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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Resenha DVD: Capitalismo: Uma História de Amor


Desde que assisti Roger & Eu, pescado ao acaso durante uma madrugada insône de TV vários anos atrás, eu me tornei fã de Michael Moore.
Li alguns dos livros do sujeito (Stupid White Man, e Cara Cadê meu País? estão na minha estante.), e sigo fielmente seus documentários.
Não sou ingênuo á ponto de acreditar que o sujeito faz "cinema verdade". Eu sei que Michael Moore edita seus filmes com extremo cuidado e joga com as emoções da platéia. Sei que seu "cinema verdade" é tão cinema quanto cinema pode ser, baseado nos cuidados da produção, da trilha e montagem.
Michael Moore é panfletário, também. É militante, mesmo. Mas, talvez pela saída de George W. Bush da Casa Branca, Moore, nesse seu último trabalho, parece um pouco mais leve, ainda mais do que esteve no bom S.O.S. Saúde.
Capitalismo: Uma História de Amor mostra como o sistema econômico que tornou os EUA a maior potência do planeta demorou pra cobrar seu preço mas o cobrou com juros e correção monetária.
O filme de Moore é um bem fundamentado documento de como a América vergou ante o peso do corporativismo, de como o povo dos EUA foi colocado em segundo plano pelas classes dominantes e no quanto as pessoas estão dispostas á sacrificar em nome de uma margem de lucros maior.
Como em seus filmes anteriores o cineasta mistura elementos reais e ficcionais, embasamento histórico e retórica pura, não para mostrar um cenário amplo e deixar que o espectador tire suas conclusões, mas contando uma história onde ele aponta acusadoramente quem são os mocinhos e quem são os vilões.
É impossível não ter vontade de esganar Alan Greenspan, Bernie Madoff, Regan, Bush Jr., e outros "vilões" do filme quando somos confrontados com o resultado que o sistema gera, como as pobres famílias sendo despejadas de suas casas.
Pra muita gente esse é o principal defeito da filmografia de Moore, o fato de o cineasta manipular de forma bastante clara a mensagem que quer que seu filme passe. Quem não se importa de ser conduzido, ou consegue flutuar acima da correnteza de argumentos do diretor sem dúvida irá aproveitar o passeio.
Mais do que câmeras fechando nos olhos marejados de uma senhora de meia idade que tem que limpar a casa pra entregá-la ao banco que lhe tomou a propriedade Capitalismo: Uma História de Amor é um filme divertido, bem construído, e que ainda oferece ao espectador no que pensar.
Michael Moore pode ser panfletário, militante, manipulador e o que mais quiserem chamar ele, mas faz cinema de qualidade, e, quando vou ao cinema, é isso que eu quero ver.
Se no futuro ele dirigir um documentário que achincalha os niilistas misantrópicos talvez eu me sinta atingido e o deteste, até lá, sigo sendo fã de Moore e seu cinema "verdade".

"Isso é o capitalismo. Um sistema de dar e retirar... Normalmente retirar."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Testosterona


