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segunda-feira, 19 de março de 2012

O Viking


E a Camila? A Camila estava se vendo em uma sinuca de bico...
A Camila que era uma moça centrada e decidida não estava acostumada a se ver em palpos de aranha como sugeria a ocasião que se avizinhava perigosamente em seu horizonte:
Ela estava se preparando para apresentar seu namorado, Chicão, à sua família. Em particular ao seu pai, o coronel Afonso, militar aposentado, de temperamento forte e noções pouco realistas de moral e de bons costumes.
Camila ainda era capaz de lembrar de quando, no segundo grau, levou um namoradinho para conhecer seus pais e deparou-se com o coronel na sala limpando uma arma com outras duas sobre a mesinha de centro. Após limpar o cano de uma pistola 765 ele olhou o rapaz ameaçadoramente através do cano e e perguntou-lhe quais eram as intenções dele para com sua filha.
Desnecessário dizer que o moleque quase se borrou, e que nunca mais parou de falar do pai louco da Camila na escola, o que ainda gerou um folclore de que ela era tipo uma princesinha proibida e coisas do tipo.
Não era o caso, Camila tinha muita personalidade, era divertida, culta e inteligente, sabia ser sacana quando era necessário e não se apertava nem nas mais cabeludas situações. Ainda assim, a pecha de princesinha do pai louco a acompanhou nos anos do ensino médio, de modo que ela namorou pouco, ou quase nada. Não que sentisse grande falta, mas de vez em quando ela pensava em como seria bom ter alguém para mimá-la um pouco, acalentá-la com riso e beijos e abraços, enfim...
Quando Camila terminou o ensino médio, viajou pra Europa pra estudar francês e voltou ao Brasil para seguir com seus estudos. Saiu de casa, fez faculdade, e foi justamente no último ano da faculdade que ela conheceu o Francisco.
Francisco, não...
Chicão.
Chicão era a alcunha de Francisco, provavelmente o homem mais parecido com um viking nascido depois do século onze. Chicão não nascera na Escandinávia, não usava chapéu com chifres, não besuntava o cabelo com margarina, não se vestia com peles e cotas de malha, nem navegava pelos mares do norte da Europa saqueando e pilhando, não... Nada disso.
Mas o Chicão era um viking.
Com um metro e noventa e seis de altura, pesando uns cento e dez quilos com a face barbada e os cabelos loiros, Chicão já passaria por um viking pra maioria das pessoas. O fato de ele ser, também, provavelmente o ser humano mais franco da face da terra, aliado à sua bússola social ineficiente, apenas ajudavam as pessoas a vê-lo como um tipo de selvagem.
Camila ainda se lembrava de maneira bastante vívida de quando o conhecera em uma festa da faculdade. O viu de longe, chamava a atenção com seu tamanho avantajado, e tinha um certo charme rústico com sua barba de Paul Bunyan. Camila tomou coragem e, com decisão, fora falar com ele. A primeira coisa que ouviu da boca dele foi um arroto, depois uma risada, e finalmente um "Bah, tri linda, tu, mulher.".
Chegou a se desencantar achando que ele fosse desses sujeitos que se embriagam e agem como idiotas. Levou alguns segundos de conversa, apenas, para ver que não. Ele não era um bêbado, nem era um idiota. Chicão era dessas pessoas cuja franqueza se esfrega perigosamente na grosseria. Não que fosse afeito a grosserias, o Chicão. Não era. Era uma boa pessoa, e não era mal-educado, apenas era total e absolutamente desprovido de qualquer espécie de frescura. E, ser humano que era, media aos outros de acordo com seus próprios parâmetros.
Era principalmente por isso que o Chicão, mesmo tendo vários bons amigos, volta e meia esbarrava na antipatia de pessoas que não entendiam o seu jeito direto.
Não foi o que aconteceu com Camila. Passado o estranhamento inicial natural que uma mulher sente quando pergunta "Tô bonita?", e o namorado responde "Tu tá, mas a tua roupa tá feia pra cacete." a Camila entendeu o funcionamento do Chicão, e aprendeu a amar todas as qualidades que existiam ocultas sob sua carranca barbada.
Camila aprendeu a amar a honestidade, a franqueza, e especialmente a integridade do Chicão. E ele era tudo isso. Quando algo estava certo, Chicão era o primeiro a fazer elogios, todavia, quando via algo de errado, não tinha meias palavras para cobrar melhorias.
Camila aprendeu a admirar esse comportamento, em especial porque o Chicão não disse "eu te amo" durante cinco ou seis meses de namoro. Nunca disse nada do tipo. Até uma dia de manhã, após ela e ele terem tido uma briga, e, após ele entrar no quarto dela e dizer "Tá, eu sentei na graxa nessa. Me desculpa.", e ela responder que o perdoava, ele disse, com todas as letras, que a amava. E ela sabia que, de alguém como o Chicão, só podia ser verdade.
O que apavorava Camila, no entanto era ver a franqueza absoluta do Chicão frente ao autoritarismo de seu pai, o coronel Afonso.
