Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Gata Negra
Foram os olhos verdes mediterrâneo...
O cabelo castanho escorrido até o meio das costas...
A forma esguia que lhe permitia fazer cosplay da Gata Negra...
O nome sonoro. Algo brega. Quase suburbano da estudante de farmácia que adorava o São Paulo Futebol Clube e o Homem-Aranha nas horas vagas.
Meyre Kellen...
Sério. Quem imaginaria que uma moça cujo nome aludia à Grace Kelly num registro algo desastrado de seu pai, pudesse ser tanta coisa além de uma bela estampa? E ela era...
Ela era alta, bonita, charmosa e segura o suficiente pra mandar uma foto com camiseta dos Thundercats, calcinha branca e nada mais pelo MSN.
Ela era segura o suficiente pra dizer "Tô indo ver a final da Libertadores contra o Atlético PR aí na sua cidade e você devia me levar pra conhecer algum lugar legal e só seu enquanto eu estiver aí.".
Era segura o suficiente pra dizer que precisava dele ali, pertinho dela, na hora em que ela quisesse, e não na hora em que ele pudesse, e que por isso, e por isso apenas, as coisas não dariam certo entre os dois.
Era muito bonita.
Tinha um sotaque algo tenebroso das pessoas que nascem em Foz do Iguaçu. Falava "ermão" e "acadimia" o que ele achou assustadoramente medonho quando leu, mas percebeu que era charmoso quando a ouviu pronunciando. Gostava do fato de ele se corresponder com ela no MSN usando as grafias, acentuações e pontuações corretas... O chamava de "professor".
Pediu-lhe que largasse tudo e fosse viver pertinho dela.
Disse que o ajudaria a achar trabalho e que não o deixaria se sentir sozinho e perdido. Ele acreditou nela...
Quis acreditar.
Quis acreditar pois ela era linda, tinha um metro e setenta e um centímetros de beleza clássica e era divertida, inteligente e entendia de futebol.
Porque ela disse que em pouco tempo ele estaria celebrando uma Libertadores de seu time em seu estádio, e no ano seguinte ele viu Fernandão, Tinga e Rafael Sóbis erguerem a América no Beira Rio lotado.
Porque ela leu o que ele tinha a dizer, e olhou pra ele pela web-cam, de camiseta velha, calção, óculos e coração irremediavelmente partido, e não viu apenas um nerd solitário tentando agradar e se curar da maior rejeição da sua vida.
Viu uma pessoa a quem ela queria por perto.
Que o queria tanto que não soube se portar com a distância.
Que foi adulta o suficiente pra dizer que se não pudesse ser do jeito dela, então que fossem só amigos, pois relacionamentos à distância eram a receita da tragédia.
E foi madura o bastante pra dizer que entendia quando ele, após tudo o que partilharam, disse que não queria ser amigo dela.
E se ele tivesse tentando?
Se tivesse ido?
Se tivesse tomado coragem, respirado fundo e dado um salto de fé?
Como as coisas teriam sido?
Ele teria sido mais feliz, ou menos?
Sua vida teria sido mais feliz, ou menos?
E ela? Teria sido feliz ao conseguir tê-lo a seu lado quando quisesse, e não quando ele pudesse?
Ele não sabe. Nunca vai saber ao certo. Mas encontra conforto em pensar que a Gata Negra e o Homem-Aranha também não ficaram juntos no final das contas.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Ovinho de Codorna
Eu vou te confessar...
Quando eu fui atrás de ti, não foi espontâneo. Não foi "amor à primeira vista", nem uma singela e honesta admiração pela tua pessoa.
Não... Quando estive contigo, foi por interesse. Interesse puro. Não foi mais, senão isso.
Interesse.
Na primeira vez que eu te vi, eu já achei que podia me dar bem. Coloquei os olhos e vi o mapa da mina. Logo percebi que tu tinha o que eu precisava, e não me furtei da possibilidade de tentar conseguir. Eu confesso:
Sou interesseiro, mesmo.
E ardiloso.
