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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Resenha Cinema: Liga da Justiça


Os primeiros passos da DC na sua tentativa de criar um universo cinematográfico compartilhado à imagem e semelhança da máquina de fazer dinheiro que a Marvel construiu a partir de Homem de Ferro em 2008 foram, pra dizer o mínimo, claudicantes.
O Lanterna Verde estrelado por Ryan Reynolds, talvez o primeiro filme da DC que parecia estar interessado em levar as coisas nessa direção, foi um medonho tiro no pé.
Ao fracasso de bilheteria e crítica de Hal Jordan, seguiu-se o bom O Homem de Aço, que reintroduziu o Superman nas telonas sem nenhuma conexão com o filme do defensor do setor espacial 2814.
A boa resposta do público ao novo Kal-El e o sucesso estrondoso de Os Vingadores e Homem de Ferro 3, fizeram a DC/Warner pisar com força no acelerador, dando sequencia ao universo iniciado com o Superman de Zack Snyder com, diretaço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça.
O longa dividiu opiniões, sendo aclamado pelos fãs hardcore da DC e avacalhado por quase todo mundo que gosta de cinema.
O filme de Snyder jogava o final de O Homem de Aço pela janela, opunha ao Superman um Batman tacanho e homicida vivido por um esforçado Ben Affleck, e ainda acrescentava à salada um equivocado Lex Luthor vivido por Jesse Eisenberg, o vilão Apocalypse, a Mulher Maravilha interpretada por Gal Gadot, e misturava várias histórias clássicas dos quadrinhos em um filme confuso em tom, longo e apressado que era meio sequência de O Homem de Aço, meio filme do Batman, meio Cavaleiro das Trevas do Frank Miller, meio A Morte do Superman, meio embrião da Liga da Justiça, meio pepperoni e meio mussarela.
De repente o universo compartilhado da DC já não parecia mais uma ideia tão boa.
A pressa da Warner em alcançar a Marvel sugeria desespero e o resultado que se anunciava áquela altura era trágico.
As coisas só ficaram mais feias conforme Esquadrão Suicida foi lançado e o resultado foi um grande sucesso de bilheteria para um filme que era horroroso até a medula, e ameaçava se tornar a regra das adaptações da DC.
Mas aí, a Mulher Maravilha de Patty Jenkins surgiu.
Diana Prince deixou Temiscyra para apontar aos homens do estúdio o caminho a seguir.
Sumia o espetáculo tétrico de amargura e ódio de Batman vs. Superman ou o showzinho de conteúdo vazio de Esquadrão, entrava uma história de origem divertida e esperançosa, sobre uma heroína ingênua e idealista disposta a forçar o mundo a fazer sentido fosse pela força, fosse pela sabedoria.
E, vendo como a Mulher Maravilha se tornara um absurdo sucesso comercial e crítico, a DC percebeu que estava sentada em cima de uma mina de ouro que acabava de descobrir como garimpar.
Bem na hora, afinal, a Liga da Justiça estava chegando.
Ben Affleck, Gal Gadot e (possivelmente) Henry Cavill retornariam. A eles juntariam-se Jason Momoa como o Aquaman, Ezra Miller como o Flash, e Ray Fisher como o Cyborgue. O roteiro seguia nas mãos de Chris Terrio, um dos responsáveis pelo tenebroso script de Batman vs Superman, e de Zack Snyder, um cineasta visualmente talentosíssimo mas com sérios problemas de condução narrativa, mas agora havia um mapa do que fazer, uma direção a seguir, e a supervisão de Geoff Johns, um dos principais criadores da DC nos quadrinhos.
Os trailers iniciais pareciam bons, mas não se podia ter certeza de nada, o trailer de Esquadrão Suicida era ótimo, também.
Aos trinta e cinco do segundo tempo uma tragédia familiar afastou Snyder da direção do filme, e Joss Whedon, diretor dos dois filmes dos Vingadores da Marvel, foi chamado para assumir o posto e terminar o serviço, refilmando diversas passagens do longa e reescrevendo partes do roteiro.
A coisa toda cheirava a remodelação e refilmagem da grossa, com Snyder escanteado para que a visão dele não entrasse em conflito com os desejos do estúdio, os augúrios que acompanhavam a Liga pareciam problemáticos, e eu, que já começava a ficar de saco cheio de filmes de super-herói feitos sob encomenda pelo estúdio, desprovidos de alma, me perguntava se valeria a pena ir pro cinema arriscar meu suado dinheirinho numa empreitada que, talvez, fosse me deixar tão aborrecido quanto o último Homem-Aranha.
Mas eu sou um nerd teimoso.
Hoje, meia-noite e dois, eu estava na sala um do meu cinema favorito, confortavelmente sentado para ver o primeiro filme de super-grupo da DC.
Liga da Justiça abre com o Batman (Ben Affleck) investigando o que parecem ser os primeiros passos de uma invasão alienígena.
Com informações limitadas a respeito do inimigo, o homem-morcego segue sua investigação para tentar descobrir os planos desse adversário misterioso, que tem sequestrado pessoas em Gotham e Metrópolis.
As coisas se aceleram quando o tal adversário, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) surge em Temyscira para reclamar um antigo artefato confiado ás amazonas, uma Caixa Materna, antigos objetos de poder imensurável ocultos em nosso planeta.
Milhares de anos atrás uma aliança entre os velhos deuses, os atlantes, as amazonas e os homens se opôs à primeira tentativa de invasão do Lobo da Estepe e de seu exército de parademônios, uma das caixas ficou em poder das amazonas, outra de posse dos atlantes, e uma terceira foi dada aos homens.
Após a morte do Superman, as defesas fragilizadas da Terra dispararam um alarme nas caixas, avisando o Lobo da Estepe de que o momento para uma nova invasão havia chegado.
O invasor, sedento de vingança pela derrota sofrida em sua última tentativa de conquista, mais sábio, poderoso e cruel, retorna obstinado a cumprir o seu destino e trazer o inferno ao nosso mundo, e a única chance que o Batman e a Mulher Maravilha têm de detê-lo, é unir uma equipe de heróis.
O herdeiro de Atlântida Arthur Curry, o velocista escarlate Barry Allen e o ciborgue nascido do poder das Caixas Maternas Victor Stone precisam ser recrutados para tentar impedir a destruição de nosso planeta.
Mas, mesmo que esses cinco heróis sejam capazes de trabalhar juntos, seu poder será o suficiente para impedir a ascensão do Lobo da Estepe?
Vou iniciar dizendo que há uma série de problemas em Liga da Justiça.
O longa é apressado em alguns momentos, a diferença entre os segmentos dirigidos por Snyder e Whedon é gritante, e o desfecho do longa pode soar insatisfatório para muita gente por sua simplicidade. Posto isso, deixe-me dizer que:
Liga da Justiça é legal pra caralho.
O longa mostra que a DC aprendeu sua lição, e fez um filme de super-herói divertido, movimentado, bonito e esperançoso.
Eu não vou dar spoilers aqui, mas nós finalmente temos sorrisos que haviam feito muita falta em filmes anteriores.
Mais do que isso, temos a super-equipe mais poderosa dos quadrinhos trabalhando junta, estabelecendo uma dinâmica de grupo bacana, dando demonstrações de poder hercúleo e lutando pra salvar a Terra sem que isso pareça um velório.
A diversão está lá, em cada frame, em nenhum momento parece deslocada ou excessiva (ainda que algumas piadas pareçam fora de lugar, mas sem chegar ao ponto dos filmes da Marvel, com uma piadinha em cada cena.), os efeitos especiais são bons, embora o Lobo da Estepe, vez que outra, pareça meio falso, as sequências de ação são boas, em especial o combate que encerra o filme e o resgate da Mulher Maravilha no museu.
A trilha sonora de Danny Elfman é extremamente bem sacada, e as atuações estão muito boas, com destaque para o Ciborgue de Ray Fisher e o Flash palhaço da classe de Ezra Miller.
Além do elenco principal há ainda o Alfred de Jeremy Irons, o comissário Gordon de J.K. Simmons, a Lois Lane de Amy Adams, a Martha Kent de Diane Lane e a rainha Hippolyta de Connie Nielsen, o doutor Silas Stone de Joe Morton, além da apresentação da Mera da gatona Amber Heard e do Henry Allen de Billy Crudup.
Alguns personagens quase não têm tempo em cena, outros parecem ter um pouco de tempo demais, mas, entre mortos e feridos, todos se salvam.
O clima do longa lembra a brilhante animação da Liga da Justiça em diversos momentos, em outros tantos, emula o clima da ótima história Liberdade e Justiça, as duas abordagens são triunfantes, pois tratam-se de dois produtos muito acima da média.
A Liga da Justiça se une, e salva o dia em uma história que transpira otimismo. Não fica muito melhor do que isso.
Falta muito pra sequência?

