Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sexta-feira, 8 de abril de 2016
Resenha Cinema: Rua Cloverfield, 10
Em 2008, a produtora Bad Robot de JJ Abrams lançou o que foi um dos primeiros bons filmes do tipo "filmagem encontrada" a fugir do gênero de horror sobrenatural.
O longa Cloverfield (que no Brasil ganhou o mentecapto subtítulo ":Monstro".), de Matt Reeves era um longa de filmagem encontrada de monstro gigante. Um Godzilla encontra Bruxa de Blair, acertadamente mais apoiado nas reações dos personagens ao cataclismo por onde passavam do que no monstro em si, tudo registrado por um dos personagens (interpretado por T. J. Miller, de Deadpool), que, naquela noite, por acaso, estava com sua câmera.
O longa que ainda tinha as gatíssimas Odette Annable e Lizzy Caplan no elenco, foi um filme razoavelmente barato, custando 25 milhões de dólares, e faturou pouco mais de 170 milhões em bilheterias, sendo bem recebido pela crítica em geral.
Agora, oito anos após Cloverfield, a Bad Robot de Abrams nos leva de volta ao universo da gigantesca criatura que arrasou Nova York, mas em outro lugar, contando outra história, e mais importante, de uma maneira completamente diferente.
Mantido em segredo até ter seu trailer divulgado (ninguém sequer sabia que o longa estava sendo realizado até a prévia ser lançada), Rua Cloverfield 10 abre com Michelle (Mary Elizabeth Winstead, a Ramona Flowers de Scott Pilgrim Contra o Mundo) fazendo suas malas apressadamente.
Ela coloca suas roupas e seus esboços de fashionista em uma mala, e sai de casa levando consigo uma boa garrafa de uísque e deixando pra trás sua aliança e as chaves do apartamento.
Enquanto dirige por estradas vicinais tentando ignorar as ligações de seu noivo, Ben (voz de Bradley Cooper), Michelle ouve no rádio notícias sobre apagões no litoral até sofrer um violento acidente de carro, capotar pra fora da estrada, e cair inconsciente.
Ao acordar, sem saber por quanto tempo dormiu, recebendo soro intra venoso e acorrentada à parede de um quarto com cara de prisão, Michelle se desespera ao perceber que não tem sinal de celular.
As coisas só pioram quando surge seu captor, um sujeito enorme chamado Howard (John Goodman), dizendo à ela que a salvou, e que não há mais ninguém para quem ligar.
Howard revela que houve algum tipo de ataque. Ele não sabe precisar de que tipo, se nuclear ou químico, e nem sua fonte. Podem ter sido os russos. Podem ter sido os norte-coreanos. Podem ter sido os marcianos.
Tudo o que Michelle tem é a palavra de Howard de que o mundo lá fora está terminado. E que em um ou dois anos, com sorte, eles poderão sair novamente.
Mais do que isso, Howard lembra à Michelle o quão afortunada ela é, já que foi salva por ele, e levada ao bunker que ele construiu e preparou exatamente para esse tipo de eventualidade.
Michelle logo descobre que não está sozinha no abrigo de Howard. Além deles, há Emmett (John Gallagher Jr.), um jovem que corrobora a versão do anfitrião, e, mais do que isso, lutou para poder entrar no bunker de Howard.
Enquanto é apresentada às regras da vida subterrânea com Howard e Emmett, Michelle não consegue deixar de pensar no que realmente está ocorrendo, uma vez que Howard é controlador em um nível muito além do aceitável, e vigia seus hóspedes mantendo a dinâmica da relação de Michelle e Emmett dentro de um padrão que lhe parece aceitável e jamais além disso, e, pra piorar, Michelle eventualmente ouve a aproximação de carros e helicópteros da propriedade, a levando a pensar se Howard é, de fato um salvador, ou apenas um maluco com quem ela e Emmett estão presos em um calabouço com filtragem de ar e água?
É muito bacana.
O diretor Dan Trachtenberg, estreante em longa-metragens não chega a fazer um trabalho de gênio, mas sua condução do roteiro de Josh Campbell e Matthew Stueken (com participação de Damien Chazelle, de Whiplash) é correta e esperta, se segurando constantemente no menos é mais, e levando a audiência por um passeio de cem minutos em uma pequena, porém honesta, montanha-russa de adivinhações e perspectivas sendo frustradas e confirmadas, mistérios e revelações com pequenos e grandes picos de tensão daqui e dali.
