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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Resenha Mini-Série: O Espião


Quando eu assisti ao trailer de O Espião, eu supus que se tratava de um filme, e fiquei muito ansioso para assistir, tanto por ter me parecido uma história de espionagem adulta e cheia de nuances ao estilo John Le Carré, quanto para ver Sacha Baron Cohen exercitar suas habilidades de camaleão em um filme sério em oposição às suas habituais empreitadas cômicas que, ainda que tenham variados graus de sucesso (Borat é excelente, Brüno é bom, O Ditador é ruim, Ali G é horrível), sempre mostram até onde vai o comprometimento do britânico para com seu ofício.
Ao descobrir que tratava-se de uma mini-série em seis episódios, eu não cheguei a lamentar, se a trama fosse boa, era uma oportunidade de assistir umas boas seis horas dela ao invés de apenas duas. Meu problema foi quando surgiu o nome de Gideon Raff como produtor executivo e diretor do programa.
Raff foi o responsável pelo roteiro e direção de Missão Mar Vermelho, longa da Netflix que conseguiu a proeza de tornar uma empolgante história sobre espiões do Mossad tocando um resort de mergulho na costa da África para levar refugiados etíopes para Israel maçante além de qualquer medida.
Ainda assim, resolvi me arriscar e, em dois domingos, concluí a mini-série que conta a história de Eli Cohen (Sacha Baron), um judeu de ascendência árabe trabalhando em uma loja de departamentos em Tel Aviv que eventualmente se tornaria um espião infiltrado na Síria a serviço do Mossad.
Levando uma vida simples ao lado de sua esposa Nádia (Hadar Ratzon Rotem), Eli se ressente do preconceito dos amigos mais abastados que o veem como "um árabe" e almeja um trabalho mais importante, que possa propiciar algum conforto à sua esposa.
Após ser negado duas vezes pelo Mossad, Eli acaba sendo procurado por Dan Peleg (Noah Emmerich), um recrutador que lhe oferece uma arriscada posição em disfarce profundo para se infiltrar entre autoridades sírias e descobrir potenciais ataques contra a recém fundada nação israelense em 1959.
Ávido tanto por servir seu país quanto por uma chance de ascensão social, Ali agarra a oportunidade com unhas e dentes, se preparando para abandonar a própria identidade e se tornar Kamel Amin-Thabaath, um confiante e bem-sucedido empresário de ascendência síria que deseja voltar ao país de origem de seus pais e ajudar a torná-lo a maior nação árabe do mundo cativando cada um dos grandes nomes da política síria que lhe são indicados seja com puras demonstrações de amor pela terra de seus pais, seja com a ostentação de uma vasta riqueza, ou apenas com charme e amabilidade entre seus "pares".
Ao longo de seis anos, acompanhamos Eli enquanto ele galga paulatinamente os degraus dos mais altos escalões do poder da Síria em uma missão que pode custar, não apenas sua vida, mas seu casamento e sua própria identidade.
O Espião não é tão ruim quanto Missão Mar-Vermelho, e acerta na pinta em diversas decisões.
Eli Cohen dificilmente se envolve em perseguições em alta velocidade, não dispara um único tiro, e não sai na porrada com ninguém ao longo de seis capítulos. São raras as ocasiões em que o vemos realmente espionando coisas ou pessoas, pois o Agente 88 é um operativo discreto cuja maior habilidade é a capacidade de ler todos ao seu redor, e se misturar em praticamente qualquer grupo de pessoas.
Há um elemento de tensão sempre presente quando Kamel se envolve em situações extremamente arriscadas armado com pouquíssimo além de sua esperteza e capacidade de improvisar ao lidar com pessoas que poderiam facilmente matá-lo ou expô-lo acabando com sua missão e, possivelmente, com sua vida, e quando esse é o enfoque de O Espião, a série realmente funciona.
O problema é que Raff (que além de dirigir roteiriza a mini-série) escolhe passar um bom tempo com Nadia, sozinha e grávida sentindo a falta de seu marido e alheia ao perigo de seu trabalho, e com isso a série perde muito de seu impacto, especialmente porque, a despeito de ter um bom tempo em cena e fazer um trabalho sólido durante sua participação, a função de Hadar Ratzon Rotem na série é ser a sofrida esposa de Eli, e frequentemente mudar o foco da narrativa de onde ele é mais interessante, para onde ele é menos.
Não ajuda o fato de, à certa altura, Nadia começar a ser pessoalmente paparicada por Dan, no que começa como uma sugestão de triângulo amoroso, mas logo se prova uma tentativa do recrutador em tentar expiar parte de sua culpa por enviar um homem de família a uma missão potencialmente mortal deixando sua família desamparada.
E, enquanto é ótimo passar tempo acompanhando a atuação de Sasha Baron Cohen, seja na pele de Eli, seja na de Kamel, o roteiro simplesmente não lhe dá o suficiente para trabalhar porque, apesar de ter seis horas para contar sua história, O Espião por vezes parece apressada, sacrificando o desenvolvimento dos personagens em nome de mover a trama adiante a qualquer preço. Mesmo o protagonista começa e termina a série sem uma grande justificativa para seu patriotismo pétreo, que o coloca em posição de se afastar por anos da mulher que ama.
Além disso, o último episódio da série é um tremendo anticlímax, especialmente porque ele é aventado nas sequências de abertura da trama no primeiro episódio, gerando uma expectativa que fica terrivelmente longe de atender, e pra fechar da forma mais equivocada possível, Raff escolhe apresentar recordatórios de encerramento sobre imagens absolutamente inapropriadas do verdadeiro Eli Cohen, no que parece uma tentativa deliberada de chocar a audiência.
A mão pesada de Gideon Raff na condução de sua trama e especialmente em seu desfecho paulatinamente enterram os acertos acumulados no início das quase seis horas de história, e diminuem, e muito, o que começa como uma envolvente narrativa de espionagem madura e bem fundamentada em fatos reais, mas termina deixando um gosto amargo na boca e a sensação de que se eu voltar a ver o nome de Gideon Raff em um filme ou série no futuro, sou capaz pensar duas vezes antes de dar uma chance.

