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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Resenha DVD: Arranha-Céu: Coragem Sem Limite


Não há em Hollywood, atrevo-me a dizer, ninguém fazendo mais dinheiro do que Dwayne "The Rock" Johnson. O carismático e talentoso ex-lutador de luta-livre da WWE já foi chamado até de "viagra para franquias" pela maneira como seu nome em um letreiro é sinônimo de sucesso financeiro. Dos bilhões de dólares arrecadados pela franquia Velozes e Furiosos desde sua entrada no time até as surpresas como a enorme bilheteria de Jumanji: Bem-Vindo à Selva, The Rock chama público ao cinema, especialmente nos EUA.
Outra coisa que eu me atrevo a dizer é que a quantidade de dinheiro feita pelos filmes de The Rock não necessariamente se traduzem em qualidade. Velozes e Furiosos são filmes bem ruins quando minimamente escrutinados, Rampage é um filme muito, muito ruim, S.O.S. Malibu é medonho, Um Espião e Meio é uma bobagem absolutamente descartável. Eu não assisti Moana, e achei Jumanji surpreendentemente simpático considerando a ideia, a questão, porém, é que nos últimos dois anos Johnson esteve em oito filmes e duas séries de TV que provavelmente só existem por causa do carisma do ator que, de tão querido pelo público, vai transformar o vilão Adão Negro da DC em anti-herói...
Seja como for, no sábado fui até a locadora e encontrei este recém lançado em home-video Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, e, na falta de algo melhor pra assistir, resolvi dar uma chance ao filme.
O longa abre com um flashback. Dez anos atrás Will Sawyer (Johnson) era um ex-fuzileiro naval e operativo do FBI. Durante uma negociação de reféns que dá errado, Sawyer perde a perna em uma explosão e sua carreira como agente da lei acaba.
Corta para o presente.
Sawyer está casado com Sarah (Neve Campbell), a médica que o tratou quando ele sofreu suas lesões, e tem dois filhos, Georgia (McKenna Roberts) e Henry (Noah Cottrell). Ele toca uma pequena empresa de segurança na garagem de sua casa e está diante do que pode ser um divisor de águas em sua nova carreira, a supervisão de segurança do Pérola, um imenso edifício de mais de 240 andares no coração de Hong Kong.
Considerado o prédio mais seguro do mundo, a iniciativa imobiliária do multi bilionário Zhao Long Ji (Chin Han) precisa apenas de um OK para começar a ocupar cada um de seus andares, e graças a seu amigo Ben (O Mad Sweeney Pablo Schreiber), Sawyer está em posição de avalizar o prédio. Para tanto, ele viaja até Hong Kong com sua família e é alocado em um confortável apartamento no 98° andar da parte residencial do edifício enquanto faz vistorias de segurança.
As coisas se complicam quando o Pérola é alvo de um ataque engendrado por um grupo de terroristas para-militares e começa a se incendiar. Falsamente responsabilizado pelo ataque, Sawyer se vê entre a cruz e a caldeirinha, precisando ignorar suas limitações para fugir das autoridades entrar na torre infernal, resgatar sua família e limpar o seu nome enquanto luta contra mercenários armados até os dentes.
Sabe aqueles filmes que, de tão ruins, são bons?
Não é o caso de Arranha-Céu: Coragem Sem Limite.
O filme é apenas ruim, e ponto.
Evidentemente curto no que tange à história, o longa é mais um veículo para todo mundo ver Dwayne Johnson bancar o super-homem. A ideia de fazê-lo um herói amputado como forma de mostrar à audiência que ele não é indestrutível funcionaria se ele não não fosse um amputado indestrutível ao longo dos 102 minutos de filme.
Will Sawyer escala, salta e luta melhor do que qualquer homem com duas pernas seria capaz, e ainda transforma sua perna protética em ferramenta multi-uso enquanto desce a porrada nos vilões.
A exemplo de Terremoto: A Falha de San Andreas, que era uma versão anabolizada do Terremoto de 1974 estrelado por Charlton Heston com notas dos filmes de desastre de Rolland Emmerich, Arranha-Céu - Coragem Sem Limite é uma versão anabolizada de Inferno na Torre com Paul Newman e Steve McQueen, mas também tem notas de Duro de Matar.
Os resultados são similares, são filmes desalmados, anacrônicos e previsíveis com homens musculosos movendo céus e terras para salvar suas famílias (ainda que em Arranha-Céu a esposa de Will Sawyer, Sarah, seja uma médica militar casca-grossa capaz de chutar sua cota de bundas e que não necessariamente precisa ser salva o tempo todo).
Parcialmente rodado em Hong Kong com um grande contingente de atores locais para garantir a bilheteria do país, o longa escrito e dirigido por Rawson Marshall Thurber é um festival de clichês e CGI total e absolutamente bobo que não se sustenta por meio segundo quando confrontado com qualquer lógica, especialmente porque ele começa tentando manter um pé na realidade mas, da metade em diante, simplesmente manda qualquer compromisso com o mundo real às favas em nome do mau espetáculo (A fumaça é uma ameaça quando o incêndio começa, mas depois deixa de ser... Há um incêndio em um prédio enorme e não vemos nem um único e miserável bombeiro o filme todo...).
Com um elenco que ainda conta com Roland Moller, Noah Taylor, Byron Mann e Hannah Quilivan, Arranha-Céu seria um grande filme em 1985, hoje em dia é o comercial de fita adesiva mais caro já feito, e um programa passável apenas para os fãs mais ardorosos de Dwayne The Rock Johnson, e olhe lá.

