A obra máxima de Warren Ellis está ganhando (finalmente) sua publicação integral no Brasil. Como chegamos à metade dos quatro volumes prometidos pela Panini para contar toda a história dos arqueólogos do impossível, que tal elencar como seria uma versão cinematográfica responsa da série em quadrinhos?
Não custa lembrar que, se rolar, eu quero um crédito de produtor na bagaça, Hollywood!
Para dirigir Planetary meu escolhido foi Steven Soderbergh. O cineasta experimenta todos os gêneros cinematográficos possíveis, faz coisas tão diversas quanto Onze Homens e Um Segredo, À Toda a Prova, Solaris e Magic Mike, ele só precisa de uma adaptação de quadrinhos pra poder se aposentar sabendo que já fez de tudo, e Planetary é o tipo de quadrinho com a cara meio marginal e alternativa que um projeto de Soderbergh pede.
Claro que, se fizesse sucesso, Planetary viraria uma franquia com vários filmes (o ideal seria uma série estilo HBO, com ao menos umas três temporadas, mas enfim...), e o primeiro longa poderia se basear nas histórias apresentadas em Pelo Mundo, primeiro arco dos encadernados da Panini.
Para o elenco principal, os meus escolhidos para dar cara aos exploradores da história secreta do planeta seriam:
Elijah Snow
Para interpretar o homem de gelo centenário com severos problemas de memória e humor não muito recomendável, eu escolhi Russel Crowe. O talentoso ator neo-zelandês só precisaria de uma dieta pra caber no figurino todo branco sem parecer um boneco de neve e de uma peruca pra encarnar com toda a propriedade o sujeito que redescobre o prazer dos quebra-cabeças que ocultam a verdade da Terra.
Jakita Wagner
A super-forte, indestrutível, sabichona e super-sexy Jakita Wagner, responsável pelo recrutamento de Snow e pela maior parte da ação física de Planetary só pode ser interpretada por Salma Hayek.
A deliciosa mexicana preencheria com justiça o colante de vinil preto que mal consegue comportar os generosos atributos da heroína.
O Baterista
O porra-louca da equipe, piadista tecnológico capaz de falar com máquinas e sentir campos energéticos poderia perfeitamente ser vivido por Scott Caan.
O ator de Hawaii 5.0 já trabalhou com Soderbergh, não se intimida entre grandes atores e sabe ser um xarope implicante.
Ambrose Chase
Terceiro Homem de Planetary antes de Elijah Snow, Ambrose Chase era o braço-direito e contato direto da equipe de campo com o Quarto Homem. Com seus poderes de distorção da realidade Ambrose esteve à frente da equipe de campo do Planetary por anos até a sua morte em combate.
O ator britânico Colin Salmon seria perfeito para o papel com sua figura longilínea e tom de voz marcante.
Randall Dowling
O líder dos Quatro viajantes, gênios que, em 1961 voltaram de uma viagem secreta à lua com super-poderes (qualquer semelhança com o Quarteto Fantástico não é mera coincidência) e a força que busca manter a verdade do planeta oculta e o status quo vigente para proteger seus próprios interesses é um homem tão brilhante quanto cruel em sua frieza e pragmatismo.
Ele seria interpretado com perfeição por Edward Norton, ator acima da média que não teria problemas pra encarar Russel Crowe em cena.
Kim Suskind
A única pessoa da Terra com quem Randall Dowling se importa além de si próprio, a filha de cientistas nazistas retornou da Missão Artemis com a capacidade de ficar invisível e criar campos de força e se tornou uma assassina sádica com gosto por explodir a cabeça das pessoas.
Com sua beleza radiante a atriz Naomi Watts justificaria o afeto do gênio frio de Dowling e ainda poderia exercitar seu talento interpretando uma vilã má, mesmo.
William Leather
Um jovem raivoso e amargurado por não ter herdado as habilidades especiais de seu pai e avô, William Leather foi facilmente convencido por Randall Dowling a tomar parte na missão Artemis. Após a viagem dos Quatro, ele retornou a Terra com a capacidade de manipular energia em níveis extremamente precisos, voar, e super-força. É ele o responsável pelas missões de limpeza dos Quatro.
