Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
Pesquisar este blog
sábado, 22 de dezembro de 2018
Metrônomo
Quatro e vinte da madrugada.
Acorda de um sonho com ela. Tão excitado que chega a ser fisicamente doloroso.
Está lá deitado. Nu. O pau dolorido apontando pro teto. Pulsando feito um metrônomo.
No sonho, ela estava deitada na cama vestindo apenas um conjunto de lingerie rendada branco enquanto lia um gibi com um copo de suco na mão.
Ele se vestia para trabalhar e avisava que estava atrasado. Ela se espreguiçava, lânguida, e dizia que ele bem que podia se atrasar mais uma meia hora, já que era sábado.
Ele, já totalmente vestido, sorria dizendo que teriam todo o dia depois que ele voltasse pra casa. Ela largava o copo de suco de laranja sobre o criado-mudo e deitava de barriga pra cima, apoiada nos cotovelos, e separava lentamente os joelhos.
Ele se inclinava sobre ela na beira da cama e beijava-lhe os joelhos, um de cada vez:
-Quando eu voltar de tarde retomamos essa conversa, morena.
Nunca a havia chamado de "morena". Ao menos não assim, verbalmente. Já se referira a ela assim, mas jamais a chamara de "morena". Pareceu ridículo. Assim como pareceu ridículo levantar e sair após ter-lhe beijado as pernas.
Após ter sentido-lhe o cheiro.
Após tê-la tocado com mãos e lábios.
Acordou. E agora estava lá deitado. Nu. O pau dolorido apontando pro teto. Pulsando feito um metrônomo.
Só conseguia pensar nela. Na calcinha dela. Nas rendas delicadas e finas que não lhe continham a umidade. Pensava em todas as vezes que lhe tocara a roupa íntima e a encontrara molhada... Em como a encontrava sempre macia, quente e úmida... Convidativa... Deliciosa... Perfeita.
Pensou em quantas oportunidades como a do sonho haviam desperdiçado. Em quantas outras estavam desperdiçando...
Lembrou-se de sentir o cheiro íntimo dela nos próprios lábios depois de se despedirem. Imaginou se ela era capaz de sentir o próprio cheiro nele quando se beijavam na despedida. Malditas despedidas.
Cada uma delas maldita. Mil vezes malditas.
Pensou na calcinha dela, mostrando-se fugidia dentro da sorveteria na Padre Chagas.
Pensou na calcinha dela, à vontade no quarto dela enquanto ele desenhava-lhe uma tatuagem com caneta Bic na região ilíaca.
Pensou na calcinha dela afastada pro lado enquanto o vestido subia-lhe pela cintura numa tarde de sábado.
Pensou na calcinha dela nas suas mãos, deslizando pra fora dos pés dela numa noite de sexta.
Pensou na calcinha dela em uma foto enviada.
Pensou nela.
Em como a roupa íntima dela era sempre provocante. Sempre de mulher. De mulherão. No contraste com o jeito de menina, quase moleca de seu comportamento.
Amou-a um pouco mais sentiu um pouco mais de saudade.
Estava lá deitado. Nu. O pau dolorido apontando pro teto. Pulsando feito um metrônomo.
E o coração, também.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Ideia de Coragem
Quando o sujeito de meia-idade, cabeça calva raspada, corte no supercílio, foi colocado na traseira da viatura da Brigada Militar, ele tinha uma expressão entre o aturdido e o resignado. Olhava apenas para a frente, sem encarar a multidão de transeuntes que parava para observar a comoção em meio à avenida Borges de Medeiros, no coração de Porto Alegre.
Funcionários da Imobiliária saíam à calçada e conversavam com brigadianos e com vizinhos contando da ocorrência, e foi num desses relatos que se pôde ouvir em detalhes a narrativa da tentativa de assalto que tomara lugar havia pouco.
O sujeito entrara na imobiliária como cliente, mas sacara uma arma para a recepcionista. Rendeu todos os funcionários e ordenou que se juntassem no almoxarifado, onde seriam trancados enquanto ele vasculhava o local em busca de dinheiro. No momento de trancar os funcionários no almoxarifado, porém, o pretenso assaltante derrubara a chave, e, ao abaixar-se para apanhá-la, os seus reféns perceberam tratar-se de um simulacro. A proverbial arma de brinquedo.
De posse de tal informação, os trabalhadores que superavam em número ao atrapalhado malfeitor não tiveram dificuldade para subjugá-lo e chamar a polícia que, então, o deteve.