"-Meu filho... Você não sabe quem você é."

Resenha DVD: Máquinas Mortais


Não me lembro ao certo quando foi que assisti o trailer de Máquinas Mortais, que alardeava incansavelmente o envolvimento do roteirista e produtor Peter Jackson, o mesmo de O Senhor dos Anéis e O Hobbit (eu ainda gosto de O Hobbit...), mas me lembro que antes mesmo de a prévia terminar eu já sabia que o filme seria ruim.
Não era difícil de perceber, ainda no trailer que o longa que adaptava o livro de Philip Reeve não estava no mesmo patamar da obra imortal de J. R. R. Tolkien, e que por mais talentosos que sejam Jackson e suas habituais colegas, Phillipa Boyens e Fran Walsh, a verdade é que, sem o lastro Tolkeniano para ampará-los, eles têm um cartel modesto em termos de cinema, provavelmente Almas Gêmeas é o único filme deles que não adapta a Terra Média que é acima da média (e, vi agora no IMDB, ainda não tinha Boyens na patota).
Seja como for, no sábado, resolvi visitar a locadora de que sou sócio, e, como Paulo estava escasso de lançamentos que eu ainda não havia visto, resolvi arriscar Máquinas Mortais e tentar descobrir se o filme era tão ruim quanto parecia.
No longa, após a obrigatória narração em voice over informando que a humanidade destruiu a Terra e que os últimos vestígios de civilização foram cidades transformadas em assentamentos móveis que vagam pelas ruínas da civilização sobre gigantescas esteiras de tanques ou rodas de colossais picapes-monstro (de como esse prodígio de engenharia foi alcançado, nós não recebemos nem um vislumbre) que agora vagam pelas ruínas do mundo procurando pelos últimos resquícios de recursos naturais e, na ausência deles, consumindo umas às outras num sistema chamado de Darwinismo Municipal (sério.).
Logo na sequência de abertura acompanhamos a tentativa desesperada de um vilarejo romeno de escapar da monstruosa Londres, que persegue a cidade muito menor em busca de seu sal.
A perseguição, liderada por Thaddeus Valentine (Hugo Weaving) acaba com a assimilação da pobre cidadezinha romena que, entre seus habitantes, esconde Hester Shaw (Hera Hilmar), uma jovem que nutre um ardente desejo de vingança profundo contra Valentine.
Quando tem o sujeito ao alcance de sua faca, porém, Hester é impedida de desferir o golpe de misericórdia no seu desafeto pelo jovem Tom Natsworthy (Robert Sheehan, uma estranha mistura de Jim Caviezel, Eddie Redmayne e Lee Pace), um historiador do museu Londrino, ex-aspirante a aviador e apaixonado pelo passado que estuda a Guerra dos Sessenta Minutos para entender tudo o que pode a respeito da aniquilação da Terra.
Um fã de Valentine (que é engenheiro energético, arqueólogo, aspirante a prefeito e sabe-se lá mais o que em Londres), Tom impede que Hester mate seu ídolo e a persegue pelas entranhas de Londres.
Eventualmente, Hester consegue escapar, mas não sem antes explicar que deseja matar Valentine para vingar a morte da própria mãe. E, assim que Tom menciona isso para seu ídolo, ele próprio é chutado pelo alçapão de lixo e deixado para morrer no ermo.
O que provavelmente teria acontecido se Tom não despertasse a tempo de encontrar Hester e se juntar a ela em uma corrida para retornar a Londres antes que Valentine seja capaz de encontrar tecnologia antiga em quantidade suficiente para construir uma super arma capaz de aumentar exponencialmente o poderio londrino em sua luta por sobrevivência, já que Hester herdou de sua mãe a chave para impedir que tal arma seja ativada.
