Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Sinceridade
Foi ainda no começo da adolescência que conheci o César.
Sujeito de estatura baixa e má construção física, era aqueles magros com uma barriga murcha pendendo como uma pochete flácida de pele sobre a cintura (onde, aliás, geralmente repousava uma pochete de lona de verdade.). Ele mesmo referia-se ao próprio tipo físico como "Uma minhoca que engoliu uma azeitona".
Tinha pernas e braços finos, a tez muito branca, quase amarela, e uma quantidade generosa de sinais e pintas pelo corpo. Careca, com alguns poucos cabelos castanhos finos ao redor da cabeça, tinha um rosto quadrado, olhos bem juntos, quase nenhuma sobrancelha e um espaço generoso entre os dois dentes superiores da frente.
Geralmente vestia-se com bermudas jeans que obviamente haviam visto dias melhores na forma de calças até estarem envelhecidas e maleáveis, serem cortadas sem lá grande esmero ou cuidado na altura das pernas e seguirem sua vida deixando os cambitos de César à vista de todos.
César tinha uma pequena loja, mais ou menos do tamanho de um armário de vassouras na cidade baixa, e vendia ali todo o tipo de porcaria velha. Se alguém tivesse um fogão fabricado em 1972 e precisasse de peças de reposição, era provável que as encontrasse na loja do César. Se alguém estivesse procurando aquelas agulhas pra desentupir a boca dos queimadores do fogão, encontraria ali, também. O mesmo valia pra placas de carro velhas e enferrujadas, crânios de animais, aqueles engradados em miniatura da Coca Cola, com algumas das garrafas com conteúdo pela metade e as demais faltando, bichos de pelúcia caolhos, ventiladores com as hélices e a grade de metal, e outras porcarias do tipo.
César também vendia revistas velhas, que pendurava com prendedores de roupa em alguns varais que cruzavam pelo alto o exíguo espaço de sua loja. Vendia todas sem muita distinção, lá havia edições da Planeta datadas dos anos setenta, da revista Manchete, até uma Cruzeiro eu vi pendurada lá, uma vez.
Foi justamente por isso que conheci o César. Por causa das revistas.
Certa feita passei em frente à sua loja e vi uma edição encadernada de Batman - O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller pendendo em seu varal. Haviam alguns garranchos feitos à caneta azul na capa, mas o interior do gibi, à exceção de algumas orelhas em diversas páginas, estava em perfeito estado. Comprei por dois Reais. Na época nem havia nota de dois, dei duas notas de um Real, daquelas verdes, com um beija-flor que nem existem mais.
Continuei frequentando a lojinha do César dali por diante, e, conforme me tornava, de fato, seu cliente recorrente, fui aprendendo o quanto o César era desagradável.
O César, por exemplo, não tinha pudores em vender revistas proibidas para menores a menores. Aliás, não fosse (mais) essa faceta abjeta do César, e eu provavelmente não teria continuado sendo seu cliente dada sua falta de esmero na hora de selecionar o estados dos gibis que comercializava. Nos meus quatorze anos de idade era muito importante pra mim ter acesso à nudez feminina, e as únicas formas disponíveis à época, eram comprando revistas ou assistindo à peças de teatro que porventura apresentassem alguma nudez como A Farsa Trágica do grupo Falos & Stercus, que assisti quatro vezes para ver uma atriz nua.
As peças teatrais eram raras, especialmente aquelas que permitiam a entrada de menores quando havia "conteúdo adulto, e César garantia acesso as revistas.
Mais do que isso, dava dicas.
Ainda lembro de uma vez em que, modesta e timidamente peguei uma Playboy qualquer, não lembro quem era a capa da edição, e ouvi de César:
-Que é isso? Não compra essa revista, não, que isso é uma merda. Quer ver pentelho olha os teus quando for mijar. Aqui, ó. Leva essa importada, é só um real mais cara e "as mina se arreganha inteira".
Talvez agora fique mais claro o quanto o César era desagradável.
Ainda que fosse desagradável, não estivesse nem perto de ser bem sucedido, fosse uma figura feia, e não fosse particularmente inteligente, após algum tempo surgiu uma namorada para trabalhar com César, que ficava na loja em seu lugar em algumas ocasiões. Era mais jovem que o César, tinha os cabelos descoloridos nas pontas com raízes muito escuras, e embora não fosse uma mulher feia como era de se esperar ao lado de César, tinha uma certa qualidade avoada, quase infantiloide, que fazia-me sentir alguma piedade dela.
