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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Rapidinhas do Capita


O Giordano, má pessoa, mau marido, mau amante, resolveu brincar com a esposa. Mandou-lhe pelo celular uma mensagem que dizia:
"Que tu achas de aparecer aqui no escritório ao meio-dia e almoçar uma piroca bem dura?"
Riu sozinho imaginando a cara da Conceição lendo a mensagem, mas também animou-se a ponto de ir lavar as partes íntimas no banheiro da repartição.
A resposta dela, quando chegou era:
"Não sei... Tem algum homem aí contigo?"
Divorciaram-se.

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A Fabíola comprou um presente de Natal pro Antenor, um perfume que ela gostava muito, colocou em um embrulho junto com alguns chocolates, e anexou um cartão que dizia que ele era o amor da vida dela. Que ele era tudo o que ela sempre quisera em um homem. Que ela mal podia esperar pra eles passarem o resto da vida juntinhos, experimentado, a cada dia, uma felicidade nova.
Na véspera do Natal, a Fabíola entregou o presente ao Antenor, que abriu o embrulho e cheirou o perfume dizendo que era ótimo.
Sua expressão, porém, mudou enquanto ele lia o cartão, e o Antenor passou a noite toda parecendo distante.
Na manhã do dia 26, o Antenor marcou um almoço com a Fabíola, e eles romperam o noivado. A Fabíola nunca entendeu por que, mas acreditou que o Antenor tivesse medo de compromisso.
Não era verdade.
O Antenor andava até bem animado com a ideia de passar o resto da vida com a Fabíola. O problema foi o cartão.
O Antenor achou aquele papo de ser tudo o que a Fabíola queria em um homem, o lance da felicidade nova a cada dia e tal, era muita pressão.
Ele não se sentia capaz de proporcionar uma felicidade nova diária pra alguém. O que afugentou o Antenor da vida da Fabíola foi a expectativa.
O Antenor se pelava de medo de não atender às expectativas dos outros.

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O que fez a Dulce casar com o Godofredo não foi a beleza.
O Godofredo era feio.
Tampouco o dinheiro.
Godofredo era pobre.
Nem a inteligência, foi.
O Godofredo era um sujeito de inteligência medíocre no máximo.
Não...
O que fez a Dulce casar com o Godofredo, amá-lo, honrá-lo e cuidar dele, foi o fato de, na primeira noite em que fizeram sexo, após o ato, que se deu na casa dele, o Godofredo se espichou na cama, passou o braço por trás do pescoço da Dulce, a puxando pra perto de si, ligou a TV com o controle remoto, e o ofereceu à Dulce, que ficou alguns instante olhando pra ele sem entender.
Quando ele disse:
-Escolhe aí um programa pra gente ver.
Ela soube:
Aquele era o tipo de ato de desprendimento que só seria visto no homem com quem ela envelheceria.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Resenha Cinema: O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos


Era óbvio que eu e todos os seres baseados em carbono que se interessam minimamente por cinema espetáculo estavam roendo as unhas para ver O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos.
Mesmo com grupos de fãs detratando o filme de todas as formas possíveis, fazendo queixas do excesso de CGI e telas verdes, da grandiloquência de tornar um livro de leitura relativamente ligeira em um épico dividido em três pedaços, da excessiva vontade de ligar toda e qualquer ponta possível à Trilogia O Senhor dos Anéis (todas queixas que, à bem da verdade, têm fundamento...), a verdade é que, em matéria de cinemão espetaculoso, poucas coisas recentes haviam sido tão divertidas e tinham o lastro de O Hobbit.
A diversão fica por conta da megalomania de Peter Jackson e sua mão especial para desenvolver sequências de ação improváveis e gloriosas, o lastro, claro, é a Terra-Média de Tolkien, um lugar criado em uma escala tão espetacular de detalhes que já se tornou familiar aos fãs de sua obra, que rapidamente conseguem reconhecer lugares e criaturas da literatura.
A combinação dessas duas facetas foi o que tornou O Senhor dos Anéis uma trilogia cinematográfica tão especial, e era o que havia impedido Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug de se tornarem meros supérfluos:
Era uma chance de retornar à Terra-Média com Peter Jackson como guia, e depois de O Senhor dos Anéis, essa não é uma chance que se desperdiça.
Mas a verdade é que, mesmo eu, um fã comedido de O Hobbit na literatura, me perguntava se, três filmes não era demais... E temia que A Batalha dos Cinco Exércitos fosse ter que encher muita linguiça para justificar suas duas horas e meia de projeção...
Ledo e Ivo engano...
A Batalha dos Cinco Exércitos começa com Smaug, o Magnífico (Benedict Cumberbatch) devastando a Cidade de Esgaroth, conforme havia prometido a Thorin e sua companhia.
O terrível dragão, aparentemente indestrutível, lança sua ira chamejante sobre a Cidade do Lago, e enquanto as pessoas tentam fugir, o arqueiro Bard (Luke Evans) tenta escapar da prisão para proteger sua família, amparada por Tauriël (Evangeline Lilly), Kili (Aidan Turner), Fili (Dean O'Gorman), Bofur (James Nesbitt) e Oin (John Callen).
Ao mesmo tempo, Gandalf (Ian McKellen) está aprisionado em Dol Guldur, enfraquecido após ser confrontado com o Necromante, na verdade um disfarce de Sauron, e prestes a ser executado, até a chegada do Conselho Branco, formado por Galadriel (Cate Blanchett), Elrond (Hugo Weaving) e Saruman, (Christopher Lee), além de Radagast (Sylvester McCoy).
Não bastasse tudo isso, Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) parece cada vez mais sucumbir ante a doença do ouro de Erebor, tornando-se paranoico e irascível, incapaz de confiar mesmo em seus aliados mais chegados como Balin (Ken Stott) e Dwallin (Graham McTavish), uma situação que se complica com a chegada do exército élfico da Floresta das Trevas liderado pelo rei Thranduil (Lee Pace), num tabuleiro preparado para um conflito que Bilbo (Martin Freeman) sente que só poderá ser resolvido de uma forma.
Mas poderá Bilbo colocar seu plano em prática antes da chegada de Azog, o profano (Manu Bennett) e seu exército de orcs?
Quando O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos estava prestes a iniciar sua batalha título, eu confesso que, até ali, estava achando o filme o pior dos seis da franquia baseada na obra de J. R. R Tolkien.
Isso porque algumas resoluções haviam sido alcançadas de maneira demasiado rápida, havia CGI demais em algumas cenas, e nem todo ele funcionava a contento (a tropa de elfos da floresta perfilados sob Thranduil, por exemplo, todos com o mesmo rosto, parecendo fugitivos do museu de cera da madame Tussaud...), e os personagens surgiam e desapareciam rapidamente, parecendo que tinham vindo apenas dar um recado...
Mas aí, acertadamente, O Hobbit deixa de ser sobre Dol-Guldur, sobre o Conselho Branco, e volta a ser sobre Bilbo Bolseiro, sobre Thorin Escudo-de-Carvalho, sobre ganância, redenção, aprendizado e amizades verdadeiras, e ainda que a veia de showman de Peter Jackson continue pulsando desesperadamente, quem liga, já que as sequências de ação na tela são de encher os olhos?
Da sequência inicial em Esgaroth, com a luta entre Bard e Smaug até o derradeiro confronto entre Thorin e Azog, tudo funciona no longa metragem de uma forma ou outra.
Se há espaço em excesso para o Legolas de Orlando Bloom, que nem está nos livros, se justifica quando suas sequências de ação são as mais sensacionais do filme, se a Batalha dos Cinco Exércitos se torna uma batalha dos oito ou nove exércitos, quanto mais, melhor, se algumas relações incomodam pelo artificialismo, como a de Tauriël e Kili, compensa-se em outras, como as que Thorin tem com Bilbo, Dwalin e Balin, todas transparecendo genuína amizade...
A pirotecnia de Peter Jackson chega a parecer fora de controle em alguns momentos, O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos é de longe o momento em que o roteiro do diretor (com suas associadas Fran Walsh, Phillipa Boyens além de Guillermo Del Toro) mais se distancia dos escritos originais de Tolkien, mas as personagens do escritor são muito bem construídas, e quando a estória inevitavelmente retorna para seus protagonistas, as coisas voltam aos eixos sem que nenhum gosto amargo fique na boca.
Com algumas belas atuações, sequências de ação sensacionais, momentos de tensão de deixar neguinho na ponta da cadeira e algumas cenas verdadeiramente tocantes, capazes de trazerem lágrimas aos olhos da nerdalhada, O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos talvez não seja o melhor filme do ano, talvez ainda seja o mais fraco dos seis filmes de O Senhor dos Anéis, mas ainda é acima da média, cinemão-pipoca da melhor qualidade.
Assista no cinema.
A despedida da Terra-Média merece pompa e circunstância.