"-Se não dá pra consertar com fita adesiva, é porque você não está usando fita adesiva o suficiente."

sábado, 10 de novembro de 2018

Resenha Cinema: Bohemian Rhapsody


Quem me conhece sabe que eu jamais fui uma pessoa das mais musicais. Ainda que eu nutra o que considero um saudável gosto por música, e tenha algumas dezenas de faixas no meu telefone celular além de ter sido um muito, muito moderado comprador de CDs na adolescência, eu jamais fui desses apaixonados por bandas que têm posteres, e usam camisetas da banda preferida. Mesmo que eu tenha minhas bandas preferidas, não tenho conhecimento enciclopédico de suas trajetórias além de um eventual especial pescado ao acaso num canal Bizz ou VH1 da vida.
Ainda assim, com meu modesto conhecimento no tema, considero-me um fã de rock. Minhas bandas favoritas, Led Zeppelin, AC/DC e Beatles, não necessariamente nessa ordem, não necessariamente em nenhuma ordem, são todas bandas de rock, e eu acho que mais de noventa por cento do que eu ouço é rock. Enfim, mesmo com meu conhecimento modesto no tema, eu sempre considerei Freddie Mercury o maior vocalista do rock, e ponto.
Não é apenas pelo alcance monumental de sua voz, mas pelo seu carisma e habilidade de interagir com a platéia. Enquanto Brian May tocava guitarra, Roger Taylor tocava bateria e John Deacon tocava baixo, Mercury tocava piano e a audiência.
De modo que ainda que Queen não seja a minha banda preferida (embora eu tenha na minha playlist diária Don't Stop Me Now, Crazy Little Thing Called Love e Bohemian Rhapsody), Mercury e sua trupe têm um lugar na minha memória afetiva musical, foi por isso que eu resolvi dar um tempo no meu exílio cinematográfico e ver a cinebiografia da banda no cinema, e não no conforto do meu blu-ray.
Bohemian Rhapsody, um filme que sofreu com uma nada desprezível cota de escândalo e drama em seu processo de criação, com o diretor titular Bryan Singer tendo sido demitido do comando da produção no final das gravações e substituído pelo não-creditado Dexter Fletcher, é bastante convencional em sua abordagem da vida, não exclusivamente de Mercury, mas da banda Queen, desde o momento em que o jovem Farrokh "Freddie" Bulsara (Rami Malek) conhece a banda Smile, naquele momento composta apenas pelo guitarrista Brian May (Gwiyim Lee) e pelo baterista Roger Taylor (Ben Hardy), recém abandonados pelo vocalista e baixista original da banda em 1970.
Com o jovem extravagante como seu novo vocalista, e John Deacon (Joseph Mazzello) assumindo o baixo, a Smile se torna o Queen, e de uma banda de pubs e festas universitárias para a qual ninguém ligava, eles se tornam um fenômeno embalado por hit atrás de hit fazendo turnês pelo mundo e gravando discos experimentando com o próprio trabalho e se recusando a abraçar uma fórmula até o momento em que Freddie, afundando-se em influências sombrias, resolve seguir em carreira solo, uma decisão que cobra muito mais caro do que ele poderia imaginar.
A trajetória inicial da banda é uma divertida viagem através dos hits, mas a vida de Mercury é o ponto mais interessante do filme, mesmo que o roteiro de Anthony McCarten e Peter Morgan a retrate de maneira bastante cautelosa e afetiva, poupando o espectador médio de detalhes mais escandalosos e, de forma competente, trabalhando em uma zona segura onde escolhe aludir à vida de excessos que o cantor levou ao invés de efetivamente mostrá-la.