Nunca soube se ela era de fato namorada do César, não me lembro nem de vê-lo tocar nela, ou sequer chamá-la pelo nome, geralmente ele a chamava com um "ô", ao que ela atendia de pronto.
Logo que ela surgiu, comecei a parar de frequentar a lojinha de César, tanto por vergonha quanto por receio.
Acho que a faceta desprezível do César era tão vívida que eu temia, inconscientemente, que ele fosse tentar se tornar cafetão da tal moça e oferecer serviços de alcova dela a preços módicos, talvez executados em uma cama minúscula, ou num colchão sem forro que, eu supunha, ele fosse ocultar atrás da cortina puída que dividia em dois o espaço acanhado de seu estabelecimento.
Pelo que conhecia de César, não duvido que ele se proporia a agenciar a prostituição de sua companheira e ainda ficar vendo de esguelha enquanto se consumava o ato.
Mas antes disso, em certa feita, eu entrei no muquifo de César e me pus a vasculhar suas revistas enquanto ele conversando com uma velhinha grisalha de vestido floreado e chinelos de camurça. A idosa comentava com César a respeito de uma matéria que vira na televisão, dando conta de um rapaz, que descobrira após o casamento, que sua noiva era um travesti.
A velhinha, escandalizada, dizia:
-Imagine, seu César. Na noite de núpcias, descobrir que a noiva é homem.
E o César, muito natural, sentado em sua banqueta alta com a perna cruzada e o chinelo Samoa batucando no calcanhar, respondeu de bate-pronto:
-Eu viro ela e faço anal. Nem quero saber. Viro ela e faço anal.
A velhinha, com uma expressão escandalizada, cobriu a boca muito aberta com a mão, e despediu-se de César com um aceno mudo, que ele respondeu com um "tchauã".
César era assim... Desagradável.
E talvez o fosse por ser excessivamente sincero.
César não era um desses trolls da internet, dono de uma sinceridade artificial, que se esconde sob o manto da distância e do anonimato para ser grosseiro com todo mundo em busca de uma auto-afirmação de qualquer espécie, ou de risadas grosseiras.
Não. César era um grosseiro genuíno, pois genuína era sua sinceridade. Sua sinceridade e a consequência que ela trazia, aquela qualidade repelente, não eram um joguete, não era um estilo adotado, eram intrínsecos à sua personalidade. Ele não sabia ser diferente daquilo, e sincero que era, provavelmente nem queria.
Conheci, depois, muitas pessoas tão desagradáveis quanto o César. Mas nenhuma tão sincera, e nem tão autêntica.
... Ainda bem...
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Rapidinhas do Capita
Que bela maravilha. Na melhor notícia da semana, a Nestlé avisa que o chocolate Milkybar vai mudar de roupa e parar de malhar pra voltar a ser o fofinho Lollo.
O doce que tinha mudado de nome em 1992 deixando crianças pelo Brasil inteiro (inclusive este humilde e saudoso escriba) órfãs de sua guloseima favorita vai voltar.
Pra quem acha que é furada e que Milkybar é a mesma coisa que Lollo, ledo engano:
A própria Nestlé precisou verificar, antes de oficializar o revival, se ainda teria condições de reproduzir a receita original do chocolate, muito mais macio que a versão atual e que de tão sem graça restringe-se às caixas de Especialidades Nestlé.
Enfim, pra ficar perfeito só falta voltarem à TV as propagandas animadas com uma barra de chocolate bunduda gritando "Tô fofo! Tô fofo!", os picolés Fura-Bolo e Squeeze voltarem a ser produzidos, os Comandos em Ação voltarem a ser apenas brinquedos maneiros e eu arranjar uma máquina do tempo pra voltar à minha pré adolescência.
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Foi em Teresina, no Piauí, que o TRE local e a Polícia Federal iniciaram investigações após declaração do candidato à prefeito Wellington Dias sobre candidatos a vereador que estariam trocando votos por crack.
Bom... A despeito do crime de tráfico de drogas e crime eleitoral, droga na política, parece um lance incrivelmente apropriado...
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Barack Obama disse em um dos jantares pra angariar fundos à sua campanha para concorrer à Casa Branca em 2008 que não nascera em uma manjedoura, mas sim em Krypton.