Para interpretar esse cascudo vilão com delírios de grandeza o meu escolhido é Josh Holloway. O ex-Lost poderia dar a dose certa de arrogância e perigo genuíno que Leather representa nas telonas.
Jacob Greene
O ex-piloto de missões secretas da Segunda Guerra Mundial, Jacob Greene, escalado para pilotar a nave da missão Artemis em 61, assim como seus companheiros de missão, retornou à Terra com habilidades meta-humanas. As de Greene, porém, vieram com um preço:
Seus dons lhe custaram sua própria humanidade.
Enquanto Dowling, Suskind e Leather podem facilmente passar por pessoas comuns, Greene precisou se retirar do convívio humano por conta de sua aparência grotesca.
Sua resistência e força, porém, estão em níveis incrivelmente elevados, e sua brutalidade o torna uma máquina assassina a serviço dos Quatro.
Greene seria gerado por computação gráfica, mas que tal colocar um ator de verdade, e dos grandes, para dar-lhe voz e vida?
Liev Schreiber é o meu escolhido para a empreitada. Com um metro e noventa e um de altura, o sujeito que salvou X-Men Origens - Wolverine de ser uma completa perda de tempo poderia viver o "Coisa do mal" e ainda dar alguma profundidade ao vilão.
Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sábado, 8 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Quadrinhos: Planetary - O Quarto Homem
Em meados de novembro a Panini lançou o primeiro encadernado de Planetary prometendo finalmente concluir a saga dos arqueólogos do impossível no Brasil.
Ontem, com algum atraso (já tinha a edição da Devir), comprei O Quarto Homem, livro 2 da série dos cartógrafos das fronteiras invisíveis de um mundo estranho, que lutam contra forças do obscurantismo para mapear a História secreta do mundo no Século XX.
Nesse segundo volume, composto pelas edições sete a doze da série norte-americana, o leitor segue acompanhando o olhar de Warren Ellis sobre os principais fenômenos da cultura pop dos últimos cem anos.
Na primeira história, "Nada como a Inglaterra no Verão", conhecemos Jack Carter, versão de Ellis para John Constantine.
A história, mostrando Snow, Jakita e O Baterista indo ao funeral do mago em Londres é um passeio pelos quadrinhos ingleses dos anos oitenta, com alusões nada sutis ao Monstro do Pântano, Sandman, Homem-Animal, além de uma divertida pegação de pé na reformulação de Miracle Man por Alan Moore e um pouco de auto-elogio de Ellis, ao apontar Transmetropolitan como "o futuro".
Na segunda história, a genial "O Dia em que a Terra Atrasou", conhecemos a Cidade Zero, um local secreto onde o governo dos EUA realizava experiências em dissidentes políticos durante a década de cinquenta com a desculpa da "ameaça vermelha". A história, obviamente inspirada pelos filmes de ficção científica de baixo orçamento dos anos 1950 (A começar pelo título, referência claríssima a O Dia em que a Terra Parou) tem insetos e pessoas gigantes, cães atômicos, cientistas loucos e comunistas como pedia a cartilha do gênero, mas extrapola com mulheres inocentes condenadas à "meias vidas atômicas", cérebros substituídos por campos atômicos de flocos de neve e homens invisíveis, tudo isso escrito em forma de reminiscência e com uma delicadeza exemplar.
A história seguinte, "Planeta Ficção", conhecemos Ambrose Chase, predecessor de Elijah Snow na equipe de campo de Planetary, e seu destino durante uma missão da organização para impedir um grupo de cientistas loucos de resgatar algo, ou alguém, de um lugar chamado Planeta Ficção. Essa história, assim como o confronto de Jakita e Elijah com Willia Leather no primeiro volume, se entranha mais profundamente no cânone particular de Planetary.
