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terça-feira, 25 de abril de 2017

Sabor Amargo


Estavam sentados no sofá da casa dela.
Na verdade, ele estava sentado, ela estava deitada, com as pernas jogadas sobre a mesinha de centro. Ele a havia ajudado a instalar a smart TV que ela comprara. Ele havia acabado de testar os serviços "go" e "play" da TV a cabo no aparelho, e anunciou, orgulhoso, que "a porra toda tá 'funciando', dona.".
Ela riu agradecendo, e disse que se ele estivesse usando um macacão cinza e um boné, ela até daria pra ele, mesmo não tendo esse fetiche de dar pro encanador ou pro instalador, mas por tradição, mesmo. Não vira muitos filmes pornôs na vida, mas vira o suficiente pra saber como as coisas funcionavam.
Ele riu concordando e se levantou, parando em pé ao lado do sofá, num gesto que indicava que ele queria ir embora.
Ela fez uma careta:
-Ai, senta aí, Ned. Tu não vai morrer se esperar eu descansar as pernas uns minutinhos...
-Descansar as pernas do quê, guria? A gente veio de táxi e eu carreguei a TV pra ti o tempo todo...
-Mas eu cansei! - Ela protestou. -Em quantas lojas a gente foi?
-Três. - Ele respondeu. -E eram todas na mesma quadra, uma do lado da outra...
Ela não protestou mais, só bateu com a mão no sofá.
Ele sentou e ela entregou o controle remoto pra ele, que zapeou brevemente, e então colocou na Globonews e largou o aparelho.
-Tu consegue te lembrar da primeira vez em que sentiu atração física por outra pessoa? A primeira? Aquele divisor de águas onde tu olhou uma pessoa e não pensou "que bonita", mas sim, "que tesão", ou então nem sequer teve tempo de pensar, apenas sentiu o tesão e ainda precisou filtrar aquilo por algum tempo, já que o tesão era uma sensação era nova? - Ele perguntou, mas então deteve-se e inquiriu:
-... Aliás, é o tesão ou a tesão?
-Acho que é "o". - Ela disse.
-Eu, também. Mas já ouvi dos dois jeitos. - Ele continuou.
-É, mas tá errado. É substantivo masculino. Certo. - Ela sentenciou.
Ele concordou com um ruído.
-Tu dizia... - Ela encorajou, esticando os dedos dos pés.
-Ah, sim. Bom, e aí? Tu lembra?
-Da primeira vez que senti tesão? Não. Não lembro nem da última. - Ela disse, fazendo uma expressão de tristeza.
Riram.
Ela suspirou e perguntou:
-E tu? Lembra?
-Eu lembro. - Ele confessou. -Eu devia ter uns onze ou doze anos. Tava na praia. Tinha ido com minha avó, meu tio e uma prima, que não era a filha desse meu tio. Ela estava de perna quebrada...
-Sério, Ned? - Ela o interrompeu -Tesão pela prima de perna quebrada? - Recriminou.
-Não... - Ele disse, afastando a ideia com a mão. -Não... quer dizer... Bom... Eu senti tesão pelas minhas primas, claro, mas isso foi mais tarde. Elas não foram o primeiro tesão que eu senti... De qualquer forma, eu estava na praia, e um dia de tarde fui sozinho tomar banho de mar-
-Porque, na praia, tu não pode passar nenhum dia sem ir tomar banho de mar... - Ela interrompeu.
-Exato. - Ele confirmou. -Eu estava na beira do mar ali, tomando meu banho e fingindo que era o Homem-Aranha lutando contra o Homem-Hídrico e, de repente, surgiu um pessoal... Era um bocado de gente, e pareciam ter saído de um ônibus que estacionou junto à praia. E esse pessoal todo saiu do ônibus e foi pro mar. Eu não sei de onde eles vinham, a maioria deles nem usava roupa de banho, eles simplesmente foram entrando no mar com as roupas que vestiam, e uma dessas pessoas era uma moça. - Ele disse, se ajeitando no sofá.
-Era ela? - Perguntou a loira na outra ponta, esticando os pés por cima dele pra ficarem cara a cara.
-Sim. - Ele confirmou. -Ela tava usando uma camiseta branca e um short de brim bege. Era negra, muito negra, a tez bem escura, e tinha o cabelo cortado bem curtinho. E o corpo dela... Bom, se não era o corpo mais bonito que eu vi ao vivo, certamente pega top-3... Ela era escultural, e quando ela entrou no mar, a camiseta branca ficou transparente, e ela não estava usando sutiã, então ela ficava puxando o tecido colado na pele pra não marcar, mas era impossível. A mulher era um feixe de músculos tonificados, nada de volume em excesso, nada faltando, ela era linda, linda, linda. E eu fiquei ali parado, olhando pra ela de um jeito que, provavelmente não era natural, eu devia estar fazendo alguma cara de tarado-mirim, como um Willem Dafoe de onze anos de idade, e ela olhou pra mim e abriu um sorrisão antes de mergulhar numa onda. - Ele disse, coçando o cabelo que se desgrenhava escapulindo do elástico.
