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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Vantagem


Ela e ele, deitados lado a lado no sofá.
Estavam espremidos, os dois, mesmo ela sendo bem pequenininha. Ele não se importava. Ficar espremido com ela significava que eles estavam totalmente em contato, corpos colados dos pés à cabeça. Ou ao menos que ele estava em contato com ela, inteira. Ela, por sua vez, ficava lhe devendo uns trinta centímetros de diferença.
Ele comentou isso. Que era mais vantajoso pra ele ter ela assim, colada em si, do que para ela, por conta da diferença de altura.
-Trinta centímetros de vantagem pra mim. - Ele sorriu.
Ela suspirou e resmungou:
-Mais, até... Eu estou encolhendo com a idade...
Ele riu da ideia:
-Como assim, "encolhendo"? - Quis saber, divertido.
-Eu estou. Tô te falando. Minhas roupas estão ficando mais compridas... Meus sapatos estão largos... Eu tô encolhendo.
Ele riu, abraçado nela:
-Tu tá é ficando mais assanhada, por isso as roupas parecem compridas. Tu *gostaria* que elas estivessem mais curtas pra tu poder mostrar mais as pernas. - Ele disse, enfatizando o "gostaria".
Ela não respondeu à maldosa provocação. Continuou:
-E meus sapatos? - Perguntou.
-Estão velhos e alargaram. "You need new clothes". - Ele disse, imitando o Chandler, de Friends, em um episódio onde Monica menciona sutiãs rasgados e calças manchadas.
Ela riu, mas ficou séria novamente, e, colocando a mão pra trás para tocar no rosto dele disse:
-Eu não sou mais aquela guria de vinte e poucos anos que tu conheceu... Eu tenho rugas...-
Ele a interrompeu:
-Rugas? Onde?
Ela não especificou:
-Eu tenho... Ruga... Cabelo branco... E tô encolhendo. Tu ainda vai querer ficar comigo quando eu for uma velhinha pequena?
Ele riu de novo. Estava, de fato, se divertindo, senão com a conversa, com os termos que ela usava. Ela continuou, muito solene:
-Eu sei que tu te apaixonou por mim por quem eu era em meu interior, mas-
Ele interrompeu de novo:
-Não. Não, foi. Lamento a franqueza, mas a verdade é que se fosse só teu interior, nós seríamos apenas melhores amigos, e pronto. Eu sou raso assim. Eu não me apaixonei só pela tua mente e o teu coração, eu me apaixonei pelo conjunto todo. Não teria, provavelmente, me apaixonado só pelas tuas pernas, pelo teu rosto, mãos e ombros... Não. Mas... Olha, tu te lembra de mim, lá atrás, quando já estávamos juntos, secando teu decote e olhando a tua bunda...
-Eu lembro... - Ela disse, rindo.
-Pois é. Era a coisa toda. Nunca foi só uma parte. Foi o conjunto. A coisa toda, junta e misturada.
Ela sorriu, virando a cabeça, e ele também fez uma contorção para conseguir beijá-la. No meio do beijo, porém, ela estacou, descolando seus lábios dos dele:
-Mas peraí! - Ela disse -Isso quer dizer que, comigo ficando velha e feia, tu não vai me amar pra sempre!
Ele parou de sorrir e respondeu:
-É... Eu não vou te amar pra sempre. Eu já te amo pra sempre.

Resenha Série: Luke Cage, Temporada 2, Episódio 2: Straighten It Out


Atenção! Pode haver spoilers!
O primeiro capítulo da nova temporada de Luke Cage terminou com o herói do Harlem dando risada na cara de uma bala Judas, tu sabe, aquelas que meio que matavam ele dois anos atrás.
Luke foi explodido e baleado com a bala assassina, mas não ficou sequer arranhado, ainda fez pose para o seu relações públicas, D.W. (Jeremiah Craft) e prendeu Arturo Rey (Otto Sanchez), tudo isso fez Luke perceber que ele está mais indestrutível e forte do que antes.