A ela segue-se "Magia e Perda", mostrando o que aconteceu com um bebê alienígena enviado à Terra por seus pais na iminência da destruição de seu planeta natal, um policial do espaço que tira sua energia de um elemento ativo que brilha com uma cor perfeita, e uma maravilhosa princesa enviada de uma ilha avançadíssima civilização helênica à América para tentar levar luz aos homens quando foram interceptados pelos Quatro.
Depois, "Mundo Frio", que apresenta John Stone, (que é uma alusão a James Bond, sim, mas especialmente ao Nick Fury de Jim Steranko como fica óbvio na capa da edição original), agente secreto mais velho do mundo e que tem pistas sobre o passado parcialmente esquecido de Elijah Snow, e finalmente "Memória Nublada", onde a verdade sobre o quarto homem de Planetary vem à tona.
Os roteiros espertíssimos de Ellis, a arte lindona de John Cassaday, com Laura Martin e David Baron garantem a manutenção da qualidade de uma história em quadrinhos que merece, mais do que ser lida, ser degustada.
Quer investir bem vinte pilas? Compre Planetary. R$ 19,90 por um belo gibi com capa em papel cartão, papel WTC no miolo, e sete histórias de primeiríssima qualidade.
"-...Eu sou o vilão... O único aqui que sabe a história... Se me matar, o filme jamais acabará...
-Somos arqueólogos. Vamos escavar e entender tudo em poucos anos. Fim."
Resenha Blu-Ray: As Bem Armadas
Todo mundo já viu um filme Buddy Cop.
A fórmula é simplíssima e foi usada em 48 Horas, Máquina Mortífera, Inferno Vermelho, Dragnet - Desafiando o Perigo e mais uma carrada de filmes oitentistas onde um tira sério, preocupado com a manutenção da lei e da ordem, era obrigado a formar parceria meio a contra-gosto com um tipo despirocado e porra-louca para resolver um caso. Os dois não se davam bem, se provocavam, brigavam entre si, mas eventualmente acabavam se entendendo e dando um calor na bandidagem ao combinarem suas características e personalidades conflitantes no combate ao crime.
As Bem-Armadas é isso.
A agente especial do FBI, Sarah Asburton (Sandra Bullock), uma organizada, bem-sucedida e ambiciosa especialista investigativa, odiada por seus colegas e de olho numa promoção sai de Nova York rumo a Boston para resolver o caso do surgimento de um novo chefão do narcotráfico operando na cidade.
Lá, ela encontra a detetive Shannon Mullins (Melissa MacCarthy), tresloucada agente da lei que cumpre seu dever usando força-bruta e seu próprio senso deturpado de certo e errado desprezando completamente princípios básicos de trabalho policial ou cadeia de comando.
De imediato as duas não se entendem, brigam, discutem, e deixam claro o quanto são diferentes, até que o chefe de Ashburton ordena que ela faça um esforço e aproveite o conhecimento de Mullins para mostrar que é capaz de trabalhar em equipe.
Deixando suas diferenças de lado as duas agentes da lei começam então a procurar pelo temível traficante Mr. Larkin, cuja verdadeira identidade permanece um mistério.
A premissa, o basicão dos buddy cop movies setenta/oitentistas (Influência óbvia explicitada desde os créditos de abertura) não seria um problema para As Bem Armadas se rendesse boas risadas. Infelizmente não chega a ser o caso.
Embora tenha lá seus bons momentos, a fita dirigida por Paul Feig (O mesmo do ótimo Missão Madrinha de Casamento) não decola a começar pelas personagens principais.
Se Sandra Bullock tem demonstrado nos últimos tempos que é uma atriz a ser respeitada (Além de um CORPAÇO) e uma comediante competente, sua Sarah Asburton é uma cópia descarada da personagem da atriz em Miss Simpatia. A mesma coisa acontece, em menor grau, com a Mullins de McCarthy, nada além de uma Megan de Missão Madrinha de Casamento com uma arma e um distintivo (Até uma piada sobre a temperatura das partes íntimas femininas é reciclada.).
As atrizes se esforçam, McCarthy já deixou bem claro que não teme o ridículo, e Sandra Bullock é extremamente hábil em não se levar a sério mesmo com as premiações e filmes sérios. As duas fazem comédia física, dizem palavrões, dançam, cantam e se descabelam mas o roteiro de Katie Dippold é como uma Coca-Cola 3 litros, e perde o gás antes da metade.
