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terça-feira, 15 de outubro de 2019

Resenha DVD: Dumbo


Remakes live action ou "live action" de animações clássicas... Talvez a onda mais irritante do cinema recente (a menos que tu seja Martin Scorsese, nesse caso a onda mais irritante seriam os filmes da Marvel), e, pior, uma onda extremamente lucrativa como podem atestar os bilionários O Rei Leão, Aladdin, A Bela e a Fera e, o longa que, até onde eu me lembro (mas posso estar errado) meio que começou essa onda revisionista quase dez anos atrás: Alice no País das Maravilhas, do mesmo Tim Burton que nesse ano transformou o longa animado Dumbo, de 1941 em uma nova versão de si mesmo para novas (e mais lucrativas) gerações...
O Dumbo de Burton abre nos mostrando o Circo dos Irmãos Médici chegando à uma cidadezinha da Flórida. O ano é 1919 e a Primeira Guerra Mundial terminou, o que está trazendo Holt Ferrier (Colin Farrell) de volta pra casa.
Após lutar na Europa, Holt retorna às suas famílias, tanto à família do circo, onde se apresentava como cavaleiro, quanto à sua família de sangue, reduzida a seus dois filhos Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins) após a morte da mãe das crianças enquanto ele esteve no fronte.
Como desgraça pouca é bobagem, Holt retornou mutilado, após perder o braço esquerdo em combate, e descobre que seu chefe, Max Médici (Danny DeVito,), vendeu seus cavalos para manter as finanças em dia por mais algum tempo, e que a única posição disponível para o ex-caubói no momento é no trato dos elefantes.
Médici inclusive está orgulhoso por ter comprado Sra. Jumbo, uma elefanta asiática prenha que está prestes a dar à luz, o que deixará o circo de posse de um adorável filhote de elefante para atrair as crianças e famílias nas cidades por onde passarem no futuro próximo. Não tarda para que a Sra. Jumbo tenha seu filhote, um bebê elefante com expressivos olhos azuis e orelhas exageradamente grandes que imediatamente o tornam motivo de chacota por sua aparência incomum.
As únicas pessoas que partem para a proteção do mais novo membro da família circense são os filhos de Holt. A aspirante a cientista Milly e o aspirante a cavaleiro Joe fazem tudo em seu poder para proteger Sra. Jumbo e seu filhote, mas infelizmente não há nada que os pimpolhos possam fazer para evitar que um terrível incidente aconteça e a pobre mãe seja separada de Dumbo, como o filhote passa a ser chamado por causa de suas orelhas.
Tentando consolar Dumbo, eventualmente Milly e Joe descobrem que ele é capaz de voar quando aspira uma pluma batendo suas grandes orelhas como se fossem asas, e imediatamente o paquiderme voador se torna a maior atração do Circo dos Irmãos Médici, que lota espetáculo após espetáculo atraindo a atenção do magnata do entretenimento V. A. Vandevere (Michael Keaton), que surge às portas da tenda de Max com uma proposta irrecusável:
Incorporar os números de Médici ao seu colossal circo/parque temático, Vandevere Dreamland, garantindo posições para todos os membros da trupe de Max em sua monstruosamente bem sucedida atração em Coney Island, onde ele deseja dar a Dumbo o co-estrelato no número da bela trapezista Colette Marchand (Eva Green), mas nem tudo nesse negócio da China é exatamente o que parece...
É engraçado como Dumbo tem tantos elementos que nos levam de volta aos melhores momentos de Tim Burton como cineasta, tal qual as presenças de Michael Keaton e Danny DeVito, seus colaboradores frequentes de longas como Batman: O Retorno, Os Fantasmas se Divertem e Peixe Grande (ainda o melhor filme de Burton, na minha opinião), os gloriosos desenhos de produção de Rick Heinrich, os figurinos de Colleen Atwood e a trilha de Danny Elfman (que provavelmente pensava que nós havíamos esquecido a partitura de Edward Mãos de Tesoura...), e ainda assim, provavelmente vai figurar entre os longas menos memoráveis da carreira do diretor, porque Dumbo é todo boas idias que não se confirmam.
Tudo no longa parece estar sempre um passo aquém do que deveria para tornar o filme aquilo que ele aspirava ser, e o roteiro de Ehren Kruger possivelmente é o grande culpado por isso.
O escritor que tem três Transformers e a versão norte-americana de Ghost in the Shell no currículo encheu o filme de protagonistas humanos para esticar os sessenta e quatro minutos do longa animado, mas esqueceu de lhes desenvolver além de arquétipos interessantes, como o ex-soldado mutilado que não sabe se conectar com os filhos, a menina que deseja ser uma cientista ou a artista de circo que deseja ser mais do que um acessório, o que deixa todos os atores deslocados em cena, especialmente Ferrell e Keaton, que realmente não sabem o que fazer com seus personagens, desperdiçando totalmente um elenco talentoso (que inclui ainda Roshan Seth, de Indiana Jones e o Templo da Perdição e uma ponta absolutamente despropositada do ótimo Alan Arkin).
isso somado à uma narrativa mal-ajambrada, que nunca emociona, assombra ou diverte como poderia, tornam a experiência quase estéril, ou, trocando em miúdos:
Se um rematado chorão como eu não se desmancha em lágrimas vendo as trombas entrelaçadas de uma mãe e um bebê elefante quando eles estão sendo separados, é porque o filme simplesmente não funciona.
Assista se for um fã hardcore de Burton, outrossim, espere passar na TV a cabo.

