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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Resenha DVD: Preciosa - Uma História de Esperança


Sábado assisti a'O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, passei horas agradáveis em companhia de pessoas de quem eu gosto, e, ao chegar em casa por volta das cinco e quinze da matina, percebi que tinha alugado o filme Preciosa - Uma História de Esperança, e ainda não havia assistido.
Dando sequência á minha meta de assistir todos os filmes concorrentes ao Oscar, enfiei o disco no DVD, e assisti.
Estava curioso, queria ver se a atuação de Mo'nike como a mãe da protagonista era fodona como alardeavam, queria ver se o filme era de fato, uma máquina de extrair lágrimas, e se Gaborney Sedibe, a Preciosa do título, era tão promissora quanto foi comentado. Se o filme não fosse nada disso, ainda haveria Paula Patton (Benzadeus!), então, não podia ser de todo ruim.
Preciosa conta a história de Caireece Precious Jones (Gaborney Sedibe), uma adolescente de dezesseis anos, negra, obesa e analfabeta funcional, ela divide seu tempo entre a escola e a casa onde vive com sua mãe (Mo'nike, ótima no papel.). Precious sofreu abusos sexuais recorrentes do pai, o que lhe rendeu uma filha, apelidada de Mongo, por ser portadora de síndrome de Down, e uma segunda gravidez. Não bastassem os abusos sexuais do pai, Precious ainda convive com os abusos psicológicos e físicos de sua mãe, Mary, que a ofende, espanca e explora enquanto assiste TV, come e fuma esperando pelo benefício do seguro-social.
A segunda gravidez de Precious leva a diretora do colégio que ela frequenta á encaminhá-la á uma escola alternativa.
Lá, ela conhece a profesora Blu Rain (Paula Patton, linda como sempre e emprestando um quê de distanciamento á sua personagem, conferindo-lhe mais veracidade.), que lhe mostra que existe outro caminho á seguir além do que leva á auto-comiseração.
Agora, falando sério, dá pra imaginar um filme mais clichê? Estão ali todos os elementos do dramalhão feito para a TV que recheava o Cinema em Casa do SBT nos anos oitenta. A jovem introspectiva que se torna agressiva pelos abusos, a mãe violenta e repelente que não ajuda a filha, a professora engajada que lhe mostra o caminho da luz, isso sem comentar a assistente social senhora Weiss de (uma irreconhecível, no bom sentido) Mariah Carey. Como, então, esse filme concorreu á tantos prêmios?
Bem, pesa aí a mão do diretor Lee Daniels, que ao invés de investir nas lágrimas fáceis prefere manter uma câmera na mão e alguma frieza na tarefa de "testemunhar" o que a mulherada faz no filme. Essa frieza certamente é a maior qualidade de todas as atuações, de Gabourne, que empresta agressividade e honestidade á Precious, até a melancolia de quem já viu tudo da senhora Weiss, passando pela estagnação enfurecida de Mary.
No final das contas, Preciosa é um bom filme; Embora em certos momentos eu tenha ficado com a impressão de que o roteiro se ocupou apenas de empilhar desgraças e mais desgraças em cima de uma pessoa só (Á certa altura eu já estava esperando que ela ficasse inválida ou que um de seus filhos morresse...) diante de uma câmera trêmula pra dar sensação de realidade na veia, as boas atuações e as escolhas acertadas do diretor, garantem a qualidade do programa. E ainda tem a Paula Patton. É um bom filme, sim, e merece ser assistido.

"Por favor, não minta pra mim, senhora Rain. O amor não fez nada por mim, exceto me espancar... Me estuprar... Me chamar de animal. Me fazer sentir inútil! Me deixar doente!"