O elenco de apoio conta com nomes reconhecíveis como Demian Bichir, Michael Rapaport, Marlon Wayans e o eterno Biff Tannen Thomas F. Wilson, nenhum com grande destaque.
No final das contas, quem esperava outro Bridesmaids vai ter uma grande decepção. Se é pra rir da mulherada, o filme das madrinhas de casamento ainda é melhor pedida, e, pra ver a gostosura de Sandra Bullock, Gravidade é muito mais negócio.
Assista na TV a cabo.
"-Oh, OK. Adivinha só? Agora você conseguiu, mesmo. Vou ligar para o meu chefe.
-Vai fundo, fofoqueira. Narc do caralho!"
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Gata Negra
Foram os olhos verdes mediterrâneo...
O cabelo castanho escorrido até o meio das costas...
A forma esguia que lhe permitia fazer cosplay da Gata Negra...
O nome sonoro. Algo brega. Quase suburbano da estudante de farmácia que adorava o São Paulo Futebol Clube e o Homem-Aranha nas horas vagas.
Meyre Kellen...
Sério. Quem imaginaria que uma moça cujo nome aludia à Grace Kelly num registro algo desastrado de seu pai, pudesse ser tanta coisa além de uma bela estampa? E ela era...
Ela era alta, bonita, charmosa e segura o suficiente pra mandar uma foto com camiseta dos Thundercats, calcinha branca e nada mais pelo MSN.
Ela era segura o suficiente pra dizer "Tô indo ver a final da Libertadores contra o Atlético PR aí na sua cidade e você devia me levar pra conhecer algum lugar legal e só seu enquanto eu estiver aí.".
Era segura o suficiente pra dizer que precisava dele ali, pertinho dela, na hora em que ela quisesse, e não na hora em que ele pudesse, e que por isso, e por isso apenas, as coisas não dariam certo entre os dois.
Era muito bonita.
Tinha um sotaque algo tenebroso das pessoas que nascem em Foz do Iguaçu. Falava "ermão" e "acadimia" o que ele achou assustadoramente medonho quando leu, mas percebeu que era charmoso quando a ouviu pronunciando. Gostava do fato de ele se corresponder com ela no MSN usando as grafias, acentuações e pontuações corretas... O chamava de "professor".
Pediu-lhe que largasse tudo e fosse viver pertinho dela.
Disse que o ajudaria a achar trabalho e que não o deixaria se sentir sozinho e perdido. Ele acreditou nela...
Quis acreditar.
Quis acreditar pois ela era linda, tinha um metro e setenta e um centímetros de beleza clássica e era divertida, inteligente e entendia de futebol.
Porque ela disse que em pouco tempo ele estaria celebrando uma Libertadores de seu time em seu estádio, e no ano seguinte ele viu Fernandão, Tinga e Rafael Sóbis erguerem a América no Beira Rio lotado.
Porque ela leu o que ele tinha a dizer, e olhou pra ele pela web-cam, de camiseta velha, calção, óculos e coração irremediavelmente partido, e não viu apenas um nerd solitário tentando agradar e se curar da maior rejeição da sua vida.
Viu uma pessoa a quem ela queria por perto.
Que o queria tanto que não soube se portar com a distância.
Que foi adulta o suficiente pra dizer que se não pudesse ser do jeito dela, então que fossem só amigos, pois relacionamentos à distância eram a receita da tragédia.
E foi madura o bastante pra dizer que entendia quando ele, após tudo o que partilharam, disse que não queria ser amigo dela.
E se ele tivesse tentando?
Se tivesse ido?
Se tivesse tomado coragem, respirado fundo e dado um salto de fé?
Como as coisas teriam sido?
Ele teria sido mais feliz, ou menos?
Sua vida teria sido mais feliz, ou menos?
E ela? Teria sido feliz ao conseguir tê-lo a seu lado quando quisesse, e não quando ele pudesse?