"A esperança está lá fora. Basta olhar para o céu."

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Revendo Homem-Aranha: De Volta ao Lar


Apenas nesse final de semana resolvi voltar a assistir Homem-Aranha: De Volta ao Lar, primeiro filme do cabeça-de-teia realizado pela parceria entre os estúdios Marvel e a Sony, detentora dos direitos do herói que viu que, pagando a Marvel pra fazer filmes com o personagem, obteria mais dinheiro nas bilheterias.
Quando assisti ao filme em julho, fiquei, francamente, sem saber se tinha gostado, ou não.
Meus sentimentos com relação ao longa foram conflituosos e eu, de fato, não sabia o quanto dos meus desgostos para com o filme eram mera implicância, de modo que pensei em rever o debute do Aranha da Marvel e, quem sabe, com o coração mais leve, aproveitar a jornada de maneira menos crítica.
Mas infelizmente, não deu.
A óbvia diversão do filme continua lá, mas foi ficando mais e mais diluída em meio aos problemas que praticamente saltam da tela pra morder os pés de uma audiência que tenha um grau um pouquinho mais elevado de exigência.
O texto a seguir contém detalhes importantes do enredo, incluindo reviravoltas na trama, e não é recomendado a quem ainda não houver assistido ao filme. A resenha livre de spoilers pode ser lida aqui:


-A Origem:
A origem dos super-poderes do Homem-Aranha não é mostrada em De Volta ao Lar. O personagem já havia aparecido fazendo tudo o que uma aranha faz em Capitão-América: Guerra Civil, de onde De Volta ao Lar praticamente começa, de modo que, desde a sua primeira cena no filme, Peter Parker já é o Homem-Aranha, e à certa altura do longa ele apenas menciona, brevemente, que foi picado por uma aranha.
Outra coisa que não é referida de maneira apropriada é a morte do tio Ben.
Não há, na verdade, nenhuma menção ao tio Ben, de modo que, nesse universo, a tia May de Marisa Tomei pode perfeitamente ser uma lésbica viúva de Benedita Parker, a quem chamava carinhosamente de Ben, sei lá. Ele apenas menciona, também de maneira bastante casual, que não quer preocupar sua tia depois de tudo pelo que ela passou. Não sabemos se foi a perda do marido, se foi a quebra de seu negócio como confeiteira, perder a eleição pro conselho tutelar, enfim, não há nenhuma menção à vida de Peter e May ao longo do filme. Não se fala sobre dinheiro, e mesmo o prédio onde Peter vive com a tia mudou, ficando bem mais ajeitadinho que o conjunto habitacional do primeiro longa.
O grau de pobreza apresentado em Guerra Civil se dissipa, provavelmente porque mostrar um jovem morando nos conjuntos habitacionais de Queens, precisando pegar sucata pra montar computadores e apanhando lixo pra tentar usufruir de um pouco de conforto poderia parecer demasiado duro pro tipo de filme levinho que a Marvel gosta, então toda aquela realidade empobrecida mostrada quando Tony Stark procurou Peter no terceiro Capitão-América é amenizada em altíssimo nível.
Também não há nenhuma menção ao que Peter fez após descobrir suas novas habilidades, tampouco sabemos se ele tentou usá-las para conseguir dinheiro antes de começar a combater o crime, ou sequer se a morte do tio Ben (ou da tia Benedita), teve algo a ver com essa decisão.
Eu entendo que revisitar a origem do personagem pela terceira vez em um período de quinze anos poderia ser forçação de barra. Entretanto, eu francamente acho que a origem do Homem-Aranha ajuda a edificá-lo como personagem. Suas motivações de culpa e responsabilidade fazem esse personagem ser quem é, e ao tirar isso dele, rouba-se a sua essência, tornando-o apenas mais um.
Por mais que nós saibamos como Peter Parker tomou a decisão de usar seus poderes em nome do bem, simplesmente sumir com a tomada dessa decisão, restringindo-a a uma frase no meio de Guerra Civil empobrece a mitologia do herói, e muito.