Depois apareceu em histórias em quadrinhos do personagem Savage Dragon, da Image Comics, e em Homem-Aranha, da Marvel.
O super-herói Great Machine, dos gibis Ex Machina, da Wildstorm impediu um dos atentados de 11 de setembro e se tornou prefeito de Nova York, cargo que J. Jonah Jameson também ocupa nos gibis do Aranha, e no universo DC o vilão Lex Luthor já foi presidente dos EUA.
Agora chegou a vez de um super-herói sentar na poltrona do homem mais poderoso do mundo. No selo Ultimate o Capitão América é eleito presidente dos EUA mesmo sem estar filiado a nenhum partido político e aceita o emprego, tendo a missão de reunir o país, assolado pelo sectarismo e o preconceito contra os mutantes.
Vale lembrar que o Capitão América da linha Ultimate não é o mesmo sujeito com jeito de tiozão boa praça que vemos nos gibis de sempre e nos filmes. A versão idealizada por Mark Millar para Os Supremos mostra um sujeito muito mais conservador militarista. Aparentemente vem um George W. Bush com superpoderes no comando dos EUA do Ultiverso.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Uma Festa Há Muito Esperada...
Em uma casa em Oxford vivia um professor...
Não se tratava, porém, de qualquer professor. Um desses chatos que simplesmente vão de casa pra escola e da escola pra casa e entre uma coisa e outra enchem a lousa com palavras chatas e os ouvidos dos alunos com palestras sonolentas. Não senhor. Esse professor nasceu na extinta República do Estado Livre de Orange, hoje África do Sul, e aos três anos de idade se mudou para a Inglaterra com a mãe e o irmão, onde naturalizou-se britânico. Ele cursou a faculdade de letras em Exeter, e esteve no fronte de combate na Primeira Guerra Mundial. Ele era John Ronald Reuel Tolkien, e isso, acima de tudo, significa Arda.
Mais do que isso, significa O Hobbit. Significa O Silmarillion, significa Contos Inacabados e A História da Terra Média e significa O Senhor dos Anéis...
A Semana Tolkien começou a ser observada pela Tolkien Society em 1978, e segundo a entidade ela é celebrada na semana de setembro que abarca o dia 22.
Segundo nos contou o pai da literatura de fantasia moderna foi em um 22 de setembro, no ano de 2890 da Terceira Era que nasceu Bilbo Bolseiro, personagem central de O Hobbit, e também no mesmo dia 22 de setembro, mas de 2968, nasceu seu primo, Frodo Bolseiro, que seria o protagonista de O Senhor dos Anéis.
A versão 2012, que começou ontem, em particular é especial pois celebra o septuagésimo quinto aniversário da publicação de O Hobbit (que terá a primeira parte da trilogia que adapta o livro ao cinema lançada no próximo mês de dezembro), originalmente publicado em 21 de setembro de 1937.
A Semana Tolkien, no hemisfério norte costuma ser lembrada com seminários, promoções em livrarias e até com maratonas de O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.
Aliás, Peter Jackson avisou pelas redes sociais que nessa Semana Tolkien vai presentear os fãs do filólogo mais maneiro da História da humanidade com um novo trailer de O Hobbit, além de mais um ou outro mimo, então vale a pena ficar de olho no Youtube e outros canais de vídeos pra dar aquela espiada no que vem por aí.
Também fica a dica pro pessoal que se amarra nas aventuras passadas no "Mundo Secundário" de J. R. R. pra, quem sabe reler sua obra favorita, conhecer uma nova, ou simplesmente assistir à trilogia original, quem sabe nas versões estendidas que estão nas lojas e valem, muito, a conferida. Além disso, serve de aquecimento pra O Hobbit - Uma Jornada Inesperada, que estréia em 14 de dezembro. Fique com o primeiro trailer e não se arrepie com a canção dos anões:
sábado, 15 de setembro de 2012
O Vilão.
E de repente, o Heraldo, sentado sozinho no muro de tijolos à vista da casa da praia, sentindo o vento que vinha da praia menos de cem metros atrás de si, teve uma sensação muito dolorida.
O Heraldo sempre se imaginou como o coadjuvante do filme.