Para suceder em impedir os planos de Valentine, Hester e Tom contarão com a ajuda de Anna Fang (a bela Jihae Kim), uma terrorista que luta contra o Darwinismo Municipal (eu não tô inventando, eles usam esse termo no filme) e sua equipe de pilotos ases multi étnicos, mas também terão em seu encalço Shrike (Stephen Lang, praticamente irreconhecível sob toneladas de pixels), o ciborgue zumbi remanescente de um exército chamada de Brigada Lázaro que conhece Hester há anos tem a intenção de matá-la e transformar a guria em um ciborgue zumbi igual a ele.
Se essa premissa não deixou claro o tamanho da bagunça que esse filme é, permita-me afirmar acima de qualquer interpretação que Máquinas Mortais é uma baderna.
É impressionante o quanto essa mistura de Mad Max com romances para jovens adultos consegue ser frustrante em todos os aspectos cinematográficos, da narrativa às interpretações passando pela trilha sonora e (pasmem!) até os efeitos visuais.
O diretor Christian Rivers, diretor de arte de Peter Jackson desde Fome Animal faz seu debute em longas metragens e é difícil discernir quanto dos problemas de Máquinas Mortais é má execução por sua falta de inexperiência e quanto são péssimas ideias de Jackson, Walsh, Boyens e Reeve que confundem contar uma história com inserir elementos de maneira aleatória entre uma sequência de ação gravada diante de uma tela verde não-tão-convincente e a próxima, ou se a culpa deve ser igualmente dividida entre todos, seja como for, o resultado é um filme que não empolga e nem funciona.
Não posso nem dizer que tive sorte de não assistir a esse longa no cinema, pois, como afirmei lá em cima, ainda na primeira prévia já sabia que o filme não seria bom, mas rapaz, nem de longe eu podia imaginar que ele seria tão ruim.
Passe longe se for possível.

"-O que eles estão caçando?
-Nós."

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Rapidinhas do Capita


E após algumas semanas de idas e vindas a Marvel e a Sony surpreenderam absolutamente ninguém e oficializaram um acordo para manter o Homem-Aranha de Tom Holland fazendo parte do MCU e os filmes solo do cabeça de teia sendo produções da Sony chefiadas por Kevin Feige (que foi chamado para tentar manter a cabeça de Star Wars à tona, já que enquanto o MCU vai de vento em popa aquela galáxia bem, bem distante vem fazendo cada vez mais água).
Eu vou confessar que eu não estava particularmente preocupado com isso, primeiro porque todo mundo sabia que um novo acordo seria alcançado. A Sony não ia perder a chance de ter seus filmes solo catapultados pelo colosso que é o MCU e a Marvel não ia desperdiçar a chance de contar com o herói mais popular da editora em seus filmes de equipe por algumas centenas de milhões de dólares, quantia que a casa do Mickey joga pela janela produzindo filmes de Tim Burton, por exemplo.
E segundo porque os atuais filmes solo do Homem-Aranha não são exatamente um sonho de fã pra mim.
Eu já disse mais de uma vez que esse arco com Peter Parker sendo um discípulo de Tony Stark é muito mais proveitoso para o Homem de Ferro do que para o Homem-Aranha, que perde muito de sua essência ao ser o sidekick de outro personagem, algo que jamais aconteceu nos quadrinhos. Sem contar que retratar Peter Parker como um millenial típico também é um desserviço ao herói que não era uma adolescente típico dos anos 60 quando foi criado por Lee e Ditko, nem um adolescente típico dos anos 2000 quando foi reimaginado por Bendis e Bagley na série Ultimate, de modo que vejo pouco, pouquíssimo do personagem que amo nos quadrinhos nessa atual versão em celuloide.

