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segunda-feira, 10 de junho de 2019

Resenha Mini-Série: Belas Maldições


De modo geral, Neil Gaiman sempre vale uma espiada. Seja nos quadrinhos, na literatura, no cinema ou na TV.
O Sandman do escritor britânico é uma das obras fundamentais da nona arte, sem entrar em seus best sellers mais óbvios, como Deuses Americanos ou Os Filhos de Anansi, na compilação O Príncipe de Westeros, o conto de Gaiman "Como o Marquês Recuperou seu Casaco" é o melhor do livro, sua interpretação do poema épico Beowulf se transformou em um interessante filme de Robert Zemeckis, e a já citada Deuses Americanos se transformou em uma série com uma primeira temporada espetacular (não vamos falar da segunda).
Foi justamente o nome de Gaiman que despertou meu interesse por Good Omens, no Brasil, Belas Maldições, adaptação televisiva do livro co-escrito por Gaiman e Terry Pratchett em 1990.
À autoria do escritor de 1602, juntaram-se os nomes dos ótimos David Tennant e Michael Sheen como os protagonistas e um estrelado elenco de coadjuvantes contando com gente como John Hamm, Michael McKean, Miranda Richardson, Frances McDormand, Brian Cox, Mireille Enos e Benedict Cumberbatch, além da co-produção da Amazon, que andou tirando do papel filmes e séries bem interessantes nos últimos anos.
Na trama conhecemos o anjo Aziraphale (Sheen) e o demônio Crowley (Tennant), que se conhecem no dia em que Adão e Eva são expulsos do Jardim do Éden e formam uma improvável amizade que se estende por milênios.
Os dois se habituam à vida na Terra e formam uma parceria onde, por conveniência, muitas vezes um dos dois faz o próprio trabalho e o do outro (ou seja, Crowley, por vezes inspira atos de bondade nos mortais, enquanto Aziraphale espalha tentações).
A amizade e a própria existência da dupla, porém, se torna ameaçada quando Crowley é honrado (em grande parte por mentir descaradamente em seus relatórios) com a tarefa de entregar o anti-cristo ao casal de embaixadores norte-americanos que devem criá-lo até que ele tenha idade para dar início ao seu reinado de terror e começar o armageddom, a guerra entre Céu e Inferno que destruirá a Terra.
A questão é que Aziraphale e Crowley se habituaram a viver como mortais na Terra, e não estão dispostos a abandoná-la sem resistir, ainda que discretamente. Quando o estratagema dos dois eventualmente falha por conta de um equívoco das freiras infernais incumbidas de trocar os bebês, porém, Crowley e Aziraphale precisam arregaçar as mangas e sujar as mãos para impedir o fim do modo de vida que aprenderam a amar.
...Ah, sim, e salvar a humanidade, também.
Com seus seis episódios dirigidos por Douglas Mckinnon e roteirizados pelo próprio Gaiman, Belas Maldições sofre com alguma irregularidade.
Se o primeiro episódio, No Começo é excelente, e se encerra deixando gostinho de quero mais, o segundo, O Livro, que introduz Boaf e Acuradas Profefias de Agnes Nutter, Bruxa, compilação de previsões da bruxa Agnes Nutter, sua descendente Anathema Device (a bela morena Adria Arjona), além do caçador de bruxas Não Cometerás Adultério Pulsifer e seu descendente Newton (ambos Jack Whitehall), o Sargento Encontra-Bruxas Shadwell (McKean) e Madame Tracy (Miranda Richarson), mais a cavaleira do apocalipse Guerra (Enos) e mais outros coadjuvantes da série, é excessivamente inchado e deixa claro que a série funciona sempre que Crowley e Aziraphale estão em cena, mas não tanto quando eles não estão.
E isso não é porque os demais atores sejam ruins, há muitos ótimos atores no elenco de apoio, de John Hamm (interpretando uma hilariante versão do arcanjo Gabriel) a Michael Mckean e Mireille Enos, mas a verdade é que esses personagens, primeiro, não ganham o tempo de tela necessário para se desenvolverem e irem além de acessórios do roteiro, e segundo, não têm o carisma de Tennant e Sheen.
No terceiro episódio, Tempos Difíceis, isso fica extremamente claro.
O episódio abre com uma cold opening de quase meia hora mostrando o desenvolvimento da amizade de Aziraphale e Crowley ao longo de milhares de anos, dos tempos do Dilúvio até os anos dias de hoje passando pela Roma antiga, as peças de Shakespeare, a Revolução Francesa e a Segunda Guerra Mundial, e é, de longe, um dos melhores momentos de toda a temporada porque vemos os intérpretes em cena o tempo todo.
O elenco infantil não chega a ser ruim, de forma alguma, mas as crianças são particularmente importantes ao final da trama, e, da mesma forma que outros coadjuvantes (os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por exemplo, que têm visuais muito bem sacados mas são pouco mais que acessórios), teria sido interessante ter descoberto mais a respeito deles, um pouco mais de background e personalidade.
Os efeitos visuais estão longe de serem excelentes, e, muitas vezes, parecem saídos dos episódios de Doctor Who por sua precariedade bem-intencionada, mas estão longe de ser um problema terrível, assim como as mudanças bruscas de tom, que nem sempre favorecem a narrativa, apesar de seus defeitos, porém, Belas Maldições se segura com seus acertos.
O visual de demônios e anjos, as representações do Céu, como um imenso espaço branco decorado de maneira minimalista, e do inferno como uma repartição pública dilapidada, mas, especialmente, em seus protagonistas.
Michael Sheen e David Tennant estão simplesmente perfeitos em seus papéis, e quando chegamos ao final do último episódio, sabemos que a série poderia ter sido melhor com mais episódios, episódios mais longos, ou até uma segunda temporada (A lição de Game of Thrones de que, por vezes, desenvolvimento seria melhor que concisão) fosse para termos tido um insight melhor dos coadjuvantes, fosse apenas para passarmos mais tempo com Crowley, o demônio totalmente descolado com pinta de roqueiro blasé ocultando um bom-coração, e Aziraphale, a epítome do bom-moço com um fraco por vinhos e boa comida.
Apesar de seus percalços, Belas Maldições é um programa maneiro para o final de semana. Um bom exemplar da prosa mais levinha e descompromissada de Neil Gaiman trazida à vida por uma equipe que, se não tinha à mão todos os melhores recursos, fez muito bom uso daqueles de que dispunha.