"Vocês me seguiriam uma última vez?"

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Rapidinhas do Capita


Com sua base de dados hackeada, a Sony viu serem revelados entre outras coisas (como salários de executivos e problemas na produção de filmes do estúdio) a troca de e-mails entre a dirigente da Sony Amy Pascal, o CEO da empresa, Kaz Hirai e o CEO da Disney Bob Iger.
Nessa conversa entre os figurões, está a negociação da Sony para integrar o Homem-Aranha ao universo cinematográfico Marvel, o que deveria ocorrer mais precisamente em Capitão-América - Guerra Civil (nos quadrinhos o Homem-Aranha tem papel central na trama ao ser fantoche tanto de Tony Stark quanto de Steve Rogers).
A Marvel propõe produzir uma nova trilogia do personagem dando à Sony controle criativo, marketing e distribuição.
A Sony, porém, pareceu não ter gostado da proposta e decidiu seguir adiante com seus planos de dar sequência à série Espetacular a despeito da decepção com a bilheteria de O Espetacular Homem-Aranha 2 (que, com 708 milhões de dólares em bilheterias no mundo todo, tem mais caixa do que O Homem de Aço e Thor - O Mundo Sombrio, por exemplo, e fica pouco atrás de Guardiões da Galáxia e seus 771 milhões...).
Enquanto planeja o seu filme do Sexteto Sinistro, que poderia ser um incompreensível recomeço para a franquia, o filme solo do Venom, e o spin-off estrelado pelas mulheres do universo aracnídeo, a Sony ainda mantém a negociação com a Marvel como saída de emergência caso Sexteto Sinistro fracasse nas bilheterias (o que, na verdade, parece mais uma certeza do que uma possibilidade...).
A Sony ainda planejaria uma comédia animada do Homem-Aranha com a dupla de Uma Aventura Lego, Phil Lord e Chris Miller, e até uma reaproximação de Sam Raimi como diretor ou produtor ao universo aracnídeo.
Ou seja, a Sony está absolutamente perdida com relação ao que fazer com o personagem, e deveria ter fechado o tal acordo com a Marvel ontem...

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Eo Badass Digest noticiou rumores a respeito de Batman v Superman - Dawn of Justice, que podem deixar alguns fãs mais tradicionalistas do morcegão, como este blogueiro que vox escreve, com o pé atrás:
Segundo o site, no filme, Batman já seria um combatente do crime há cerca de dezessete anos, sendo, inclusive, tratado como uma lenda urbana em Gotham City.
Isso é muito bacana, a parte ruim da notícia, é que o comissário Gordon, habitual parceiro do homem morcego no combate ao crime, já teria morrido.
O rumor segue dizendo que as circunstâncias da morte do comissário (ou seu assassino, se for o caso) não seriam mencionadas no filme, mas que haveria uma placa em honra à memória de Gordon em algum lugar de Gotham.
Pôxa...
A única coisa mais essencial que o comissário Gordon em uma história do Batman são o Alfred e, claro, o próprio Batman.
Deixar o comissa de fora é a primeira bola fora da produção que, até aqui, colecionava acertos á exceção da pressa.