Camila montou em sua cabeça pelo menos sessenta e três cenários diferentes onde tudo ia pro inferno antes de sua mãe servir o café. A maioria deles envolvia o Coronel dizer, ao acaso, que sentia saudades da ditadura militar no Brasil. A Camila era capaz de ouvir o Chicão dizendo "Então o senhor, ou é burro, ou é mal intencionado.", a partir daí ela não tinha muita certeza do que aconteceria. Ela via o coronel apanhando sua 765 de baixo da mesa e disparando na cabeça do Chicão. Ás vezes no devaneio de Camila, o Chicão se esquivava da bala e decepava a cabeça do coronel com a faca de cortar pão ou um machado de combate nórdico, o que estivesse mais à mão. Em algumas edições do pesadelo ela se jogava na frente da bala, em outras, na frente da faca... Enfim, durante uma semana antes do jantar Camila teve pesadelos. Chegou a cogitar a hipótese de pedir ao Chicão que relevasse seu pai. Chegou a cogitar pedir que sua mãe dopasse o coronel para que ele estivesse dormindo durante o jantar. Desistiu de ambas as hipóteses, não podia podia nem queria pedir que Chicão deixasse de ser quem era. Nem podia pedir que sua mãe dopasse o coronel com nada mais forte do que água de melissa. O jeito era engolir em seco e esperar que o Chicão e o coronel não se matassem durante o jantar, e explicar à sua mãe que, como gostava muito do Chicão, era provável que não aparecesse nos próximos natais.
Na noite do encontro, a Camila saiu do quarto com uma tensão indisfarçável no rosto e no corpo. O Chicão, até que estava alinhado, de camisa e sapato, ele que estava sempre de camiseta e tênis. Aparara uma ou outra ponta teimosa de sua barba farta, e prendera suas madeixas loiras em um rabo de cavalo. Camila podia ver a cara de desaprovação do coronel Afonso pro rabo de cavalo do Chicão. Podia ver a expressão no rosto dele quando ela dissesse que ele era professor de História, que pro coronel era tudo comunista. Podia ver o Chicão com a sua cara de paisagem enquanto dizia com sua voz tonitruante de viking que militares que nem o Afonso eram responsáveis por trinta anos de miséria e endividamento no Brasil... Camila podia ver tudo isso, e tudo isso deixava seu corpo todo tenso. Dos pés à cabeça.
Quando entraram no táxi e deram o endereço dos pais da Camila o Chicão se espremeu no banco de trás ao lado dela e perguntou-lhe se estava tudo bem. Ela disse casualmente que sim, enquanto roía de levinho a ponta da unha o polegar e olhava pela janela. Chicão não perguntou de novo. Ele não costumava tergiversar quando algo o incomodava e não achava que ninguém o fizesse.
Ao chegarem ao portão branco da casa do coronel Afonso e da dona Norma, Camila já sentia um certo enjoo, ela sempre era acometida de enjoos quando alguma situação extremamente desconfortável se apresentava, e naquela situação, seu enjoo estava forte, ela tinha uma revoada de borboletas no estômago.
Entraram na casa, dona Norma veio recebê-los, apanhou o casaco da Camila, deu um beijo no Chicão, que correspondeu, então, o pavor quando Dona Norma foi até a entrada da sala e gritou:
-Afonso, olha quem chegou, Afonso.
O coronel levantou de sua poltrona verde-musgo surradíssima, e caminhou a passos decididos como se marchasse de calça de tergal cinza e camiseta branca até Camila e Chicão. Beijou a filha com delicadeza, e então, em um gesto duro, estendeu a mão ao Chicão. Que a mirou por uma breve fração de segundo, e então apertou-a vigorosamente.
-Bom aperto de mão. Se descobre muita coisa sobre um homem no aperto de mão. - O coronel observou.
Camila pensou: "É agora. Ele vai dizer que isso é uma idiotice sem tamanho, e vai falar de... Sei lá... Genocidas que tinha aperto de mão forte...".
Mas não. Chicão assentiu com um aceno de cabeça enquanto dizia "É um prazer, coronel, eu sou o Francisco.".
Quando sentaram na sala de estar pra conversar enquanto dona Norma e a empregada Jucileide terminavam de preparar o jantar, Camila teve novos momentos de pânico. À qualquer coisa que o coronel dizia ela esperava pela réplica avassaladora de Chicão. Mas não veio nenhuma. Ele chegou a dizer que discordava das medidas econômicas protecionistas dos governos europeus, mas não se embrenhou no assunto como temia Camila.
Durante a refeição, quando dona Norma perguntou se estava tudo do agrado de Chicão, novamente Camila anteviu um "Nem fodendo.", mas não. Ele disse que o sabor estava tão bom quanto a cara da comida, quiçá melhor. Ele usou essa palavra, mesmo: "Quiçá".
A noite transcorreu sem sustos, sem insultos nem arroubos de franqueza crua. Camila não relaxou em nenhum momento, de tão tensa, estava com dores musculares nas nádegas quando se despediu do pai e da mãe.
E incrédula quando entrou no táxi com um Chicão que se despediu dos dois dizendo que esperava voltar a vê-los.
Finalmente relaxada, Camila deitou a cabeça no ombro de Chicão e suspirou.
-Tudo bem? - Ele quis saber.
-Tudo... - Ela suspirou. E continuou em um bocejo:
-Eu vi mil formas de isso tudo dar errado. Mas no fim foi tudo bem...
Chicão sorriu enquanto se esgueirava para beijar o cabelo dela:
-Por que tu achou que fosse dar errado? Porque teu pai é meio reaça e eu não tenho papas na língua?
Ela riu:
-É um bom eufemismo pra vocês. O pai é um milico saudoso da ditadura e tu é um viking... Mas sim, era isso. Eu tinha medo que vocês começassem a discutir antes de apertar as mãos e estivessem se desafiando pra um duelo antes da sobremesa.
O Chicão passou o braço por cima dos ombros da Camila e confidenciou:
-Olha... Acho que ele maneirou, hoje. Primeira vez que eu fui lá, tu já não é mais criança... Mas deu pra ver que ele é meio autoritário, mesmo. Se no futuro ele for mais veemente em certos assuntos, ele e eu vamos acabar discutindo, e eu certamente vou falar merda. Mas...
Camila o olhou apreensiva:
-Mas o quê?
Ele sorriu ternamente sob sua barba cerrada:
-...Se tudo correr bem, a gente já vai estar casado e com um neto a caminho pra amaciar o velho.
Camila sorriu se aninhando no peito de seu bárbaro nórdico.
Por amor... Até mesmo os vikings mais ferozes aprendem a maneira.