-Ned Leeds:
Provavelmente uma das coisas mais desagradáveis do filme é a presença de Ned Leeds. O melhor amigo da vez surge como uma contraparte da audiência, um nerd gordo de brinca de lego e sofre de diarreia verbal e está sempre pendurado em Peter.
O Ned Leeds de Jacob Batalon é um personagem tenebrosamente unidimensional, que parece um recorte, como se os seis roteiristas do longa tivessem tentado imaginar com o que se parece e como se comporta um geek adolescente do novo milênio e surgido com aquilo ali. Até faz sentido, a maior parte das características de Ned são os defeitos dos millenials, a grande questão aqui é: Por que diabos alguém iria querer ser amigo desse cara?
Ned é socialmente deficiente, tacanho, desprovido de empatia, e o que ele mais faz ao longo do filme é pedir permissão para contar pra todo mundo o maior segredo de Peter colocando seu amigo e a tia dele em perigo mortal sem nenhum tipo de consideração.
Eu não consigo pensar em um amigo pior pra se ter por perto.
Deixa eu ilustrar o quanto Ned é péssimo:
Eu preferia ser amigo do valentão Flash Thompson de Tony Revolori do que do Ned Leeds.

Liz Toomes:
A Liz do filme não é a Liz Allen, meia-irmã do Magma igual aos quadrinhos, mas sim Liz Toomes, filha de Adrian Toomes, o Abutre. Deixa eu dizer que, na verdade, eu não achei o fim da picada mudarem (e aumentarem) o parentesco criminoso de Liz. Eu duvido que o Magma apareça em algum filme vindouro do Aranha, então, OK ela ser filha do Abutre.
O grande problema com Liz é que também ela é uma personagem absolutamente vazia. Nós sabemos que ela tem uma quedinha pelo Homem-Aranha, sabe que o Peter tem uma quedinha por ela, é uma guria popular e inteligente mas não é uma escrota, e meio que isso é tudo o que ela tem a oferecer. Não sabemos como ela se relaciona com as amigas, como é sua vida em casa e nem nos interessamos, afinal de contas, a personagem é chata pra caralho e se ela tivesse morrido no elevador em Washington não teria feito nenhuma diferença, na verdade, poderia ter até beneficiado o desfecho do filme, eu explico isso mais adiante.

-Michelle:
Argh...
OK, eu acho a Zendaya bonita.
Muito bonita.
E acho que bastava pintar o cabelo dela de vermelho e zas, teríamos uma ótima Mary Jane do ponto de vista visual.
Mas Zandaya não interpreta Mary Jane. Ela interpreta Michelle Jones, a quem seus amigos chamam de "MJ". Certo... Michelle está no filme para ser o futuro interesse amoroso de Peter Parker, não importa se os produtores mudarem de ideia e jogarem essa premissa no lixo na hora de escrever De Volta ao Lar 2. Essa é a óbvia ideia. Michelle é a substituta de Mary Jane e de Gwen Stacy no universo cinemático Marvel.
O grande problema aqui, é que pode-se aplicar à ela a mesma lógica que apliquei a Ned Leeds:
Por que diabos alguém iria querer ser namorado de Michelle?
Não me refiro à aparência física, já disse, acho ela uma guria bonita, mas a seu comportamento. Michelle é uma engajadinha de biblioteca que faz tanto bullying contra Peter e Ned quanto Flash, mas os persegue pra fazer isso. Ela é, para Peter, o que a molecada chama de stalker, e o "stalkeia" pra tirar sarro e humilhá-lo com suas piadinhas maldosas.
Quem é que quer namorar essa vaquinha?
"Ah, mas a Michelle é muito mais do que vimos nesse filme...".
Talvez.
Tomara.
Porque baseado no que vimos nesse filme, a Michelle é uma personagem antipática e chata, que nada tem a ver com os outros interesses amorosos que já vimos na tela. A Mary Jane de Kirsten Dunst com toda a sua chatice, sabia estar lá pra dizer "pega eles, gatão" na hora em que Peter ouvia uma sirene da polícia e sabia que era sua responsabilidade ir atrás. E a Gwen de Emma Stone era simplesmente um sonho, capturando com maestria a namorada cuja morte todos os fãs do herói lamentaram por anos.
A Michelle Jones de Zendaya vai precisar comer muito arroz com feijão se quiser ganhar um espaço no coração dos fãs do herói.

-Tia May:
OK. Tia May é atraente.
Sai a frágil velhinha septuagenária de Rosemary Harris, ou a sessentona amorosa e proativa de Sally Field, entra a italiana bonitona de Marisa Tomei que desperta o desejo de toda a indústria de alimentação de Queens, do dono da lanchonete latino ao garçom do restaurante asiático, todo mundo que faz comida quer comer a tia do Bátima, digo, do Aranha.
Nada contra Marisa Tomei ou o Homem-Aranha ter uma tia que não apreça uma uva passa, o lance aqui é:
É mais uma medida para remover qualquer resquício de drama da vida do Homem-Aranha, tornando seus filmes mais leves, alegrinhos, descompromissados, enfim... Mais Marvel.
Aquela mulher saudável e bonita jamais vai estar com a saúde em frangalhos num futuro próximo.
A tia Marisa To-May não carece dos mesmos cuidados que a tia Sally, a tia Rosemary e especialmente a May dos quadrinhos que, era um, dois e estava desmaiando e sendo levada às pressas pro hospital.
Considerando o sistema de saúde dos EUA, uma velhinha doente era fonte inesgotável de drama familiar/financeiro pro personagem central, e, dessa forma, é fácil perceber porque ela foi trocada por uma versão jovem e saudável.
Nos filmes da Marvel não pode haver drama.
Ao menos não sem ser seguido de uma piadinha.