Sério. Se a vida fosse um filme, o Heraldo jamais se via como o personagem central. Se a vida fosse ...De Volta Para o Futuro, o Heraldo se imaginaria como o doutor Brown, e não como Marty McFly. Se a vida fosse Star Wars, ele não seria o Luke, ou o Vader, ou Han Solo, ele seria Obi Wan Kenobi. Se a vida fosse O Senhor dos Anéis, ele não seria o Froddo ou o Aragorn, mas o Gandalf, e se a vida fosse o universo Marvel, ele seria o Uatu.
Era uma visão de mundo inerente ao Oswaldo, quando ele percebeu que os papéis da vida se limitam ao de vítima ou de testemunha. E ele achava muito mais interessante ser testemunha. Por isso ele não se queixava das coisas. Por isso via a vida por um prisma muito específico de pessimismo e distanciamento que lhe permitiam não se envolver a ponto de ser a vítima da própria história.
Mas o Heraldo era humano, ainda que resoluto, e humano que era, era falho, e, vez que outra, acabava seduzido por aquilo que desejava, e falhava na sua decisão.
Normalmente, tais lapsos de esperança e de ingenuidade auto infligida eram inofensivos, relativamente breves e permitiam que ele recobrasse a consciência sem se ferir ou ferir outrem.
Mas o Heraldo, subitamente se viu onde sempre desejara estar.
Se viu feliz a ponto de imaginar que podia haver um terceiro papel a desempenhar na vida que não o de testemunha ou o de mártir. E ousou se deixar levar. Ousou ser feliz. Ousou se entregar, abrir, pelo menos um pouco, os portões, as portas e as janelas.
E assim, com tudo arejado, e com espaço pra ela começar a entrar, ele se viu, de fato, feliz. Completo. Alegre como nem sabia que conseguia estar. Sem preocupações. Sem problemas. Sem medo.
Mas havia, ainda, uma reserva de Heraldo em Heraldo. E a vida não deixa passar nenhuma oportunidade de chutar um incauto nas costas.
Na primeira, ao vê-la de olhos marejados, Heraldo supôs que não fora nada.
Que fora um lapso. Que não era nada pra se preocupar.
Na segunda, porém, ao vê-la de coração tão cheio. Ao vê-la conjecturando, e percebendo o que estava perdendo por estar junto com ele...
A primeira reação de Heraldo foi ficar com raiva. Ele ficou enraivecido. Muito. Frustrado. Magoado. Sentindo-se traído.
Mas foi breve.
Ele percebeu, então, que a culpa não era dela. Ele percebeu que ela estava fazendo o que era natural de fazer. Conjecturando. Sonhando. Imaginando "e se...?".
E que a culpa era dele. Era dele apenas, pois por mais que tentasse. Por mais que quisesse, esse ainda precisava de um perímetro.
Uma zona de conforto.
Uma área de segurança.
Um espaço pra onde fugir, e do qual não sabia abrir mão.
A culpa era dele, e dele apenas.
Heraldo descobriu, desolado enquanto a brisa açoitava suas costas, que ele não era mártir na sua história, tampouco testemunha.
Ele era seu próprio arqui-inimigo.
O vilão da própria história.
E só tinha uma maneira de derrotá-lo:
Impedindo-o de ferir as pessoas a quem ele amava.
O Heraldo sempre se imaginou como o coadjuvante do filme.
Sério. Se a vida fosse um filme, o Heraldo jamais se via como o personagem central. Se a vida fosse ...De Volta Para o Futuro, o Heraldo se imaginaria como o doutor Brown, e não como Marty McFly. Se a vida fosse Star Wars, ele não seria o Luke, ou o Vader, ou Han Solo, ele seria Obi Wan Kenobi. Se a vida fosse O Senhor dos Anéis, ele não seria o Froddo ou o Aragorn, mas o Gandalf, e se a vida fosse o universo Marvel, ele seria o Uatu.
Era uma visão de mundo inerente ao Oswaldo, quando ele percebeu que os papéis da vida se limitam ao de vítima ou de testemunha. E ele achava muito mais interessante ser testemunha. Por isso ele não se queixava das coisas. Por isso via a vida por um prisma muito específico de pessimismo e distanciamento que lhe permitiam não se envolver a ponto de ser a vítima da própria história.
Mas o Heraldo era humano, ainda que resoluto, e humano que era, era falho, e, vez que outra, acabava seduzido por aquilo que desejava, e falhava na sua decisão.
