Pesquisar este blog

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Resenha Blu-Ray: Velozes & Furiosos 6


Dormi cedo demais, ontem. Peguei no sono enquanto tentava assistir ao jogo entre Inter e Vitória, os jogos do Inter ultimamente tem esse efeito em mim. Me fazem dormir que nem uma pedra e bem rápido. Duvido que algum sonífero químico funcione melhor que o "futebol" apresentado pelo Inter do Dunga.
De qualquer forma, dormi cedo demais, e acordei por volta de meia-noite e trinta com duas certezas... Bom, na verdade três, mas a terceira não vem ao caso. As duas certezas que importam eram:
Estava calor.
Eu não conseguiria mais dormir naquela noite.
Com essa certeza martelando na cabeça, não me restou alternativa exceto procurar o que fazer. E a escolha vou procurar um filme pra ver na madrugada.
Após uma breve busca na grade do serviço de locação da TV a cabo, o escolhido foi um filme que eu queria ter visto no cinema, mas não consegui:
Velozes & Furiosos 6.
Sequência óbvia do filme que trouxe a trupe de Vin Diesel e Paul Walker ao Brasil em 2011, Velozes & Furiosos 6 mostra a gangue de rachadores vivendo mansamente dos frutos de seu último golpe no quinto filme.
Brian (Walker) e Mia (Jordana Brewster) têm um filho recém nascido, Dom (Diesel) está tranquilo com a ex-tira Elena (Elsa Pataki), Gisele (Gal Gadot) e Han (Sung Kang) viajam pelo mundo, Roman (Tyrese Gibson) torra sua fortuna com viagens à lugares paradisíacos e modelos piranhudas e Trej (Chris 'Ludacris' Bridges) compra carros conceito para passear em recônditos do Caribe.
A rotina tranquila do grupo termina quando o agente Luke Hobbs (Dwayne The Rock Johnson) encontra Dom.
Para sua surpresa, porém, Hobbs não quer prendê-lo, mas pedir seu auxílio para capturar uma gangue de criminosos de alto nível liderados por Shaw (Luke Evans), um ex-militar inglês interessado em roubar sofisticados armamentos da OTAN e vendê-los no mercado negro.
Para atrair a atenção de Dom e seus amigos, além de indultos a todo o grupo, Hobbs tem um outro trunfo:
No grupo de Shaw está ninguém menos do que Letty (Michelle Rodriguez), ex-namorada de Dom dada como morta no quarto filme.
Com o grupo de Brian e Dom reunido, começa uma caçada que se estende de Londres à Espanha, passando por Los Angeles e colocando os bandidos gente-boa de Dom mais o agente Hobbs e sua parceira Riley (Gina Carano) contra os brutais mercenários de Shaw numa luta onde a vitória pode significar a chance de voltar pra casa, e a derrota, é a morte.
Claro que pra se aproveitar os filmes da série Velozes & Furiosos é necessário estar com a suspensão de descrença tão em dia quanto o desapego.
Se essa necessidade de aceitar o implausível em nome da diversão já era crucial nos três primeiros filmes da franquia, tem sido escalonada vertiginosamente desde o retorno de Diesel no quarto longa, e mais um degrau do exagero e do absurdo é superado nesse sexto filme.
O desapego fica por conta da completa alteração do tom dos filmes.
Se Velozes & Furiosos, + Velozes + Furiosos e Velozes & Furiosos - Desafio em Tóquio ganharam ou sustentaram fãs por serem filmes policiais ambientados no mundo das corridas de rua, de Velozes e Furiosos 4 pra cá a série mudou bastante, se tornando filmes de ação estilo "heist movie", com todos os clichês dos filmes de assalto (Se duvida veja Onze Homens e Um Segredo, Efeito Dominó e A Origem, e confira todas as semelhanças), e nesse sexto episódio ganha até um arzão de filme de máfia, trocando a família Corleone pela família Toretto.
Ainda assim, o filme diverte. Enquanto assistia à película vidradão, ainda pensei como um filme tão ruim podia ser tão divertido, e a resposta é "Porque ele entrega exatamente o que se espera", duas horas de adrenalina, piadinhas idiotas e velocidade estilo montanha-russa que despreza solenemente coisas como roteiro, interpretações ou as leis da física.
O elenco de canastrões do goleiro ao ponta-esquerda segue impagável, especialmente quando tenta aprofundar as interpretações, por sorte a franquia tem a decência de não se levar a sério demais, brincando inclusive com os músculos oleados de The Rock e Vin Diesel.
Precisa de mais uma razão pra ver o filme?
A luta da Gina Carano (Que ontem, olhando de certo ângulo os olhos, o nariz e as sobrancelhas percebi porque eu acho tão atraente) contra Michelle Rodriguez no metrô de Londres. As duas gatonas dão risada na cara de Diesel e The Rock com seu agarramento em Operação Rio.
Em suma, é ruim, mas é bom. Vale demais a locação e me arrependo de não ter visto no cinema. Remediarei isso quando lançarem Velozes & Furiosos 7.
Sim, vai ter, dê uma conferida na cena após os créditos, preparando terreno pra nova sequência e endireitando a cronologia da série para com Desafio em Tóquio.

