Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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terça-feira, 10 de novembro de 2015
Rapidinhas do Capita
No final de semana começaram a espocar imagens do set externo de Doutor Estranho no Nepal. Na imagens podemos ver o visual do doutor Stephen Strange enquanto procura desesperadamente uma cura para suas mãos destruídas após um acidente.
Além de mostrar Strange, as fotos também mostram o visual do Barão Mordo, inimigo tradicional do mago supremo da Terra que será interpretado por Chiwetel Ejiofor.
Além deles, o elenco ainda tem Tilda Swinton, como O Ancião, Michael Stuhlbarg como o doutor Nicodemos West, além deles, Rachel McAdams e Mads Mikkelsen tiveram seus nomes ligados ao projeto, mas não foram confirmados.
O longa escrito por Jon Spaiths (além de Joshua Oppenheimer e Thomas Dean Donnely) é dirigido por Scott Derrickson fazendo parte da Fase 3 do Universo Cinemático Marvel. A estréia está marcada para 3 de novembro de 2016.
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Todo mundo ouviu a história de Daniel Fleetwood, fã de Star Wars diagnosticado com um raro câncer no tecido conjuntivo que havia iniciado uma campanha para poder assistir Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força antes do lançamento do filme no cinema.
Tendo vivido além das previsões de seus médicos, Daniel duvidava ser capaz de sobreviver até dezembro. Sua campanha nas redes sociais ganhou o apoio de várias pessoas, incluindo atores do filme, como Daisy Ridley, John Boyega, Peter Mayhew, Carrie Fisher e Mark Hammil.
A campanha surtiu efeito, e na última semana, a Disney, a Lucasfilm e o diretor J.J. Abrams concordaram em mostrar ao fã uma cópia ainda inacabada do longa, que ele pôde assistir em sessão privada em sua casa no dia 5 de novembro último.
Após realizar seu sonho, Daniel Fleetwood morreu na madrugada desta terça-feira, aos 32 anos, dormindo de maneira pacífica, segundo sua esposa Ashley, que em nota agradeceu a todos os apoiadores da campanha do marido, e à Disney por, em sua melhor tradição, tornar um sonho realidade.
Daniel tornou-se um com a Força, tendo sido o primeiro fã de Star Wars, a assistir o longa, aguardado por legiões de nerds.
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E falando em Star Wars, será que no Brasil, assim como nos EUA, será proibido atender às sessões de pré-estréia e estréia de Star Wars - O Despertar da Força, usando máscaras, pintura facial, e portando objetos alusivos à armas, conceito que nos Estados Unidos, ao menos para a rede Cinemark (facilmente a pior entre as grandes redes de cinema atuando no Brasil no que tange a consideração pelo público) incluem sabres-de-luz.
Por mais que se entenda a paranoia (justificada) dos norte-americanos com tiroteios em toda a parte, escolas, cinemas, hospitais, fica a dúvida de qual o motivo para proibir a entrada de sabres de luz nas salas. Por mais barulhentos e luminosos que os brinquedos baseados na arma clássica da franquia, eles certamente não incomodam mais do que gente conversando e fuçando no celular durante os filmes.
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sábado, 7 de novembro de 2015
Resenha Cinema: O Último Caçador de Bruxas
Eu confesso que nada vinha me chamando muito a atenção em O Último Caçador de Bruxas. Durante toda a divulgação ao longo do desenvolvimento do filme, o longa me pareceu genérico e aborrecido, nada que fosse valer a pena assistir em tela grande, quando muito uma curiosa sessão de DVD daqui alguns meses.
Mas o cinema anda curto de bons lançamentos, 007 Contra SPECTRE me desapontou um bocado, na quinta-feira, e eu imaginei que assistir um filme sem nenhum tipo de expectativa serviria para tentar amainar a situação.
Como minhas expectativas com relação ao filme com Vin Diesel eram baixíssimas, pensei "Por que não?", e toca pro cinema ver o longa do brucutu nerd.
O longa narra a história de Kaulder (Vin Diesel), um guerreiro medieval que em meados do século XIII partiu com um grupo de camaradas rumo à Árvore da Peste, de onde a terrível Rainha-Bruxa (Julie Engelbrecht) lança uma praga sem precedentes sobre a humanidade, ceifando as vidas de milhares.
O grupo de guerreiros passa por uma horrenda provação, sendo dizimado pelo poder demoníaco da bruxa. Mas após uma árdua batalha, Kaulder consegue empalar a medonha feiticeira com sua espada, mas não sem que ela, antes de perecer, o amaldiçoe com o dom da vida eterna, apartando-o para sempre de sua esposa e filha, a quem ansiava por reencontrar na morte.
Oitocentos anos depois, Kaulder se tornou A Arma, o mais formidável guerreiro da Ordem do Machado e da Cruz, um conclave de bruxas e padres que firmou uma trégua tênue, mas duradoura, garantindo algumas regras para a coexistência das feiticeiras com a humanidade, de quem se escondem em plena vista.