Resenha Cinema: O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus


Sou fã de Terry Gilliam. Fã de carteirinha, um de meus filmes preferidos é O Pescador de Ilusões, adoro Os 12 Macacos e o Monty Python, curti Brazil - O Filme, enfim, gosto muito do trabalho de Gilliam, até o irregular Os Irmãos Grimm tem cadeira cativa na minha estante de DVDs, e ainda sonho em ver, um dia, seu (azaradíssimo) filme de Dom Quixote, mesmo que seja sem Johnny Depp.
Sendo, pois, fã do cineasta, foi com grande ansiedade que corri pro cinema no sábado à noite para assistir O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, seu filme mais recente.
O longa conta a história do doutor Parnassus (Christopher Plummer, excelente.), um sábio imortal que viaja pelo mundo com seu espetáculo itinerante, em que conduz a imaginação das pessoas por um mundo mágico até que elas possam escolher entre a sabedoria e a iluminação, ou entre a danação e as trevas.
Acompanhado de sua trupe, formada por Anton (Andrew Garfield), Percy (Verne Troyer) e sua filha Valentina (Lily Cole), Parnassus segue com sua rotina escondendo um segredo: Mais de mil anos atrás, ele iniciou uma rotina de apostas com Nick, o diabo (Tom Waitts, maneiro.), que lhe concedeu imortalidade em um jogo de arrecadação de almas.
Acreditando ter superado o coisa-ruim, Parnassus continuou jogando com o capeta, até que, apaixonado, fez sua aposta mais arriscada, pedindo juventude e vigor em troca de qualquer filho que viesse a ter. Parnassus manteve-se sem filhos até que, milagrosamente, sua mulher engravidou aos sessenta anos, gravidez que gerou Valentina, que, ás vésperas de completar dezesseis anos, está prestes á ser coletada pelo inimigo de seu pai.
Parnassus, hoje um pálido reflexo do homem que foi, está desesperado e entregue á bebida, até que Nick surge, e oferece um último acordo á ele: Quem coletar cinco almas primeiro, vence, e mantém Valentina.
Desesperado ele aceita, embora sejam novos tempos, e seu espetáculo já não tenha o apelo que teve em outros tempos, Parnassus parte para o tudo ou nada, mas precisará de ajuda para superar o diabo e salvar sua filha e ela chega na forma de Tony (Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrel, todos muito bem), um estranho amnésico que eles encontram pendurado pelo pescoço na ponte de Londres e o convence á repaginar seu número para vencer a aposta derradeira, mas será que Tony é confiável?
Tá aí a premissa, maneira, original, e, quando vemos o filme, as boas atuações e o visual único empregado por Gilliam á seus filmes tornam a experiência toda ainda mais maneira.
Mas o filme tem lá seus defeitos. A morte de Ledger durante as filmagens, que forçou a participação dos parceiros Depp, Law e Farrel certamente dá uma quebrada no ritmo do filme. A participação dos três atores, fazendo o papel de Tony no mundo imaginário é legal, e casa bem com o tom da história, entretanto, o terceiro ato me deixou com uma sensação de que aquele, no final das contas, não foi bem o filme que Gilliam queria fazer, mas foi o que ele pôde fazer considerando tudo. O resultado é um ritmo um pouco irregular, especialmente levando em conta a cartilha dos filmes hollywoodianos que vemos sempre. No final das contas, ainda gostei do filme, e continuo fã do Gilliam, de quem quero continuar assistindo filmes, de preferência, filmes com trajetórias mais tranquilas por trás das câmeras.

"Não mate o mensageiro!"