sábado, 17 de março de 2012

Quadrinhos: Homem-Aranha Noir: A Face Oculta


E a Panini publicou a sequência da boa história da versão detetive dos anos 30 do cabeça de teia. Homem-Aranha Noir: A Face Oculta (Eyes Without a Face, no original).
A dupla da primeira história volta, o roteiro é de David Hine (junto com Fabrice Sapolsky) e a arte, de Carmine di Giandomenico, com o time criativo inalterado era de se supôr que a qualidade da história anterior seria mantida, e foi.
A Face Oculta mantém a mesma toada de sua predecessora.
A ambientação em uma Nova York decadente em meio meio aos ecos da Grande Depressão e aos gritos primevos da Alemanha nazista é o palco onde o Homem-Aranha, agora um vigilante mais experiente após oito meses de combate ao crime, enfrenta uma nova ameaça.
Há um Mestre do Crime operando em Nova York, ocupando o posto que antes pertenceu a Norman o Duende Osborn. Esse novo criminoso é ainda mais temerário do que o Duende, e não mede esforços na hora de derramar sangue e demarcar seu território.
Investigando esse criminoso vil, o caminho de Peter Parker e do Homem-Aranha se cruza com o de seu amigo Robbie Robertson, repórter do The Negro World, e do doutor Otto Octavius, um brilhante neuro cirurgião alemão.
Investigando o Mestre do Crime o Homem-Aranha chega a uma intrincada teia de conspirações que se estende pelos altos escalões do governo federal norte-americano.
É mais uma boa história. O Aranha dessa segunda edição parece um pouco menos frio do que o anterior, aproximando-se mais de sua versão tradicional, o que, apesar de ser familiar, não deixa de ser um retrocesso, afinal de contas, se é uma versão alternativa, mantenha-a refrescante. Ainda assim, a trama de boas sacadas, referências históricas e cara de filme de investigação agrada, e é sempre bacana ver as reimaginações dos personagens que conhecemos e amamos.
O acabamento, novamente de primeira linha, e o preço acessível (R$19,90) são convidativos, e é mais um livro bonito pra adornar aquela estante de livros e gibis.

"Nenhum som ou movimento. Não há ninguém aqui. Mas tem algo errado. Um odor. O mesmo cheiro que senti na noite em que o tio Ben morreu. E com certeza eu conheço o fedor de um matadouro."

sexta-feira, 16 de março de 2012

Rapidinhas do Capita


O Orestes estava na fila de uma lanchonete pensando na vida. Ao se aproximar do balcão, fez seu pedido, e ouviu de volta que o preço havia sido de dezessete reais. Abriu a carteira e entregou uma nota de vinte e uma de dois reais ao atendente, que apanhou o dinheiro devolvendo a nota de dois:
-Deu dezessete reais, senhor.
Orestes respondeu em um suspiro:
-Eu estava tentando facilitar o troco. Tu me devolveria cinco.
O atendente esticou novamente a mão, apanhando a nota de dois reais, e dizendo:
-Ainda melhor. Não tinha pensado nisso, senhor.
Imediatamente Orestes formulou a frase "se tu pensasse não tava trabalhando de atendente do McDonald's, né, imbecil?".
Mas não disse. Apenas sorriu vagamente enquanto esperava.
"As pessoas em sua maioria são assim", pensou Orestes. "A capacidade de ser mordaz, de ser desagradável, de ser mau, em última instância, essa sai ao natural. Na hora de ser ofensivo, de ser cruel, o cérebro funciona melhor, funciona mais rápido, como se fôssemos feitos pra isso."
"O gesto de bondade, a gentileza, a cordialidade... Esses demandam esforço, esses demandam contrição e concentração. Ao menos pra maioria das pessoas." Concluiu enquanto apanhava o seu McLanche.

