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terça-feira, 10 de maio de 2016

Orgulho Paterno


A Valquíria, oito aninhos, cabelos castanho-escuros presos em maria-chiquinhas nas laterais da cabeça, vestido cor-de-laranja, pés enfiados em tênis All-Star azuis tamanho 25, deitada no chão fazendo a lição de casa, perguntou, casualmente ao Sandoval, seu pai, quarenta e tantos, sentado na poltrona lendo o jornal qual era o nome dos três reis magos.
-Paiê... Qual é o nome dos três reis magos? - Quis saber com a voz estridente, apenas erguendo a cabeça do caderno.
-Três reis magos. - Respondeu Sandoval, monocórdico, sem tirar os olhos do jornal.
-Quê? - Quis saber a Valquíria, confusa.
-O nome dos três reis magos é três reis magos. Que eu saiba eles não tem nenhum outro nome... - Esclareceu Sandoval.
-Não, pai... - Suspirou Valquíria. -O nome de cada um deles, não do grupo.
-Ah... - Entendeu Sandoval.
E congelou.
Após oito anos de paternidade, deparava-se com uma fronteira absolutamente nova:
Não sabia o que responder para a filha.
Sandoval não lembrava dos nomes dos três reis magos. Pra ele eram apenas os três reis magos. Nem sabia que eles tinha nomes além daquilo, ora que diabos. Mas fazia sentido. Os Vingadores eram Capitão América, Homem de Ferro, Hulk, Gavião Arqueiro, Viúva Negra e Thor, as Meninas Super-Poderosas eram Florzinha, Lindinha e Docinho, os Três Reis Magos não deviam ser Um, Dois e Três.
Que diabos... Como se chamavam os três reis magos? Eles traziam ouro, incenso e mirra, será que tinha relação?
O que trazia ouro se chamava Midas, o que trazia incenso se chamava Hippie, e o que trazia mirra... O que é que era mirra, mesmo? Uma planta? Um óleo? Um óleo de planta?
Meu Deus do céu... Os três reis magos... Como eles chamavam?
Sandoval fizera catequese, era um lance meio compulsório quando ele era criança, então ele estudou isso. Toda a quarta depois da aula na quinta série, tinha catequese. Ele ia até lá, o padre conversava com a criançada... Sem putaria. Era um padre muito camarada. Gostava de futebol. Padre Gérson. Gente boa, mas gremista... Putz, na ponta da língua, se lembrasse do primeiro os outros dois viriam na carona... Era um nome de cantor...
Caralho... Era capaz de lembrar da escalação do time principal do grêmio em 95, e isso que era colorado, mas não conseguia lembrar dos três reis magos. Sabia de cor e salteado o hino do Inter, as músicas da torcida na Libertadores de 2006 e 2010, sabia a escalação da seleção brasileira de 94 e de 2002, mas não conseguia lembrar da porcaria dos nomes dos três reis magos.
Sabia nomear, em ordem os presidentes da época da ditadura, da época da política do café com leite, roteiristas do Homem-Aranha desde Stan Lee, filmes com Leonardo DiCaprio, o Conselho Jedi, capas da Playboy desde 1993... Meu Deus...
Tá, calma. Não é uma competição. Não é o que eu consigo lembrar, pensou Sandoval, respirando fundo.
Era o que ele não conseguia.
Enfim, não lembrava. Era só assumir. Mexer no celular. O Google tava ali, ao alcance dos dedos.
"Val, o pai não lembra, mas vamos dar uma olhada aqui na internet..."
Olhou a filha. Ela o encarava com os grandes olhos castanhos esperando a resposta, mexendo os pezinhos enquanto aguardava.
Que tipo de mensagem aquele curso de ação passaria?
Que todas as respostas estavam na internet? Que a filha não precisava estudar, bastava ter banda larga em casa?
Não. Era melhor ele ir até a estante, pegar a Bíblia que ganhara da mãe e, junto com a Valquíria, procurar pela resposta.
Melhor ainda.
Deveria mandar que ela procurasse sozinha.
Aprender que, ás vezes, a nós temos que procurar pela solução de nossas dúvidas nós mesmos...
Mas a Val só tinha oito anos...
Ela se voltara ao pai procurando por respostas... E ele lhe falharia tão cedo? Com uma questão tão mundana?
Ainda se a Val tivesse vinte e seis anos e perguntasse qual o sentido da vida... Pôxa, seria mais fácil dizer que não sabia. Ainda que fosse de maneira mais edificante... Mas ela com oito anos. Oito!
Querendo saber só quais eram os nomes dos três reis magos. E ele a desapontaria ali? Cinco passos depois da linha de largada?
Como ela manteria a confiança na sapiência paterna se, em uma questão tão mundana, ele já a decepcionava?
Ela o olhava, os pés balançavam mais rápido, estava impaciente. Desmascararia-o em instantes, não importava o quanto ele continuasse olhando pro jornal.
Era isso. Ou desapontava a filha ou fingia uma síncope. Ia cair pro lado, babando e fingindo se afogar na própria respiração.
Entre desapontar a filha e traumatizá-la, mil vezes a segunda opção.
Foi quando teve uma luz: Não inscrevera a filha nas aulas de religião. Ele próprio um ateu convicto, queria que a Valquíria tivesse liberdade para escolher a fé que lhe agradasse mais quando tivesse idade para entender os preceitos de religiosidade. Valquíria já fora batizada à revelia de sua vontade por pressão das avós. Ora, se aquilo era matéria de religião, Valquíria não precisaria estar fazendo aquela lição.
-Isso é pro teu tema de casa? - Perguntou.
-Não - Respondeu a Val, voltando a rabiscar no caderno. Eu só vi num filme hoje de tarde, eles levando presentes pra Jesus, e fiquei pensando quais era os nomes deles...
Sandoval iluminou-se. Não era pra lição. Recostou-se na poltrona, aliviado.
-Pai? - Valquíria chamou-lhe a atenção.
-Quê? - Perguntou, Sandoval, saindo do torpor de alívio.
-Quais eram os nomes deles? - Ela inquiriu, grafando cada palavra do questionamento com uma ginga de ombros e uma erguida nas sobrancelhas tênues.
Sandoval continuava na encruzilhada. Mas tinha um trunfo: Não era oficial.
Sorriu:
-Torquato, Serapião e Amázio.
Valquíria riu:
-Que nomes engraçados!
-Sim - Concordou Sandoval, falso. -São os nomes daquela região...
Valquíria voltou à lição de casa. Mais tarde, quado perguntasse quais eram mesmo os nomes dos três reis magos, ele não precisaria mentir que eram Torquato Serapião e... E... Evilásio? Enfim, não importava, ele já teria pesquisado e descoberto que eram Belchior, Baltasar e Gaspar.
Filho da puta!
Belchior, Baltasar e Gaspar.
Caceta. Tava na ponta da língua.
Enfim... O importante é que o orgulho paterno e a confiança infantil permaneciam incólumes.
Ou quase...