Enquanto via o sujeito sendo preso, eu não pude deixar de me comiserar dele. Mesmo estando ciente de que, houvesse ele sucedido em seu intento, e efetuado o assalto, eu o estaria considerando um marginal digno de raiva, ao vê-lo preso e aturdido, flagrei-me apiedado do pretenso meliante. Porque me ocorreu que, para tomar parte em tão desastrada empreitada, assaltar uma imobiliária usando uma arma de brinquedo, uma pessoa deve estar, mais do que buscando dinheiro fácil, experimentando alguma forma de desespero.
E eu sei... Eu sei que aquele sujeito provavelmente não permaneceu preso, e hoje ou amanhã já deverá estar novamente nas ruas.
Eu sei que ele provavelmente não era um marinheiro de primeira viagem.
Eu sei que, se ele aprendeu alguma coisa com essa desventura, é bem factível que tenha sido sobre a necessidade de ter uma arma verdadeira para realizar seus assaltos e que em futuras venturas criminosas ele provavelmente será mais cuidadoso na hora de prender suas vítimas no almoxarifado e estará melhor equipado, e sei que posso ser, eu mesmo, sua próxima vítima.
Eu sei de tudo isso.
Ainda assim, sabendo de tudo isso, não pude deixar de sentir pena do sujeito.
E ainda que conheça muita gente, muita, muita gente, que discorde... Que gostaria que o assaltante trapalhão tivesse sido linchado na avenida... Que gostaria que a polícia o tivesse massacrado no ato... Que gostaria que ele tivesse sido preso e executado pelo Estado... Eu não acho que eu esteja errado.
Ontem, enquanto avaliava minha própria reação ao caso, confesso que senti uma ponta de orgulho. Porque nos dias de hoje é muito fácil se sentir uma vítima. Estamos sendo treinados pelas circunstâncias para ver algozes em potencial a cada esquina e tomamos decisões baseados na preocupação perene com a nossa segurança e a de nossos entes queridos.
Acabamos de eleger um presidente por conta de raiva e medo, uma decisão que muitos tomaram baseados na expectativa de que um Estado policialesco seja instaurado e recrie a segurança perdida e agora vemos a ascensão de um governo que se forma seguindo as diretrizes de um bizarro guru que vende cursos pela internet e publica livros que se tornam best-sellers ao vender viés de confirmação...
Vivemos em um mundo que se polariza e onde as pessoas decidem muito mais por temor e aversão do que por qualquer tipo de método.
Então, eu fiquei feliz por ser capaz de me apiedar de um meliante fracassado, mesmo sabendo que ele provavelmente não se apiedaria de mim, fosse eu uma de suas vítimas. Por ser capaz de praticar empatia por alguém que não fosse igual a mim.
Talvez porque eu seja um calhorda pretensioso com necessidade de me sentir superior, como me disse um conhecido. Ou, talvez, porque no momento em que o medo for maior que a compaixão, a minha ideia de coragem terá sido derrotada.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Resenha DVD: Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível
Vivemos em tempos burros. É algo que eu não me canso de repetir até porque não paro de presenciar. Eu, francamente, não acredito que a humanidade já tenha sido mais estúpida ao longo da História, e digo isso sabendo um pouco a respeito de História. Alguém inevitavelmente me lembrará de períodos como a Idade das Trevas e outros momentos famosos de obscurantismo e ignorância da existência humana, e eu concordo que há momentos da nossa espécie onde fomos muito, muito burros e particularmente malvados, mas, hoje em dia, com o tanto de informações que há disponível, ser imbecil é uma escolha que consciente, ou não, a maioria faz por livre e espontânea vontade, e não por imposição do Estado, do clero, ou de qualquer organização que seja...
Outra coisa que nosso momento atual tem em abundância, além de estupidez, é cinismo. E se um pouco de cinismo e sarcasmo são até interessantes quando acompanhados de inteligência, perfilados com burrice formam uma combinação dolorosa.
Eu começo essa resenha de Christopher Robin falando de burrice e cinismo porque o longa dirigido por Marc Forster e roteirizado por Alex Ross Perry, Tom McCarthy e Alisson Schroeder não tem nenhuma dessas duas coisas, mas pode ser uma presa fácil para ambas...
O longa abre com Christopher Robin tendo uma festa de despedida de seus amigos do Bosque dos Cem Acres. Christopher está chegando à idade de se juntar a um internato em Londres, e deixar a infância de brincadeiras em Sussex para trás rumo à vida adulta.