sexta-feira, 11 de junho de 2010

FIFA WORLD CUP



Era um sábado, ela estava na cozinha, lavando a louça do café da manhã que acabara de tomar, ele nem tinha tomado café da manhã, estava na sala, sentado no sofá.
-Amor, vamos à casa da mãe, mais tarde?
-Hmmm.
-Amor? Ô, amor...
-Quê?
-Vamos na casa da mãe mais tarde?
-Fazê o quê, lá?
-Ah, ver ela, como ela tá... Vamos?
-Hmmm...
-Rodolfo?
-Que horas?
-Como que horas? Tu tem algum compromisso em pleno sábado?
-Tenho.
-Que compromisso?
-Hm?
-Que compromisso que tu tem, Rodolfo?
-Inglaterra e Estados Unidos, três da tarde.
-Quê?
-Inglaterra e Estados Unidos, jogo de abertura do grupo C.
-Ah, pelo amor de Deus, Rodolfo, futebol?
-Futebol, não, Copa do Mundo. É a meca do futebol, é uma novela feita só de últimos capítulos.
-Ah, Rodolfo... Por favor. Futebol tem duas vezes por semana o ano inteiro...
-Copa do Mundo é uma vez a cada quatro anos, só.
-Tá, tá bem. A gente pode ir depois do jogo, então. Acaba o quê, lá pelas cinco?
-O jogo, sim, mas aí tem as mesas redondas repercutindo a rodada, que só terminam lá pelas oito.
-Oito... Tá vamos ver, Acho que dá pra sair oito horas e chegar lá em uns vinte minutos-
-Não, não, oito e quinze tem o Jornal Nacional, eles têm reportagens especiais da Copa, e mostram os gols da rodada e já começam a antecipar a rodada de amanhã.
-Ah, que é isso, Rodolfo? Tu já não vai ter visto os gols durante o jogo? Pra que ver de novo depois? Eu não entendo isso. E amanhã? Podemos almoçar lá amanhã?
-Hm?
-Rodolfo! Presta atenção no que eu tô te falando! Vamos almoçar com a minha mãe amanhã?
-Que horas?
-Como "que horas", Rodolfo? Á que horas se almoça? Meio dia. Uma hora, vá lá, já que é domingo.
-...
-Rodolfo!
-Quê?
-Almoço! Amanhã! Uma da tarde! Na minha mãe!
-Não posso.
-Como não pode? Por que não pode?
-...
-RODOLFO!
-Quê?
-Por que não pode amanhã?
-Hm?
-Por que tu não pode almoçar lá amanhã, Rodolfo?
-Sérvia e Gana. Jogo oito, grupo D, começa onze da manhã.
-Tem TV na casa da minha mãe, Rodolfo. Dá pra tu assistir o jogo lá essa porcaria passa em todos os canais, mesmo.
-Não dá.
-Como não dá? Por que não dá?
-Antes de Sérvia e Gana tem Argélia e Eslovênia, jogo 6, grupo C. Começa oito e meia.
-Ah, mas que barbaridade. Esse mês vai ser todo assim? Tu sentado na frente da TV feito um zumbi? Eu falando contigo e tu sem prestar atenção, de olhos grudados na TV?
-...
-RODOLFO!
-Quê?
-Tu ouviu o que eu perguntei?
-Ouvi.
-E então?
-Amanhã não posso.
-Não foi isso Rodolfo! Eu perguntei se esse mês inteiro vai ser assim!
-Ah.
-E então?
-Então, o quê?
-Vai ser assim?
-Não.
-Ah, não?
-Não, eu trabalho durante a semana, só os finais de semana vão ser assim.
-Eu não vou suportar isso, Rodolfo. Tu tá me ouvindo? Eu não vou aguentar isso. Eu não sou palhaça, tu não pode ficar fazendo isso comigo, eu sou uma pessoa de verdade, com sentimentos de verdade, e, não me importa se é só uma vez a cada quatro anos, podia ser uma vez a cada dez anos, eu não vou ser tratada desse jeito dentro da minha casa, entendido?
-...
-RODOLFO!
-Shhh. Olha o hino da Coréia do Sul, que lindo.
-Eu vou embora! É isso. Eu vou embora e só volto no final desse evento imbecil. Só volto quando a FIFA libertar os homens do mundo. Ouviu, Rodolfo? Eu vou sumir o mês inteiro, tu nem tem ideia do que eu vou fazer. Tu vai passar um mês vendo vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola e eu vou curtir a vida, entendeu? Não vou ser feita de palhaça pelo futebol. Quando eu voltar, se eu voltar, tu vai ficar te perguntando o que eu fiz o mês inteiro, e se tu me perguntar tu sabe o que eu vou dizer? Sabe?
-...
-RODOLFO!
-âhn?
-Tu sabe o que eu vou dizer?
-Pra quem?
-Pra ti, Rodolfo! Tu sabe o que eu vou te dizer?
-O quê?
-Que não interessa, Rodolfo, eu vou dizer que não interessa, que se tu pode passar um mês inteiro me ignorando, eu posso passar a vida inteira te sonegando uma informação. Vou dizer que não te interessa.
-Quando?
-Quando o quê, Rodolfo?
-O que tu tava falando, aí...
-O que... Eu falei um monte de coisa, Rodolfo, nem tenho como repetir tudo.
-...
-Eu vou embora. É isso. Vou embora. Tchau. Te diverte com o Luciano do Valle, com o Galvão Bueno, te diverte com eles porque eu fui.
-Nêga!
-Ah, eu sabia. O quê? Vai te desculpar?
-Traz uma cerveja quando voltar.
-VAI PRO INFERNO, RODOLFO!