Enquanto todos os guris da rua te achavam linda e inalcançável, e te tratavam como se tu estivesse em um pedestal de cristal, eu, interesseiro que sou, mesmo sendo feio e maltrapilho, consegui atrair tua atenção indo no sentido oposto. Fingindo desinteresse, te fiz me notar. Sendo malcriado e antipático, atraí tua atenção, e calculando friamente cada passo do trajeto, consegui te fazer namorar comigo.
A menina mais bonita da rua, conquistada por um sujeito que estava com ela apenas por interesse.
Interesse no cabelão preto ondulado. Na cinturinha fina. Nos quadris generosos. Na figura de rainha da piscina. Nos braços e pernas esguios. No tornozelo, estranhamente gordinho, tão gordinho que, ao invés de ter um osso saliente na lateral, tinha uma covinha. Nas sobrancelhas arqueadas e nos olhos amendoados de feiticeira médio-oriental, a barriga chapada de fazer Adriane Galisteu corar de inveja.
Interesse nos lábios, no metro e setenta de altura. Na personalidade por vezes malévola, mas nem por isso menos atraente. No sorriso bonito com os caninos inferiores salientes por vezes dando-lhe um aspecto de fera. Por ser bela, esguia, alta e sofisticada mas saber apreciar coisas como um bom mocotó e uma churrascada. Por ter feito aulas de chamamé, por querer ver o mundo. Por ser algo Veruca Salt...
Mas talvez, acima de tudo, por causa das sardas.
As sardas. Eram a cereja do bolo. Eram o famigerado "plus a mais" [sic], eram o que tornavam aquela linda mulher, cheirosa e repleta de personalidade quase uma ninfa.
Por interesse eu fiquei do teu lado por dois anos.
Nem sempre me senti amado. Nem sempre me senti apreciado. Muitas vezes pensei em deixar pra lá. Em aproveitar o inexplicável sucesso que fazia entre as mulheres àquela época. Em te deixar ir e ser feliz a teu modo. E tentar ser feliz ao meu.
E quando finalmente fiz isso. Me doeu.
Me doeu porque depois de mais de dois anos convivendo contigo, deixei de ser apenas um poltrão interessado unicamente na tua linda, linda, linda estampa. E me tornei um apaixonado por ti inteira.
Da unha mínima do dedo mindinho dos belos pés, até o último fio do cabelo.
Talvez por isso. Por ter finalmente me apaixonado por ti, eu tenha resolvido ir embora naquela vez.
Porque apaixonado por ti não era direito querer estar com outra pessoa.
Apaixonado por ti, não era direito não ser correspondido ou apreciado.
E aí, alguns dias depois de terminarmos, te encontrei na rua. Sorri pra ti e peguei tua mão. E tu me sorriu de volta. Com os olhos rasos d'água. E eu vi que, mesmo que não tenha havido de ti pra mim, amor como havia de mim pra ti, havia apreço.
Eu nunca havia dito como meu coração ficou leve depois daquilo.
O quanto eu fiquei aliviado por ver que nenhum de nós havia desperdiçado aqueles dois anos de mocidade.
O quanto me deixou feliz saber, que de algum modo, eu havia te tocado como tu me tocou.
Meu ovinho de codorna.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Limonidades
-Eu não preciso de espaço. - Ela disse, óculos equilibrados na ponta do nariz do outro lado da mesa da confeitaria, fustigando-o com dois faróis azuis.
-Tu diz isso agora. - Ele respondeu colocando açúcar na limonada. -Mas dentro de algum tempo vai ser "Tu não respeita meu espaço, isso", "Eu preciso de tempo pra respirar, aquilo", "Eu sou como uma flor e tu precisar me dar um vaso maior pra eu poder crescer, e biribiri"... Toda aquela ladainha a que inevitavelmente chegam todos os casais em algum momento...
-Biltre. - Ela disse, cerrando os dentes numa expressão de falsa fúria que ele aprendera a achar muito doce. Riu.
Ela continuou tergiversando enquanto abria a lata de Pepsi com a ponta da unha quebrada do indicador:
-Tu é quem precisa de espaço. Muito espaço. Espaço sideral...