Houve um tempo, quando os anos oitenta se transformavam nos noventa, em que a vida era boa.
Era uma época em que criança era criança e agia feito criança, em que os adultos trabalhavam, e agiam feito adultos. Eu lembro que eles se queixavam bastante da inflação, dos milicos, e depois do Sarney, e depois do Collor.
Não existia a TV á cabo, não existia internet e até era bom, por que com a inflação que tínhamos na época, sabe Deus quanto pagaríamos mensalmente por uma sky, net ou banda larga.
Mas nem tudo era ruim, havia bons programas brasileiros na TV. Sério, não me refiro a novelas, embora, naquela época, tenham havido algumas que eram boas, ou, pelo menos, pareciam boas. Havia seriados como TV Pirata e Armação Ilimitada que eram tão divertidos pra nós, na época, como Lost e Heroes são pra rapaziada de hoje.
Video cassete era um luxo ao que poucas pessoas tinham acesso, pelo menos no começo, e cinema era coisa pra casais de namorados, então se via filmes na TV aberta, mesmo, em especial na Globo.
Dia de filme na TV era segunda-feira, Tela Quente (que permanece até hoje, embora passando filmes que todo mundo já viu trocentas vezes.), que passava os filmes inéditos mais maneiros.
Foi como um legítimo filho dos anos oitenta e noventa que eu acompanhei as aventuras dos meus heróis cinematográficos preferidos na época da Tela Quente, todos os sujeitos durões que estrelavam filmes recheados de explosões ou pancadaria ou ambos e eram, claro, regados com muita testosterona.
Sylvester Stallone, com Rambo II (O primeiro Rambo passou no SBT no mesmo dia em que o segundo ia passar na Globo, concorrência total!) e Rocky 3, Arnold Schwarzenegger com Comando Para Matar, O Predador, e Conan - O Destruidor (Conan - O Bárbaro eu só vi bem mais velho, apesar de ser o primeiro filme.), Bruce Willis em Duro de Matar e Encontro ás Escuras (Eu sei, era uma comédia romântica, mas ele era o David de A Gata e o Rato, e, além de o filme ser divertido, tinha a Kim Basinger que era linda e o John Laroquette que tava hilário.).
Ainda tinha o Dolph Lundgren fantasiado de He-Man em Mestres do Universo e de "Punidor" em Justiceiro, o Van Damme quebrando tudo em O Grande Dragão Branco, Steven Segall jovem e magro, batendo em todo mundo, Chuck Norris distribuindo round-house kicks pra tudo quanto é lado, enfim, era um tempo simples, com heróis simples que tinham soluções simples pra tudo.
As histórias, via de regra, eram bem pobrinhas, eram pirotécnicos Homem x Exército reduzidos á duas premissas:
Vingança, onde matavam alguém querido ao mocinho (esposa e filhos costumavam ser as melhores pedidas), fazendo-o jurar vingança, vingança essa que geralmente envolvia matar batalhões e cometer algumas barbáries, ou Dever, onde não era mais, senão a obrigação profissional do mocinho (Policial ou soldado, eram profissões bem frequentes.) que o colocava em rota de colisão com o vilão.
Os vilões, aliás, eram um capítulo á parte. Unidimensionais até não poder mais, eram apenas malvados, não tinham lá muitas aspirações ou personalidade, eles eram cruéis e era isso (Pegue Clarence Boddicker, de Kurtwood Smith em Robocop, ou o Bennett de Vernon Wells em Comando para Matar, por exemplo.).
Isso pode parecer falha de roteiro ou desenvolvimento, mas serve á um propósito, por que, nos anos oitenta, os heróis eram sombrios e violentos, dominavam o cinema caras sem lá muita finesse, que estavam prontos pra explodir, esmigalhar ou triturar o crânio de seus inimigos como fosse possível, e que quase sempre tinham uma faca, pistola, escopeta, metralhadora ou um lança-granadas para ajudá-los a cumprir esse objetivo.
Por isso os vilões eram tão abjetos, sendo o vilão detestável, era mais fácil para a audiência curtir o momento em que o mocinho faria atrocidades com ele sem ter dó do desgraçado.
Os heróis, aliás, salvo raras exceções, também não tinham lá muita personalidade. Se no primeiro Rambo o personagem interpretado por Stallone ainda tinha um background e um espectro de emoções, nos demais ele era pouco mais que uma máquina de matar (o que Schwarzenegger encarnava com perfeição nos filmes de Exterminador do Futuro), tirando Martin Riggs (Mel Gibson em Máquina Mortífera) e John McLane (Willis em Duro de Matar.), heróis dos anos oitenta eram quase nada além de músculos, bofetões, tiros e uma dose cavalar de determinação e testosterona, basta comparar James Braddock, Nico Toscani e Jack Caine.
Hoje, olhando em perspectiva, podemos pensar que aqueles filmes eram ruins, mas eles não eram, eram aventuras despretenciosas e divertidas que apenas traduziam a eterna luta de bem contra mal sob as luzes de uma época sem lá grandes inspirações.
É pensando em como aqueles tempos eram divertidos e simples que eu estou seco pra ver Os Mercenários (The Expendables) que estréia hoje no Brasil.
Uma ode ao cinema de pancadaria e explosões dos anos oitenta dirigida, co-escrita e estrelada por um dos papas do gênero, Sly Stallone, com elenco de cascas-grossa da nova era e participações especiais de Schwarza e Willis.
Se eles explodirem tudo e distribuirem pancada á valer, sem duvida será o filme que eu espero.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Rapidinhas do Capita


