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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Papel confortável


Eriberto entrou ligeiro no mini mercado, andou entre os corredores apanhando coisas das prateleiras rápida e mecanicamente.
Pegou um pacote de pão, uma embalagem de presunto, uma de queijo, um vidro de maionese, uma Coca-Cola dois litros e foi pro balcão.
Cara de poucos amigos.
Brigara com a namorada, Joyce, antes de sair de casa. Esquecera de ir ao mercado, ela ligara lembrando-o cerca de meia hora antes de ele sair do trabalho, e mandara uma mensagem de texto no momento em que ele batia o cartão no relógio-ponto, saindo da empresa. Ainda assim ele esquecera.
Ele era assim, esquecia das coisas. Perdia-se em pensamentos e deixava passarem algumas obrigações menores, especialmente aquelas que não faziam parte de sua rotina diária.
Desde pequeno era assim. Se sua mãe, antes de ele ir à escola, lhe dizia que ele deveria encontrar ao seu pai e á ela no restaurante onde almoçariam, e não em casa, ainda assim, ele acabava indo em casa, primeiro.
Se tinha que levar algo de diferente à escola para um trabalho, esquecia os itens pedidos.
Se tinha que encontrar a avó que chegava de Caçapava na rodoviária, esquecia da pobre velha por horas até ser alertado do compromisso.
Era distraído, as pessoas se acostumavam. Ao que as pessoas não conseguiam se acostumar era à dificuldade de Eriberto em admitir que estava errado.
Ao invés de dizer que esquecera, pedir desculpas, e prometer melhorar, e de fato, tentar melhorar, Eriberto dava desculpas. Inventava mentiras das mais diversas e elaboradas tentando esquivar-se da responsabilidade por suas ações e arrolando-se no papel de vítima.
Ao chegar atrasado e esbaforido ao encontro dos pais no restaurante, inventava que fora acossado por um larápio.
Quando a professora cobrava o material para o trabalho diferenciado, Eriberto dizia que seu cachorro comera o papel celofane e o giz de cera, e que havia passado a noite em claro com os pais na clínica veterinária.
Ao encontrar a avó quarando no sol das quatro da tarde em frente á rodoviária dizia que se atrasara por culpa de um policial corrupto que o ameaçara após ser flagrado por Eriberto surrando um indigente.
Tinha imaginação fértil, o Eriberto.
Claro, na maior parte das vezes suas desculpas não funcionavam, em outras tantas, porém, a inventividade e a riqueza de detalhes da lorota acabavam valendo-lhe vantagens, de modo que Eriberto, sendo humano, via a vantagem adquirida e se agarrava á ela, mentindo e fazendo-se de vítima sempre que a situação apertava.
Não que ele fosse um vil gênio da mentira.
Raramente prejudicava alguém que não ele mesmo, e, quando causava prejuízo á outrem, era mínimo.
Eriberto cresceu daquela forma, distraído e cobrindo os rastros da própria distração com mentiras, então, pra ele, tornou-se quase natural ver-se como vítima de uma situação fora de seu controle, até por que, era extremamente confortável.
Ao conhecê-lo, Joyce, que se tornaria sua namorada, logo notou como funcionava aquela faceta de Eriberto, e, á despeito de achar ridículo um homem feito mentir á respeito de bobagens, Eriberto tinha predicados que, na maior parte do tempo, compensavam essa pequena falha de caráter.
Vez por outra, claro, Joyce explodia em fúria com as pataquadas dele, e isso resultava em discussões acaloradas em que ela gritava que não podia sustentar uma relação com um homem-criança incapaz de assumir responsabilidade pelas suas ações, ao que ele replicava clamando ser um incompreendido, ou algo do tipo.
Fora o que acontecera horas antes.
Eriberto chegara em casa, começara á despir as roupas de trabalho para tomar banho, quando Joyce aproximou-se sorrateira como uma grande felina e perguntou-lhe onde estavam as compras:
-Cadê as coisas que eu pedi, Eriberto?