Muito do que funciona em um longa com a dinâmica de Rua Cloverfield 10, porém, é o trabalho do elenco.
Maru Elizabeth Winstead manda muito bem nesse quesito. A gatinha segura a onda com desenvoltura, servindo de peão à audiência, já que nós só podemos ter certeza daquilo que ela sabe, e nada mais, mas o fazendo sem parecer uma vítima bovina frente ao mistério de seu cativeiro. Michelle tem dúvidas e está disposta a agir para saná-las, mostrando-se uma mocinha engenhosa e viva.
John Gallagher Jr. segura a onda no papel de Emmett, um personagem algo inssosso no início, que ganha estofo e se torna mais gostável conforme a trama se desenrola, John Goodman, por sua vez, é um capítulo à parte.
O ator consegue equilibrar Howard de modo a não torná-lo um maníaco, interpretando-o de uma forma que, em diversas ocasiões, ele parece de fato um salvador, em outras tantas, em especial quando assistem filmes ou jogam partidas de Monopólio, um pai ou tio duro, mas bonachão, dando-lhe nuances que ajudam a manter o clima de mistério do filme sem fazê-lo se perder na rotina manjada do "aponte pra um suspeito óbvio" o tempo todo.
Com três atores trabalhando muito bem com o que lhes é oferecido e contando uma história sólida por si só, o momento em que o thriller de Rua Cloverfield 10 deságua na ficção científica de Cloverfield: Monstro pode parecer um pouco abrupto, mas não inesperado, e mesmo então, os personagens sequem funcionando na mesma toada, garantindo que o longa não se perca e seja coerente tanto com o que vinha sendo apresentado nos últimos oitenta e poucos minutos, quanto com o Cloverfield original.
Mudando completamente fórmula e proposta, a Paramount e a Bad Robot de JJ Abrams conseguem mostrar, não um segundo capítulo, mas outra história de uma antologia, de uma maneira digna e divertida.
Se forem sempre boas assim, que venham outras tantas.
"-Meu objetivo na vida era estar preparado... E eu estava."
quinta-feira, 7 de abril de 2016
O Trailer de Rogue One: A Star Wars Story
E saiu o trailer de Rogue One: A Star Wars Story, filme estrelado pela gatinha Felicity Jones sobre a missão que obteve a planta da Estrela da Morte I, possibilitando o ataque rebelde da Aliança Rebelde à estação orbital bélica que era o clímax de Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança:
O climão e a promessa de um longa sem Jedi dá a impressão de um filme todo protagonizado por vários Han Solos. A protagonista feminina da vez é agente rebelde Jinn Erso (e não Lyra, conforme se especulou inicialmente) que se apresenta logo nos segundos iniciais deixando claro seu passado criminoso e sua veia de anti-heroína após uma bela versão do main theme de Star Wars apenas no piano introduzir e prévia recheada de ação, stormtroopers, AT-ATs e destróieres estelares imperiais.
Além da protagonista, vemos uma jovem Mom Mothma, Forrest Whitaker, Diego Luna, Donnie Yen, chutando bundas e Ben Mendelsohn com a farda branca de um grão-almirante.
Também no elenco, mas fora do trailer, estão Alan Tudyk e Mads Mikkelsen.
O longa será dirigido por Gareth Edwards, de Godzilla e pode contar com a presença de Darth Vader.
Dezembro vem aí, gurizada. Que a Força esteja conosco até lá.
O climão e a promessa de um longa sem Jedi dá a impressão de um filme todo protagonizado por vários Han Solos. A protagonista feminina da vez é agente rebelde Jinn Erso (e não Lyra, conforme se especulou inicialmente) que se apresenta logo nos segundos iniciais deixando claro seu passado criminoso e sua veia de anti-heroína após uma bela versão do main theme de Star Wars apenas no piano introduzir e prévia recheada de ação, stormtroopers, AT-ATs e destróieres estelares imperiais.
Além da protagonista, vemos uma jovem Mom Mothma, Forrest Whitaker, Diego Luna, Donnie Yen, chutando bundas e Ben Mendelsohn com a farda branca de um grão-almirante.
Também no elenco, mas fora do trailer, estão Alan Tudyk e Mads Mikkelsen.
O longa será dirigido por Gareth Edwards, de Godzilla e pode contar com a presença de Darth Vader.