"-Voe, Dumbo... Voe."

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Resenha Filme: El Camino: Um Filme Breaking Bad


Eu não assisti Breaking Bad durante a exibição da série, que transcorreu entre os anos de 2008 e 2013, mas apenas em 2015.
Em um encontro fortuito com o amor da minha vida num ensolarado e frio sábado de tarde na rua João Alfredo em Porto Alegre, falando sobre seriados após me render tardiamente ao Netflix por conta de Demolidor, comentei que estava me preparando para ver Better Call Saul, e a morena cheirosa que era a minha interlocutora me disse que, antes de ver o spin-off sobre o advogado trambiqueiro, eu precisava ver Breaking Bad, e eu acolhi o conselho e, em cerca de um mês assisti a saga de Walter White e Jesse Pinkman no mundo do crime antes de ver um único capítulo das aventuras de Jimmy McGill e Mike Ehrmantraut.
Não preciso dizer que Breaking Bad se tornou uma de minhas séries favoritas em todos os tempos, que devorei temporadas inteiras em um dia, escolhi personagens a quem odiar (Skyler White, claro, Tuco Salamanca, Todd e toda a gangue de neonazistas...), e favoritos (Walter, é óbvio, Mike, Saul, Hank, que também merecia seu próprio programa...) por quem torcer, Jesse, porém, jamais foi um desses favoritos.
Eu jamais tive paciência com Jesse e suas constantes crises de consciência ou a maneira como ele, que era o criminoso original da dupla com Walter, parecia ser covarde demais para levar a ideia de um império adiante junto com Heisenberg, e era, na pior tradição da prostituta que se apaixona, tanto um traficante quanto um viciado, além de um delator... Tudo isso sempre me manteve algo apartado do personagem, e relativamente alheio à sofrência que eventualmente se tornou seu traço mais marcante...
Claro, minha impaciência com Jesse não significa que eu não tenha me compadecido do destino do personagem na temporada final da série e tampouco que eu não tenha ficado ansioso por El Camino assim que o longa foi oficialmente anunciado.
Na sexta à noite, moído de cansado, eu me sentei com algumas guloseimas na frente da TV à noite e assisti El Camino: Um Filme Breaking Bad.
O longa abre com um flashback, quando Jesse (Aaron Paul) e Mike (Jonathan Banks) conversavam sobre planos de aposentadoria à beira de um córrego, "Para onde você iria recomeçar se tivesse minha idade?", Jesse pergunta. "Alasca", Mike responde, quando um corte abrupto nos leva de volta para os momentos após Walter resgatar seu ex-protegido do cativeiro e ele escapar do complexo onde ficara aprisionado por meses no El Camino de Todd (Jesse Plemons).
A catarse da libertação, igual àquela que víramos em Felina, porém, dura pouco. Imediatamente Jesse precisa manobrar e se esconder na entrada de uma casa qualquer para se ocultar do comboio policial que se aproxima, atraído pelo caos provocado pelo último ato de desafio de Heisenberg.
Pelos próximos cento e vinte minutos, nós acompanhamos Jesse Pinkman em sua luta para realizar o sonho de chegar ao Alasca enquanto foge da polícia e de novos inimigos contando com a ajuda dos amigos que sobreviveram ao reinado de Walter White para fazê-lo, lutando para deixar Albuquerque para trás ao mesmo tempo em que é assombrado pelo trauma de seu período cativo.
