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sábado, 11 de outubro de 2014

O Homem Que Podia Voar


Hoje é o aniversário de dez anos da morte de Christopher Reeve, o ator a interpretar de maneira mais icônica a um super-herói em qualquer mídia além das páginas dos quadrinhos.
Em 1978, o gigante gentil de 1,93 metro envergou o colante azul e a capa vermelha ajudando a transformar Superman - o filme em um estrondoso sucesso, e inserindo-se de maneira indelével no imaginário coletivo como a personificação definitiva do Superman, feito que realizou de maneira tão eficiente que tornou difícil para a audiência acreditar em qualquer outro ator com o uniforme.
Reeve viveria o Superman em quatro filmes, cuja qualidade decairia a cada capítulo.
Ainda assim, manteve seu prestígio junto aos fãs do herói inabalado, chegando a encontrar dificuldade para convencer em outros trabalhos.
A veia heroica de Reeve, porém, não se restringiu ao cinema e à cinessérie do Superman. Em 1995, após um sério acidente de equitação, o ator viu-se tetraplégico devido à uma grave lesão cervical.
Confinado à uma cadeira de rodas, ele seguiu trabalhando como ator e diretor além de liderar uma campanha em nome da liberação das pesquisas com células-tronco para auxiliar vítimas de paralisia.
Christopher Reeve morreria em 10 de outubro de 2004, vitimado por uma grave infecção, mas o legado do sujeito que convenceu o mundo que um homem podia voar, viverá para sempre.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Os Idiotas e Os Apaixonados


O Eduardo saiu de casa todo perfumado, de banho tomado, cabelo penteado, e roupa alinhada que parecia que ia fazer exame de fezes.
Andou esbaforido o meio quarteirão que o separava de seu destino, diante do qual parou e respirou fundo.
Ele parou em frente ao caixa do mercadinho onde a Daniela trabalhava. Era o caixa 3, dos quatro do mini-Mercado Silva, que pertencia ao seu Oliveira, que o comprara da viúva do falecido Silva anos antes.
O mercadinho do seu Oliveira era a tábua de salvação do bairro já que os hiper e super-mercados mais próximos ficavam à uma distância considerável dali, de modo que, sempre que alguém precisava, de última hora, de azeite, ovos, um molho, pão ou detergente, corria até o mini-Mercado Silva, fazia suas compras, e saía amaldiçoando o seu Oliveira pelos seus preços exorbitantes.
Eduardo nem tinha conta de quantas vezes entrara no mercadinho do seu Oliveira pra comprar bolacha recheada, salgadinho, refrigerante e chiclete, mas sabia exatamente quantas vezes tinha ido até lá apenas para ver a Daniela:
Mais de trezentas.
No último ano, haviam sido precisamente trezentas e setenta e três vezes. Mais de uma por dia.