-Adrian Toomes/Abutre:
Um dos grandes acertos do longa, o vilão interpretado por Michael Keaton é um dos melhores vilões do passado recente da Marvel. Obviamente inferior ao carismático Loki de Tom Hiddleston, o vilão alado do De Volta ao Lar consegue pegar parelho com o Obadiah Stane de Jeff Bridges.
Suas motivações são conhecidas e bem embasadas, ele é ameaçador e esperto sem ser necessariamente um gênio criminoso, e tem ciência das próprias limitações, tudo isso o torna um ótimo vilão, que, de bônus, rompendo a tradição da Marvel nos cinemas, tão tem exatamente os mesmos poderes do herói. O que é deveras refrescante.
Aqui vai, então, o grande problema:
À certa altura do filme, na sequência de ação em Washington, o Homem-Aranha salva Liz, filha do Abutre, de um elevador em queda livre.
No final do filme, quando Peter vai buscar Liz em sua casa para o baile da escola, ele reconhece Adrian como o Abutre e o vilão o reconhece como o Homem-Aranha (mostrando que o disfarce do Superman é péssimo pois se mesmo com a cara toda coberta o disfarce do Homem-Aranha pode ser descoberto por causa da sua voz, imagine, então, usando apenas óculos e um penteado vagamente diferente...), de qualquer forma, o Abutre pede que Liz saia do carro pra ter aquela conversa com o namorado da filha e, diz pra ele "Eu sei quem você é, mas você salvou minha filha, então eu vou te deixar ir, mas se tu aparecer no meu caminho de novo eu te mato e mato todo mundo de quem tu gosta e blá-blá, blá..."
Até ali, o Abutre era um personagem sólido, ameaçador e esperto, mesmo sem ser um gênio. E nessa sequência, ele joga tudo isso pela janela ao cometer um erro crasso e absolutamente imbecil.
Mesmo se o Homem-Aranha em pessoa não fosse atrás do Abutre, conforme aconteceu, o Abutre já deveria saber que o herói de Queens é amigo do Homem de Ferro e faz um "estágio" na Stark, o que significa que ele obviamente tem laços com os Vingadores.
Se o Homem-Aranha não fosse tão idiota ele poderia simplesmente ir até a Stark Tower e falar pessoalmente com Happy Hogan explicando a situação e pronto. Happy avisaria Tony e os Vingadores cairiam em cima do Abutre e de sua gangue. Credo, o Visão, sozinho, demoliria o Abutre, o Shocker e o Consertador sem nem precisar mexer os braços.
O mais triste é que era fácil de resolver isso.
O Abutre poderia simplesmente ter atirado em Peter dentro do carro, e a sequência de ação final começava ali, e não apenas depois de Peter largar a Liz na festa...

-A Trama:
A história de Homem-Aranha: De Volta ao Lar segue exatamente a cartilha dos filmes de super-herói em geral, da Marvel em particular, mostrando a origem do vilão (A do herói também seria mostrada, mas foi pulada, colocando o holofote sobre o relacionamento de Peter com Tony Stark), o momento de crise existencial do herói, e seu confronto com o dito vilão, um embate que termina com o protagonista em desvantagem num primeiro momento, mas com o triunfo do herói no final. A família do herói e seus amigos aparecem, há um interesse amoroso, e três sequências de ação.
Como tudo que é feito seguindo uma cartilha, o resultado é correto, e nada além disso. É como estar com fome e comer um sanduíche de mortadela. Mata a fome, e segura a onda até a próxima refeição. E isso é tudo o que De Volta ao Lar fez. Foi apenas mais um tijolinho sem importância numa estrada levando à Guerra Infinita...

-O Traje:
O uniforme do Homem-Aranha ter sido um presente de Tony Stark foi tido por muita gente como uma grande sacada. Explicaria o que muita gente não consegue compreender, que é, como um adolescente conseguiria fazer, sozinho, um traje fodão como o usado por Peter Parker.
Bem, eu até concordaria se não fosse o fato de vários de nós já termos visto cosplays excelentes do traje aracnídeo feito por fãs em casa com material comprado em lojas de tecidos.
O uniforme de O Espetacular Homem-Aranha era um macacão de spandex bem semelhante aos utilizados pelos atletas de bosled, com lentes feitas de óculos de sol, e botas improvisadas a partir de tênis da Asics. Um moleque devidamente interessado e com tempo livre poderia perfeitamente fazer um traje melhor que o utilizado por Tom Hollando no desfecho de De Volta ao Lar.
O grande problema, porém, é que o traje dado por Tony Stark tem muito mais funcionalidades do que as lentes retráteis dos olhos. O uniforme tem pára-quedas, mais de quinhentas combinações de lança-teias, drone de reconhecimento, localizador holográfico, modo de interrogatório, modo de morte-instantânea, asas de teia, e até uma inteligência artificial chamada Karen, dublada pela linda Jennifer Connely, que está ali para que Peter, a exemplo da audiência-alvo do longa, não precise pensar.
Nada disso acrescenta coisa alguma ao personagem, e aparece no filme apenas pra fazer piadinhas.
O traje-aranha criado por Tony Stark é um dos pontos mais baixos do longa, e, o pior de tudo, inevitavelmente vai voltar, e provavelmente receber upgrades em Os Vingadores: Guerra Infinita.

-Tony Stark, figura paterna:
O Homem de Ferro de Robert Downey Jr. provavelmente é o retrato da Marvel em seus melhores momentos. Talentoso, esperto, divertido. Não é à toa que a Sony quis o personagem em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, aceitando pagar uma fortuna a Robert Downey Jr. por sua participação que, não é tão grande quanto o trailer sugeria, mas é maior do que deveria.
E não me entenda mal. Eu curto demais o Tony Stark de Downey Jr., sempre acho um deleite vê-lo em cena, e compreendo que a Sony quisesse reforçar a relação desse novo Homem-Aranha com o Marvel Studios, o grande problema aqui foi pegar um personagem que já deu diversas demonstrações de impulsividade e até irresponsabilidade, e torná-lo o norte moral de um herói que tem como mote de vida que grandes poderes trazem grandes responsabilidades.
Tornar Peter Parker uma tiete de Tony Stark enfraquece Peter como personagem, pois ele deixa de ser uma figura inspiradora para se tornar apenas outro moleque da audiência que idolatra o Homem de Ferro. É, em nome do espetáculo, que nem é tão grandioso, esvaziar o protagonista.