A Era do MiMiMi


Foi ainda no domingo. Pouco após o árbitro Anderson Daronco encerrar a partida final do campeonato gaúcho entre Internacional e Juventude que coroou o Colorado, mais uma vez, campeão estadual, que começou a polêmica.
Na tradicional matada de tempo entre o fim do jogo e a entrega das taças ao campeão e vice, a rede de TV que transmite o certame enche a teça com animações, toca o hino do campeão na gaita (o que o pessoal de fora do RS chama de acordeão ou sanfona), e mostra uma imagem do mascote do clube vencedor com os dizeres "Campeão Gaúcho" do ano corrente.
Já vimos isso mil vezes.
A imagem do mascote colorado, o Saci, foi o pivô da polêmica do momento. É exatamente aquele da imagem que aparece entre o título e o texto.
Vou confessar que não gostei muito do desenho. Achei pobre em termos de qualidade de traço. É um Saci desenhado em estilo quadrinhos dos anos noventa, época em que artistas brasileiros emulavam o estilo dos comics norte-americanos com resultados que de OK não passavam, e eram algo artificiais, como se pudéssemos ver que aquele não era o modo como o desenhista teria feito sua ilustração se pudesse escolher.
Não sei quem é o responsável pela arte do Saci que surgiu na tela da TV no domingo. Tampouco conheço seu estilo, não o estou acusando de nada, apenas dizendo a impressão que o desenho me causou.
Não foi boa.
É um Saci que andou tomando bombas, whey protein e suplementação alimentar, mais ou menos como o Giuliano, ex-Inter, hoje no grêmio, e ficou excessivamente parrudo. Tem cara de cantor de grupo de pop music, e um sorriso pretensioso que não me agradaram.
Mas enfim, é uma porcaria de uma alusão gráfica de alguns segundos na TV, algo que, acreditava eu, ninguém, em sã consciência se prestaria a analisar.
Ledo e Ivo engano.
Pouco mais de duas horas após o encerramento do certame, a deputada estadual do PCdoB Manuela D'Ávila postou nas redes sociais a seguinte mensagem:


Manuela, aparentemente viu o Saci na TV, e o achou muito branco. Bom, em uma TV com brilho, contraste e saturação de imagem customizados, é possível que tenha-se tido essa impressão. O Saci que eu vi na minha TV, por exemplo, era bastante semelhante ao que ilustra a postagem.
Negro.
Quiçá mais escuro...
Não era retinto como o Saci desenhado por Ziraldo, que é tão preto que tem seus traços faciais mostrados em branco para que se enxergue, mas certamente não era o Saci branco da postagem da deputada.
Mas era tarde. A internet se inundou de gente reclamando do "whitewashing" do Saci do Inter. Nas redes sociais de quê participo, formaram-se falanges de detratores do Saci "moreninho", "pardo" ou "melanina 10%" apresentado. Algumas pessoas explicavam ter visto um Saci negro, que inclusive ficava mais negro dependendo do tipo de TV, aparentemente em TVs de tubo, dos modelos antigos, o Saci ficava "Rentería" enquanto em TVs de LED, ele ficava "Paulo Zulu", mas isso não convenceu os ofendidos, que seguiam fazendo queixas veladas ou abertas de que estavam descaracterizando o mascote Colorado, que era uma afronta às minorias, um desrespeito ao Clube do Povo e ao povo do clube.
A celeuma foi tanta que até a rede de TV que transmite o estadual e mostrou o Saci se justificou dizendo que houve um problema de concepção da imagem, que ficava muito clara em determinados televisores, mas o debate segue.
Quase quarenta e oito horas após a veiculação da imagem, após pessoas terem atestado e mostrado imagens de um Saci mais negro de algumas TVs e infinitamente mais brancos em outras, a discussão segue.
O mundo indo pro buraco e ainda tem gente brigando porque o Saci pareceu muito branco em algumas TVs.
Eu sou Colorado de quatro costados, conhecedor da História do meu time, e orgulhoso (mas não iludido) das raízes populares do meu clube do coração. Reconheço a importância de ter um mascote negro (o único mascote negro entre os grandes clubes do Brasil conforme disse Manuela D'Ávila) para o Internacional e não me agradaria ver um Saci branco da mesma forma que não me agradaria ver um Pantera Negra branco, um Othelo branco, ou um Shaft branco, meu ponto não é esse.
Meu ponto é que o Saci que desencadeou toda essa discussão não era branco.
Era negro.
Talvez não fosse preto como um tiziu, talvez não fosse tão negro quanto A, B, C ou D gostaria que fosse, mas era negro.
Aparentemente, vivemos em uma época onde é mais importante reclamar do que ter lastro para a reclamação. A queixa é a razão de ser de uma geração e uma sociedade que parece ser incapaz de resistir à polêmica vazia. Todos policiam todos, todos têm um discurso politicamente correto na ponta da língua para acusar uns aos outros mas poucos praticam tal correção. Uma autoridade política, antes mesmo de verificar a veracidade de um fato, corre pra rede social pra publicar um discurso populista pseudointelectual de modo a agradar suas bases. Vivemos em um mundo de idiotas choramingões que prestam um desserviço à cada uma das causas que julgam defender, que parecem viver encolhidos gritando "não me bate" cada vez que alguém passa por perto.
Eu gostaria imensamente de ver um quinto da disposição que as pessoas têm para recriminar os outros na internet ser direcionada à alguma atividade produtiva.
Qualquer uma.
Estudos, trabalho, luta efetiva por alguma causa além da própria... Qualquer coisa além da queixa pela queixa. Qualquer coisa lém da polêmica pela polêmica. Qualquer coisa além do mimimi.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Larry