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E foi divulgado um poster promocional de Agent Carter, série solo da mocinha de Capitão América - O Primeiro Vingador, interpretada pela (espetaculosa) atriz Hayley Atwell:


O seriado que estréia em 6 de janeiro nos EUA focará na agente Peggy Carter e seu papel na fundação da SHIELD a partir da SSR na década de 40, após o fim da Segunda Guerra Mundial e o sumiço de Steve Rogers.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Resenha Blu-Ray - Palavrões


Jason Bateman é um bom ator. Quem viu suas raras incursões ao drama lembrará de personagens críveis e humanos, retratados de maneira delicada como em Juno. Ele também é um comediante acima da média, que infelizmente teve raras oportunidades de mostrar tudo o que podia fazer no cinema. Se na TV ele viveu o impagável Michael Bluth em Arrested Development, nas comédias cinematográficas em que atuou no cinema ficou sempre relegado ao papel do coxinha que precisa de um empurrão pra aprender a viver.
É o papel que faz em Quero Matar Meu Chefe e Uma Ladra Sem Limites, por exemplo...
Talvez, inclusive tenha sido essa repetição de papéis a responsável por levar Bateman à cadeira de diretor para esse Palavrões, escrito pelo estreante Andrew Dodge, o longa metragem narra a epopeia de Guy Trilby (Bateman) um sujeito de 40 anos que se aproveita de uma brecha no regulamento para se infiltrar em um concurso de soletrar regional que garante vaga para o afamado concurso nacional "Pluma Dourada", maior torneio de soletrar dos Estados Unidos.
Odiado por organizadores e pais dos jovens competidores, Trilby não se abate, e segue deixando sua trilha de destruição moral rumo à final do Nacional, insultando todos os seres vivos que encontra pelo caminho, homens, mulheres e crianças, jovens e velhos, sem nenhuma distinção.
Nem mesmo Jenny Widgeon (Kathryn Hahn), a repórter de um jornal online que patrocina o desvario de Guy em troca de contar sua história recebe um refresco, sendo constantemente ofendida pelo sujeito para quem paga hotéis, aluguel de carros e refeições e com quem mantém uma rotina de sexo casual sem contato visual entre uma parada e outra.
Após se classificar para o prestigioso torneio nacional, que será televisionado pela primeira vez na história, Guy conhece o jovem Chaitanya Chopra (Rohan Chand, ótimo.), molequinho de dez anos de idade com ascendência indiana, nerd, tímido e sem amigos que vê em Guy a figura paterna que seu pai não sabe ser, e o amigo que nunca teve.
Enquanto evita a entrevista de Jenny, tentando descobrir o que leva um quarentão a se sujeitar ao constrangimento de participar de uma competição para crianças, e é alvo do ódio de seus concorrentes contra os quais não tem vergonha de usar táticas de guerrilha para desestabilizar emocionalmente, da ira da diretora do concurso doutora Bernice Deagan (Allison Janney) e do idealizador da competição, doutor Bowman (Phillip Baker Hall), e da amizade aparentemente inevitável de Chaitanya, Guy segue esculhambando todo mundo que surge pela frente em seu inexorável caminho rumo ao título.
Como estréia na direção, não chega a ser perda total o trabalho de Bateman.
Aparentemente ansioso por mostrar um lado seu que os produtores e diretores em geral parecem ignorar, ele constrói um personagem verdadeiramente detestável em seu Guy Trilby. Grosseiro, racista, misógino e homofóbico, o intolerante e intolerável protagonista é a antítese de tudo o que Bateman já fez na vida, mas a certa altura, o choque pelo choque simplesmente não convence.
Nada do que é visto em Palavrões surpreende quem já viu qualquer filme produzido por Judd Apatow de O Virgem de 40 Anos pra cá.
Em seu esforço para mostrar o quanto pode ser escroto, Bateman constrói um personagem difícil de se relacionar e quase impossível de gostar, e, não fosse o carisma do ator, nós provavelmente torceríamos contra Guy em tudo o que ele fizesse.
Por sorte, surge Rohan Chand.
O molequinho sabe atuar, e divide a cena com Bateman sem fraquejar. Sua presença leve altera o filme, pois altera o comportamento de Guy, e a cena em que os dois saem para uma noite de travessuras, pregação de peças e descobertas é, de longe, a melhor do filme.
Com algumas sequências verdadeiramente engraçadas, e um esforço autêntico de Bateman, Palavrões vale a locação, mas é fácil de notar porque não passou pelos cinemas por aqui.