O Eduardo se apaixonou pela Daniela à primeira vista. Perdidamente. Foi só colocar os olhos em cima da beleza de Daniela, de sua pele cor de canela, de seus longos e encaracolados cabelos negros, de seus olhos brejeiros, de suas coxas firmes, seus seios e quadris generosos, seus braços torneados e ombros delicados... Eduardo se apaixonou por ela na primeira vez em que passou um pacote de Trakinas de morango e uma garrafa de Sprite no caixa, e ela, ao lhe devolver o troco, disse que adorava aquele biscoito, e deu-lhe uma piscada cúmplice.
Se apaixonou mais ainda ao ouvir sua voz rouca. Foi edificando seu amor secreto a cada passada no mercadinho. A cada breve comentário dela a respeito de suas compras, ou a respeito de qualquer assunto por comezinho que fosse. A cada ocasião em que podia ver seu sorriso franco e aberto, e vê-la cantando sem som, apenas mexendo os lábios, qualquer pagode que tocasse de um carro que passava, ou do celular de algum cliente.
E o Eduardo, que nem gostava de pagode, após um ano de ensaio, tomou coragem, e foi ao mercadinho do seu Oliveira disposto a se declarar à Daniela sem nenhuma pista que indicasse que era retribuído em suas afeições, mas repleto de uma coragem que acomete apenas aos idiotas e aos apaixonados que, na maior parte das vezes, são a mesma coisa.
Parou diante do caixa da Daniela, que o olhou e ergueu as sobrancelhas e abriu a expressão num sorriso admirado com a caprichada produção do Eduardo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Eduardo, tão afinado quanto podia, o que não era lá muita coisa, começou a entoar:
-Daniela, minha Dani, minha Dani, Daniela, Daniela é rainha, a minha rainha é ela...
Arrancando risos de alguns clientes, assobios estridentes e exclamações de incentivos de outros.
A Daniela fechou a expressão, e disse, em voz baixa, mas decidida:
-Pára.
O Eduardo pensou em dizer algo, chegou a abrir a boca e tomar fôlego, mas Daniela reforçou:
-Pára, por favor.
E o Eduardo parou, murchando como uma flor arrancada do chão e largada ao sol. Começou a se dirigir a saída enquanto sentia-se enrubescer, enquanto sentia-se encolher sob o peso da própria insignificância. Eduardo secretamente sempre soube que a Daniela era areia demais para seu modesto caminhãozinho, mas nutria a esperança de que ela fosse capaz de ver além de sua aparência mediana, que ela fosse capaz de ver que ali, naquele magricela de cabelo castanho e bochechas vermelhas, havia um homem devotado, que se esforçaria ao máximo de sua capacidade para fazer feliz à uma bela mulher que fosse generosa o suficiente para dar-lhe uma chance. Que seria sempre fiel, e sempre grato por poder partilhar a vida ao lado de um alguém tão linda e cheia de vida como Daniela.
Deu dois passos para fora e ouviu atrás de si:
-Psiu?
Virou-se, incrédulo, e viu Daniela, muito séria:
-O seu Oliveira não gosta. - Deu um sorriso contido e completou -Eu saio às sete. Aí tu continua. - E concluiu com uma piscada cúmplice.
Sim... A coragem de Eduardo era do tipo que apenas possuem os idiotas e os apaixonados. Mas não é também, justamente a esses dois grupos que se destinam os mais improváveis triunfos, glórias e sucessos?

