, com a menina de seus sonhos pelos últimos oito anos, mas como obter tal oportunidade quando se é tímido como era Otávio, quando se era tão repleto de insegurança que qualquer interação social que envolvesse mais de três pessoas lhe parecia um sacrifício e qualquer demonstração pública de seus sentimentos representava quase dor física?
Otávio não tinha ideia. E se sentia desolado por conta disso, por que o terceiro ano estava acabando, e, Otávio via se afastarem as possibilidades de ter uma chance de expôr seus sentimentos á Isabela se não tomasse uma atitude. Estaria relegado á emaranhadas no cabelo e sorrisos amigáveis, porém distantes, até a faculdade.
O que ele poderia fazer?
Uma declaração pública de amor, no meio do corredor. Se ajoelharia aos pés de Isabela e pegaria a mão delicada dela entre as suas e diria em bom tom, que a amava, que não conseguia pensar em outra coisa senão no amor que carregava por ela em seu peito.
Seria mentira, ele pensava em várias outras coisas. Além disso, baseado em sua experiência prévia, que não era lá das mais vastas, ele não poderia ter muita certeza de que aquilo que sentia por Isabela era, de fato, amor. Vá saber... Além disso, essa abordagem abria margem pra uma qualidade praticamente absoluta de humilhação pública, coisa com a qual Otávio não poderia arcar.
Ele poderia tentar algo como conversar com ela, mostrar que tinham vários interesses em comum, e então, chamá-la pra sair, como fazem as pessoas normais. Entretanto, em seu íntimo, ele tinha a impressão que que esse tempo havia passado lá pela oitava série, quando ele entrara em uma zona inóqua que não era nem a dos interesses amorosos nem a dos amigos, mas a dos colegas. Não, Otávio não podia mais dar-se ao luxo de abordagens normais. Era tudo ou nada, matar ou morrer.
E Otávio morreria.
Morreria pois era demasiado tímido, demasiado acomodado com as mazelas da vida para tomar uma atitude. Otávio fazia parte de uma geração de homens criados pela mãe, que cresceram sem exemplos masculinos válidos e presentes, e que temia tanto o fracasso que se abstinha de fazer qualquer tipo de tentativa.
Otávio sonhava com feitos simples que, em sua mente, ganhavam contornos épicos, mas que ele não tinha coragem de tentar, ele jamais se sentiria á vontade com o papel ao qual fora relegado nas afeições de Isabela, mas ao mesmo tempo, jamais se sentiria inconformado o suficiente para tomar uma atitude á respeito.
Otávio manteria sua postura amigável, sem grandes arroubos, e, vez que outra, teria seus cabelos emaranhados por Isabela, e, no futuro, talvez por outra moça que ele tornaria igualmente inatingível.
Otávio se conformaria não por não ser capaz de vencer as lutas, mas por ser incapaz de lutá-las.
Otávio era ridiculamente humano, e, de vez em quando, pensaria no que estava perdendo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Maturidade.


Solange soluçou. Ela sentiu as contas do colar que usava balançarem e tocarem seu pescoço ao soluçar. Levou, instintivamente a mão ao peito, e fez com que o colar parasse de pender. Esfregou a mão direita na face, secando as lágrimas que escorriam abundantes de seu rosto.
Esfregou a mão molhada na colcha sobre a cama, e soluçou novamente. Levantou-se, foi até o banheiro. Olhou-se no espelho, a face vermelha, inchada, úmida de choro, não fazia justiça á beleza de Solange. Solange, com seus longos cabelos castanho-escuros desgrenhados após quase meia hora de choro na cama, mirou-se no espelho e sentiu raiva. Raiva de si mesma. Raiva da prórpria ingenuidade, raiva por ter-se entregado justamente á Ramiro. Agora, ali estava ela, sozinha no apartamento, colhendo os frutos amargos que ela mesma plantara ao fazer uma escolha errada.
Ramiro e ela se conheceram na faculdade. Ela fazendo Letras e ele Educação Física, partilharam uma cadeira de Antropologia Filosófica, sentavam perto um do outro, ele era bonito, atlético, usava uma barba por fazer, tinha cabelos castanhos sedosos, olhos risonhos, e era cativante, divertido, expansivo. Monopolizava as conversas, parecia se sentir bem sendo o centro das atenções, parecia se sentir seguro nessas situações. Á princípio, nada disso agradou á Solange, exceto a parte de ele ser bonito e atlético, o resto todo, ela achou bastante dispensável, repelente, até.
Solange admirava sua privacidade, era discreta e escolhia com extremo cuidado suas amizades.