Ele não sabe. Nunca vai saber ao certo. Mas encontra conforto em pensar que a Gata Negra e o Homem-Aranha também não ficaram juntos no final das contas.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Ovinho de Codorna
Eu vou te confessar...
Quando eu fui atrás de ti, não foi espontâneo. Não foi "amor à primeira vista", nem uma singela e honesta admiração pela tua pessoa.
Não... Quando estive contigo, foi por interesse. Interesse puro. Não foi mais, senão isso.
Interesse.
Na primeira vez que eu te vi, eu já achei que podia me dar bem. Coloquei os olhos e vi o mapa da mina. Logo percebi que tu tinha o que eu precisava, e não me furtei da possibilidade de tentar conseguir. Eu confesso:
Sou interesseiro, mesmo.
E ardiloso.
Enquanto todos os guris da rua te achavam linda e inalcançável, e te tratavam como se tu estivesse em um pedestal de cristal, eu, interesseiro que sou, mesmo sendo feio e maltrapilho, consegui atrair tua atenção indo no sentido oposto. Fingindo desinteresse, te fiz me notar. Sendo malcriado e antipático, atraí tua atenção, e calculando friamente cada passo do trajeto, consegui te fazer namorar comigo.
A menina mais bonita da rua, conquistada por um sujeito que estava com ela apenas por interesse.
Interesse no cabelão preto ondulado. Na cinturinha fina. Nos quadris generosos. Na figura de rainha da piscina. Nos braços e pernas esguios. No tornozelo, estranhamente gordinho, tão gordinho que, ao invés de ter um osso saliente na lateral, tinha uma covinha. Nas sobrancelhas arqueadas e nos olhos amendoados de feiticeira médio-oriental, a barriga chapada de fazer Adriane Galisteu corar de inveja.
Interesse nos lábios, no metro e setenta de altura. Na personalidade por vezes malévola, mas nem por isso menos atraente. No sorriso bonito com os caninos inferiores salientes por vezes dando-lhe um aspecto de fera. Por ser bela, esguia, alta e sofisticada mas saber apreciar coisas como um bom mocotó e uma churrascada. Por ter feito aulas de chamamé, por querer ver o mundo. Por ser algo Veruca Salt...
Mas talvez, acima de tudo, por causa das sardas.
As sardas. Eram a cereja do bolo. Eram o famigerado "plus a mais" [sic], eram o que tornavam aquela linda mulher, cheirosa e repleta de personalidade quase uma ninfa.
Por interesse eu fiquei do teu lado por dois anos.
Nem sempre me senti amado. Nem sempre me senti apreciado. Muitas vezes pensei em deixar pra lá. Em aproveitar o inexplicável sucesso que fazia entre as mulheres àquela época. Em te deixar ir e ser feliz a teu modo. E tentar ser feliz ao meu.
E quando finalmente fiz isso. Me doeu.
Me doeu porque depois de mais de dois anos convivendo contigo, deixei de ser apenas um poltrão interessado unicamente na tua linda, linda, linda estampa. E me tornei um apaixonado por ti inteira.
Da unha mínima do dedo mindinho dos belos pés, até o último fio do cabelo.
Talvez por isso. Por ter finalmente me apaixonado por ti, eu tenha resolvido ir embora naquela vez.
Porque apaixonado por ti não era direito querer estar com outra pessoa.
Apaixonado por ti, não era direito não ser correspondido ou apreciado.
E aí, alguns dias depois de terminarmos, te encontrei na rua. Sorri pra ti e peguei tua mão. E tu me sorriu de volta. Com os olhos rasos d'água. E eu vi que, mesmo que não tenha havido de ti pra mim, amor como havia de mim pra ti, havia apreço.
Eu nunca havia dito como meu coração ficou leve depois daquilo.
O quanto eu fiquei aliviado por ver que nenhum de nós havia desperdiçado aqueles dois anos de mocidade.
O quanto me deixou feliz saber, que de algum modo, eu havia te tocado como tu me tocou.