O guri, com aquela cara de moleque que fez bobagem, estava sentado em uma banqueta de madeira no corredor que ligava a sala de estar à cozinha.
Sua expressão era bastante clara:
Aguardava um castigo.
Contrariando as ordens de sua mãe, o piá jogara bola dentro de casa quebrando a compoteira de cristal que ficava em lugar de honra na estante da sala.
Em sua defesa, ele dissera que fora sem querer, que fora um acidente. Ainda assim, a mãe lhe disse, enquanto juntava os cacos de cristal do chão:
-Tu vais ver quando teu pai chegar.
Aquela frase apavorou o piá. O pai era um sujeito duro, literal em suas ações e palavras. Quando dizia algo, cumpria, jamais deixara de cumprir uma promessa. O menino, mesmo com tenra idade, sabia que seu pai era homem de palavra, e que suas ações sempre davam lastro à suas promessas.
A revolta da mãe era justificada. A tal comporteira de cristal era, de fato, bem bonita, ela apanhara na casa da avó quando esta morrera. Não quis mais nada, mas a compoteira trazia á ela lembranças dos verões que passara na casa da avó. Agora estava destruída por conta da desobediência do fedelho.
A desobediência do fedelho não era, também, totalmente gratuita, era um dia chuvoso de verão, a primeira semana de férias, ele precisava de alguma atividade para gastar toda a energia acumulada. Acabou desobedecendo a mãe, e, agora, teria de enfrentar a plenitude da ira de seu pai, um homem austero e resoluto.
Ás seis da tarde o pai chegou, sua chave fazendo grande alarido enquanto ele destrancava a porta. Entrou, viu o pequeno sentado perto da cozinha e perguntou à esposa o que acontecera.
Ela narrou em detalhes toda a epópeia que culminara na destruição da compoteira de cristal.
O pai não disse nada. Soltou o primeiro e o segundo botões da camisa, tirou o casaco, pegou o filho pela mão e o levou até seu quarto. Acendeu a luz, abriu a janela e tirou o cinto.
Mandou que o filho ficasse parado e disse:
-Isso vai doer mais em mim do que em você.
Girou a peça de couro no ar e golpeou as próprias pernas. Repetiu a operação outras quatro vezes sob o olhar atônito do moleque.
Após terminar, olhou para o menino e disse:
-Que isso não se repita, entendido?

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Cristina amava adolfo. Que amava Camila. Que amava Fábio. Que era uma tremenda bichona, mas tinha medo de assumir por causa da família, então não saía com mulheres nem homens.
Camila não sabia disso, se soubesse, talvez tivesse dado abertura ás investidas de Adolfo, nesse caso, Cristina, que não sabia por que era ignorada pelo homem que amava, saberia o por quê e talvez não tivesse se unido aos Médicins sans-frontiére e morrido em Ruanda num conflito com as milícias armadas locais, nem teria deixado a carta que foi entregue ao Adolfo onde dizia com riqueza de detalhes por que tinha ido para a África.
A culpa não teria consumido Adolfo e ele não teria se recolhido à solidão e esquecimento, onde morreu sozinho. E Camila não teria desperdiçado a vida perseguindo Fábio até ficar velha e sozinha, e amarga depois que o rapaz sumiu.
Ele, no final das contas, foi o único que terminou feliz, se mudou para o Rio de Janeiro sem se despedir de ninguém, e lá, passou a ganhar a vida como Fabi Ferrari, travesti de programa.