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Se é verdade que eu sentiria falta do cabeça de teia nos filmes dos Vingadores, não é menos verdade que, no momento, os Vingadores acabaram. Os heróis com os quais eu me importava se aposentaram ou morreram e a história encabeçada por eles acabou.
A próxima fase da Marvel é basicamente um spin-off, e tudo bem.
Não é como se eu não fosse continuar assistindo esses filmes nos cinemas, eu apenas não estou emocionalmente investido com Doutor Estranho, Capitã Marvel, Homem Formiga e Pantera Negra como estava com Capitão América, Homem de Ferro, Viúva Negra e Thor, de modo que a continuação desse universo é muito menos importante pra mim do que já foi, salvo alguns poucos personagens entre os quais não está o Homem-Aranha de Tom Holland.

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Eu confesso que cheguei a ficar curioso imaginando que espécie de malabarismo a Sony faria para continuar sua série do Homem-Aranha sem usar o resto do Universo Marvel em um eventual terceiro filme. Fiquei me perguntando se teríamos um misto de reboot com continuação ao estilo Evil Dead/Uma Noite Alucinante 2 ou algum remendo descarado onde a história seria mantida e os eventos dos filmes anteriores simplesmente omitidos quando se conectassem ao MCU, ao menos bem mais curioso do que estou com longas solo do Sexteto Sinistro, de Morbius, Kraven, Madame Teia e Silk...


Quando É Bom Estar Errado...


A vida, já disse alguém, é feita de oportunidades.
E parece factível. Nossa trajetória provavelmente pode ser graduada pelos chances que nos foram dadas e que fizeram com que avançássemos em direção ao próximo estágio de nossa existência.
Claro... Há oportunidades que, uma vez desperdiçadas, estão perdidas de maneira perene.
Todos conhecemos as histórias das pessoas que deixaram de tomar uma atitude, fosse por receio ou incompetência, e viram o que mais tarde identificariam como um potencial evento divisor de águas em suas vidas escafeder-se na esteira do tempo tornando-se nada além de uma elusiva sombra do que poderia ter sido, projetada em uma parede para a qual evita-se olhar.
Todas as pessoas carregam arrependimentos. Poucos são os que pode dar-se ao luxo de citar Edith Piaf sem pensar "Tá... Quase" em um ponto ou outro da narrativa da própria existência. Porque entre todos os caminhos que a vida oferece, nós geralmente podemos optar por escolher apenas um, e nem mesmo os muito sábios conseguem ver os dois lados, já diria Gandalf, o Cinzento.
E quando o arrependimento de alguém advém de ter errado, mas feito a melhor escolha possível baseado nas informações às quais tinha acesso em determinado momento, suponho que seja mais fácil de conviver com os eventuais rescaldos de más decisões. Afinal, fez-se o melhor que pôde.
Mas quando se deixa de fazer por medo...
Esse é um arrependimento particularmente doloroso.
Ele é não apenas testemunho de mau julgamento, mas também de covardia. E passar o resto da vida sendo confrontado com a própria falta de coragem deve ser dessas coisas que matam o espírito de alguém.
E o tempo é um algoz nefasto na hora de espezinhar aqueles que perderam a chance de fazer a diferença por si próprios.
Não haverá dia em que a sombra do "E se...?" não vá fustigar o incauto que deixou o cavalo passar encilhando e não o montou.
Que deixou a chance de ser feliz escorrer por entre seus dedos e ser levada pela sarjeta até fora de seu alcance.
Que não disse a palavra que estava na ponta da língua, ou que não deu o passo adiante e tomou a atitude que deveria ter tomado.
Há oportunidades que não voltam.
Que se vão e deixam um vácuo que jamais poderá ser preenchido. Que se tornam uma lacuna que jamais será reparada.
Que serão, na melhor das hipóteses, uma penosa advertência para que outrem não deixem passar a chance. Um mau exemplo.
Há oportunidades que não voltam.
E para as quais olharemos sempre com uma ponta de melancolia enquanto pensamos no quão tolos éramos por desperdiçá-las.
Eu pensei, durante muito tempo, que tu era uma dessas oportunidades que não voltam.
A mais linda das decisões não tomadas, a mais perfeita das chances desperdiçadas.
Que bom, meu amor, que eu estava errado.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

O Trailer de Lançamento de The Last of Us 2

E paulatinamente a Naughty Dog e a Sony divulgaram o trailer de Lançamento de The Last of Us 2, mostrando as razões que jogam Ellie em uma violenta luta por vingança contra um grupo de sobreviventes numeroso, bem-armado e moralmente reprovável.
Confira a prévia:



Sequência de um dos melhores games da geração passada, The Last of Us 2 será lançado para Playstation 4 em 21 de fevereiro do ano que vem.