Dezembro vem aí, gurizada. Que a Força esteja conosco até lá.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Resenha Blu-Ray: Olhos da Justiça
O norte-americano médio tem preguiça de ler legendas da mesma forma que o brasileiro médio. Enquanto aqui, nós temos uma longa tradição de dublagens (já tivemos as melhores dublagens do mundo, até o final dos anos noventa), nos EUA existe uma onga tradição de remakes em língua nativa.
De Os Sete Samurais de Korosawa se tornando o bangue-bangue The Magnificent Seven a B-13: 13º Distrito virando Brick Mansions, toda a vez que o cinemão americano vê um filme com potencial de venda em território americano falado em outro idioma, eles vão lá e refazem o filme com diretor, elenco e roteiro nativos.
O resultado por ser tão bom quanto Os Infiltrados, baseado no policial coreano Infernal Affairs, ou tão ruim quanto O Turista, baseado no thriller francês Anthony Zimmer. Entre uma coisa e a outra podem haver produtos que não ofendem, mas são apenas desnecessários como o fofinho terror sueco Deixe Ela Entrar, que virou o fofinho terror norte-americano Deixe-me Entrar, ou o pesadão suspense escandinavo Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, que virou o pesadão suspense norte-americano Millenium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres... A lista vai e vai.
De qualquer forma, não chegou a ser surpreendente que o excelente suspense argentino O Segredo de Seus Olhos, de Juan Jose Campanella entrasse na fila pra virar filme hollywoodiano.
O vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 provavelmente foi tão ignorado na terra do tio Sam quanto qualquer outro filme sul-americano, de modo que havia uma potencial mina de ouro no suspense escrito por Campanella e Eduardo Sacheri apenas esperando por um estúdio que bancasse a empreitada.
Infelizmente tal estúdio surgiu. E também um diretor/roteirista. Billy Rai, responsável pelo script indicado ao Oscar de Capitão Phillips assumiu a adaptação e a cadeira do diretor, e logo o elenco ganhou as caras de Julia Roberts, Nicole Kidman e Chiwetel Ejiofor, todos atores laureados com indicações e prêmios de atuação no ue parecia um grande time para tentar repetir a densidade do original portenho.
Mas não rolou.
No longa, o ano é 2002. E meio à histeria pós 11/09, uma força tarefa anti-terrorismo formada pela polícia, o FBI e a promotoria pública trabalha arduamente em Los Angeles acreditando que a cidade deve ser o próximo alvo de um atentado engendrado por extremistas islâmicos.
Em meio à investigação, o corpo de uma jovem não identificada é encontrado com sinais de estupro em uma lixeira próximo à uma mesquita. Chamados para investigar o local em busca de conexões com a possível célula terrorista local, o investigador Ray Kasten (Ejiofor) descobre que a jovem assassinada é Carolyn Cobb (Zoe Graham), filha de sua colega Jessica Cobb (Roberts).
Em meio ao luto, Ray começa uma obstinada investigação em busca do culpado, descobrindo que o principal suspeito é um informante da equipe anti-terrorismo, e uma fonte vital para a investigação em andamento, Ray é obstruído por todos os seus superiores à exceção da assistente da promotoria Claire Sloane (Nicole Kidman), com quem partilha um amor platônico.
Treze anos mais tarde, Ray Kasten retorna a Los Angeles trazendo consigo uma pista do paradeiro do principal suspeito do crime, reabrindo velhas feridas enquanto se reaproxima de Claire em sua busca obsessiva pela verdade.
Não... Não funciona.
Na verdade o filme de Billy Ray, a despeito dos esforços de um bom elenco que ainda conta com Dean Norris (o Hank Schrader de Breaking Bad) e Michael Kelly (o Doug Stamper de House of Cards), simplesmente não há nada em Olhos da Justiça que faça justiça ao filme original.
O longa de Campanella era um thriller investigativo com uma terna história de amor em seu cerne que visivelmente se estendia por anos, cozinhando tanto a investigação quanto o relacionamento dos personagens de Ricardo Darín, Soledad Villamil e Guillermo Francella enquanto marinava tudo em frustração e becos sem saída, tudo contribuindo para que a audiência fosse capaz de entender a justificada obsessão de Benjamin Esposito com o caso.
Na versão americana, a fixação do protagonista é justificada através de sua ligação pessoal com o caso, o que, ao invés de fortalecer a trama, a enfraquece. A sombra da corrupção da ditadura militar argentina, um elemento importantíssimo no longa original, se desvanece no batido tema da guerra ao terror, que também não cumpre seu papel com a mesma batida, e a história de amor, essa consegue ser a parte da história que mais foi vilipendiada na nova versão.