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Claro que ele encontrou um casal de São José dos Campos com um sotaque de caipira carregado, hoje.
Claro que ele foi ler o que ela escreve enquanto sua lista de reprodução do MP3 entoava Moon River.
Claro que ele viu o ovo de páscoa do Homem-Aranha no mercado, ao meio-dia.
Claro que Across The Stars tocou enquanto ele comia uma maçã verde no meio da tarde.
Claro que ele conseguiu fazer tudo o que tinha que fazer naquele dia.
Claro que ele pensou nela enquanto voltava pra casa, enquanto passeava com o cachorro, enquanto tomava banho, enquanto jogava video game e enquanto jantava.
Claro que a noite ele foi ao shopping comprar gibis e ao pegar um na prateleira mais alta, lembrou que ela não o alcançaria.
Claro que ele comprou um livro pra se distrair e não pensar nela.
Claro que esse livro era de Star Wars e teve efeito reverso.
Claro que ele foi dormir se esforçando pra torcer pra tudo ter dado certo pra ela.
Claro que ele se esforçou pra não pensar mais nela.
Claro que ela foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça quando ele acordou na manhã seguinte...

Irmãos de armas


Estavam sentados à mesa a Lourdes, o Caio, o Milton, o Sandro e o Felizardo. Sobre a mesa, copos de Coca Cola, uma pilha de livros, mapas de lugares que não existiam, fichas em pastas plásticas flexíveis, lápis e dados poliédricos de quatro à vinte faces.
Eles estavam jogando RPG.
O Caio já jogava fazia anos, era um aficionado pela matéria. Colecionava suplementos, livros, mapas, dados, revistas... Ele adorava a coisa, se dedicava, e jogava incessantemente desde os quatorze anos de idade. Lourdes era casada com Caio, e caíra no mundo dos role playing games meio que ao acaso, sugada de forma colateral pelo amor do cônjuge ao jogo. Acabou gostando e, apesar de seguidamente dizer que não sabia jogar, dominava suficientemente as regras pra não atravancar nenhuma sessão de jogo, e nem se tornar irritante como frequentemente acontece com pessoas que não são tão afeitas à atividade quanto os colegas de mesa. O Milton era amigo do Caio desde a tenra infância e se davam bem. Tão bem que Caio acabou levando Milton consigo para o mundo do RPG quando eles ainda eram adolescentes. Jogavam juntos já tinha mais de quinze anos, e se divertiam muito com a atividade a despeito de algumas eventuais desavenças.
O Sandro era amigo antigo do Caio e do Milton, mas não partilhava do mesmo entusiasmo dos colegas pelo jogo. Ele gostava, sim, do RPG, mas não tinha paciência pra ficar seis horas em volta da mesa jogando dados, de modo que seguidamente se levantava e ficava andando ao redor dos colegas, ou simplesmente se jogava em um sofá próximo e ficava assistindo TV acompanhando o jogo de forma periférica e vindo à mesa apenas para jogar os dados ou responder uma pergunta à qual não cabia a resposta "Eu faço uma cara feia e fico em silêncio.". Enfim, o Sandro curtia o jogo, e mesmo, ás vezes, dando a impressão de não querer mais saber de jogar, sempre voltava.
O Felizardo... Bom, o Felizardo era um caso à parte. Era também amigo antigo de Caio, Milton e Sandro, se dava bem com a Lourdes, pois era polido e educado, mas era dessas pessoas mais ensimesmadas que são de falar pouco, em especial sobre si próprias. Ele era assim, o Felizardo. Uma das coisas curiosas a respeito dele, é que ele, vez que outra, tinha arroubos de verborragia em que falava feito um condenado. Normalmente ninguém estava interessado no que o Felizardo dizia, pois ele falava sobre assuntos que pareciam surgir na sua cabeça de maneira totalmente aleatória e que não faziam sentido no contexto do assunto do resto do pessoal.
Ainda assim, o Felizardo jogava RPG com o pessoal numa boa. Era atento ao jogo, e não atrapalhava o bom andamento das partidas embora, vez que outra, se fixasse aos efeitos de determinadas magias e ataques querendo saber, direitinho, nos mais imperceptíveis detalhes, como poderia escapar de uma determinada situação. Nada demais, contudo, já que, parte da graça do jogo, era, justamente, saber como escapar da morte quase certa. Mas a impressão que dava, é que ele gostava menos de jogar do que todo mundo, até o Sandro, e ficava ali, mais pra se manter em contato com os amigos do que qualquer outra coisa.
Agora ali estavam eles, todos sentados à mesa em meio ao material espalhado entre o grupo quando o Caio, que mestrava a partida anunciou a presença de um imenso dragão em uma câmara ampla oculta atrás de uma porta de pedra recém aberta pelo ladrão interpretado por Milton.
Lourdes perguntou se havia chance de fechar a porta e correr, entretanto foi avisada por Caio que, ao dar as costas ao dragão abriria a chance para um ataque de oportunidade da besta, ao que ela reagiu suspirando profundamente e dando de ombros:
-Tamos ferrados. Vai morrer todo mundo. Tá, eu ataco ele. - Anunciou enquanto virava a página da ficha e sacolejava na mão um dado de vinte faces vermelho.
Pra quem não sabe, dragões são provavelmente as criaturas mais terríveis da fauna RPGística, e pra um grupo de nível médio com poucos componentes como era esse, era uma peleia das mais duras. Enfim...
A Lourdes começou a sacolejar o dado entre as mãos em concha enquanto o Caio, muito animado, anunciou que era pra estabelecer as iniciativas. O Sandro, que vivia um paladino e líder do grupo, rolou um dado de dez faces e anunciou o número três, recebendo palavras de apoio dos companheiros que imediatamente somaram a velocidade de suas armas ao número rolado pelo colega. Estabelecida a ordem de combate o Caio disparou:
-OK, vou dar a primeira rodada de lambuja pra vocês, o dragão está confuso, irritado pela intrusão de vocês, e está se remexendo no espaço da câmara de rocha em busca de uma posição em que fique de frente pra vocês então, vocês atacam antes! Lourdinha, tu começa.
A Lourdes trocou o dado de vinte faces que tinha na mão por cinco dados de seis faces enquanto dizia:
-Vou começar com a minha magia de relâmpago, então. É o que eu tenho de mais forte, mesmo...
Ela rolou os dados, três em um, quatro em outros dois, dois no quarto e seis no quinto dado.
-Dezenove! - Gritou, animada.
-Ih, nem fez cócegas no dragão, mas ele parece ter ficado incomodado com o clarão, e rosna pra ti. - Disse Caio, rindo maquiavélico. - Miltão, tua vez.
O Milton folheava atentamente a sua ficha de personagem, e anunciou enquanto mexia nos óculos que seu larápio iria se esconder nas sombras com sua ação de movimento e que, de lá, dispararia com sua besta encantada contra o dragão. Rolou os dados de porcentagem para o teste de se ocultar nas trevas e obteve sucesso, então agarrou o dado de vinte lados e perguntou:
-Quanto pra acertar o bicho?
-Pra ti, com a besta? - Respondeu Caio, fazendo um rápido cálculo matemático. -Peraí... Hã... Dezoito ou mais.
-Filhadaputa... - Esbravejou Milton, rolando o dado, que correu por alguns centímetros sobre o tampo de vidro da mesa e caiu com o número oito virado pra cima.
-Não deu. - Disse Caio, já mirando Sandro, apoiado nas costas da cadeira em que deveria estar sentado.
-Pois é, tchê... Deixa eu ver o que o Talibude vai fazer... - Disse ele referindo-se ao seu bárbaro sulista, enquanto olhava a ficha de personagem. -Ah, que se foda, vou meter a espada no bucho desse corno. Quanto? - Perguntou ao Caio.
-Dezesseis ou mais.
-Vai pra vala, bicharoco. - Disse rolando o dado e sorrindo ao ver o numero dezenove sair com a face pra cima. -Ah, moleque! Te liga nesse golpe de montante!
Apanhou dois dados de doze faces e rolou dez em ambos enquanto erguia os braços em triunfo.
Caio sorriu enquanto tomava notas:
Muito bem, mais a bonificação de força, isso tudo dá... Vinte e quatro. Quase fez cócegas no dragão, que tá ficando furioso! Feliz, é tu.
Feliz era o apelido do Felizardo. Não deixava de ser irônico.
-Hã... Vou com a minha espada longa mais um, mesmo. Quanto?
-Dezenove ou vinte. - Respondeu Caio.
O dado rolou da mão do Felizardo por sobre a mesa até parar de encontro aos livros do Caio com um sete virado pra cima.
-Não deu. - Bradou Caio. - Vez do monstro!
As sequências de combate foram se sucedendo, com o dragão levando larga vantagem. Magias e poções de cura foram usadas em profusão, armaduras foram consumidas pelo hálito do dragão, uma espada mágica se quebrou e um escudo encantado se partiu. Se no RPG de mesa houvessem barras de energia como aquelas dos video-games todos os personagens dos jogadores estariam no vermelho após as doze rodadas de combate que se seguiram. Na décima terceira, o dragão ganhou a iniciativa e meteu a porrada nos jogadores. Quem iniciava uma rodada de matar ou morrer, era justamente o Felizardo. Caio virou-se pra ele após anotar os pontos de vida que todos haviam perdido e notar, com alguma culpa, que seu grupo de players estava às portas da morte.
-Vai, Feliz, tu começa.
O Felizardo olhava pro sua ficha como se visse através dela. Após breves segundos em que todos o encaravam ele ergueu a cabeça e perguntou:
-Por quê?
Ninguém entendeu de imediato, como assim "por quê?" foi a cara que todos fizeram. O Caio, paciente, respondeu:
-Pra gente continuar com a sequência de combate.
-Pra quê? - Inquiriu Felizardo. -Essa sequência de combate vai terminar com um dragão ferido e furioso e quatro aventureiros esperando pra serem consumidos pelo seu sopro flamejante. Esse curso de ação ruma de maneira inexorável em direção à tragédia. Nesse instante em que eu me rendo à inação, porém, eu tenho controle sobre, não apenas o meu próprio destino, mas também sobre o dos meus companheiros e do próprio dragão. Se analisarmos profundamente, quem somos nós? Um bárbaro sulista, uma aprendiz de mago que cresceu no luxo, um facínora vil roendo os ossos da vida, um defensor da ordem e da justiça, e o meu personagem, um guerreiro comum com anseios de fama e de fortuna. E o dragão? Ele tem, não apenas a prerrogativa e o poder de nos obliterar, mas também pode-se dizer que tem o direito. Nós invadimos a caverna onde ele vive. Nós o atacamos à primeira vista. Ele é uma criatura ancestral de poder imensurável e nós? Mesmo que os ventos do acaso impulsionem nossos dados à uma vitória, nós a merecemos? Nós merecemos matar esse dragão que, pelo tamanho, é um adulto de, o quê? Uns quinhentos anos? Essa besta magnífica, com asas grandes como casas, oculta no subsolo embora pudesse devorar vilas inteiras e incendiar grandes cidades e nós invadimos a morada dela e a atacamos de maneira impensada? Por quê? Por quê? Qual o sentido dessa matança?
Todos estavam em silêncio olhando pro Felizardo, assim que ele terminou o discurso, olharam pro Caio, que parecia meio sem graça olhando pro seu caderno de anotações.
-Pô, Felizardo...
Mas o Felizardo mexeu a cabeça e jogou os dado de vinte e de doze faces sobre a mesa com algum desdém enquanto dizia:
-É tudo inútil e sem sentido.
Mas os dados rolaram fazendo barulho sobre o vidro da mesa e caíram com o vinte e o dez virados pra cima.
Todos olharam pra ele, que espiou o resultado da jogada espichando o pescoço, e então virou-se pro Caio, que disse:
-Vinte e seis... O dragão morreu.
Felizardo se levantou da cadeira e dançou gritando com os braços erguidos em triunfo. Sandro perguntou:
-Mas e a falta de sentido de tudo, a prerrogativa do monstro e tudo mais?
-Que se foda, brother, eu matei o dragão! Chupa, lagartão. Agora vamos ver esses tesouros, aí.