"-Nós não somos amigos. Eu sou um anjo. Você é um demônio, eu nem gosto de você.
-Você gosta..."

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Resenha Cinema: X-Men: Fênix Negra


Não é de hoje que eu digo que os filmes dos X-Men produzidos pela Fox são vítimas de uma incompreensível má-vontade por parte da audiência, especialmente após o advento do MCU.
Veja, eu entendo que as pessoas prefiram o MCU, realmente entendo. É particularmente bem arquitetado, têm atores e personagens que aprendemos a amar ao longo de inúmeros filmes e é, basicamente, uma coleção de feel good movies de super-herói. Mesmo entre os piores filmes do MCU (E acredite, há alguns que são de amargar numa segunda assistida), é difícil não conseguir encontrar algo de que se gostar, nem que seja o carisma de um único ator (ouviram bem, Homem de Ferro 2 e 3 e Homem-Aranha: Volta ao Lar?).
E eu sou o primeiro a reconhecer que o X-Verso da Fox é extremamente irregular pra se dizer o mínimo. X-Men 3 - O Confronto Final, é horroroso, de três filmes solo do Wolverine, dois não valem a película em que foram filmados e X-Men: Apocalipse é um longa menor na comparação aos seus irmãos oriundos de Primeira Classe. Eu sei. Ainda assim, X-Men: O Filme é uma ótima adaptação, especialmente se contextualizarmos o filme de maneira correta. X-2 ainda é um dos melhores filmes de quadrinhos de seu tempo. Primeira Classe é excelente (e especial, pra mim), Logan é uma pérola, Deadpool e Deadpool 2 são divertidíssimos e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é uma das minhas adaptações de gibi favoritas, então, enquanto fã de cinema e de quadrinhos, sempre foi muito difícil, pra mim, não ver esse ranço para com os filmes como mero mimimi.
E foi por isso que ontem eu me dirigi ao cinema mais próximo da minha casa pra conferir o penúltimo longa da franquia sob a batuta da Fox (eu acho, francamente não sei de Novos Mutantes e nem tenho certeza se o filme será lançado e, quando for, se será pela Fox ou pela Disney...), X-Men: Fênix Negra.
O longa abre com um flashback. É 1975 e os Grey estão fazendo uma viagem de carro, Elaine Grey (Hannah Anderson) dirige ao lado de seu marido John (Scott Shepherd) com Jean, então com oito anos de idade, no banco de trás. Jean, que ainda não controla seus poderes, causa um grave acidente, e após ser liberada do hospital sem nenhum arranhão, é acolhida por Charles Xavier (James McAvoy).
Corta pra 1992.
Um acidente que parece envolver erupções solares coloca toda a tripulação de um ônibus espacial em perigo.
Na Mansão X, Charles Xavier recebe uma ligação em sua linha pessoal com o presidente dos EUA (Ponta de Bryan d'Arcy James, de Spotlight) e envia os X-Men para o resgate.
Liderados por Mística (Jennifer Lawrence) e Fera (Nichola Hoult), a equipe formada por Ciclope (Tye Sheridan), Tempestade (Alexandra Shipp), Mercúrio (Evan Peters), Noturno (Kody Smit-McPhee) e Jean Grey (Sophie Turner) viaja à órbita da Terra para salvar os astronautas.
À revelia das incertezas de Fera e Mística, Charles insiste para que nenhum membro da tripulação da NASA seja deixado para trás, o que faz com que o ônibus espacial seja banhado por uma estranha forma de energia que é absorvida por Jean.
De volta à Terra, os X-Men, agora celebrados pela humanidade como heróis, com direito a pintura facial e figuras de ação, são recepcionados como heróis e tudo parece terrivelmente bem até que Jean começa a sofrer efeitos colaterais de sua exposição à estranha energia no espaço.
Seus poderes começam a aumentar eme escala geométrica e ela passa a ter dificuldade em contê-los. E quando Jean começa a lembrar de eventos de seu passado, e essa estranha energia passa a dominar suas ações fortalecendo suas emoções mais negativas, Jean se torna um perigo para todos ao seu redor, mesmo seus mais antigos amigos.