Normalmente, tais lapsos de esperança e de ingenuidade auto infligida eram inofensivos, relativamente breves e permitiam que ele recobrasse a consciência sem se ferir ou ferir outrem.
Mas o Heraldo, subitamente se viu onde sempre desejara estar.
Se viu feliz a ponto de imaginar que podia haver um terceiro papel a desempenhar na vida que não o de testemunha ou o de mártir. E ousou se deixar levar. Ousou ser feliz. Ousou se entregar, abrir, pelo menos um pouco, os portões, as portas e as janelas.
E assim, com tudo arejado, e com espaço pra ela começar a entrar, ele se viu, de fato, feliz. Completo. Alegre como nem sabia que conseguia estar. Sem preocupações. Sem problemas. Sem medo.
Mas havia, ainda, uma reserva de Heraldo em Heraldo. E a vida não deixa passar nenhuma oportunidade de chutar um incauto nas costas.
Na primeira, ao vê-la de olhos marejados, Heraldo supôs que não fora nada.
Que fora um lapso. Que não era nada pra se preocupar.
Na segunda, porém, ao vê-la de coração tão cheio. Ao vê-la conjecturando, e percebendo o que estava perdendo por estar junto com ele...
A primeira reação de Heraldo foi ficar com raiva. Ele ficou enraivecido. Muito. Frustrado. Magoado. Sentindo-se traído.
Mas foi breve.
Ele percebeu, então, que a culpa não era dela. Ele percebeu que ela estava fazendo o que era natural de fazer. Conjecturando. Sonhando. Imaginando "e se...?".
E que a culpa era dele. Era dele apenas, pois por mais que tentasse. Por mais que quisesse, esse ainda precisava de um perímetro.
Uma zona de conforto.
Uma área de segurança.
Um espaço pra onde fugir, e do qual não sabia abrir mão.
A culpa era dele, e dele apenas.
Heraldo descobriu, desolado enquanto a brisa açoitava suas costas, que ele não era mártir na sua história, tampouco testemunha.
Ele era seu próprio arqui-inimigo.
O vilão da própria história.
E só tinha uma maneira de derrotá-lo:
Impedindo-o de ferir as pessoas a quem ele amava.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Rapidinhas do Capita
-É Belize. - Ela, morena, bonita, alta e esguia, olhos castanhos, gritou no ouvido dele após ele ter perguntado, também gritando, qual era seu nome.
-Mas isso não é o nome de um país? - Ele perguntou, novamente com um berro.
-É, e é meu, também. - Ela respondeu, e então, tocando no braço dele com a mão delicada completou: -Não sou egoísta. Sei dividir. - E riu.
Ele sorriu de volta, mas após trocarem mais algumas palavras ele olhou pro relógio, ergueu bem as sobrancelhas e disse que precisava ir. Não pediu o telefone dela nem deu o seu.
Ele sabia, em seu íntimo, que era egoísta e não sabia dividir.
E nem queria aprender.
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Os dois velhos decrépitos e sisudos sentados no banco da praça falando mal do mundo.
Eram anciãos carrancudos, homens muito sérios e graves.
-A minha esposa, Dolores, anda de um jeito... Só quer ver novela. Eu pago quatrocentos réis pra ter uma TV a cabo com duzentos canais e ela só para sentada pra ver novela no doze. - Resmungou o primeiro, amargo.
-Ih - Começou o segundo, fazendo um beiço de desdém - Tu ao menos sabe que a tua mulher vê a novela, e nos demais horários tu pode assistir aos programas que te agradam, mas e a minha? A Gertrude não sai de fronte o televisor. Passa o dia inteiro ali, nem pra ir na frigidaire apanhar uma água ela para.
Continuaram...
-E esse teu time? Será que anda na tabela do campeonato?
-Mas nem me fala. Essa diretoria incompetente. Bando de lesado. Nem pra contratar um treinador... Monta um time bom, mas não tem treinador. É que nem comprar um karmann Ghia e não ter chofer.
É, mas treinador se contrata. Tem jogadores bons. Mas e o meu time? O meu time tem chofer, tem um carro bonitinho, que anda direitinho e tá pago, mas se quebra uma peça para de andar... É outra diretoria incompetente. Ao menos tá chegando a eleição e dá pra ir tirar esse salafrário burro da presidência.
-Vais lá em outubro votar no Koff?