-Hân?
-As compras. A massa, os tomates, a carne moída... As coisas pra eu fazer o espaghetti à Bolonhesa? Cadê?
-Tu não vai acreditar.
-...Acho que não.
-Não, não, olha, eu fui ao mercado, comprei tudo, menos os tomates, tavam feios, comprei um vidro de molho pronto, é quase a mesma coisa-
Esse era uma característica recorrente nas lorotas de Eriberto, ele acrescentava detalhes casuais para dar veracidade ao conto, e depois, agarrava-se a eles até a morte.
-Comprei tudo, mas o sistema daquela porcaria de mercado estava fora do ar, e eu tive que deixar tudo lá, pois não tinha levado dinheiro.
-Ah, é mesmo? -Perguntou Joyce, sem expressão no rosto.
-Sim. -Respondeu Eriberto, casual, tirando as calças. -Mas olha, a gente pode sair pra comer fora, que tal?
-Eriberto, não me conta...
-O quê? É verdade, tô falando.
-Eriberto, são seis e quinze. Tu sai do trabalho ás seis. Não tem como tu sair do trabalho, passar no mercado, precisar deixar tudo no caixa por causa do sistema e estar aqui em quinze minutos.
-Eu sou um mentiroso, agora?
-Agora? Não. Tu é um mentiroso desde que a gente se conheceu, e eu sou uma trouxa de acreditar que tu podia amadurecer.
-Ah, é? Se tu é trouxa o que sobra pra mim? Que invisto em uma relação onde eu sempre sou culpado de tudo?
-Tu não é sempre culpado de tudo, tu é culpado de não assumir responsabilidade por nada, é culpado por inventar essas desculpas esdrúxulas pra tudo, e de se fazer de vítima!
Eriberto pensou em contra-argumentar, mas o papel de vítima pareceu-lhe uma boa cartada naquele momento. Vestiu-se em silêncio sob o olhar acusador de Joyce, e disse enquanto calçava os sapatos:
-Eu vou ali no mercadinho pegar algo pra gente comer, se o sistema não estiver fora do ar, ainda.
E saiu, com ar trágico de quem fora injustamente acusado de um crime hediondo.
E aí chegamos ao começo. Eriberto apanhou os ingredientes de um sanduíche, e, ao chegar ao caixa, deparou-se com um homem pouco mais jovem que ele próprio, de arma em punho, ameaçando o balconista. O jovem encarou-o com uma expressão horrorizada, estava tão nervoso quanto Eriberto e o balconista.
-Me dá a carteira, velho!- Sentenciou o bandido.
Foi um ato reflexo, Eriberto largou tudo no chão para alcançar a carteira, as compras caíram no chão fazendo um grande ruído quando o vidro de maionese estourou, a garrafa de refrigerante, porém, quase não fez barulho ao cair precisamente em cima do dedão do pé do assaltante, que, sem nenhuma intenção, apertou o gatilho da arma, que estava apontada pra cabeça de Eriberto.
A última coisa que passou pela cabeça de Eriberto, antes da bala calibre .38, foi que ele adoraria ver a cara de culpada de Joyce ao receber a notícia da Brigada.
Não adiantava, ele gostava mesmo de ser vítima.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Lembra?


Lembra quando a gente era piá?
As tardes á toa, em pleno inverno, todo mundo abraçado nos joelhos falando bobagem na escada do prédio, se escondendo da chuva?
Lembra daquela época em que a única obrigação era ir à escola, e o resto do dia era uma festa?
Lembra de ir pra escola com a mochila cheia de gibi pra emprestar pro colega que também te emprestava os gibis dele?
Lembra de como eles nem sempre voltavam, ou levavam uma vida pra voltar, mas tu não tava nem aí, pois teu tesão era pelo usufruto e não pela posse?