"-Você não vira as costas à sua família, mesmo quando ela o faz."

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Duelo de Demos: FIFA 14 X PES 14



Calma, não invoquei dois demônios das profundezas do inferno pra se digladiarem no blog, mas sim, estive vagando pela PSN na terça e ontem em busca das versões prévias dos representantes desse ano das duas maiores franquias esportivas do mundo, o FIFA Soccer da EA Games e o Pro Evolution Soccer da Konami.
Todo mundo já deve saber que eu sou FIFistA convicto de longa data, mas também sabem que eu me divirto muito jogando Pro Evolution entre amigos.
Comecemos com FIFA, que baixei primeiro:
O Game da EA vem dando uma sonora goleada no PES nos últimos anos. Embora o público brasileiro, que majoritariamente prefere Pro Evolution possa ficar bravo, a proporção mundial de vendas das franquias bateu em 25 pra 1 no ano passado.
Isso mesmo, pra cada exemplar de Pro Evolution vendido no mundo, vinte e cinco FIFA já haviam sumido das prateleiras.
Isso não é por acaso. FIFA Soccer alcançou, entre suas versões 12 e 13, um patamar elevadíssimo em termos de qualidade, fidelidade e apuro técnico. Jogar FIFA soccer num console de última geração é a chance mais próxima que um perna de pau como eu ou você temos de experimentar como é ser um craque da bola jogando nos maiores palcos futebolísticos do mundo.
Após jogar algumas partidas do DEMO da versão 14 do jogo, dá pra dizer que há algumas alterações interessantíssimas.
Um sistema de proteção de bola mais refinado foi adicionado ao jogo. Agora, com a pelota dominada, ao invés de ficar girando ou correndo pra fugir da marcação enquanto procura por um companheiro melhor colocado, existe a opção de dar as costas ao marcador e proteger a bola. Uma evolução muito bem sacada do sistema de impacto inserido em FIFA 12 e aperfeiçoado na versão anterior. O sistema de chute também foi aprimorado, tornando as pegadas dos atacantes na redonda mais verossímeis e mais difíceis. Não basta chegar espremendo o botão pra achar a meta, estufar a rede exige estar com o tempo de bola em dia, ter equilíbrio e estar bem posicionado pra não pegar de rosca e levar vaia.
Não bastasse isso, os times adversários agora jogam como se toda a partida fosse final de campeonato e toda a bola fosse um prato de comida. Paredões se formam em frente ao gol inimigo, especialmente nos embates de grandes clubes contra equipes de menor expressão.
Os gráficos melhoraram sensivelmente, especialmente nos uniformes dos jogadores, com texturas mais bonitas e acabamento caprichado, as feições dos jogadores seguem apenas OK em sua maioria, embora alguns jogadores digitais extra-classe sejam irritantemente iguais às suas contrapartes do mundo real.
As animações de comemoração, e a movimentação dos atletas, da corrida ao gestual seguem ótimas, e ainda nem estamos falando da versão acabada do jogo, que só será lançado no Brasil em 03 de outubro.
Com relação ao PES:
A Konami tem que correr atrás do prejuízo. Embora a própria companhia tenha assumido que não tinha como competir com FIFA em seus próprios termos (leia-se "PES não tem como virar um simulador", e nem deve...), o jogo não precisava ficar naquela mesmice apresentada desde a versão 2009.
A utilização de um novo motor gráfico deixaria o game mais bonito e a engine FOX, prometia melhorar a física do jogo, tornando a bola menos previsível, e levar em conta a altura e o peso dos atletas na hora de disputas e divididas de bola.
Na versão DEMO a tal melhoria gráfica não é notada. PES sempre teve gráficos mais vistosos que os de FIFA, em especial na recriação das feições de jogadores mais famosos. Ao jogar com o Bayern de Munique, por exemplo, chega a dar vontade de rir da fidelidade da carranca do craque francês Ribéry, o meia-cancha de Notre Dame, do Shrek Wayne Rooney ou do zagueiro brasileiro Dante.
A questão é que, no PES, a qualidade das feições digitais dos jogadores "TOP" não é novidade, e a representação dos jogadores menos cotados é muito ruim.
Veja por exemplo o lateral Rafael, do Manchester United, o boneco parece um espantalho que sobrou o Hollywood Wax Museum. Esses rostos "genéricos" do game, acabam criando um desequilíbrio com os jogadores mais afamados, que têm feições super texturizadas, cheias de efeitos de sombra pra reproduzir suas faces aos mínimos detalhes.
A animação da movimentação dos atletas segue durinha, com os players se mexendo como robôs, mas a física realmente melhorou.
Os jogadores, embora ainda alcancem velocidades absurdas quando engatam uma quinta marcha, e tenham um foguete no pé (independente de ser o esquerdo ou o direito), ganharam mais peso, isso melhorou o sistema de drible e acrescentou verossimilhança às viradas dos atletas e aos movimentos de preparação de chute.
Infelizmente, o principal defeito de PES ainda existe:
O jogo é fácil demais.
É praticamente impossível não vencer, e muito difícil não tocar uma sacola na CPU. Os goleiros seguem sendo o ponto baixo do jogo, com movimentação limitada e sem sentido, posicionamento zero, e reflexos de goleiro de showbol.
Enfim, como diz a tela de abertura das DEMOs, aquilo é uma prévia jogável, e não reflete a qualidade do produto finalizado, mas, baseado na prévia, FIFA vai dar outra surra de relho no Pro Evolution, embora ao menos a franquia da Konami, dessa vez, mostre uma tentativa de melhorar que vá além das licenças.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Água