Ray Klasten olha para Claire Sloane como se fosse um gurizinho apaixonado pela professora, e com a química zero de Ejiofor e Kidman, a coisa toda soa mais constrangedora do que romântica (conforme diz o personagem de Alfred Molina à certa altura), pra piorar, o roteiro de Billy Ray parece ignorar a passagem do tempo exceto pelo intervalo de 13 anos entre as duas partes da história, o que presta mais um desserviço à relação do casal, de modo que, mesmo mantendo a história bastante próxima do filme original, com cenas que são, literalmente, idênticas à produção portenha de 2009, Olhos da Justiça simplesmente não consegue sair da sombra de O Segredo de Seus Olhos, e nem mesmo andar com as próprias pernas, tornando-se apenas outro filme policial que lembra remotamente um filme muito bom que tu viu há um tempo atrás.
Não chega nem mesmo a ser uma pena. Tava na cara que seria assim.
Ignore e reveja o original argentino.
"-Prisão perpétua.
-Pra você também..."
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Rapidinhas do Capita
As filmagens de Doutor Estranho chegaram a Nova York nessa semana e de sábado pra domingo a internet explodiu de imagens de Benedict Cumberbatch e Chiwetel Ejiofor, respectivamente Stephen Strange e Barão Mordo, correndo pelas ruas da Grande Maçã:
Tem direito até a imagem com os tradicionais gestuais de conjuração do Mago Supremo da Terra:
Maneiro, né?
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Mas não foi tudo. As filmagens do final de semana também revelaram Mads Mikkelsen, o misterioso vilão do longa, que finalmente apareceu com seu visual pro filme, que inclui uma maquiagem cabulosa que dá a impressão de que seus olhos estão passando por uma erupção vulcânica que estilhaça sua pele:
Quem será que Mikkelsen interpretará? Será essa a forma humana do demônio Dormammu?
Saberemos em breve.
Escrito por John Spaiths e dirigido por Scott Derrickson, Doutor Estranho estréia em novembro de 2016 contando a história de Stephen Strange, um arrogante neurocirurgião que, após um acidente de automóvel perde o uso das mãos. Em sua jornada para recuperar os movimentos ele descobre um templo no Tibete onde é iniciado no mundo da magia.
O elenco conta ainda com Tilda Swinton como O Ancião, Rachel McAdams, em papel não revelado, Michael Stuhlbarg e Scott Adkins.
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E a Sony pode ter deixado escapar o título do novo filme solo que irá rebootar, de novo, o Homem-Aranha nos cinemas:
O domínio SpiderManHomecomingTheMovie.com foi registrado pelo estúdio, e pode ser o título do filme que será dirigido por Jon Watts e estrelado por Tom Holland que estreará no colante azul e vermelho em Capitão América: Guerra Civil.
Homecoming pode fazer referência à uma história do Homem-Aranha da década de 80 que conta com participações de Capitão-América, Thor e Homem de Ferro logo após as Guerras Secretas (um indício de relação com essa história pode ser o fato de que tanto Chris Evans quanto Robert Downey Jr. declararam que estariam trabalhando em Atlanta, locação do filme do Aranha nas próximas semanas.), ou pode apenas ser uma forma de colocar a presença do amigão da vizinhança no universo cinemático Marvel como uma "volta pra casa" do personagem.
Não é garantido, porém, que esse será, de fato, o título do longa, não é incomum estúdios registrarem diversos domínios antes de oficializar o nome de um filme.
O novo filme do Homem-Aranha estréia em 2017, o roteiro está atualmente sendo escrito por John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein, dupla do atroz Férias Frustradas.
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Resenha Blu-Ray: Aliança do Crime
Eu vou confessar que não me lembro ao certo porque eu não fui ao cinema assistir Aliança do Crime, mas também confessarei que provavelmente foi por causa da filmografia recente de Johnny Depp.
O talentoso ex-galã transformado em ator top de linha de Hollywood que entrou em modo Nicolas Cage de alguns anos pra cá fez tantas escolhas absolutamente duvidosas em termos de roteiros para filmar que, depois de coisas como O Turista e Transcendence acabou minha vontade de arriscar com ele.
Ainda assim, Aliança do Crime era um filme dirigido por Scott Cooper, o mesmo cineasta dos ótimos Coração Louco e Tudo por Justiça. O elenco tinha outros nomes além de Depp que recomendavam uma olhada, como Benedict Cumberbatch e Joel Edgerton e Kevin Bacon, de modo que nesse final de semana resolvi assistir ao longa no conforto do meu sofá, e decidir se cometi um erro ou um acerto ao deixar passar a chance de ver o filme no cinema.