Conjectura


A Janaína tinha cheiro de corpo feminino suado. Não era dessas mulheres perfumadas, depiladas, de pele alva, lisa e impecável.
Não.
Janaína era esguia além da conta. Magra de ter o peito ossudo, onde podia-se vislumbrar as costelas. Era morena, pois gostava de estar ao ar-livre, sob o sol, tendo sua pele tostada aos poucos conforme se aproximava janeiro, exposição ao sol que lhe cobria a tez de sardas e sinais.
Tinha mais pelos nos braços do que muitos homens de idade semelhante, e não era vaidosa a ponto de depilá-los ou descolori-los, deixava-os in-natura, como testemunho de seu temperamento explosivo e arredio.
Era, também, testemunho de um pouco de preguiça.
Já lhe bastava ter de depilar as axilas, já que era uma devotada fã de blusas regata, e as pernas, já que gostava da companhia de homens e sabia que eles não respondiam bem a pelos nas pernas femininas.
Janaína se vestia pensando apenas em funcionalidade, calças largas e leves, que não faziam maravilhas por seu quadril estreito, blusas soltas e sem mangas que lhe davam liberdade de movimento e frescor, sandálias macias que lhe arejavam os pés...
Não era vaidosa, Janaína.
O fosse, não cortaria o cabelo em estilo "joãozinho", curto como o de um moleque, nem encararia o mundo desmuniciada de um batom ou rímel.
Mas Janaína não fazia nada disso.
Janaína não pensava em comprar uma bolsa da Prada, mas sim uma mochila da Deuter, pois era mais importante para ela ter uma estrutura confortável às costas quando fosse caminhar no mato com 60 litros de material de camping pendendo-lhe nos ombros magros do que desfilar com uma bolsa da moda.
Para Janaína, bastava uma dessas sacolas ecológicas de tecido cru para andar na cidade fazendo as vezes de bolsa. Qualidade e tecnologia, ela queria em seu saco de dormir, em seu isolante térmico, em sua mochila de viagem... Era assim a Janaína, que não se considerava hippie, mas sabia que o era.
E por isso mesmo, foi tanto mais estranho que o Eliezer tenha se sentido tão atraído por ela logo à primeira vista dentro daquela loja de bolsas e mochilas esportivas no Centro da cidade.
O Eliezer não era um hippie em potencial. Não. Nunca foi chegado no estilo de vida livre. Não gostava nem mesmo de estar ao ar-livre. Quando ia acampar e lhe perguntavam do que precisava dizia "Minha casa".
Era cria da cidade, o Eliezer.
Um desses sujeitos de físico meia-boca, em constante luta contra a balança e a própria gula, que volta e meia conquistava vitórias épicas contra o próprio corpo mas logo relaxava e recuperava os quilos extras, Eliezer era a figura do sujeito da cidade.
Um filho do seu tempo, da frente do computador, do videogame, da TV a cabo e do smartphone.
Tinha a aparência mediana de quem não liga para a própria aparência escondendo o fato de que, se não se preocupasse com a própria aparência, estaria aquém do mediano.
A barba por fazer era regiamente aparada para dar-lhe um ar de quem não havia se barbeado. O cabelo despenteado era cuidadosamente produzido na frente do espelho, e o jeans velho era de grife, e custava mais caro por já vir velho da loja. Eram vaidades a que o Eliezer, um sujeito feio, precisava se sujeitar de modo a não sumir na multidão, e volta e meia funcionavam. O Eliezer, um sujeito feio, namorava com frequência, inclusive algumas meninas que não eram feias.
O Eliezer tinha um tipo muito específico de mulher ideal:
A inalcançável.
O Eliezer sempre queria estar com a menina de 1,75m, 54 Kgs, loira, olhos azuis, seios tamanho 46, pinta de miss e pés lindos, mas, por sorte, tinha um radar ajustável à própria aparência. Não era um lunático.
Tinha um papo relativamente interessante, fingia ser um bom ouvinte, era educado e expansivo, de modo que era capaz de se movimentar com algum êxito entre as representantes do sexo oposto. Jamais ficara com a loira idílica de suas idealizações, mas encontrara ao menos uma daquelas qualidades em várias das mulheres que fizeram parte de sua vida.
Uma ou outra media 1,75m, algumas pesavam 54 Kgs, algumas eram loiras, outras tinham pés lindos, ou olhos azuis, várias tinham seios tamanho 46, e pelo menos uma tinha pinta de miss.
Eliezer gostava de peles lisinhas e perfumadas, tinha, inclusive suas preferências com relação ao tipo de perfume que queria sentir no pescoço de uma mulher, de modo que, a primeira coisa que o chamou a atenção quando parou a cerca de dois passos da Janaína dentro da loja onde ambos esperavam atendimento, foi justamente o cheiro dela.