Começou a Copa do Mundo. Mulheres do Brasil, tremei.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Tic-tac II


Retardo emocional. Era o diagnóstico que Adalberto fazia de si próprio:
Retardo emocional. Se alguém perguntasse á Adalberto o que significava esse diagnóstico, ele, de bom grado, explicaria que era a incapacidade de participar de um relacionamento como uma pessoa adulta e saudável. Adalberto não sabia fazer isso. Ele gostava de se relacionar, ele gostava de gostar de pessoas. Adalberto gostava de pessoas. Adalberto flertava, Adalberto fazia amizades (Poucas, afinal, era um misantropo com fortes tendências á ter um saudável misto de desconfiança e ódio da humanidade, mas ainda assim...), ele se apaixonava, amava. Ás vezes era fugaz, em outras durava anos.
Adalberto sabia o que queria. Á despeito de olhar pela janela e ler os jornais, e ver os noticiários e saber que aquele mundo estava com o prazo de validade bem próximo de expirar, e que o mais correto seria que ninguém mais tivesse filhos para garantir a extinção da raça humana caso a mãe natureza falhasse, ele ainda assim, sabia.
Adalberto queria ter uma família. Ele queria filhos, queria ensinar um moleque a olhar sob a saia das meninas e chutar uma bola, e queria encher o coração dos pretendentes de sua filha de pavor quando ela fosse sair pela primeira vez. E, acima de tudo, Adalberto queria uma mulher com quem pudesse envelhecer, alguém para lhe dizer que calças com prega estavam fora de moda, e que aquela camisa azul ficaria medonha com o blazer marrom. Alguém que perguntasse o que ele havia feito o dia todo, e em cujo colo ele pudesse deitar a cabeça se o dia houvesse sido medonho. Ele queria alguém de quem tomar conta, alguém á quem pudesse garantir a segurança, por mais improvável que seja a ideia de segurança em um mundo que está se esfacelando á olhos vistos. Ele queria uma companheira para dividir os dias, e as noites, e queria amar e ser amado. Mas nesse mundo? Sendo ele quem era? Sendo como era? Seria justo arrastar uma mulher especial o suficiente para amá-lo (E amar Adalberto era, de fato, tarefa para poucas e bravas pessoas.) para uma existência repleta de mazelas e obstáculos?
Eram os desejos de Adalberto, amar, ser amado, veruma família crescer... Pelo menos quando ele não estava vergando sob o peso do próprio pessimismo e da própria falta de noção de relacionamentos.
Adalberto já havia estado em relacionamentos, claro, mas sempre percebeu que não fora a pessoa que deveria ser. Ele sempre acabava interpretando um papel, e jamais era ele mesmo, se doava de menos, ou se doava demais, e então, magoava a pessoa que estava com ele, ou acabava ele, magoado.
E, para explicar sua dificuldade em se relacionar, o diagnóstico encontrado por Adalberto era esse:
Retardo emocional.
Relacionamentos, para Adalberto, eram tão misteriosos e complexos quanto física nuclear para uma criança de seis anos de idade.
A diferença é que Adalberto era uma criança de seis anos que, como Mahmmoud Ahmadinejar e Enéias Carneiro, queria uma bomba atômica.
Adalberto queria se relacionar, ele sabia com quem, mas ele não sabia como. E, com o planeta se esfacelando ao seu redor, ele via o relógio tique-taqueando, e imaginava se daria tempo para isso.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Resenha DVD: Amor Sem Escalas