-Peter Parker, sábio idiota:
O roteiro de De Volta ao Lar parece tentar equilibrar o Homem-Aranha/Peter Parker de Tom Holland no meio do espectro entre a pegada mais esperta de Andrew Garfield e o jeitão aparvalhado de Tobey Maguire com resultados que ficam apenas meia-boca.
Se por um lado temos um Peter Parker capaz de hackear o uniforme dado por Tony Stark e de criar seu próprio fluido de teia, por outro temos um personagem que é péssimo em interações sociais sem a máscara e que surge com alguns dos comportamentos mais infantis que um adolescente poderia ter.
Sua impaciência, seus chiliques, imaturidade e irresponsabilidade o tornam o menos gostável de todos os Peter Parker do cinema, e olha que eu sou o maior detrator de Tobey Maguire em todo o mundo.
O mais triste disso é que, novamente, esse personagem havia sido apresentado de uma forma muito interessante em Guerra Civil, e parecia que a Marvel estava com a faca e o queijo na mão para, finalmente, mostrar o Homem-Aranha/Peter Parker dos quadrinhos ao grande público. Infelizmente, meia dúzia de roteiristas não foram capazes de criar uma tradução à altura do personagem cinquentenário.
Nem mesmo a tentativa de oferecer um grande momento a Peter na sequência do armazém, quando Peter é soterrado sob toneladas de entulho e precisa se superar para conseguir se libertar, emulando a brilhante edição 33 de The Amazing Spider-Man, de 1966, sem porém, nada do peso da história original.
Essa sequência, talvez, seja o grande retrato de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, um produto bonitinho, que te lembra algo de que tu gosta muito, mas sem nenhum conteúdo para sustentar a forma.
É por isso que eu preciso dizer, com tristeza, que até o momento, Homem-Aranha: De Volta ao Lar, se destaca negativamente, sendo o pior exemplar de super-heróis do cinema em um ano recheado de filmes de gibi.
O pior de tudo é que a Marvel Studios tem um péssimo histórico de não aprender com seus erros, afinal, por que deveriam? O dinheiro entra de maneira obscena na conta da Disney mesmo com todos os problemas narrativos.
É necessário, então, se acostumar ao fato de que esse Homem-Aranha genérico e sem-graça, veio pra ficar...

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Resenha DVD: Transformers: O Último Cavaleiro


Me lembro de, conversando com um amigo que é fã de longa data de Transformers, ao ser perguntado se havia ido ao cinema ver este O Último Cavaleiro, responder que o quarto filme, A Era da Extinção, havia me causado um efeito tão ruim, que eu simplesmente desistira de pagar ingresso pra ver Transformers já que a série desenvolvera uma capacidade inacreditável de piorar de um filme para o próximo.
A resposta dele, dando de ombros foi, "mas esperar o que de um filme baseado em um brinquedo?".
Eu até poderia concordar. Quer dizer, quando vemos coisas como G.I. Joe ou Resident Evil, nós sabemos, pelo material-fonte, que os filmes dificilmente serão grandes obras. Se forem uma hora e meia de diversão escapista, minha nossa, já estamos no lucro.
O grande problema, aqui, foi que Transformers começou sua carreira no cinema com um filme que era bom.
O longa original chegou aos cinemas uma década atrás e apresentou ação, aventura e comédia num longa que era, na pior das hipóteses, divertidíssimo.
O problema parece ser que, o sucesso crítico e comercial daquele primeiro longa subiu à cabeça da Paramount e do diretor Michael Bay, porque, do segundo filme, Transformers: A Vingança dos Fallen, em diante, a coisa desandou de uma maneira vertiginosa.
A cada nova incursão dos organismos cibernéticos do planeta Cybertron às telonas, se tornou tarefa mais difícil considerar qualquer dos filmes mais do que um guilty pleasure (a ausência de Megan Fox contribui aqui, sim ou claro?) conforme a história ia se tornando um elemento menos importante entre as explosões e as piadinhas.
No sábado, resolvi apanhar, por curiosidade mórbida, o último filme da franquia, e conferir, com meus próprios olhos, se o longa era tão ruim quanto eu imaginara.
Após um flashback do passado, mostrando o rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda enfrentando uma imensa invasão de saxões enfurecidos e sem chance de vitória até Merlin (Stanley Tucci) surgir com uma tropa de transformers para auxiliar no combate, O último Cavaleiro retoma mais ou menos de onde o longa anterior terminara.
Optimus Prime retornou a Cybertron (eu jurava que Prime tinha dito que esse planeta havia sido destruído no primeiro filme.), e na Terra, os transformers são caçados pela humanidade.
Enquanto grupos mercenários contratados por governos do mundo se especializam em caçar os alienígenas à solta no planeta, alguns indivíduos se dedicam a ajudá-los.
Como Cade Yeager (Mark Wahlberg).
O inventor fracassado que ajudou a salvar a Terra no filme anterior segue se dedicando a consertar e abrigar Autobots enquanto mantém sua aliança com Bumblebee, Drift, Hound, Daytrader e Hot Rod.
Seu círculo de amizades, porém, veio com um alto preço. Cade vive escondido, perseguido pelas organizações que se opõe aos transformers, e incapaz de se comunicar com sua filha, a quem não vê há um longo tempo.
Se a situação já era ruim, ela só piora quando Optimus chega à Cybertron, encontrando o planeta em ruínas, e descobre que ele foi destruído pela guerra entre Autobots e Decepticons, mas que a chave para reconstruí-lo, o cajado de Merlin, está na Terra.
A deusa da vida de Cybertron, a criadora Quintessa (Gemma Chan), domina a mente de Optimus Prime, e o envia de volta ao nosso planeta, onde, de posse do cajado, a vilã poderá usar nosso mundo para alimentar e reviver o seu.
Mas não é apenas Optimus Prime e Quintessa que desejam o cajado.
Ainda por aqui após ser morto umas quatro ou cinco vezes, Megatron também deseja a poderosa arma, e se prepara para tentar encontrá-la. A chave da localização do artefato está em um talismã que, por mero acaso, cai nas mãos de Cade, colocando-o no radar dos Decepticons e de lorde Edmund Burton (Anthony Hopkins), guardião de uma antiga ordem de homens dedicados a manter em segredo a longeva história de parceria entre humanos e transformers.
Ele guarda a chave de como usar o talismã para chegar ao cajado antes de Quintessa e Megatron, porém, apenas uma pessoa pode manusear o objeto é a doutora Vivian Wembley (Laura Haddock, retomando a tradição da série de mulheres bonitas demais para suas profissões ao lado da mecânica Megan Fox, da hacker Rachel Taylor e da contadora Rosie Huntington-Whiteley), uma historiadora, filosofa, e mais alguma coisa, especializada na lenda de Arthur que é, na verdade, a última descendente viva do mago Merlin.
É... Eu sei.
Não me culpem, os responsáveis por esse troço são Akiva Goldsman, Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan. Essas quatro pessoas cometeram o roteiro que, aparentemente nem sequer importava muito pro Michael Bay já que seu filme histérico, sempre em volume máximo e com uma geografia que inexiste nas cenas de ação parece fazer todo o possível para que a edição não faça lá muito sentido, mesmo.
O longa começa de um jeito, ali pelas tantas some com todos os coadjuvantes que haviam sido apresentados e vai pra Inglaterra contar o que parece uma história paralela que poderia, sozinha, sustentar um filme se o roteiro fosse bem trabalhado e o cineasta não sofresse de transtorno de déficit de atenção.
Ali pelas tantas, têm umas perseguições de carro, aparece um submarino, e todo o elenco está junto numa nave alienígena no Stonehenge com um robô dragão de três cabeças porque sim...
Esses elementos todos, os robôs gigantes, os efeitos visuais, os carrões, as mulheres bonitas e Anthony Hopkins interpretando um velho maluco, tinham potencial para repetir o primeiro Transformers e ser um filme muito divertido.
Isso infelizmente não acontece.
Em parte porque Michael Bay parece um traficante de adrenalina, fazendo todo o possível para que a audiência tenha uma overdose durante o longa que começa com bolas de fogo, explosões e corpos voando pelo ar e termina com bolas de fogo, explosões e corpos voando pelo ar praticamente sem cessar por duas horas e vinte minutos de surto no pior sentido da expressão.
Em parte porque o roteiro parece não saber que história que contar, dando a impressão de que a equipe criativa se trancou numa sala, escreveram vários pedaços de papel com coisas de que gostavam e depois de um sorteio criaram um script que costurasse "Rei Arthur", Segunda Guerra Mundial", "Downton Abbey" e "Anthony Hopkins" à qualquer custo.
O resultado é um filme tão incoerente que parece uma paródia de si próprio, com um ritmo tão acelerado e tão barulhento que a gente tem vontade de dar uma martelada no dedo só pra ter tempo de respirar, e que ainda desperdiça dois dos melhore nomes no elenco (Hopkins e John Turturro, fazendo uma ponta) para despejar o falatório expositivo que a mitologia da série simplesmente não consegue abraçar em filmes que são meras duas horas de correria e explosões.
O mais patético?
O longa se encerra com uma gancho para Transformers 6.
Com um pouco de sorte, a bilheteria fraca, na casa dos seiscentos milhões de dólares, a mais baixa da série, faça a Paramount repensar os rumos da sua grande franquia.
Até lá, Transformers segue sendo um produto de home video e olhe lá.