Quando alguma bruxa ou bruxo sai da linha, Kaulder entra em ação, doutrinando, encarcerando ou, se necessário, matando o transgressor. Para auxiliar Kaulder, há uma linhagem de sacerdotes que fazem o registro da vida e do trabalho do guerreiro, servindo como seus confessores e, em alguns casos, amigos. Eles são os Dolans.
Na noite em que o 36º Dolan (Michael Caine) anuncia sua aposentadoria, ele morre. Após conhecer o 37° Dolan (Elijah Wood), Kaulder decide investigar os detalhes da morte do Dolan veterano, apenas para descobrir que ele foi atacado por necromancia. Magia negra da estirpe mais sombria.
A investigação de Kaulder o leva até o feiticeiro Belial (Ólafur Darri Ólafsson, de Caçada Mortal e A Vida Secreta de Walter Mitty), que planeja trazer a Rainha Bruxa de volta à vida e extinguir a humanidade de uma vez por todas.
Com a ajuda relutante da bruxa Chloe (Rose Leslie, de Game of Thrones), Kaulder precisa usar todo o seu conhecimento e habilidade para evitar que a pérfida conjuradora renasça e conclua seu intento.
Quer saber?
Eu gostei.
A ode nerd de Vin Diesel é uma salada que parece ter sido feita de modo a juntar o maior número possível de referências a produtos nerds de qualidade. Do elenco que conta com Alfred, Frodo e Ygritte, aos monstros gigantes, poções mágicas, espadas flamejantes, magos classificados por nível e conclaves de feiticeiros, O Último Caçador de Bruxas é uma tentativa absolutamente válida de criar uma mitologia nova, amparada em conceitos bem sucedidos.
O diretor Breck Eisner (do intragável Sahara) mostra que não é burro, aproveitando o roteiro de Cory Goodman, Matt Sazama e Burk Sharpless que, se não tem nenhuma inovação, ao menos tem a decência de não apelar pra superexposição para criar ora cenas que são genuinamente tensas (como a sequência em que Chloe é atacada por uma entidade em sua casa), ora momentos de fato engraçados (a cena da selfie é ótima), e sequências de ação que, se não empolgam, não arrancam bocejos (a luta estilo D&d na introdução é muito boa).
Se Vin Diesel não tem estofo dramático pra convencer como um sábio guerreiro secular, ele é um astro de ação suficientemente reconhecido pra dar lastro à pancadaria. Quando ele solta frases de efeito, atira com uma escopeta ou brande uma espada em chamas, ora que diabos, é divertido de ver.
Michael Caine é sempre um deleite de se ver atuando, Elijah Wood se esforça, Ólafur Darri é divertido e ameaçador com seu físico de barril gigante e barbona espetada e a engraçadinha Rose Leslie rouba a cena com uma agradável mistura de ternura e ranheta.
A música praticamente não existe, os efeitos visuais são suficientemente bons, e a história é boba o bastante pra audiência entender que a suspensão de descrença tem que estar muito em dia, mas bem executada que chegue para nos querer mantê-la assim.
No final das contas, O Último Caçador de Bruxas foi uma grata surpresa, e ainda que pudesse ter sido melhor aqui e ali, me divertiu um bocado.
Vale o ingresso.
"A ferro... E fogo!"
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Resenha Cinema: 007 Contra SPECTRE
Assistir a um filme de 007 é uma tarefa (ou um lazer) que demanda uma dose nada desprezível de suspensão de descrença. Desde 1962, Sean Connery e o satânico Dr. No até 2002, Pierce Brosnan e um novo dia para morrer (ou 2003, Pierce Brosnan e tudo ou nada, já que o game era um perfeito filme de Bond da fase corrente...), o absurdo e o exagero eram personagens tão recorrentes e importantes na mitologia do mais longevo espião do cinema quanto M, Q, Moneypenny, os automóveis estilosos, as locações exóticas, as belas mulheres e os vilões extravagantes.
Isso mudou bastante em 2006. Quatro anos após Pierce Brosnan pendurar o smoking e a Walther PPK, James Bond ganhou os músculos de aço e a carranca de Daniel Craig, e, mais do que isso, ganhou ao menos um pé no chão.
O longa de Martin Campbell escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis mostrava um James Bond que tentava se inserir e ser relevante em uma imitação passável do mundo real. O vilão de Mads Mikkelsen era um traficante de armas, a bond girl de Eva Green tinha personalidade e estofo, e James Bond tinha profundidade, sentindo medo, raiva e se apaixonando por uma mulher de verdade.
007 Cassino Royale é provavelmente o melhor filme da série Bond em todos os tempos, mesmo que não seja o melhor Bond Movie (são coisas absolutamente distintas), e preparou o terreno para o Bond carrancudo e frio que vimos seguir o rastro de Mr. White (Jesper Christensen) até 007 - Quantum of Solace, cujo final preparava o terreno para um James Bond com mais cara do James Bond de antigamente, o que de fato aconteceu em 007 - Operação Skyfall.