A despeito de suas promessas de que jamais esqueceria de Pooh, Tigrão, Ió, Leitão e os demais, Christopher vai, com o passar dos anos, sendo absorvido pela vida adulta. Entre escola, universidade, a Segunda Guerra e o casamento, Christopher Robin cresce, amadurece (ganha as feições de Ewan McGregor) e eventualmente deixa o Bosque dos Cem Acres bem para trás.
Anos se passaram, e Christopher Robin, casado com a arquiteta Evelyn (o pitéu Hayley Atwell) é, agora o gerente de eficiência de uma companhia que fabrica malas, a Winslow, e tem uma filha pequena, Madeline (Bronte Carmichael) com quem pouco interage.
É o pós-guerra e com o esforço de reconstrução da Europa poucas pessoas têm condições de sair de férias, de modo que os negócios vão mal para a Winslow.
Christopher tornou-se um homem assoberbado pelo peso das responsabilidades, pressionado por seu exigente chefe, Giles Winslow Jr. (O Mycroft Holmes Mark Gatiss), e que mal vê a esposa e nunca passa tempo com a filha, que pretende mandar para um internato.
Às vésperas de um final de semana em família há muito postergado, Christopher recebe a notícia de que terá que trabalhar no final de semana. Com os lucros da empresa caindo sistematicamente, é necessário fazer um corte de despesas, o que pode significar demissões. Temendo pelos empregos de seus colegas, Christopher se prepara para quebrar a cabeça na tentativa de manter os postos de trabalho na empresa enquanto Evelyn e Madeline viajam à cabana em Sussex para o final de semana sozinhas.
Enquanto Christopher Robin é tragado pelas responsabilidades de estar crescido, Pooh e companhia jamais o esqueceram.
O urso amarelo periodicamente ia até a entrada do bosque à espera de Christopher Robin sem jamais se deixar abater pela ausência do amigo. As coisas se complicam quando, uma certa manhã, Pooh não é capaz de encontrar nenhum de seus amigos para o desjejum. Temendo que eles possam ter sido apanhados por um Efalante ou uma Dinonha, o urso fica sem alternativa, sequer sair do Bosque dos Cem Acres em busca de ajuda.
Em busca de Christopher Robin.
Não tarda para que os dois ex-melhores amigos se reencontrem, mas se Pooh está felicíssimo em reencontrar Christopher Robin, a recíproca não é verdadeira. O trabalho cobra um alto preço de um adulto, e Christopher simplesmente não tem tempo para ajudar seu antigo bicho de pelúcia a encontrar o resto da patota. Ansioso para se livrar do súbito reencontro com o passado, Christopher decide viajar rapidamente até Sussex e devolver Pooh ao Bosque dos Cem Acres para poder se concentrar novamente no trabalho, mas descobrirá que, por mais que tente deixar sua infância para trás, ela não vai desistir dele tão facilmente.
É muito fácil torcer o nariz para Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível.
A mensagem é o manjado tema de que, de vez em quando, precisamos pisar no freio e aproveitar a vida. De que é sempre bom, e até necessário, manter viva a criança interior... E essas são mensagens sem lugar no nosso tempo. Quem pisa no freio é esmagado pelos que vêm atrás, e temos uma geração inteira de pessoas que simplesmente se recusam a crescer e que criaram até um termo para quando precisam cumprir alguma responsabilidade: "adulting".
Nesse cenário considerar Christopher Robin: Um Encontro Inesquecível um filme anacrônico e apontar seus clichês é lugar-comum na cartilha do crítico de cinema ácido e espertinho. O longa de Marc Forster demanda, mais do que suspensão de descrença, uma ternura que a maior parte de nós não tem em estoque.
Mas aqueles poucos que têm essa ternura guardada em algum recôndito da própria mente, seja porque é capaz de lembrar de como era mais fácil e aprazível ser criança, seja porque cantarolava o tema do Ursinho Pooh (na época Puff) para um animal de estimação muito querido, Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível é um deleite.
Sob a direção de Marc Forster e a lente do cinematógrafo Matthias Koenigswieser as pinturas de Ernest Shepard ganham vida, o campo britânico se torna ensolarado e aprazível, com clareiras iluminadas por uma calorosa luz dourado-pálida que invade Londres quando Pooh e seus amigos saem em busca de Christopher. Há alguma comédia pastelão, mas ela é contida e divertida, sem jamais se tornar mais veemente ou barulhenta do que deveria. Coisas como um urso de pelúcia andando com as patas sujas de mel por um tapete, ou um burro de pelúcia sendo resignadamente levado pela correnteza de um riacho são dosadas na medida para serem engraçadas de uma forma bonitinha, e não abrasiva.