O lacre da latinha se rompeu, ato contínuo, ela levou a lata ao rosto, deixando que as bolhas lhe beijassem o nariz, sorrindo. Ele riu de novo. Achava aquilo tão gracioso... Havia sido uma das coisas que o fizeram se apaixonar por ela, lá atrás.
Aquela coisa das bolhas do refrigerante no nariz. O cheiro de limão, maracujá e tangerina, a elasticidade, o fato de ela ser comprida e branca "feito uma garça" nas próprias palavras, e de usar calcinha grande porque é mais confortável e nela tais peças ficarem extremamente sensuais.
Tudo isso. Também por ela ter dito uma das coisas mais sexies que ele já havia ouvido na vida, na primeira vez em que dividiram a cama. Ele segurava os pés dela junto ao ombro esquerdo, e cheirava a pele dela. Ela estava quente, e dela rescindia um cheiro de fruta cítrica que o deixava absolutamente inebriado. Ele disse "Eu adoro o cheiro da tua pele", e ela, com presença de espírito digna de super-herói, respondeu "Tu precisa ver o gosto.", deixando muito claro o que queria que ele fizesse.
Lembrou-se e riu novamente. Percebeu que estava rindo à toa.
-Estar contigo me inebria, guria.
Ela sorriu.
Ele continuou:
-Tu me faz rir à toa, alemoa.
Foi a vez dela rir.
-Tu é poeta e nem sabia, vai fazer rima todo o dia? - Caçoou.
Assomou um moleque vestido de pinguim, calça preta, camisa branca, gravata borboleta. Deveria estar derretendo dentro daquela roupa. Ele ia se apiedar do rapaz, mas então lembrou-se: Tirando a gravata eles estavam vestidos mais ou menos igual. Pior, a calça do garçom não era jeans. Desistiu da piedade.
O jovem largou uma fatia de bolo branco na frente dela, uma de torta de limão diante dele, ambas acompanhadas de uma bola de sorvete.
-O que é que nós somos? Duas velhinhas tomando refresco e comendo torta numa confeitaria da Rua da Praia?
Ela soprou os cabelos loiros de diante dos olhos e, com uma expressão friamente calculada para o pecado respondeu:
-Que velhinhas mais danadas nós seríamos...
Ele não riu. Olhou pra ela sentindo certezas se edificarem dentro do próprio peito. Ela deu uma garfada num pedaço do bolo branco, e a ele juntou um bocado de sorvete de creme com um movimento rápido. Fez um "hmmmm" longo enquanto saboreava a guloseima.
-Doce como a vida deveria ser. - Disse, olhando pra ele e lambendo os lábios cor de rosa.
-Para alguns. - Ele respondeu com pouco caso enquanto repetia, sem a mesma destreza e com um polegar a mais, o gesto dela para apanhar torta e sorvete no mesmo garfo.
-Limonada e torta de limão... - Ela disse, analisando o prato e o copo dele. -Do que é teu sorvete?
-Maracujá. - Ele respondeu. -Mas não é sorvete. É sorbet.
Ela entortou a boca fazendo um som de repulsa:
-Que coisa mais azeda. Porque tu só gosta de coisa azeda, criatura?
"Azeda, não.", ele pensou. "O que eu amo são as coisas ácidas. Cítricas. Essas me levam às nuvens.".
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Resenha Cinema: 47 Ronins
Quando vi os trailers e as primeiras imagens de 47 Ronins na internet, logo pensei: "Porcaria da grossa".
Sejamos francos, ninguém espera que um filme que mistura a história tradicional do Japão com elementos de fantasia falado em inglês e com um herói norte-americano estrategicamente infiltrado vá dar em grande coisa, né?
Se fui assistir ao filme na sexta-feira da estréia foi muito mais por força do voto de ir assistir a ao menos um filme por semana no cinema e pelo minguado calendário de lançamentos desse final de janeiro.
A fita de estréia de Carl Rinsch, que até 47 Ronins tinha feito apenas curtas, conta a história de Kai (Keanu Reeves, com a falta de expressão peculiar), um jovem mestiço encontrado na floresta por lorde Asano (Min Tanaka), senhor de Ako, joia japonesa do período do xogunato.