Sábado dei sequência à minha peregrinação para assistir todos os concorrentes ao Oscar desse ano e ver se alguém me convence que Bastardos Inglórios não foi um injustiçado na categoria Melhor Filme.
Passei na locadora e apanhaei Amor sem Escalas, o filme de Jason Reitman, jovem diretor dos bons Juno e Obrigado por Fumar, estrelado por George Clooney.
A despeito do infeliz título em português remeter à uma comédia romântica das mais açucaradas, Amor sem Escalas (Up in the Air, no original) não tem anda de coma diabético. É um filme ácido, mas não indigesto.
Ryan Bingham (Clooney, ótimo.) é funcionário de uma empresa contratada para dar más notícias.
Ele viaja pelos Estados Unidos demitindo empregados de outras companhias, e livrando os chefes da ingrata tarefa. Ele é bom no que faz, e, mais importante, gosta do que faz. Ryan passa mais de 300 dias por ano viajando. Ele mora em um pequeno apartamento alugado onde praticamente não entra, tem duas irmãs que praticamente não vê, é membro de todos os clubes de fidelidade que possam lhe reverter milhas aéreas e ajudá-lo a alcançar seu objetivo:
Acumular dez milhões de milhas.
Ele também ministra palestras motivacionais em que apresenta a teoria da mochila vazia, ensinando as pessoas que não há nada de errado em não querer assumir compromissos de qualquer espécie. Na verdade, ao fazê-lo o indivíduo estará livre para se movimentar sem carregar o peso de relações interpessoais.
Ryan é um fiel adepto da filosofia em questão, em suas viagens ele coleciona relacionamentos fugazes sem jamais se amarrar, relacionamentos como o que engata com Alex (Vera Farmiga, excelente.), uma mulher independente e interessante que aparentemente partilha das convicções de Ryan, e mais do que isso, é, nas próprias palavras, um Ryan com uma vagina.
Ryan está feliz, até que sua empresa, pensando em aumentar os lucros no momento em que os EUA passam por uma crise econômica que lhes é muito favorável, abraça a ideia de utilizar uma nova tecnologia na arte de demitir.
Natalie Keener (Anna Kendrick, um achado!) desenvolveu o sistema que aumenta a eficácia do processo de dispensa de empregados ao utilizar a vídeo-conferência através da Internet para se reunir com os demitidos. Aumento de produtividade e redução dos custos, demitindo muito mais rápido, e mantendo todos em terra. Um pesadelo para Ryan, que subitamente se vê ensinando a arte na qual é mestre à Natalie enquanto se envolve cada vez mais profundamente com Alex, a ponto de, de fato, pensar em levar uma vida estável, longe dos aviões, aeroportos, locadoras de automóveis e hotéis.
Não se engane, apesar da premissa, Amor sem Escalas não é um desses filminhos de sessão da tarde, e jamais se torna um romance tradicional.
As ótimas atuações, o bom roteiro, e a direção segura de Reitman garantem a diversão, e até a reflexão a respeito da artificialidade das relações humanas em tempos de viagens, clubes de fidelidade e tecnologia de atualizações minuto a minuto.
Não é melhor que Bastardos Inglórios, mas é um ótimo filme.

"Todas as pessoas que já construíram um império ou mudaram o mundo, estiveram onde você está agora. E foi por terem estado onde você está, que elas foram capazes de fazê-lo."

sexta-feira, 4 de junho de 2010

...