Claire tem a teoria de que o banho químico que ela deu nele para salvá-lo na primeira temporada pode ter reforçado as conchas de abalone da pele impenetrável de Luke, e quer testá-lo.
Essa é a deixa para uma montagem de treino com algumas personalidades esportivas que devem ser importantes nos EUA mas que eu não conheço, mostrando Luke correndo, saltando, jogando pneus bem pesados à grandes distâncias...
Eu cresci nos anos 80, então sei admirar uma boa "training montage", mas a verdade é que o "teste" de Luke foi bem meia-boca. Todo mundo sabe que Luke consegue jogar coisas longe, praticamente todas as cenas de ação de Jessica Jones envolvem ela jogando coisas ou pessoas longe, e Luke, ao menos em teoria, é mais forte que ela. Não seria legal ter visto quanto peso Luke consegue erguer antes de sentir dor nos joelhos? Que tipo de impacto é necessário pra tirar ele do lugar? Que temperatura até ele começar a sentir uma queimadura?
Enfim, nós descobrimos que ele pode arremessar um pneu de 200 quilos através de um campo, saltar três metros além do recorde mundial de salto em distância e correr mais rápido de Usain Bolt, sem saber quanto ele podia arremessar, saltar ou correr antes, mas enfim...
Enquanto Luke tira selfies e mais ou menos testa seus super-poderes, Shades e Mariah veem os planos de se tornarem limpos serem atrasados pela prisão de Arturo.
Shades, que não via Arturo como a melhor opção de comprador para as armas Hammer, aproveita o desrespeito de El Tercero, e o mata, reduzindo a lista de potenciais interessados na mercadoria que ele e Mariah têm para negociar.
Aliás, é difícil não supôr que Shades está tramando contra os planos de Mariah. Assistindo Straighten It Out eu tive a nítida impressão de que a bala Judas que ele ofereceu a Arturo era sabotada. O ex-capanga de Cascavel já deixou claro que não vê com tanto entusiasmo a ideia de Mariah de se tornar uma empresária legítima, e eu não me surpreenderia se ele desse um golpe em algum momento da trama...
Falando em Mariah e em golpes, a ex-vereadora parece decidida a retomar sua carreira política e, seguindo a orientação de uma marketeira, resolve se reaproximar de uma filha de que nunca ouvíramos falar, Tilda Dillard (Gabrielle Dennis), médica que toca uma loja de produtos fitoterápicos...
Mariah não é a única genitora tentando se reaproximar de sua prole, porém. James Lucas volta a tentar falar com Luke, e novamente é rechaçado pelo filho.
Isso leva Luke a ter uma discussão com Claire a respeito da família. O casal têm problemas no tocante a esse assunto, e, devo confessar, eu também tenho um pouco. Problemas familiares do tipo "meu pai não me entende" à essa altura do campeonato, especialmente após ter suportado uma temporada inteira de Jessica Jones baseada na mesma premissa e com Demolidor surgindo (com sorte) no final do ano sugerindo que a Ma~e de Matt pode estar de volta... É drama familiar demais pra séries de super-heróis...
De qualquer forma, o novo vilão da vez, Bushmaster, aparece cuspindo balas. Pra fora do próprio peito.
O bandidão jamaicano não é tão à prova de balas quanto Luke, e após ouvir falar sobre Luke Cage, parece tão decidido a derrubar o herói do Harlem quanto Mariah Dillard. Para isso, porém, ele parece precisar de um composto de ervas chamado "Sombra da Noite", que supostamente é a fonte de suas habilidades. Um jamaicano ganhando super-poderes graças a erva? Soa como uma piada ruim, mas vejamos. Pouco vimos de Bushmaster até o momento, e, pelo pouco que vimos, ele é um personagem consideravelmente menos interessante do que Cornell era, mas parece menos exagerado e caricato do que Willys Striker.