Ninguém sabe, de fato, como é bom jogar RPG até dar o golpe derradeiro em um monstro super-poderoso.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Before Watchmen(?)


E o Alan Moore ficou bravo, mesmo, com a putaria (me perdoe pelo termo) em que se transformou (uma das suas) obra(s) prima(s), no caso, Watchmen.
Pra quem não está sabendo, a DC Comics, dona dos direitos sobre Watchmen, resolveu capitalizar (mais, já que Watchmen continua vendendo e bem já tem uns 25 anos) sobre a obra após o sucesso do filme, e chamou uma turma de escritores pra escrever uma série chamada "Before Watchmen", que contaria histórias anteriores à trama da mini-série original com os personagens criados por Moore.
Quem conhece Alan Moore sabe que ele é o sujeito mais rabugento do mundo, que odeia todas as corporações e que depois da experiência (terrível) que teve com o cinema em A Liga Etraordinária, série brilhante que virou um filme medonho, ele passou a ser ainda mais implicante, abrindo mão inclusive dos dividendos que as adaptações de suas obras lhe renderiam. Alan Moore é um tremendo ranheta, OK, ele fica sugerindo boicotes aos filmes que adaptam suas obras (Eu tenho Watchmen e V de Vingança em casa, Alan, lamento.), e não poupa esforços em avacalhar geral qualquer coisa relacionada à Marvel e à DC comics, as duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA, e quiçá, do mundo. Essa semana ele chegou a sugerir aos (corajosos) leitores que comprarem Before Watchmen que não comprem mais nada escrito por ele, e deixou claro que despreza os aficcionados por gibis que lerem Before Watchmen.
Eu sou um fã declarado de Moore, leio tudo o que ele faz e tenho muita coisa do cara na estante, todos os volumes que encontrei de A Liga Extraordinária, Do Inferno, V, Watchmen, Lost Girls... Mas vamos admitir, ás vezes ele exagera. Eu adoraria ver ele escrevendo algo do Homem-Aranha, por exemplo, o que é impossível pois ele despreza a Marvel, e sou fã do que ele fez no Batman, e gostaria de ver como Moore se sairia com um personagem que não é sombrio e taciturno como ele fez com o Superman. Ás vezes eu tenho a impressão que ele se perde na persona do bruxo mal-humorado que ele criou pra si, e acaba sendo intransigente demais.
Nesse caso, entretanto, de Before Watchmen, eu estou com o barbudão e não abro.
Watchmen é uma obra seminal do Moore. Pra muita gente, é seu melhor trabalho em quadrinhos, é o único gibi a figurar na lista dos cem romances mais importantes de todos os tempos da revista Time, e é certamente uma das três melhores obras de super-heróis já escritas. Watchmen se basta. Todas as referências e apêndices presentes na obra original são suficientes pra contar uma história sem arestas e que funciona à perfeição.
Claro, sempre há a chance de sair uma boa história desse Before Watchmen, mas falando serio, precisamos de histórias "boas" com personagens que já viveram o seu momento definitivo? Surgirá algo nessa mini-série que supere ou iguale Walter Kovacs na prisão? Ou o romance de Coruja e Spectral, ou a mão gigante de Manhattan entrando pela clarabóia em Karnak, ou a lamúria do Comediante ao lado de Moloch?
Watchmen precisa de um "before" tanto quanto O Poderoso Chefão precisa de uma continuação ou o Brasil precisa de mais senadores. Before Watchmen é mais um dos caça-níqueis que vem enchendo as páginas dos gibis ano após ano, e com um agravante: Ainda pode colocar autores menores em posição de desvirtuar um dos maiores quadrinhos já realizados.