"-E então? Você tem uma namorada? Alguma galinha Tikka deixa seu camarão ao curry duro?
-Não... Eu não tenho namorada. Mas quando tiver, vai ser uma com mamilos.
-Sorte sua. Todas elas têm, parceiro.
-Não. Nem todas.
-Todas elas têm. Eu garanto.
-Não, não têm...
-Ok... Não sei como foi que eu perdi isso.
-Quando você olha os peitos das garotas na rua, de algumas os mamilos aparecem através da blusa, de outras, não."

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

(Re)Aprendendo a Voar


Ele estava escorado na porta da cozinha com uma lata de Pepsi na mão, ela estava parada na frente do fogão, mexendo o conteúdo de uma panela com uma colher de madeira.
Ao fundo ressoava Learn to Fly, do Foo Fighters.
"Run and tell all of the angels... This could take all night..."
Ela tampou a panela, largou a colher sobre um guardanapo de papel em cima de uma mesinha de fórmica amarela, virou-se pra ele e sorriu:
-Agora é só esperar ficar pronto.
Ele sorriu de volta:
-E ter o telefone da pizzaria à mão.
Ela jogou o pano de prato que usava pra enxugar as mãos nele, que se defendeu com uma risada, enquanto devolvia o pano de prato pra ela, que disse:
-Tu é muito calhorda. Eu devia estar cozinhando pra um namorado. Pro futuro pai dos meus filhos, não pra um monstro que nem tu... Nem sei porque eu tô me dando esse trabalho esse calorão.
"Hook me up a new revolution... Cause this one is a lie...We sat around laughing and watched the last one die..."
-Cobaia - Ele disse, enquanto se afastava de novo.
-Hã? - Ela perguntou.
-Cobaia. - Ele sustentou. -Tu não pode correr o risco de afugentar o amor da tua vida, o pai dos teus filhos, então tu pratica comigo. Me usa como cobaia, vendo como tu está de dotes culinários.
-Hmmm. - Ela assentiu, olhando pra cima de cenho franzido. -Bom ponto, lorde Stark, bom ponto.
-Entretanto - Ele seguiu -Talvez tivesse sido mais prudente procurar alguém mais exigente que eu. Tenho paladar de ogro, gosto de quase tudo.
Ela deu uma risada forçada de deixar Rocket Racoon com inveja:
-Rá! Tu é a pessoa mais fresca que eu conheço pra comer, criatura!
-Sou nada! - Ele protestou.
-Tu é! - Ela insistiu. -Meu Deus, nunca vi um homem do teu tamanho ter tanta frescura pra comer... O que é tu comendo lanche do McDonald's? Catando cebola com os dedos...
E imitou o gesto dele catando, com o polegar e o indicador, o dedo mínimo mais aberto que os demais, os pedaços de cebola da superfície do sanduíche aberto.
Ele riu:
-Nah... Eu cato a cebola porque não gosto... Frescura seria se eu me recusasse a comer. - Racionalizou.
"I'm looking to the sky to save me... Looking for a sign of life..."
-Nem vem... Cebola: Não come. Pepino: Não come. Churrasco de ovelha: Não come... Tu não sabe o desgosto que foi pro meu pai-
-Mas eu comi o churrasco de ovelha do teu pai! Eu comi! - Ele interrompeu. -E isso que eu detesto carne de ovelha. Não como nem o churrasco de ovelha do meu pai, que é o melhor churrasqueiro do Rio Grande do Sul...
-Todo mundo diz isso do próprio pai. - Ela disse, fazendo pouco caso.
-É, mas no meu caso é diferente. Todo mundo que come o churrasco que meu pai faz diz a mesma coisa. Até quem é ranheta e se recusa a admitir começa a dizer "Ah, o melhor churrasco do mundo é o do meu pai, empatado com o do teu pai...". - Ele explicou.
-Bom, não importa, porque eu nunca comi o churrasco do teu pai, e tu fez pouco caso do churrasco de ovelha do meu pai. - Ela disse, com pouco caso.
-Não é verdade... Não fiz pouco caso. Só disse que, não gostava de ovelha. Mas acrescentei que estava muito bom. - Ele se defendeu.
-Não, não... Tu disse "Eu não gosto de carne de ovelha, mas essa não tá ruim."!
-Ah... Isso era um elogio de alguma forma... - Ele disse, rindo ao perceber a grosseria involuntária.
"Fly along with me, i can't quite make it alone... Try and make this life my own..."