-E eu me lembro que fiquei olhando quando ela foi embora... - Ele continuou -Puxando a camiseta com as duas mãos. E as costas dela... A bunda... Tudo tava marcado no tecido molhado. E eu fiquei... Sabe, eu não tinha noção de sexo... Eu não tinha, mesmo. Já tinha visto umas Playboys... Assistia ao programa Cocktail com o Miele no SBT pra ver as mulheres com pouca roupa, mas era muito mais um lance de curiosidade, e tinha aquele afastamento, tanto as garotas tim-tim-
-"Garotas tim-tim"? - Ela interrompeu.
-É. - Ele respondeu. -Eram as ajudantes de palco do Miele no Cocktail. Aquele era um grande programa... Mas enfim, tanto elas quanto as playmates da Playboy eram um lance artificial, as gurias estavam se mostrando de uma maneira propositadamente erótica, eu via a Playboy e o Cocktail pra, deliberadamente, ver mulher pelada, naquela vez, na praia, foi uma coisa totalmente diferente...
-Porque foi espontâneo? - Ela perguntou.
-Exato! - Ele concordou. -Foi espontâneo. Aquela guria só queria tomar um banho de mar. Estava não sei há quanto tempo num ônibus, e resolveu entrar de roupa e tudo na água. O erotismo daquela situação ficou inteiramente por minha conta. Pela primeira vez na vida eu senti atração física por uma mulher de maneira espontânea, sem a inocência de uma coleguinha do ensino fundamental ou o artificialismo de uma revista masculina, ou um programa de strip-tease...
-E tu teve ciência disso na hora? Foi pá-pum, "primeira vez que eu quero comer uma mulher"? - Ela quis saber.
-Não... - Ele respondeu. -Até porque, naquele momento, eu nem queria comer ela. Só fiquei admirado. Admiradíssimo. Só mais tarde eu saquei o que era. Anos mais tarde. - Frisou.
-Eu queria ter isso... - Ela disse, vaga, após alguns segundos de silêncio.
-O quê? - Ele perguntou.
-Essa noção de momento que tu tem. Essa memória. Eu sou incapaz de me lembrar das coisas com essa riqueza de detalhes. Tu tá aí, me narrando uma lembrança dos teus onze, doze anos, e tu te lembra da circunstância, do que tu estava fazendo, da roupa que a guria usava... Tu tem tudo isso no teu HD. Talvez por isso tu consiga ter essa compreensão do momento em que tal coisa acontece. A primeira vez que tu sentiu atração por uma mulher, a primeira vez que tu te apaixonou, a primeira vez em que tu te sentiu um adulto... Tudo isso.
-A primeira vez em que eu usei a expressão "Tá ligado"... - Ele acrescentou.
Ela riu.
Ele continuou:
-Eu me lembro de todas essas informações e momentos, mas sabe, isso nem sempre é uma coisa boa. Tem muito lance que eu gostaria de esquecer. Das pequenas vergonhas às grandes dores... E tá tudo lá, irremediavelmente armazenado no meio da cultura inútil e dos momentos cálidos.
Ela olhou pra ele e sorriu.
Ele continuou:
-E, diga-se de passagem, tem uma porrada de momentos cálidos que, hoje em dia, me trazem mais dor do que conforto.
Pegou a mão dela e continuou:
-Então não faça pouco da tua falta de memória, alemoa. Ela te permite a faculdade de aproveitar o momento de maneiras que eu sou incapaz. - Concluiu sério, para então se endireitar no sofá e prestar atenção ao noticiário.
Ela o fitou por alguns instantes enquanto ele olhava a Leilane Neubarth apresentando o "edição das seis", e então inquiriu:
-Mas sabe o que me intriga dessa história toda?
Ele virou, sobrancelhas erguidas:
-O que?
-Se eu estou naquele top-3... - Ela respondeu, séria.
Ele sorriu, voltou a olhar pra TV e falou, meio de canto:
-Talvez top-10. - Disse. -Talvez...
Ela fez cara de ofendida e o chutou com a sola do pé e ele começou a rir de novo.
Talvez, mais tarde, ele fosse lembrar daquele momento como um dos seus momentos cálidos.
Um daqueles raros que jamais teriam um sabor amargo.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Resenha DVD: Anjos da Noite: Guerras de Sangue


