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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Perseguição.


Dercinésio era um sujeito sortudo. Desde piazinho o Dercinésio fora o que os mais antigos consideravam " Um cabra nascido com o cú virado pra Lua", e, embora nem todo mundo partilhasse a falta de polidez dos mais antigos, tinham que concordar que o Dercinésio tinha, mesmo, essa parte de sua anatomia iluminada. Não só essa parte. O Dercinésio todo era iluminado. Dercinésio, quando fedelho, era o batedor oficial de par-ou-ímpar nas peladas do parque pois jamais perdia. Enquanto os amigos de Dercinésio escolhiam uma posição onde jogar bola, e se esforçavam pra serem fixos, alas ou pivôs que segurassem o rojão, o Dercinésio jogava em qualquer parte da quadra, e sempre era bem sucedido. Se jogasse como ala, acabaria a partida com pelo menos meis dúzia de assistência improváveis pra gol, pois o seu marcador era o perna de pau do time adversário. Se jogasse como pivô, a bola literalmente espirrava nele antes de morrer no fundo da rede. Se se aventurasse na defesa, como fixo, o pivô adversário sofreria de uma severa indisposição intestinal, e não teria forças pra tentar girar pra cima de Dercinésio. E, se ele por uma eventualidade resolvesse atacar no gol, era certo que os atacantes adversários o consagrariam chutanbdo a bola sempre em cima dele.
Era assim, esporte contra o Dercinésio, era impossível.
Mas não só esporte. Na escola, se o Dercinésio estudava apenas parte da matéria antes de uma prova, pode apostar que seria aquela parte, exatamente, que cairia na prova. Se ele não estudass, a professora passaria mal ou perderia um parente próximo, e não poderia comparecer pra ministrar a avaliação. Quando Dercinésio gostava de uma menina, ela era sempre o tipo de menina que gostava de caras exatamente como Dercinésio.
Dercinésio prestou vestibular chutando todas as questões na letra A, e conseguiu passar pra Administração de Empresas. Foi sorteado na rifa que premiava com um MBA, aliás, nem me deixe começar a enumerar todos os sorteios que o Dercinésio ganhou, as rifas, premiações, e todo o resto. Digamos apenas que o Caminhão do Faustão já o ameaçara se ele continuasse enviando cupons, e que Dercinésio sempre tinha um carro do ano, embora jamais tivesse entrado em uma concessionária.
Era tão sortudo, o desgraçado, que quando resolveu se casar, sua noiva lhe disse chocada que sua mãe perdera o dom da fala imediatamente após ser avisada do pedido dele.
Uma vez o sujeito do apartamento ao lado do seu (ganho em uma promoção de margarina), após ouvir que Dercinésio ganhara na loto fácil e na dupla-sena na mesma semana, perguntou indignado de onde vinha tanta sorte. Dercinésio estendeu-lhe a mão e, ao receber o cumprimento do vizinho apresentou-se:
-Dercinésio Bolitta Fomm.
O sujeito não entendeu:
-Como? Quê?
-É meu nome - Explicou Dercinésio. -Eu me chamo Dercinésio Bolitta Fomm. Isso não é um nome, é uma maldição, uma praga. Tu pode te esforçar procurando uma piada com esse nome, mas não vai adiantar, pois eu já ouvi todas. Além disso, eu não sou muito bonito, nem inteligente. Se além de feio, burro, e me chamar Dercinésio Bolitta Fomm, eu ainda fosse azarado, bom... Aí já ia ser perseguição...