O grande problema dos filmes estrelados por Craig é justamente o fato de eles terem começado fincando os pés no chão, e paulatinamente irem tirando. Claro, eu disse ali no começo que é necessário suspensão de descrença para assistir um Bond Movie, mas conforme as produções se declaram abertamente como sequências umas das outras, me soa como um pouco de leviandade que se demande uma porção um pouco maior de indulgência do público a cada segmento. A despeito de serem as sequências mais diretas da série (ao menos desde que Roger Moore se vingou pela morte da esposa de George Lazenby) Cassino Royale e Quantum Of Solace tem muito pouco a ver, em termos de atmosfera, com Skyfall e com SPECTRE.
No quarto longa de Craig como James Bond, o segundo dirigido por Sam Mendes, Bond está na Cidade do México durante o feriado do Dia dos Mortos.
Obviamente o agente de sua majestade com permissão para matar não está lá a lazer.
007 tem uma missão herdada da M anterior (Judi Dench), e um alvo.
Após demolir um quarteirão da cidade, matar quatro pessoas, quase derrubar um helicóptero e causar um incidente diplomático, Bond volta a Londres para se encontrar com o novo M (Ralph Fiennes), levar a sua tradicional dura, e ser suspenso pela enésima vez.
Por mais compreensivo que o M da vez seja, ele está travando uma luta interna para manter a unidade 00 em funcionamento após a fusão dos setores MI-5 e MI-6.
Max Denbigh (Andrew Scott, o Moriarty de Sherlock), novo chefe de segurança britânico acredita que os operativos com permissão para matar estão obsoletos, e pretende encerrar a divisão o quanto antes.
Mesmo suspenso, Bond não sossega, com a ajuda de Moneypenny (Naomie Harris) e Q (Ben Whishaw) segue o rastro do assassino morto no México até Roma, na Itália, onde encontra a viúva do bandido, a bela Lucia (Monica Bellucci), e tem um encontro com o passado na forma de Franz Oberhauser (Christoph Waltz), também conhecido como Ernst Stavro Blofeld (ora, vamos. Todo mundo já sabia).
Esse encontro leva Bond até seu antigo inimigo, Mr. White (Jesper Christensen), e à filha do bandido, Madeleine Swann (Léa Seydoux), em uma corrida para encontrar o onisciente Blofeld antes que ele consiga colocar em prática seu plano de domínio global.
Funciona? Bom... Mais ou menos.
Bem, e qual o problema de SPECTRE?
É difícil precisar... Talvez a mão de Paul Haggis faça falta ao roteiro escrito a oito mãos por Neal Purvis, Robert Wade, John Logan e Jez Butterworth. O script do longa reduz a história do filme a uma sucessão de brigas e perseguições costuradas por referências aos filmes anteriores da série e uma superexposição que chega a ser irritante mesmo para o padrão dos Bond Movies.
Os cenários se empilham sob a fotografia de Hoyte Van Hoytema sempre com tons pastéis e nós vamos de geleiras à desertos e cidades históricas viajando de carro, avião ou trem e nada faz diferença, mesmo as melhores sequências de ação do longa, a cena sem cortes que abre o filme, e a luta com Hinx (Dave Bautista) no trem, parecem datadas, coisas que já vimos em outros filmes da franquia.
O aceno de um Bond frio, calculista e letal, porém humano, que havíamos visto em Cassino Royale e (em menor grau) Quantum of Solace se desvanece sob a figura do arquétipo de terno apertado ou gola rulê que mata, quebra ou fode tudo o que passa pela sua frente de maneira tão inexorável que, quando o roteiro sugere que de fato existem sentimentos entre Bond e Madeleine, isso soa forçado, gratuito, e até bobo.
Além disso, se o adágio que diz que um filme de Bond é tão bom quanto seu vilão está correto, temos aí outra explicação para os problemas de SPECTRE. Christoph Waltz pode ter sido rotulado como um ator que sempre repete o mesmo papel, mas o faz com um carisma magnético do qual é totalmente despido no longa. As motivações vingativas do personagem são tão pueris e tolas que o vilão, que pouco aparece, não consegue ser ameaçador nem quando ganha a sua tradicional cicatriz no olho, ou monta uma elaborada armadilha para Bond nas ruínas do MI-6.
A despeito de ser uma aventura divertida em sua sucessão de viagens pelo mundo, brigas, tiroteios e piadinhas, 007 Contra SPECTRE acaba sendo uma promessa não cumprida na comparação com o primeiro longa do segmento Craig de 007. Ao invés de evoluir e desenvolver o personagem, o que aconteceu foi o exato oposto, conforme o homem por trás do espião foi empalidecendo ante uma sugestão de conspiração com muito mais forma do que conteúdo.
Daniel Craig, que falou um bocado de bobagem após a gravação de SPECTRE, ainda tem contrato para mais um filme. Pode ser a chance de cumprir a promessa de 2006, ou enterrá-la de vez sob o peso de mais de cinquenta anos de um produto claramente desgastado.
Assista no cinema apenas se também for um fã de 007.