À certa altura da sessão de DVD na madrugada à que me reservei durante o feriadão, fui assaltado por um pensamento aterrador conforme assistia Anjos da Noite: Guerras de Sangue, quinto filme da franquia de lobisomens versus vampiros iniciada no longínquo ano de 2003 por Len Wiseman e Kate Beckinsale:
Será que é assim que não-fãs de quadrinhos se sentem ao assistir um filme de super-herói?
Porque ainda nas primeiras sequências do filme, eu me peguei lutando contra a sensação de déjà vu conforme Selene (Kate Beckinsale), com sua roupa de Mulher-Gato, andava de moto tiroteando com lobisomens vestidos como proletários leste-europeus em sequências de ação que tentavam ser excitantes mas falhavam miseravelmente na execução.
Eu ainda não entendo como Anjos da Noite chegou ao quinto filme. A maior bilheteria da série são modestos 160 milhões de dólares para o quarto filme, Anjos da Noite: O Despertar, turbinado pelo lançamento em 3D, e o único filme da franquia que é vagamente assistível é o terceiro, Anjos da Noite: A Rebelião, que não tem Beckinsale, e é uma prequência contando o início da guerra entre lobisomens e vampiros desde a insurgência liderada por Lucian (Michael Sheen) contra o ancião Viktor (Bill Nighy), um filme que, ao contrário de todos os outros longas da franquia, é contado pelo ponto de vista dos lobisomens (ou "lycans"), e tinha uma pegada muito mais direcionada para um barbarismo roots do que o fetichismo de látex preto e peles pálidas dos filmes co-irmãos, ainda assim, A Rebelião era a pior bilheteria da franquia (o bocão de Rhona Mitra provavelmente não foi páreo pras formas harmoniosas de Beckinsale embrulhada em spandex), e o retorno de Selene em O Despertar foi o maior sucesso comercial da série, de modo que, de alguma forma, a Sony resolveu continuar com a franquia.
Anjos da Noite: Guerras de Sangue começa com um breve lembrete de tudo o que aconteceu com Selene nos filmes anteriores, uma montagem onde a própria personagem narra os acontecimentos desde que seu caminho como a mais formidável mercadora da morte dos clãs vampíricos se cruzou com o de Michael, um humano híbrido de lobisomem, por quem se apaixonou e teve uma filha, Eve, a primeira híbrida de vampiro e lobisomem puro-sangue, perdida para sempre para ser protegida de ambas as espécies.
Após matar os líderes dos vampiros e dos lobisomens, Selene se tornou uma proscrita, caçada pelas duas facções, em constante movimento para evitar a captura, e sem saber o paradeiro da filha.
As coisas mudam, porém, quando a ambiciosa anciã do clã oriental Semira (A bonitona Lara Pulver, a Irene Adler de Sherlock), percebe que a única forma de se proteger dos lycans e de seu novo líder, Marius (Tobias Menzies, o Edmure Tully de Game of Thrones), é oferecer anistia a Selene, e fazê-la treinar mercadores da morte novatos para os combates vindouros.
Para convencer o conselho do clã oriental, ela conta com a ajuda do ancião Thomas (outro egresso de GoT, o Tywin Lannister Charles Dance).
Com a ajuda de David (Theo James), Selene precisa retornar à guerra secular entre vampiros e lobisomens, mas desta vez, com uma chance real de encerrar o conflito, uma tarefa que pode lhe custar sua vida.
Anjos da Noite já merece um quinhão de desprezo por ter mexido em toda a mitologia vampírica conhecida (as fraquezas e forças de vampiros e lobisomens não fazem nenhum sentido e nem são muito claras), outro tanto de ódio por ter conseguido a proeza de transformar uma premissa que rendeu horas de diversão para RPGistas do sistema Storyteller em uma série de filmes sonolentos e bobos que rivaliza com a saga Crepúsculo no que tange ao desserviço que presta aos sanguessugas e aos licantropos.
Anjos da Noite: Guerras de Sangue tem todos os defeitos da série, as cenas de ação que se dividem entre a edição surtada estilo Tony Scott e cenas em slow motion à moda Zack Snyder são chatas e repetitivas, a fotografia, toda em preto e azul é tão soturna que eu só posso imaginar a bagunça que seja ver esse filme em 3D, e o que se passa por diálogos no roteiro de Kyle Ward e Cory Goodman é um festival de exposição constrangedor entre uma lutinha mal coreografada e a próxima.
A direção de Anna Foerster é tão morta quanto a de qualquer um dos filmes anteriores (excetuo A Rebelião. Mantenho que é um filme algo assistível), deixando claro que a diretora não trouxe nada de seu para a empreitada, e o elenco, por vezes, parece constrangido em dizer as falas, exceto por Theo James, que vomita toda a breguice clichê de seu personagem com uma canastrice que seria comovente se não fosse tão irritante.
O único ponto positivo de Guerras de Sangue é que o longa teve a pior bilheteria dos cinco filmes, modestíssimos 81 milhões de dólares, e essa bilheteria tão gelada quanto os cenários sem-vergonhas do clã vampírico do Norte, cheio de vampiros loiros vestidos de branco, talvez faça com que o estúdio perceba que, a exemplo de Selene, a franquia Anjos da Noite já viveu demais.