-Ah, não. Não tenho paciência nem saúde pra ir ao estádio em dia de jogo, imagine só pra votar?
E seguiram:
-E o que que tá essa política? Corja de bandido vivaldino.
-E ainda têm a desfaçatez de ir pra TV pedir voto. Cambada de mau caráter.
-Nem me fale. Nem me fale...
Ali pelas tantas passou por eles uma moça no frescor dos seus vinte e poucos anos, short jeans curtíssimo e uma justa regata branca, cabelos loiros bem soltos e esvoaçantes. Muita pele à mostra, pele muito firme, fresca e tenra.
Os dois velhos olharam a moça passar quase salivando:
-Benzadeus... Ah, os meus vinte anos...
-Vinte, não, meu filho. Trinta. Com vinte nós ainda não iríamos saber aproveitar tudo o que esse passeio teria a oferecer.
-Bem lembrado, bem lembrado... Ah, os meus trinta anos...
-No nosso tempo elas não andavam assim, desse jeito.
-Ih, nem perto disso. Era capaz de tu estares na praia do Quintão e não ver tanta carne à mostra.
-Era capaz de nem no açougue ter tanta carne à mostra.
Riram muito os dois. O outro acrescentou:
-Pelo menos não tanta carne de primeira.
Riram mais ainda, até começarem a tossir e perceberem o ridículo da situação, então pararam pigarreando. E olhando pro outro lado. Não pegava bem dois senhores sérios e graves gargalhando à passagem de uma moçoila. Voltaram a falar mal de tudo.
Todavia, à noite, antes de dormir, cada um na sua casa, ambos pensaram na graça daquela jovem, e da juventude em geral, e, durante a madrugada, encoxaram com vontade as suas respectivas esposas.
Era, afinal de contas, um momento de intimidade, onde podia-se abrir mão de seriedade e gravidades.
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Ele sentou perto dela, acariciando sua mão, e pensou em perguntar:
-Quanto do que tu sente por mim é condescendência disfarçada?
Mas desistiu ao perceber que ela diria que nada do que sentia por ele era condescendência de nenhuma espécie.
Resolveu esperar. Dar-lhe tempo para que ela descobrisse por conta própria e os salvasse.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Quadrinhos: Hellboy - A Noiva do Demônio e Outras Histórias
Eu adoro Hellboy. A criação de Mike Mignola, o demônio Anung un Rama, invocado por nazistas aliados ao mago Rasputin durante a Segunda Guerra Mundial e criado com afeto e dedicação pelo professor Trevor Bruttenholm para conhecer a importância de ser humano e combater as forças das trevas aparece sempre em ótimas histórias, muitas delas escritas e desenhadas por Mike Mignola em um estilo sintetizado por Alan Moore como "Expressionismo Alemão encontrando Jack Kirby", e é difícil não se afeiçoar ao demônio mais gente boa dos quadrinhos.
Hellboy, ao contrário de outras ótimas séries mais underground lançadas nos EUA e que, quando chegam ao Brasil não encontram continuidade na sua publicação, encontrou na editora Mythos um porto seguro. É difícil a editora ficar um ano sem lançar uma ou duas edições de Hellboy, normalmente encadernados bem caprichados e que embelezam a estante de nerds rançosos como eu (Apesar de o custo, entre 47 e 50 reais assustar um pouco à primeira vista), mantendo os fãs do diabão alimentados das saborosas e divertidíssimas histórias do detetive do sobrenatural e sua cruzada, seja junto ao BPRD (Bureau de pesquisa e defesa sobrenatural na sigla em inglês), seja por conta própria para combater ao mal em todas as suas formas sem jamais perder o bom humor.
Recentemente a editora lançou dois especiais, a Hellboy Edição Histórica Vol. 5 - Máscaras e Monstros, de que falaremos em outra ocasião, e essa A Noiva do Demônio e Outras Histórias, que acompanha o vermelhão quando ele ainda era agente do BPRD e viajava mundo afora procurando por ameaças paranormais.