"-Se você não partir agora, morreremos juntos.
-Eu posso pensar em formas piores de morrer.
-Então você é obviamente louco, senhor...?
-Bond. James Bond."
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Vácuo Moral
Estava sentado casualmente atrás de sua escrivaninha lendo o jornal do dia quando percebeu, de esguelha, a aproximação de clientes junto à porta da loja. Automaticamente, levantou-se, chave em punho, para abrir as portas aos clientes em potencial.
Ao erguer a cabeça com um sorriso contido, algo forçado, tendo em vista que a manhã era jovem e ele dormira pouco assistindo episódios consecutivos de House of Cards na noite anterior, ele não teve certeza se de fato o fez, mas seu primeiro reflexo era parar e fazer cara de pavor.
Assomava junto à porta um homem alto, quase de sua altura, cabelos grisalhos, vestindo camiseta polo amarelo-clara, uma calça cáqui e tênis adventure. Tinha óculos sobre o nariz e uma expressão jovial, estava de mãos dadas com uma mulher, pouco mais baixa que ele. Era uma mulher de seus cinquenta e poucos anos, cabelo louro platinado até o meio das costas. Usava uma blusa de lã mesclada de cinza e preto de ajuste preciso ao seu corpo magro atlético. Calças jeans pretas e botas de couro, também pretas. Trazia à tiracolo uma bolsa de couro escuro e usava óculos escuros tipo aviador.
Ele de imediato reconheceu a mulher.
Era a mesma coroa lasciva que o convidara de maneira imperativa à uma sessão breve, porém intensa de cunilíngua no provador da loja em meados de setembro, e fora embora na maior desfaçatez prometendo voltar com o marido no final de semana.
Se ele efetivamente não parou estaqueado de pavor quando a viu ao lado do sujeito, certamente fez uma expressão de quem queria ter parado estaqueado, pois a sentiu, na periferia de suas percepções, engolir o sorriso falso que construíra para atender.
"Eu falei que voltava.", ela disse com um meio sorriso casual.
Ele não respondeu, apenas recriou o sorriso o mais brevemente possível, e abriu a porta. O sujeito, afável, estendeu-lhe a mão espalmada.
"Jorge, como vai?". Ele se apresentou de volta, retribuindo o cumprimento, e fazendo sinal para que entrassem. A loira parou no meio do primeiro ambiente, segurando a própria bolsa com as duas mãos enquanto olhava em volta.
Era tão estranha ao ambiente quanto uma arara azul seria no Pólo Norte.
"Tu tens as calças-bermuda, né?", perguntou ao vendedor, que assentiu com um desconfortável maneio de cabeça. "O Jorge tá precisando de umas.".
O Jorge confirmou, animado, que precisava de calças-bermuda. Alguma coisa sobre viagens de pesca para o Pantanal Mato-grossense e um recém descoberto amor por caminhadas ao ar-livre. Era uma história à qual o vendedor já estava acostumado. Pra ele, chamava-se crise de meia-idade, mas ele estava demasiado desconfortável para tecer seus costumeiros pensamentos críticos. Apenas sorriu um sorriso afável enquanto conduzia o sujeito ao setor das calças-bermuda.
Jorge se empolgava com tudo o que via. Encorajado pela mulher, apanhou quatro modelos diferentes de calças, dois deles, em mais de um tamanho. Blusas segunda-pele, e um agasalho. "Vou alugar tua cabina!", brincou enquanto se encaminhava à sala convertida em provador com a pilha de rupas nos braços.
Entrou e fechou a porta, deixando o vendedor e a loira sozinhos no ambiente principal.
Ela olhava com desinteresse algumas mochilas junto à parede. Ele evitava olhá-la diretamente como se ela fosse a própria medusa da mitologia. Jorge parecia um bom sujeito. Pinta de tiozão esportista. Desencanado. Não merecia ser feito de palhaço por aquela esposa troféu malévola.
"Essa mochila..." Ela disse, apontando para uma peça escolhida ao acaso, sem terminar a frase, um óbvio embuste para atraí-lo para perto, ele pressentiu, mas aproximou-se mesmo assim.
"Qual?", perguntou em seu papel de vendedor. Ela baixou os óculos, mostrando os olhos esmeradamente maquiados. "Me leva pro estoque.". Disse, como antes, sem deixar margem para negativas.
"Quê?", ele perguntou, em um surrado jab verbal. Não era uma negativa, mas o ajudaria a ganhar tempo para que, quem sabe, o Jorge pudesse terminar de experimentar o calhamaço de roupas que levara para o provador e impedi-la de fazer o que quer que fosse.
Ela não se repetiu, chegou perto dele, agarrando-lhe o pênis por sobre as calças jeans. Só então ele notou que estava parcialmente ereto. O perigo, e as lembranças, óbvio, o estavam excitando acima de suas noções de certo e errado, embotando-lhe os sentidos com a luxúria do gosto da intimidade da loira.