Aquele cheiro de corpo suado. Mas não era ruim. Era um cheiro algo cru... Mas não tinha nada de ruim.
Ao olhar para Janaína, o Eliezer, tendo-a de frente, fitou-lhe o peito em busca dos seios, mas os seios dela eram quase nulos de tão pequenos. Ao invés de seios ele vislumbrou os ossos do peito de Janaína sob a sua pele bronzeada e, ao contrário do que supunha, isso não o repeliu. Pelo contrário. Ele achou bonito o corpo magro de Janaína sob sua blusa preta sem mangas. Notou que sob a blusa, ela não usava um sutiã, mas sim a parte de cima de um biquíni. Em plena Porto Alegre. Em pleno outubro... Não conseguiu evitar imaginar se sob a calça cargo larga ela usava calcinhas ou a parte de baixo do biquíni? Ou talvez uma cuequinha feminina? Não... Aquela mulher não parecia o tipo que ia à uma loja de lingerie descolada comprar uma cueca feminina. Ela parecia mais capaz de andar por aí com uma lingerie da vovó ou sem lingerie alguma.
Esse pensamente excitou Eliezer, que àquela altura já olhava para Janaína com outros olhos.
Seu rosto bonito e lavado, parecia mais atraente e enigmático do que o de qualquer cocota pós-púbere rebocada de blush e batom que ele secara em danceterias, seu cabelo preto cortado curto parecia mais macio e brilhante do que as madeixas loiras de qualquer modelo de comercial de cerveja, e suas mãos pequenas de unhas curtas pintadas de maneira apressada de um vermelho cereja na ponta de seus braços finos e repletos de finos pelos negros pareciam mais tentadoras do que as de qualquer massagista de clínica masculina.
"O quê é isso?", pensou. "O quê é que eu estou fazendo?", perguntou-se. Ela não era, nem de longe, o tipo de mulher que Eliezer vislumbrava em seus sonhos quando pensava na mulher ideal, e ainda assim, aquela magricela com "bicho-grilo" escrito em cada parte do corpo, subitamente parecia a mãe que ele sempre quis para os seus filhos.
Percebeu que não tirava os olhos dela, e, viu que ela o olhava de volta. Sorriu meio sem graça pela gafe, e, para sua surpresa, Janaína sorriu de volta.
Tinha um sorriso lindo. Branco de dentes quadrados que lhe iluminava o rosto deixando-a mais bonita do que qualquer maquiagem poderia sonhar em fazer.
Eliezer estava aturdido pela revelação súbita de seu interesse por uma mulher tão diferente de tudo o que ele considerava importante na aparência de uma mulher, pensou em dizer alguma coisa, mas as palavras lhe faltaram. Sempre tinha alguma frase feita na ponta da língua pra qualquer mulher que lhe cruzasse o caminho, mas viu-se mudo diante de Janaína, que logo foi aliciada por um vendedor enquanto um segundo levava Eliezer para outro canto da loja à medida em que Janaína e ele procuravam por coisas absolutamente diferentes. Ela, por grandes mochilas de viagem, ele, por uma mochila média para usar no dia-a-dia.
Eliezer escolheu o mais rápido que pôde, mas ainda assim demorou, pois muitas eram as opções que o vendedor tinha para oferecer. Quando se dirigiu ao caixa, ainda pôde vislumbrar Janaína saindo pela porta com uma grade mochila vermelha e cinza nas costas. Não era o tipo de mulher que carregava as compras em sacolas plásticas.
Após pagar a conta e sair com sua mochila nova, Eliezer olhou para os dois lados tentando enxergar Janaína ao longe.
Voltou para perguntar se o operador de caixa tinha o nome da moça que saíra logo antes. Mas ela pagara em dinheiro vivo e não quis nota fiscal.
Eliezer sorriu "típico dela", pensou, ainda que não soubesse nada dela, exceto o que pudera deduzir ao vê-la, parada de pé na loja.
Supôs, corretamente, que ela era uma amante de atividades ao ar-livre. Que deveria beber e eventualmente até usar drogas ilícitas de maneira recreativa. Que devia ser de acordar cedo. De dormir fora de hora quando a a oportunidade se oferecesse. Que provavelmente fosse vegetariana, e que ainda fosse amiga de ex-namorados que eram completos idiotas.
E concluiu que, entre uma mulher como ela, e um homem como ele, as coisas jamais dariam certo.
Mas não pôde deixar de conjecturar, ainda que brevemente, que perdera o amor de sua vida.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Não Se Vá, Homem-Aranha