Mas o destino é um gozador, e Ramiro, apesar de Solange parecer imune á seu charme, ou talvez por causa disso, tornou-a alvo de suas investidas. Ela fez pouco caso, tratou o fato como nada além de orgulho de um sujeito bonito que percebeu que uma mulher "ousara" não estar interessada nele. Mas as investidas de Ramiro prosseguiram, e, ela tinha de admitir, eram boas. Flores, poemas, livros, palavras gentis... Ele sabia o que estava fazendo.
Solange, ainda um pouco desconfiada, achou que não faria mal aproveitar um pouco, afinal, era solteira, estava livre e desimpedida, e não faria mal ceder um pouco á pressão de seus hormônios.
Resolveu aceitar um convite de Ramiro para sair.
Jantaram fora e foram á uma danceteria. Aconteceram os beijos, os amassos, mas não foi exatamnente como Solange esperava.
Ramiro tinha uma qualidade que Solange não esperava dele. Uma ternura inesperada, e ela gostou. Gostou tanto que, turbinada por boas doses de vinho, se entregou á Ramiro ainda naquela noite, algo que jamais imaginou que faria. Na manhã seguinte, sem o peso do álcool ou da inesperada amabilidade de Ramiro na cabeça, colou os pés no chão, dizendo á si mesma que fora apenas um deslize, nada de grave, nada para se arrepender até o fim de seus dias, e que seria melhor não ver mais Ramiro depois daquilo.
Entretanto, uma vez mais, Ramiro a surpreendeu, servindo-lhe café na cama, colocando uma flor em seu cabelo, e levando-a até o serviço.
Solange, ignorando todos os alarmes pessoais anteriores, apaixonou-se por Ramiro.
O encontro virou namoro, o namoro virou noivado, e dois anos após se formarem, Ramiro e Solange estavam se casando.
Durante todo aquele período, Solange jamais se arrependeu de ter aceitado o convite de Ramiro para sair. Ele seguia sendo amável, seguia sendo gentil, maduro, bonito e atlético. Ainda gostava de ser o centro das atenções, mas ela passou a achar até bonitinho.
Nos primeiros anos do casamento a vida de Solange foi um mar de rosas. Ela levava a vida que sonhava, casada com um marido atencioso e apaixonado, trabalhavam duro, mas conquistavam pequenos confortos passo á passo, e eram felizes.
Porém, o tempo passou, e Ramiro foi tornando-se distante. Á princípio Solange achou que poderia ser cansaço, ela sabia que a vida que levavam era cansativa, ela própria se sentia terrivelmente cansada de quando em quando, por isso relevou.
Mas o distanciamento foi aumentando, e mudando Ramiro. Ele deixara de ser gentil, ainda era educado, mas cada vez mais frio, agia como um hóspede na própria casa, tratava Solange com frieza, afastando-a.
Essa frieza mudou, transformando-se em indiferença, e por fim, em falta de educação pura e simples. Ramiro destratava Solange, não respondia á suas perguntas, não lhe dava as devidas satisfações, passava o dia todo fora de casa chegando só de madrugada.
A situação tornou-se insustentável. Solange chamou Ramiro para que tivessem uma conversa, pedido ao qual ele atendeu de má vontade. Ela falou muito, ele olhou para os lados de braços cruzados como um moleque que tomava uma carraspana.
Quando Solange terminou, muito brava, de explanar como se sentia e como percebia o andamento daquele casamento, perguntou para Ramiro como ele se sentia. E ele disse apenas uma palavra. E aquela única palavra foi suficiente.
Ele disse que estava entediado.
Solange olhou incrédula para Ramiro. E ele continuou, disse que o casamento não era o que ele esperava, que as coisas estavam muito paradas, que ele abrira mão de muitas coisas ás quais prezava em nome daquela relação e não se sentia recompensado.
Solange, sentindo um punhal atravessado em suas costas, perguntou calmamente se ele queria se separar, ele, ainda de braços cruzados, afundado em uma poltrona como um moleque indolente, disse que tanto fazia.
Aquilo arrancou a explosão de Solange, foi o "Tanto faz." proferido por Ramiro sentado no sofá. As palavras aliadas á sua imagem de fedelho á contragosto formaram a imagem que deixou Solangem cheia de desgosto.
Ela disse que queria se separar. Que não queria levar aquilo adiante e que era melhor que ele saísse, e que permanecesse fora até que resolvessem tudo.
Foi depois disso que Solange passou meia hora chorando.