As coisas apenas se complicam quando os remanescentes dos D'Bari, uma raça alienígena liderada por Vuk (Jessica Chastain) chegam à Terra em busca da energia que Jean hospeda, disposta a tudo para cooptá-la e usá-la para encontrar um novo lar, e a única coisa entre os alienígenas e Jean, são os X-Men, mas após uma tragédia dividir os membros da equipe, a pergunta não é nem se eles conseguirão deter os D'Bari e Jean, mas se irão conseguir colocar suas diferenças de lado para tentar fazê-lo.
Conforme eu disse lá no início, eu sou um habitual defensor dos filmes dos X-Men da Fox, mas não sou cego.
X-Men: Fênix Negra é um longa cheio de boas intenções, e, enquanto tentativa de adaptar um dos mais dramáticos e épicos arcos dos X-Men dos quadrinhos, é infinitamente mais competente do que X-Men 3 havia sido, entretanto fica claro que Simon Kindberg, produtor e co-roteirista de longa data da série se ressente de experiência nessa sua primeira vez como cineasta.
É difícil não imaginar que esse filme poderia ser muito mais interessante nas mãos de um Bryan Singer ou Matthew Vaughn. Parece faltar a Kindberg a malandragem de saber quais ideias desenvolver e quais descartar na hora de contar sua história, e isso pesa contra o filme. Claro, o fato de o longa ter passado por extensas refilmagens para diferenciá-lo de Capitã Marvel não deve ter ajudado, mas o inchaço do filme é flagrante. Kindberg tem tanta dificuldade na hora de decidir onde centrar sua lente que temos uma raça alienígena que mal é apresentada, e uma vilã cujo nome é mencionado apenas uma vez ao longo do filme. Se as pessoas reclamaram da forma como o talento de Oscar Isaac fora desperdiçado em Apocalipse, certamente terão urticária ao ver o que é feito de Jessica Chastain.
Outra questão é a forma arbitrária com que o longa coloca sua trama em movimento. É difícil não ver muitos dos conflitos e contratempos do longa como mera encheção de linguiça ou desculpas para levar a história por um determinado caminho. Eu não tenho nenhum problema com a exploração da faceta mais pragmática e sombria de Charles Xavier, eu inclusive gosto dela porque humaniza um personagem que tem tendência ao messianismo, mas o arco do Fera, por exemplo, é absolutamente incoerente para com tudo o que sabemos sobre o personagem, e a estratégia de Mística na hora de resgatar os astronautas deixa claro que, ou ela é péssima em seu ofício (são apenas trinta segundos para o resgate, e o MERCÚRIO está sentado bem ali atrás! Mas ela envia Jean e Noturno.), ou o roteirista simplesmente não conseguiu pensar em nenhuma boa razão para chegar onde ele queria além de "porque sim".
Apesar de ter alguns bons momentos e atuações sólidas, em especial de James McAvoy e Nicholas Hoult (e um grande esforço de Sophie Turner e Michael Fassbender, que fazem o possível com o material que lhe é dado), o longa jamais empolga. Suas decisões mais acertadas são mal desenvolvidas e acabam soado discretas, enquanto seus piores defeitos se destacam. Não há uma grande mensagem, não há um grande momento, não há uma grande sequência de ação (ainda que a luta no trem blindado seja bem-intencionada), e isso pesa sobre um longa de super-herói que está sendo lançado pouco mais de um mês após Ultimato, mas especialmente sobre o que deveria ser o desfecho de uma franquia que existe há quase vinte anos e uma dúzia de filmes entre os quais há momentos de excelência.
De minha parte, continuo não sendo um detrator dos X-Men da Fox. Entre altos e baixos, continuo achando que a franquia teve filmes melhores do que piores, e há ao menos três longas entre os doze, que figuram entre aqueles que considero algumas das minhas melhores experiências de fanboy no cinema, Fênix Negra não vai nem pro topo e nem para o fundo da lista, é uma experiência medíocre, deslocada no que deveria ter sido o canto do cisne para a série.
Melhor sorte no MCU?