Como a voz de Pooh, o trabalho de dublagem de Jim Cummings (que também faz a voz de Tigrão) é sublime. Um misto de nostalgia e conforto comparável a voltar a comer aquele bolo que a nossa avó fazia quando éramos pequenos depois de anos. Igualmente inspirado está Brad Garrett no papel de Ió em sua constante e adorável depressão.
Não há, porém, nenhuma dúvida de que Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível, tem como maior trunfo o seu protagonista.
Ewan McGregor torna a ansiedade e as responsabilidades do personagem título uma presença recorrente, aquela proverbial nuvem negra pairando sobre a cabeça do homem que precisa ser o provedor de sua casa e que esqueceu a criança que costumava ser. Ainda assim, o ator escocês também é um dos intérpretes com mais capacidade de transmitir alegria no cinemão contemporâneo, e quando ele retrata Christopher Robin voltando a se divertir com seu sorriso aberto e expressão de genuíno contentamento, nós também somos capazes de nos deleitar tanto quanto ele e o restante dos moradores do Bosque dos Cem Acres.
Basta se despir do cinismo.
Com roteiro comedido, linda fotografia, direção segura de um baita cineasta e ótimo trabalho de um grande elenco (que ainda conta com Nick Mohammed, Sophie Okonedo, Peter Capaldi e Toby Jones) Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível não é filme para burros e nem para cínicos. Todos os outros, porém, certamente serão capazes de se divertir (e possivelmente se emocionar) com esse belo reencontro entre um homem e sua infância, que, a despeito das eventuais lágrimas, deixa na boca um gosto doce igual a mel.
Um dos meus filmes preferidos desse ano.
Assista, vale a pena.
"-Eu não penso neles há anos.
-Bem, nós pensamos em você todos os dias."
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Resenha Filme: A Balada de Buster Scruggs
Enquanto fã confesso e declarado dos irmãos Coen devo admitir que me levou muito mais tempo do que deveria para assistir A Balada de Buster Scruggs, disponibilizado no catálogo da Netflix desde o dia 26 de novembro, se não me engano. Não tenho nenhuma desculpa para tal lapso exceto a de que eu não sabia que o filme já fora lançado pelo serviço de streaming, o que descobri apenas ontem quando finalmente resolvi espiar a Netflix após um hiato que se estendia desde que eu assistira ao último episódio de Demolidor...
A Balada de Buster Scruggs é uma antologia de histórias situadas no velho oeste com elencos, ambientações e histórias distintas em cada uma delas, mas todas com um elemento em comum: O toque Coeniano de ter personagens sendo total e absolutamente ferrados pelo destino após tentar desesperadamente planejar as coisas.
O primeiro segmento da antologia é o que dá título ao filme. Conforme uma mão vira as páginas de um livro, nós podemos ler uma descrição da cena vindoura, e vislumbrar um belo painel pintado retratando uma cena emblemática da história por vir, nesse caso, Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), o Sabiá de San Saba, que encontramos todo paramentado de branco, tocando um violão e cantando no lombo de seu cavalo, também branco, pelo deserto. Buster é um caubói afável e simpático que conversa amigavelmente com a câmera enquanto viaja, mas sob sua fachada polida esconde um competentíssimo pistoleiro capaz de matar com a mesma facilidade com que canta e dança.
Provavelmente o segmento mais auto-consciente da antologia, A Balada de Buster Scruggs usa metalinguagem e se dirige ao "faroeste" de maneira direta, brincando com todos os clichês do gênero e aludindo à mentira inerente a ele. O caubói de branco, o caubói de preto, os números musicais, a facilidade com que Buster elimina cada adversário que surge em seu caminho... O velho Oeste não era um lugar divertido, e quem quer que pense que era, está destinado a levar uma bala no meio da testa...
O próximo segmento, Perto de Algodones mostra um assaltante (James Franco) abocanhando mais do que pode mastigar ao assaltar um pequeno banco no meio do nada. O caixa do local (Stephen Root) é mais engenhoso do que o bandido supunha e não tarda para que o protagonista esteja na ponta de uma corda após ser julgado e condenado por tentativa de assalto, as coisas, porém, não saem como o esperado novamente.
O mais curto dos segmentos do filme, Perto de Algodones também teve o momento mais engraçado, quando o personagem de Franco faz uma pergunta a um colega no desfecho da história.
As coisas ficam consideravelmente mais sombrias em Vale-Refeição, estrelado por Liam Neeson como o dono de um show itinerante protagonizado por um jovem sem braços ou pernas (Harry Melling, o Dudley Dursley da franquia Harry Potter) que declama apaixonadamente peças de teatro, trechos da bíblia e discursos políticos para audiências cada vez menores que rendem cada vez menos dinheiro.