"Tu pensou em mim.", ela disse entre os dentes, enquanto o apalpava com vontade, e lambeu-lhe os lábios da esquerda para a direita. Ele fechou os olhos, inebriado pelo ineditismo da situação. Ela o puxou,usando seu pau à meia-bomba como se fosse uma coleira, e o conduziu até o estoque. Abriu a porta repleta de posteres e ajoelhou-se diante dele enquanto posicionava os óculos escuros sobre a cabeça como se fossem uma tiara.
"Fecha a porta." sussurrou lasciva.
Ele obedeceu, ainda que só conseguisse pensar no coitado do Jorge, a exatamente uma parede de distância. Antes que pudesse articular um protesto, ela estava lhe abrindo as calças, abaixou a parte da frente da peça, e abocanhou-lhe o membro por cima das cuecas de algodão pretas, arrancando um gemido mudo de sua boca aberta.
Mordiscou-lhe um par de vezes, ainda por cima da peça, cheirou, e deu-lhe um sorriso, como que aprovando sua higiene.
Se ele já estava intumescido ante a perspectiva de chupar a boceta dela novamente, àquela altura, ele já não cabia dentro da roupa íntima, que se esticava evidentemente nas mãos dela. Ela puxou a perna esquerda da cueca boxer ligeiramente para cima com a mão livre, enquanto, com a outra, direcionou seu pau pela abertura. A tensão do tecido somada à pétrea ereção deixou-lhe com o membro esticado e lustroso, empinando-se ligeiramente em direção ao rosto dela.
Ela dedilhou as unhas pintadas de bordô sobre as veias que saltavam no pau ereto. O cheirou e passou na face direita, deu dois beijos, e o ergueu, passando a língua do saco até a base da glande, e então, o virou, e seguiu o movimento da fenda peniana até os pelos do púbis.
Ela poderia ter-lhe tomado a pulsação pelos movimentos involuntários que o órgão fazia entre suas mãos e lábios. Sorrindo, colheu-o e levou à boca, acomodando-o quase inteiro. Começou a fazer movimentos de vai e vem com a cabeça enquanto movia a língua dentro da boca sob a parte de baixo do pau. Por duas vezes fez movimentos bruscos com a cabeça fazendo com que o pau lhe escapasse da boca e emitindo um barulho alto de estalo que deixou o vendedor alarmado pela possibilidade de alertar o Jorge, do outro lado da parede, mas ela parecia não ligar, continuou aplicada em seu ofício, aumentando a velocidade e, por consequência, o ruído, de modo que a preocupação começou a suplantar a excitação dele.
Minutos já haviam transcorrido, e ele estava cada vez mais certo que a saída de Jorge do provador era iminente. Ela parecia se regalar da preocupação dele, fazendo movimentos mais elaborados e sensuais cada vez que ele olhava de soslaio pela fresta da porta.
"Tu só sai daqui quando eu ver leite.", sentenciou enquanto beijava de boca entreaberta a lateral de seu pênis.
Aquilo o preocupou muito mais do que excitou, ele não se via gozando sob pressão. Mas ela não ligava, parecia particularmente efusiva coordenando o jogo pérfido que executava ali, de joelhos no espaço exíguo entre as estantes de mercadorias, humilhando o marido na sala contígua à revelia de seu conhecimento.
Ainda assim, mesmo para a lascívia dela, parecia haver limites, e como outros tantos minutos haviam se passado sem que ele desse pistas de estar sequer perto de gozar e tampouco sua ereção arrefecesse, ela cuspiu na palma da mão direita, e se pôs a masturbá-lo com decisão enquanto massageava-lhe os testículos com a mão esquerda.
Ainda que fosse deveras agradável, a tensão não o deixava mergulhar de maneira apropriada no erotismo da situação, e ela percebeu.
Largou-o de supetão, com descaso, limpando a mão nas calças dele e pondo-se de pé. Andou decidida pra fora do estoque até o provador, bateu à porta, "Jorge, em que pé estamos?". O Jorge resmungou lá de dentro que não podia levar roupas sem experimentar, e aconselhou que ela desse uma olhada na loja.
O vendedor ainda estava no estoque se recompondo quando ela voltou. "Ele vai demorar.", disse, "Recém está na terceira calça e prova tudo duas vezes.", falou enquanto abria as próprias calças "É uma mulher." completou com doloroso desdém.
Ele sentiu o sangue gelar, e ainda assim, preencher-lhe ligeiro os corpos cavernosos, inchando-lhe dentro das calças.
Ela abaixou o jeans preto até pouco acima das coxas, e repetiu o gesto com as calcinhas de renda brancas.
"Mete.", disse, enquanto se apoiava numa estante adjacente e empinava o traseiro firme, "Mete rápido.", completou.
Ele obedeceu. Pois o tom dela seguia não dando margem a negativas.
Abriu o zíper da calça, pôs o pau pra fora, e se acomodou entre as nádegas dela em busca da entrada da boceta. Não foi difícil encontrá-la. Estava ensopada.
Deslizou pra dentro dela e começou a se movimentar com estocadas fortes e profundas. Um cheiro forte, almiscarado, se fez sentir enquanto ela mexia o quadril sutilmente.