Há escolhas discutíveis (mas compreensíveis do ponto de vista financeiro), como mostrar o relacionamento de Freddie com Mary Austin (Lucy Boynton) como a única relação significativa da vida do cantor enquanto praticamente nenhum romance feliz com outro homem é mostrado. Suas relações homossexuais são vislumbradas brevemente, sem alarde, em montagens silenciosas que deixam claro tanto o polido envolvimento dos membros sobreviventes do Queen quanto a interferência do estúdio na produção para torná-la tão "família" quanto uma cinebiografia de uma estrela de rock setentista poderia ser.
Tudo isso seria um problema se o longa não tivesse uma poderosa arma para dar uma sacudida e manchar, no bom sentido, o que poderia ser uma modorrenta biografia chapa branca:
Rami Malek.
O ator está excepcional como protagonista. Toda a sua performance é um espetáculo por si só. Ele rouba cada cena, cada fala, cada momento do filme com uma atuação brilhante que chuta o longa para cima, elevando-o com a pancada de que ele precisa para não ficar com cara de elegia póstuma. E na sequência final, que recria o legendário show do Live Aid de maneira sensacional, fazendo a audiência se sentir, de fato, em um show do Queen (eu juro, tinha um casal algumas fileiras adiante que balançava os braços no ritmo da música e um bocado de gente que aplaudiu quando a banda deixou o palco...), Malek incorpora Freddie Mercury de maneira espantosa mostrando o tamanho de seu talento e comprometimento para com o papel, indo muito além de uma boa imitação e uma boa caracterização para buscar uma interpretação das aflições de alguém tão desajustado que só sabia se sentir aceito em cima do palco enquanto cantava.
Até onde ouvi, Bohemian Rhapsody foi criticado tanto por ter um personagem central gay que aparece se beijando com outros homens, quanto por não ser "gay o suficiente", mostrando Freddie tendo uma mulher como o amor de sua vida e parecendo funcionar melhor quando cercado por seus colegas de banda heterossexuais e bem ajustados, o longa foi criticado por não ser invasivo o suficiente na faceta mais sombria de Mercury, em sua vida de excessos e seus inúmeros casos sexuais, foi criticado por ser repleto de clichês, por apostar em momentos construídos para agradar determinadas audiências e foi criticado até por Rami Malek não ser suficientemente parecido com Mercury e sua caracterização ter cara de cosplay brega. Mas ainda que o longa não seja, de forma alguma um filme à prova de críticas, muito de suas "falhas" são decisões conscientes. Tão conscientes quanto a decisão de Farrokh Bulsara tomou de mudar seu nome legalmente para Freddie Mercury, de se tornar um músico, uma estrela, e enfim, uma lenda. Tentar tornar Bohemian Rhapsody mais palatável para audiências conservadoras sem efetivamente esconder nada da vida ou das preferências do astro pode não ser uma decisão corajosa ou mesmo inteligente, mas não rouba em nada da genialidade de seu personagem central.
Uma pessoa que compôs produziu e cantou de uma vida cheia de humilhações e inadequações até a posteridade reservada apenas aos grandes.
A despeito da troca de timoneiro, Bohemian Rhapsody não sofre por ter dois tons distintos no mesmo filme, como Liga da Justiça, há um bom trabalho de elenco (que conta com nomes como Tom Hollander, Aindan Gillen, Allen Leech e Mike Mayers), uma trilha sonora cheia de hits (não apenas do Queen) e uma boa produção. Não, não é perfeito. Nem de longe, e como todas as cinebiografias do cinema, dá uma torcida na realidade para gerar emoção, um expediente que, mesmo com sua honestidade discutível, funciona. Mesmo que não tivesse tudo isso, apenas a atuação de Malek já garantiria uma ida ao cinema.

"-Nós acreditamos uns nos outros... Isso é tudo. Nós faremos coisas grandes. É uma experiência. Amor, tragédia, alegria... É algo que as pessoas irão sentir que pertence a elas."