Contrariando os apelos de seus samurais, lorde Asano leva Kai para viver entre sua família e seu povo, onde ele cresce próximo à filha do senhor, Mika (Kô Shibasaki), mas sendo desprezado e brutalizado pelos samurai, que o veem como um sinal de azar.
Anos mais tarde, durante a visita do Xogun Tsunayoshi (Cary-Horoyuki Tagawa), lorde Asano prepara um torneio para honrar o governante, mas durante as celebrações, lorde Kira de Nagato (Tadanobu Asano, de Thor), trama com sua feiticeira (Rinko Kikushi) para tomar Ako para si, e desposar Mika.
Usando os poderes da bruxa, lorde Kira consegue fazer com que lorde Asano ataque seu hóspede, caindo em desgraça, e sendo condenado a realizar o ritual suicídio do seppuku para morrer com sua honra.
Com a morte de Asano, e Mika sendo prometida pelo xogum a Kira, Ôishi (Hiroyuki Sanada), líder dos samurais de Ako é aprisionado, Kai exilado, e os guerreiros a serviço do clã Asano, dispersos.
Um ano depois, Ôishi é libertado, e parte em busca de vingança contra Kira ao lado de Kai e de seus companheiros, reduzidos a 47 samurais sem mestre. 47 Ronins. Em um caminho turbulento onde a única certeza, muito além de vitória ou derrota, é a morte.
É maneiro, o filme.
Talvez por ter expectativas abaixo de zero com relação ao longa, 47 Ronins foi um programa muito menos indigesto do que se poderia esperar. Com algumas sequências de ação bastante interessantes, efeitos visuais maneiros e atuações bem-intencionadas de todo o elenco, o longa consegue se equilibrar e levar a audiência interessada até o final da trama a despeito da falta de acuro histórico e das liberdades criativas no roteiro de Chris Morgan e Hossein Amini.
Talvez o grande defeito de 47 Ronins seja a rápida resolução de embates que se prometiam grandiosos. A presença de piratas, dragões, guerreiros/monge/demônios, alces-monstro de oito olhos, gigantes e samurais lovecraftianos não tira o foco do filme da missão dos samurais em desgraça, o romance de Kai e Mika é meio morno, mas tem sua razão de ser assim, já que Mika é uma tradicional donzela nipônica e Kai um pária. Mesmo a presença de Kai, além de servir de trampolim para a tradicional história de amor proibido, e pra dar uma amenizada na repulsa dos estado unidenses a um longa cheio de japas também acaba sendo um elemento interessante para mostrar a queda do status dos samurais após tornarem-se ronins, o que fica claro conforme o tratamento deles com relação ao mestiço muda no decorrer da trama.
Cheio de boas intenções, belos cenários e direção de arte caprichada 47 Ronins pode não ser um grande filme, mas merecia melhor sorte do que o naufrágio que sofreu nas bilheterias dos EUA.
Assista sem preconceitos e divirta-se. Vale o ingresso.
"-Eu vou com você, mas se voltar a se ajoelhar diante de Kira, corto sua cabeça."
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Resenha Blu-Ray: É o Fim
Vou dizer que um dos meus grandes arrependimentos cinematográficos do ano passado foi ter perdido esse filme no cinema, lado a lado com O Último Desafio, que eu também não assisti em tela grande. Muito disso é culpa, pra variar, das distribuidoras, que colocaram o filme em poucas e longínquas salas de Porto Alegre.
Desde os primeiros trailers, com inúmeros atores recorrentes das comédias dirigidas/produzidas por Judd Apatow, É o Fim parecia um projeto divertido não apenas pelo elenco, ou por ser um roteiro de Seth Rogen e Evan Goldberg, mesma dupla de Superbad - É Hoje, mas também pela particularidade de todos esses atores estarem interpretando a si próprios no longa metragem.
Ontem, achei É o Fim no serviço de locação virtual da TV a cabo, e aluguei para tentar dar algumas risadas na madrugada insone de calor que se apresentava. E consegui.