O Trailer de El Camino: Um Filme de Breaking Bad

A Netflix divulgou há pouco o trailer final de El Camino: A Breaking Bad Film, longa que dará sequência aos eventos de Breaking Bad seguindo Jesse Pinkman após ele ser libertado de seu cativeiro por Walter White.
Confira:



Dirigido por Vinge Gilligan o longa traz Aaron Paul de volta ao papel de Jesse, mais Charles Baker (Skinny Pete) e Matt Jones (Badger), e deve mostrar ao menos outros dez personagens de Breaking Bad. O longa tem estréia marcada para o dia 11 de outubro na plataforma de streaming.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Resenha Cinema: A Música da Minha Vida


Eu tinha dez anos de idade quando me apaixonei por quadrinhos.
Eu já lia gibis desde antes disso. Aos oito anos de idade, já devidamente alfabetizado (loas para as professoras Stella e Inelda) eu era capaz de ler gibis inteiros do Conan, Super-Homem, Spectreman e turma da Mônica, mas foi apenas aos dez anos que eu realmente me apaixonei pela nona arte em geral, e pelo Homem-Aranha em particular quando, em um frio mês de julho do ano de 1991, durante um ida ao super mercado Moby-Center com meu pai, ganhei A Teia do Aranha número 22.
A primeira história tinha o desfecho de um caso envolvendo o doutor Octopus e a tia May, mas as outras três histórias da edição, envolvendo o candidato a prefeito Richard Raleigh e um gigante chamado Golpeador... Aquelas foram as que de fato me cativaram, e me fizeram garimpar sebos embaixo do viaduto da Borges (havia dois) e tornaram A Teia do Aranha, nas edições que vinham com o "Arquivo Oficial da Teia" o meu quadrinho favorito em todos os tempos. Aos dez anos de idade, as histórias clássicas do Homem-Aranha escritas por Stan Lee, Gerry Conway e Roy Thomas e desenhadas por John Romita, Gil Kane e Ross Andru foram o veículo que me levou, pela primeira vez, a me tornar fã de alguma coisa. A primeira vez em que eu encontrei algo que eu senti que falava comigo.
A Música da Minha Vida, longa que estreou em circuito relativamente reduzido em Porto Alegre na última quinta-feira e que eu assisti no sábado de tarde, é carregado desse sentimento de pertencimento. De encontrar a coisa certa, aquilo que nos toca, que fala conosco em um nível além do discurso, na hora certa.
No longa conhecemos o jovem Javed (Viveik Kalra), adolescente de origem paquistanesa que vive na pequena cidade de Luton na Inglaterra, com os pais e duas irmãs.
O ano é 1987, e a família de Javed luta para sobreviver em meio à recessão do fim do período de Margaret Tatcher como primeira-ministra britânica. Seu pai, Malik (Kulvinder Ghir), comanda a família com autoritarismo de general, controlando os frutos do trabalho de Javed e de sua mãe, Goor (Meera Ganadra) assim como a vida social do rapaz e de suas duas irmãs, e até mesmo o futuro do primogênito, a quem deseja ver formado em contabilidade, administração ou qualquer carreira que vá lhe garantir empregabilidade no futuro e um bom casamento arranjado com uma desconhecida.
Javed, porém, tem outras aspirações.
Ele deseja frequentar festas, beijar uma guria, qualquer guria, se tornar um escritor, e se mudar para Manchester para cursar a universidade tão longe de Luton quanto possível. Ele se inscreveu em segredo no curso de literatura inglesa da professora Clay (a bela Hayley Atwell), escreve poemas e letras para as canções da banda de seu amigo Matt (Dean-Charles Chapman) enquanto tenta encontrar seu lugar na nova escola e no mundo em meio à ascensão do nacionalismo inglês alimentado pela crise econômica e o racismo sempre presente contra a comunidade paquistanesa na Grã-Bretanha.
Javed finalmente tem a sensação de não estar sozinho no mundo quando um colega de escola, o sikh Roops (Aaron Phagura), lhe apresenta a música de Bruce Springsteen na forma de duas fitas k-7 que o jovem escuta, apropriadamente, durante uma tempestade.