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 13: A New Napkin


Atenção! Severa zona de spoilers abaixo!
A terceira temporada de Demolidor chega ao fim.
Numa tela dividida, nós vemos Wilson Fisk se preparando para o dia que ele antevê há dois anos: O dia em que se casará com Vanessa Marianna, enquanto o Demolidor usa suas táticas de interrogatório mais convincentes para fazer Felix Manning cantar feito um canário de ponta-cabeça. É hora do acerto de contas definitivo, mas para colocar as mãos em Fisk, Matt precisa entrar em um hotel cheio até o gargalo com capangas armados durante uma festividade que transformou o hotel em uma fortaleza guardada pelo FBI do Rei do Crime.
Matt parece não ter opção, ao menos até ouvir o nome de Julie Barnes.
Enquanto Foggy e Karen lidam com o fracasso retumbante de seus planos para colocar Fisk atrás das grades da maneira correta, dentro da lei, Seema Nadeem precisa lidar com a morte do marido, taxado de corrupto e mentalmente instável pelo bureau.
Mas se, no final, Nadeem foi corrompido pelas chantagens de Fisk, ele jamais foi mentalmente instável, tanto que, em seu auto-sacrifício para salvaguardar Seema e Samy, ele deixou um vídeo com sua declaração ao morrer para ser entregue a Nelson e Murdock.
A declaração de Nadeem pode ser a chave para derrubar o Rei do Crime, mas para Foggy e Karen é a chance de impedir Matt de matar Fisk e perder sua alma, mas à essa altura, o Demolidor já tem seu próprio plano.
Após sua conversa com Felix, Matt descobre onde Fisk armazena os cadáveres que deseja ocultar, e resolve fazer o Rei do Crime provar um pouco do próprio remédio.
Sabendo do destino de Julie Barnes, Matt manipula Poindexter a encontrar o corpo da jovem, e então usa o agente do FBI como aríete para acessar o hotel de Fisk e entrar de penetra no casamento. Ele precisa apenas seguir o caminho de destruição, e impedir Dex de chegar a Fisk antes dele, o que nos leva à (mais) uma sensacional sequência de luta.
Dex versus Fisk versus Demolidor.
Um violento balé a três com Poindexter tentando matar Vanessa enquanto Matt tenta impedi-lo e os três trocam bordoadas cada um com seu estilo. Fisk liberando o monstro enfurecido de pura força bruta que habita em seu interior, Dex, preciso e transformando qualquer coisa em um ptojétil mortal, e Matt usando seu vasto arsenal de artes marciais num sangrento festival de porradaria que culmina com Matt tendo as mãos ao redor da garganta de Fisk, mas escolhendo, conscientemente, não deixar que o Rei do Crime destrua quem ele é.
A catarse de ter Matt rosnando na cara de Fisk "Eu te derrotei!", após arrebentar o vilão de tanta pancada é um desses momentos que elevam Demolidor muito acima de qualquer outra série de super-herói. Atrevo-me a dizer que eleva Demolidor acima da imensa maioria das adaptações de quadrinhos.
Claro, eu sei que há quem vá achar que Matt passar a temporada inteira pronto para matar o Rei, para desistir no último segundo é encheção de linguiça, mas essas pessoas não entenderam o personagem.
Ao longo dos anos nos quadrinhos, Matt é o sujeito que toda a vez que pensa ter chegado ao fundo do poço, recebe uma pá maior para continuar cavando.
Seu principal poder não é o radar, seus sentidos aguçados ou mesmo seu treinamento em artes marciais, mas a habilidade de se manter otimista e fiel aos seus ideais mesmo quando sua vida é virada do avesso e enxovalhada de ponta a ponta. No final das contas, Matt sempre vai fazer o que é certo, ou ao menos o que for mais certo.
Nesse caso, ele força Fisk a fazer um pacto com o diabo.
Além disso, a série garante, não apenas que ainda tenhamos a sombra de Vincent D'Onofrio pairando sobre o futuro de Matt, mas também que Nadeem e sua família não tenham comido o pão que o diabo amassou de graça ao longo da temporada. No final das contas é o vídeo gravado pelo agente do FBI que coloca Fisk de volta atrás das grades.
E, eu sei, após uma temporada que eu categorizei no episódio anterior como "doze horas de niilismo", os minutos finais desse décimo terceiro episódio podem soar demasiado felizes.
Matt fazendo as pazes com Maggie, a tocante elegia que o herói faz para o padre Lantom (essa sim, me deixou de olhos marejados), e a retomada do trio protagonista, apartado desde a segunda temporada fecham a temporada com uma doçura que, ainda que seja mais do que merecida por nossos heróis, pode soar algo fora de lugar após tanta desgraça. Entretanto, quando pensamos na possibilidade de que, com a ruptura entre Marvel e Netflix, essa série não volte para uma quarta temporada (o que seria uma tragédia!), eu acredito que seja melhor nós terminarmos a história com nossos amigos sentados e felizes fazendo planos para o futuro do que com algum cliffhanger macabro que pode jamais se concretizar.
Claro, ainda há um easter egg daqueles para os fãs de quadrinhos, com Poindexter passando por um procedimento cirúrgico nas mãos do doutor Oyama (que os iniciados devem conhecer pelo nome de Lorde Vento Negro, pai de Lady Lethal e criador do processo de ligação de ossos com adamantium nos gibis), e deixando claro que Dex está mais do que pronto para retornar no futuro com o modo Mercenário cem por cento ativado, mas isso é mais uma promessa de que há outras histórias pra contar do que uma ponta solta.
Veja, Demolidor não apenas merece voltar para uma quarta (e quinta, e sexta...) temporada. Precisa voltar.
O seriado do diabo da guarda de Hell's Kitchen é a série de super-heróis fundamental, com um excepcional vilão, um ótimo grupo de coadjuvantes, ótimas cenas de luta e um baita protagonista além de um personagem central cheio de boas histórias pra contar em um universo de super-heróis com os pés cravados no chão.
A terceira temporada de Demolidor consolidou a série na sua posição apartada de todas as outras adaptações de quadrinhos na TV (e de muitas no cinema) em termos de qualidade, por favor, Marvel e Netflix, não nos deixem sem Demolidor.