Conforme a dependência do jovem artista se torna progressivamente menos lucrativa, o empresário começa a contemplar novas possibilidades para seu show, possibilidades que, talvez, não envolvam mais o órfão deficiente.
O quarto segmento, Cânion Dourado, adaptado da obra de Jack London, tem Tom Waits como um velho garimpeiro suando a camisa na tentativa de encontrar um bolsão de ouro que pode mudar sua vida em um belo vale até então intocado pelo homem.
Em sua busca pelo metal precioso, o velho acaba se envolvendo em uma querela de vida ou morte que é mostrada do ponto de vista da natureza do local, que não se importa com a busca do ancião e nem com os perrengues pelos quais ele passa, apenas quer que ele saia logo de lá para que a vida possa seguir seu curso no que é, provavelmente, o único dos curtas que tem algo que podemos classificar como um final feliz.
A penúltima e mais longa porção da antologia, A Garota que Se Assustou, baseado em uma história de Stewart Edward White, é estrelada por Zoe Kazan como a jovem Alice Longabaugh, uma jovem solteira que viaja junto com seu irmão em uma caravana cortando o coração dos EUA rumo ao Oregon onde há uma oportunidade de negócios para ele e de casamento para ela.
As coisas se complicam quando o rapaz morre inesperadamente, deixando a senhorita Longabaugh em uma situação complicada, sem dinheiro, família ou perspectivas, mas podendo, finalmente gerenciar a própria vida e futuro, até mesmo se aproximando de um dos guias da caravana, Billy Knapp (Bill Heck), que começa a pensar que, talvez, seja a hora de deixar as caravanas de lado, e se separar de seu parceiro de viagens, Senhor Arthur (Grainger Hines) antes de estar velho demais para sossegar.
Obviamente, as coisas não são como poderia se esperar, e os Coen têm uma reviravolta preparada para sacolejar a história antes que o segmento se encerre.
Fechando o filme, Os Restos Mortais traz um heterogêneo grupo de viajantes compartilhando uma diligência. Um apostador francês (Saul Rubinek), uma pomposa e proba senhora (Tyne Daly), um caçador (Chelcie Ross) e dois caçadores de recompensa (Jonjo O'Neill e Brendan Gleeson) viajam noite adentro a bordo de uma carruagem que não pára até chegar ao se destino enquanto compartilham histórias e visões de mundo em uma pequena coleção de diálogos de deixar Tarantino com inveja.
A Balada de Buster Scruggs é um excelente filme. Ele tanto abraça o gênero do faroeste quanto o satiriza sem jamais deixar que a auto-consciência se torne pastiche. Há comprometimento para com o gênero tanto quanto desconstrução, a exemplo do que ocorrera em Bravura Indômita, a ironia não é a razão de ser do filme, apenas está em toda a parte porque o cinema dos Coen é assim, e o velho oeste é o cenário ideal para a ideia de existência eventual e o poder demolidor das circunstâncias sobre essa existência. Tudo no oeste quer te matar, já disse Seth McFarlane, e os Coen concordam. Cantinas e bancos minúsculos surgem no meio de cenários grandiosos e icônicos. O Oeste é grande, e a obra humana é diminuta como sua existência nesse cenário caótico.
Tecnicamente impecável, o longa conta com uma bela trilha sonora de Carter Burnwell, correto trabalho de edição dos Coen sob o pseudônimo de Roderick Jaynes e uma ótima fotografia de Bruno Delbonnel, que dá show em Os Restos Mortais, com as cores esmaecendo conforme os viajantes se aproximam de seu destino...
As atuações são todas muito boas, com destaque especial para o soberbo Tim Blake Nelson, que canta as maldades do mundo ignorando o fato de que é uma delas, para Liam Neeson, e seu pesado retrato de um homem soturno vislumbrando a possibilidade de fazer algo horrível, Zoe Kazam, transmitindo o misto de tensão e alívio ao ter em mãos as rédeas do próprio destino, e um irreconhecível Chelcie Ross, roubando a cena com uma grande performance cômica.
A Balada de Buster Scruggs é um excelente filme, um dos melhores do ano, fácil, e um autêntico exemplar da filmografia de Joel e Ethan Coen, que há mais de trinta anos têm feito filmes mostrando que a existência humana na Terra é frágil e tumultuada, mas jamais aborrecida.
Assista.