A Sony pictures, detentora dos direitos do Homem-Aranha no cinema, parece ter perdido de vez a mão com relação aos filmes do herói.
Após refazer O Espetacular Homem-Aranha, removendo Mary Jane (Shailene Woodley) da história, cortando parte considerável da participação de Felícia Hardy (Felicity Jones), e obrigando Mark Web a praticamente refazer o filme na edição, a empresa que já havia demonstrado sua falta de tato ao pesar a mão no trágico Homem-Aranha 3 quando forçou Sam Raimi a incluir o Venom no filme, e o demitiu durante a pré-produção de Homem-Aranha 4, quando o cineasta relutava em acrescentar o Carnificina à trama admitiu não saber o que fazer com a franquia.
Ou, pelo menos é o que ficou implícito após alguns rumores darem conta de que o filme derivado do Sexteto Sinistro, que seria uma prévia a O Espetacular Homem-Aranha 3, poderia tornar-se um novo filme de origem, onde um novo Homem-Aranha uniria forças aos vilões para enfrentar uma ameaça ainda maior.
Ou seja, a Sony gostaria de pegar o que é seu grande acerto com o reboot, a escalação de Andrew Garfield no papel principal, e jogar isso no lixo em nome de um reinício da série.
Francamente... Por mais que eu goste da ideia de o Homem-Aranha reverter de volta à Marvel, e entender que a melhor maneira de isso vir a acontecer fosse com a Sony acabando com o personagem nos cinemas como a Universal fez com o Hulk e a Fox com o Demolidor, acho um desperdício o que a Sony ameaça fazer com o cabeça de teia.
Ao invés de aproveitar a resolução dos problemas mais indigestos de O Espetacular Homem-Aranha em O Espetacular Homem-Aranha 2, que termina acenando praticamente com uma tela em branco para o personagem, e dar sequência à ótima encarnação de Andrew Garfield no papel de Peter Parker/Homem-Aranha, que esmerilhou a interpretação autista de Maguire quando usou o uniforme colante, o estúdio vai jogar tudo pra cima e fazer um re-reboot para tentar capitalizar mais uns trocados com o sobrinho preferido da tia May, chupando até a última gota possível da popularidade do herói, para então engavetá-lo por um tempo ao primeiro sinal de prejuízo, e deixá-lo guardado até que a Marvel possa resgatá-lo e, quem sabe, aproveitá-lo em um dos filmes da fase 5 ou 6 do estúdio de Os Vingadores...
Claro, estou conjecturando à distância com base unicamente em um rumor qualquer da internet, mas a verdade é que após todas as metidas de pés pelas mãos do estúdio, com a resposta morna da crítica e com a legião de haters que, antes mesmo de ver o filme, já elencava dezenas de razões para odiá-lo (com todas sendo apenas camuflagem para o desespero de um inexplicável fã-clube de Maguire) foi praticamente um milagre que O Espetacular Homem-Aranha 2 fosse um filme tão capaz de dialogar com os fãs do personagem (e capaz de ultrapassar os 700 milhões de dólares só em bilheterias), e isso se deve, em grande parte, a Andrew Garfield, um ator que ama e entende o personagem, e sua pegada precisa na hora de viver o herói mais famoso da Marvel. E, como fã do Homem-Aranha, me dói um pouco ver isso ser jogado pela janela.
A Sony poderia tentar lembrar que, grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