É o Fim começa com Jay Baruchel, ator de Menina De Ouro, Como Treinar seu Dragão e Aprendiz de Feiticeiro chegando à cidade de Los Angeles, onde é aguardado por seu amigo Seth Rogen, de O Besouro Verde, Segurando as Pontas e Ligeiramente Grávidos.
Os dois comem hambúrgueres na lanchonete Carl's Jr., vão à casa de Rogen, fumam maconha, jogam videogame e finalmente Seth convida Jay para ir à uma festa na casa de James Franco, de Homem-Aranha, 127 Horas e Planeta dos Macacos - A Origem.
Os dois vão à festa onde estão Rihanna, Jonah Hill, Michael Cera, Jason Segell, Craig Robinson, Emma Watson, Mindy Kaling, Christopher Mintz-Plasse, e mais um extenso pot-pourri de comediantes egressos dos bromances que dominaram as comédias na última década.
Enquanto conhecem a fortaleza de concreto de James Franco, Jay e Seth dão uma saída para comprar cigarros, e testemunham o início do apocalipse!
Com pessoas sendo arrebatadas aos céus, o chão se abrindo, e as colinas de Hollywood prendendo fogo!
Abrigados na casa de Franco, Baruchel, Rogen, Hill, Robinson e Danny McBride esperam por resgate até perceberem que pode não haver nenhum, e que talvez devam começar a tentar descobrir como sobreviver ao fim do mundo.
É muito engraçado.
Rogen e Goldberg (que também roteirizaram Segurando as Pontas) não têm o menor pudor de expôr seus amigos e colegas de elenco numa auto paródia sem concessões. Dos suores excessivos de Craig Robinson à sexualidade ambígua e a paixão pela arte de Franco, passando pela carreira séria do duas vezes indicado ao Oscar Jonah Hill, nada passa em branco na hora de o filme fazer piada com o elenco.
Talvez esse despudor em rir de si mesmo seja o ponto alto de É o Fim, que com seu fiapo de história, acaba sendo melhor sucedido como produto para os fãs da filmografia do grupo do que como um longa metragem isolado. Por sorte as piadas são boas e seguram a peteca garantindo boas risadas graças a um elenco raçudo sem vergonha de fazer papel de ridículo, e participações especiais ótimas (Emma Watson e Channing Tatum, impagáveis) e outras nem tanto (Backstreet boys) que sustentam o longa.
Assista, é bem maneiro.
"-James Franco não chupou nenhuma piça noite passada? Agora eu sei que vocês estão todos viajando."
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Resenha Cinema: O Lobo de Wall Street
Pense comigo... Qual foi o último filme ruim que tu viu estrelado pelo Leonardo DiCaprio?
Eu estava pensando a respeito, e, pra mim, foi A Praia, de Danny Boyle, lançado em 2000, e que, a bem da verdade, não é assim tão ruim, apenas empalidece ante a filmografia do ator de lá pra cá.
Lançando em média um longa por ano (quase sempre um filmaço, ou no mínimo uma ótima atuação), DiCaprio se mostrou não apenas um grande intérprete, mas um tremendo gênio na hora de escolher seus roteiros. Não bastasse isso, ainda firmou uma bem-sucedida parceria com Martin Scorsese, com quem realizou Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados, Ilha do Medo e o filme do título, esse O Lobo de Wall Street.
No longa DiCaprio (brilhante) vive Jordan Belfort, jovem ambicioso que decide se tornar rico. Pra isso, vai para onde vão a muitos dos jovens ambiciosos dos EUA:
Wall Street.
Lá ele começa, nos anos 80, sua curta carreira de corretor da bolsa sob a tutela de Mark Hannah (Matthew McConaughey, que vai roubar o Oscar de DiCaprio.), que dura apenas até a segunda-feira negra em 87, quando a Rothschild na qual trabalhava, fechou as portas.