"Foi dito através das eras, que não pode haver vitória sem sacrifício."

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Resenha DVD: Corra!


Eu sou um notório detrator de filmes de terror em geral. Os considero, em sua maioria, grandes porcarias, a ponto de, aqueles que não são ruins, já merecerem alguma forma de elogio apenas por se destacarem dos demais. Eu não estava nem um pouco interessado em assistir Corra!, cujo trailer vi em algum momento no início desse ano, ou no final do ano passado em uma ida ao cinema qualquer.
Me pareceu outro desses êxitos financeiros dos estúdios, onde todos os envolvidos fazem dinheiro já que os longas são baratos e rápidos de fazer, frequentemente levando a grandes ganhos percentuais para os produtores. Injetar cinco milhões de dólares em um filme, e faturar cento e setenta e cinco milhões, é um tremendo negócio.
Acabou que, no sábado, eu me vi voltando pra casa com o tempo fechando, e resolvi passar na locadora. O único filme que eu não havia assistido na prateleira de lançamentos era, justamente, Corra!, e eu pensei "Ah, que diabos".
O longa escrito e dirigido por Jordan Peele (parceiro de Keegan-Michael Key em Keanu: Cadê Meu Gato?!) começa com uma sequência tremendamente tensa para estabelecer o tom da história: Um homem negro (Lakeith Stanfield) anda por ruas de um subúrbio norte-americano qualquer tentando encontrar um endereço enquanto reclama ao telefone que todas aquelas ruas parecem iguais, quando, após desligar, percebe um automóvel branco o seguindo. Na rua deserta, o veículo pára junto à calçada, fazendo o jovem mudar de direção para evitar passar pelo carro enquanto resmunga para si mesmo que o fará porque sabe como negros são tratados em lugares como aquele. Subitamente a situação escala de maneira brutal, deixando claro que lugares aparentemente seguros, podem não sê-lo.
Corta para o jovem Chris (Daniel Kaluuya).
Ele está se preparando para fazer uma viagem com sua namorada, Rose (Allison Williams), após cinco meses de namoro, eles irão até o interior para conhecer os pais da jovem. Chris está preocupado em saber se, a família de Rose, que é branca, sabe que ele é negro.
Rose o tranquiliza, dizendo que não falou nada porque seus pais não são racistas, e ele não tem com o que se preocupar, reforçando que seu pai teria votado em Obama pela terceira vez, se pudesse.
Chris está genuinamente apaixonado por Rose, e é por isso que ele resolve ignorar seus instintos, e os avisos constantes de seu amigo Rod (LilRel Howery), e fazer a tal viagem. Talvez ele se case com Rose, e conhecer os pais da jovem será uma tarefa inevitável em algum ponto, então...
Ao chegar a bela e isolada propriedade dos Armitage, Chris conhece Dean e Missy Armitage (Bradley Whitford e Cathrine Keener), pais de Rose. Eles são gentis. Quase gentis demais. Inteiramente devotados a fazer com que Chris se sinta confortável e acolhido. A dedicação dos dois à tarefa é quase sufocante. Mais desconfortável, porém, é a presença da empregada Georgina (Betty Gabriel), e do caseiro Walter (Marcus Henderson), cujo comportamento rígido e tom excessivamente cordial fazem pensar nos robôs de Chapolin Colorado que pontuavam suas frases com um "Pi-Piiiiiiii".
Por estranha que a situação possa parecer, Chris tenta racionalizar a coisa toda dentro de parâmetros meramente raciais. Os pais de Rose estão se esforçando demais para tentar não parecerem desconfortáveis com a questão racial. Walter tem uma tesão recolhida por Rose, Georgina não se sente bem em ver um homem negro namorando uma branca... Mesmo o comportamento estapafúrdio de Jeremy (Caleb Landry Jones, o Banshee de X-Men: Primeira Classe, cuja falta eu senti em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido e Apocalypse) são coisas que Chris vai tentando digerir em nome de seus sentimentos por Rose.
Mas então, na primeira noite, Chris pensa em sair e fumar um cigarro no jardim, mas coisas estranhas acontecem, e depois há uma festa, e ela é ainda mais estranha... E então...
Bem, Corra! é um suspense, então longe de mim entregar o ouro.
O que há de ser dito é que em seus dois primeiros atos, quando está edificando o suspense de sua trama, Jordan Peele o faz de maneira soberba.
Há pistas de que algo está errado o tempo todo, e elas são entregues de maneira que o racismo esteja sempre nas entrelinhas, seja o racismo mais rasteiro, do branco que não gosta de negros, ou os considera inferiores, até o racismo paternalista e condescendente do branco que acha que os negros precisam de ajuda, passando pelo racismo (nem sempre) paranoico dos negros com relação aos brancos, tratado de maneira satirizada pelo personagem de LilRel Howery e sua crença inabalável de que todos os brancos querem escravos sexuais negros.
O terço final de Corra! não é tão redondinho quanto os dois primeiros, ele carece do lastro que as ideias raciais oferecem aos setenta minutos iniciais do filme, que transpiram tais argumentos, ainda assim, é uma tremenda montanha russa, repleta de sequências de deixar na ponta da cadeira em seus minutos finais, misturando terror e ação de maneira bem dosada.
Jordan Peele também faz bom uso de seu elenco, Daniel Kaluuya tira o protagonismo de letra, enquanto Allison Williams é linda e adorável, Brad Whitford e Catherine Keener têm uma gentileza em seus anfitriões que jamais carece de um toque ameaçador, garantindo que o filme jamais se torne confortável de assistir quando eles estão em cena.
E ainda que haja momentos para deixar o longa um pouco mais leve (particularmente as participações de Rod), o longa cozinha a audiência em fogo brando por uma hora e quarenta minutos de tensão muito bem orquestrada, deixando claro que o background cômico de Peele não interfira com o que ele deseja que o filme seja, de fato (a despeito do que a frase no pé da capa do DVD possa sugerir).
Com tantos predicados, fica difícil não recomendar Corra!.
Qualquer pessoa que goste de um bom filme irá aproveitar ao assistir, e fãs de suspense, em especial, sem dúvida têm um prato cheio no longa.
Vale a locação.