"Pra mim, pessoalmente, ele passou muitos anos tentando me fazer encarar meus medos. Entender como eles me escravizavam, me apartavam das pessoas que amo. Ele me aconselhou a transcender meus medos, a ser valente o suficiente para perdoar... E ver a possibilidade de ser um homem sem medo."

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 12: One Last Shot


Atenção! Spoilers abaixo!
Eu preciso dizer que eu fiquei com o estômago revirado nesse penúltimo episódio do ano de Demolidor.
Do primeiro segundo, quando Vanessa (Ayelet Zuhrer, lindona) retorna a Nova York e para Wilson Fisk, andando em câmera lenta saindo do helicóptero, fenda estilosa no vestido, e tudo, até o final quando Matt, Foggy e Karen avaliam o rescaldo de seu plano, One Last Shot foi uma montanha russa cheia de socos no estômago, alguns bons, e outros simplesmente dolorosos.
Quando vemos nossos heróis pela primeira vez, eles estão voltando a ser Nelson e Murdock, abacates jurídicos, e seu plano é assegurar que a família Nadeem esteja fora do alcance de Wilson Fisk para que Ray deponha contra o Rei do Crime.
Mas nesse momento, essa é, por estranho que pareça, a menor das preocupações de Wilson. A maior, sem dúvida, é a forma como Vanessa retorna à sua vida. Não é, nem de longe, a maneira que ele havia idealizado.
As primeiras interações do casal no retorno são frias e distantes. Nada parece impressionar Vanessa. Nada parece animá-la, nem mesmo o omelete à la Fisk é capaz de removê-la de seu estado de tédio e isso claramente faz com que o mafioso fique arrasado. Nós podemos ver em cada expressão de Fisk como ele está se contorcendo de desconforto internamente.
Mas isso vai apenas até o momento em que Dex entrega o quadro.
A cena que nos sugere veementemente que a senhora Falb será encontrada pela empregada com um candelabro cravado na testa nos leva à uma reação deliciosamente dúbia de Vanessa. Ela está com medo de Poindexter e despreza o assassinato cometido em nome da posse da pintura, ou ela está excitada ante a possibilidade de Fisk ter gente matando para garantir qualquer um de seus caprichos?
Naquele momento é impossível dizer. Porque nós sabemos que Vanessa se enamorou de Fisk por conta de seu poder e eficiência, e o mero fato de ela reconhecer essas qualidades nele, é o que torna o amor do Rei por Vanessa tão imenso. Ele sabe que ela é um achado. Uma mulher bonita, instruída e inteligente que é capaz de aceitá-lo do jeito que ele é (Sim, meninos e meninas. A história de amor de Wilson e Vanessa é como O Diário de Bridget Jones).
Mas será que nesses dois anos que os dois passaram apartados algo mudou?
Vanessa esteve cercada de seguranças fugindo da lei por diversos países da Europa, e à primeira vista qualquer um poderia julgar que depois de tantos apuros ela possa estar cansada de tudo isso, tenha chegado à conclusão de que Fisk não vale isso tudo e queira sair dessa.
Mas não...
Vanessa não quer sair. Ela quer entrar de cabeça. Ela não quer ser uma das belas coisas que Fisk exibe. Ela quer estar ao lado dele enquanto ele toma cada decisão, partilhando tudo o que há no prato dele.
E, nesse momento, o prato de Fisk está cheio de Nelson, Murdock, Page e Nadeem.
O plano dos mocinhos envolve o promotor Tower, o conhecimento do agente especial Nadeem, Ellison e o Boletim de Nova York e um Grande Júri de emergência convocado às pressas para garantir o indiciamento de Fisk por cada crime que Nadeem possa relatar.
Há, sim, um pouco de excesso nesse episódio que quebra o ritmo da coisa toda durante a primeira meia hora.
Temos muitas cenas de Foggy convencendo Matt de que eles estão fazendo a coisa certa, muitas cenas com Blake Tower (Stephen Rider) negociando os termos do acordo com Nelson e Murdock, muitas cenas de Nadeem com a esposa... Como a coisa toda caminha quase como um final de temporada existe um bocado de preparação para o desfecho.
Os vinte minutos finais, porém, são espetaculares.
A partir do momento em que o carro onde Nadeem e Matt é atacado pelos capangas de Fisk, resultando em uma espetacular sequência de ação com os dois enfrentando um pequeno exército usando os super-sentidos de Matt para transitar no meio de uma chuva de balas nós realmente pensamos que os heróis vão vencer.
Sim, sob diversos aspectos, seria uma repeteco dos eventos da primeira temporada. Mas tudo parecia tão redondinho que, quando Matt ouve que Felix Manning está manipulando o júri para garantir que eles não aceitem a denúncia, é de partir o coração. Especialmente tendo visto quão otimista Matt e Foggy estavam, e o alívio de Nadeem após o depoimento.
E, pra colocar o último prego no caixão, nós temos outra cena com Vanessa e Fisk. Onde ela deixa claro que não quer ser a esposa troféu do Rei, mas uma rainha governando lado a lado com seu amado.
E seu primeiro ato de comando, é demandar a cabeça de Ray.
Com tão pouco tempo sobrando na temporada, é difícil não lamentar por nossos heróis terem falhado novamente em sua guerra contra Fisk. Mais ainda com o fim de Nadeem, um personagem que, como eu temia, virou o bode expiatório da temporada num movimento que, lá atrás, eu categorizei como covarde (dar bastante tempo de tela a um personagem novo para que a audiência se importe com ele e então matá-lo mantendo os protagonistas habituais vivos), mas que acabou sendo bem sucedido. Eu realmente lamentei a morte de Nadeem, eu me investi no drama do personagem e torci por ele até o último minuto.
Trazer Vanessa de volta aos quarnta do segundo tempo foi mais uma boa sacada da série, assim como reunir Nelson e Murdock, especialmente quando houve uma alteração interessante no paradigma dessa relação:
Dessa vez, Matt tem razão. E o Demolidor pode fazer coisas que o sistema está embotado demais para conseguir.
Enquanto outras séries de super-heróis terminam cada capítulo com um vilão preso, o décimo segundo episódio da terceira temporada de Demolidor encerra quase doze horas de niilismo deixando a audiência na ponta da cadeira e dando show de qualidade.