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Ele era um tremendo chato. Não que não soubesse conversar, mas depois de vinte minutois conversando com ele, chegava-se á conclusão de que era o mais incrédulo dos homens, ele não acreditava em nada.
Religião, pra ele era tudo bobagem. Formas de a humanidade lidar com seu medo da morte e apego aos entes queridos, além de um mecanismo de controle.
Políticas sociais, pra ele era só uma ferramenta de um governo corrupto para se manter nas boas graças das camadas mais empobrecidas de uma população ignorante e que é a mais numerosa, o que, obviamente, garante reeleição.
Homem na lua, pre ele era um engodo, um filminho porcaria filmado atrás de um quintal em Houston, mal dirigido, mal editado e que se prestava apenas ao papel de propaganda americana pra fingir estar na dianteira da corrida espacial contra os Soviéticos. Outra maneira de manter o povo na coleira.
O que ninguém sabia, porém, é que ele acreditava que ela podia amá-lo como ele era, e isso, á despeito de todo o seu ceticismo, fazia dele o mais crédulo entre os homens.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O Poder do Argumento


Ele entrou no quarto rindo amarelo sob gritos de "babão", vindos da sala.
Tirou a camiseta e a jogou no banheiro contíguo. Ele ouvia os convidados conversando na sala quando ela entrou, também rindo.
Ele parara em frente ao guarda-roupas procurado uma outra camiseta para substituir a camisa suja de molho de tomate que acabara de tirar. Ela parou ao seu lado sorrindo, não estava embriagada, mas certamente bebera um pouquinho.
Ele perguntou se ela vira sua camiseta do seu Madruga. Ela se aproximou casualmente olhando o fundo do armário, e, sem aviso, virou-se para ele, beijando-o de forma ardente.
Sem parar, virou as costas dele para o armário empurrando-o para dentro e fechando a porta em seguida.
-Tá maluca? -Ele perguntou em um estranho misto de grito e sussurro com a cabeça entre os cabides.
-Shhh, ninguém vai perceber.
-Como ninguém vai perceber, mulher? Tá doida? E se alguém abre esse armário?
-Por que alguém abriria o armário?
-Hã... Pra procurar o casal que sumiu de repente da festa, quem sabe?
-O pessoal tá ocupado festejando, ninguém vai procurar a gente.
-"O pessoal"... Eu subitamente me vejo na obrigação de lembrar, são quatro casais. Acredite quando eu digo, em um grupo de oito pessoas, duas fazem uma falta danada.
-Mas os seis que sobraram falam pra caramba.
-Com a gente, Roberta, os seis que sobraram falam pra caramba com a gente, entre eles, não tanto.
-Ai, Anderson, não seja chato.
-Desculpa, desculpa, que cabeça a minha, que tipo de estraga-prazeres eu sou por querer que nós façamos isso depois que os convidados forem embora.
Ela soltou ele.
-Qual o problema?
-Como qual o problema? Lá fora tá cheio de gente que nós, não, não, que tu convidou.
-E daí?
-E daí que, se os anfitriões desaparecem eles provavelmente irão procurar antes de ir embora.
-Tá bem, se tu quer tanto ir pra lá ficar com eles...
-Eu quero? Eu quero? Eu nem queria essa gente toda aqui! Tu convidou eles! Eu odeio gente. A única coisa que eu odeio mais do que receber gente estranha em casa é gente estranha me flagrando fazendo sexo no guarda-roupa da minha própria casa, uma perspectiva, diga-se de passagem, cada vez mais palpável.
-Antes tu gostava...
-Ainda gosto, mas há uma questão importantíssima que tu está obviamente deixando de lado. O timming. E adoro fazer sexo escondido em lugares públicos, mas não num jantar pra oito pessoas, onde pelo menos cinco delas são íntimas da anfitriã, e, sem sombra de dúvida sentir-se-ão não só á vontade, mas também no direito, e até por que não dizer, no dever, de procurar pelos donos da casa se eles desaparecerem inexplicávelmente por meia hora durante a festa.
-Meia hora? Eu tinha pensado numa rapidinha de dez, quinze minutos.
-Tu sabe... Tu sabe que eu não consigo desenvolver em quinze minutos, em quinze minutos eu não aproveito nada. E, se por uma eventualidade a gente começasse e tu ficasse mandando eu me apressar, aí, sim, eu não iria conseguir aproveitar nada, mesmo. Preciso de tempo, tempo que nós não temos. Já tô até vendo a cara da enxerida da Veridiana aparecendo aqui na porta do armário, rindo feito um macaco e se desculpando, depois ela ia prometer que ficava entre nós, mas assim que eles entrassem no elevador ela ia contar pra todo mundo.
-Bom... Eles certamente não iriam mais querer vir aqui em casa.
O rosto dele se iluminou. Agarrou ela pela perna, fazendo-a enlaçá-lo pela cintura enquanto a beijava e dizia:
-Tá, mas faz bastante barulho.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Resenha DVD: Zumbilândia