"Eu não odeio o próximo, mesmo quando ele é cansativo e ranzinza e tenta roubar no pôquer. Eu assumo que é apenas o jeito que a humanidade é, e aquele que encontra nisso motivo para raiva e desânimo é só um tolo por esperar demais."
segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
Resenha DVD: O Protetor 2
Quatro anos atrás, eu fui uma das pessoas que elogiaram O Protetor. Adaptação cinematográfica da série de TV oitentista The Equalizer, onde Robert McCall, um ex-espião se tornava detetive particular para equalizar as chances de pessoas comuns em situações além de suas capacidades. A trama do longa de Anthony Fuqua estrelado por Denzel Washington, Chloë Grace Moretz (que eu tenho a impressão de que propositadamente alterna a posição de seus dois primeiros nomes para me atrapalhar...) e Marton Csokas era basicamente a mesma do programa de TV, mas com mais pancadaria. O Robert McCall de Washington era um ex-operativo da CIA com um conjunto de habilidades muito particular, adquirido ao longo de uma carreira muito longa, habilidades que o tornavam um pesadelo para homens como qualquer vilão que lhe cruzasse o caminho.
Em outras palavras, sim, era meio que um chupim de Busca Implacável, uma desculpa para um quase sessentão Denzel Washington deixar de lado seus dotes dramáticos e se concentrar em ser cool e esfaquear uns pescoços. Era uma divertida sessão de cinema, que distraía por duas horas e onde o mocinho vencia o vilão, não me lembro se o apunhalando, baleando ou explodindo, o que meio que dá a ideia de que, por divertido que fosse, O Protetor não era particularmente memorável.
Por isso, talvez, minha surpresa ao saber que Washington faria a primeira sequência de sua carreira justamente para O Protetor, quatro anos e mais duas indicações ao Oscar depois do primeiro longa, e minha completa e absoluta falta de interesse em ir pro cinema para assistir ao filme. No sábado, porém, após falhar em alugar o filme do Ursinho Pooh, me deparei, na locadora, com essa sequência, e, na falta de outras novidades, resolvi alugar o filme.
Na sequência, Robert McCall, após deixar seu emprego na Home-Mart anos antes, é motorista de aplicativo em Boston, num emprego que o mantém perto o suficiente da tragédia humana para estender uma mão amiga aos necessitados, como o idoso Sam Rubistein (Orson Bean), que tenta recuperar uma pintura perdida durante a Segunda Guerra, ou a vizinha Fatima (Sakina Jaffrey), que cuida obstinadamente do jardim do condomínio onde McCall mora, ou o jovem Miles (Ashton Sanders, de Moonlight), aspirante a artista que Robert quer manter na escola e longe do tráfico, além de uma eventual surra brutal em abusadores de moças, ou uma viagenzinha à Turquia para resgatar a filha da dona da livraria preferida... Seja como for, McCall está levando seus dias à sua maneira, devagar e sempre, trabalhando, lendo seus livros, tomando seu chá e fazendo sua justiça enquanto segue lamentando a perda da esposa anos antes.
A rotina de Robert é sacudida quando sua amiga Susan (Melissa Leo) é enviada à Bélgica para analisar um pretenso suicídio de um colaborador da agência. Ao constatar que a morte do sujeito foi, de fato, uma execução, Susan se torna alvo, e quando ela é assassinada, as coisas se tornam pessoais.
Movido pelo desejo de vingar a morte de Susan, McCall une forças ao seu ex-parceiro Dave York (Pedro Pascal) e coloca sua intuição e experiência para funcionar na tentativa de descobrir os responsáveis pela morte de Susan e matá-los bem mortos.
Se era surpreendente saber que Washington resolvera fazer de O Protetor a primeira sequência de sua carreira, fica quase chocante após assistir ao filme.
Novamente dirigido por Antoine Fuqua e escrito por Richard Wenk, responsáveis pelo primeiro longa, O Protetor 2 é superficial e aborrecido além de qualquer explicação plausível para um filme de ação estrelado por Washington. É difícil não imaginar que Wenk tenha gostado do climão de matiné anos 80 do primeiro longa e tentado simplesmente reproduzi-la no script da sequência.
O problema é que "clima dos anos 80" não é, por si só, uma coisa boa. Tampouco criar um roteiro de duas horas de clichês e trama sem sentido que se arrasta de uma sequência de luta hiper editada para a próxima intercalada pela subtrama de Miles, que tinha algum potencial, mas, de tão mal desenvolvida, só serve pra alongar o filme e, talvez, para dar a impressão de que O Protetor 2 é mais do que um filhote de Busca Implacável 2.