"-Não há começo. Não há fim. Há apenas... Transformar-se."

sábado, 15 de abril de 2017

Resenha DVD: Animais Noturnos


Semana passada, num tópico de cinema na rede social que eu frequento, um colega perguntou se alguém havia assistido esse Animais Noturnos, e se era bom. Eu respondi que só havia ouvido elogios, mas não havia assistido ao longa.
Fiquei coçando a cabeça tentando lembrar porque eu havia perdido Animais Noturnos no cinema, e tenho a impressão de que o longa pode ter tido uma passagem ligeira pelas telonas em alguma época amontoada de estreias sucessivas. Eu não creio que fosse simplesmente deixar passar um longa estrelado por Amy Adams, Jake Gyllenhaal e Michael Shannon, provavelmente três dos melhores atores em atividade no cinemão Hollywoodiano, mesmo não sendo um fã ardoroso de Direito de Amar, o primeiro filme do fashionista/cineasta Tom Ford, responsável pela adaptação do livro Tony & Susan, de Austin Wright, e pela direção do filme.
Na sexta-feira modorrenta do feriado, resolvi remediar a situação.
Animais Noturnos nos apresenta Susan Morrow (Amy Adams). Bonita e rica, Susan vive uma vida de privilégios na alta sociedade de Los Angeles, gerenciando uma grande galeria de arte na cidade, frequentando belas festas, organizando vernissages e exposições. Susan mora em uma enorme casa, tem secretários pessoais e criadagem, tudo, aparentemente bancado por seu marido Hutton (Armie Hammer, que simplesmente não consegue disfarçar a cara de quem nasceu em berço de ouro). A despeito da opulência de sua vida, Susan parece bastante miserável. Ela não é feliz no casamento, seu marido parece incapaz de suportá-la, e tão entediado que nem se esforça para esconder isso e suas traições.
O casal também passa por problemas financeiros, embora eu tenha a impressão de que, para pessoas tão ricas quanto Hutton e Susan, a expressão tenha um significado bastante diferente do que tem para o resto de nós.
Em meio à sua rotina de sofrimento burguês, Susan é surpreendida por uma encomenda: Um pacote contendo o manuscrito de um romance escrito por seu ex-marido, Edward Sheffield.
Receber a encomenda às vésperas de um final de semana que planejava passar com Hutton, que a escanteia sem grande cerimônia, faz com que Susan mergulhe de cabeça na leitura do livro, que narra a história de Tony Hastings e sua família.
Aqui, a narrativa do longa se desmembra, e acompanhamos Tony (Jake Gyllenhaal), sua esposa Laura (Isla Fisher) e a filha do casal India (Ellie Bamber), uma família de classe média que, durante uma viagem pelo oeste do Texas se envolve em um encontro desastroso com um trio de marginais liderados por Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson, vencedor do Globo de Ouro com a atuação).
Numa das mais tenebrosas sequências de horror de que eu sou capaz de me lembrar no cinema recente, emulando com maestria o mais palpável terror e tensão num suspense tão desconfortável que quase obriga o espectador a olhar pra fora da tela, nós vemos as coisas irem de mal a pior, culminando em uma horrível tragédia de embrulhar o estômago da audiência e de Susan, que segue lendo o romance, que lhe foi dedicado.