Lembra de quando era um evento pra gurizada quando alguém da rua tinha comprado uma bola nova? Da tensão pra estrear a tal bola nova no Marinha?
Lembra daquela época em que bom, mas bom mesmo, era passe de calcanhar que dava certo? E a gente tentava dar passe de calcanhar. Á ponto de o resto do time gritar que, se de frente o sujeito já não sabia fazer um passe, imagina de costas?
Mas daí, em um momento, o tal do passe de calcanhar dava certo, bola no pé do atacante, e ele guardava, e vinha na tua direção e vocês se cumprimentavam, e tudo estava bem, e tu, todo pimpão pelo passe genial, começava a jogar cheio de vontade, disputando todas as divididas como se fosse a última...
Lembra de ir ao cinema "de galera"? Oito guris bebendo Fanta laranja morna no gargalo da garrafa de dois litros? Lembra que ninguém ficou gripado naquele ano? Anti-corpos, de certo.
Lembra de quando a segunda melhor hora do dia era 10:15 da manhã, que era hora do recreio? E aí a gente saía correndo pro bar pra pegar um guaraná, e ficava conversando sobre o filme da noite anterior, ou sobre como a prova de antes do recreio tinha sido chata, ou chutando latinha pelo pátio?
Nessa época a melhor hora do dia era 12:15, que era hora da saída. E a gente corria feito uma manada de animais selvagens ao soar da campainha em direção à rua, e não raro, o mais veloz, que tinha chegado primeiro no portão, era abalrroado pelos demais, e gritava quando o impacto da multidão à suas costas batia sua cabeça no cadeado, e todo mundo ficava ali, espremido, esperando que o porteiro, afinal, nos oferecesse a "carta de alforria" que almejávamos desde as oito da manhã.
Lembra de tirar as calças no meio da aula de inglês, que era o último período antes da educação física, por que tu não queria perder precioso minutos de futebol trocando de roupa no banheiro e ia se adiantando, pra escândalo da professora?
Quando o dia mais glorioso da semana era a quinta? Pois a quinta era véspera de sexta, e sexta, depois do recreio já era final de semana.
Lembra de quando tu percebeu que a Danielle ficava te olhando jogar bola e cochichava com as amigas quando tu olhava, e aquela perspectiva era, ao mesmo tempo, excitante e apavorante, por que tu queria muito fazer tudo com ela, mas não tinha lá muita certeza de o que era "tudo"?
Lembra do primeiro beijo? Em um canto obscuro da escada, escorado na parede com ela dois degraus acima pra equiparar a altura, chupando um Halls de cereja que ficou na tua boca depois do beijo, e de ti, um tremendo mané, super orgulhoso da própria presença de espírito quando disse que precisava devolver a bala dela, pedindo outro beijo?
Lembra quando tu tinha que escolher entre ir dar uns amassos com a Dani atrás do museu ou sair correndo logo pra casa, pra almoçar antes de ir pro parque jogar futebol ás quatro, no máximo?
Lembra como alguns de nós tinham pressa em crescer?
Lembra que tu percebeu que, talvez, estivesse crescendo quando dar uns malhos começou a ficar mais divertido do que jogar bola?
Lembra do primeiro coração partido?
Da primeira briga?
Lembra do primeiro porre, que nem foi teu, mas de um amigo teu, e todo mundo achou que ele fosse morrer ou entrar em coma?
Lembra como, na época, tudo parecia acontecer tão rápido, e hoje tu vê que aqueles anos levaram, de fato, anos pra passar, e hoje em dia, sim, tudo é rápido demais e tu não consegue tempo pra fazer tudo o que tu gosta, e tu fica indignado com a molecada de hoje, que desperdiça tudo de bom que a infância e o início da adolescência têm, pulando essa fase e agindo como adultos em miniatura?
Pois é... Por isso eu ainda seguro com firmeza a mão daquele guri bobo e meio sem noção de anos atrás.