Pizza


O Genaro se sentia uma fatia de sser humano. E o pior de tudo, nem sequer se sentia uma boa fatia. Ele se sentia uma fatia de ser humano referente àquela fatia de pizza de presunto que ninguém quis comer e começa a endurecer dentro da caixa de papelão, e provavelmente é jogada fora no dia seguinte pois o queijo borrachudo é ruim demais até pro cachorro encarar.
O Genaro sempre se sentiu desse jeito. Incompleto, insatisfeito. Infeliz. Ele até gostaria de ser dessas pessoas alegres que fazem, e que acontecem e que riem da vida achando tudo uma delícia. Não era, porém, o seu caso. Se o Wander Wildner não conseguia ser alegre o tempo inteiro, o Genaro não conseguia ser feliz nunca.
Não era, a bem da verdade, algo que incomodasse o Genaro. Ele aprendera a viver sem ser, sabe? Feliz. Acabou achando que felicidade era supérfluo. Coisa de rico, igual depressão. Genaro encontrava satisfações eventuais em uma porção de coisas, nos estudos, nos amigos, em suas coisas e seus assuntos. E ia levando dessa forma.
Até conhecer a Lisiane.
Lisiane era linda, claro. Genaro admitia seu superficialismo, se Lisiane não fosse atraente, não a teria notado. Ainda bem que era atraente, outrossim, Genaro jamais teria percebido todo o imenso arsenal de qualidades que Lisiane guardava além da beleza.
Lisiane era divertida, alegre, viva. Tinha nos olhos, no rosto, no corpo e nas palavras tanta vida... Tanta indignação, e não do tipo indignação de gaveta, com cara feia e discurso, não. A indignação da Lisiane era graciosa como ela. Era a indignação de quem vê algo errado e não reclama, conserta. Era assim que era Lisiane, um poço de iniciativa linda que só, viva que só, perfeita que só, a seu modo. E Genaro, claro, encantou-se por ela. E a quis para si. Sabia, porém, que alguém como ele jamais teria atrativos para alguém como ela. O que alguém como Lisiane veria em alguém como Genaro, senão um oposto?
Genaro não sabia, e, francamente, nem quis saber. O que Genaro tinha pra si como certeza é que queria estar perto de Lisiane sempre que pudesse. Tornariam-se bons amigos, pois Genaro, mesmo triste, não era má pessoa. E, de fato, ele e Lisiane tornaram-se amigos, pois tinham, entre todas aquelas diferenças, muitas afinidades. Filmes, livros, discos, e pasmem, até visão de mundo, Genaro e Lisiane partilhavam, apenas com abordagens diferentes. Passaram por bns e por maus momentos. Riram juntos e choraram juntos, um sobre o ombro do outro. E Genaro foi percebendo que muitas coisas haviam sido agregadas à sua vida. Tantas que só faziam com que Genaro ficasse mais e mais apaixonado por Lisiane a cada dia.
Foi quando percebeu que usara a expressão "apaixonado". Não lembrava de já tê-la usado antes. Percebeu, também, que já não se sentia como uma fatia velha de pizza de presunto esfriando e envelhecendo dentro da caixa. Não se sentia mais como um fragmento de pessoa. Subitamente, sabia o que devia fazer. Quando encontrou-se com Lisiane, sento-se ao seu lado, e disse que não podia mais ser amigo dela. Disse que continuar sendo seu amigo seria uma mentira, um engodo, pois ela tornara-se muito mais do que uma amiga para ele. Ela era o que o completava, o que o fazia ser uma pessoa inteira, e não mais a sombra pálida de um ser humano, e que se Lisiane não se sentia da mesma forma, era melhor que não se vissem mais enquanto ele podia sobreviver emocionalmente à separação.
Lisiane suspirou por um longo momento. Mordeu o lábio inferior e fechou um olho enquanto tirava o cabelo da frente do rosto, e disse que não. Não se sentia da mesma forma.
-Lamento, Genaro. Mas eu já era uma pessoa completa quando a gente se conheceu.
Genaro não pôde evitar, e fechou os olhos quando Lisiane falou.
-Tudo bem... Eu entendo. Eu meio que esperava por isso...
Mas ela continuou:
-Eu já era uma pessoa completa, e já era feliz. Eu só... Bom. Me sinto mais feliz contigo por perto. E, se eu tenho um defeito, é não saber abrir mão de nenhum grão de felicidade na minha vida.
E Genaro ficou estático enquanto ela o abraçava. E se o perfume dela, a textura de seus cabelos sob seu queixo, ou o tato de seus braços enlaçando seu pescoço não eram a melhor coisa do mundo, ele não queria a melhor coisa do mundo.
E se o Genaro queria mais coisas da vida além dela, olha, francamente era tudo acessório, pois ela era, e estranhamente, de algum modo, sempre fora tudo de que ele precisava, e tudo o que ele queria.
Ao lado dela, o Genaro não podia, ou queria ser feliz. Ao lado dela, ele sabia ser feliz, e isso, bom... Isso não se acha em qualquer caixa de pizza numa esquina...