Claramente afetada pela leitura, Susan começa a relembrar do passado, e novamente a narrativa se bifurca (à essas alturas, se trifurca) e acompanhamos o passado, vinte anos atrás, quando Susan reencontrou o amigo de infância Edward Sheffield (também Gyllenhaal) em Nova York, e os dois engataram um romance que, a despeito dos alertas da mãe da moça (ponta de Laura Linney), culminou em casamento e, obviamente, divórcio).
Daí pra frente, as três linhas continuam em paralelo e seguimos a história de Tony, cuja tragédia pessoal ganha novos ares conforme, com a ajuda do policial Bobby Andes (Michael Shannon, simplesmente brilhante), ele tenta encontrar justiça, ao mesmo tempo em que Susan, sendo assombrada pelo manuscrito de Edward no presente, revisita as memórias de seu passado ao lado do homem cuja sensibilidade a atraiu em primeiro lugar mas que no final foi o que a afastou para os braços do macho-alfa-provedor Hutton, conforme avalia sua vida.
É muito difícil ficar indiferente a Animais Noturnos.
Tanto que é difícil decidir, após as pouco menos de duas horas de filme, se vimos uma genial obra cinematográfica, ou um exercício pedante de estilo vazio.
Talvez porque, muito do que Ford coloca na tela pareça choque pelo choque, como a sequência de créditos iniciais, com as cheerleaders morbidamente obesas dançando nuas, ou a sequência em que Susan comparece à uma reunião em sua galeria e interage com a colega vivida por Jena Malone, mas outro tanto seja tão bem executado, como a sequência de pesadelo na estrada, ou as interações entre Tony e Andes.
Dessa forma, o filme caminha sobre o fio da navalha, até a última cena, que é um daqueles finais abertos pra fazer o pessoal discutir o que terá acontecido, e por quê, sempre mantendo-se interessante.
É difícil medir o quanto disso é graças ao elenco, já que Gyllenhaal e Adams estão ótimos como habitual, com Taylor-Johnson surpreendentemente bem e Shannon simplesmente arregaça na sua interpretação do enigmático Bobby Andes (Ainda há participações de Michael Sheen, Karl Glusman e Andrea Riseborough), mas no plano maior isso não chega a importar, é o conjunto da obra que conta, e o saldo de Animais Noturnos é bastante positivo.
O longa de Tom Ford funciona, pode não ter sido o melhor filme de 2016, mas a despeito de pequenos tropeços, é um programaço.
Vale demais a locação.

"Quando você ama alguém é preciso cuidar disso, você pode nunca mais ter isso outra vez."

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Teaser de Star Wars: Os Últimos Jedi


E no meio da tarde, conforme prometido, a Disney divulgou na Star Wars Celebration o primeiro teaser de Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi.
Na breve prévia, que segue à risca o modelo do primeiro teaser de O Despertar da Força, não vemos praticamente nenhuma novidade, exceto flashes do treinamento de Rey por Luke, algumas novas espaçonaves e breves vislumbres do que parece ser um ataque à Resistência.
Confira:



Dirigido por Ryan Johnson, e com os retornos de Daisy Ridley, Jon Boyega, Adam Driver, Oscar Isaac, Mark Hammil, Carrie Fisher além das adições de Laura Dern, Benício Del Toro, entre outros, o oitavo episódio da saga espacial estréia em dezembro.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Resenha DVD: Jack Reacher - Sem Retorno