Nesse exato instante, enquanto eu teclava essas palavras, e enquanto você as lê, há um armazém do governo norte-americano cercado por arame farpado e guardas armados. No interior desse armazém, não há nada, apenas um elevador, que leva para o bunker subterrâneo ao qual esse armazém serve de fachada.
Nesse bunker há um laboratório, e nesse laboratório os militares estão estudando novas formas de guerra. A mais promissora envolve um composto capaz de animar tecido morto.
Outra:
A humanidade está abusando em demasia do mundo. Ninguém é capaz de precisar que tipo de prejuízo a ação do homem já acarretou na natureza. Todos os produtos químicos que despejamos na natureza podem acabar reagindo de maneira surpreendente em um ambiente onde não haja supervisão, como aquele despejo de detritos industriais próximo ao velho cemitério da cidade.
Mais uma?
A superpopulação humana acarreta alterações na naureza em níveis que nem sequer sonhamos. Agora mesmo, vírus e bactérias sofrem alterações que a ciência nem sequer poderia imaginar. Como a que criou um vírus que mata as zonas do cérebro responsáveis pelo raciocínio e hipertrofia as zonas responsáveis pela auto-preservação e pela fome, gerando hordas de dementes que visam unicamente saciar essa fome, da maneira que for.
Aí estão, de maneira meio porca, eu admito, três motes para filmes de um subgênero muito especial dos filmes de terror:
Os filmes de zumbi.
Se puxar pela memória, certamente irá lembrar de ter visto pelo menos um filme de mortos-vivos que tinha um mote semelhante á esses lá de cima. E funcionava, não é? Desde os elegantes vampiros da literatura até os zumbis-corredores de filmes como Madrugada dos Mortos, passando pelas alegorias zumbificadas de George Romero, o medo de ver mortos se erguendo dos túmulos para se alimentarem da carne dos vivos sempre rendeu filmes interessantes com diferentes toadas.
Há os filmes de horror trash, como A Noite dos Mortos-Vivos, os que flertam mais com o lado psicológico do terror, como Extermínio, e até comédias, algumas excelentes, como Todo Mundo Quase Morto, outras bem ruinzinhas, como Zombie Strippers.
Zumbilândia, que eu assisti em DVD ontem, é uma das boas comédias que tem o "fenômeno Z" como mote.
No filme o mundo está tomado por zumbis surgidos de uma mutação do mal da vaca louca. A maior parte da população se transformou em criaturas dementes comedoras de carne humana, e os EUA são agora, um lugar inabitado onde os desmortos imperam.
Nesse cenário hostil, conhecemos Columbus (Jesse Eisenberg), jovem nerd que ruma para sua cidade natal em Ohio tentando reencontrar sua família.
Columbus sobreviveu à praga por duas razões:
A primeira é ter formulado um rígido conjunto de regras para a crise, regras que segue religiosamente não importa a situação.
A segunda é que, mesmo antes de o mundo ser infestado pela praga ele já tinha medo de tudo, então, viver com medo não é novidade para ele.
Columbos conhece, então, Talahasse (Woody Harrelson, impagável, dono do filme.), seu extremo oposto.
Se Columbos é contido e afeito á regras, Talahasse é expansivo ao extremo, e caótico. Um matador de zumbis nato e experimental que sente prazer genuíno em triturar os crânios dos comedores de gente.
Os dois resolvem viajar juntos para o leste, onde dizem, não há zumbis.
No caminho, além de seguir exterminando mortos-vivos e procurando Twinkies (Os bolinhos que Talahasse venera.), eles conhecem outras duas sobreviventes, Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), que não são indefesas como parecem, e, ao contrário de Columbus, com suas dezenas de regras, têm apenas uma: Não confiar em ninguém, exceto uma na outra.
As irmãs rumam para o Pacific Playland, parque de diversões na Califórnia onde, elas acreditam, não há zumbis.
Os dois grupos acabam unindo forças e seguem juntos, mas a jornada de sobrevivência deles não será tranquila, e pode acabar mal.
O filme, que segue a cartilha de filmes de zumbis no tocante à mitologia da coisa (tiros na cabeça, fome insaciável, as mordidas infeciosas), tem espaço, também, para a crítica social Romerista, além de fazer justiça á uma geração que cresceu jogando games violentos e assistindo filmes de horror, e, pra qual uma infestação zumbi poderia, sim, ser um imenso playground.
Junte á isso um bom elenco, piadas eficientes, ação convincente e uma participação especialíssima, e Zumbilândia não fica devendo nada ás melhores produções de zumbis do cinema.
Vocês, eu não sei, mas quando os mortos se erguerem dos túmulos para se alimentarem da carne dos vivos, eu estarei preparado.