Ficaram parados de novo, ela se apoiou na geladeira e abriu a porta, curvando-se pra dentro do eletrodoméstico:
-Calooooooooooooooor... - Disse, enquanto esgueirava-se, reborcando o corpo esguio por cima das prateleiras e se esquivando de jarros e frascos.
Ele, desconfortável ao perceber a lombar nua dela surgir entre a regata branca e o short de algodão amarelo pigarreou olhando em volta:
-Tu não tem nenhum gato, não é?
Ela saiu de dentro da geladeira fazendo uma expressão entre a surpresa e a confusão:
-Não...
-É... Eu gosto disso... Sem animais de estimação. - Ele disse.
Ela o encarou:
-Mas tu tem um cachorro... Um baita cachorro, diga-se de passagem.
-É... Eu sei... Mas é diferente... Mulher solteira e sem filhos com animal de estimação, especialmente gato, parece... Sei lá... Estar tentando compensar alguma coisa... Alguma falta de conexão... - Ele conjecturou sem muita certeza.
-Tipo a velha louca dos gatos dos Simpsons...?
-Tipo isso... - Ele concordou.
"Looking for something to help me burn out bright... I'm looking for a complication... Looking cause I'm tired of trying..."
Ela ficou encarando ele por algum tempo... Tomou fôlego e virou levemente o rosto fechando um olho:
-Tem algum elogio oculto nisso aí, também, não tem?
Ele sorriu.
-Viu? Tu me entende...
Ela riu.
-Tu tá elogiando a minha... Como tu diz? Solidez de caráter?
-Firmeza - Ele corrigiu. -Tua firmeza de caráter. E a tua força interior...
-Porque eu sou uma solteirona sem filhos, cachorros ou gatos e tu não entende como é que eu ainda não cortei meus pulsos com uma faca de manteiga...
Ele fez uma cara surpresa e deu de ombros como quem admite que não tem solução pra conclusão à que ela chegou.
"I think i'm done nursing the patient... It could wait a night... I'd give it all away if you give me one last try... "
Ela disse:
-Tu é horrível. Todos os teus elogios encerram uma ofensa oculta.
-Como eu elogiar a tua coragem em andar de short com essas pernas finas de saracura?
"We live happily ever trapped if you just save my life..."
Ela abriu a torneira e deu um tapa na água molhando-lhe as calças.
Ele protestou com um "nããããããããããããããããããããão!!!" e os dois começaram a rir muito. Ela riu de se dobrar, e então parou de rir, cruzou o braço esquerdo diante do peito, e apoiou o cotovelo esquerdo no antebraço, e colocou o polegar diante dos lábios, e sorriu olhando pra frente como quem sente falta de alguma coisa.
Ele se aproximou dela, a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto, perto da orelha. Um cheiro forte de laranja-lima encheu-lhe as narinas. Afastou-se um pouco, e segurou o queixo dela a olhando nos olhos muito, muito azuis. Ela parecia assustada. Aturdida. Sem saber como reagir àquela aproximação excessiva e súbita.
-Alemoa... - Ele disse.
-Que foi? - Ela perguntou, olhando pra ele, surpresa.
-Teu bobó de camarão tá queimando. - Ele disse com um sorriso contido.
-Biltre! - Ela exclamou virando-se para a panela e apagando o fogo, ligeira.
"Make my way back home when I learn to fly high... Make my way back home when I learn to fly... Make my way back home when I learn to, learn to, learn to..."
Ela ergueu a tampa da panela com uma expressão que deve ter sido como a dos Cruzados de Jerusalém vislumbrando a aproximação das hordas de Saladino, mas imediatamente a expressão se abrandou, e após uma mexida rápida com a colher de pau, ela declarou:
-Deu uma queimadinha embaixo... Mas nada de grave. Tu gosta de arroz de carreteiro queimado no fundo, quer dar chance ao meu bobó? - Perguntou.
Ele estava apoiado nos cotovelos, debruçado sobre o balcão da cozinha, sorria olhando pra ela.
-Não vejo motivo pra não experimentar...
Ela o olhou de esguelha, abriu um sorriso desconfiado:
-Tu tá bem?
Ele, ainda sorrindo respondeu:
-Vou aprender a ficar...