Ele esticou o braço e alcançou-lhe o púbis com pretensão de estimular-lhe o clitóris, mas ela o deteve agarrando-lhe o pulso, "Não.", disse. "Só goza. Goza ligeiro.".
Ele obedeceu. Diminuiu a força e a profundidade das enfiadas, mas manteve a velocidade. Em poucos minutos, sentia a iminência do orgasmo.
"Vou gozar.", anunciou.
"Goza.", ela disse. "Me dá meu leite.".
As palavras dela foram o estopim de uma farta ejaculação, ele sentiu as pernas bambearem e a vista nublar enquanto se despejava dentro dela, que, maquiavélica, rebolou a bunda de encontro a seu púbis, fazendo-o experimentar uma sensação de choque elétrico na glande que o fez grunhir. Ele deu dois passos cambaleantes para trás, escorando-se no frigobar, o pau já voltando à posição de repouso, molhado e avermelhado.
Ela, antes de subir a calcinha e o jeans, passou a mão espalmada entre as pernas, e mostrou-lhe a palma úmida. "Falei que só sairíamos depois de eu ver leite.". Limpou a mão na camiseta dele, no lado direito do peito. Inconscientemente ele flexionou os músculos peitorais, e sentiu alguma lisonja quando ela se deteve brevemente com a mão sobre eles.
Ela não disse nada. Fechou o botão da calça, subiu o zíper e recolocou os óculos no rosto.
Quando ele saiu do estoque, após lavar as mãos, o rosto, e o pau na pia que deveria servir apenas à primeira função, a encontrou passando batom usando um espelhinho na tampa da maquiagem. Jorge saía do provador naquele momento, com algumas peças na mão esquerda e quase todas as outras na mão direita.
"Não tinha a lilás?", ela perguntou ao vendedor antes que Jorge pudesse dizer qualquer coisa. O rapaz, sem saber a que ela se referia, resolveu ir na onda, "Não. Só verde-musgo ou preta. Quer dar uma olhada?", perguntou, sentindo o rosto enrubescer diante da mentira e da presença do Jorge. "Não." Ela respondeu com pouco caso. "Queria só a lilás.".
"O quê tu quer lilás, Ludmila?", perguntou o Jorge, revelando o nome da coroa lasciva. "Uma mochila.", ela respondeu. "Pra levar pra academia.".
Jorge fez um ruído indefinido. Falou quais peças levaria.
Eram as da mão direita. O vendedor somou o valor das mercadorias, ouviu a piadinha do "se eu fosse pagar, quanto daria?", fingiu um sorriso, fez a nota, passou o cartão. Embrulhou o material, e levou o casal até a porta, tudo isso envergonhado da farsa de que tornara-se pivô.
Quando se despedia de ambos, Ludmila se virou, "Tu vais receber a mochila lilás?".
Ele engoliu em seco.
"É possível.", disse.
"Quando?", perguntou Jorge, incauto.
Ele pensou por uma fração de segundo, lembrando-se do cheiro que se desprendia de Ludmila minutos antes, e mandou todo o escrúpulo lá pra casa do capita.
"A gente recebe encomendas toda a semana.".
Ludmila sorriu com escárnio enquanto Jorge dizia "Volta aí pra ver semana que vem, Mila.". Ela, ainda sorrindo, olhou pro vendedor e assentiu.
"É..." Disse. "Acho que vou voltar.".
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Deixem o Biquíni em Paz
Aparentemente a Disney levou a sério a declaração de Carrie Fisher, a eterna princesa Leia, que em uma entrevista com Daisy Ridley, a Rey de O Despertar da Força, aconselhou a jovem protagonista de O Despertar da Força que lutasse contra o biquíni dourado.
Ao que parece, a casa do Mickey, atual detentora dos direitos de Star Wars não apenas deve manter Rey toda coberta nos novos filmes, mas também irá aposentar qualquer produto de merchandising envolvendo a versão escrava de Leia.
Mais do que isso, o desenhista J. Scott Campbell, artista responsável pelas capas dos quadrinhos de Star Wars da Marvel, disse que qualquer posição sensual com Leia foi vetada, e o biquíni, riscado da galeria de trajes da personagem, que inclusive negou o licenciamento de uma estatueta na versão à uma grande fabricante de brinquedos.
Se tu é o pai de todos os civis e não sabe do que estou falando, como a foto que ilustra o post lá em cima mostra, a certa altura de Star Wars: Episódio VI - O Retorno de Jedi, a princesa Leia é capturada por Jabba, o Hutt, e forçada a servir como escrava do vilão até que Luke chegue ao covil do mafioso e, juntos, Luke, Leia e Lando (eis aí uma bela trinca de nomes pros meus filhos) possam resgatar Han Solo.
Aparentemente, em um fervor feminista, Carrie se arrependeu de ter usado o biquíni dourado e se tornado uma referência em termos de sexualidade nerd ao longo dos últimos trinta e poucos anos.