Nessa edição são seis histórias: Hellboy no México, que envolve vampiros, divindades maia e luchadores, (muito bem) desenhada por Richard Corben; a segunda, Sessão Dupla de Horror é composta de duas missões curtas do Hellboy, a primeira, O Prêmio de Sullivan mostra um homem às voltas com uma casa assassina, e a segunda , A Morada de Sobek, mostra um homem ressuscitando múmias, ambas são ilustradas por Richard Corben, a seguir vem O Longo Sono dos Mortos-Vivos, uma ótima história com vampiros a moda antiga desenhada por Scott Hampton, depois vem a história que dá título à edição: A Noiva do Demônio, novamente com arte de Corben e que mostra Hellboy perdido no fogo cruzado entre uma seita de adoradores de um demônio ancestral e um grupo de cavaleiros templários; depois tem O Legado da Família Whittier, com desenhos do próprio Mignola (Que também escreve todas as histórias da edição), onde um estudioso tenta acessar os famigerados abismos inescrutáveis da noite, e finalmente Buster Oakley Realiza Seu Desejo, desenhada por Kevin Nowlan, onde o herói egresso do Inferno vai à uma fazenda onde se vê face a face com adolescentes satanistas, cientistas loucos alienígenas e vacas fantasmas.
Todas as histórias são carregadas do bom humor típico da série e as já tradicionais referências ao ocultismo, civilizações antigas e contos de H. P. Lovecraft.
Como as histórias são todas bem soltas, sem pesar na cronologia da série, é uma ótima pedida pra leitores novatos que ainda não viram o Hellboy no seu habitat natural, e querem conhecer o personagem, e artigo obrigatório pra quem, como eu, é fã do diabão do bem.
"Pelo jeito ainda restam algumas pessoas que acreditam em vampiros. Ô velho filho duma..."
Hellboy, ao contrário de outras ótimas séries mais underground lançadas nos EUA e que, quando chegam ao Brasil não encontram continuidade na sua publicação, encontrou na editora Mythos um porto seguro. É difícil a editora ficar um ano sem lançar uma ou duas edições de Hellboy, normalmente encadernados bem caprichados e que embelezam a estante de nerds rançosos como eu (Apesar de o custo, entre 47 e 50 reais assustar um pouco à primeira vista), mantendo os fãs do diabão alimentados das saborosas e divertidíssimas histórias do detetive do sobrenatural e sua cruzada, seja junto ao BPRD (Bureau de pesquisa e defesa sobrenatural na sigla em inglês), seja por conta própria para combater ao mal em todas as suas formas sem jamais perder o bom humor.
Recentemente a editora lançou dois especiais, a Hellboy Edição Histórica Vol. 5 - Máscaras e Monstros, de que falaremos em outra ocasião, e essa A Noiva do Demônio e Outras Histórias, que acompanha o vermelhão quando ele ainda era agente do BPRD e viajava mundo afora procurando por ameaças paranormais.
Nessa edição são seis histórias: Hellboy no México, que envolve vampiros, divindades maia e luchadores, (muito bem) desenhada por Richard Corben; a segunda, Sessão Dupla de Horror é composta de duas missões curtas do Hellboy, a primeira, O Prêmio de Sullivan mostra um homem às voltas com uma casa assassina, e a segunda , A Morada de Sobek, mostra um homem ressuscitando múmias, ambas são ilustradas por Richard Corben, a seguir vem O Longo Sono dos Mortos-Vivos, uma ótima história com vampiros a moda antiga desenhada por Scott Hampton, depois vem a história que dá título à edição: A Noiva do Demônio, novamente com arte de Corben e que mostra Hellboy perdido no fogo cruzado entre uma seita de adoradores de um demônio ancestral e um grupo de cavaleiros templários; depois tem O Legado da Família Whittier, com desenhos do próprio Mignola (Que também escreve todas as histórias da edição), onde um estudioso tenta acessar os famigerados abismos inescrutáveis da noite, e finalmente Buster Oakley Realiza Seu Desejo, desenhada por Kevin Nowlan, onde o herói egresso do Inferno vai à uma fazenda onde se vê face a face com adolescentes satanistas, cientistas loucos alienígenas e vacas fantasmas.
Todas as histórias são carregadas do bom humor típico da série e as já tradicionais referências ao ocultismo, civilizações antigas e contos de H. P. Lovecraft.
Como as histórias são todas bem soltas, sem pesar na cronologia da série, é uma ótima pedida pra leitores novatos que ainda não viram o Hellboy no seu habitat natural, e querem conhecer o personagem, e artigo obrigatório pra quem, como eu, é fã do diabão do bem.
"Pelo jeito ainda restam algumas pessoas que acreditam em vampiros. Ô velho filho duma..."