A água, além de inspiração pra uma música muito chata do Guilherme Arantes, é condição inequívoca para a existência da vida.
É sabido, já diriam os dothraki, que a água é o solvente universal, um dos quatro elementos essenciais da natureza, segundo os gregos, e que, apenas em sua forma líquida, recobre setenta e um por cento da superfície da Terra, sendo a molécula mais abundante do planeta.
A água também é um elemento purificador em várias religiões como o hinduísmo, o cristianismo, o budismo e até mesmo a wicca.
E, veja só, a água é tão importante que nas mitologias religiosas politeístas, as entidades relacionadas à água gozam de maior prestígio e maior número de seguidores, veja, por exemplo, Yemanjá, e Netuno...
Para os seres humanos a água é tão importante quanto para o resto da natureza. Talvez mais. A água é o componente majoritário das células. Por ser o solvente universal, ela é responsável por praticamente todas as nossas reações químicas internas, além de transportar alimentos, oxigênio e sais minerais pelo corpo e estar presente em todas as nossas secreções e até mesmo em nossos ossos, compostos por 20% de água. Nós podemos passar semanas sem comer, mas apenas dois dias sem ingestão de água já começa a causar transtornos e passar cinco dias a seco pode ser fatal.
O corpo de um ser humano é constituído de 65 a 75% de água. Essa porcentagem varia de acordo com a idade, sexo, massa muscular e tecido adiposo, mas convenciona-se dizer que 70% de uma pessoa é água. A maior parte.
Partindo-se desse princípio, quando tu sente saudades de uma pessoa de, digamos, uns cinquenta quilos, tu está morrendo de saudade, a grosso modo, de 35 litros d'água.
Talvez esse pensamento simplista sirva pra não se condoer tanto de si mesmo.
Ou talvez não.
Talvez esse pensamento besta, surgido da necessidade de justificar o injustificável prove-se tão inútil e vazio quanto a sala de troféus do grêmio, e a única coisa que sobre seja assumir a responsabilidade e engolir a dor. E decidir o que fazer com a frustração de planos elaborados, promessas não cumpridas, juras de amor verdadeiras mas insuficientes e quatro novos pares de cuecas brancas adquiridos no dia seguinte à noite do último amasso.
Enquanto isso, liga pra fornecedora de água mineral e pede dois galões de vinte litros pra ver se isso amaina a saudade que corrói a alma.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Resenha Blu-Ray: Alvo Duplo