Resenha DVD: A Grande Escolha


Quer realizar um filme tendo como protagonista um sujeito com certa persona cinematográfica, ator reconhecidamente talentoso e carismático que pode não estar na sua melhor fase da carreira?
Faça um bangue-bangue ou um drama esportivo. Esse tipo de filme tem uma porcentagem considerável de chance de atrair Kevin Costner.
O ator/diretor que está desde Waterworld tentando tentando voltar à constelação de astros de primeira grandeza de Hollywood (e que esteve perto de conseguir isso justamente com um western, o ótimo Pacto de Justiça, alguns anos atrás) parece incapaz de resistir ao papel de caubói e o de atleta, e, à medida em que a idade começa a pesar e ele não seria mais crível em um uniforme esportivo (a menos que voltasse ao golfe de O Jogo da Paixão), Kevin não desiste,mas se vê obrigado a mudar de estância.
A Grande Escolha, dirigido por Ivan Reitman, ex papa das comédias de efeitos especiais oitentistas que vinha sendo eclipsado pelo talentoso filho Jason, mostra Costner no papel de Sonny Weaver Jr., gerente da equipe dos Cleveland Browns, um time médio da Liga Nacional de Futebol americano (NFL na sigla em inglês).
As coisas não andam lá muito boas para Sonny, que está tendo um daqueles cinematográficos dias infernais.
Pra começar, sua namorada, Ali (A gatona Jennifer Garner), lhe avisa que está grávida. O namoro de Ali e Sonny é algo secreto já que ambos trabalham juntos nos Browns, time que o pai de Sonny, o senhor Sonny Waever Sr., morto duas semanas atrás, dirigiu com sucesso até ser demitido pelo próprio filho na temporada anterior.
Não bastasse tudo isso, essa é a manhã do Draft Day, a noite em que as equipes da NFL escolhem entre os prospectos das universidades os jovens jogadores que comporão seus times na temporada numa espécie de leilão, e Sonny é pressionado por seu chefe, o dono do time Anthony Molina (Frank Langella), a realizar uma contratação de impacto, algo de que a equipe precisa pra sobreviver à temporada.
No ano em questão, Sonny e seus Browns têm a prerrogativa da sétima escolha da noite, o quê, baseado nas estatísticas, provavelmente permitirá que ele escolha entre o linebacker Vontae Mack (Chadwick Boseman, de 42 - A História de uma Lenda), e o runnigback com recentes problemas legais Ray Jennings, filho da ex-estrela dos Browns
Earl Jennings (Terry Crews), a questão é que, para engorssar a trama, na mesma manhã, o gerente dos Seattle Seahawks, Tom Michaels (Patrick St. Esprit), liga para Sonny oferecendo uma proposta aparentemente irrecusável:
Trocar a sua escolha, a primeira da noite, pelas primeiras escolhas de Sonny nas próximas três temporadas. Pode não parecer justo, mas a prerrogativa da primeira escolha possibilitaria a Sonny escolher o garoto de ouro do draft em questão, o quarter back de Winscosin Bo Callahan (Josh Pence), em quem todas as equipes estão de olho.
Pressionado, o executivo acaba cedendo, e, se faz a felicidade de seu patrão, colegas e dos torcedores, gera a ira do treinador da equipe, Penn (Denis Leary), e do seu quarter back atual, Brian Drew (o sumido superboy Tom Welling), que esteve machucado na temporada anterior e estava ansioso para provar seu valor no ano por começar, além de suas próprias dúvidas, já que Callahan não era a primeira escolha de Sonny.
Para piorar, enquanto começa a vasculhar o passado de Callahan para descobrir porque o Seahawks estão abrindo mão do menino prodígio, é pressionado de todos os lados e luta contra as próprias convicções, Sonny ainda precisa lidar com sua mãe manipuladora (Ellen Burstyn), com sua ex-esposa enxerida (Rosana Arquette), e um estagiário novato.
Não chega a ser um mau filme, mas A Grande Escolha tem dois defeitos capitais:
O primeiro, é ser excessivamente fechado no mundo do futebol americano para atrair uma audiência que não se interesse pelo assunto. Repleto de referências a grandes astros do passado do esporte como Joe Montana, Dan Marino, e a dinastia Manning, episódios específicos de Super Bowls da década de oitenta, e todo o universo da NFL (incluindo participações especiais de comentaristas e narradores que são "famosos quem?" pra maioria do público), A Grande Escolha já começa afugentando uma boa parte da audiência.
Some-se a isso o segundo defeito, o fato de absolutamente nenhum dos personagens ser vagamente crível (são todos completos estereótipos. O linebacker sem papas na língua, o chefão que mete pressão, a namorada que ralou para conseguir seu lugar ao sol e o coloca em risco ao se relacionar com o colega, a mãe manipuladora, a ex-mulher nojenta, o prodígio que pode não ser o que se espera...), todos praticamente etiquetados de tão unidimensionais, e o longa se perde.
Mesmo com os truques visuais usados por Reitman, como as telas divididas em telefonemas que se sobrepõe e se misturam durante as conversas, o relógio contando as horas até o draft, e as belas tomadas aéreas decoradas com o logo dos times cada vez que uma nova cidade e uma nova equipe são apresentadas, o filme não vai atrair aos não-fãs/não-iniciados no mundo do futebol americano, o que é uma pena, pois, se o trabalho dos roteiristas Scott Rothmann e Rajiv Joseph fosse mais competente, com a boa mão de Reitman e o trabalho aplicado de um elenco acima da média, A Grande Escolha tinha tudo pra decolar, sem isso, se tornou um filme de nicho, e olhe lá.

"-Como é que pode o prêmio definitivo do esporte mais macho já criado ser uma joia?"