"-Você acha que pode me consertar?
-Você não está quebrada, Jean."

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Te Amar é Difícil


Às vezes é muito difícil te amar.
Muito.
É tarefa digna de figurar entre os Doze Trabalhos.
Porque te amar é amar a figura da perfeição.
E perfeição sempre suscita suspeição.
Tua existência nesse mundo, lamento te informar, é deveras suspeita.
E olhar pra ti, reconhecendo o que tu és, tudo o que tu és, gera dúvida.
É olhar desconfiado de um lado para o outro, pálpebras estreitando a vista em busca de precisão no foco para procurar onde estará a cavilação.
Porque o universo não é generoso. Jamais o é.
Quando o universo te deixa um embrulho de presente à soleira da porta, se pudéssemos ouvir a voz do Universo, ele provavelmente soaria como John Malkovich dizendo "Abre ali...".
É por isso que te amar é difícil.
Mas não é só por isso.
Te amar é ainda mais difícil pra quem te conhece. Pra quem te conhece bem. Porque quem te conhece bem traz consigo a certeza de que tu és merecedora de todas as coisas boas. E quem te ama quer ser agente de todas essas coisas.
Eu sei que eu quero. E não ter certeza de que será possível sê-lo é viver se perguntando "Eu sou bom o suficiente?", sabendo que a resposta, na maioria das vezes, será um peremptório "não". Porque se convive com a sombra perene de que tu vá te dar conta de que pode e merece conseguir alguém melhor.
E é por isso que te amar é difícil.
Mas não é só por isso.
Te amar é ainda mais difícil pra quem te ama apartado. Acredita no que eu digo. Tenho experiência na área. Nem me atrevo a dizer que sou quem possui o mais vasto conhecimento na matéria, sabendo tudo o que tu és, eu não duvido que haja ainda outros desgraçados ainda mais desgraçados do que eu se lamuriando por tua ausência, te vendo dançar ao som de cada melodia. É mais que possível. É terrivelmente provável. Entretanto as experiências de outrem não me dizem respeito. Minha caixa torácica tem espaço para apenas um coração a doer.
Porque dói. Incomoda. Mesmo para quem seja algo insensível. Algo sorumbático e ensimesmado. Quiçá doa mais. Porque não há momento pra extravasar. Ou interesse em partilhar o que se sente com ninguém que não seja a pessoa por quem se sente. Aliás, que nao seja A pessoa por quem se sente, que pra ti, é sempre maiúsculo.
E não te ter acerca pra te amar... Ao alcance de mais de um sentido por vez... É difícil.
É por isso que te amar é difícil.
Mas não é só por isso.
Te amar é difícil porque não requer esforço de qualquer tipo amar alguém como tu.
Não demanda foco, atenção ou sacrifício.
Muito antes pelo contrário. Te amar é consequência natural de te conhecer. Vem quase ao acaso. Quando eu me percebo lá estou eu. Te amando loucamente.
Te amar é difícil porque é inevitável. Te amar é difícil porque te amar é tarefa de tempo integral, queira-se cumprí-la, ou não.
Te amar é difícil porque é demasiado fácil.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Rapidinhas do Capita


Escovando os dentes antes de sair para o trabalho, derrubara sua escova de dentes na privada.
Na hora de sair, ao vestir seu casaco, derrubara um copo com trinta e seis lápis de cor atrás da mesa.
Passara quatro horas estudando sociologia. Tudo. Comte, Marx, Weber, Durkheim, Bordieu... Ficara afiado. Chegara a fazer, ao chegar no trabalho, duas provas antigas disponibilizadas pela professora, e gabaritara ambas. Apenas para abrir sua agenda e descobrir que a prova de logo mais à noite era de filosofia.
Na hora do almoço, ao abrir sua garrafa de seiscentos mililitros de Fanta que dormira no congelador, e, para sua surpresa, não congelara, descobriu que ela havia, de fato, congelado um bocadinho. Apenas o líquido que ficara no gargalo da garrafa. Apenas o suficiente para que ela chiasse e disparasse um spray cor de laranja em suas calças e camisa que ao menos eram pretas, mas ficaram molhadas.
Levara seu laptop para o trabalho para estudar, mas esquecera o cabo de alimentação.
Quando parecia que as coisas não podiam ficar muito piores naquele dia, atendeu uma ligação no meio da tarde.
Era um trote.
De repente, aquele se tornara um dia muito, muito bom.
De repente, aquele se tornara o melhor dia do ano.