"-Eu fiz besteira e, não importa o que aconteça hoje, não sei se minha esposa vai voltar. Mas seus amigos continuam voltando. Como consegue?
-Não sou eu. São eles.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 11: Reunion


Atenção! Spoiler abaixo!
Se houve o proverbial momento de respiro na terceira temporada de Demolidor, foi este Reunion.
O décimo primeiro episódio da temporada foi o momento que, de fato, fez a história dar uma estacionada, mas o fez com a excelência que o programa tem esbanjado ao longo desse ano fazendo com que esse respiro fosse acelerado e o mais silencioso possível ao mantê-lo, em boa parte, restrito à igreja, com Matt e Karen tentando se esconder do FBI e da polícia após o ataque de Poindexter.
Isso leva a um longo jogo de gato e rato, com Nadeem e Poidexter vasculhando cada canto da igreja e da sacristia em busca do vigilante e da repórter enquanto a irmã Maggie tenta afastá-los de todas as formas possíveis.
Enquanto Matt e Karen cozinham na pressão, Fisk segue sua escalada de volta ao trono criminoso de Nova York.
Após ter o caso contra si retirado pela procuradoria, Wilson faz uma declaração pública para dizer que não é e nem nunca foi o vilão da história, mas uma vítima de uma campanha difamatória engendrada pela mídia e pelo Demolidor...
Vincent D'Onofrio é tão naturalmente sinistro em seu retrato do Rei do Crime, que é quase inacreditável que qualquer discurso feito por ele pudesse acalmar uma multidão, eu sei, entretanto seu intento não é acalmar ninguém, apenas apontar o dedo para o Demolidor e garantir que Matt esteja tão miserável quanto possível.
O rei não vai abandonar seu domínio. Ele quer apenas garantir que seu maior inimigo esteja arrasado enquanto ele retorna a seu posto comandando o crime de Nova York de dentro de uma cobertura com Vanessa a seu lado, essa é sua ideia de perfeição, e, para que tudo esteja perfeito, com o Demolidor na lama e Vanessa a seu lado, o único detalhe faltando é a pintura que conectou o rei e a mulher que ele ama, o Coelho na Nevasca, que retornou à sua proprietária por direito, senhora Esther Falb (Lesley Ann Warren, falhando em parecer ter oitenta anos...).
Isso nos leva à uma longa cena entre Fisk e Esther, que vai um pouco além do estritamente necessário especialmente porque parece servir apenas para mostrar tanto a faceta mais humana do Rei, quanto que o povo de Nova York não vai esquecer tão facilmente quem ele é... Não chega exatamente a ser uma novidade ou movimentar a trama, mas ao menos nos leva a mais uma cena onde fica claro o quanto é perigoso andar de carro com Wilson Fisk, especialmente quando ele está frustrado e estabelece a que alturas ele chegou em termos de poder. O mafioso basicamente faz o que quer, na hora em que quer, independente de quem está por perto.
Entretanto, graças à Maggie, Mahoney e à mudança de postura de última hora de Nadeem, Karen consegue escapulir da cena do crime usando o kung-fu jurídico de Foggy Nelson.