"Vamos lá! Alguém está com fome? Talahasse é ótimo nessa época do ano!"

sábado, 7 de agosto de 2010

Resenha Cinema: A Origem


Foi na noite fria de sexta-feira que eu corri pra um dos cinemas de Porto Alegre pra assistir ao mais recente filme do diretor Christopher Nolan, o mesmo de Batman Begins, Cavaleiro das Trevas, Amnésia e Insônia, e que, entre um Batman e outro lançou o excelente O Grande Truque.
Bem, novamente, entre um Batman e outro (O terceiro longa do morcegão deve ser seu próximo trabalho.), Nolan lança um filmaço.
Ao contrário do que os trailers e o próprio mistério que os envolvidos faziam ao falar sobre o filme, A Origem não é um bicho de sete cabeças, não é um filme complexo, nem complicado, requer apenas um pouquinho de atenção e que o espectador abra mão de alguns conceitos pré-definidos do que é possível, ou não.
Não é um filme mais difícil de absorver do que, por exemplo, o excelente Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança.
Na trama conhecemos Dom Cobb (Leonardo Di Caprio, um dos melhores atores em atividade no cinema ultimamente.), e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt, fazendo outro bom papel.), eles são especialistas em um tipo de espionagem industrial muito específico, em que se rouba ideias da mente do alvo conectando-se ao subconciente do indivíduo através de uma máquina de partilhamento de sonhos.
Os dois são contratados pelo industrial Saito (Ken Watanabe, outro baita ator.) para uma operação um pouco diferente.
Invadir o subconciente do herdeiro do maior concorrente de Saito, não para extrair uma ideia, mas para inserir uma, algo que muitos acreditam ser impossível, ou, pelo menos, extremamente difícil.
Entretanto, como o sucesso da inserção pode ser a única forma de Cobb, que tem um passado conturbado que literalmente o assombra na forma de sua esposa, Mal (Marion Cotillard), voltar pra casa, ele aceita formar uma nova equipe e tentar realizar o serviço.
As peças necessárias para o golpe surgem na forma do químico Yusuf (Dileep Rao), do falsário Eames (Tom Hardy), e a arquiteta Ariadne (Ellen Page), que, como a novata do grupo, serve de peão (Veja o filme pra entender esse chiste.) para o espectador entender as regras do compartilhamento de sonhos.
A equipe se une para bolar um modo de invadir a mente de Robert Fischer (Cillian Murphy) e inserir a ideia de Saito de modo a fazê-lo acreditar que a inspiração foi sua.
Não parece trama de filme complicado, não é? E não é, mesmo.
Á despeito da pinta de intrincado filme psico-filosófico que o longa ganhou nos meses anteriores á sua estréia, a trama não tem nada de ininteligível.
Trata-se de um filme sobre sonhos, sim, mas ao mesmo tempo é um trhiller de assalto como Efeito Dominó ou Onze Homens e Um Segredo, há uma equipe com talentos variados unida em torno de um objetivo e que precisa agir de forma sincronizada de modo á suceder em sua missão.
Há a parte do planejamento, do ensaio e, por fim, a prática, onde surgem os indispensáveis imprevistos.
É um filme divertido e instigante, com um elenco afiado (que além dos atores já citados ainda conta com Tom Berenger, Pete Postlethwaite, Lukas Haas e Michael Caine), ritmo interessante, e que, em momento algum oferece quebra-cabeças inúteis (apenas charadas relevantes ou divertidas aparecem na tela).
Se A Origem tem algum defeito, talvez seja o de dar demasiado crédito à platéia, que mesmo depois de filmes como Quero ser John Malkovich e Matrix ainda parece carecer de respostas fáceis mastigadinhas no final da projeção.