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Olhava os chaveiros no display giratório do quiosque num centro comercial que nem sabia que existia na Alberto Bins.
Precisava... Porque era um colecionista obsessivo... De mais três chaveiros para que nenhum puxador de zíper de sua mochila estivesse desprovido. Dois estavam previamente escolhidos, Homem de Ferro e Superman.
Outro estava vago... Ele precisava escolher e não conseguia diante das opções.
O atendente assomou:
-Tem mais aqui, ó. Do Star Wars.
Puxou outro display giratório do outro lado do quiosque e mostrou:
-Tem os soldados... O Darth Vader... O vilão novo... O mestre Yoda... - Dizia, solícito e sem saber o nome dos Stormtroopers ou de Kylo Ren.
-Vou levar esse, disse o cliente, apanhando uma das figurinhas.
-Da princesa? - Perguntou o vendedor, algo surpreso.
-É. - Confirmou.
Enquanto a minha princesa não vem, pensou.

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O universo não está conspirando. Não...
Já passamos desse estágio.
Ele está franca e abertamente de sacanagem.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Resenha DVD: Creed II


Creed - Nascido para Lutar foi um filme muito melhor do que eu poderia ter imaginado, considerando-se que era a sétima sequência de uma franquia que já existia há quarenta anos quando de seu lançamento. Por mais que ele parecesse um filhote ainda mais excessivo de Rocky V, o pior filme da série, com o pugilista vivido por Sylvester Stallone treinando um jovem talento que, casualmente, era filho de seu amigo e arqui-rival Apollo "Doutrinador" (eu continuo em dúvida se esse apelido brilhante foi um erro de tradução do sobrenome do personagem de Carl Weathers ou uma sacada nível supra gênio do tradutor do longa original).
Nas mãos de Ryan Coogler, porém, Creed foi um filmaço que tinha, ao mesmo tempo todos os vícios da série Rocky, do boxe lutado sem guarda às montagens de treinamento, como trazia diversas e bem-vindas pequenas subversões em sua narrativa. O longa era divertido, honrava a franquia de onde fora parido, e tinha toneladas de coração, especialmente nas relações entre seus personagens, com destaque para o romance terno entre Adônis e Bianca, mas especialmente entre o protagonista e seu mentor, Rocky Balboa, vivido por Stallone com um talento que nós frequentemente esquecemos que Sly possui embaixo de seus músculos inchados e de sua cara parcialmente paralisada.
Posto isso, eu francamente achava que Creed era um filme bem fechado em si próprio, de modo que quando ouvi falar dos planos para uma sequência, fiquei um pouco ressabiado. Mais ainda ao descobrir que o filme traria uma luta entre Adônis e Viktor Drago, filho de Ivan Drago, que em 1985 causou a morte de Apollo durante uma luta de exibição em Rocky IV.
Saber que Ryan Coogler, um dos principais responsáveis pelo que funcionara no primeiro filme, ficaria fora da direção, atuando apenas como produtor, não foi lá uma notícia das mais animadoras, pra mim, e essas informações somadas a um trailer que não particularmente inspirado resultaram em minha desistência de ir ao cinema assistir o longa em janeiro.
Sábado, porém, sem nenhum programa divertido no horizonte do meu final de semana, passei na minha locadora preferida (a única ainda viva no Centro de Porto Alegre, provavelmente), e aluguei o filme.
Creed II começa, não com Adônis, mas com Viktor Drago (o boxeador romeno Florian Monteanu, estreando como ator). Viktor leva uma vida dura na Ucrânia, onde vive com seu pai, Ivan (Dolph Lundgren), treinando e lutando ferozmente por seu lugar ao sol.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, sob a tutela de seu amigo e mentor Rocky Balboa (Stallone), Adônis Creed (Michael B. Jordan) chega ao auge de sua vida profissional ao sagrar-se campeão mundial dos pesos-pesados (a despeito de Michael B. Jordan obviamente não pesar 93 quilos).