Aqui cabe abrir o parentese de que, enquanto Dex foi sendo desumanizado conforme se aproximava de Fisk, Nadeem fez o caminho exatamente oposto. Se a ideia da série era fazer a audiência se importar com ele, então os miseráveis conseguiram mesmo. O personagem que carrega o peso da trama em que foi envolvido nos ombros se redesenhou em uma figura trágica que, à essa altura, não tem mais pra onde se virar em busca de expiação pela baderna que inadvertidamente ajudou a criar.
O ponto derradeiro de Reunion, porém, não é a situação de Nadeem, mas a reunião do título.
Matt, Foggy e Karen estão juntos novamente. E embora Matt ainda acredite que a única forma de deter Fisk seja matando o criminoso, ele fica tão feliz em estar novamente com seus amigos que está disposto a dar uma última chance ao sistema, e trabalhar com eles para tentar colocar fim às maquinações do bandido dentro da lei, antes que seja tarde demais e o alcance dele seja tão grande que ele simplesmente não tenha opositores, e, para fazer isso, eles precisam de um aliado de dentro da operação. Alguém que conheça os pormenores da organização de Fisk mas esteja disposto a se colocar contra o Rei do Crime.
Alguém como Ray Nadeem.
O que nos leva à ótima sequência de ação que encerra o capítulo.
O décimo primeiro episódio de Demolidor se encaminha para os momentos decisivos da temporada, preparando nosso trio de heróis e seus aliados para a batalha definitiva contra Wilson Fisk e seu sindicato criminoso. A despeito de passar uma boa parte de seu desenrolar encaixotado na igreja, em seu terço final o capítulo faz a história andar de maneira agradável, sem martelar na imoralidade das ações de Matt, mas focando na luta dos mocinhos para fazer justiça enquanto se mantém vivos.

"-Se vamos levar sua família pra um lugar seguro você precisa confiar em mim.
-Eu não confio em ninguém.
-Bem, eu confio em você."

Fracasso


É aurora e crepúsculo.
Tem sido já há muito tempo. Nem sei quanto...
Que tu me desperta e me coloca na cama antes do sono.
Que tu só não emoldura meus dias porque não está apenas ao redor, mas entremeada em cada minuto de cada hora.
Antes me incomodava.
A ponto de eu criar sistemas pra evitar a intrusão.
Tentativas vãs de impedir o inevitável.
Todas falharam. Jamais fui a mais sistemática das criaturas, mesmo.
Lutava pra me concentrar nas coisas ruins. Tentando adestrar a mim mesmo como um cachorro.
Me condicionar como Alex deLarge.
Jamais funcionou.
Não tinha como. Todo o pensamento me levava de volta ao sorriso mais lindo que já ganhei.
À boca mais macia que já beijei.
Às pernas mais gostosas que já me envolveram.
Me levavam às risadas cúmplices.
Aos beijos na fila do cinema.
Aos finais de tarde de domingo... Cheiro de salão de beleza e desenho no DVD...
Levavam minhas mãos de volta à tua cintura e à tua bunda.
Minha língua de volta ao teu pescoço, peito e pélvis...
Minha caneta de volta à tua região ilíaca.
Meu sistema estava fadado ao fracasso.
Meu coração condenado à saudade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Resenha Série: Demolidor, temporada 3, episódio 10: Karen