Por que hoje nós temos milhares de reponsabilidades, e a maioria de nós, em algum momento, se sente um pouco escravo delas, e percebe que isso é normal, afinal, de contas.
Bom, quando isso me acontece, eu vou ao cinema e bebo Fanta, ou leio um gibi, ou cutuco a bola de calcanhar no futebol de sexta-feira, é uma maneira de manter aquele piá por perto, aproveitar o gostinho daquela época e lembrar que o caminho até aqui foi deveras saboroso, e que eu não mudaria uma vírgula do que fiz.

Agradável.


-Tapa na cara.- Ele disse casualmente, antes de levar o copo à boca.
-Ah, tá. - Ela riu, algo incrédula.
Ele colocou o copo de volta na mesa e não disse nada. Era bonito, alto, cabelo preto, olhos castanhos algo marotos. Sorriu pra ela enquanto passava o garfo no prato onde só haviam vestígios do que fora uma massa ao funghi.
Ela, também bonita, cabelo castanho, curto, rosto bonito, nariz pequenininho, olhos pretos como os da Mary Louise Parker, ficou meio tensa, ergueu a taça para beber um gole do vinho, mas desistiu. Não podia resistir, a curiosidade era mais forte, além disso, aquela era uma questão que não podia ser ignorada:
-Sério, isso?
-O quê?- Ele perguntou, casual, ainda sorrindo.
-Essa coisa que tu falou, aí. Do tapa na cara.
Ela terminou de falar e só então percebeu o garçom parado ao seu lado, com uma expressão de contida malícia.
-Posso recolher os pratos?
-Claro, claro.- Ambos assentiram.
O garçom se retirou com a bandeja e ele falou:
-Tu me disse que gosta de viajar, não foi? Pra onde tu foi na tua última viagem?
-Montevidéu.
-Ah, lindo lá, né?
-Demais.
-Faz tempo que eu fui, mas me lembro que-
-Olha, desculpa, mas eu tenho que perguntar... Era sério?
-O quê?
-O lance do tapa na cara.
-Olha...
-Não, não, olha tu. Tu é bonito, simpático, parece inteligente, eu ainda não tenho certeza por que é só a segunda vez que a gente sai, eu gostei de ti, acho que tu gostou de mim, e... Olha, eu sou uma pessoa direta. Tava achando que a gente tinha algum futuro, não quero me casar contigo, não quero ser a mãe dos teus filhos, pelo menos não já, sem te conhecer direito, mas achei que a gente poderia namorar, sim, quem sabe, daqui a algum tempo, ter a chave do apartamento um do outro, viajar junto, coisa do tipo, mas eu preciso saber: O lance do tapa na cara, é sério?
-É. -Ele admitiu deixando os ombros caírem. -Tapa na cara me excita uma barbaridade. Sempre gostei. Não sei por quê. Nunca apanhei na cara dos meus pais, já levei soco na cara quando era moleque, em briga. Tapa na cara nunca. Uma vez, com uma namorada da adolescência, ela acidentalmente me deu um tapa leve quando estava se virando na cama, e eu gostei. Muito. Fiquei muito excitado. Foi o melhor sexo da minha vida. Aquele namoro terminou, mas a vontade de levar tapa na cara continuou. Eu vou entender se tu for embora agora. Muita gente já fez isso. Eu sou adulto, e posso entender se tu não te sentir á vontade com isso, então... Fique á vontade.
Ele limpou a boca com o guardanapo, e, em silêncio, levantou-se apanhando a bolsa. Fez menção de dizer algo, mas ele a conteve com um gesto. Ela entendeu e se dirigiu à saída.
Ele esperou ela sair, e bebeu, de um só gole, o vinho que ainda tinha na taça, secou a boca com força, amaldiçoando a própria perversão, e ergueu a cabeça procurando pelo carçom para pedir a conta, mas deparou-se com ela. Parada á sua frente, sua forma esguia e longuilínea preenchendo bem o vestido preto. Ela mordia levemente o lábio inferior, e tinha um dos olhos fechados quando perguntou:
-Tu gosta de apanhar ou de bater?