Ele está realizado em sua carreira de pugilista, e feliz com seu relacionamento com Bianca (Tessa Thompson), com quem planeja se casar. Tudo vai bem para Donnie até que, na esteira de seu sucesso, os Drago desembarcam na Filadélfia trazendo consigo o desafio de Viktor pelo seu cinturão, algo que Ivan vê como a oportunidade perfeita para recuperar a antiga glória que a derrota nas mãos de Rocky, mais de trinta anos atrás, lhe custou.
Imediatamente abalado pelos constantes desafios públicos dos Drago através do promotor de lutas Buddy Marcelle (Russell Hornsby, aproveitando cada cena com gosto), Adônis decide aceitar a luta e colocar seu título em jogo à revelia dos conselhos de Rocky.
durante a luta, Adônis paga o preço, sendo brutalmente punido pelo boxeador ucraniano e mantendo seu título apenas por conta da desclassificação de Drago. Física e moralmente alquebrado, com seu legado e título na balança, Adônis precisa reencontrar seu caminho especialmente após o nascimento de sua filha, Amara, algo que ele só poderá conseguir se, com a ajuda de sua família e amigos, for capaz de vencer seus medos e voltar ao ringue contra o filho do homem que matou seu pai.
Creed II é um bom filme da série Rocky ao mesmo tempo em que é um filme muito, muito inferior ao seu antecessor.
Sofrendo de um mal comum às sequências, o longa confunde ser mais ambicioso com ser maior. Creed II é mais barulhento, grandiloquente, e frequentemente perde o foco do que realmente faz esses filmes funcionarem, o drama de seus protagonistas, apontando seus holofotes na mera auto-referência em forma de fan service.
Por sorte, os personagens criados por Coogler e Stallone são humanos e interessantes o suficiente para que as relações entre eles consigam retomar nossa atenção toda a vez que aparecem na tela.
Isso se dá, especialmente, por causa da qualidade do elenco e da química que eles partilham.
O relacionamento entre Adônis e Bianca, por exemplo, é terrivelmente crível, os dois realmente parecem um casal e estão sempre no centro do filme de uma maneira que segue cândida e doce, sem ser melosa porque não há papéis inerentemente pré-definido em sua mecânica. Bianca frequentemente é prática e durona, Adônis frequentemente é emocional e frágil, e vice e versa.
Stallone transformou o velho Rocky em uma versão suavizada de seu mentor original, o Mickey vivido pelo grande Burgess Meredith. Rocky é infinitamente mais amável do que Mickey, mas igualmente comprometido até a medula para com seu pupilo, sempre disposto a ensinar mais uma lição dentro ou fora do ringue usando um arsenal de escolhas surpreendentemente sutis de Sly.
Phylicia Rashad retorna como May Anne Creed trazendo consigo todo o amor materno do mundo, e Dolph Lundgren vê Drago ser humanizado pelas escolhas do roteiro de Sascha Penn, Cheo Hoday Cocker, Juel Taylor e Stallone, que, em uma ótima sacada, não permitem que os Drago sejam meros vilões, dando-lhes motivações e aspirações verdadeiras e impedindo que o longa se transforme em uma sátira de si próprio.
A despeito desse belo rol de qualidades, a verdade é que Creed II é um filme desnecessário na melhor das hipóteses, que não traz nada de novo à franquia e nem sequer chega a ter uma bela releitura das montagens de treino dos Rocky originais, ou uma forma inventiva de filmar as lutas a exemplo do longa de 2016. A sequência não é um mau filme, mas é certamente inferior à soma de suas partes.
Longe de ser um dos grandes dramas esportivos da história do cinema, Creed II tem seus méritos e ainda é um programa divertido para os fãs de Rocky Balboa.
Vale a locação.

"-Ele é só um homem. Seja mais homem do que ele."

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Todo o Lugar, Todo o Momento