Quando eu nasci, o pai de meu pai, um homem austero e até bruto, já havia morrido. Eu jamais o conheci, exceto pelos relatos de meu pai e meus tios que, confesso, não me deixaram com a impressão de ter perdido muita coisa.
O pai de minha mãe, eu também não cheguei a conhecer, mas por outras razões.
Ele era a ovelha negra de uma família do interior do Rio Grande do Sul, o que, à época, provavelmente convencionava-se caracterizar como um pândego. Um homem com gosto pela bebida, mulheres erradas, e que não era talhado para a vida em família, o que causou a separação dele e de minha avó. Ou, pelo menos, é a versão que me foi contada. Jamais o conheci, então, se ele tem uma versão diferente para os fatos, eu mantenho aberta a porta para eventualmente ouví-la, embora deva admitir que, após mais de 28 anos exposto á uma versão, fico inclinado a aceitá-la.
Enfim, como eu dizia, não conheci meus avós homens. Conheci um bisavô, o seu Costa, que era muito velhinho à época, conversava pouco, e, mesmo que falasse muito, eu era pequeno demais para discorrer acerca de qualquer tema com ele, exceto, sei lá, carrinhos e chupetas.
Minha avó materna, após se separar de meu avô, se casou novamente. Ela casou com Henrique, um homem de biografia tão vasta e diversificada quanto um secos e molhados do interior.
De imediato, lembro que ele foi marinheiro em São Paulo, lutou na Guerra da Coréia, foi boxeador na Argentina, agente da guarda-costeira, policial federal... Um sem-número de profissões, que ele abraçou e abandonou ao longo da vida.
Quando o conheci, de fato, lá com meus seis, sete anos de idade (Ele me conheceu bem antes, com dois dias de vida. Mas eu não me lembro.), lembro de achá-lo um sujeito durão, algo rude de vez em quando, mas era divertido. Tinha uma constituição sólida, era daqueles sujeitos que, quando tu olha, percebe que ele pode ser perigoso em uma briga independente da idade. Mas era uma cara que ele usava apenas externamente. Em casa era um sujeito bonachão, piadista, ás vezes até bobo.
Me lembro de sua enigmática pasta executiva, onde ele tinha os papéis de seu trabalho e um par de revólveres nos quais eu era proibido de tocar, exceto na presença dele e quando estavam descarregados. Me lembro de assistir filmes de Charles Bronson e Clint Eastwood e Silvester Stallone com ele. De acompanhar as Olimpíadas e corridas de Formula 1, ele sentado em sua poltrona, eu no chão, bem na frente da TV.
Henrique e minha avó não tiveram filhos, ele não tinha família, exceto por um irmão nos EUA, e uma irmã na Espanha. Minha mãe e minha tia não o chamavam de pai, o chamavam pelo primeiro nome, Henrique, e eu cresci acostumado a chamá-lo assim, também. Ás vezes, eu o encontrava no Centro de Porto Alegre, onde ele seguia trabalhando aos setenta e tantos anos. Quando o via, geralmente ele estava conversando com amigos, e me cumprimentava apertando muito a minha mão, e fazendo movimentos de queda-de-braço, então dizia que um dia eu teria que ganhar dele, e me apresentava aos amigos como seu neto.
Henrique jamais foi homem de ficar doente. Era um sujeito durão, como eu já disse. Mas a idade chegou. E, cerca de dois anos atrás ele foi acometido por um violento câncer no intestino. Só descobriu a doença em estágio avançado, o que dificultou o tratamento.
Passou por um par de cirurgias às quais os médicos não tinham certeza se sobreviveria. Sobreviveu. Poucos dias depois, estava subindo as escadas do prédio onde vivia. Mas nem tudo foram rosas.
As cirurgias, procedimentos invasivos e traumáticos, fizeram mal a ele. Ele começou a sofrer lapsos de memória, tonturas, ainda sofria com o câncer, que não fora totalmente eliminado e requeria cuidados.
A vida dele se tornou episódica. Ás vezes ele lembrava das coisas, ás vezes não.
Poucas semanas atrás, ele havia esquecido quem eram a minha tia e a minha avó, a quem se referia como "aquela enfermeira camarada".
Mas quando eu o visitava, ele sempre se lembrava de mim.
Pelo nome.
Dizia sempre que me conheceu quando eu tinha apenas dois dias de idade, e que me carregara no colo, e era capaz de lembrar que fora eu a instalar a antena da Televisão à que assistia atentamente na sala oito anos antes.
Na quarta-feira, durante a manhã gelada. Ele estava andando com a minha avó na rua. E sofreu uma tontura. Minha avó me chamou, pedindo que eu o ajudasse a levantar e tomar um táxi de volta para casa. Quando cheguei, ele estava sentado na calçada, parecia confuso. Dizia que se levantaria em um minuto.
Então me olhou e me chamou pelo nome.
Ele não se levantou. A despeito dos serviços da Brigada militar e dos esforços do SAMU, Henrique morreu na Avenida Borges de Medeiros ás dez para as onze da manhã da quarta-feira, dois de junho de 2010, 87 anos após nascer.
Durante seu funeral, na noite do mesmo dia, me lembrei do sujeito durão que me ensinou a amarrar os sapatos e cortar a carne com faca.
E só então percebi, que havia perdido meu avô.