Meu ovinho de codorna.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Limonidades
-Eu não preciso de espaço. - Ela disse, óculos equilibrados na ponta do nariz do outro lado da mesa da confeitaria, fustigando-o com dois faróis azuis.
-Tu diz isso agora. - Ele respondeu colocando açúcar na limonada. -Mas dentro de algum tempo vai ser "Tu não respeita meu espaço, isso", "Eu preciso de tempo pra respirar, aquilo", "Eu sou como uma flor e tu precisar me dar um vaso maior pra eu poder crescer, e biribiri"... Toda aquela ladainha a que inevitavelmente chegam todos os casais em algum momento...
-Biltre. - Ela disse, cerrando os dentes numa expressão de falsa fúria que ele aprendera a achar muito doce. Riu.
Ela continuou tergiversando enquanto abria a lata de Pepsi com a ponta da unha quebrada do indicador:
-Tu é quem precisa de espaço. Muito espaço. Espaço sideral...
O lacre da latinha se rompeu, ato contínuo, ela levou a lata ao rosto, deixando que as bolhas lhe beijassem o nariz, sorrindo. Ele riu de novo. Achava aquilo tão gracioso... Havia sido uma das coisas que o fizeram se apaixonar por ela, lá atrás.
Aquela coisa das bolhas do refrigerante no nariz. O cheiro de limão, maracujá e tangerina, a elasticidade, o fato de ela ser comprida e branca "feito uma garça" nas próprias palavras, e de usar calcinha grande porque é mais confortável e nela tais peças ficarem extremamente sensuais.
Tudo isso. Também por ela ter dito uma das coisas mais sexies que ele já havia ouvido na vida, na primeira vez em que dividiram a cama. Ele segurava os pés dela junto ao ombro esquerdo, e cheirava a pele dela. Ela estava quente, e dela rescindia um cheiro de fruta cítrica que o deixava absolutamente inebriado. Ele disse "Eu adoro o cheiro da tua pele", e ela, com presença de espírito digna de super-herói, respondeu "Tu precisa ver o gosto.", deixando muito claro o que queria que ele fizesse.
Lembrou-se e riu novamente. Percebeu que estava rindo à toa.
-Estar contigo me inebria, guria.
Ela sorriu.
Ele continuou:
-Tu me faz rir à toa, alemoa.
Foi a vez dela rir.
-Tu é poeta e nem sabia, vai fazer rima todo o dia? - Caçoou.
Assomou um moleque vestido de pinguim, calça preta, camisa branca, gravata borboleta. Deveria estar derretendo dentro daquela roupa. Ele ia se apiedar do rapaz, mas então lembrou-se: Tirando a gravata eles estavam vestidos mais ou menos igual. Pior, a calça do garçom não era jeans. Desistiu da piedade.
O jovem largou uma fatia de bolo branco na frente dela, uma de torta de limão diante dele, ambas acompanhadas de uma bola de sorvete.
-O que é que nós somos? Duas velhinhas tomando refresco e comendo torta numa confeitaria da Rua da Praia?
Ela soprou os cabelos loiros de diante dos olhos e, com uma expressão friamente calculada para o pecado respondeu:
-Que velhinhas mais danadas nós seríamos...
Ele não riu. Olhou pra ela sentindo certezas se edificarem dentro do próprio peito. Ela deu uma garfada num pedaço do bolo branco, e a ele juntou um bocado de sorvete de creme com um movimento rápido. Fez um "hmmmm" longo enquanto saboreava a guloseima.
-Doce como a vida deveria ser. - Disse, olhando pra ele e lambendo os lábios cor de rosa.
-Para alguns. - Ele respondeu com pouco caso enquanto repetia, sem a mesma destreza e com um polegar a mais, o gesto dela para apanhar torta e sorvete no mesmo garfo.
-Limonada e torta de limão... - Ela disse, analisando o prato e o copo dele. -Do que é teu sorvete?
-Maracujá. - Ele respondeu. -Mas não é sorvete. É sorbet.
Ela entortou a boca fazendo um som de repulsa:
-Que coisa mais azeda. Porque tu só gosta de coisa azeda, criatura?