X Marca o Lugar


O Licurgo entrou na casa do Manoel, jogou a mochila no chão, e se jogou no sofá. Nelson estava sem camisa, jogado em uma poltrona sob o ventilador de teto jogando video-game. Licurgo saudou:
-E aí?
-Buenas? - Respondeu Manoel, sem tirar os olhos da tela.
-Vai-se indo.
-Arram.
Ficaram em silêncio. Na tela um grupo de guerreiros enfrentava um animal que lembrava vagamente um dragão.
-Que porra é essa que tu tá jogando, velho? - Perguntou o Licurgo.
-RPG de computador. Path of Righteous. - Respondeu Manoel, ainda de olhos crivados na tela. - E o esquema lá? Com a mina?
-Fodi tudo. - Respondeu de pronto Licurgo.
-Esse é o Licurgo que eu conheço e amo... - Replicou Manoel, sem alterar o tom de voz.
-É... Esse sou eu... - Disse Licurgo.
-E aí? - Quis saber Manoel.
-E aí o quê?
-E aí, o que tu vai fazer?
-O que te leva a supôr que eu vou fazer alguma coisa?
-O fato de eu te conhecer.
Licurgo deixou o ar escapar por entre os lábios entreabertos:
-O que tu não sabe sobre mim enche o Fortaleza, velhinho.
-Quié isso?
-O maior cânion do Rio Grande do Sul, velho... - Suspirou Licurgo mexendo na mochila.
-Ah.
Novo silêncio. Licurgo largou um par de jogos do lado do Manoel.
-Que jogos são esses?
-Hã... Skyrim e Uncharted.
-Porque tu não me trouxe os dois Uncharted que eu tinha pedido?
-Porque não. Se tu não quer o Skyrim eu levo de volta.
-Não, não, eu quero.
Mais silêncio. Licurgo falou:
-E no mais?
-Na mesma. Tranquilo. - Respondeu Manoel.
-Eu não sei se eu ia conseguir me aposentar aos trinta e cinco, velho. - Declarou Licurgo olhando os pratos sujos e os papéis de doce em volta da cadeira de Manoel.
-Ah, tu se acostuma. - Declarou o amigo, fazendo uma careta enquanto controlava oito personagens na tela. - Quer ver o jogo aqui?
-Uh... Não. Vou ver em casa. Comprei Soda Limonada.
-Não comprou Fanta? Que milagre. - Inquiriu Manoel.
-Pra tu ver.
Licurgo se levantou apanhando a mochila. Uma foto de Manoel e sua esposa adornava uma cômoda próxima ao chiqueiro particular do amigo. Licurgo suspirou ao ver Manoel e Clarice de ombros e rostos colados dando sorrisos pra câmera.
Manoel pausou o jogo, se levantou e abraçou Licurgo fraternalmente.
-Eu sei que é uma merda, velho.
Licurgo abriu bem os olhos e encarou o teto. Sempre fazia isso quando achava que podia chorar. Mas não deu:
-É uma merda, mesmo, meu. É foda.
-Eu sei. - Disse Manoel.
Licurgo se desvencilhou do abraço do amigo e sentou novamente no sofá segurando o rosto entre as mãos. Manoel sentou ao seu lado e lhe deu um tapa nas costas.
-Desabafa.
Licurgo ficou em silêncio um instante, mas se ergueu.
-Não. Obrigado, mas não. - Disse enquanto respirava fundo e limpava o nariz. Manoel o olhou com uma expressão séria:
-Tu sabe que... O modo como tu administra a tua vida não é da minha conta mas... Dá margem a muita merda. Quanto tempo tu-
-O tempo que precisar, parceiro. - Interrompeu Licurgo.
-Quanto foi na outra vez? - Quis saber Manoel.
-Seis anos. Oito anos dependendo do ponto de vista. - Rebateu
Licurgo.
-E valeu a pena? - Quis saber o amigo.
-Não. - Respondeu o Licurgo.
-E então?
-Dessa vez é diferente. Eu disse que não iria a parte alguma, e adivinhe?
Manoel deu de ombros.
-Eu sou um homem de palavra e não há monge budista mais paciente do que eu.