O vilão, absolutamente previsível desde a primeira cena em que aparece, tem motivações tão vagas e um modus operandi tão caótico que, até agora, eu ainda não sei bem qual era o jogo dele ao longo do filme.
Nem mesmo o fato de haver uma vasta quantidade de violentas cenas de luta faz com que o longa pareça menos arrastado. Washington está com sessenta e três anos, e não deve ter mais o vigor que lhe permitiu fazer coisas sensacionais como as sequências de luta de O Livro de Eli, de modo que o que vemos são sequências picotadas de pancadaria confusa que acabam com o vilão caído no chão, um dos vícios mais irritantes do cinema de ação recente.
Apesar desses problemas, O Protetor 2 mais que triplicou seu orçamento de 62 milhões de dólares nas bilheterias do mundo todo. Denzel Washington é um ator talentoso e carismático que arrebanhou uma considerável e justificada boa-vontade de fãs de cinema, e eu não me surpreenderia se, em algum momento do futuro, ele recebesse mais um roteiro de O Protetor pelo correio. Resta torcer para que ele realmente leia o script antes de aceitar estrelá-lo.
Absolutamente dispensável, e muito menor do que seu protagonista, O Protetor 2 é produto para fãs inveterados de Washington. Esses, talvez, consigam se manter acordados durante o filme inteiro.
"-Eu vou matar todos vocês e meu único arrependimento é que só vou poder fazer isso uma vez."
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
O Teaser de Vingadores: Ultimato
E, paulatinamente, a Marvel divulgou a primeira prévia de Vingadores 4, confirmando o título do filme:
Ultimato.
No teaser de pouco mais de dois minutos, vemos Tony Stark à deriva no espaço, os Vingadores remanescentes planejando seu próximo passo, Jeremy Renner como o Ronin, e o clássico espantalho usando armadura de Thanos em Titã.
Confira:
Dirigido por Joe e Anthony Russo, escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely e estrelado por todo mundo do MCU, Vingadores: Ultimato estréia em 25 de abril de 2019.
Ultimato.
No teaser de pouco mais de dois minutos, vemos Tony Stark à deriva no espaço, os Vingadores remanescentes planejando seu próximo passo, Jeremy Renner como o Ronin, e o clássico espantalho usando armadura de Thanos em Titã.
Confira:
Dirigido por Joe e Anthony Russo, escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely e estrelado por todo mundo do MCU, Vingadores: Ultimato estréia em 25 de abril de 2019.
Marcadores:
Cinema,
Nerd,
Quadrinhos,
super-heróis,
Trailer
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Carpintaria (e amor eterno) para Iniciantes
Limpou o suor que lhe escorria da testa com a palma da mão direita. Ato contínuo, secou a palma suada da mão no peito da camiseta que vestia. Suspirou, e apanhou novamente o manual de montagem da peça de mobiliário que jazia semi-conclusa no tapete da sala.
Estava tudo certo?
Parecia tudo certo. Os pés estavam no lugar... A base fora afixada corretamente... A porta do compartimento abria e fechava... A peça treze. Onde estava a peça treze? Virou-se, de cócoras, procurando o retângulo vermelho de vinte e cinco por dezoito centímetros com duas aberturas para os pinos girofix, uma abertura para tambor girofix, quatro clavilhas de madeira e dois parafusos... Encontrou.
Apanhou os parafusos, todos perfilados sobre a folha que mostrava o tamanho e quantidade de cada uma das peças do conjunto e os colocou junto da peça treze. Apanhou, com um meio sorriso, sua novíssima parafusadeira, e a acelerou brevemente, por duas vezes, ouvindo o "zun-zuun" que o motor elétrico produzia.
Lamentava ainda não ter uma daquelas na tarde do dia anterior, quando passara horas apertando parafusos com chave de fenda, uma tarefa inglória para alguém que, naquela semana, vinha sendo acometido por dores no pulso. A dor era tanta no final do dia, que foi até o shopping e comprou a ferramenta elétrica.
Posicionou a peça número treze colocou o primeiro parafuso no lugar, e fez, à mão, os primeiros giros para garantir que a peça de aço estava dentro da madeira. Escolheu, com cuidado, a ponta correta, tipo Phillips, e posicionou a ponta junto à cabeça do parafuso para, com firmeza, empurrar a ferramenta de encontro ao parafuso enquanto acelerava.