"Agora você está no lugar profundo..."

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Resenha Série: Stranger Things, Temporada 2, Episódio 3: The Pollywog


Nós não precisamos esperar muito para ver o que estava escondido dentro da lata de lixo de Dustin no final de episódio anterior.
O estranho girino a quem o moleque batiza de D'Artagnan (Ou Dart), aquela lesma interdimensional vomitada por Will no season finale da primeira temporada, cresceu para se tornar um girino de alguma espécie de criatura do Mundo Invertido que Dusty confunde com alguma espécie de réptil ou anfíbio, e a presença da criaturinha logo divide opiniões dentro do grupo.
Não é necessário ser um gênio pra saber que esse negócio não pode acabar bem. Escutem Will. Ele esteve preso no Mundo Invertido, ele é, mais ou menos, pai do D'Artagnan, e se ele não gosta do bagulho, todos deveriam ouvi-lo.
Quem, talvez, não devesse ser ouvido, é Bob.
Durante uma carona pra escola, Bob resolve inspirar Will a enfrentar seu pesadelo com o Monstro de Sombra como ele próprio fizera na infância com um pesadelo recorrente, Senhor Baldo, se recusando a fugir e ordenando que a criatura fosse embora, o problema é que o pesadelo recorrente de Bob não era uma criatura do Mundo Invertido, real o suficiente para aparecer na filmagem que Will fizera do Halloween na noite anterior, para desespero de Joyce.
Quem também se desespera é Nancy, cada vez mais envolvida com a ideia de fazer justiça para Barb, ela chama Jonathan para, juntos, colocarem em prática um audacioso plano para contar a verdade sobre o destino de sua amiga para a família Holland.
E não param de surgir problemas da dimensão paralela. Hopper encontra um padrão nas lavouras apodrecidas ao redor de Hawkins, e resolve voltar ao laboratório para tentar arrancar algumas respostas de Owens, não sem, antes, se desentender novamente com Onze, que continua sem entender a preocupação de Hopp com sua segurança e a proíbe de sair da cabana para encontrar Mike.
Novos flashbacks mostram o início da relação dos dois com uma sequência fofa onde a guriazinha e o xerife limpam a cabana onde ela irá morar.
Isso, no entanto, não é o suficiente para impedir a guriazinha de se rebelar e ir atrás de Mike na escola, mais ou menos ao mesmo tempo em que todos se dão conta de que Dart não é uma nova espécie de anfíbio descoberta por Dustin, mas sim um penetra interdimensional que, percebendo-se em perigo, logo foge da vista de todos após passar por uma pequena metamorfose.
Como desgraça pouca é bobagem, Onze encontra Mike justamente quando Max está tentando fazer as pazes com o moleque, dando a impressão de que ele e a ruivinha estão juntos.
Um pequeno parêntese para aplaudir Millie Bobby Brown, aqui. A expressão dela diz tudo a respeito de como Onze se sente furiosa por ter sido substituída como quinto elemento do grupo de nerds mirins.
Enfim, em meio a toda essa confusão, Will tem outro rompante e é transportado para o Mundo Invertido, lá, ele tenta aplicar a tática "molezinha" de Bob no Monstro de Sombras, e as consequências disso podem ser devastadoras pro pimpolho.
O terceiro capítulo da segunda temporada de Stranger Things deixa claro que, por mais divertida que a série seja, Hawkins é um lugar perigoso, e as coisas que acontecem nessa cidadezinha de Indiana têm consequências graves. Ninguém está imune aos perigos que deixam o laboratório, e isso gera uma tensão que faz maravilhas pelo programa.
Um episódio com todos os elementos que fazem de Stranger Things um grande sucesso.

"-Nós não precisamos de mais ninguém. Eu sou nosso paladino, Will é nosso clérigo, Dustin é nosso bardo, Lucas é nosso ranger e On é nossa maga."