O episódio se encerra com Luke rastreando e encontrando Cockroach (Dorian Missick), que ataca o vigilante do Harlem com a característica espingarda de seis canos dos quadrinhos, e leva uma surra homérica diante dos olhares assustados da família do bandido, mostrando que toda a situação, da pressão de ser uma celebridade quebrada de grana, até a reaproximação do pai e os atritos com Claire, podem estar afetando Luke mais do que ele poderia supôr.
Após o começo seguindo a cartilha, o segundo episódio de Luke Cage cobriu um bom terreno em menos de uma hora de capítulo. Ainda houve tempo para mostrar Misty lutando pra se reintegrar à polícia após seu gravíssimo ferimento, e Claire atendendo a um sermão do pastor Lucas.
Longe de empolgar, ao menos Straighten It Out mostrou um pouco de intenção.
Que seja boa.

"-Você quer um pouco disso?
-Eu quero."

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Resenha Série: Luke Cage, Temporada 2, Episódio 1: Soul Brother #1


A primeira temporada de Luke Cage fora irregular.
O herói de pele impenetrável era maneiro, socialmente relevante, e tinha um elenco bacana encabeçado por Mike Colter, com bons coadjuvantes, mas careceu de um grande antagonista.
Após matar Boca de Algodão o programa perdeu seu antagonista mais interessante, e, com um caricato Cascavel fazendo caretas pra câmera, perdeu muito de sua qualidade.
Ainda assim, após os eventos de Os Defensores, uma série igualmente irregular, Carl Lucas estava pronto pra voltar pra casa.
A segunda temporada de Luke Cage começa exatamente de onde Os Defensores havia parado, assumindo que a audiência acompanhou a última incursão do herói do Harlem na Netflix, e retomando daí.
Agora uma celebridade no bairro, Cage segue lutando contra a injustiça de forma microscópica, tentando fazer a diferença em uma vizinhança. Sua popularidade aumentou tanto que há papelotes de heroína sendo vendidas nas ruas com seu nome estampado, e o correto Luke obviamente odeia essa ideia.
Ao mesmo tempo em que tenta descobrir a origem dessas drogas, Luke precisa lidar com o lado negativo da fama. Todos o conhecem. Todos querem saber o que ele faz. Logo, não há nada comparado a uma vida tranquila em seu futuro imediato, e no daqueles que o cercam.
Isso significa, principalmente, Claire Temple (Rosario Dawson), Bobby Fish (Ron Cephas Jones) e Misty Knight (Simone Missick).
Enquanto Claire tenta mostrar a Luke que não é apenas sua mulher, mas também seu apoio, e Bobby tenta convencer Luke a aceitar pagamento por seus serviços, Misty parece ter superado o trauma da perda de seu braço, e estar pronta para resolver a bagunça que a exposição de Scarfe como um policial corrupto causou, com dezenas de condenações de casos de seu ex-parceiro sendo canceladas.
Não são apenas os aliados de Luke que retornaram, porém...
Mariah (Alfre Woodard) e Shades (Theo Rossi) estão de volta, e, aparentemente, dispostos a limparem seus negócios. A ideia da herdeira de Mama Mabel é legitimar tudo, deixando de lado a necessidade de lavar dinheiro no Harlem's Paradise. Shades, por sua vez, não parece tão convencido, o amante e confidente de Mariah quer espremer a coisa toda para conseguir o máximo de dinheiro possível com os negócios da família Stokes.
E, pra fechar os retornos, James Lucas (o falecido Reg. E. Cathey) pai de Luke (que eu achava que estava morto...) ressurge na vida do filho sabe Deus por que.
Enquanto Luke corre com sua investigação sobre a origem da heroína com seu nome, e Mariah e Shades leiloam o armamento Hammer em seu poder, um novo jogador surge no tabuleiro.
John McIver, o Bushmaster (traduzido como "Cobra Mestra" porque "Surucucu" provavelmente não era um nome maneiro pra um vilão...).