Após uma frustrante sessão de cinema em que aturei Ashton Kutcher tentando desesperadamente atuar, cheguei em casa e resolvi tentar uma nova experiência cinematográfica, quem sabe algo menos pretensioso.
Depois de um breve escrutínio na grade do serviço de locação da TV a cabo, resolvi apostar cinco mangos em Alvo Duplo.
Filme estrelado por um mestre na arte de não atuar, Sylvester Stallone.
Alvo Duplo mostra o assassino de aluguel Jimmy Bobo (um Stallone na sua zona de conforto e parecendo menos "embotoxado" do que em seus recentes trabalhos anteriores), criminoso de carreira, no mundo do crime desde a adolescência, que após 26 prisões, quatro julgamentos e duas condenações vive na moita, fazendo seu trabalho da maneira mais rápida e limpa possível.
Seu trabalho consiste em ser contratado por gente ruim para matar gente ainda pior. Sua única regra é:
Nada de mulheres. Nem crianças.
Trabalhando em Nova Orleans com um parceiro, Louis Blanchard (Jon Seda), Jimmy acaba de realizar mais um serviço rotineiro, apagando um chantagista, mas, na hora de coletar o pagamento, eles são emboscados em um bar, onde Louis é assassinado, e Jimmy é atacado pelo mercenário Keegan (Um esforçado Jason Momoa, o Khal Drogo) escapando da morte por um triz.
Ao mesmo tempo, o detetive Taylor Kwon (Sung Kang, da série Velozes e Furiosos) chega à cidade em busca de pistas sobre a morte de seu ex-parceiro, Hank Greely (Holt McCallany), justamente o alvo do último trabalho de Jimmy e Louis.
Fazendo a conexão entre a morte de Greely e a de Louis ao acaso, Kwon acaba chegando a Bobo, e após alguma tensão, os dois percebem que estão atrás das mesmas pessoas, e resolvem unir forças em busca de seu inimigo em comum.
A premissa rasa diz tudo. Alvo Duplo é quase um filme de ação oitentista com toda a violência e simplicidade que um filme dos anos oitenta pedia (Até uns peitos e bundas são mostrados porque todo mundo sabe que, em filme de ação oitentista, sempre tinha que aparecer um par de tetas, pelo menos).
Seguindo o modelo de investigação clássica do cinema, onde cada parada leva à seguinte, e em cada uma há um tiroteio que faz justiça ao título original do filme, Bullet to the Head (que poderia ser livremente traduzido como "balaço na cabeça", e balaços na cabeça não faltam ao filme).
A direção de Walter Hill egresso do cinema de ação 70/oitentista com fitas como Warriors - Selvagens da Noite, 48 Horas, partes um e 2, e Inferno Vermelho não fede nem cheira, e do elenco, que ainda tem Christian Slater, Adewale Akinnuoye-Agbaje e a gatinha Sarah Shahi, se salva, mesmo é Jason Momoa, interpretando até mais do que o roteiro com estrutura de video game (tem até um smartphone ao qual os protagonistas apelam para receber a próxima "missão") exigiria.
Em suma, uma hora e meia de diversão razoável, com alguns peitinhos de fora, piadinhas infames, tiros, facadas, machadadas, pancadarias e explosões conforme pede a cartilha do cinema macho.
Vale os cinco pilas da locação.

"-Nós vamos lutar ou você planeja me entediar até a morte?"