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Novo Trailer de The Last of Us Parte II

E foi meio na surdina, sem avisar nada pra ninguém, que a Naughty Dog e a Sony revelaram, de supetão, o segundo trailer da segunda parte de The Last of Us.
O vídeo de quase cinco minutos é cru e brutal, mostrando uma situação tensa vivida por personagens desconhecidos.
Não há menção ou aparição de Ellie ou Joel.
Confira:



The Last of Us foi o melhor game de 2013, com belos gráficos, jogabilidade redondinha e uma narrativa que dá surra de pica mole em muito filme Hollywoodiano, o game mostrava Joel e Ellie, fazendo uma viagem através dos Estados Unidos em um mundo devastado por uma pandemia global de origem fúngica que tornava os hospedeiros do cordyceps em espécies de zumbis.
A relação conflituosa entre Joel e Ellie, com o tempo, ganhava novos contornos,conforme eles viajavam tentando sobreviver a todo o tipo de privação e perigo.
A sequência ainda não tem data de estréia divulgada, mas deverá ser centrada em Ellie cinco anos após o game original. Não há maiores detalhes sobre a trama.

Resenha DVD: A Múmia


Quando a Universal anunciou seus planos de criar um universo compartilhado de monstros do cinema, eu achei a ideia idiota.
Isso, claro, foi na época de Drácula: A História Nunca Contada, um filme que, longe de ser horrível, estava longe de ser bom o suficiente para gerar sequer uma continuação, que dirá uma franquia.
Ledo e Ivo engano o meu.
A Universal, aparentemente, descartaria o Drácula de Luke Evans, o lobisomem de Benicio DelToro e tudo o mais, pra recomeçar do zero. Pra recomeçar de A Múmia.
Não A Múmia de Arnold Vosloo e Brendan Fraser, mas uma nova múmia, que seria o primeiro passo de um novo universo compartilhado.
O Dark Universe.
Sério.
Tem até um logo que aparece depois do logo da Universal no filme, juro.
A Múmia chegou a ser imaginada, lá atrás, como um longa mais puxado pro terror, mesmo. Menos aventureiro e cômico do que os três filmes dirigidos por Stephen Sommers na virada do milênio. Essa ideia, aparentemente, ficou pelo caminho.
A Múmia ganhou o rosto narigudo de Tom Cruise, a beleza exótica de Sofia Boutella, e a direção de Alex Kurtzman (cujo currículo como roteirista me faz pensar que ele é o responsável pelas partes que eu não gosto em vários filmes do tipo "poderia-ser-ótimo-se-não-fosse-por-isso-aqui").
No longa, conhecemos a história de Ahmanet (Boutela), princesa do Egito destinada a se tornar a rainha que se vê traída por seu pai, o Faraó, que se casa novamente e tem um filho homem que a escanteia na linha sucessória.
Ahmanet não é de deixar barato, tendo dedicado toda a sua vida a se tornar uma rainha, ela não está disposta a abrir mão do poder, e, para conseguir seu trono, se envolve com as artes ocultas e firma um pacto sombrio com Set, deus egípcio da morte.
Ela consegue que seu pai, madrasta e irmão caçula morram, mas não se satisfaz apenas com isso. Ela arma o tabuleiro para trazer Set ao mundo dos homens como um deus vivo e imortal, que regerá o Egito e o mundo ao seu lado por toda a eternidade.
Seus planos porém, são frustrados.
Ahmanet é condenada à pior de todas as punições por seus crimes, é embalsamada viva, e levada muito além das fronteiras do Egito, até a Mesopotâmia, onde é sepultada em uma prisão espiritual por mais de cinco mil anos.
Corta para os dias de hoje.
No Iraque, o sargento Nick Morton (Cruise) e seu companheiro, o cabo Vail (Jake Johnson) são batedores do exército dos EUA na região.
Eles se aproveitam de sua posição privilegiada para andar nos calcanhares dos insurgentes e roubar todas as antiguidades que conseguem e vender por grandes quantias no mercado negro dos colecionadores.
De posse de um mapa roubado da arqueóloga Jennyfer Halsey (Annabelle Wallis), Nick e Vail conseguem chegar à uma antiga cripta onde encontram o sepulcro de Ahmanet, e não tarda para que, após a chegada de reforços, todos estejam a bordo de um avião com destino a Londres de posse do sarcófago da antiga princesa.
Obviamente, é uma péssima ideia.
Ahmanet, livre de seu sepulcro, usa seus poderes místicos para derrubar o avião, e iniciar seus planos de domínio global ao lado da encarnação de Set.
Seu escolhido para ser o recipiente da essência do deus da morte?
Nick.
Começa, então, mais uma aventura do agente Ethan Hunt para impedir o fim do mundo, mas usando outro nome, e, tipo, tem uma múmia ali, e tal.
É difícil ir muito além disso.
O longa é mal escrito assim, mesmo. O roteiro de David Koepp, Christopher McQuarrie, Dylan Kussman, Jon Spaiths, Jenny Lumet, e do diretor Alex Kurtzman é simplesmente horrível. Uma aberração tão grande que poderíamos definir como um filme de super-herói sem super-heróis, usando monstros, mas sem terror, emprestando pedaços de dezenas de outros filmes de terror existentes, de Um Lobisomem Americano em Londres até A Noiva de Frankenstein (que vai virar filme no Dark Universe, estrelado por Angelina Jolie), mas tentando equilibrar isso com um filme de ação estrelado por Tom Cruise.
O resultado é tão ruim quanto parece.
Pra piorar, ainda existe uma super organização secreta responsável por vigiar os monstros do mundo, e ela é chefiada pelo doutor Henry Jakyll (Russell Crowe), que passa a maior parte do tempo em seu escritório tentando não se transformar em Edward Hyde, e quando falha e se transforma dá início a uma sequência quase constrangedora para ele e Cruise.
O longa obviamente não funciona, o roteiro tipo colcha de retalhos somado à direção de Kurtzman, que parece pouco mais do que apenas ter alguém coordenando o produto que o estúdio acha que o público deseja, gera um resultado que é absolutamente canhestro, deixando todo mundo sem pai e nem mãe no final do desastre.
O final do filme, obviamente, acena com a possibilidade de uma sequência, já que, A Múmia é apenas a pedra fundamental do Dark Universe, a questão é:
Será que depois de ver A Múmia, nós queremos ver mais alguma coisa do Dark Universe?
Assista apenas se tiver muita curiosidade mórbida, mas não pague por isso.
Espere passar na Tela Quente.

"-Onde está seu senso de aventura?"