O chefão jamaicano interpretado por Mustafa Shakir aparece com sede do sangue dos Stokes e mostrando que Luke Cage não é mais o único homem à prova de balas do Harlem.
O primeiro capítulo da segunda temporada de Luke Cage começou de maneira convencional. Passeando pelo momento atual dos personagens remanescentes e apresentando algumas caras novas o episódio jogou na segurança. Se a apresentação de Bushmaster foi OK, a chegada de James Lucas à trama pareceu um pouco com um tiro no pé. Por melhor ator que Reg E. Cathey seja, já não tivemos (e temos) drama familiar o suficiente em Luke Cage?
Muito mais interessante seria centrar fogo no conflito do protagonista a respeito de tentar lucrar com sua condição de herói no Harlem. De qualquer forma, foi apenas o primeiro episódio, e ainda há quase doze horas de Luke Cage pela frente.
A propósito: A melhor sacada do capítulo? A cena de amor entre Luke e Claire ao som de Night Nurse.

"-Qual é o meu nome?"

Presque Parfait...?


Tudo correu tranquilamente. Sem percalços ou mazelas.
Tudo como deveria ser... ?
Mas era?
Era assim que era pra ser?
Ou era pra ter sido diferente?
Era pra ter tido... Sei lá. Mais drama... Uma sogra de cara amarrada... O noivo com um sabre de luz pendurado na cintura... Não... Não depois de Os Últimos Jedi...
Uma noiva sorrindo muito! ... Nah. Isso definitivamente não faltou. Te conhecendo... Certamente aconteceu, pessoa de sorriso fácil.
O que pode ter faltado... Um quarteto de cordas tocando By Your Side? Ou isso seria brega demais não importa o contexto?
Faltou um raio na cabeça do noivo? Não... Não poderia ter desejado isso.
Ou poderia...? Um pouquinho só, talvez... Não. Melhor, não.
Faltou, então... Completude?
Seria isso o que faltou?
Eu não vou mentir. Me agrada que tenha te faltado algo. Me agrada porque eu senti um eco de amargor na minha língua toda a vez que te procurei e achei que tu estavas demasiado feliz...
Desculpe a franqueza.
Deve ser porque eu estou funcional, estou bem, mas "feliz" é um pouco de exagero.
Então é por isso que saber que te faço falta, me traz satisfação. É baixeza de minha parte, admito. Mas traz.
Entender que tu te sente como eu me sinto... É mais uma coisa que me acalenta.
Por mais que não tenha havido um penetra dizendo um "eu te amo" definitivo de última hora... Um "encontre-me em Montauk" num providencial último segundo... Não houve chegada de última hora quando o padre dizia "fale agora ou cale-se para sempre", ou moça bonita correndo de vestido de noiva pela rua que nem a Mary Jane em Homem-Aranha 2.
Não teve nada disso.
Tudo correu perfeitamente. Sem percalços nem mazelas.
Tudo conforme o figurino.
Seguro e tranquilo...
Como deveria ser...
Não é?
Tudo bem. Um dia a gente vai se encontrar de novo. Eu não vou à parte alguma.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O Galã dos Anos 50


Eu sempre fiz um grande sucesso entre as velhinhas.
Sério.
Vovozinhas, titias...
Velhinhas sempre me acharam um pão. Sempre me acharam bonito, é isso que "pão" significa no dialeto das pessoas idosas, ou ao menos era o que significava quando essas pessoas idosas eram jovens.
Acho que eu tenho essa aparência de galã dos anos cinquenta... Lembra dos galãs dos anos cinquenta? Tu viu filmes o suficiente pra lembrar... Eles eram caras como Robert Mitchum, Dean Martin, Cary Grant, James Stewart, John Wayne... Todos esses sujeitos altos, de físico quadradão, que pareciam paizões e que, em sua imensa maioria, não eram nem remotamente bonitos.