"Você está esperando por um trem; Um trem que irá levá-lo pra bem longe. Você sabe pra onde espera que esse trem te leve, mas não sabe com certeza. Mas não importa - Por que você estarão juntos."

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Bobagem.


É bem verdade que o homem não entende a alma feminina, isso se dá por sua complexidade. A mulher tem camadas demais, particularidades demais, funciona em dezenas de níveis paralelos ao mesmo tempo, é capaz de ser multi-tarefa, ninguém consegue imaginar um homem passando roupa, vestindo os filhos, falando ao telefone, preparando café da manhã e se vestindo pra trabalhar ao mesmo tempo, enquanto uma mulher é capaz de fazer todas essas coisas e ainda estar de olho na previsão do tempo e avisar o marido que tem que trazer leite na volta.
A mulher é ininteligível ao homem por que possui uma personalidade demasiado profunda, a mulher tem humores e sabores que variam o tempo inteiro, e por vezes, de forma caótica.
Mas o inverso não é menos verdade. A mulher não entende o homem. Pelo motivo oposto.
Como a Dora. A Dora estava aflita.
Já fazia alguns dias que ela tinha uma má impressão de como estava seu namoro com o Patrique. Desde a quinta á noite, quando ele foi buscá-la na faculdade após a aula, ela achou ele meio calado, meio abatido.
-Oi, amor. Tudo bem?
-Tudo... E tu?
-Tô ótima. Por que essa carinha?
-Nada, não. Bobagem. Quer comer?
-Não, já jantei. Mas se tu quiser eu vou contigo, tu tá com fome?
-Não, não... Não precisa. Tô meio cansado, tenho que acordar cedo amanhã. Te deixo em casa.
Foram em silêncio a maior parte do tempo. Dora tentou puxar assunto, mas Patrique respondia unicamente com monossílabos. Parecia abatido. Ela achou que ele podia estar apenas cansado, mas ficou com uma proverbial pulga atrás da orelha.
Dora era uma moça bonita, inteligente, e independente. Trabalhava, estudava, era dona do próprio nariz. Havia passado um longo tempo sozinha após uma final de namoro traumático quase cinco anos antes, achou que jamais amaria de novo, exagerada que era no tocante a coisas do coração. Até que Patrique surgiu. Patrique, com sua cara de cachorro que caiu da mudança imediatamente cativou Dora, e ela aceitou suas investidas assim que elas ocorreram. Namoravam fazia quase um ano, e ela jamais vira ele daquela forma. Enfim, esperava que na sexta as coisas fossem melhorar, se fosse, afinal, apenas cansaço como ele havia dito, a iminência do fim de semana haveria de curá-lo.
Entretanto, quando Dora encontrou Patrique na sexta-feira á tardinha, ele não estava cabisbaixo como estivera na noite anterior, parecia irritadiço, mal-humorado, e distante.
Durante o jantar, sugestão de Dora, para tentar melhorar o ânimo do amado, recebia menssagens de texto no telefone o tempo todo, e bufava feito um boi emburrado ao ler cada uma delas.
Dora á certa altura, precisou perguntar:
-O que houve?
-Nada. Meus amigos.
-Se são teus amigos por que tu fica bravo?
-Não tô bravo.
Ele respondeu visivelmente bravo enquanto desligava o celular.
Dora não tocou mais no assunto, e o resto da noite transcorreu em silêncio, com Patrique emburrado e distante. No caminho pra casa, Dora novamente tentou conversar, perguntando o que fariam no final de semana, mas ele não tinha ideias, e disse que ela escolhesse algo pra fazerem.