A princesa Leia no biquíni dourado é uma imagem icônica, que foi referida em mídias diversas que vão de mods do game Skyrim ao seriado Friends, o cosplay mais usado por gatinhas nerd em boa forma física (e por outras nem tanto, e até por barbados que acham a piada boa demais pra passar em branco) e um dos mais maneiros produtos de Star Wars em termos de estatuetas, dioramas e pôsteres.
Ainda que se entenda o desgosto de Carrie Fisher por ter se tornado objeto do desejo de gerações de geeks masturbadores, eu tenho alguma dificuldade de entender a Disney entrar na onda. Em que se pese a força dos movimentos feministas, reforço da posição da mulher e tudo mais, há que se lembrar que não há nada na sequência do palácio de Jabba fora de lugar.
Todas as fêmeas servis ao Hutt estão em trajes sumários. Quando Jabba captura a audaciosa princesa de Alderaan travestida de caçador de recompensas, nada mais natural que, ao descobri-la uma mulher atraente (olhem a barriguinha da princesa!), ele resolva humilha-la ao tê-la como um troféu ao pé de suas almofadas.
Uma coisa que aparentemente passa batida a Carrie Fisher e a eventuais apoiadores de sua causa, é que Leia não se torna uma submissa escrava ao ser trajada como tal. Ela continua sendo a mesma personagem proativa e autossuficiente de sempre, e espera paciente até que a oportunidade se apresente para se vingar do verme alienígena ao estrangula-lo com a corrente que ele pôs ao redor de seu pescoço, fazendo o chauvinista Jabba pagar o preço definitivo pelo próprio sexismo.
O biquíni dourado não é gratuito, ele não altera a personalidade de Leia, nem tampouco vai contra a personalidade de Jabba, integrando-se completamente à trama, e ainda, sendo um colírio deveras agradável em meio a melhor saga espacial jamais criada.
É uma pena que tenhamos chegado em um ponto onde as mulheres precisem "lutar" contra um biquíni. No final das contas, é uma distorção tão grande quanto seria o pessoal chiar porque Leia é uma princesa briguenta e cheia de recursos capaz de realizar resgates audazes.
Deixem o biquíni dourado aparecer. Ele não diminui em nada a nossa admiração e respeito por Leia Organa.
Pelo contrário, só aumenta.
Rapidinhas do Capita
E Tom Holland, o novo Homem-Aranha da parceria entre Sony e Marvel, divulgou no final de semana seu possível visual para interpretar Peter Parker em Capitão América: Guerra Civil, e no vindouro filme solo ainda sem título do herói aracnídeo. O ator postou no instagram uma foto em que aparece com um penteado bastante semelhante ao do Homem-Aranha adolescente de Ultimate Spider-Man, confira:
E compare com a versão ultimate dos desenhos animados (ainda que a minha favorita seja a desenhada por Stuar Immonen):
O ator inglês de O Impossível, que poderá ser visto em breve ao lado do Thor Chris Hemsworth em No Coração do Mar também dá mostras de estar com o tipo físico que o papel pede. Um magro musculoso a exemplo de Andrew Garfield.
Holland fará sua estréia como Homem-Aranha em Capitão América: Guerra Civil, em maio de 2016, e depois aparecerá em um filme solo dirigido por John Watts, em julho de 2017.
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E a Mulher Ma(g)ravilha Gal Gadot pode estar ganhando uma mãe.
Segundo o The Wrap, Nicole Kidman está em negociações para assumir um importante papel no filme solo da princesa das amazonas a ser dirigido por Patty Jenkins.
Sem grandes detalhes a respeito da trama do longa (ou mesmo de qual das origens da Mulher-Maravilha será usada no universo cinemático DC), o site diz apenas que o papel oferecido a Kidman é o de uma "importante guerreira amazona".
Quem é mais importante entre as amazonas do que a própria rainha Hippolyta em pessoa?
A rainha da ilha de Temiscyra, que fez uma filha do barro e proveu-lhe vida em um sopro (ou teve um breve caso com Zeus, dependendo da origem...), poderia bem ser interpretada por Nicole Kidman (especialmente se a ex-lindona ruiva deixar o botox derreter).
Ainda assim, Hippolyta não é uma guerreira habitual nos quadrinhos. O que poderia fazer com que Kidman estivesse na briga para o papel de Hera?
A origem da Mulher-Maravilha em que Diana é filha de Zeus tem uma vilã em potencial na esposa do deus dos deuses.
De qualquer forma, é inútil especular enquanto não se souber pra que lado a produção vai. Como a DC/Warner não deu nenhum tipo de confirmação quanto a elenco além de Gal Gadot (mesmo Chris Pine, que meio que assumiu que será Steve Trevor foi confirmado pela produtora...) tudo não passa de aposta infundada.
Outros nomes andaram sendo ligados ao filme, como Sean Bean (que interpretaria o vilão Ares, e provavelmente morreria no final) e Eva Green, mas nada se confirmou.
O lance é esperar a recepção de Batman Vs Superman - A Origem da Justiça, e ver se o universo compartilhado da DC vai andar ou não.