Em onze de julho de 1954, o Internacional entrava em campo para enfrentar a equipe do Floriano (que mais tarde se tornaria o Novo Hamburgo) pelo Torneio Extra, no estádio da Timbaúva.
A novidade no time do Inter que entraria em campo naquele dia era um jovem centroavante chegando do Fluminense para pegar experiência no sul:
O friburguense Larry Pinto de Faria.
Larry marcou seu primeiro gol com a camisa vermelha aos 25 segundos da primeira etapa da partida contra o Floriano.
Com um minuto de jogo, já havia anotado o segundo tento.
Com tal cartão de visitas, não chega a ser surpreendente que Larry viesse a se tornar, nos seis anos em que defendeu a camisa do Colorado, um dos maiores artilheiros da história do clube com 176 gols marcados.
Um dos maiores avantes a vestir a camisa do Internacional, Larry fez parte do Rolinho, a equipe que, entre as décadas de cinquenta e sessenta, sucedeu o temido Rolo Compressor.
Entre seus feitos, está a participação maiúscula na goleada de 6 x 2 que o Internacional aplicou no grêmio no torneio de inauguração do estádio Olímpico, partida onde Larry deixou sua marca quatro vezes.
A ligação de Larry com o Internacional não acabou quando ele encerrou sua carreira de jogador. Larry foi treinador e dirigente do Inter, e a memória viva de um dos grandes escretes da centenária história colorada.
Hoje, por volta das seis e quinze da manhã, Larry faleceu, em decorrência de complicações provenientes de uma pneumonia. Ele tinha 83 anos de idade.
O corpo de Larry será velado na capela do Beira-Rio a partir das 15 horas de hoje, e merece todas as homenagens que o Internacional, instituição e torcida, puder lhe render.
O Cerebral deixa os campos terrenos, e se torna mais um dos astros que cintilam no céu sempre azul dos eternos ídolos vermelho e brancos.
Obrigado por tudo, Larry.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"Con Migo" Ninguém Pode


A Cristina, deusa, deliciosa, linda de morrer, morena de pele clara, bunda bonita, pernas bonitas, braços bonitos, rosto bonito... Era tudo aquilo e ainda por cima inteligente.
Não uma pseudo-intelectual pedante, mas esperta, de raciocínio rápido, preparada para enfrentar o inesperado.
Estava sentada na praça de alimentação do shopping tomando um café e pensando na crise financeira. Não era uma grande investidora. Nem pequena ou média. Não era uma empresária acossada pela desproporcional carga tributária e nem mesmo estava de malas prontas para uma viagem ao estrangeiro que seria encarecida pelo aumento do IOF.
Nada disso.
Apenas uma frequentadora de supermercados e lojas que percebia a diminuição sistemática de seu poder de compra cada vez que entrava em uma loja qualquer.
Foi percebendo a dupla de rapazes que a secava de maneira acintosa algumas mesas adiante que se flagrou pensando que, com tantas bolsas e programas sociais, deveria existir um programa Bolsa Gostosa... Uma ajuda financeira para homens sem poderio financeiro poderem se relacionar com mulheres de estampa além de seu poder de conquista inato.
Os dois sujeitos que a olhavam agora, por exemplo. Nenhum dos dois era bonito. Não eram feios, também. Aparência mediana.
Mas não pareciam ter grandes atrativos.
Fossem inteligentes ou espirituosos não estariam olhando para Cristina feito dois psicóticos de maneira incessante por quase dez minutos, confundido aquilo com algum jogo de sedução. Como dissera certa feita Irene Adler, "inteligente é o novo sexy", mas os dois jovens não eram nem uma coisa, e nem a outra.
Se existisse um Bolsa Gostosa, talvez aqueles dois pudessem se vestir com distinção, dirigir um bom carro, mesmo que alugado, e ter condições de outorgar à uma bela mulher um programa capaz de oferecer entretenimento e diversão além do que eles eram capazes de oferecer apenas com suas personalidades e aparência.
Sorriu pensando na perspectiva recém elucubrada.
Perguntou-se se existiria mulher capaz de se submeter a um relacionamento, ou mesmo a um encontro baseado unicamente no ganho material que poder-se-ia arrancar de tal enlace, e suspirou a dar-se conta de que era claro que existiria.
Notou, aflita, que um dos rapazes se aproximava, cheio de coragem. Amaldiçoou a própria distração. Ao sorrir para si mesma por conta do absurdo da ideia do "Bolsa Gostosa" acabara mandando o sinal errado para os dois sujeitos.
Preparava-se para o discurso do "desculpe, não estou interessada" ou "sou comprometida", mas surpreendeu-se ao ver que o rapaz passou reto por ela, pousando um guardanapo dobrado sobre sua mesa.
Ergueu as sobrancelhas bem desenhadas em admiração.
Um torpedinho de papel à moda antiga. Não era uma coisa que se via todo o dia em tempos de revolução digital onde 24 horas de Whats-App quase lançavam o país nos horrores de uma guerra civil.
Perguntou-se se não fora demasiado dura ao julgar os dois sujeitos. Talvez fossem mais do que a primeira vista sugeria, talvez fossem mais do que postulantes ao Bolsa Gostosa...
Abriu o pedaço de papel e lia-se:
"Oi, limda
Quer sentar con migo?".
Cristina esperou que os dois rapazes estivessem juntos novamente. O que deixara o bilhete voltou à mesa, carregava consigo dois chopes. Entregou um ao amigo, e ofereceu um brinde. Tocaram as caneca. E voltaram a olhar para Cristina.
Ela dobrou novamente o guardanapo, olhou com resolução para os dois, e rasgou o bilhete no máximo de pedaços que conseguiu, jogou os fragmentos dentro do copo de café vazio, se levantou e foi embora abanando a cabeça em sinal de negativo.
Aquele tipo, sentenciou para si mesma, nem com todos os Bolsa Gostosa do mundo.
"Con migo", não. "Con migo", ninguém pode.