Resenha cinema: Tudo Pode Dar Certo


Encarei, na terça-feira, minha segunda matinê em menos de uma semana, sessão das quatro e meia da tarde no Guion Lima e Silva, recanto tradicional de filmes de circuito reduzido. Foi lá que encontrei Tudo Pode Dar Certo, tradução meio preguiçosa pra Whatever Works, mais recente trabalho de Woody Allen á chegar as telas por aqui.
Sou fã de Allen, sério, você pode não acreditar que um nerd que ama sci-fi, quadrinhos e todas essas coisas gosta de Allen, mas eu gosto.
Não sou fã de carteirinha de todos os filmes dele, mas gosto demais de vários como Noivo Neurótico Noiva Nervosa (Ou será o contrário? Geralmente trato esse filme pelo título original, Annie Hall...), Na Era do Rádio, Poderosa Afrodite, Sonhos de um Sedutor, curti a fuga européia dele que rendeu Scoop, o excelente Match Point, Vicky Christina Barcelona (que foi o melhor filme do Almodóvar que eu já assisti), enfim, gosto dos filmes do Allen, e, naquelas rodas de amigos em que, quando um filme dele é mencionado alguém diz "Ah, tá louco, com esse cara...", eu sempre defendo á ele e sua filmografia (Não se preocupe, Woody.).
Mas, á despeito disso, vou confessar que jamais, que eu me lembre, havia assistido um filme do Allen no cinema. Sério. Não estou vasculhando minhas memória com muito afinco, mas, que eu me lembre, nunca havia visto um filme do Allen no cinema. Acho que é comum, me lembro de, em uma entrevista de divulgação de Scoop, o próprio Allen ter retrucado um elogio de Hugh Jackman com um comentário á esse respeito.
Mas, então, na terça-feira remediei isso. E não me arrependo nem um pouco. Tudo Pode Dar Certo é um filme ótimo.
Na história conhecemos Boris Yellnikoff (Larry David, o melhor alter-ego de Allen que eu já vi em um filme.), físico brilhante, inclusive tendo sido considerado para um Prêmio Nobel, ele vergou sobre o peso da própria misantropia e neurose, e, após uma tentativa fracassada de suicídio que resultou em uma lesão que o faz mancar e um divórcio, vive sozinho em Nova York dando aulas de xadrez para crianças(Geniais as sequências em que ele "ensina" aos pimpolhos a arte do enxadrismo.).
Ele vive sozinho, defendendo-se do mundo que o cerca com sarcasmo, cinismo e cetisismo em quantidades industriais, e acha que está bem.
As coisas mudam quando Melody Celestine (Evan Rachel Wood, linda, rescindindo doçura e frescor.), uma jovem e desmiolada concorrente de concursos de beleza do Mississipi que fugiu de casa aparece em sua porta.
A jovem pede guarida, á contragosto Boris aceita, e eles passam á viver juntos até que Melody consiga um emprego e possa se virar sozinha.
Na relação dos dois estão alguns dos melhores momentos do filme. Melody é uma menina avoada, burrinha, doce e gentil, Boris é um velho cínico, falastrão e agressivo, mas eles se entrosam. Melody tenta entender Boris, nem sempre consegue, mas pelo menos toca o velho rabugento. E a parceria se torna um casamento. Um casamento feliz.
Pelo menos até a mãe de Melody, Marietta (Patricia Clarkson), encontrar a filha, desaprovar a relação dela com Boris, e se inserir na vida do casal ao mesmo tempo em que procura seu lugar no mundo após a separação do marido, que mais tarde também surge em Nova York, e se vê na mesma situação vivida por Melody e Marietta. Tudo isso tendo por testemunha Boris, o gênio excêntrico que enxerga o cenário mais amplo (Táo amplo que, em vários momentos quebra a quarta parede e fala com a audiência.) e não passa incólume pela experiência.
Enfim, apesar de gstar de Scoop, Match Point, Viky Cristina Barcelona, é bom ver Woody Allen de volta á Nova York, aos judeus neuróticos e ás mulheres doces. Á despeito do que Boris anuncia logo no início da projeção, Tudo Pode Dar Certo é um "feelgood movie". Pelo menos, á despeito de ter descoberto que sou Boris Yellnikoff, eu me senti bem.

"É isso que eu não posso repetir o suficiente, qualquer amor que você puder colher e partilhar, qualquer felicidade que puder agarrar ou prover, qualquer medida temporária de graça, tudo pode dar certo."