Resenha Cinema: Mesmo Se Nada Der Certo


Poucas coisas gritam "Indie" mais alto do que dramédias românticas musicais estreladas por Keira Knightley e Mark Ruffalo e dirigidas por John Carney, do Indie até a medula Apenas Uma Vez.
O trailer de Mesmo Se Nada Der Certo (cujo título original que aparece no início do filme é Can a Song Save Your Life?, "uma canção pode salvar sua vida?", mas tem o título original registrado no IMDB como Begin Again "começar de novo"), também era terrivelmente indie, mostrando participações de Cee-Lo Green, de Mos Def e do Maroon 5 Adam Levine no que parecia uma versão mais descolada de Letra e Música, mas ei, quem é que não gosta de uma dramédia indie estrelada pelo delicinha Keira Knightley de quando em quando?
Bora lá conferir a inglesinha cantando com o auxílio do auto tune, que é, de fato, a primeira coisa que vemos no filme.
Keira é Gretta, ela está sentada em uma bar de música ao vivo qualquer em Nova York, e é convencida por seu amigo Steve (James Corden), que está no palco, a subir e cantar uma de suas canções.
A baladinha, "para todos os que já se sentiram sozinhos na cidade", não chega a ofender, e ajuda que Keira seja uma graça com suas caras e bocas na sua performance.
Corta para a manhã do mesmo dia.
Dan (Mark Ruffalo), acorda as sete da manhã, ele está um trapo, parece ter enchido a cara na noite anterior. Ele pensa em se barbear, mas desiste e volta pra cama. Sai horas mais tarde após apanhar um pacote repleto de CDs demo, Dan é um produtor musical que não anda lá num momento muito positivo da vida. Pra piorar, todos os CDs parecem a mesma coisa, algo entre pop e hip-hop sem alma, personalidade ou qualidade.
Ele apanha a filha com quem não sabe se comunicar Violet (uma insuspeita gostosa Hailee Steinfeld que, acabo de descobrir, tem apenas dezessete anos, então esqueçam a parte do "gostosa") na escola, e vai à uma reunião com seu sócio Saul (Mos Def), na gravadora que os dois fundaram juntos. A reunião termina com Dan demitido.
Após encher a cara por toda a parte, pensando em se suicidar, Dan acaba em um bar qualquer para beber sua última dose de uísque, quando ouve a canção de Gretta no palco.
Desse encontro fortuito, surge uma parceria que pode salvar a ambos a medida em que descobrimos que Dan não superou a separação da ex-esposa Miriam (Catherine Keener), e que Gretta era namorada de parceira musical de Dave Kohl (Adam Levine), que após sentir a fama tremer sob seus pés, trocou Gretta por uma produtora qualquer da gravadora com quem acabara de assinar, deixando a jovem sozinha e de coração partido na grande maçã.
Essa é a premissa nada original de Mesmo Se Nada Der Certo, mas não tema. A despeito do início, o desenrolar do longa trata de afastar essa impressão.
A exemplo de Apenas Uma Vez, Mesmo Se Nada Der Certo não é um romancezinho típico, mas sim um longa sobre o efeito da música na vida dos protagonistas, com boas canções do próprio Carney, ex baixista do The Frames, e boas atuações do casal protagonista, em especial Knightley, Mesmo Se Nada Der Certo segura a onda com a fofura, boas canções, e intercalando momentos divertidos com algumas cenas realmente tocantes (a melhor talvez seja quando Gretta ouve uma canção do namorado, e imediatamente sabe que ele a escreveu pensando em outra mulher), misturando o início agridoce a um segundo ato genuinamente divertido, e um desfecho absolutamente desalinhado com o que se esperaria do filme, deixando de lado os clichês mais recorrentes do gênero.
Nessa toada, Carney e seu elenco obtém sucesso ao contar sua história através de dois personagens desenvolvidos de maneira absolutamente crível, com quem todos podem se relacionar, e de quem é fácil gostar.
O que mais se pode pedir de um filme?
Assista, no cinema ou em DVD, vale absolutamente a pena.

"-Eu não estava tentando te reconquistar, estava tentando te mandar à merda."

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Resenha Cinema: Garota Exemplar


Antes mesmo de assistir Garota Exemplar, já havia duas coisas que se podia dizer a respeito do filme. Primeiro, que não seria ruim. Filmes assinados por David Fincher nunca são. Mesmo seus piores filmes, como o chatinho Quarto do Pânico e o desnecessário Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres, valem a pena assistir, afinal, o sujeito nos deu Zodíaco, Se7en e Clube da Luta, então, ele merece a deferência, e tem crédito.
A segunda coisa que se podia dizer de Garota Exemplar antes de ver o filme, é que o longa tinha o que é, fácil, o melhor trailer de um longa metragem nos últimos anos. Se duvida, dê uma olhada antes de continuar lendo essa resenha:



Agora, isso é um trailer, meus amigos... Eu nem precisaria tê-lo assistido cinco ou seis vezes no cinema nos últimos tempos para ficar babando pra assistir ao filme, uma teria bastado, e, diga-se de passagem, a vontade de assistir a Garota Exemplar, é totalmente justificada na medida em que o filme em si, é infinitamente melhor do que o genial trailer ali em cima sugere.
No longa, com roteiro adaptado do best seller de Gillian Flynn pela própria, conhecemos Nick Dunne (Ben Affleck, muito bem, crescendo exponencialmente como ator para o alívio dos fãs do Batman), um ex-jornalista, agora professor de redação criativa em uma modesta universidade do Missouri e dono de um bar chamado O Bar, que dirige com sua irmã Margo (Carrie Coon, de The Leftovers). Na manhã de seu aniversário de cinco anos de casamento com Amy (Rosamund Pike, um capítulo à parte), Nick chega em casa e descobre o que parece uma possível cena de crime. A sala de estar apresenta sinais de luta e Amy desapareceu. Preocupado, Nick imediatamente chama a polícia, e, dado cenário, a detetive Rhonda Boney (a eterna coadjuvante da coadjuvante Kim Dickens, ótima, devorando o papel com vontade) e o policial Jim Gilpin (o sumido Patrick Fugit, de Quase Famosos) imediatamente passam a tratar o fato como um desaparecimento.
Conforme as investigações transcorrem e o caso se torna um circo midiático, detalhes da vida aparentemente perfeita do casal começam a ser sistematicamente derrubados, o que transforma Nick no principal suspeito do crime.
Enquanto tenta provar sua inocência com a justiça e o escrutínio público o apontando como o assassino da própria esposa, Nick passa a perceber um padrão que sugere que pode haver muito mais por trás do sumiço de Amy do que ele inicialmente acreditava.
Com certeza um dos melhores filmes do ano até aqui, pegando parelho com O Grande Hotel Budapeste e Inside Llewin Davis, Garota Exemplar é David Fincher no que pode ser sua melhor forma desde Clube da Luta, entretenimento do bom, com cérebro e fígado aos borbotões.
Se a premissa sugere um daqueles tradicionais filmes "noir suburbano" que se tornaram moda nos últimos anos, a execução de Fincher é precisa na hora de olhar a trama com algum cinismo, sem deixar, no entanto, que ela se torne uma paródia ou mesmo uma desconstrução típica de um gênero de filme. Garota Exemplar é tão bem arquitetado e cheio de reviravoltas, que passa tranquilamente por três ou quatro tipos de filme em sua projeção de pouco menos de duas horas e meia que jamais cansam.
Com uma fotografia propositadamente estática, que não muda de cor para sugerir nada à audiência, Fincher conduz o público por uma trama que está sempre um passo à nossa frente usando a narração em off de Amy (cheia de ácidas verdades inconvenientes no melhor estilo do narrador sem nome de Edward Norton em Clube da Luta, como a lista de coisas que a "namorada legal" deve fazer, incluindo comer pizza fria e continuar magra, beber cerveja no gargalo vendo filmes do Adam Sandler e muito, muito sexo oral.) para nos colocar a par do que realmente aconteceu (ou não) no passado do casal protagonista.
Bem amparado no trabalho de um aplicado Affleck, da surpreendente Dickens, da competente Carrie Coon e ainda de Tyler Perry (o advogado mezzo Johnnie Cochran de Nick, Tanner Bolt) e Neil Patrick Harris (interpretando uma variação mais séria e sem bigode de seu personagem em Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola), o filme pertence, mesmo, é a Rosamund Pike.
A linda loira, com sua beleza fria e distante, consegue passar uma aura etérea que a torna inatingível mesmo quando ela está por perto, como se ela morasse dentro de um globo de neve. A diferença gritante entre sua beleza aristocrática e o jeitão proletário de Affleck são um aditivo aos atritos do casal e testemunho do talento de Fincher ao escalar seu elenco e contar sua história, e isso, somado à atuação precisa da linda atriz inglesa que se despe de sua vaidade em mais de uma cena, e consegue ser mais atraente quando sua personagem deveria ser mais repulsiva, são o lastro do que torna Garota Exemplar o baita filme que é.
Corra para o cinema e assista. É obrigatório para quem gosta de thrillers, dramas, mistérios, reviravoltas, grandes atuações e diretores que brincam de fazer filme.

"O que você está pensando? O que você está sentindo? O que foi que nós fizemos um ao outro? O que nós vamos fazer?"