Star Wars Day 2016


Pra todos vocês que, quando percebem que o time adversário tirou um centroavante de área apagado e colocou um meia ligeirinho bem aberto pra jogar nas costas do teu lateral que sobe muito, diz: "Eu tenho um mau pressentimento sobre isso.".
Pra todos aqueles que, quando ouvem de um colega que não existe a mais remota chance de aquela loira bonita de um metro e oitenta da odonto querer sair com um pé-rapado feio que nem tu, responde: "Eu acho a tua falta de fé perturbadora...".
Para todos aqueles que notaram que a morena com abdominal de seis gomos, coxas de zagueiro de time ucraniano e costas largas de nadador dando bola pro teu amigo pinguço na boate não era bem o que parecia e advertiram: "É uma armadilha!".
Pra cada um dos que resolveram virar a noite jogando Zelda antes da prova do professor Pedro Oliveira e ao ouvir que existiam pouquíssimas chances de passar na prova sem estudar, responderam: "Nunca me fale as chances."
Para todas que pediram ajuda na mudança, e descendo a escada com aquele armário de três portas que não desmontava pediu que o amigo erguesse o seu lado mais um pouco e ao ouvi-lo dizer que tentaria replicou: "Faça ou não faça. Não há tentar."
Para todos os que já se gabaram de ter conseguido fazer a volta de Kessel em menos de doze parsec...
Que são capazes de reconhecer quando alguém é poderoso na Força...
Que já disseram que uma pessoa amada era sua única esperança...
Que já quiseram revelar de surpresa ser pai de alguém...
Que já responderam "Eu te amo" com "Eu sei."...
Para todos vocês, seres iluminados, ocultos nessa rude matéria.
Um feliz dia de Star Wars.
May the 4th Be With you All.