-Das palavras, as mais simples, das mais simples, a mais curta. - Disse o professor, citando Winston Churchill durante a aula de revisão pré-prova.
Ele reconheceu a citação.
Era um fã declarado de Churchill, mesmo que nem sempre concordasse com o mestre da retórica. Lembrou-se de como fora forçado a tergiversar de maneira descarada para encher três laudas traçando comparativos entre o modelo de educação jesuíta e a Base Nacional Comum Curricular para um relatório, não fazia duas semanas.
De imediato lembrou-se dela, lhe suplicando que não tivesse dormido lendo a respeito dos Jesuítas uma noite após ele ter feito justamente isso: Pegado no sono lendo artigos a respeito do Ratio Studiorum para seu trabalho de História da Educação.
Sorriu. Lembrar dela sempre colocava um sorriso em seu rosto. E quase tudo o fazia lembrar dela. Ele se lembrava dela até fazendo coisas que jamais haviam feito juntos.
Naquela mesma manhã sorrira ao jogar a mochila sobre o ombro pensando no momento em que sairia para o trabalho após beijá-la nos lábios macios e dizer "até mais tarde, amor da minha vida", com a certeza de que realmente se veriam ao final do expediente...
Não havia paralelo para o tamanho do peso da ausência daquela criatura delicada em seus dia, exceto pelo peso da sugestão de sua presença em seus dias vindouros.
Não havia nada que lhe fosse dito que não o fizesse lembrar dela e sorrir.
Não havia nada que visse, que não o fizesse pensar nela e sorrir.
Não havia nada fizesse, que não quisesse fazer com ela e sorrir.
Se assistia a um filme, de imediato sorria e via-se sentado lado a lado com ela no cinema, a mão apoiada em sua coxa, as narinas invadidas por seu cheiro doce... Se ouvia uma música, havia duas alternativas: Ou encontrava alusões a ela na letra, ou a imaginava dançando... Ou as duas coisas como naquela manhã em que ouvira You Can Leave Your Hat On de Joe Cocker, e sorriu pois como na letra, ela lhe dava uma razão para viver, e ele não conseguiu não imaginá-la serpenteando e tirando a cinta-liga bem devagarinho... Almoçava imaginando-se dividindo a mesa com ela, não um de cada lado, se encarando para conversar como duas pessoas comuns, mas ambos do mesmo lado da mesa, para ele poder tocá-la e beijá-la a qualquer minuto da refeição... Trabalhava sendo assaltado por sua memória toda a vez que sentia um cheiro que pudesse ser confundido com uma iguaria doce, apenas para imediatamente sorrir ao dar-se conta de que não havia no mundo iguaria doce como o beijo dela... Voltava para casa no final das tardes imaginando-se voltando pra ela. Imaginando-se chegando em casa e escorando-se ao lado dela, sapecando-lhe beijos e conversando antes de tomar banho para dividirem a noite um com o outro, fosse assistindo televisão, lendo, jogando videogame ou apenas sentados aninhados um no outro para que ele apenas provasse para si mesmo que aquele não era mais um dos sonhos que ele frequentemente sonhava onde estava com ela.
Quando a campainha soou, porém, ele foi sacado de suas elucubrações e seu sorriso se desmanchou. Guardou seu caderno e sua caneta na mochila, e começava a se levantar quando o professor bradou suas últimas recomendações:
-Estudem, façam os simulados online, leiam e escrevam bem, como alunos de academia! De ensino superior! Nossa língua merece repeito! Não esqueçam: Façam bom uso da língua!
Sorriu sozinho de novo.
Subitamente só conseguia pensar em um uso para sua língua.