El Camino: Um Filme Breaking Bad é ótimo.
Mas não se engane. Ele não é um filme para uma audiência mais ampla. O longa não leva ninguém pela mão e é, sim, feito para ser assistido logo após Felina (Ainda que, de alguma forma, seja bom que ele não tenha sido lançado seis meses após o fim da série, no que teria parecido um movimento meio barato dos envolvidos), e servir de epílogo ao seriado em geral, e a Jesse Pinkman em particular, talvez o personagem que mais sofreu as consequências dos próprios atos e vícios ao longo da série original, saindo da teia de manipulações de Walter e finalmente assumindo o volante do próprio destino e escolhendo seu próprio caminho (sacaram o título?).
O fato de Breaking Bad sempre ter sido um seriado extremamente cinematográfico faz com que a transição para o novo formato não seja traumática como poderia ser para conteúdo de outras séries. Vince Gilligan, o diretor e roteirista do longa, manja do riscado, e consegue contar sua história no formato de longa metragem com a mesma desenvoltura que vimos em Breaking Bad e Better Call Saul, dando-se ao luxo até de fazer pequenas extravagâncias visuais.
No que tange às atuações, o longa pertence a Aaron Paul, um ator que foi indicado ao Emmy cinco vezes durante Breaking Bad (com três vitórias, mais uma indicação ao Globo de Ouro) e que jamais encontrou outro papel que lhe oferecesse as mesmas oportunidades dramáticas que Jesse Pinkman. Ele está ótimo em El Camino, capturando todas as nuances do trauma que seu personagem sofreu durante seu período cativo, que revisitamos em diversos flashbacks, incluindo um bastante extenso com Todd (uma criação tão genial de Jesse Plemons que meu primeiro impulso segue sendo odiar o ator toda a vez que a cara bolachuda dele aparece em um filme), que é a mola propulsora da trama, além da carência de Jesse, que passou toda a duração do seriado procurando, sem sucesso, um modelo de comportamento, mas parece finalmente ter crescido além das roupas de adolescente, do bordão famoso e da sombra de seu ex-professor.
Uma das maneiras que El Camino escolhe para mostrar isso é através do paralelo entre Jesse e Walter. Enquanto Heisenberg terminou seu reinado de crime tão isolado que precisava ocultar a origem do dinheiro que deixara para a esposa e os filhos, forçado a pagar ou ameaçar estranhos para obter auxílio, Jesse imediatamente reencontra amigos que estão lá para a ajudá-lo não importa o risco, como Skinny (Charles Baker) e Badger (Matt Jones). Até Joe (Larry Hankin), o dono do ferro-velho parece disposto a ajudar Jesse apenas por simpatizar com ele de alguma forma. Enquanto o sofrimento e as consequências de ações mal pensadas levaram Walter de bom homem a criminoso, Jesse fez o caminho oposto, e El Camino é o trecho final de sua jornada, e que belo trecho.
Absolutamente obrigatório para fãs de Breaking Bad, um excelente pretexto para aqueles que ainda não viram a série começarem, El Camino está disponível no catálogo da Netflix desde sexta-feira.
Assista.

"-Alasca... Começar de novo. Começar do zero.
-É possível.
-Acertar as coisas.
-Não. Lamento, garoto. Isso é a única coisa que você jamais poderá fazer."