terça-feira, 3 de maio de 2016

...A Colher


A Luísa morava no 405, vizinha de janela do Fábio, do 407. Era bonita a Luísa. Morena, olhos castanho-claros, miudinha e bem proporcionada. Era de Casca, no interior do estado, e tinha um pesado sotaque da região dos vales do norte do Rio Grande do Sul.
Fábio, nascido e criado em Porto Alegre, alto, parrudo, cabelos e olhos castanho-escuros tinha aparência mediana. Poderia ser bonito fosse mais cuidadoso com sua aparência. Não o era. Era a figura do desleixo com relação ao próprio visual, representante de uma rara linhagem de homens à moda antiga que acreditava apenas em higiene, e não em cosméticos.
Se fosse um transeunte qualquer, ou um dos muitos clientes que Luísa atendia na loja onde trabalhava, Fábio provavelmente passaria batido para a jovem Casquense.
Mas Luísa via Fábio dia após dia. Geralmente pela manhã, quando se encontravam casualmente na área de serviço, ela, pendurando a toalha que usara no banho matutino, ele apanhando os tênis que calçaria para ir trabalhar.
Ela, sempre adiantada mais de uma hora para o trabalho, ele, sempre no limiar de se atrasar alguns minutos.
Começaram apenas sorrindo um para o outro.
Timidamente.
O sorriso tímido escalou para sorrisos mais abertos. Os sorrisos abertos para bom-dias conservadores, e os bom dias para ois e pequenos dedos de prosa que começaram com meteorologia "e esse frio?", passaram a papo-furado de vizinho "nem me fala, tô com uma rinite horrível, nasci pra ser alérgica.", até reminiscências e anedotas familiares "Meu irmão é a pessoa mais alérgica que eu conheço. Tem alergia a tudo. Uma vez comeu uns bombons e ficou inchado feito um baiacu!".
Luísa, ás vezes, notava as camisetas de super-herói vestidas por Fábio.
Nomeava aqueles que reconhecia, Capitão-América, Superman, Homem-Aranha, e perguntava quem eram os que lhe eram desconhecidos, V, Quarteto Fantástico, Demolidor...
Trocavam palavras amigáveis na área de serviço todas as manhãs. Vez que outra uma careta solidária quando a chuva os fazia correr para recolher as roupas do varal no meio da noite. Uma felicitação numa data comemorativa como o natal, ou uma risada cúmplice quando o sexo barulhento do casal do 506 os fazia abrir a janela escandalizados ao mesmo tempo.
Fábio tinha trinta e poucos, Luísa vinte e um anos.
Fábio já havia reparado em Luísa, e chegado a pensar que, em outra situação, a teria convidado pra sair.
Ir ao cinema, jantar... Alguma coisa.
O problema é que Luísa era casada.
Aos vinte e um anos, era casada com Emerson, vinte e quatro, gringo alto e magro feito uma taquara, cabelo castanho-claro cortado rente à cabeça, olhos azuis-escuros muito juntos e nariz adunco que denunciava a origem italiana do natural de Marau.
Quando Luísa dissera ser casada, Fábio não conseguiu evitar a nota de pavor na voz, dizendo "Casada?", ao que a jovem confirmou com um sorriso terno.
Emerson era policial da brigada militar, a quem os gaúchos convencionam chamar de "brigadiano".
Emerson era um sujeito caladão. Cumprimentava Fábio com acenos de cabeça, muito sério. Inicialmente, Fábio achou que poderia ser ciúme por causa das conversas do vizinho com sua esposa. Percebeu que não era o caso.
Emerson parecia tímido e naturalmente sorumbático. A única vez que Fábio vira o vizinho sorrindo, fora dentro de uma viatura. Eram mais de onze da noite e o veículo oficial estava parado na frente do prédio, luzes acesas, repleto de policiais fardados dentro, entre eles, Emerson, que ria divertido conversando com os colegas.
Fábio não entendia o que Luísa vira em Emerson.
O policial era um homem feio, não parecia sujeito de muitas luzes intelectuais e, ainda ensimesmado, muito diferente de Luísa, com seu jeito expansivo de moça do interior querendo conhecer e saber um pouco mais de tudo.
Emerson devia ser um namorado de infância com quem ela trocara juras de amor eterno que, por milagre, acabaram se cumprindo.
Fábio olhava com com curiosidade quase acadêmica para os dois. Imaginando que cósmica combinação de fatores aleatórios formara aquele casal tão discrepante.
A primeira vez que ouviu, de fato, a voz de Emerson, foi numa madrugada de sexta para sábado, o ruído contínuo o fez baixar o volume da TV para tentar ouvir os dois discutindo do outro lado do poço que separava os blocos.
Emerson falava alto, uma voz tonitruante que Fábio não imaginava na boca do magrão quase mudo que vivia ao lado. Ele dizia a Luísa que, se ela não queria cuidar da casa, que arrumasse suas coisas e voltasse pra barra da saia da mãe.
Na verdade disse "Mamãe".
Fábio apiedou-se de Luísa. Era uma moça jovem. Trabalhadora e trabalhadeira. Poderia ter ficado, de fato, na barra da saia da mamãe e ter estudado, levado uma vida com menos perrengues, mas preferira se mudar pra capital para viver uma vida de casada ao lado de Emerson, e ele a tratava daquela forma?
Ameaçando fazer suas malas e jogá-las na rua às três da madrugada?
Tão subitamente quanto começara, a discussão terminou.
No dia seguinte, Fábio não viu Luísa na área de serviço.
Voltou a vê-la na segunda, quando ela o cumprimentou com um "oi" baixo e um sorriso triste que fez o coração de Fábio se estilhaçar.
Parecia envergonhada. Decerto que sabia que Fábio ouvira a altercação de duas noites antes, e parecia constrangida com a situação.
Fábio entendia.
Ele próprio ficara constrangido.
As coisas voltaram a normalidade na sequência, com Emerson voltando à invisibilidade e Luísa voltando a sorrir e conversar despreocupada na área de serviço, e eventualmente na entrada do condomínio. Por alguns meses tudo esteve na mais perfeita ordem, até que, em uma manhã de sábado, Fábio acordou novamente com gritos de Emerson.
Ele dizia que se Luísa não abrisse a porta do banheiro, a derrubaria.
À ameaça seguiu-se um estrondo seco, e então outro.
Fábio abriu as janelas fazendo alarido, tentando mostrar que o ruído era demasiado. Foi aquilo em que conseguiu pensar no calor do momento.
Mas dali pra frente, reinou o silêncio, e Fábio não soube se sua tentativa de constranger Emerson dera resultado.
Não viu Luísa naquele dia, mas flagrou-se pensando nela.
O que poderia fazer para ajudá-la?
Deveria meter a colher naquela briga entre marido e mulher?