Em 2012 Tom Cruise estrelou a primeira adaptação de um livro da longeva série do personagem Jack Reacher, criado pelo escritor Lee Child. Eu me lembro de ter achado engraçado que Reacher, que na literatura é um gigante loiro de quase dois metros de altura, fosse retratado pelo nanico Tom Cruise nos cinemas. Também lembro de ter achado o personagem terrivelmente antipático, mas divertido com sua pinta de herói fodão oitentista, sem lenço nem documento, um andarilho vivendo em movimento em um exercício de anonimato que se tornou um vício superado apenas pelo magnetismo da violência...
Jack Reacher - O Último Tiro foi um sucesso moderado de bilheteria e crítica, tendo sido recebido como uma boa fita de ação e rendendo 218 milhões de dólares para um orçamento de 60 milhões, modesto em tempos onde qualquer bobagem custa mais de 100 milhões de dólares...
Com um lucro interessante, um personagem que aparentemente podia encontrar seu lugar nas afeições da audiência e fonte para uma porrada de filmes (a série literária conta com 14 volumes) até que demorou para Jack Reacher voltar à telona, em meados de outubro do ano passado.
Em sua nova aventura, Jack ajuda a major Susan Turner (Cobie Smulders) a desmantelar um esquema de tráfico humano. Depois disso, os dois começam a conversar socialmente por telefone e, de repente, Jack chega a Washington para convidar a major para jantar.
Para sua surpresa, porém, a Turner foi removida do comando, e colocada sob custódia. Ela está presa acusada de espionagem, relata o novo comandante da base, coronel Sam Morgan (Holt McCallany).
Jack, como era de se esperar, não engole a acusação, e imediatamente começa uma investigação própria, levando-o a crer que Turner foi incriminada em uma conspiração que envolve a empresa de segurança privada Parasource e oficiais corruptos do exército dos EUA.
Como se isso já não fosse suficiente, Jack também descobre que está sendo processado por uma mulher que alega ter uma filha com ele, a jovem Samantha (Danika Yarosh), uma menina de quinze anos que cresceu em lares adotivos enquanto sua mãe, uma prostituta viciada em drogas, entrava e saía da prisão.
Inadvertidamente puxada para o meio da confusão, Samantha se junta a Reacher e Turner enquanto eles fogem das autoridades e tentam descobrir o que está por trás das acusações contra a major antes que seja tarde demais.
A premissa não chega a ser das coisas mais importantes em um filme de Jack Reacher. Claro, precisa ser suficientemente intrincada para que, quando Jack decifre todo o quebra-cabeças ele pareça muito mais esperto que todo mundo, mas o realmente importante nesse tipo de filme é que a ação seja convincente, com boas cenas de perseguição e lutas cascudas como as do primeiro longa.
E aqui começam os problemas de Jack Reacher - Sem Retorno, o diretor do longa, Edward Zwick, egresso de filmes interessantíssimos como Diamantes de Sangue e O Último Samurai entrou no lugar de Christopher McQuarrie, diretor do primeiro longa )que emigrou para a franquia Missão: Impossível) e junto com seu co-roteiristas Richard Wenck e Michael Hersovitz transformou Sem Retorno em uma jornada mais emocional para Jack Reacher, o que é uma coisa boa. Não há nada de errado em expandir os horizontes de um filme de ação, tornar seus personagens mais multifacetados e profundos, tudo isso é ótimo, mas a verdade é que, ao fazer isso, Zwick desviou bastante do que haviam sido os grandes acertos de O Último Tiro, que era uma divertida caricatura, com um vilão que parecia saído de um James Bond de baixo orçamento, uma frase de efeitos a cada quinze minutos e lutas muito bacanas.
Sem Retorno também tem lutas e tiroteios, mas a verdade é que o diretor parece não ter jeito com o estilão urbano e cru de pancadaria que o personagem central pede.
Em compensação Zwick realmente dirige seus atores. Smulders e Yarosh se.esforçam em.cada cena, e Cruise tem sua melhor atuação desde O Último Samurai, mostrando Reacher lutando contra a sua natureza de brucutu para encontrar uma forma de se comunicar com Samantha, que, afinal de contas, pode ser sua filha.
O problema é que o roteiro não se aprofunda tanto quanto os atores e toda essa atuação parece forçada quando ocorre em meio à correria das perseguições de um vilão com cara (e casaco preto longo) de fugitivo de longa de ação europeu de baixo orçamento, chamado apenas de "The Hunter", o personagem é vivido por Patrick Heusinger e consegue a proeza de ser pior do que o casca-grossa interpretado por Jai Courtney em O Último Tiro, e pelos capangas da Parasource chefiada pelo general Harkness (Robert Kneper) que, obviamente, não dá pra largada com o deliciosamente brega Zec Cheloviec de Werner Herzog.
Jack Reacher - Sem Retorno tem diversas boas ideias, do anacronismo do personagem que transpira herói de ação oitentista à piada recorrente dos dois soldados casca-grossa sendo incapazes de controlar uma adolescente passando pela major Turner sendo uma versão feminina de Jack e à óbvia divisão do protagonista quanto à paternidade, o longa é, a exemplo do inferno, cheio de boas intenções, elas apenas não foram desenvolvidas a contento.
Ainda assim, o longa preenche tranquilamente uma tarde chuvosa de domingo, e diverte sem ofender.