Acredito que na década de 50 era melhor ter aparência de confiável, de bom provedor, do que ser fisicamente bonito. Victor Mature era um camarada meio gordo que fazia papel de homem forte, William Holden parecia vendedor de seguros, Clark Gable tinha as orelhas de um chimpanzé... Eram todos homens longe do que se pode considerar bonitos.
Acho que eu evoco esse tipo de aparência, e daí advém a admiração das velhinhas.
Isso, e o fato de eu ser educado.
Eu sou polido demais pro meu próprio bem.
Me custa ser mal-educado. E esse é outro traço que as velhinhas admiram em um mundo onde a maioria das pessoas perdeu contato com a polidez de outrora.
É possível que tu gostasse dessa característica minha... Ou, que talvez, ela te irritasse de vez em quando.
Eu sei que me irrito com a minha educação. Mesmo quando tento dar passa-fora em alguém, tento fazê-lo, se não de forma agradável, ao menos maneirosa; e nas poucas vezes em que sou, de fato, mal-educado, o faço, de modo geral, por mera distração, e depois fico me recriminando...
Eu sempre ouço as pessoas se referirem a isso como "boa criação", e eu não sei o quanto a criação tem a ver com quem somos quando crescemos.
Eu cresci cercado tanto por pessoas extremamente educadas quanto por pessoas muito mal-educadas. Gente grosseira e rude que gritava e se exasperava com facilidade, e esse tipo de comportamento sempre me causou desconforto. Então não sei quanto da educação é boa criação e quanto é mera empatia.
Independente da origem, após anos de prática, torna-se reflexo. Torna-se natural e parte de quem somos.
É parte de quem eu sou, provavelmente porque é o que eu acho que um homem deve ser.
Outra parte do que eu acho que um homem deve ser, é responsável.
Eu me sinto na obrigação de arcar com as consequências dos meus atos. Outro traço característico dos galãs cinquentistas, ao qual as velhinhas provavelmente se referem como "hombridade", e que a cultura atual provavelmente vai taxar de "masculinidade tóxica" a qualquer momento... Mas desculpe, estou me desviando do assunto... O ponto é que, eu acredito que colhemos o que plantamos, e, quando eu semeio determinada situação, não me cabe espernear sobre o quanto é injusta a colheita.
Entender os porquês sempre me ajudou a lidar melhor com más situações. Acho que já falei disso... É a razão pela qual eu me condoo mais pelas mazelas de crianças e animais do que pelas de outrem, porque crianças e animais não têm ferramentas cognitivas pra compreender por que sofrem. Eu tenho.
E eu sei porque sofro. Não é injustiça. É matemática.
E muito pior do que meu próprio sofrimento, é aquele que impingi a quem eu amo...
E assim, acho que além de polidez e hombridade, também tem um pouco de pretensa expiação nos meus bons modos. Uma forma de me certificar, ou ao menos tentar me convencer, que eu não causei nenhum estrago irreversível na vida de quem é tão importante pra mim...
E, claro, um pouco de amargura.
Ninguém foi um galã dos anos 1950 tão típico quando Humphrey Bogart e no final das contas Ilsa tomou aquele avião com Victor Laszlo...
Here's looking at you, kid.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Alternativas


Estão Han Solo e a princesa Leia na ponte de comando da Enterprise.
O contrabandista sentado na cadeira do capitão, Leia em seu colo, eles olhavam um nos olhos do outro. Ela sorri. Leia fica linda quando sorri. O sujeito que vez a volta de Kessel em menos de doze parsec sorri de volta, aquele sorriso torto pro lado que Leia aprendeu a amar, mesmo sendo algo pretensioso.
A líder da Aliança Rebelde fala:
-As vezes eu acho que tu não me ama mais.
O melhor piloto da galáxia maneia a cabeça, de cenho franzido como quem ficou ultrajado ao ouvir a declaração, ele olha o painel que mostra que eles estão entrando em espaço Illithid, e responde:
-Eu sei... Mas tá errado. Eu sempre vou te amar.