Abel, Não



Confesso que estou com o estômago revirado após ler as últimas entrevistas de Vitório Píffero, candidato da oposição à presidência do Inter para o biênio 2015/2016.
O candidato que, comentava-se, tinha acerto verbal com o técnico Tite para comandar o Internacional na Libertadores 2015 declarou com todas as letras, que seu preferido para o comando técnico do Inter no ano que vem é, de novo, Abel Braga, alardeado como o treinador da situação, encerrada na figura de Marcelo Medeiros, o invisível vice-de futebol de Giovanni Luigi, atual presidente.
Eu nem sei por onde começar a desenrolar meu rosário de queixas...
Não tenho nada contra o Abel pessoalmente. Admiro seu alardeado Coloradismo (ainda que duvide dele, cético que sou.), sou extremamente agradecido pela Libertadores e pelo Mundial de Clubes 2006, gre-Nal do Século, e outros trunfos seus à frente do escrete Colorado, mas não agradeço pela vaga direta à Libertadores no campeonato encerrado domingo.
Não agradeço porque o Inter esteve em condições de assumir a liderança do campeonato ao longo da competição, e não foi capaz de fazê-lo.
Não agradeço porque o Inter perdeu a segunda colocação de maneira completamente lamentável, e chegou a perder a terceira e até a quarta colocação à certa altura.
Não agradeço porque o Inter é um dos maiores clubes do Brasil, gasta como tal, e vaga à Libertadores é obrigação mínima de uma equipe do porte e da estatura do Internacional.
Então, não vou fazer coro com aqueles que acham que o trabalho do Abel foi brilhante por ele ter feito, nesse ano, a melhor campanha da História do Inter no universo do campeonato Brasileiro por pontos corridos com vinte clubes.
Não agradecerei pelo seu Inter ter feito vinte e um pontos a mais do que no ano anterior com "praticamente o mesmo time" (uma balela já que, neste ano, tivemos os reforços de Paulão, Ernando, Alan Costa, Alisson, Eduardo Sacha e Charles Aránguiz), nem tampouco por ele ser um "paizão" dos jogadores...
Não agradeço por nada disso.
Não agradeço porque após um ano de comando de Abel Braga, ninguém era capaz de entender como o Inter jogava.
Porque o Inter não tinha uma jogada além do balão da zaga pra área adversária.
Porque o Inter levou 5 x 0 da Chapecoense.
Porque levou 4 x 1 do grêmio.
Porque perdeu para o Vitória em casa.
Porque perdeu, de virada, para o Figueirense no Beira-Rio.
Porque vencia o Botafogo no Rio por 2 x 0 e conseguiu levar o empate.
Porque foi incapaz de vencer qualquer um dos clubes no G-4.
Porque levou um nó tático de Vanderlei Luxemburgo.
Porque levou um nó tático de Mano Menezes.
Porque levou um nó tático de Luís Felipe.
Porque foi eliminado da Copa do Brasil, em casa, pelo Ceará.
Porque foi eliminado da Sul-Americana, em casa, pelo Bahia.
Porque mandou que Giovanni Luigi guardasse "seu dinheirinho" porque confiava em Rafael Moura e Wellington Paulista.
Porque considera Willians indispensável.
Porque disse que as renovações de índio e Juan eram prioritárias.
Porque colocou o Wellington Paulista em campo sempre que teve oportunidade, nem que fosse como meia-esquerda.
Porque indicou Wellington Silva e Gilberto.
Porque tinha o Dida como titular absoluto do gol.
Porque não levou o Nilmar para os últimos jogos para que a torcida não "pegasse no pé" de Rafael Moura.
Porque disse que Valdívia sentia o peso das partidas mas que Rafael Moura não, porque tinha "psicológico forte".
Porque "parte pra dentro deles" tirando todos os armadores de campo e empilhando atacantes fora de posição.
Porque disse que o Wellington Silva "resolveu o jogo" contra o Palmeiras.
Porque parece incapaz de fazer a leitura de qualquer partida.
Porque parece incapaz de dizer porque o Inter vence ou perdeu qualquer partida no ano.
Porque toda a vez que o time do Inter melhorou foi porque as circunstâncias o forçaram a mudar o time.
Porque deixou Pato no banco e escalou Michel e Gabiru como titulares na Libertadores 2007.
Porque manter Abel no cargo após 2014, é reincidir no erro cometido quando Celso Roth foi mantido no cargo após o Mundial 2010.
O Inter precisa urgentemente de oxigenação, e isso passa pela cartolagem, pela comissão técnica e pelo time.
A camisa colorada faz o trabalho duro. Mas não faz milagre.