"-Quem diabos é você?
-O cara com que você não contava."

terça-feira, 11 de abril de 2017

Resenha Série: Punho de Ferro Temporada 1 Episódio 13: Dragon Plays With Fire


Atenção, pode haver spoilers!
O final da temporada de Punho de Ferro começa com Harold, todo pimpão, chegando à sede das empresas Rand como se jamais tivesse morrido e passado treze anos recluso.
Harold, livre do jugo do Tentáculo e tendo colocado Danny na mira do DEA, tem o caminho aberto para seu retorno triunfal ao mundo dos vivos.
Enquanto isso, Danny se vê em um verdadeiro pepino, procurado por ter usado a Rand para traficar heroína (incrível como o DEA monta rapidamente um caso baseado em meia dúzia de arquivos incriminatórios contra um cara que passou os últimos quinze anos desaparecido e em alguns dias transforma sua empresa em uma operação internacional de drogas), ele precisa fugir e se esconder levando consigo Colleen. Sendo procurado pela justiça, a única forma de descobrir o que ocorreu de fato, é contatando sua advogada, e com a ajuda de Claire, Jeri Hogarth é contatada deixando claro para Danny que ele tem três opções:
Voltar a K'un-Lun, se entregar e aguardar o julgamento, que pode levar até um ano para acontecer, ou provar sua inocência recuperando os dados de Gao.
Isso leva Danny e Colleen de volta ao complexo de Bakuto, agora deserto, exceto pela prisioneira. Gao continua mexendo com a cabeça de Danny com extrema facilidade (na verdade, todo mundo mexe com a cabeça de Danny com extrema facilidade), e conta a Danny que foi Harold o responsável pela morte de seus pais.
O que, para os espectadores não era nenhuma surpresa, cai como uma bomba atômica sobre Danny, que tem dificuldade para acreditar que o Harold tramou a morte de seu melhor amigo e sua família. Danny também descobre que a única cópia dos arquivos está no tablet que ele entregou a Harold, e não tarda para que ele, Colleen e Claire percebam que a única pessoa que pode ajudá-los é Ward, que não parece satisfeito em ter seu pai psicopata pairando sobre ele e Joy, que segue tendo dificuldades para acreditar que Harold se tornou uma criatura perigosa após a ressurreição oferecida pelo Tentáculo.
Com o seu futuro e o legado de sua família em jogo, Danny não tem alternativa, exceto arriscar tudo em um confronto definitivo com Harold, mas mesmo se puder matá-lo, será que, ao fazê-lo, o Imortal Punho de Ferro não estará abrindo mão de sua alma?
Dragon Plays With Fire é um episódio consideravelmente melhor do que os anteriores vinham sendo. Mais ágil e enxuto, o décimo terceiro capítulo da temporada engrena da metade pro fim, amarrando todas as pontas soltas e se não foi, nem de longe, um season finale fodelão como fora o da segunda temporada de Demolidor, também não foi pior do que os de Jessica Jones e Luke Cage.
Após assistir à primeira temporada de Punho de Ferro, eu francamente não consigo entender todo o ódio que a série gerou entre a crítica e alguns fãs. O programa obviamente tem problemas narrativos, mas eles não são, nem de longe, graves a ponto de justificar tanto desdém.
Danny Rand, o protagonista, por vezes é irritante, mas assistimos treze episódios de Jessica Jones, e ela só não era irritante nos flashbacks.
O Punho de Ferro volta e meia é menos interessante do que Colleen Wing, mas assistimos Luke Cage, e Misty Knight por vezes salvava a série enquanto Jessica Jones seria "inassistível" sem Trish Walker e Kilgrave.
O confronto final entre Danny e Harold foi broxante, mas mais broxante do que o confronto final entre Luke Cage e Cascavel?
Punho de Ferro esteve muito, muito longe de ser perfeita, e até mesmo sua desgastada premissa do magnata retornando de uma localidade exótica com novos e letais conhecimentos a exemplo de Arrow, Batman e Homem-de-Ferro pode fazer alguns torcerem o nariz, ainda assim, me parece que o grande "defeito" de Punho de Ferro foi não ser protagonizado por um deficiente, uma mulher ou um negro, fosse esse o caso, eu tenho certeza de que mesmo os mais rocambolescos trâmites com cara de folhetim na primeira temporada teriam sido relevados.
A primeira temporada da série solo do último Defensor teve altos e baixos, episódios genuinamente interessantes e empolgantes, mas uma série de episódios arrastados e com cara de filler, de fato, foram um grande percalço, no geral, porém, eu gostei do resultado, e tenho certeza de que a série e o personagem ainda têm lenha pra queimar, mas não.
Não pode nem mesmo ser comparada a Demolidor.
Igualzinho às demais séries co-irmãs.