PES 13 X FIFA 13
Como faço todos os anos, assim que as versões demo de Pro Evolution Soccer e FIFA Soccer são liberadas pra download na PSN, eu corro pro video game em busca das demonstrações. Ontem, acho que mais de um mês depois do lançamento da versão demo do Pro Evolution a EA Games liberou a prévia jogável da versão mais recente da sua série de futebol.
Com as duas versões de demonstração dos games devidamente jogadas, dá pra perceber que a Konami está em uma violenta área de conforto com Pro Evolution, e parece ter desistido de tentar melhorar o game de qualquer forma após a desastrada versão 2011 do jogo, que tentou, sem sucesso, adicionar um quê de simulador à série.
A versão demo do Pro Evolution Soccer 2013 continua sendo um game divertido, as licenças oficiais da UEFA Champions League e da Libertadores da América sempre empolgam, afinal de contas, e nesse ano há ainda a possibilidade de disputar o Campeonato Brasileiro de futebol licenciadinho, com seus vinte clubes iguais que nem na vida real, mas sem as arbitragens medonhas ou a CBF roubando atletas dos clubes pra amistosos caça niqueis da Seleção do Mano Menezes, mais um ponto a favor da série da Konami.
A questão é que a empresa japonesa segue investindo em licenças mas sem mexer na jogabilidade, que se gerou uma legião de fãs fidelíssimos, também afasta outros tantos players do jogo.
A movimentação dos atletas em campo segue esquisita. Os jogadores digitais se movem como robôs alimentados com urânio enriquecido, correndo durinhos em velocidades absurdas pelo campo todo. Embora os atletas mais famosos tenham feições digitalizadas excelentes, a imensa maioria dos jogadores têm rostos absolutamente genéricos, todos mais ou menos iguais.
Mas o grande defeito segue sendo a incapacidade das defesas do game de gerar um desafio ao player. Qualquer pressão à zaga adversária gera chutões e passes errados dos beques digitais, e os goleiros são um capítulo à parte, todos eles parecem jogadores de várzea diante de profissionais, com reflexos e movimentação extremamente deficientes. Pra piorar, ainda existem chutes de determinadas áreas do campo que o goleiro sempre deixa entrar.
O FIFA, que desde 2005 tem sido aprimorado na questão de jogabilidade segue melhorando ano a ano. A versão final da edição 2012 do game era quase perfeita em termos de jogabilidade, tinha bons gráficos, movimentação convincente, e a primeira versão do engine de sistema de impacto, que tornava os jogadores mais "substanciosos" no campo, gerando encontrões e choques frequentes durante as partidas. Esse elemento conferia mais realismo ao jogo, e tornava a habilidade de escapar dos marcadores mais importante, mas ainda era um recurso novo, e por vezes gerava situações esquisitas nas partidas, como atletas caindo uns por cima dos outros, ou o hit dos fãs de PES no Youtube onde a versão digital do centroavante Andy Carrol parecia tascar um beijo cinematográfico no goleiro adversário após um impacto entre os jogadores os deixar enrolados um no outro.
Na versão 2013 esse problema parece ter sido sanado com o aperfeiçoamento do engine que gera os impactos, nas várias partidas que joguei em nenhum momento os jogadores ficaram presos uns por cima dos outros, nem enredados de nenhuma forma, mas os choques e encontrões estavam todos lá.
Como em termos de jogabilidade e movimentação FIFA 12 já era um simulador praticamente perfeito, o que deveria ser mexido era justamente refinar o sistema de impacto, e oferecer melhorias aos modos de jogo, como o Carreira, o Live Season e o Be A Pro. O modo carreira ganhou a possibilidade de o player se tornar técnico da sua seleção nacional (Espero que também se possa ser técnico de outras seleções que não a do seu país.), e o Be a Pro promete aumentar a interatividade do jogador com o seu treinador digital, mas tudo isso só vai ser confirmado quando o game for lançado oficialmente no fim desse mês.
De qualquer forma, em termos de jogabilidade, realismo e fidelidade ao esporte bretão, FIFA se mantém superior ao Pro Evolution, e justifica porque de cada dez games de futebol vendidos no mundo, sete são FIFA.
Pro Evolution Soccer é divertido, é legal de jogar com os amigos, mas o simulador da EA segue dando uma surra de relho na arcade da Konami.
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