Viu, com gosto, o parafuso afundar aos giros madeira adentro, pensando que, com aquela ferramenta em mãos na tarde anterior, já estaria, à noite, com o móvel devidamente montado. Pensava nisso quando percebeu que o parafuso parara de avançar. Impôs mais força, sentindo, novamente, o suor brotar-lhe da fronte.
Nada.
Burfou. Trocou a ponta da parafusadeira por uma tipo fenda que coubesse na cruz da cabeça do parafuso. Apoiou com vigor a ferramenta no lugar e acelerou novamente pressionando a ferramenta contra o parafuso com força.
Pouco a pouco a peça foi entrando na madeira. Milímetro... Por... Milímetro... Parou.
Ainda faltava um pouco. Um mínimo... Tecnicamente o parafuso estava afixado, mas ele não gostava daquele pequeno espaço entre a cabeça do parafuso e a madeira. Era mínimo, ele vira, perceptível apenas pelo tato, mas ele queria que ficasse perfeito.
Largou a parafusadeira de lado, e apanhou a chave de fenda. Agachou-se diante do móvel parcialmente montado e virou a cabeça procurando a cabeça do parafuso para posicionar a chave e terminar, manualmente, o serviço.
Ah, não...
O parafuso espanara.
A cruz da cabeça do parafuso convertera-se em um círculo perfeito, redondo como uma pupila, sem nenhum ponto que pudesse servir como apoio para uma chave de qualquer espécie.
Tinha duas opções: Deixar como estava e conformar-se com o fato de que estava bom o suficiente, que o parafuso estava firme, e que dificilmente precisaria desmontar aquele móvel novamente, então sem problema o parafuso ter-se tornado inamovível pela deformação, especialmente porque o parafuso em questão ficaria oculto sob o tampo do móvel, indetectável exceto sob profundo escrutínio... Ou começar a realizar os procedimentos de remoção de parafusos espanados, que, de modo geral, incluía borracha, ou a parte verde de uma esponja, ou um alicate e um bocado de força.
Não conseguiu resistir. Após duas tentativas frustradas com a esponja e uma chave de fenda, apanhou um alicate e forcejou contra o parafuso, removendo-o por inteiro.
Foi até a caixa de ferramentas e encontrou um parafuso mais ou menos do mesmo tamanho do que inutilizara acidentalmente, e substituiu a peça, tomando cuidado, dessa vez, para que a parafusadeira não o arruinasse.
Ao terminar, o suor escorria-lhe pelas costas, testa e peito. Pensou em descansar um momento, talvez fazer uma pausa para o almoço, mas decidiu não. Continuou trabalhando por mais meia hora até concluir a montagem e poder, finalmente, instalar a TV que comprara na black friday.
Evitou pensar no fato de que, entre o rack novo que fora forçado a comprar e a parafusadeira, os quinhentos reais economizados na TV já haviam se diluído em boa parte. Apenas foi tomar banho, lavar roupas, e fazer o almoço.
Não sentiu nenhuma alegria particular enquanto assistia um filme na televisão nova, nem sentiu-se impelido a explorar todos os recursos da coruscante smart TV LED de 43 polegadas.
Não...
Apenas a achou muito clara. E maldisse o fato de que precisou lavar os óculos já que o brilho excessivo da nova tela evidenciava de maneira desconfortável a sujeira, antes imperceptível nas lentes.
Foi enquanto secava os óculos com uma toalha de rosto que deu-se conta de o quanto estava amargurado. E não soube deixar de estar. Nem se queria deixar de estar.
Mas se perguntou por que seria.
As coisas estavam mais calmas, agora. Mais tranquilas. Não havia grandes nuvens negras em seu horizonte. Pelo contrário. As coisas andavam relativamente bem. Tão bem quanto possível, ao menos.
Deu-se conta de que era.
Era saudade.
Saudade dela. De ouvir dela. De saber dela...
Era a abstinência do amor de sua vida que o deixava sorumbático e carrancudo.
Não pensou no ridículo da situação. Não pensou em como era desconfortável estar assim, tão desarmado com relação a alguém. Em como era precária sua situação, para precisar que outrem lhe apontasse o caminho do próprio contento. Porque de alguma forma, era natural que assim fosse. De alguma forma, fazia todo o sentido do mundo.
Talvez, dali a alguns dias soubesse dela. E então... Então veria-se alegre o bastante para brincar com o novo aparelho, experimentar-lhe as funções, ou apenas sorrir satisfeito diante do trabalho quase bem feito na montagem de seu novo móvel.
Sabia que, se tivesse uma palavra dela, assim seria. O sorriso dela era o mapa até o seu próprio.
Assinar:
Postagens (Atom)