Aliança do Crime conta a história de Jimmy "Whitey" Bulger (um Johnny Depp enterrado sob pesada maquiagem), gângster de southie Boston que, durante a década de setenta e oitenta, erigiu um império criminoso ao se tornar informante do FBI, e de como a sua paranoia e irascibilidade tanto o evaram ao topo da cadeia alimentar, mas também o isolaram quase por completo durante os mais de vinte anos em que viveu à margem da lei cometendo crimes que foram da mera contravenção ao homicídio.
O longa, estruturado em flashbacks, com a história sendo contada por ex-associados de Jimmy a investigadores do FBI durante a investigação de seus crimes, abarca o período em que Jimmy foi procurado pelo agente do FBI John Connoly (Edgerton), um rapaz criado na mesma vizinhança que Whitey e seu irmão, o senador Billy Bulger (Benedict Cumberbatch), com uma proposta:
Connoly quer que Withey se torne um informante do FBI na guerra dos federais contra a máfia italiana em Boston. Se o criminoso aceitar ajudar no combate aos italianos, o bureau facilitará sua vida de crimes, a única condição, é que Whitey e seus homens não matem ninguém.
Inicialmente resiliente à ideia de se tornar um delator, Jimmy acaba vendo a inegável vantagem que o acordo oferece, e, sendo pressionado pelas constantes invasões dos italianos ao seu território, aceita a proposta.
O acordo funciona particularmente bem para Jimmy, que amplia sua área de atuação de maneira exponencial enquanto manipula o FBI para varrer a concorrência e estende seus domínios até o mundo do jogo na Florida e à guerra civil do IRA na Irlanda do Norte.
Com o passar dos anos porém, eventos alteram o comportamento do gângster que dividia seu tempo entre a administração de máquinas de vendas e dinheiro de proteção e sua família, mais especificamente o filho Douglas (Luke Ryan), fruto de sua relação com Lindsey Cyr (Dakota Johnson), e de sua mãe a adorável velhinha que trapaceia jogando canastra a dinheiro, o tornando gradativamente mais frio e implacável, numa escalada de violência que pode colocar todo o seu império criminoso a perder, fazendo-o ruir de dentro pra fora.
Aliança do Crime está anos luz à frente da filmografia recente de Depp. É muito mais filme do que qualquer longa estrelado pelo ator desde Em Busca da Terra do Nunca, ainda assim, é um filme mais falho em sua execução do que os outros longas de Scott Cooper.
O longa trabalha dentro de uma estrutura bastante formal de filme de gângster, com a violência, os palavrões e a camaradagem algo tensa que encerra o gênero, mas oferece um viés diferente, mostrando o mal florescendo através da inação do bem, que se torna responsável por esse mal.
Essa faceta é bastante clara à medida em que o império criminoso de Bulger só se erige sobre o apoio do FBI de Connoly, que age de maneira tão óbvia para proteger seu amigo de infância que chega a ser difícil acreditar que seus colegas de investigação Robert Fitzpatrick e John Morris (Adam Scott, David Harbour) e seu superior Charles McGuire (Kevin Bacon) não sejam capazes de enxergar o que está acontecendo até a chegada do promotor Fred Wyshak (Corey Stoll).
Essa abordagem ajuda Aliança do Crime a ser um pouco mais do que filmes de gângster passados em Boston, mas não a se sobressair frente longas como Os Infiltrados, ou mesmo Atração Perigosa.
A interpretação de Depp, que, maquiado até a medula, faz um gângster estilo monstro no armário, se justifica à medida em que a estrutura narrativa opta por mostrar o Bulger conforme ele era visto por seus comparsas. Ele frequentemente é mostrado nas sombras, contra a luz, ou com câmeras que o pegam em ângulos que fazem com que seus olhos mortos por conta das enormes lentes de contato fiquem em evidência, e o deixem com aspecto de criatura, com sua pele esbranquiçada e cabelos grisalhos lambidos o fazem parecer um monstro expressionista estilo conde Orlok de Nosferatu, isso se justifica porque, na maior parte do tempo, não vemos Bulger, mas sim a forma como os outros o veem.
Claro, há breves vislumbres de um Whitey mais humano, em suas interações com a namorada, o filho, a mãe, uma velhinha que rouba na canastra, e com seu irmão mais novo, mas mesmo esses momentos, não deixam de ser a visão dessas pessoas sobre o personagem.