Resenha Cinema: Jobs


Sexta-feira, prenúncio de feriadão pra este humilde escriba (Vocês que trabalham de segunda à sexta e desprezam feriados aos sábados não sabem como um feriado no sábado é maneiro para lacaios como eu), saí do serviço, apanhei meu cachorro no anho e fui ao cinema procurar algo para assistir.
Tinha intenção de ver o mais recente filme de Roland Emmerich, O Ataque. Me parecia que uma dose cavalar de diversão escapista e desprovida de qualquer gravidade além de um eventual pico de tensão infundada era exatamente o que eu precisava pra sobreviver ao final de semana prolongado que havia começado tão mal.
Mas mudei de ideia.
Não sei ao certo o que me fez comprar o ingresso para ver a cinebiografia de Steve Jobs. Não sou um seguidor da quase religião que faz alguns geeks se ajoelharem ante qualquer aparelho eletrônico com um desenho de maçã mordida, certamente não sou um fã dos talentos dramáticos de Ashton Kutcher, e nem sequer sou capaz de lembrar de nenhum outro trabalho do diretor do filme, Joshua Michael Stern.
Talvez tenha sido apenas vontade de, amargamente, reclamar de alguma coisa que não a vida, e, prevalecidamente, escolhi um alvo fácil para direcionar minha ranhetice.
Jobs é esse alvo fácil.
A cinebiografia narra episódios importantes da vida de Steve Jobs, genioso gênio por trás da Apple, desde sua fase hippie nos anos setenta, usando LSD e tentando pegar mulher na universidade que abandonaria antes da formatura, até suas midiáticas apresentações de produtos, já como o mais famoso CEO do mundo corporativo.
O filme, na verdade, abre em 2001, com um Ashton Kutcher devidamente caracterizado como o Steve Jobs que todo mundo conheceu (Diga-se de passagem: A maquiagem faz um ótimo trabalho ao realçar as semelhanças físicas entre Kutcher e Jobs), gola rolê, jeans, tênis apresentando o I-Pod, para então voltar no tempo, e mostrar Jobs, aluno genial da universidade de Reed, andando descalço pelo campus, seguindo-se à sua viagem à Índia, seu emprego na Atari, e a criação do Mac, na garagem da casa de seus pais adotivos.
Daí, o filme já avança para a Apple devidamente fundada, com uma bela sede em Palo Alto, na Califórnia, e um Steve Jobs grosseiro, briguento, workaholic e cheio de si. Um sujeito tão desprezível que, quando sua namorada o procura dizendo que está grávida, ouve que ele não tem tempo pra isso, e que a criança pode nem mesmo ser sua.
Quando esse sujeito egocêntrico e nojentão que "não sabe trabalhar em equipe" acaba chutado da própria companhia, é até difícil sentir pena dele.
Se até este ponto Jobs era uma cinebiografia chatinha com um protagonista canastrão, porém esforçado, daí em diante o filme assume sua natureza chapa branca, e passa a mitificar o biografado com unhas e dentes.
O protagonista se torna um homem generoso, sábio e tranquilo, casado, com filhos, e sendo visitado por aquela filha mais velha que tentou enjeitar anos antes.
Não há nenhuma menção à Pixar, empresa criada por Jobs, e mal e porcamente se ouve o nome de Bill Gates.
À exceção de Steve Wozniak (Josh Gad), seu amigo e parceiro na fundação da Apple, os coadjuvantes não têm nenhuma profundidade ou relevância exceto orbitar Jobs e fazê-lo parecer brilhante.
Mesmo Woz, co-criador do sistema operacional da empresa, aparece ouvindo "palestras" de seu amigo sobre como as invenções dele são geniais (o que rendeu queixas públicas do verdadeiro Wozniak e troca de farpas entre ele e Kutcher, que além de protagonizar, produz o longa metragem).
Kutcher se esforça, além da maquiagem se puxa para emular o jeito de falar e caminhar de Jobs, e até mesmo passou algum tempo se alimentando da mesma dieta maluca do fundador da Apple, que consistia em suco de cenoura e frutas variadas, mas está longe de ser ator pra segurar um drama biográfico nas costas, especialmente quando o personagem central do filme era alguém reconhecido por seu individualismo e personalidade magnética. Nem o fato de o restante do elenco (que conta com nomes como Dermot Mulroney, Lukas Haas, Matthew Modine e J.K. Simmons) ser subaproveitado ajuda o Jobs de Kutcher a convencer.
Apostando na superexposição, com personagens aparecendo volta e meia pra reforçar verbalmente o que a audiência vê na tela, o roteiro de Matt Whiteley simplesmente deixa de explorar a contento qualquer característica negativa de Jobs, preferindo lamber o saco do biografado e elevá-lo ao pedestal de grande revolucionário da ciência e da tecnologia (Albert Einstein aparece em um pôster no comecinho do filme) num longa que termina superficial e aborrecido.

"-Apple? Como a fruta?
-A fruta da criação."