sábado, 28 de maio de 2011

Resenha Cinema: Se Beber Não Case - Parte 2


Em 2009 nenhuma comédia fez mais grana, recebeu melhores críticas, ou foi mais premiada do que Se Beber Não Case (título mais que cretino pra The Hangover, em bom português: A Ressaca.).
O filme sobre a improvável trinca de amigos formada pelo dentista Stu (Ed Helms, de The Office), Phil (Bradley Cooper, de Esquadrão Classe A), e Zach Galifianakis (Força G), que despertavam de uma bebedeira homérica após a despedida de solteiro do melhot amigo Doug (Justin Bartha) não era só engraçado, era histérico. Arrancava risadas usando todo o tipo de recurso, sem abrir mão de expedientes politicamente incorretos que iam da piada racista (Doug branco/Doug preto) ao humor físico pastelão (Mister Chow salta nu de dentro de um porta mala espancando todos com um pé de cabra).
Após tanto sucesso, era quase inevitável que houvesse uma segunda ressaca no caminho do bando de lobos, e o diretor Todd Phillips, realizador do longa original, aceitou o trabalho, e chegou ontem aos cinemas Se Beber Não Case - Parte II.
Eu estava muito ansioso pelo filme, a primeira parte se tornou uma das minhas comédias preferidas, é difícil, ainda hoje, ver a expressão no rosto de Galifianakis encarando os seios de Heather Graham e não rir, ou os acessos de pânico de Ed Helms, ao perceber que perdeu um dente, ou que seu amigo Doug pode estar em poder de sequestradores asiáticos.
Ansioso que estava pelo filme, fui dar uma conferida nas críticas que já pululavam pela internet um dia antes da estréia do longa nos cinemas, e qual não foi minha surpresa ao perceber que a imensa maioria delas estava detonando o filme, dando-lhe, em média, notas entre três e quatro. Com um pé atrás, resolvi ir assim mesmo ao cinema, e, após conferir o longa, posso dizer:
Esses críticos não manjam nada!
Se Beber Não Case - Parte II é muito engraçado, é divertido, incorreto e insano como seu antecessor, e, se perde nos quesitos originalidade e imprevisibilidade, todas as situações ganham escopo ampliado.
Stu vai se casar (eu pensei que seria com a Heather Graham, mas não é, é com uma jovem de origem tailandesa.), ainda traumatizado com os eventos de dois anos atrás, ao invés de uma despedida de solteiro, ele organiza um pequeno brunch entre amigos para celebrar. A cerimônia se dará em um luxuoso resort tailandês onde o pacato dentista espera um casamento sem problemas além do sogro que o detesta por ser mais inofensivo do que sopa de arroz.
Na antevéspera da cerimônia, os amigos, acompanhados de Doug, e do futuro cunhado de Allan, o gênio adolescente Teddy (Mason Lee), se juntam na beira da praia para brindar com uma cervejinha, e...
Acordam em um pulgueiro imundo em Bangcoc.
Phil está de ressaca, Allan de cabeça raspada, Stu com uma tatuagem tribal no rosto à la Mike Tyson, há um dedo dentro de um copo d'água, e ninguém sabe como chegaram até ali ou onde está Teddy!
Começa aí uma nova peregrinação do bando de lobos para reconstituir seus passos na noite anterior e descobrir o paradeiro de Teddy a tempo de voltar para o resort e Stu se casar com a mulher que ama. No caminho porém, eles encontram barreiras que vão desde um monge silente, convincentes travestis tailandeses, traficantes russos, macacos viciados e o retorno de Leslie Chow (Ken Jeong), o gângster oriental mais temido de Las Vegas.
Não há, de fato, grandes novidades á estrutura do filme, ele segue sendo a aventura dos três desmemoriados em busca de pistas que possam levá-los a descobrir o que aconteceu na noite de bebedeira para resgatar um companheiro sumido, as boas piadas que são requentadas, ainda funcionam, e as novas piadas idem.
Li manifestações de pessoas reclamando da homofobia do filme, é engraçado ver que a incorreção política, quando do primeiro longa foi saudada como qualidade, e agora, em tempos de hipocrisia midiática e social prómovimento gay, ela seja taxada de imprópria. Enfim, Se Beber Não Case - Parte II já sofreu suficientemente com a hipocrisia das pessoas, Mel Gibson, que interpretaria o tatuador americano que abrigava o trio protagonista em uma de suas desventuras, acabou limado da produção por conta do escândalo de suas declarações anti-semitas e sua relação conturbada com a ex-esposa.
Não vá, então, na onda dos politicamente corretos, apenas vá ao cinema, e divirta-se. Se Beber Não Case - Parte II, é uma ótima pedida pra isso.

"Eu não posso acreditar que isso está acontecendo de novo!"

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Orgulho Nerd!