Isso fica particularmente claro na forma como, por vezes, o foco da ação sai de Bulger em determinadas cenas, e a câmera foca a testemunha do que está acontecendo fora da tela. É interessante e bem sacado, mas ao mesmo tempo, nega à audiência o conhecimento do verdadeiro Jimmy Bulger. Do homem sob a fachada cartunesca de Whitey.
Com um bom trabalho de um elenco que ainda inclui Jesse Plemons, Juno Temple, Julianne Nicholson, Peter Sarsgaard, Rory Cochrane e W. Earl Brown, Aliança do Crime é uma visão mais interessante do que um bom filme, mas, dessa vez, não podemos culpar Johnny Depp pela escolha.
É uma boa ideia. Apenas mal executada.
"Vá em frente, mas faça valer a pena. Porque se eu me levantar eu acabo contigo."
sábado, 2 de abril de 2016
Resenha Cinema: Casamento Grego 2
Em meados de 2002, enquanto o cinemão mainstream era sacudido por filmes monstruosamente grandes fazendo fortunas nas bilheterias, casos de Star Wars: Episódio II - O Ataque dos Clones e Homem-Aranha, um filme independente muito menor, com um modesto orçamento de cinco milhões de dólares, alcançaria a impressionante marca de quase 370 milhões em bilheterias.
Era o primeiro Casamento Grego.
Escrito e estrelado por Nia Vardalos baseado no monólogo criado pela própria para o teatro, Casamento Grego se tornou filme após ser assistido por Rita Wilson, atriz casada com Tom Hanks que se identificou com o material por também ter origem grega. Wilson e Hanks viram potencial na peça de Vardalos e através da produtora de Hanks, Playtone, resolveram bancar a versão cinematográfica de Casamento Grego, que viria a se tornar a maior bilheteria de uma comédia romântica na história do cinema ao contar a história de Toula Portokalos, uma mulher de trinta anos que sofre uma crise de meia-idade precoce conforme se torna balzaquiana sem ter realizado o sonho familiar de se casar com um bom rapaz grego em ter filhos e mais filhos com ele.
Toula eventualmente abandonava o emprego no restaurante do pai e começava a trabalhar na agência de viagens de sua tia, onde conhece o professor Ian Miller, se apaixona por ele, e, quando os dois resolvem se casar, viviam as desventuras do casamento grego do título.
O longa tinha uma cara danada de sitcom, mas Vardalos, dona do material, conseguia ser uma protagonista identificável e gostável para a audiência, além de ter uma inegável química com John Corbett, intérprete de Ian. O roteiro tinha algumas boas piadas, a tia Voula, vivida por Andrea Martin era particularmente engraçada e Vardalos chegou a receber uma indicação ao Oscar pelo trabalho na categoria de roteiro original.
O sucesso de Casamento Grego foi tão grande que gerou uma série de vida curta chamada My Big Fat Greek Life, que tinha praticamente todo o elenco do filme, à exceção de John Corbett, e dava sequência aos eventos do longa com alguns ajustes daqui e dali. A despeito do sucesso do filme, a série durou apenas uma temporada de sete episódios.
Todo mundo seguiu a vida e ninguém jamais experimentou novamente sucesso semelhante ao do longa, especialmente o casal protagonista, Vardalos e Corbett.
Com isso, não era de se estranhar que uma sequência do hit de 2002 fosse ser aventada. À essa altura, quase quinze anos após o lançamento do original, ninguém estava em condições de negar a validade da tentativa, e My Big Fat Greek Life deixara bem claro que Vardalos e equipe não estava com vergonha de sugar o filme até a última gota.
E ali estava eu, ontem, assistindo Casamento Grego 2.
Novamente escrito e estrelado por Nia Vardalos e produzido por Rita Wilson e Tom Hanks, com Kirk Jones assumindo a direção no lugar de Joel Zwick, o longa traz de volta todo o elenco original.
Os anos passaram e Toula andou para trás.
Ela continua casada com Ian Miller (Corbett), que agora é diretor do colégio onde a filha de dezessete anos do casal, Paris (Elena Kampouris) estuda.
Toula só não é mãe em tempo integral porque seu pai, Gus (Michael Constantine) e sua mãe, Maria (Lainie Kazan) não conseguem tomar conta do restaurante sozinhos por conta dos problemas de saúde. Esses problemas colocaram Toula de volta na gerência do Dancing Zorba's.