-Apanhar. Só apanhar - Ele respondeu prontamente.
-Então vamos pedir a sobremesa. -Ela sentenciou sentando-se novamente.
A verdade é que ela não se sentiu muito á vontade com a coisa do tapa na cara, mas já suportara chulé, roncos, namorados ausentes, grosseiros e até um viciado em drogas, podia fazer um esforço e esbofetear esse de vez em quando. Olhando em perspectiva, parecia até agradável.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Dádiva


Antônio amava Raíssa. Não desde que se conheceram, não. Antônio não era do tipo que se apaixona a primeira vista, muito antes pelo contrário. Atração a primeira vista?
Sim, sem sombra de dúvida. Desde o primeiro olhar.
Tudo em Raíssa atraiu Antônio. Tudo acima do pescoço. O cabelo, os olhos, o nariz, a boca.
Tudo abaixo do pescoço, também. De uma maneira menos romântica, há que se admitir, mas atraiu em igual intensidade.
Não que Antônio fosse fazer algo á respeito. Tinha namorada, era fiel. Mesmo que não tivesse namorada, dificilmente Antônio tomaria alguma atitude. Não ele, não sendo pouco hábil em relações interpressoais como ele era.
Conversaram, ele e Raíssa, não foi a melhor das conversas. Ele agiu contra seus próprios instintos, foi expansivo, amigável em excesso.
Ela não gostou. Como poderia?
Em qualquer outra situação, Antônio não teria mais falado com a moça em questão exceto para dar bom dia, mas Raíssa... Algo em Raíssa desligava seus mecanismos de defesa.
Não totalmente, claro, mas Antônio, no tocante à interações sociais, estava em permanente estado de alerta DEF-CON 1, com Raíssa, baixava para uma saudável DEF-CON 3, em se tratando de Antônio e sua timidez convertida em transtorno de convívio social, um avanço oceânico.
Antônio não se afastou, ele a Raíssa acabaram, eventualmente, se tornando amigos.
Talvez, em algum momento, as conversas deles tenham beirado o flerte, ás vezes, quiçá, mais do que apenas beirado, talvez fosse assim, talvez fossem apenas as esperanças de Antônio, ele não sabia.
Seu namoro terminara, ele e Raíssa passavam mais e mais tempo juntos, conversavam muito, se divertiam e riam o tempo todo, ele se sentia bem com ela, queria tocá-la, queria beijá-la, mas como saber se ela se sentia do mesmo modo? E se ela se sentia da mesma forma, como saber se ainda se dariam tão bem se as coisas mudassem?
Como saber se, uma vez que ela descobrisse que ele não era divertido, inteligente ou charmoso ela continuaria gostando dele, como saber se ele perderia, não só uma mulher que amava, mas também uma amiga que amava?
Antônio amava Raíssa.
Em silêncio.
Estava por perto, mas nem sempre, tinha ela próxima o suficiente pra saber que seu perfume continuava delicioso, que seus cabelos continuavam esvoaçando acima da nuca e por trás da orelha quando ela os prendia, que sua pele alva permanecia com textura de veludo e que seus olhos eram encantadores sempre, mas prodigiosamente ficavam ainda mais encantadores em dias de sol brilhante e frio intenso.
Por vezes parecia uma tortura, abraçá-la, tê-la nos braços, sentir sua pele nos lábios ao dizer oi e tchau...
Por vezes parecia uma tortura, mas a maior parte do tempo, era uma dádiva.

Fronteiras


É sempre complexo ser confrontado com uma fronteira. Não se engane, não me refiro aqui, a limites geográficos territoriais. Me refiro a fronteiras algo diferentes, e que não são impossíveis de superar, mas uma vez cruzadas, não há retorno.