Jordan chega a flertar com a ideia de abandonar a corretagem, mas é convencido por sua esposa, Teresa ( Cristin Milioti) a tentar novamente, e assim se torna um corretor da bolsa de tostões, negociando ações de companhias de baixo capital com preços mínimos por cota. É lá, com as comissões de 50% (face às comissões de 1% de Wall Street), que Jordan começa a fazer dinheiro de fato usando seus conhecimentos adquiridos na meca das bolsas de valores e uma boa dose de mau-caratismo. É na mesma época que conhece Donnie Azoff (Jonah Hill, surtado), com quem começa a trabalhar.
Jordan prospera, funda sua própria empresa, e se farta de tanto ganhar dinheiro de maneiras que vão das moralmente reprováveis às totalmente ilegais.
Entre trocas de esposa, investimentos milionários em iates de 57 pés, mansões nos metros quadrados mais valiosos da América, Ferraris, Lamborghinis, helicópteros, abuso de drogas, álcool, prostitutas e pílulas acompanhamos Jordan de sua ascensão até sua decadência, atolado até o pescoço em crimes do colarinho branco e corrupção, investigado pelo FBI e ameaçado de prisão.
É ultrajante no melhor sentido da palavra. Scorsese sabe como ninguém transformar criminosos em tipos com quem podemos simpatizar, e Jordan Belfort com sua resistência sobre-humana à drogas, álcool e sexo desprotegido, sua boca-suja e sua lábia de vendedor que não aceita não como resposta é o tipo de escroto repulsivo e hilário de quem é difícil não querer mais, especialmente quando é trazido à tela por um ator com o carisma e o calibre de Leonardo DiCaprio, que dá show durante os 180 minutos de projeção mostrando até uma faceta desconhecida com uma disposição invejável para a comédia rasgada, inclusive física (a sequência dos Lemmons na saída do country club é de fazer Jim Carrey se roer de inveja).
Sem compromisso sério para com a verdade dos fatos, Martin Scorsese conta a história de Jordan Belfort pela ótica do próprio (o filme é baseado na autobiografia de Belfort, adaptada por Terence Winter), o que explica muito do exagero do longa, como a banda de cuecas no escritório, ou o tiro ao alvo com anões, e os momentos em que Jordan se dirige à audiência por alguns momentos até decidir que ninguém é esperto o suficiente pra acompanhar o que ele diz.
Soma-se a DiCaprio um grande elenco de apoio encabeçado por Jonah Hill, impagável como o parceiro de Belfort, Donnie Azoff, além da lindona Margot Robbie como a segunda esposa do corretor, Naomi, mais Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Favreau, Jean DuJardin e outros nomes mais ou menos reconhecíveis de ponta a ponta, todos funcionando como relógio sob a batuta de Scorsese, o diretor que Quentin Tarantino (que eu adoro) gostaria de ser, numa histérica fita baseada em fatos que intercala momentos cômicos de chorar de rir com outros realmente sérios em um show de três horas de duração que passam voando.
Talvez o melhor filme de Scorsese desde Os Bons Companheiros, talvez a coroação de Leonardo DiCaprio como um dos maiores atores de sua geração, mas certamente um filme que estará na lista dos melhores do ano de qualquer pessoa quando dezembro chegar.
Obrigatório.
"Deixa eu te contar uma coisa. Não há nobreza na pobreza. Eu fui um homem pobre e um homem rico, e eu escolho ser rico toda porra de vez."
Resenha DVD: Invocação do Mal
Eu não sou, nem de longe, um fã de filmes de horror. Se tu procurar no blogue, acho que não encontra resenha de cinco filmes do gênero.
Não sou do tipo medroso, que não assiste terror porque não consegue dormir à noite. Na verdade, acho que meu problema é justamente o oposto. As pessoas em geral assistem filmes de terror pela possibilidade de serem amedrontadas. Pelo susto. É como andar de montanha-russa. Um lance de adrenalina.
Pra mim não funciona.