Sua relação de co-dependência com a família, porém, não afeta apenas sua vida profissional. O fato de passar o tempo todo correndo de Herodes para Pilatos com a mãe e o pai, afeta também seu casamento com Ian, com quem não tem nem sombra da velha chama, e a intrusão recorrente de todos os tios, tias e primos em todos os âmbitos de sua vida, incomodam particularmente Paris, que sente vergonha da presença constante dos barulhentos gregos.
Como se Toula já não tivesse o suficiente para se preocupar, remexendo registros de família para provar que é um descendente direto de Alexandre da Macedônia, Gus acaba descobrindo que sua certidão de casamento jamais foi assinada pelo padre da vila de onde ele e Maria vieram, de modo que os dois não são oficialmente casados.
Para reparar o caso, os dois decidem se casar novamente(ó o casamento grego 2 do título), mas, como tudo na vida dos Portokalos, esse casamento não será realizado sem uma boa dose de conflito e confusão, tudo isso enquanto Paris decide para qual universidade pretende ir, apavorando Toula e Ian com a ideia de se afastar deles.
Bom... Casamento Grego 2 é, novamente, um filme com cara de sitcom que usa e abusa da premissa do estranhamento de um grupo étnico inserido na cultura norte-americana.
O longa praticamente se vale de repetir a maioria das piadas do filme de 2002, mas presta um desserviço à Toula de Nia Vardalos.
A personagem destrambelhada e divertida do primeiro longa desaparece, sendo reduzida à uma sombra que faz o que lhe mandam fazer o tempo todo.
Além do desserviço à protagonista e a reprise de trocentas piadas, o roteiro da sequência ainda traz algumas incongruências, como o fato de Maria (uma Lainie Kazan tão cheia de plásticas que parece o Dr. Pig de Arkham Knight), que passou o primeiro filme inteiro querendo que Toula se casasse, e passa a primeira metade do segundo querendo que Paris se case, não queira se casar e questione se quer passar a vida toda como esposa de alguém.
Tia Voula ainda tem as melhores piadas, e o Gus Portokalos de Michael Constantine é terno e divertido com sua mania de dizer que todos são gregos.
Há ainda a participação de Mark Margolis como o tio de Toula (sem nenhuma sineta), e de Rita Wilson e John Stamos, absolutamente despropositados como um casal de descendentes de gregos que frequentam a mesma igreja dos Portokalos.
De qualquer forma, o filme não é ofensivo, e certamente vai agradar às fãs do primeiro longa, mas duvido que chegue sequer perto do êxito comercial do longa original.
Há limite pra tudo nessa vida, inclusive para chutar um cachorro morto.
"-Quem disse que mulheres devem se casar?
-Você. Nossas vidas inteiras."
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Série: House of Cards
Eu tive, desde sempre, uma relação conflituosa com séries de TV.
Além de minha impaciência - Eu sou incapaz de dar tempo para um seriado se desenvolver. Um programa de TV tem exatamente dois episódios para ganhar minha atenção, e se não fizer isso, eu nunca mais o assisto - havia a agenda.
Jamais consegui ser fiel à um seriado por diversas razões. Mesmo os programas de TV de que eu realmente gostava, como E.R., Friends, Seinfeld, House, The Office.... Todas elas, em algum momento, perdiam minha atenção.
Fosse por causa dos desmandos das emissoras, alterando os horários os dias de exibição ou o idioma dos episódios (The Office foi uma que, quando começou a passar dublado, perto da meia-noite de domingo no FX, perdeu pra sempre minha audiência), fosse porque as séries estavam se alongando obviamente além do tempo que deveriam durar, fosse porque eu, em algum momento, tinha algum compromisso no dia do programa, bastavam um ou dois episódios perdidos e eu abandonava as séries de vez.
Praticamente não assisti E.R. entre a décima e a décima quinta temporada. Abandonei The Office antes da saída de Steve Carell. Parei de ver House antes do sexto ano. Vi Friends inteira apenas em DVD, o que também aconteceu com Seinfeld.
De modo que estava acostumado a ser o sujeito na roda de amigos que não acompanhava séries, num momento em que as séries estavam se tornando um filão cada vez mais poderoso, tanto em termos de abrangência quanto de qualidade.
Embora eu venha assistindo Game of Thrones (não desde o começo, só passei a acompanhar de fato o programa quando peguei, ao acaso, uma maratona da primeira temporada na HBO), o que realmente mudou minha relação com as séries foi Demolidor, e o Netflix.