"Azeda, não.", ele pensou. "O que eu amo são as coisas ácidas. Cítricas. Essas me levam às nuvens.".
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Resenha Cinema: 47 Ronins
Quando vi os trailers e as primeiras imagens de 47 Ronins na internet, logo pensei: "Porcaria da grossa".
Sejamos francos, ninguém espera que um filme que mistura a história tradicional do Japão com elementos de fantasia falado em inglês e com um herói norte-americano estrategicamente infiltrado vá dar em grande coisa, né?
Se fui assistir ao filme na sexta-feira da estréia foi muito mais por força do voto de ir assistir a ao menos um filme por semana no cinema e pelo minguado calendário de lançamentos desse final de janeiro.
A fita de estréia de Carl Rinsch, que até 47 Ronins tinha feito apenas curtas, conta a história de Kai (Keanu Reeves, com a falta de expressão peculiar), um jovem mestiço encontrado na floresta por lorde Asano (Min Tanaka), senhor de Ako, joia japonesa do período do xogunato.
Contrariando os apelos de seus samurais, lorde Asano leva Kai para viver entre sua família e seu povo, onde ele cresce próximo à filha do senhor, Mika (Kô Shibasaki), mas sendo desprezado e brutalizado pelos samurai, que o veem como um sinal de azar.
Anos mais tarde, durante a visita do Xogun Tsunayoshi (Cary-Horoyuki Tagawa), lorde Asano prepara um torneio para honrar o governante, mas durante as celebrações, lorde Kira de Nagato (Tadanobu Asano, de Thor), trama com sua feiticeira (Rinko Kikushi) para tomar Ako para si, e desposar Mika.
Usando os poderes da bruxa, lorde Kira consegue fazer com que lorde Asano ataque seu hóspede, caindo em desgraça, e sendo condenado a realizar o ritual suicídio do seppuku para morrer com sua honra.
Com a morte de Asano, e Mika sendo prometida pelo xogum a Kira, Ôishi (Hiroyuki Sanada), líder dos samurais de Ako é aprisionado, Kai exilado, e os guerreiros a serviço do clã Asano, dispersos.
Um ano depois, Ôishi é libertado, e parte em busca de vingança contra Kira ao lado de Kai e de seus companheiros, reduzidos a 47 samurais sem mestre. 47 Ronins. Em um caminho turbulento onde a única certeza, muito além de vitória ou derrota, é a morte.
É maneiro, o filme.
Talvez por ter expectativas abaixo de zero com relação ao longa, 47 Ronins foi um programa muito menos indigesto do que se poderia esperar. Com algumas sequências de ação bastante interessantes, efeitos visuais maneiros e atuações bem-intencionadas de todo o elenco, o longa consegue se equilibrar e levar a audiência interessada até o final da trama a despeito da falta de acuro histórico e das liberdades criativas no roteiro de Chris Morgan e Hossein Amini.
Talvez o grande defeito de 47 Ronins seja a rápida resolução de embates que se prometiam grandiosos. A presença de piratas, dragões, guerreiros/monge/demônios, alces-monstro de oito olhos, gigantes e samurais lovecraftianos não tira o foco do filme da missão dos samurais em desgraça, o romance de Kai e Mika é meio morno, mas tem sua razão de ser assim, já que Mika é uma tradicional donzela nipônica e Kai um pária. Mesmo a presença de Kai, além de servir de trampolim para a tradicional história de amor proibido, e pra dar uma amenizada na repulsa dos estado unidenses a um longa cheio de japas também acaba sendo um elemento interessante para mostrar a queda do status dos samurais após tornarem-se ronins, o que fica claro conforme o tratamento deles com relação ao mestiço muda no decorrer da trama.
Cheio de boas intenções, belos cenários e direção de arte caprichada 47 Ronins pode não ser um grande filme, mas merecia melhor sorte do que o naufrágio que sofreu nas bilheterias dos EUA.
Assista sem preconceitos e divirta-se. Vale o ingresso.
"-Eu vou com você, mas se voltar a se ajoelhar diante de Kira, corto sua cabeça."
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