Depois de tentar ser picado por uma aranha radioativa, atingido por um relâmpago, de procurar sem sucesso por um alien roxo às portas da morte com um anel energético...
Depois de tentar se alistar no exército com a condição de que fosse no projeto Super-Soldado, depois de tentar firmar um pacto com Mephisto, de tentar ser exposto à raios cósmicos, de ser dissuadido de se expôr à raios Gama após ler um livro sobre Hiroshima e Nagasaki, e de seu médico lhe dizer que não, não havia nenhum fator X em seu DNA que o fizesse mais (ou menos) que humano...
Depois de tentar, sem sucesso arrancar de seus pais e confissão de que fora encontrado em um foguete alienígena dentro de uma cratera, e de descobrir que o departamento H canadense não existia e nem estava procurando recrutas para o projeto Arma - X, depois de descobrir que seus pais não lhe deixariam uma fortuna para investir em treinamento e aparato tecnológico, ou uma armadura de ferro para combater o crime, ele chegou à conclusão de que não dava, mesmo, pra seguir os passos de seus heróis nos gibis.
Só havia então, uma coisa a fazer.
Não. Não largar essas ideias de mão.
Estudar e meditar muito pra... Virar Jedi!

Feliz Dia do Orgulho Nerd.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Vending Machine


Leonardo parou em frente àquela estranha vending machine no corredor do prédio feito de lego na avenida mais movimentada do seu incosciente. Achou a máquina estranha, tinha algumas moedas no bolso, moedas estranhas, feitas de alumínio avermelhado onde dizia "Um ponto.". Sentiu que precisava de algo de dentro da máquina, e parou diante dela. Leu a tabela abaixo das instruções de como funcionava o engenho:

Olá.

100 Pontos.

Olá!

150 Pontos.

Olááááááááááááááá!

200 Pontos.

Lembrei de ti.

500 Pontos.

Pensei em ti.

650 Pontos.

Senti a tua falta.

800 Pontos.

Senti saudades.

1000 Pontos.

Eu penso muito em ti.

1200 Pontos.

Eu gosto muito de ti.

1500 Pontos.

Eu gosto demais de ti.

1550 Pontos.

Eu não te tiro da cabeça.

1750 Pontos.

Eu te adoro.

2000 Pontos.

Tu é o que eu quero.

2250 Pontos.

Tu é tudo o que eu sempre quis, incrível que caiba em uma embalagem tão pequena!

2500 Pontos.

Se tu fosse mais perfeita eu te metia um soco, pois certamente seria armação.

2550 Pontos.

Eu te amo.

3000 Pontos.

Eu te amo. (mesmo.)

3500 Pontos.

Eu te amo. (De verdade.)

3750 Pontos.

Tu é o meu sonho transformado em mulher.

5000 Pontos.

Leonardo contou as moedas de alumínio de tamanhos e formatos variados que encontrou no seu bolso, e constatou, enquanto lembrava dela, de seu sorriso, de seus olhos, sombrancelhas, nariz, pernas, cabelos e de todas as coisas intangíveis e metafísicas que faziam dela quem ela era. Seus gostos, expressões, gestos certos e errados, como uma mãozinha mal-colocada, e percebeu, tristemente, que não tinha pontos o suficiente pra dizer tudo o que sentia. "Sem problema", pensou. "É só arranjar mais alguns.", disse a si mesmo.
Abriu os olhos com o pescoço dolorido deitado no sofá da sala. A TV ligada mostrava
a reprise do Fantástico na Globo News. Suspirou enquanto tentava se endireitar pra dormir mais um pouco. Quisera que na vida real, bastasse, como no sonho comprar suas declarações. Sentia dor no corpo, demorou um pouco, mas continuou a dormir, e sonharia novamente com ela naquela noite.

sábado, 21 de maio de 2011

Hora certa.