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Resenha Blu-Ray: 42 - A História de Uma Lenda


42 - A História de uma lenda foi uma grata surpresa aos cofres da Legendary Pictures. A empresa que tem produzido todos os filmes recentes da Warner, incluindo os super-heroicos Batman, Superman, e o ótimo, porém ruim de bilheteria, Círculo de Fogo.
O longa de Brian Helgeland, o mesmo diretor de Coração de Cavaleiro, custou pouco para os padrões hollywoodianos (40 milhões), e fez uma ótima carreira nas bilheterias estado-unidenses, embora provavelmente fique por aí, já que um dos temas centrais do filme, o beisebol, não é lá muito relevante fora da terra do tio Sam, exceto, no Japão e alguns poucos países nas Américas Central e do Sul, prova disso é que o longa, que ficou no topo das bilheterias norte-americanas quando foi lançado, saiu aqui direto em home-video, e sem muito alarde (Eu tive que catar o filme no meio do catálogo do NOW sem nenhum destaque)...
O longa narra a história de Jackie Robinson (Chadwick Boseman), que, em 1946 tornou-se o primeiro jogador de beisebol negro a jogar pelas grandes ligas após uma epifania de Branch Rickey, presidente dos Brooklyn Dodgers.
Rickey, interpretado por um convincente Harrison Ford, fugindo do seu estereótipo do action-hero de setenta anos em plena forma, resolveu que era o momento de tentar algo novo. Havia 400 jogadores na Major League Baseball em 1946, todos eles brancos. E Rickey resolveu ousar, e trazer um jogador das ligas negras para o seu time.
Rickey escolheu Robinson porque, além de um ótimo jogador de beisebol, ele tinha fibra, espírito de luta, era um veterano da Segunda Guerra Mundial, e "um metodista", como o próprio Rickey.
Armado da coragem de ousar mudar para, a princípio, fazer mais dinheiro (dólares não são pretos ou brancos. Dólares são sempre verdes), Rickey foi atrás de Robinson, e colocou-o, não apenas nas grandes divisões, mas também na linha de fogo do racismo proveniente da crônica esportiva, dos fãs e dos demais jogadores.
Robinson, apoiado por sua esposa Rae (Nicole Beharie) e por Rickey, enfrentou com fibra e determinação o preconceito que vinha de todas as direções, sendo forçado a suportar calado humilhações e ofensas sabendo que, qualquer reação que tivesse, seria o estopim para apontá-lo como um cidadão de segunda-classe, e um crioulo que não merecia jogar com os brancos.
Ao fazer isso, Robinson deixou seu talento fazer o serviço dentro de campo. Conquistando os fãs, seus companheiros e silenciando a mídia racista que tentava impedir que outros seguissem seu exemplo.
É um bom filme.
Segue a cartilha clássica dos dramas raciais e dos dramas esportivos, é meio chapa branca, mas nada que chegue a incomodar. Helgeland não é exatamente um diretor acima da média, mas conta com um bom elenco (encabeçado por Boseman e por um quase irreconhecível Harrison Ford), que tem ainda bons trabalhos que merecem destaque de Andre Holland como Wendell Smith, o crônista pessoal de Robinson, Alan Tudyk como o asqueroso Ben Chapman, treinador do time rival dos Dodgers, e ainda Christopher Meloni e Lucas Black.
Embora não tenha absolutamente nenhuma novidade a oferecer em termos de narrativa, 42 - A História de Uma Lenda faz seu serviço, e conta uma história verdadeira e tocante sobre preconceito e superação, que merece ser reconhecida mesmo por aqueles que não ligam pra beisebol.

"-Você quer um jogador que não tenha coragem de se defender?
-Não. Eu quero um jogador que tenha a coragem de não se defender.
-Senhor, dê-me um uniforme. Dê-me um número às costas. E eu lhe dou a coragem."