Antes mesmo de Sílvio Santos alardear as vantagens de ser assinante do serviço de streaming, eu assinei o Netflix unicamente com o intuito de ver se Demolidor valeria alguma coisa.
Tinha sérias dúvidas a respeito da ideia de um seriado sobre o herói já que, historicamente, séries de super-heróis deixam a desejar, haja visto que não consegui assistir Smallville além da segunda temporada, e outras séries do tipo, como Arrow, Flash, Agents of SHIELD e Gotham, não consegui ver além do segundo episódio...
Mas, Demolidor foi um seriado espetaculoso, tão qualificado que eu sabia, de cara, que iria querer ver a segunda temporada, e que iria querer ver Jessica Jones, e Luke Cage e Punho de Ferro, de modo que resolvi manter minha assinatura e não fazer uso apenas do mês grátis oferecido.
O Netflix mudou minha forma de ver seriados.
Eu assisti Sherlock de maneira comedida, um episódio por dia, ao longo de mais de uma semana, Breaking Bad inteira, às vezes vendo quatro ou cinco episódios em sequência, em coisa de um mês e meio. Assisti o primeiro ano de Better Call Saul em uma semana. E após esgotar meu estoque com esses seriados que eu realmente queria ver, comecei a procurar alguma outra coisa pra preencher o vazio de tempo entre a primeira temporada de Jessica Jones e a segunda de Demolidor.
E não foi por mais senão minha admiração pelo trabalho de Kevin Spacey que eu resolvi dar uma chance à House of Cards, um seriado que, confesso, não era exatamente o perfil de programa que eu almejava assistir, ao menos na sua sinopse.
Mas aí, descobri Frank Underwood (Spacey), o improvável deputado democrata de Gaffney, Carolina do Sul, que ao ser preterido no cargo de secretário de Estado pelo recém eleito presidente Garrett Walker começa, ao lado de sua esposa Claire (Robin Wright), uma inexorável marcha rumo ao poder, custe o que custar, doa a quem doer.
Se, em um primeiro momento, o que me manteve assistindo aos episódios foi o talento de Spacey, não demorou para que eu me afeiçoasse à Claire Underwood, Zoe Barnes (Kate Mara), Peter Russo Corey Stoll), Doug Stamper (Michael Kelly) e todos os personagens que orbitam o casal principal.
Confesso que, a quebra de ritmo na terceira temporada, com Francis na presidência e diversas tramas paralelas afastando o foco de Underwood, aliado à minhas férias e ao lançamento da segunda temporada de Demolidor acabaram me afastando brevemente de Frank e Claire, mas após devorar os treze episódios do diabo da guarda de Hell's Kitchen, voltei à House of Cards, terminei de ver a terceira temporada, e, em pouco mais de uma semana, assisti à toda a quarta.
E é bom ver que o programa retomou seu caminho.
House of Cards não é The West Wing. Não é um programa sobre política.
É um programa sobre poder. E sobre a busca por mais poder.
Foi devolvendo Frank e Claire à ribalta e lhes oferecendo desafios de variadas espécies que House of Cards, em sua quarta temporada recuperou a qualidade dos anos um e dois.
Os grandes desafios de Frank e Claire, por sinal, não são as difíceis relações políticas com a Rússia de Viktor Petrov (Lars Mikkelsen, o Napoleão da chantagem Charles Magnussen de Sherlock), nem as dificuldades da campanha democrata contra Heather Dunbar (Elizabeth Marvel), o incrivelmente perfeito candidato republicano, William Conway (Joel Kinnaman), os ataques terroristas da ICO (dublê do EsIs na série) e nem sequer a investigação de Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) ou uma tentativa de homicídio.
A única coisa capaz de ferir um Underwood, é outro Underwood.
Abraçando de vez a vilania velada de Frank e Claire, e a levando a lugares novos e sombrios do relacionamento dos dois, e, mais do que isso, tirando a trama do que é politicamente plausível durante a conturbada campanha presidencial, e a levando honestamente para onde é mais interessante, House of Cards reencontrou o caminho, e fechou sua quarta temporada com um gancho excepcional para o quinto ano.
Serão longos meses de unhas roídas até ver onde as maquinações de Francis e Claire os levarão. Por sorte, minha relação com séries, agora, é outra. E eu tenho um bocado de opções para dividir meu tempo até lá.
Obrigado, Netflix. Frank, Claire, nos vemos em 2017.
"-É isso mesmo. Nós não nos submetemos ao terror. Nós criamos o terror."
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