Ela afaga o rosto dele, e, esticando a mão delicada para Chewbacca, sinaliza para que o co-piloto coloque os propulsores em velocidade de dobra.
Ou, ou:
Estão o Homem-Aranha e Chloe Frazer explorando a Fortaleza da Solidão.
Chloe, com sua figura atlética e movimentos calculados, vasculha o console de gelo onde se depositam os cristais que comandam a herança kryptoniana do Superman enquanto o Homem-Aranha observa do teto. O cabeça de teia tem suas dúvidas se é uma boa ideia roubar aqueles relíquias, mas Chloe está decidida.
Ele pergunta, hesitante, se ela tem certeza. Ela responde em seu pesado sotaque britânico:
-As vezes eu acho que tu não se lembra mais de mim.
O alter-ego de Peter Parker desce do teto por um único fio de teia, de ponta-cabeça, fica cara a cara com Chloe:
-Admite, gatona... Não passa um dia sem eu me lembrar de ti.
Ou, quem sabe:
Estão a Mulher-Maravilha e Scott Pilgrim em Lórien. O ambiente cheira a cedro e baunilha, e ao longe se pode ouvir o som dos violinos dinamarqueses vindo de Rohan, tamanho o silêncio. Os dois dividem um divã de veludo verde-musgo, têm as pernas entrelaçadas e as caneleiras armaduradas de Diana nem mesmo incomodam Scott, tamanho seu contentamento por estar ali, ao lado dela.
A princesa amazona vira o pescoço e olha para o moleque idiota atrás de si dizendo:
-As vezes acho que tu se lembra de mim como lembra de qualquer outra pessoa. E achar isso é ruim.
Scott engole em seco, passando a mão nos cabelos desalinhados, e hesitante responde:
-Mas... Mas como é que eu poderia pensar em ti como qualquer outra pessoa...? Tu nunca... Nunca, vai ser "qualquer pessoa", morena. Tu é "A" pessoa.
A semi-deusa sorri, puxando Scott pra si, e eles se beijam.
Ou, ainda...
Estavam ela e ele sentados na sala do apartamento que alugavam juntos. Era um sábado de tarde, e estavam ambos em casa. Ela, usando um pijaminha, pantufas de pelúcia e um gorro por conta do frio, num conjunto que lhe caía divinamente bem. Ele de calção, regata e pantufas, num conjunto que não fazia sentido por si só, e muito menos à temperatura de onze graus daquele dia ensolarado e gélido.
Dividiam o sofá. Ela com as pernas por cima dele, lendo um livro sobre a expedição de um jornalista à bordo do navio do Sea Shepherd para tentar abalroar navios baleeiros japoneses, ele, assistindo Cosmos na Netflix, um episódio a respeito de realidades alternativas interessante, mas nem de longe tocante como aquele que falava sobre Isaac Newton e Edmond Halley.
Ela tirou o focinho do livro, olhou pra TV, bem na parte que falava a respeito de inúmeras versões da nossa realidade, umas diferentes das outras. Ela olhou atenta pra TV durante esse tempo, e então pra ele. Fez cara de intrigada:
-Nossa... Imagina isso, Etê... Uma realidade onde a gente não ficou junto... Onde tu acha que eu não te amo, que eu te esqueci, que eu não penso em ti umas 300 vezes ao longo do meu dia…
Ele estava olhando pra ela com um sorriso. Adorava essas elucubrações súbitas dela. Riu:
-Não te preocupa, meu anjo... Se existe essa realidade paralela onde a gente não terminou junto, eu te garanto que, a menos que minha versão alternativa seja um completo e absoluto apedeuta, ele jamais pensaria uma coisa dessas.