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Conversa Que Não Tivemos


Ele segurou as mãos dela entre as suas quando se sentaram. Ela sorri aum sorriso comedido, mas ele só conseguia ver lágrimas metafísicas a escorrer-lhe pela face. Isso o matava por dentro. Começou a falar após respirar fundo brevemente:
-Minha mãe costuma dizer que não se tira dos pés de um santo para colocar nos de outro.
É uma referência bastante católica à promessas feitas da boca pra fora, ou devoções mal-cumpridas. Tu não tira a vela que acendeu aos pés de Santo Antônio para colocá-la aos pés de Santo Expedito, pra te dar um exemplo...
Ela sorriu de novo. Parecia apreensiva, mas sorriu. Ela sempre tinha um sorriso pra ele. Ele respirou fundo, sentindo um gosto metálico na boca. Continuou:
-Alguns de nós fazemos isso... Eu faço. É errado, como minha mãe tentou, em vão, me ensinar com a sua analogia religiosa. E eu sei que é errado. Mas os hábitos mais velhos são os que mais custam a morrer e esse é um hábito particularmente antigo, sabe?
Ele olhou pra ela. E ela o olhava com compreensão. Ela também sempre tinha compreensão pra ele. Ele apertou a mão dela, e seguiu:
-Talvez eu devesse parar de alimentar esses maus hábitos. Eu alimento eles com culpa, sabe? Minha... Minha relação com meu pai, enquanto eu crescia, enquanto eu formava a minha personalidade, ela nunca foi das mais salutares. Meu pai era um mau exemplo. Era o homem que eu não queria ser. E ainda hoje eu tenho mágoa dele por coisas que ele fez com a minha mãe e meus irmãos enquanto eu crescia. Então, não é que eu não goste dele, mas tenho mil reservas com relação a ele. E, por alguma razão torta, o fato de eu ter mais afinidade com a minha mãe me faz sentir culpado. Então, nas datas especiais, os presentes que eu dou ao meu pai são melhores ou em maior quantidade do que os que eu dou à minha mãe... E, de novo... Eu sei que não faz sentido. Nem é justo. Mas é assim que eu ajo... É assim que as coisas funcionam, de sob uma ótica torta, dentro da minha cabeça... Com compensações e precedentes...
Ela apertou os lábios superiores contra os inferiores, e baixou os olhos... Ele entendeu aquilo como um pedido de espaço, e soltou a mão dela. As mãos dele estavam frias. Ele esfregou uma na outra, e as duas nas calças. Tomou fôlego, fechou os olhos um segundo:
-Não é assim que se ama... Eu sei que não é. Não é a forma certa de fazer as coisas. Eu não posso ficar tirando dos teus pés. Não posso me devotar a ti parcialmente porque não é assim que se faz. Não é o jeito certo de se fazer e se não é o jeito certo é o jeito errado e o jeito errado é incômodo pra mim e te fere. Te machuca. Te maltrata. E eu não posso ser o responsável por fazer nada disso. Pra te amar, eu devia te acalentar. Te confortar. Poder ser teu como eu quero que tu seja minha. Inteira, sem percalços, desvios nem barreiras. E eu não posso. Não posso porque eu sei que têm coisas que te ferem e incomodam, de maneira plenamente justificável, que eu não sei se posso mudar. Ao menos, não agora.
Uma lágrima escorreu do rosto dele. Ele pegou a mão dela de novo. E então a largou novamente:
-Eu fui honesto contigo, tá? Mas eu sei que ás vezes honestidade não basta... Que ás vezes a verdade não é o bastante... Mas é só o que eu tenho... Não tenho a capacidade de tergiversar contigo. Aí eu fiquei pensando... O que fazer quando o que eu tenho pra oferecer não é o que ela precisa? Quando não é o que ela merece? E a resposta é óbvia: Sair da tua vida. Te deixar seguir com as tuas coisas... Ser tudo o que tu pode ser. Tudo o que tu merece ser.
Ela ainda o encarava. Muito séria. Os olhos nos dele. Ele pôs o polegar no queixo dela:
-Não precisa começar a soltar foguetes ainda... Eu não vou sumir da tua vida. Quando tu precisar de uma dica pra passar de fase, eu sempre vou estar na PSN. Quando tu precisar saber um endereço, eu sempre vou ter o Google Maps à mão... Quando tu tiver sede à caminho do Centro eu sempre terei uma Coca geladinha no refrigerador. Eu não te mereço porque tu é perfeita demais. É mais do que eu consigo administrar. Muito mais do que o que eu posso equiparar. Tu é tudo o que eu sempre quis e eu não sei o que fazer com tanta felicidade e completude. E, no tempo certo, tu vai encontrar alguém que mereça. Alguém que saiba como agir quando tudo está certo.
Ela se levantou, muito séria. Ele tentou alcançar a mão dela. Ela, delicada que era, deu-lhe a mão. E foi embora.
Enquanto a olhava partir. Ele continuou consigo mesmo:
E eu... Eu vou ficar quietinho... Mantendo a distância mínima pra não te ferir. Te observando partir... Eu nasci pra ficar sozinho... E é exatamente isso que eu vou fazer.