Todo o dia, á cada minuto, alguém esbarra com uma dessas fronteiras, e a vida dessa pessoa, depois de tal encontro, muda para sempre.
Foi o que aconteceu com o Laerte.
O Laerte tinha seus vinte e oito anos, ou, seja, estava longe de ser um sujeito velho. O Laerte tinha vinte e oito anos, frequentava a universidade, trabalhava, realizava atividades com seus amigos, jogava futebol, jogava cartas, ia ao cinema com pessoas de quem gostava muito, era um sujeito bastante tímido, mas nada que chegasse a atrapalhar a sua vida, embora já tivesse lhe custado algumas oportunidades de namoro vez por outra. Era, enfim, algo com o que Laerte podia conviver.
Laerte tinhna namorado apenas três vezes na vida, foram namoros sérios, que haviam durado bastante tempo (na própria opinião, pelo menos.), e com os quais Laerte aprendera muito sobre relacionamentos, especialmente que, ás vezes, é melhor ficar sem relacionamento algum.
Era o que Laerte vinha fazendo nos últimos anos, mantendo-se abstêmio de namoros, claro, havia tido relacionamentos fugazes, casuais, pois não era, afinal de contas, feito de ferro. Porém, ele estava solteiro, e assim se mantinha, pois isso dava-lhe tempo para tratar de coisas que, naquele momento, requeriam atenção da qual ele não poderia dispôr. O tempo passava e Laerte permanecia tranquilo, achava que, com vinte e oito anos, tinha tempo para se ocupar de relacionamentos mais tarde, afinal de contas, era jovem o bastante para dispôr de mais alguns anos de trabalho e estudo e adquirir alguma estabilidade antes de procurar alguém com quem dividir o tempo de forma mais definitiva.
Funcionava para Laerte. Até que, em um dia como qualquer outro, aconteceu.
Era um sábado frio e julho, e Laerte saiu do trabalho sob forte chuva. Foi até a locadora devolver o filme que havia pego na noite anterior e, quem sabe, apanhar mais um ou dois, afinal, o final de semana aquático não prometia lá muito mais do que tempo para assistir filmes que haviam lhe escapado no cinema.
Laerte apanhou mais um par de filmes e, ao chegar no balcão, deparou-se com uma atendente nova. No boton que ela portava na camiseta lia-se: Jéssica, e, logo abaixo, em treinamento".
Ela era morena, bonita, e tinha um audacioso piercing no nariz.
Laerte não queria casar com ela, não queria namorar com ela, não queria nem sequer dar-lhe uns beijos no cantinho da locadora, mas pensou em flertar um pouco, afinal, era divertido e exercitava sua habilidade de interação social.
Ela perguntou o número da ficha, e o nome do titular, ele passou os dados, sorrindo.
Ela tirou a nota, estendeu para que ele assinasse, empacotou os filmes e disse:
-Fica pra segunda-feira, do meio-dia ás vinte e duas horas, óquei?
Ele, com um sorriso amigável, assentiu dizendo:
-Jóinha.
Apanhou a sacola e acenou dizendo "tchau, Jéssica.", e ela respondeu dizendo "Bom dia, tio.".
Ele virou rápido, algo chocado, não pôde evitar:
-Quê?
-Bom dia, senhor.
-Ah.
Era tarde. Talvez tivesse sido por culpa do "jóinha", talvez fosse a barba por fazer, ou os óculos, ou até as olheiras por conta das noites em claro no decorrer da semana, mas a questão é que aquele "tio", agora, estava preso em Laerte, fazendo-o se sentir velho, cansado, preparado para dizer coisas como "no meu tempo", e "Quando eu era guri", mas, pior de tudo, fez Laerte se deseperar por ser um sujeito sozinho.