Raros são os filmes que me dão sustos. Acho a fórmula de sustos dos filmes de horror em geral bem boba. Sobe a música incidental, mostra uma coisa no primeiro plano, e ao fundo surge algo, ou ressoa um ruído altíssimo. Não me assusta mais do que aqueles vídeos do Youtube onde um carro percorre a estrada à distância e surge um zumbi rosnando em primeiríssimo plano, ou aquele jogo de labirinto que fecha com a imagem da Regan de O Exorcista ocupando a tela ao som de um grito digno de Wilhelm.
Não funciona pra mim.
Medo, então, nem se fala. Não sou nenhum Demolidor, mas medo do sobrenatural eu não tenho. Não acredito em nada disso. Fantasmas, aparições, sombras, vultos espíritos, demônios ou políticos honestos, pra mim, são todos histórias da carochinha.
Por essas e outras, ver filme de terror, pra mim, é um exercício de futilidade. Não bastasse eu desprezar o medo e o susto que os filmes de horror se propõe a causar, ainda existe outro problema, quiçá mais grave:
Filmes de horror, via de regra, são mal produzidos, mal dirigidos, têm roteiros risíveis e elencos de chorar.
Não há, então, nenhum motivo pra eu querer assistir a um filme do gênero.
Mas, eis que eu acabei assistindo esse Invocação do Mal muito por imposição de certa alemoa comprida que gosta de porcaria, mas acabou que o filme, embora não tenha me assustado, me surpreendeu.
Invocação do Mal conta a história de como Carolyn e Roger Perron (Lili Taylor e Ron Livingston) compraram, em 1971, uma bela casa de fazenda em Rhode Island.
Ao se mudarem com suas cinco filhas para o casarão precisando de alguns reparos (Já notaram como casas assombradas são sempre belos casarões? Nunca aparece um apartamento quarto e sala assombrado. Se eu arranjasse uma puta casa irada que nem a do filme, os fantasmas iam ter que me aguentar lá por muito tempo...), os Perron se veem vítimas de uma série de eventos sobrenaturais que escala até a matéria de quê são feitos os pesadelos.
Ao mesmo tempo, uma segunda linha narrativa acompanha Lorraine e Ed Warren (Vera Farmiga e Patrick Wilson), investigadores paranormais com ampla experiência em espíritos malignos e demônios, os caminhos das duas famílias se cruzam quando Carolyn, temendo pela segurança de sua família procura os Warren, e os convence a investigar a antiga fazenda.
O que os especialistas descobrem é uma imensa área repleta de atividade demoníaca disposta a destruir os Perron onde quer que eles vão.
Para impedir esse fim nefasto, os Warren terão que que usar todo o seu arsenal de conhecimento e força espiritual para derrotar essa ameaça espectral e devolver a paz aos Perron, e a si próprios, também na mira do espírito perverso após confrontá-lo.
Não é ruim.
A começar pelo elenco principal, composto por atrizes talentosas (Farmiga e Taylor) e atores esforçados (Wilson e Livingtson), Invocação do Mal dá seu primeiro passo para sair da vala comum dos filmes de horror.
Soma-se a isso a direção esperta de James Wan, que tem mais na manga do que apenas sustos fáceis (existem alguns) criando de fato uma boa atmosfera de tensão galgada sobre o elenco. Pra exemplificar, numa das sequências mais tensas do filme, não há absolutamente nada de anormal em cena, todo o horror é criado sobre uma criança olhando para a escuridão atrás de uma porta confirmando o adágio que diz que o que amedronta não é aquilo que vemos, mas sim, o que não podemos ver.
Mas não tema, fã de horror, podemos ver muitas coisas ao longo de Invocação do Mal, e ouvir, também. Sobretudo no fim do filme, com uma sequência de cenas tensas e rápidas usando diferentes ângulos de câmera para passear pelos cômodos da casa onde a ação se desenrola até o clímax.
Em suma, a direção sem preguiça de James Wan, e o bom elenco tornam Invocação do Mal um programa razoável, ótimo para fãs de terror, e nenhum calvário para quem despreza o gênero. Se a tua namorada(o) quiser ver, não precisa se descabelar, entre os terrores recentes, certamente está no topo da lista.
"-Vocês têm muitos espíritos aqui, mas há um que me preocupa mais, pois é tão odioso..."
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