Ela teve certeza de que havia outra mulher na jogada. Não se daria ao papelão de vistoriar o celular do namorado, mas por certo sentiu-se curiosa.
Quem poderia ser?
Alguma piranha do trabalho dele? Alguma ex-namorada daquelas sobre as quais ele jamais falava? Alguma aventura em um rendez-vous com os amigos que tomava proporções de atração fatal? Ela deeria comprar um coelho para encontrar dentro de uma panela mais tarde? Bem, se havia outra mulher, não tomaria o namorado de Dora sem luta.
Ao chegarem em casa, Dora imediatamente foi para o banheiro. Tomou um banho caprichado, se perfumou, e vestiu uma lingerie daquelas que ficam em uma caixa de vidro sob um martelo e a inscrição "Em caso de emergência quebre o vidro".
Ao sair do banheiro, exalando Violetta di Parma, Dora estava disposta á fazer coisas que deixariam sua avó de cabelos em pé. Por mais que Patrique tivesse outra, e, se ela descobrisse que era o caso, daria-lhe um merecido chute nos fundilhos, antes disso daria ao cretino uma amostra de tudo o que ele perderia.
Chegou no quarto lânguida como uma corsa, e subiu na cama quase ronronando.
Patrique estava jogado na cama, de bruços, usando uma medonha samba-canção xadrez de azul e branco.
Dora passou a unha suavemente pela coluna de Patrique, da altura das omoplatas até próximo do cóccix, e suspirou em sua nuca com o hálito de menta. Ele se virou rapidamente, dando-lhe um beijo sem graça nos lábios.
-Hoje não, tá? Tô podre.
Virou-se novamente e pôs-se á dormir.
Dora foi ao banheiro, vestiu seu pijama normal, e chorou. Chorou de raiva de Patrique, o imbecil, chorou de raiva da suposta piranha que intrometera-se em sua felicidade, e de raiva de si mesma por lamentar a perda daquele imbecil.
No outro dia de manhã, Patrique e Dora tiveram uma conversa séria, e, entre lágrimas, ela disse á ele que sabia de tudo. Quando ele perguntou "Tudo o quê?" ela se enfureceu, e a conversa se transformou em uma discussão, e a discussão em briga.
Briga essa que culminou em Patrique, deixando a casa de Dora com uma sacola recheada com seus pertences.
Ao chegar em casa e largar suas coisas perto do guarda-roupa ele sentou e pensou consigo mesmo que aquela semana terminara muito mal. Nem os maus resultados do Grêmio, na zona do rebaixamento, e a classificação do Inter à final da Libertadores, que o tinham deixado de péssimo humor desde quinta-feira, o deixaram tão chateado quanto o final do namoro com a Dora. Enfim, domingo tinha Grêmio e Fluminense, e ele afogaria as lágrimas lá.
Se alguém dissesse à Dora que Patrique não tinha outra mulher, e que seu distanciamento e seu mal-humor e cansaço eram apenas efeitos colaterais do mal momento do time do coração combinados aos triunfos do rival e às gozações dos amigos, ela não acreditaria. Por que era incapaz de entender a alma masculina.
Pois ao contrário das mulheres, os homens são simples. Não temos camadas, e nossas aflições são profundas, mas fugazes, pois nos afligimos com bobagens e não sabemos gerenciar tarefas múltiplas.
Talvez por isso, á despeito das Doras e Patriques do mundo, homens e mulheres não se entendam, mas sejam feitos um para o outro.