terça-feira, 13 de março de 2012

Amigo Belicoso


-É o caralho! - Disse o Everaldo sentado na mesa do bar, ao lado de um sorridente Paulo Roberto e de um boquiaberto Geferson.
O Geferson, com "G", mesmo, e sem acento, era colega de trabalho do Paulo Roberto, e já ouvira falar do Everaldo, antes, mas achava que o Paulo Roberto exagerava. Não acreditava que o Everaldo fosse de verdade. Aconteceu que o Paulo Roberto, chamado Paulo Roberto em homenagem ao maior jogador de futebol a flanar pelos campos do Rio Grande do Sul, Paulo Roberto Falcão, e colorado até a medula, tinha discussões recorrentes sobre futebol com o Geferson, gremista crescido nos anos noventa, quando o time da Azenha viveu o ponto alto dos seus anos de glória.
O Paulo Roberto, cansado de discutir com o Geferson, encontrou a proverbial gota d'água quando o colega lhe disse que a torcida gremista jamais fora racista. E, quando interpelado por Paulo Roberto a respeito dos cantos de "macaco" direcionado pela torcida tricolor aos colorados, rebateu dizendo que tais cantos faziam referência ao fato de que a torcida do Inter imitava as iniciativas da torcida gremista.
Eis que entrou na equação Everaldo, torcedor gremista, ao menos na teoria, e filho de um pai tão fanático que o batizou homenageando ao lateral-esquerdo gremista que jogou na Seleção Brasileira de 70, e amante de histórias sombrias e de alcova.
Paulo Roberto, que achava exaustivas essas discussões futebolísticas, especialmente com fanáticos como Geferson encerrou a discussão, e, casualmente, o convidou para tomar um chope depois do trabalho. Lá, após apresentar Geferson ao Everaldo, e pedir as bebidas, Paulo Roberto, ardilosamente, levantou novamente o assunto do apelido de macaco da torcida colorada, e assim que Geferson falou, novamente, da tese das imitações, surgiu, em alto e bom som, o "é o caralho", lá do início.
-Todo mundo sabe, rapaz, que o grito de "macaco" tem cunho racista, não admitir isso é hipocrisia ou ignorância. O Inter abriu as portas do clube aos negros primeiro, buscando jogadores na antiga Liga da Canela Preta, pois negros não podiam jogar futebol com brancos, então tinham uma liga só sua. Claro, o Inter levou mais tempo pra abrir as portas do clube aos negros do que alguns clubes do centro do país, mas fez isso antes do Grêmio, que era um clube elitista comandado por alemães irredutíveis, que, diga-se de passagem, permanecem no comando do clube através dos seus descendentes e são responsáveis por muito dos infortúnios dese time.
O Geferson, engoliu em seco, olhou pro Paulo Roberto, que sorria sardônicamente, e perguntou ao colega:
-Ele é colorado?
-Colorado é a puta que te pariu, seu peidão! - Gritou Everaldo. -Eu sou gremista, mas ao contrário de ti, com essa cara de quem caiu da mudança, não nasci em 95, rapaz. Eu conheço a história do meu clube e do futebol, já pra saber o que há de errado.
-Argumenta, argumenta... - Encorajou Paulo Roberto, maquiavélico.
Geferson titubeou, mas respirou fundo e começou:
-Mas eu sabia que o troço aí do "macaco" era por causa da imitação...
-Que imitação, o quê, criatura? Tu não conhece o... O... Como é o nome do cara aquele, Pê Erre? Que foi rei Momo de Porto Alegre duzentos anos?
-Vicente Rao. - Acudiu Paulo Roberto.
-Isso, porra, Ricente Vao, o cara era do carnaval, e foi quem iniciou esse jeito de torcer com batuques, foguetório, cantos na arquibancada e o caralho a quatro. Claro, hoje em dia as torcidas do Brasil e da américa do Sul inteira imitam umas às outras, mas esse jeito de torcer do Rao e da torcida do Inter foram copiados por várias torcidas, inclusive a do grêmio.
-O que resultou na legendária faixa "Imitando Crioulo, hein?" em 1945, época do Rolo Compressor, que, por sinal, foi ele quem batizou. - Complementou Paulo Roberto.
Geferson bebeu um gole do seu chope. Estava vermelho, provavelmente de raiva:
-Bom, isso não importa. Eu continuo sendo gremista e não sou racista. - Sentenciou.
-Nem eu, ô palhaço filho de uma puta, mas esse papo de imitação é coisa de cagões de merda hipócritas feito o Odone, o Guerreiro e os outros politiqueiros filhos de um zorrilho que comandam o clube a décadas. Nunca vão chegar perto de um Fábio Koff... - Replicou Everaldo.
-Nem do Fernando Carvalho... Do Vitório Píffero, do Hermann, do Balvé... - Falou Paulo Roberto, casualmente.
-Cala a boca, Pê Erre, não fode.
Geferson não disse mais nada, terminou seu chope, largou uma nota de cinco em cima da mesa, e se despediu dizendo "até amanhã" pro Paulo Roberto, e "satisfação" pro Everaldo.
Quando Geferson saiu, Paulo Roberto deitou a cabeça na mesa, rindo, então se ergueu e olhou pro Everaldo:
-Cara, eu queria ter metade da disposição que tu tem pra discutir e contradizer todo mundo. Eu acho isso tão exaustivo, mas pra ti sai ao natural!
-Pois é, Pê Erre. Isso é uma forma de arte. Eu te diria que um dia tu chega lá, mas pelo formato da tua cabeça, eu acho que tu não tem o perfil pra isso.
-Everaldo, a frenologia foi considerada pseudo-ciência lá no século dezenove...
-Não, peraí, caralho, vamos falar melhor sobre isso, ô, garçom, traz mais um chope e uma coca, aqui, e gelado, hein ô, filho da puta...
Paulo Roberto não disse nada, sabia que não dissuadiria o amigo de sua defesa à frenologia, nem queria, sabia das vantagens de ter um amigo de verdade belicoso como Everaldo.