Mulher-Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, de Monster - Desejo Assassino, está agendado para 2017.
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E que tal ver como Deadpool, o mercenário desbocado passou o Dia das Bruxas?
Em um vídeo publicado no Youtube, o anti-herói galhofeiro interpretado por Ryan Reynolds mostra que é chegada a hora de formar um time, e trabalhar em equipe. A isso, segue-se um minuto e meio de bullying super-heroico.
Confira:
Deadpool, dirigido por Tim Miller e escrito por Paul Wernick e Rhett Reese estréia em fevereiro de 2016.
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terça-feira, 3 de novembro de 2015
A Própria Medida
Acordou de madrugada, quatro e dezoito da manhã, despertado por uma dor lancinante. Violenta. Como uma ferroada no cérebro, que explodiu de um pré molar inferior e se espalhou pelo rosto até fazer pulsar a veia da têmpora no lado direito da sua cabeça.
Nunca tinha acordado de dor antes. Chegou a se assustar num primeiro momento, ao despertar sobressaltado com aquela onda de dor tão intensa a acossá-lo.
Acalmou-se, respirou fundo, sentou na cama onde dormia nu, vestiu um calção, e saiu do quarto.
Estava na praia, era um sábado no meio de um feriadão. Só poderia consultar um dentista na terça, e isso na melhor das hipóteses, na mais realista, apenas na quarta. Foi até a copa e remexeu o armário de remédios sobre a geladeira. Encontrou um par de analgésicos e um anti-inflamatório. Já havia sido bem sucedido no combate à dor de dente com anti-inflamatórios. Tomou um, sem certeza de quê ajudaria. Não se lembrava de ter experimentado uma dor tão intensa na vida.
Ao menos, não física.
Já havia sentido muitas dores. Muitas dores, mesmo. Já quebrara ossos, tivera ruptura de tendões, inflamações, e toda a sorte de lesões que um atleta de fim de semana desajeitado e fora de forma poderia ter. Isso o ensinara a ter um limiar de dor que sua dentista dissera ser "extremamente alto". Ele confessaria sentir algum orgulho disso.
De ser resistente a dor.
Orgulhava-se de ignorar solenemente os avisos de profissionais de saúde em geral quando diziam "Isso vai doer um pouco". Jamais experimentara uma dor insuportável.
Isso era, de certa forma, reflexo de sua criação.
Seu pai era um dos homens mais fiasquentos que ele conhecera em sua vida. Transformava qualquer desconforto físico em Via-Crúcis. Gemia, choramingava, se queixava... Certa feita, casualmente sofrendo de uma dor de dente em um domingo à noite, esperneou a madrugada inteira. Não é uma figura de linguagem. Ele, um homem crescido, literalmente esperneou na cama, chutando o colchão com os calcanhares enquanto gemia e rosnava com o travesseiro no rosto.
Quando fazia curativos, passava o tempo inteiro fazendo "Fss!", "Aaaah!" e "Hnnng!", sobressaltando-se e retesando-se. Precisava ter sempre analgésicos em casa, pois ao menor sinal de dor, tomava um par de comprimidos. E toda a vez que sentia alguma dor, qualquer dor, parecia que a primeira coisa a fazer era anunciar ao mundo que a estava sentindo.
Aquele comportamento fiasquento do pai o deixava extremamente desconfortável. Envergonhado, até. Parecia o extremo oposto do que um homem deveria fazer. Ao menos fora o que ele aprendera no cinema e na literatura. Talvez por isso ele tenha crescido achando tão importante não ser um sujeito suscetível à dor física.
Ainda na infância sua mãe aprendera a lê-lo, exatamente na curva oposta do pai. Ela suspeitava que ele estava com dor quando ele ficava quieto demais.
Para ele era importante ser capaz de engolir a dor, engolir o medo, engolir o choro, outra coisa que os homens de sua família não sabiam fazer. Um homem de verdade deveria ser forte, honesto, e, mais tarde ele aprenderia, bom de garfo.
Mas o mais importante, o primordial, era ser forte, e isso ia muito além de ter músculos volumosos e ser capaz de erguer grandes quantidades de peso. Ser forte era um estado de espírito que ele tentava cultivar. E que incluía ser forte o bastante pra não choramingar, ficar gemebundo ou escandaloso ao sentir dor.
Andou até a cozinha, abriu a porta dos fundos da casa da praia, ouvindo o som do mar, e sentindo o açoite do vento gélido que vinha do litoral. A dor ainda era violenta. Tomou um gole de água gelada direto do gargalo do garrafão de cinco litros, e fechou a porta. Andou até o quarto, entrou, fechou a porta, despiu-se novamente, deitou-se e cobriu-se.
A dor piorou quando colocou-se na horizontal. Rilhou os dentes, fechou os olhos e virou pro lado.
Antes de pegar no sono, sorriu orgulhoso:
Não fizera muitas coisas certas na vida. Mas era um homem de verdade, ao menos para a própria medida.
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