Apanhou as pernas dela de seu colo e beijou-lhe as canelas e os joelhos. Continuou:
-Ele ia imaginar ter algum significado na tua vida, só pelo tamanho do teu significado na vida dele. E, em qualquer situação, ele estaria sempre torcendo por ti, e pensaria em ti todos os dias, com um sorriso no rosto e sempre com saudade.
Ela sorriu de volta:
-Tu acha mesmo?
Ele se inclinou pra frente e a beijou:
-Eu sei.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Nem Precisa


Talvez seja saudade.
Pura e simples.
Só saudade, sem intenção nem agenda. Uma lembrança cálida que surge e aquece o coração, traz um sorriso ao rosto e uma boa lembrança à mente. Uma pequena brasa, inofensiva e controlada sob pilhas de cinzas de uma fogueira de outrora... Por mais brega que pareça a analogia.
Eu sei como é...
Tenho isso ás vezes. De vez em quando uma vez por dia. Normalmente mais...
É a pedra sobre a qual erigi meu templo, por assim dizer.
Donde vêm todas as minhas noções de "nossa história" definitiva. Quase perfeição...
Que quase perfeição é coisa boa. Poucas pessoas experimentam quase perfeição, e ninguém experimenta perfeição, exceto eu, quando estive do teu lado. A maior parte das pessoas abraça as coisas boas e lida com as ruins, trabalha e constrói o melhor que pode e é assim que é.
Não é menos.
Não é ruim.
É real, palpável, discernível e fruto de dedicação de parte à parte.
Quase perfeição chega de supetão chamando a nossa atenção quanto à diferença entre ratazanas e cachorros ou pedindo beijo em frente à janela.
Pode durar pra sempre, como deveria ser, e pode terminar, também de supetão, deixando marcas que não necessariamente são cicatrizes.
Pode ser apenas saudade.
Pura e simples.
E se esse for o caso... Uma saudade passageira, corriqueira, inofensiva...
Eu aceito.
Me acalenta. Apazígua. Conforta.
Saber que eu tenho esse espaço na tua mente e no teu coração... É lisonjeiro, no mínimo.
Mas talvez... Talvez seja medo...
Não pavor. Não terror. Apenas um frio na barriga antes de um grande passo.
Eu sei como tu está. O que anda fazendo... Não que eu seja algum tipo de perseguidor obsessivo medonho, mas a nova posição da tua mobília parece legal olhando da janela...
Enfim... Eu sei o que anda acontecendo. E gosto de imaginar que amadureci o suficiente pra, não apenas não me remoer de ódio e arrependimento, mas pra ficar feliz por ti.
E eu fico.
Realmente.
Tu parece feliz, é a impressão que eu tenho.
E também me acalenta. Apazígua. E conforta. Saber disso.
Mas se for o caso... Um frio na barriga. Uma ponta de insegurança te fazendo pensar antes de a tua vida terminar e começar a vida de vocês, fazendo uma sombra passageira do passado se projetar mais nitidamente na parede... Ou uma ponta de melancolia te fazendo ver o passado sob um filtro cor-de-rosa...
Eu também aceito.
Porque, afinal, nos lembramos de Budapeste de maneiras muito diferentes...
Contanto que tu não pense que esteja fazendo algo de errado, eu aceito de bom grado. E acho que alguém que não sinta uma fagulha de pânico antes de um passo tão definitivo não avaliou a situação com a seriedade devida...
De qualquer forma, não me interprete mal, não estou tentando te afastar.
Estaria mentindo se dissesse que não adoro identificar tua voz por aqui. Se dissesse que não me passaram todos os tipos de clichês românticos pela cabeça, de ser o Alan Alda da tua Ellen Burstyn até voltar pra tua vida que nem o Thor chegando em Wakanda.
E, sendo cem por cento honesto, eu nem preciso saber, de verdade, qual das duas opções, ou qualquer outra que houver, é a resposta.
Eu já disse antes, e repito agora.
Tô dentro.
Sem intenção nem agenda.
Tudo de bom pra vocês.