Foi depois de perceber que, não importa o quanto um homem seja seguro, o quanto seja bonito, atlético e cativante, ou o quanto ele goste de ser o centro das atenções, ou o quão galante ele seja, ele jamais deixa de ser um moleque. É o estado natural dos homens.
Não é que nós, homens, amadureçamos mais devagar do que as mulheres, é que nosso amadurecimento tem um nível que dificilmente é superado, e amadurecemos em alguns campos, e em outros não.
Os homens sempre terão um campo no qual serão tão maduros quanto um moleque de seis anos de idade, pode ser emocional, na sua relação com o time do coração, com gibis, com filmes... Sempre haverá um campo no qual o homem não será maduro o bastante.
Escolha o menos pior. Eu diria que gibis e video games são boas escolhas.
Feliz dia do Orgulho Nerd.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Resenha cinema: Robin Hood


Ridley Scott é um dos meus diretores preferidos não é de hoje. O cara tem no currículo filmes tão diversos como Alien - O Oitavo Passageiro, Os Duelistas, Blade Runner - O Caçador de Andróides, Thelma & Louise e Gladiador. Ele entende do riscado.
Toda a vez que ele acena com um filme novo, eu me coço e fico na espera, e raramente é em vão. Desde que foi anunciado que ele reimaginaria Robin Hood em um filme que tinha o nome de trabalho Nottingham, e que se reuniria á um de seus colaboradores mais costumazes, Russel Crowe, com quem já havia feito Gladiador, Um Bom Ano, O Gângster, e Rede de Mentiras eu estava imaginando que tipo de abordagem Scott usaria em uma nova encarnação do mito do herói que roubava dos ricos para dar aos pobres. Ontem, finalmente descobri, e gostei muito.
No século XII, o rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston) retorna da terceira Cruzada falido, e, acompanhado de seu exército, saqueia tudo em seu caminho até a Inglaterra. No seu exército está Robin de Longstride (Crowe), um hábil arqueiro, homem corajoso e honesto, honesto demais para seu próprio bem, que, junto dos amigos Allan A'Dalley (Alan Doyle), Will Scarlet (Scott Grimes) e Little John (Kevin Durand) acaba preso por falar demais na presença do rei Ricardo em pessoa.
Após a morte de Ricardo durante o cerco á um castelo na França, Robin e seus amigos fogem, apenas para, poucos dias depois, se depararem com uma emboscada liderada por Sir Godfrey (Mark Strong), nobre inglês aliado do rei francês Felipe, á Robert Loxley e um grupo de cavaleiros que levavam a coroa de Ricardo de volta á Londres.
Loxley, ferido mortalmente, incumbe Robin de devolver a espada de seu pai, Walter, em Nottingham. Longstride aceita a tarefa, e, com seus amigos, assume as identidades de Loxley e dos demais cavaleiros mortos, o que lhes garantirá o retorno á Inglaterra, onde a coroa de Ricardo passará á seu irmão mais novo, John (Oscar Isaac), um nobre irresponsável arrogante e burro, que faz ouvidos moucos ás advertências do conselheiro William Marshall (William Hurt) e abre as portas da côrte á Godfrey, que, sob as ordens de Felipe da França, planeja enfraquecer a Inglaterra com guerra civil para então, tomá-la.
De volta á Inglaterra, Longstride chega á Nottingham, onde conhece o pai de Robert, Walter Loxley (Max Von Sidow, brilhante.) e sua nora, a bela e destemida Marion(Cate Blanchett, eu amo essa mulher), falidos, endividados e acossados pelos cobradores da coroa britânica. Ele devolve a espada á Walter e é convencido por este á permanecer em Nottingham, onde desempenhará um importante papel na conspiração que se segue.
Pois é, não parece lá muito com o Robin Hood ao qual estamos acostumados. Onde estão os homens felizes? Onde está o frei Tuk? Cadê roubar dos ricos pra dar aos pobres? O xerife de Nottingham, a floresta de Sherwood, os órfãos?
Acredite, ao longo da projeção tudo estará lá, se não da forma como conhecemos, de maneira mais seminal. O Robin Hood de Scott é uma história de origem, um prequel da lenda clássica que todo mundo conhece, equilibrado sobre algum lastro histórico. No final das contas é um produto muito divertido, visualmente maneiraço, com ótimas sequências de ação e atuações seguras de seus atores principais.
Tem lá seus furos, como a quantidade generosa de coincidências felizes ou a presença de Marion na batalha final, mas é uma aventura épica sólida e agrada aos fãs do gênero, afinal, é Ridley Scott, cara.

"Ergam-se, e ergam-se de novo, até que os cordeiros tornem-se leões!"