Ao som de Dancing in the Dark e The Promised Land, Javed anda pela vizinhança em meio ao temporal, vendo as palavras de Springsteen saltarem dos fones de ouvido de seu walkman e se materializarem ao seu redor, e perceber que seus medos e aflições podem ser estranhos à sua família tradicional ou ao seu melhor amigo com uma vida perfeita, mas que do outro lado da Atlântico, um roqueiro de Nova Jersey sabe exatamente como ele está se sentindo.
E Javed gosta da sensação.
Ele passa a ouvir todas as músicas de Springsteen, colecionar pôsteres que cobrem as paredes de seu quarto, escrever redações a respeito de seu novo ídolo e até a se vestir com os jeans, camisas xadrez e lenços de Born in the U.S.A.
Não é apenas o gosto musical e o guarda-roupa de Javed que mudam, porém.
O adolescente se torna mais confiante, apresenta seus poemas à senhora Clay, enfrenta os racistas que o destratam por sua origem asiática, não aceita que a rádio da escola toque Prince, Flock of Seagulls e Madonna e se recuse a tocar O Chefe, entra em atrito com seu antigo melhor amigo, começa um namoro com a colega engajada Eliza (Nell Williams), e desafia a autoridade de seu pai em casa.
Embalado pelas canções recém descobertas, Javed encontra a força para parar de sonhar em silêncio e encontrar sua própria voz, e enquanto colhe os frutos de sua rebeldia turbinada pelo rock proletário de Springsteen, o jovem tenta descobrir como conciliar suas próprias aspirações e os anseios de sua família enquanto sai da adolescência rumo à vida adulta.
A Música da Minha Vida é ótimo.
O longa nem sempre encontra o melhor dos equilíbrios entre suas múltiplas facetas. Nem todas as risadas são grandes risadas, nem todos os sorrisos almejados são tirados da audiência e alguns números musicais, daqueles onde os atores irrompem em coreografias e todos em cena entoam juntos as letras de Springsteen são meio bregas, mas ao mesmo tempo são abraçadas com tanta candura pela cineasta Gurinder Chadha que é impossível não bater o pé ou balançar a cabeça ao ritmo das canções.
Mas o roteiro, da própria Chadha, mais Paul Mayeda-Berges e Sarfraz Manzoor (adaptando seu próprio livro biográfico Greetings from Bury Park) não fica apenas nisso, e é particularmente esperto ao explorar as tensões entre as diferentes gerações de famílias imigrantes, com os mais velhos tentando manter sua cultura e tradição vivos à qualquer preço e os mais jovens buscando desesperadamente se encaixar em uma sociedade que nem sempre aceita os diferentes, adicionando uma boa dose de drama e contexto cultural ao filme, e essas qualidades ainda não são tudo o que A Música da Minha Vida tem a oferecer, pois sob todas as suas camadas, o longa ainda encontra tempo para ser um tocante drama a respeito da tumultuada relação entre Javed e seu pai, um homem antiquado e orgulhoso que se vê humilhado quando a vida que tentava oferecer à sua família lhe é tirada com seu sustento, e que não consegue aceitar a desobediência do filho.
Conduzido com candura pela sua diretora, o longa tem um elenco inspirado trabalhando à perfeição. Viveik Kalra é um achado, Aaron Phagura parece ligado em 220, Nell Williams é um doce, e Hayley Atwell é acolhedora sem ser condescendente, ainda assim, a atuação capaz de arrancar lágrimas (e sim, me arrancou algumas) é a de Kulvinder Ghir, que transita por todos os espectros, do cômico ao dramático sempre com a mesma competência.
A Música da Minha Vida é um desavergonhadamente emocionante feel good movie sobre amadurecimento embalado por uma tremenda de uma trilha sonora. Está longe, muito longe de ser perfeito, mas é caloroso, acolhedor, esperto sem ser pretensioso e realmente tocante.
Pra quem já se viu sob o efeito de descobrir algo que ama e não conseguir pensar em outra coisa, certamente vale a ida ao cinema.

"-Você acha que esse homem canta para pessoas como nós?
-Ele fala comigo!"