Atenção! Spoilers abaixo.
Eu sei que, pra quem lê, pode estar ficando chato, a cada episódio eu me desmanchar em elogios a Demolidor, mas eu não posso fazer nada se cada episódio dessa terceira temporada (que, eu repito, não é, até o momento, a minha preferida) dá um show de qualidade.
O décimo episódio do ano nos levou em uma viagem pela alameda da memória ao nos mostrar o passado de Karen Page e mostrar à audiência não-iniciada no mundo dos quadrinhos que a loira é muito, muito, muito mais do que apenas um rostinho bonito (e, se me atrevo, um corpão gostoso).
Eu diria que dois terços desse capítulo são dedicados a nos mostrar que Karen não é apenas uma mocinha em perigo. Sob diversos aspectos, ela é o perigo, e vem sendo desde a juventude na pacata cidade de Fagan Corners, Vermont, onde Karen era uma rata de festas de fraternidade universitárias que namorava o traficante local e brigava para ajudar o pai, Paxton (Lee Tergesen) e o irmão Kevin (Jack DiFalco) a manter o restaurante da família o mais longe possível da falência após a morte da mãe.
O passado sombrio de Karen é a resposta à pergunta que eu ouvi em mais de uma ocasião de detratores da série, sobre como a secretária executiva havia matado o mafioso com tanta facilidade na primeira temporada. Bem, meus amigos, quem lê quadrinhos sabe que Karen Page não é apenas uma secretária executiva. Ela tem um passado sombrio, ela passou muitos anos de sua vida sendo uma vítima, ela é parcialmente responsável pela destruição de sua família e isso despertou nela um desejo de se redimir que supera seu medo e até mesmo seu senso de auto-preservação.
Karen Page é um produto de sua vida lutando por significado.
Deborah Ann Woll dá um show com seu tempo sob os holofotes. Sua versão mais jovem de Karen Page, com má atitude, vício em drogas e o namorado cretino seria fácil tornar a personagem antipática ao lançar essa luz sobre sua vida pretérita, mas Woll e os roteiristas consegue balancear Karen a tornando uma personagem tão dúbia e falível quanto Matt Murdock e Wilson Fisk. Oferecer tantas camadas a personagens em qualquer tipo de mídia já seria digno de elogios, mas em uma série de super-herói, um filão que é compartilhado por coisas como Arrow, Legends of Tomorrow, Inumanos e Agentes da SHIELD é ainda mais sensacional.
Mas nem só de uma grande performance dramática de Deborah Ann Woll é feito esse capítulo.
Matt está no hotel de Fisk disposto a tomar a decisão definitiva a respeito do vilão e realmente matar o Rei do Crime, mas ao ouvir que Karen Page foi localizada pelo vilão na igreja da rua Clinton, e que Fisk quer a cabeça da loira, o Demolidor deixa seus planos para depois.
Segue-se, então, mais uma ótima cena de luta entre o Demolidor e o agente Poindexter na igreja que, sim, é infinitamente superior à luta entre Ben Affleck e Colin Farrell quinze anos atrás.
Dex transforma em arma tudo em que ele coloca as mãos, de contas de rosários à bíblias, passando por velas (o arremesso do prato de coleta é excelente) enquanto Matt tenta cortar a distância para reduzir a vantagem do vilão, uma estratégia que esbarra no traje reforçado construído por Melvin Potter.
A pancadaria é muito boa, carregada de tensão especialmente para quem leu O Diabo da Guarda, de Kevin Smith e lembra como essa luta termina nos quadrinhos, e, também, para quem está habituado ao expediente de dar um grande espaço a um personagem logo antes de matá-lo, seja como for, há um desfecho trágico nessa luta que ainda não é o último round da querela entre Poindexter e Murdock.
Apesar de movimentar pouco a trama no que tange à história que estamos acompanhando no presente da série, Karen se apoiou em um longo e pesado flashback da vida pregressa de Karen Page que contou com uma excepcional atuação de partir o coração por parte de Deborah Ann Woll, ainda assim, encontrou tempo para nos oferecer sacrifícios, decisões importantes e uma baita cena de porradaria num binômio que, em Demolidor, sempre deu certo: Flashbacks e cenas de luta.
Faltando apenas três episódios para o final da temporada de Demolidor a série deixa claro o nível de excelência que é capaz de alcançar.

"-'Tudo ficará bem no final. Se não está bem, não é o final.' John Lennon disse isso. Quem somos nós pra discordar de um Beatle?""