Laerte cruzara uma fronteira sem volta. Ele havia ficado para titio.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Resenha Blue-Ray: Os Homens Que Encaravam Cabras


Não é de hoje que eu estava doido pra ver Os Homens Que Encaravam Cabras.
Desde que começaram a surgir as notícias do filme, que seria estrelado por George Clooney e Ewan McGregor, e que seria dirigido por Grant Heslov, que escrevera o excelente Boa Noite e Boa Sorte para Clooney dirigir que eu fiquei curioso.
O trailer do filme, e a escalação do resto do elenco, com Kevin Spacey e Jeff Bridges também prometiam muito, então era só esperar o longa sair por aqui e se fartar assistind um filme inteligente e engraçado com um elenco estelar, certo?
Bueno... Mais ou menos.
O longa conta a história de Bob Wilton (McGregor, engraçado.), jornalista de uma pequena cidade nos EUA que, após ser abandonado pela mulher resolve viajar para o Iraque, para cobrir a guerra e provar que não é um covarde.
Retido no Kuwait até obter o passe para ingressar no país vizinho, ele conhece Lyn Cassady (George Clooney, hilário.), militar que afirma estar em missão e ser membro de uma divisão secreta das Forças Armadas norte-americanas, um regimento formado por super soldados dotados de incríveis poderes mentais.
Embrenhando-se no deserto ao lado de Cassady, Wilton conhece a história do regimento hippie idealizado pelo coronel Bill Django (Jeff Bridges, sub-aproveitado), que após uma passagem traumática no Vietnã passou a estudar formas de vencer conflitos usando o amor, e não a violência.
Da utopia de Django surge o Exército da Nova Terra, o pelotão de Jedi que podem atravessar paredes, viajar com o poder da mente, dissipar nuvens e até mesmo matar cabras usando apenas o olhar.
O Exército da Nova Terra, porém, acabou sendo extinto nos anos oitenta por conta da ação de um oficial invejoso (Kevin Spacey, com bons momentos, mas também, sub-aproveitado.).
O filme vai, então, intercalando flashbacks do treinamento dos militares nos anos oitenta com a desventura de Wilton e Cassady no Iraque de 2003, em uma missão que pode definir o legado do sonho de Django.
Tinha tudo pra dar certo, uma história absurda alimentada por fatos reais, um elenco de feras com jeito pra comédia e engajamento pra crítica política, o resultado, porém, fica apenas á meia-boca, sem nunca decolar de vez.
Talvez seja por que o engajamento do diretor e do roteirista Peter Straughan supere a sua vontade de apenas contar uma história, talvez por que personagens ótimos como o coronel Django de Bridges ou o tenente Hooper de Spacey apareçam menos do que mereciam, por vezes o filme não encontra o tom.
Há sequências hilariantes e que, ao mesmo tempo, satirizam com maestria o belicismo messiânico dos EUA, outras tantas, no entanto, ficam no vácuo, soando panfletárias e sem lá grande relevância.
Os Homens Que Encaravam Cabras jamais se torna um filme ruim, porém, flertando com Kubrick e os Coen, ele não consegue ser nem um exemplar da filmografia dos cineastas em questão, nem mostra a identidade de Heslov.
Uma pena.

"-Não coma os ovos. Nós colocamos LSD nos ovos.
-E na água. Eu coloquei LSD na cisterna de água.
-Quê? Mas nós bebemos a água!
-Bebemos."

Resenha DVD: Coração Louco


Quando era fedelho, lembro de, sábado á noite poder ficar acordado até mais tarde, e assistir à Sessão de Gala depois do Supercine, o que me dava a oportunidade de ver diversos bons filmes, filmes de adulto, como Querem me Enlouquecer, O Violinista no Telhado, Susie e os Baker Boys, o que me levou a ter uma relação bastante próxima com alguns atores que, hoje em dia, andam meio sumidões mas que eram astros nos anos setenta e oitenta, como Richard Dreyfuss, Kurt Russel, e Jeff Bridges.