Tinha óbvia vergonha de falar com ela sobre o assunto. Não queria parecer um vizinho enxerido. Pensou em fazer uma denúncia, mas adiantaria? Emerson era, afinal de contas, um policial, e a verdade é que, a despeito dos gritos e ameaças, Fábio jamais o vira ou ouvira agredir Luísa de fato, mesmo sendo vizinho de janela. Não queria demonizar um agente da lei por quem, a bem da verdade, tinha muito respeito.
Não conseguia imaginar o tamanho do estresse de um policial militar, mal pago e mal equipado para agir como barreira entre a sociedade e o crime.
Não era um detrator da polícia e tampouco achou que viveria para ver consumada a expressão "mulher de brigadiano" para se referir à esposas que gostavam de apanhar.
Questionava-se se adiantaria alguma coisa fazer uma denúncia sem uma agressão consumada? Mais do que isso, adiantaria fazer uma denúncia sem um flagrante? E Luísa confirmaria a agressão? Fábio era um rematado pragmático, um sujeito prático acima de todas as outras coisas. Não era capaz de entender porque uma guria bonita e nova ficaria ao lado de um cavalão que dava achaques e derrubava portas dentro de casa, mas sabia que, em muitas ocasiões, mulheres que vítimas de abuso doméstico tinham dificuldade em apontar seus agressores. Não era psicólogo nem nada, mas supunha que a jovem bonita do interior, sozinha com o marido na capital encaixar-se-ia no modelo de vítima que teria pudores em denunciar seu algoz.
Fábio pensou muito a respeito, pensou de verdade, mas não foi capaz de encontrar uma solução para a situação, e como Luísa e Emerson pareceram ter voltado às boas nos dias seguintes, também aquilo, como tudo na vida, acabou suplantado pelo dia a dia, e foi apenas semanas mais tarde, ao chegar em casa e encontrar a diarista, que Fábio voltou a pensar no assunto.
Dona Eugênia o recebera com o sorriso de sempre, anunciando, didática, todas as limpezas que havia feito e onde deixara cada uma das coisas que Fábio mantinha estrategicamente jogadas pela casa. Após receber o pagamento pela faxina, fez uma careta de reprovação e perguntou à boca pequena como quem alcovita, se Fábio conhecia a moça do lado. Ao que ele confirmou, dizendo tratar-se de Luísa.
Dona Eugênia, compadecida, narrou então uma discussão entre Luísa e Emerson, que culminara com o "cavalão" dando um tapa no rosto da menina.
Por alguma razão, Fábio sentiu sua boca se inundar de um sabor amargo.
Não soube explicar o porquê. Talvez fosse culpa. Vergonha da própria inação.
Mas garantiu a dona Eugênia que faria alguma coisa.
E fez.
Depois de flertar com a ideia de falar com Luísa, da qual foi demovido pela timidez, ligou para o disque-denúncia.
Ligação anônima, feita de um orelhão, coisa que fê-lo sentir-se como se traísse a longa linhagem de quadrinhos de super-heróis que lia desde antes de saber ler mas, ainda assim, pareceu o curso de ação mais correto e seguro.
Fábio ligou, disse que não gostaria de dar seu nome, mas que queria denunciar um caso de violência doméstica.
Deu o endereço, o número do apartamento vizinho, e narrou os episódios que testemunhara e mais a agressão testemunhada por dona Eugênia.
Dias se passaram sem que Fábio soubesse se alguma autoridade tomara providências com relação ao caso. Foi só então que deu-se conta de que jamais saberia se algo tivesse ocorrido a menos que Emerson fosse preso e olhe lá. Trabalhava fora quase o dia inteiro, via Luísa apenas brevemente pela manhã, se uma assistente social ou policial fosse ao apartamento e Luísa se recusasse a denunciar o marido, Fábio jamais saberia se sua tentativa de ajudar rendera algum fruto.
Duas semanas se passaram com os dias sendo contados pelas conversas de Fábio com Luísa junto à mureta da área de serviço sem que ele percebesse qualquer mudança na rotina dos vizinhos, até a segunda-feira em que chegou à área de serviço para apanhar os tênis e deparou-se com Luísa.
Ela sorriu pra ele:
-Deixa eu ver a de hoje.
Fábio sorriu e exibiu a camiseta do Batman que vestia. Cinza, morcego preto no meio do peito sem elipse amarela estilo Frank Miller.
-Esse eu conheço. - Sorriu Luísa. Já foi ver o filme novo?
Fábio confirmou que fora na estréia, como era seu hábito.
-Eu ainda não entendi por que o Super-Homem tá brigando com o Batman...
Enquanto Luísa falava, Emerson surgiu na cozinha, e deu dois tapas fortes no balcão de aço inox da pia.
Luísa sorriu amarelo, e se despediu com um tchau afônico.
Fábio se perguntou se aquilo era apenas ciúme do macho-alfa interiorano ou um indício de que sua denúncia fora levada adiante, ao menos até certo ponto. De que, conforme temera Fábio, Luísa não teve coragem de acusar o marido confirmando as agressões e feito a coisa toda havia se perder, deixando apenas a suspeita de Emerson de que o responsável pelo constrangimento era o vizinho do lado, sempre de olho em Luísa.
Não teve certeza.
Apanhou seus tênis como fazia sempre, sentou-se à mesa para calçá-los e, pela fresta entre as venezianas da sua janela, viu Emerson, no apartamento ao lado, empurrar Luísa para dentro da sala com violência.
Estavam os dois em silêncio, ela, de cabeça baixa, ele a olhando de cima. Ela virou-lhe as costas e deu um passo que a tirou do campo de visão de Fábio. Com apenas um dos pés calçados ele manquitolou até a janela quando Emerson a seguiu pra fora da fresta num movimento brusco que foi seguido por um baque.
Fábio abriu a janela, Emerson estava de pé no centro da sala, olhando pro chão. Aparentemente havia empurrado Luísa, que caíra.
Fábio via, na expressão de Emerson, que ele estava enfurecido. Tentava concatenar o que fazer. Chamar a polícia? Era isso? Ficaria de braços cruzados enquanto uma mulher era covardemente espancada a menos de dez metros de distância?
Não. Não fora o que aprendera na vida.
Calçou o outro tênis rapidamente e correu para o corredor do prédio, esmurrando a porta do apartamento vizinho.
Após segundos de silêncio, Emerson abriu.
Era mais alto que Fábio, o encarava com olhos injetados de ódio.
-Que tu quer? - Perguntou.
Fábio o ignorou. Procurou por Luísa atrás dele, a viu sentada no chão junto à parede da sala.
-Tudo bem contigo? - Quis saber.
Emerson o agarrou pela camisa na altura do ombro:
-O que é que tu quer?