"-Me disseram que o Punho de Ferro era uma arma poderosa. Uma chama para destruir nossos inimigos. Mas eu acho que poderia ser algo mais... Uma luz para aqueles presos na escuridão."

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Resenha Série: Punho de Ferro temporada 1 episódio 12: Bar the Big Boss


Atenção! Pode haver spoilers!
Após um par de episódios meio escanteado, Ward voltou a ganhar espaço nesse penúltimo episódio da temporada. Lutando contra a armação de Harold e o envenenamento pela heroína sintética de Gao, ele recebe a visita de Bakuto, e uma proposta boa demais pra recusar:
Liberdade das maquinações de Harold, segurança para sua irmã, e o controle das empresas Rand em troca de uma relação mais salutar com o novo Tentáculo e de ajuda para capturar Danny.
Mas Ward não tarda a descobrir que essa ala "light" do Tentáculo, é tão impaciente quanto benevolente, e Bakuto não está disposto a sentar e esperar que Ward entregue o Punho de Ferro, e tampouco a perdoar que seu dinheiro seja tomado por Joy e Harold sem um corretivo.
Enquanto isso, Danny se vê entre Colleen e Davos, o nativo de K'un-Lun querendo destruir o complexo de Bakuto com todos os iniciados do Tentáculo dentro, e Colleen relutando em fazê-lo porque seus alunos estarão lá.
Mas o trio não tem muito tempo para discutir antes de serem atraídos para uma armadilha de Bakuto, que usa os Meachums, a única família que restou a Danny, e seu permanente calcanhar de aquiles.
Após capturar Danny, Bakuto revela que ele trabalha com outra pessoa dentro do Tentáculo, e que essa pessoa (o personagem de Sigourney Waver em Os Defensores, talvez?) pretende usar o Punho de Ferro para mudar o mundo.
Bakuto não contava, porém, com Davos e Colleen, que surgem para resgatar Danny que, no último momento consegue acessar novamente o poder do Punho de Ferro, levando a uma boa cena de luta no corredor (mais uma. Com essa já são cinco lutas em corredores em cinco temporadas de Marvel/Netflix), e a um confronto definitivo de Colleen com seu sensei no Central Park, onde Davos e Danny também vão às vias de fato quando o herdeiro das empresas Rand finalmente decide que o poder do Punho de Ferro não pertence apenas a K'un-Lun.
O penúltimo episódio de Punho de Ferro deu uma corrida para acertar o tabuleiro para o season finale. Algumas coisas soaram terrivelmente convenientes, como Danny subitamente readquirir seu poder quando a trama desesperadamente precisava disso, e outras já parecem meramente forçadas. Será que Colleen não percebeu que seus alunos foram convertidos por Bakuto e possivelmente estão além de salvação? Ela própria não matou uma de suas alunas no episódio anterior para poder escapar do complexo?
Se Danny parece distraído demais com a situação toda para perceber que Harold não é um cara legal, será que a essas alturas Joy já não teve informações suficientes pra perceber que aquele cadáver ambulante age tão claramente como um vilão que se tivesse bigodes andaria os torcendo por aí?
As coisas deram uma tremenda desandada na reta final de Punho de Ferro, mas algumas boas cenas de luta e personagens coadjuvantes interessantes (Colleen, apesar dos problemas, ainda é minha favorita, a exemplo de Misty Knight em Luke Cage e Trish Walker em Jessica Jones, mas Ward melhorou ao longo dos episódios mesmo com um arco tenebrosamente bagunçado) mantém a cabeça da série fora d'água.
Uma hora para o final da primeira temporada e podermos dar um veredicto definitivo sobre o último Defensor.

"Eu sou Danny Rand. E eu sou o Punho de Ferro."