O Argeu era desesperado pela Francielly. Não no mau sentido, ele era desesperado por ela no bom sentido. Após algum tempo, ele supôs que a Francielly gostasse dele também. Haviam indícios espalhados por todas as interações entre ambos.
Os amigos diziam:
-Vai, Argeu, quando a égua passa encilhada, tu tem que montar.
A analogia comparando sua amada Francielly à uma égua não agradava Argeu, mas enfim, ele também achava que ela estava pronta pra ele. Talvez, quem sabe, anciosa por ele.
Argeu não tinha, porém, certeza de que estava ele preparado para Francielly, para o que representaria ela e ele se tornarem eles. Ele queria que, quando chegasse a hora, tudo estivesse perfeito. Queria tudo conforme o figurino. Queria ser o melhor ele que pudesse ser. O primeiro passo, pensou, seria não usar mais a expressão "O melhor ele que pudesse ser.". Enfim, queria que tudo estivesse nos trinques. Se não estivesse tudo como tinha que estar, então não era hora, simples assim.
Deu, momentâneamente as costas ao seu amor dizendo a si mesmo que as coisas aconteciam na hora em que tinham que acontecer.
E Argeu foi cuidar das suas coisas, melhorar como como trabalhador, estudante e homem. Cresceu na vida, ralou demais, trabalhou até quase se estourar e melhorou de emprego, de vida, de status social. Comprou um carro, comprou lençóis e colchões, e quadros pras paredes do apartamento que alugou. Estudou até pensar que seus olhos cairiam, e então continuou estudando. Com muito esforço conseguiu seu diploma, e se sentia uma pessoa mais completa e mais capaz de encarar o mundo. Assumiu responsabilidades, aprendeu a trocar resistência de chuveiro, consertar fechadura, trocar courinho de torneira, pneu de carro, e tudo mais.
Estava finalmente pronto como queria estar pra receber Francielly em sua vida. E foi atrás da dona de suas afeições.
Recebeu, porém, más notícias de amigos que a conheciam.
Ela estava praticamente casada com um sujeito chamado Carlos Eduardo, que fazia faculdade com ela e trabalhava meio período no mercado do avô. Parecia feliz, a Francielly. Como ela ousava estar feliz sem ele?
Foi isso que Argeu pensou enquanto esperava, em frente à faculdade, que Francielly saísse. Foi o que impulsionou seus passos enquanto caminhava com decisão até Francielly pra dizer à ela que se esfalfara feito um condenado à morte pra estar à altura dela, para ser a pessoa que ela merecia, e agora aquilo? Aquela apunhalada violenta nas costelas?
Quando se aproximava, porém, viu o Carlos Eduardo chegar de mansinho por trás dela, abraçá-la pela cintura e dizer em alto e bom som que a amava. Viu o sorriso dela, tão lindo, quando ela fechou os olhos e envolveu com os braços delicados o pescoço daquele pulha sortudo. Então parou. Deu dois passos pra trás, e seguiu seu caminho no sentido oposto.
Descobriu à duras penas que as coisas, de fato aconteciam na hora em que tinham que acontecer. Infelizmente, raramente essa hora era aquela que escolhemos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Chocolate II



Ela chegou perto dele, sentado na soleira da porta, escondendo o rosto do sol com o capuz do agasalho de moletom que vestia por baixo do blazer de couro. Segurava na mão uma revista Superinteressante, que olhava sem muita certeza, dando falta dos óculos.
Ele ergueu o rosto quando ela se aproximou. Passou algum tempo olhando as pernas dela. Breves segundos. As pernas dela eram lindas. Ela era toda linda. Mas as pernas, em particular, eram espetaculares. Ele a encarou com um dos olhos fechado por causa do sol que lhe fustigou a vista, e ensaiou um sorriso.
Ela estava muito séria. Respirou fundo e começou a falar com a voz falseteada que ele aprendera a adorar:
-Comi um chocolate hoje e lembrei de você.
Ele sorriu sem dizer nada. Ela continuou:
-Será que você adivinha que chocolate era? - Perguntou, ainda muito séria.
Ele olhou pra revista que segurava em suas mãos sem ler nenhuma palavra impressa na capa. Respirou um segundo e arriscou:
-Sonho de Valsa?
Ela sacudiu a cabeça da esquerda pra direita em sinal de negativo.
-Serenata de amor? - Ele arriscou.
-Não. - Ela respondeu com a expressão fechada franzindo-lhe o cenho delicado entre as sombrancelhas bem desenhadas.
-Talento? - Ele quis saber, otimista.
-Não. - Ela respondeu quase em um suspiro.
Ele respirou fundo. Olhando pra cima. Enquanto enrolava a revista nas mãos. Tomou fôlego:
-Meio amargo... - Suspirou.
-É. - Ela assentiu, olhando pra ele, muito séria.
Ele sorriu tristemente sem dizer palavra. Ela sentou do lado dele na soleira da porta, ajeitando o vestido curto com as mãos e cruzando os joelhos um sobre o outro, também em silêncio.
Ficaram ali, os dois quietos, sendo aquecidos pelo sol naquela fria manhã de sábado.
Ele olhou pra ela. O sol e ela haviam sido feitos um para o outro. Se acreditasse em Deus, olharia pro céu e diria "Exibido". Ela olhava pra frente, escondendo a boca atrás dos braços apoiados nas pernas.
-Sabe... Antes de te conhecer, teria sido "todo amargo".
Ela o encarou por breves segundos. Ainda não aprendera a identificar quando ele estava sendo sarcástico. Ele olhou pra ela ainda sério. Ainda com um dos olhos fechado.
-De "todo amargo" pra "meio amargo", tu vai ter que concordar que é um puta avanço.
Ela sorriu, fazendo o sol sentir vergonha de si mesmo, e abraçou-lhe o pescoço. Ele respirou e olhou pra cima, aliviado enquanto a abraçava pela cintura delicada.
Quem sabe, com mais tempo, eles aprenderiam a entender um ao outro.