Fábio deu um safanão com o braço, livrando-se da mão de Emerson.
-Deu pra ti, meu. Eu vou chamar a polícia. - Disse.
Chegou a procurar o celular no bolso da calça, mas deu-se conta de que, na pressa, deixara o aparelho em casa. Tudo bem. Eram poucos metros. Deu as costas a Emerson, que disse "Mas tu não vai, mesmo!", puxou Fábio pelo ombro, o colando de costas na parede como quem se prepara para algemar um suspeito, estavam dentro do apartamento, no pequeno hall que ligava a entrada à sala, o espaço era exíguo e Fábio não era nenhum raquítico. Jogou o peso do corpo pra trás, desvencilhando-se de Emerson. Olhou para Luísa, que chegava, tinha os olhos marejados:
-Emerson, pára com isso...
Emerson não parou, agarrou Fábio pelo pulso, e fez o movimento de uma torção. Fábio entendeu o que iria acontecer, e virou o corpo, dando as costas à Emerson e evitando a chave de braço. Deu um passo pra trás, braço erguido tentando abrir espaço entre si e seu agressor. Falou com Luísa:
-Eu vou pra casa e vou chamar a polícia. Eu acho que tu devia vir comigo. - Falou, respirando pesado. A adrenalina da situação e o esforço físico súbito aceleravam seu pulso.
Emerson riu:
-Cara de pau... Quer tirar minha mulher de dentro de casa, né?
Luísa falou novamente:
-Amor, pára... Não é isso.
Fábio surpreendeu-se que, em meio a tudo o que acontecia, ainda tenha encontrado disposição para sentir uma pontada de repulsa quando Luísa se referiu a Emerson como "amor".
Emerson, porém, não parecia amoroso. Olhou pra Luísa com faíscas nos olhos e bradou:
-Puta!
Luísa estremeceu, estacando onde estava. Fábio odiava gritos. Crescera em uma família de gente gritona, que achava que berros e achaques os faziam mais homens e resolviam qualquer situação. Fábio tinha ojeriza a gritos:
-Tá. Deu. - Disse, mantendo a voz baixa. -Luísa, vem comigo. Eu te levo na minha casa e a gente liga pra polícia...
Emerson o interrompeu desferindo um soco. Fábio se esquivou por milímetros, sentiu o deslocamento de ar do golpe na barba, e bateu com a cabeça na parede atrás de si ao pendular o tronco superior para trás. Colou na parede com um baque, a tempo de ver Emerson atacando de novo. Tinha os dentes rilhados, o cenho franzido e os punhos levantados, esmurrou de direita tentando o rosto, mas Fábio ergueu o braço, defendendo-se, o segundo golpe, de esquerda, o atingiu na altura das costelas, fazendo-o contorcer o rosto em uma careta.
Fábio respirou fundo. Emerson era um militar treinado, era poucos centímetros mais alto, mas Fábio era ao menos dez quilos mais pesado. Se fossem lutadores jamais partilhariam a mesma categoria.
Fábio resolveu usar isso em seu favor. Jogou o corpo pra frente, eliminando a distância entre os dois e acabando com a vantagem de alcance de Emerson, passou o braço esquerdo por sob a axila direita do policial e com a mão direita o pegou por trás da coxa esquerda como um amante querendo ser enlaçado pela perna da amada.
Não encontrou dificuldade para erguer Emerson do chão, enquanto o projetava pra trás pelo tronco. Emerson segurava a camisa de Fábio com tenacidade, e os dois caíram no chão com um estrondo quando a cabeça do primeiro atingiu o chão de parquê cor de mogno.
Fábio, por cima, colou o antebraço esquerdo no pescoço de Emerson, e o esmurrou com vontade com a mão direita, soco desferido ás cegas, que acertou o policial na maçã do rosto. Emerson segurou o pulso direito de Fábio com a mão esquerda enquanto, com a direita, agarrou sua garganta, estavam os dois ruborizados, fazendo ruídos de asfixia, quando um som de clique atraiu a atenção dos dois. Fábio ficou aliviado ao se deparar com Luísa segurando a pistola ponto quarenta de Emerson, engatilhada e apontada para onde estavam. Emerson ergueu os olhos e sua expressão era indefinida.
Luísa falou:
-Solta ele, Fábio.
Fábio tirou o peso do corpo do pescoço de Emerson jogando-se para trás e livrando-se da mão em seu pescoço. Emerson inspirou profundamente fazendo um ruído como um rosnado conforme a vermelhidão deixava seu rosto. Fábio levantou-se trôpego, apoiando-se na parede sentindo a ardência na laringe conforme tentava engolir a saliva. Quando falou, sua voz soou rouca:
-Eu vou ligar pra polícia...
Mas Luísa o deteve:
-Não. Não liga pra ninguém.
Fábio não entendeu. Olhou para Luísa com o que, acreditava, era uma expressão absolutamente confusa, que só piorou quando ele percebeu que ela apontava a arma pra ele, e não para Emerson.
-É sério? - Perguntou, ainda massageando o pescoço.
-Tu acha o que, Fábio? Que eu vou deixar meu marido por causa de uma briga? Que tu tá aqui pra me salvar?
Apontou com o queixo pra camiseta de Batman que o Fábio vestia:
-Vai pra casa. - Disse com desdém.
Fábio olhou para Emerson. Ele estava no chão. Chorando copiosamente como uma criança.
Luísa agachou-se ao lado dele, e soltando a pistola, começou a ajudá-lo a levantar.
Fábio, balançando a cabeça negativamente, saiu do apartamento, e andou os metros que o separavam de sua casa ainda massageando o pescoço. Dona Lydia, do 406, olhava pela janelinha da porta com curiosidade:
-Que foi tudo isso, Fabinho?
Fábio apenas balançou a cabeça. Entrou em casa, apanhou a carteira, as chaves e o telefone, e foi trabalhar.
Nas duas semanas seguintes, não viu Luísa na área de serviço nenhuma vez. Pouco ouviu dos vizinhos, também. Foi no terceiro sábado subsequente que ouviu a movimentação no apartamento ao lado e percebeu uma mudança.
Luísa e Emerson se foram. Fábio ouviu de dona Lydia que haviam se mudado para uma casa maior, num bairro mais afastado do Centro onde o aluguel era mais barato.
Mesmo semanas após a mudança, Fábio ainda se flagrava tentando entender o que levara Luísa a tomar o partido de Emerson.
Não esperava, francamente, que ela caísse em seus braços e que vivessem uma tórrida história de amor após o episódio, mas não entendia o que havia mantido a jovem bonita de Casca ao lado do marido abusivo de Marau. Senso de responsabilidade? Uma noção irreal de compromisso? Sentimento de culpa? Apenas hábito?
Fábio não sabia.
Olhou a camiseta do Homem-Aranha que vestia sentado no sofá da sala olhando para as venezianas fechadas do apartamento vizinho, e teve apenas uma certeza:
Algumas pessoas simplesmente não querem ser salvas.