Ora, Vamos, Jeremy Irons...


E o ótimo Jeremy Irons, que será o mordomo Alfred em Batman v Superman - Dawn of Justice deixou bem claro que não sabe absolutamente nada de quadrinhos e que nem sequer viu os outros filmes de Batman, ou que é péssimo nesse negócio de esconder o jogo.
Perguntado sobre o que poderia se esperar de sua encarnação do mordomo mais famoso dos quadrinhos no filme dirigido por Zack Snyder ele disse:
"É um Alfred diferente de qualquer um que vocês já viram. Zack Snyder tinha uma visão muito clara do que ele queria. Eu diria que ele está mais envolvido com as coisas do que ser um simples mordomo"
Ora, vamos, Jeremy... Isso não é nem um pouco diferente de nenhum dos Alfreds que já vimos.
Até na série dos anos sessenta o Alfred vivido por Alan Napier na colorida série do Batman dos anos sessenta vestia o traje do Homem-Morcego(!) em certas ocasiões, e chegou a enfrentar o Coringa sozinho em um duelo de esgrima usando atiçadores de lareira.
Michael Caine com o que foi, an opinião deste humilde nerd, o melhor Alfred do cinema contava causos sobre seu passado como mercenário caçando criminosos na Birmânia.
O discreto Alfred de Michael Gough nos filmes com Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney era capaz de identificar os compostos químicos usados no gás do Coringa.
...Qualquer um sabe que o Alfred está muito mais envolvido com as coisas do que ser um simples mordomo, pelo amor de Deus... Alfred não é apenas o empregado de Batman, seu médico/enfermeiro, assistente, mecânico e faz-tudo.
Alfred sempre foi a âncora de Bruce Wayne na realidade. O porto-seguro de quê o guardião de Gotham precisava para andar à beira do abismo todas as noites sem jamais ser sugado para o lado mais obscuro de sua escolha de vida.
Alfred é o personagem coadjuvante mais importante de Batman porque é muito mais do que um simples mordomo, é alguém que sempre foi capaz de, ou ao menos tentou de maneira contrita, entender a complexa psicologia que levou Bruce Wayne à se tornar um morcego.
Sem Alfred não há Bruce Wayne, e nem Batman.
E mesmo que Jeremy Irons não soubesse de nada disso, que bom que Zack Snyder aparentemente sabe, assim o Batman de Ben Affleck dá mais um passo na direção correta.
De qualquer forma, não faria mal algum a Irons assistir a trilogia de Batman de Christopher Nolan.
O Alfred definitivo (assim como o Batman definitivo, o Coringa definitivo, o comissário Gordon definitivo...) no cinema, pelo menos por enquanto, está lá, na expressão cansada e cálida e nas tiradas sarcásticas de Michael Caine.