Resenha DVD: Vidro


Corpo Fechado é, de longe, meu filme favorito do diretor M. Night Shyamalan, e Fragmentado, foi provavelmente o melhor filme dele desde... Bem... Corpo Fechado... Apesar de eu gostar bastante de Sinais. De modo que eu não tenho, de fato, nenhuma desculpa para não ter ido assistir ao filme no cinema além de preguiça e antipatia pura, gratuita e injustificada por Sarah Paulson. que meio que dominava os trailers do longa, primeira sequência de fato e de direito da carreira do cineasta que, durante um bom tempo, deteve a "honraria" de ser o único diretor cuja filmografia inteira, eu vira no cinema (isso durou apenas até Fim dos Tempos, que, eu mantenho, não acho tão ruim quanto falam.).
Primeira sequência "de fato", porque é apenas na última cena do longa estrelado por James McAvoy e Annia Taylor-Joy que descobrimos que Fragmentado se desenrola no mesmo universo de Corpo Fechado, filme estrelado por Bruce Willis na esteira do sucesso de O Sexto Sentido no ano 2000. Quando Vidro começa, não demora a percebermos que estamos no mesmo universo daqueles dois filmes, e nem para nos darmos conta de que Vidro é muito mais uma sequência de Fragmentado, do que do filme sobre David Dunn.
De cara estamos junto com Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), ou alguma de suas múltiplas personalidades. Kevin é um caso único na história do transtorno de personalidade dissociativa, com 24 personalidades coexistindo em seu corpo após abusos na infância, 25 se considerarmos a Besta, último alter ego de Crumb a ver a luz do dia, um monstro canibal capaz de sobrar barras de aço, escalar paredes de concreto e suportar disparos de espingarda à queima-roupa. Após os eventos de Fragmentado Kevin e A Horda, a união de suas personalidades dispostas a adorar a Besta estão à solta na cidade da Filadélfia, e prestes a realizar um novo sacrifício para a criatura que se auto intitula o protetor dos defeituosos e desajustados.
Mas A Horda não tem, nesse momento, a mesma vida fácil do seu filme solo.
David Dunn (Bruce Willis), o ex-vigilante de estádio indestrutível agora toca uma loja de equipamentos de segurança com seu filho Joseph (Spencer Treat Clark, retornando ao papel de dezenove anos atrás), uma atividade que divide com uma carreira paralela de super-herói. Conhecido pela mídia como "O Supervisor", David vem agindo nas sombras para proteger os inocentes há quase duas décadas, e está a par das atividades da Horda, e tem a Besta em seu radar.
É ainda no primeiro ato do filme que David encontra o cativeiro onde A Horda mantém quatro jovens como reféns e confronta a persona bestial de Kevin. A luta (mal coreografada como costumam ser as sequências de ação dos filmes de Shyamalan) termina com os dois homens caindo nas mãos da doutora Ellie Staple (Paulson), uma psiquiatra especializada em uma forma muito particular de psicose: A crença de ser um super-herói.
Os dois são enclausurados no hospital psiquiátrico Raven Hill, onde serão submetidos a uma intensa terapia que visa curá-los de sua obsessão, mas outro interno do hospital, Elijah Price (Samuel L. Jackson), também conhecido como Sr. Vidro, tem outros planos.
Vidro é a sequência de um filme excelente e outro ótimo, tem uma premissa muito boa, mas é executado de maneira pobre.
Não me entenda mal, não há nada de intrinsecamente ruim no longa de Shyamalan não fosse justamente seu potencial para ser tão, tão, tão melhor do que ele de fato é.
Veja, quando o longa começa, o espectador já tem conhecimento de que David Dunn tem força sobre-humana, invulnerabilidade, e a capacidade de identificar criminosos através do toque. Também já sabemos que a Besta é à prova de balas e forte o bastante para escalar paredes cravando os dedos no concreto. E ainda assim, passamos uma hora ouvindo a personagem de Sarah Paulson tentando convencer Dunn e Crumb de que eles são homens normais, e, pior de tudo, conseguindo fazê-los duvidar das habilidades que moldaram os filmes solo de cada um.
O fato de Shyamalan passar mais de uma hora nessa toada, com Staple dando inúmeras variações do mesmo discurso enquanto vemos Crumb ser bombardeado com flashes que o fazem alternar entre suas personalidades múltiplas e Bruce Willis em mais uma atuação estilo piloto-automático, não chega a ajudar, tampouco o fato de o hospital Raven Hill ser provavelmente o hospital psiquiátrico mais sem-graça da história do cinema, ou a obsessão de Shyamalan em nos mostrar flashbacks dos filmes anteriores ao invés de desenvolver a história desse longa.
E há um porquê para isso:
O fato de que Shyamalan retoma, em Vidro, a insistência com os finais surpresa.
É difícil assistir ao desfecho de Vidro, e não imaginar que ele escreveu o resto do filme com aquilo em mente e ficou enchendo linguiça com jargão psiquiátrico e quadrinístico entre o prólogo e o terceiro ato de maneira despropositada até chegar onde gostaria. E aí, surge o maior problema de Vidro:
Seu final impossivelmente anti-climático.
Se houvesse uma conclusão épica para a história, talvez fôssemos capazes de perdoar mais facilmente o ritmo devagar, quase parando do (não) desenvolvimento da trama, e nem sequer me refiro ao grande confronto que acontece no fim do filme, novamente, uma cena de ação que se ressente da mão tenebrosa de Shyamalan para ação, e de uma edição confusa, com personagens aparecendo e desaparecendo de cena, mas à qualidade duvidosa de suas revelações.
Enquanto assistia Vidro, eu consegui me divertir graças à ambição que o filme demonstrava em determinados momentos. Há lampejos de qualidade em Vidro, que se comparam aos grandes momentos de Fragmentado, e de Corpo Fechado, geralmente os protagonizados por McAvoy, que segue entregando tudo o que havíamos visto no longa anterior, e mais (infelizmente com menos parceria, já que Anya Taylor-Joy é relegada à quase figuração) e a Spencer Treat Clark, que mantém muito de sua atuação mirim de anos atrás em sua versão adulta de Joseph.
É é pena que esses lampejos sejam raros, e aparentemente involuntários. Vidro consegue ser moroso e anti-climático, sem ser absolutamente ruim, seu maior inimigo é que, pelo universo em que transcorre, e pelas ideias que apresentava, é um produto final muito menor do que poderia ter sido, e isso, talvez, seja a pior coisa que pode acontecer a um filme.

"-Essa era uma história de origem o tempo todo."