Resenha Cinema: O Caçador e a Rainha do Gelo


Foi em 2012 que o espelho mágico da rainha má, precisando de uma consulta oftalmológica urgente, disse à Charlize Theron, que Kristen Stewart era a mais bela do reino.
Esse inegável equívoco de avaliação de um espelho que talvez tivesse trabalhado demais naquele dia, levou a perversa Ravenna (Theron) a trancafiar Branca (Stewart) em uma torre sombria do palácio.
No final do filme, com a ajuda de um caçador de bom coação, de um príncipe encantado que provavelmente não sabia beijar, e de oito (e não sete) anões arruaceiros, Branca de Neve conseguia matar Ravenna e retomar o trono que era seu por direito.
O filme era bastante esquecível.
Entre a performance mono expressiva de Kristen Stewart, o sotaque escocês falso de Hemsworth e as cenas de batalha que emulavam praticamente todos os épicos de fantasia pós-Senhor dos Anéis salvavam-se bons efeitos visuais, uma produção de arte caprichada e uma Charlize Theron linda de morrer aparentemente curtindo a própria maldade.
O longa de 170 milhões de dólares dirigido pelo estreante Rupert Sanders fez uma carreira decente nas bilheterias, faturando quase quatrocentos milhões de dólares e provavelmente foi esse retorno OK, mais o desespero dos estúdios Universal por uma franquia que gerou uma continuação para o longa.
Bom, meio continuação, meio história de origem, meio alguma coisa no meio disso...
O longa abre, com narração de Liam Neeson, contando a história de Ravenna (novamente Theron) antes de Branca de Neve, quando ela estava usurpando um outro trono e cuidava de sua irmã, Freya (Emily Blunt).
Freya, uma jovem apaixonada muito diferente de Ravenna, está feliz com seu papel de irmã caçula da rainha, e seu único desejo é se casar com o duque de Blackwood (o Merlin da TV, Colin Morgan), prometido à outra mulher, mas que vive um romance com ela em segredo.
Ao descobrir a irmã grávida do lorde, Ravenna a adverte sobre as mazelas do amor, mas é apenas após uma tragédia acontecer que Freya desperta seus poderes mágicos, entra em modo Elsa e congela a porra toda.
Freya viaja para o norte, e lá erige uma fortaleza. De sua torre congelada ela envia soldados para todas as partes para que eles lhe tragam crianças que serão treinadas até se tornarem os mais exímios guerreiros do mundo, seu próprio exército de caçadores, que expandirão o reino de Freya por todo o norte.
Os melhores caçadores do exército de Freya são Eric (o Caçador de Chris Hemsworth, ganhando um nome próprio), e Sara (Jessica Chastain), que, á despeito de todos os discursos da rainha do gelo sobre o amor ser proibido, se apaixonam e planejam fugir juntos.
A fuga, claro, é impedida por Freya, Sara morre, e o Caçador é jogado em um rio de águas gélidas para morrer, mas sobrevive.
Sete anos depois, após ter ajudado Branca de Neve e o príncipe William (Sam Claflin, de volta em ponta) a matar Ravenna, o Caçador vive no ermo do reino da Branca em relativa paz, até ser procurado por William que lhe pede ajuda.
Branca de Neve está doente, e, acreditando que a causa de sua enfermidade seja o espelho mágico (míope) de Ravenna pediu que o artefato fosse movido a um santuário. Entretanto, a tropa encarregada de levar o objeto sumiu.
Como o melhor rastreador do reino, o Caçador é a melhor pessoa para procurar pela tropa e sua malfadada carga.
Eric aceita a missão, e junto dos anões Nion (Nick Frost, retornando) e Griff (Rob Brydon) parte para uma missão que o levará aos recônditos mais perigosos do Reino, e a um reencontro com um passado que julgava enterrado.
Sim. É ruim.
O Caçador e a Rainha do Gelo consegue a proeza de ser ainda pior que o antecessor a despeito de trocar a inexpressiva Kristen Stewart pela sanguínea e talentosa Jessica Chastain e adicionar Emily Blunt a mistura.
Acontece que Jessica Chastain e Chris Hemsworth têm zero química, formando um casal tão desparelho que as cenas de amor entre os dois parecem teatro de fantoches. Emily Blunt por sua vez se esforça para dar algum lastro emocional à Freya, mas a piada de Elsa que eu fiz lá em cima se sustenta o filme todo. Sua personagem é basicamente a princesa de Frozen em uma nota malvada, das roupas ao cabelo trançado, passando pela torre congelada, tudo na personagem emula Elsa, eu estava esperando que ela cantasse o "lérigou" em algum momento.
Novamente a produção de arte, o figurino, a maquiagem e os efeitos visuais são todos muito bem feitos, e Charlize Theron está muito bem, funcionando numa toada totalmente diferente do resto do elenco, mas nota-se tanto a falta de jeito do diretor, o estreante Cedric Nocolas-Troyan, quanto a falta de talento dos roteiristas Evan Spiliotopoulos (do chatão Hércules, com The Rock) e Craig Mazin (de Uma Ladra Sem Limites), que transformam o amargurado Caçador do primeiro longa num herói piadista e cheio de sorrisos e enchem o roteiro de alívios cômicos deslocados e monstros inexplicáveis pra contar uma história vazia e desnecessária.
Em suma:
Se estiver muito curioso ou for membro do fã-clube de Hemsworth, Chastain, Theron ou Blunt tenha paciência e espere passar na TV a cabo. Não vai estar perdendo nada.

"-Vivo ou morto, ficarei ao seu lado."