Sou fã de Jeff Bridges, sempre fui. Me lembro de, molequinho, assistir Starman e achar aquele filme muito legal, Tron, também, eram dois filmes recorrentes na minha infância, e lá estava o Bridges estrelando os dois.
Foi mais velho, porém, quando me tornei um cinéfilo "invertebrado", e um assíduo frequentador de cinema, que pude, de fato, medir todo o talento do ator.
Fosse em Homem de Ferro, K-Pax, ou Provocação, Bridges sempre entrega uma boa atuação, e eu me perguntava como um ator maduro como ele ainda não tinha recebido aquele papel, sabe? O papel, aquele que deixa um intérprete mostrar tudo o que pode fazer. O seu Daniel Plainview, o seu Oscar Schmidt, seu Wladyslaw Szpilman, claro, ele teve "The Dude" Lebowski, mas comédias, mesmo as mais excelentes, raramente rendem honrarias á atores...
Enfim, nesse final de semana e catei na locadora Coração Louco, filme que deu ao ator seu primeiro Oscar, e que eu não pude ver nos cinemas, e descobri que o grande personagem de Bridges finalmente foi oferecido ao cara.
Bad Blake (Jeff Bridges, excelente) é um ex-astro da música country. Ele brilhou em um passado não tão recente, e, nos dias de hoje, viaja pelo sul dos Estados Unidos fazendo apresentações únicas em pequenos bares de beira de estrada e boliches decadentes, locais frequentados por pessoas de sua faixa-etária, e que ainda reconhecem em Bad o astro de outrora.
O cantor segue itinerando por pequenas cidades onde encontra companhia para passar a noite nos quartos de motel barato onde se hospeda, conhecendo em cima da hora a banda local que o acompanhará naquela apresentação, apenas, e buscando, de alguma forma, sobreviver ao ostracismo que se avizinha.
Aos cinquenta e sete anos de idade, sem dinheiro, sendo relegado pelas gravadoras que não querem mais financiar seus discos solo, Bad luta para se manter à tona do esquecimento, afogando as mágoas em litros e mais litros de uísque, e, eventualmente, dando uma entrevista, como a que cede à Jean (Maggie Gyllenhaal, encantadora.), repórter de um pequeno jornal de Santa Fé, no Novo México.
Bad se encanta com a doçura de Jean, ela cede ao charme caipira do velho músico, e, á despeito dos riscos de se envolver com um sujeito mais velho, alcoólatra e que já foi casado cinco vezes, a mãe solteira e o cantor engatam um relacionamento.
Ao mesmo tempo, a carreira de Bad pode ganhar um impulso graças á uma apresentação para doze mil pessoas em Phoenix, o único senão é que Bad terá de abrir um show para seu ex-pupilo, Tommy Sweet (Colin Farrell, muito bem.), que, depois de anos tocando na banda de Blake, seguiu carreira solo e se tornou o astro country do momento.
Bad, acaba aceitando o convite, e o encontro com Tommy pode mudar o rumo de sua carreira e de sua vida, isso se o cantor não pôr tudo á perder com seus vícios.
No final das contas Coração Louco é um filme interessante, se não fosse por Bridges, talvez não passasse de um filme mediano, entretanto, o ator mostra com maestria a melancolia de um astro decadente que vê o crepúsculo de sua carreira e até de sua vida cada vez mais perto, e se flagra diante de um encruzilhada onde a alternativa à mudança é o fim. As canções de T-Bone Barnett, entoadas pelo próprio Bridges, dão mais peso ao filme, e o elenco afinado que conta, ainda com Robert Duvall, ajuda Bridges a brilhar e abrilhantar um filme que, com outro ator no papel principal, talvez se tornasse esquecível.

"Filho, eu toquei doente, bêbado, divorciado e foragido. Bad Blake jamais perdeu um maldito show em toda a sua porra de vida."