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Resenha Filme: Rocketman


Do ano passado pra cá as salas de cinema foram inundadas por longas que se galgavam na música de heróis do rock'n roll para narrar sua história, começando com o (talvez excessivamente) laureado Bohemian Rhapsody, cinebiografia de Freddie Mercury que levou quatro oscars pra casa na cerimônia de fevereiro, passando por Yesterday, cuja premissa perguntava como seria um mundo sem as canções dos Beatles e A Música da Minha Vida, que embalava a jornada de crescimento de seu protagonista com canções de Bruce Springsteen, antes dos dois últimos, porém, houve outra cinebiografia que eu acabei não indo assistir nos cinemas: Este Rocketman, contando a história de Elton John, que estreou em maio, e que eu não lembro ao certo por que não fui ver.
Sem nada para assistir em um domingo particularmente tristonho, após não ter conseguido dar um pulo na locadora no sábado, resolvi vasculhar o catálogo de aluguel digital do Google Play em busca de uma opção, e optei por fazer justiça a sir Elton por ter-lhe sonegado minha audiência na sala escura meses antes.
Rocketman abre com Elton John (Taron Egerton) chegando à uma sessão de terapia em grupo em uma clínica de desintoxicação usando em sua totalidade um de seus extravagantes trajes de palco, e assumindo imediatamente que é um alcoólatra viciado em cocaína, em sexo e um comprador compulsivo que também tem problemas com maconha, pílulas e controle de raiva.
Dali nós somos imediatamente levados pela mão até a infância de Reginald Dwight (primeiro Matthew Illesley, depois Kit Connor), um jovem prodígio do piano criado por uma avó amorosa (Gemma Jones, da franquia Bridget Jones), uma mãe promíscua (Bryce Dallas Howard, a mulher de Hollywood que mais intercala entre gostosa e gorducha) e um pai ausente (Steven Mackintosh) que ao longo dos anos vai descobrindo na música uma maneira de deixar de ser quem nasceu para ser e se tornar quem quer ser.
Vemos como ele inicia sua carreira musical tocando piano na banda de apoio de um grupo de soul norte-americano em turnê pela grã-bretanha, o desenvolvimento de seu nome artístico (parcialmente roubado de um colega de banda, parcialmente emprestado de John Lennon), e como ele finalmente dá o primeiro passo rumo ao sucesso quando, no final dos anos 1960, conhece Bernie Taupin (um ótimo Jamie Bell) com quem formaria uma longeva e prolífica parceria que renderia os maiores sucessos de sua carreira, e cujas letras o levariam a Los Angeles, onde na boate Troubadour, ele faria a apresentação que o colocaria no mapa do estrelato, além de fazê-lo cruzar o caminho de John Reid (o Rob Stark Richard Madden), que eventualmente se tornaria seu empresário e um abusivo parceiro que estaria ao seu lado quando ele de fato mergulhasse de cabeça em uma vida de excessos que se estenderia pelos anos vindouros.
É difícil não comparar Rocketman com Bohemian Rhapsody. Além de os dois filmes serem a respeito de músicos britânicos extremamente talentosos, extravagantes, homossexuais que criaram hits mais ou menos na mesma época e que se reinventaram para deixar sua existência mundana para trás e se tornarem ícones, os dois longas tem a mão do diretor Dexter Fletcher (que antes de dirigir Rocketman completou Bohemian Rhapsody após a demissão de Bryan Singer) e seguem algo como uma cartilha de filmes biográficos que, se de nenhuma forma estragam a diversão de quem assiste, certamente tornam a coisa toda um pouco previsível.
Nesse sentido, Rocketman leva uma vantagem que é a maneira onírica como o roteiro de Lee Hall integra as canções à narrativa, dando ao filme uma cara de musical das antigas, com os personagens de repente começando a cantar em meio às cenas. Um expediente que funciona melhor em alguns momentos do que em outros. A cena com a família disfuncional do pequeno Reggie Dwight cantando na casa onde o jovem cresceu não é das mais inspiradas, entretanto o momento em que Bernie Taupin se despede de Elton cantando Goodbye Yellow Brick Road é realmente tocante e toda a montagem que vai da tentativa de suicídio na piscina ao palco durante Rocketman é sensacional.
A despeito do envolvimento direto de Elton John (ou talvez por causa dele) Rocketman é bem menos pia do que outras cinebiografias. O longa é frequentemente mais desbocado e aberto no que tange aos vícios e predileções de seu protagonista (a cena de sexo entre Egerton e Madden, que nada tem de pornográfica, por exemplo, fez o longa ser banido dos cinemas de alguns países), o que oferece ao filme um nível de autenticidade maior do que o que estamos habituados a ver em outros retratos de biografados vivos, mas não o impede de cair em algumas armadilhas recorrentes do gênero. Há um excesso de exposição para as resoluções do longa, a necessidade de explicar à audiência o que estamos vendo (como a sugestão de que muito da extravagância de Elton John são uma manifestação da vontade de ser notado por seus pais ausentes, e seu abuso de substâncias uma forma de lidar com a ausência de amor verdadeiro em sua vida, o que, sim, é bastante plausível, mas é quase esfregado na cara da audiência).
E, a exemplo de Bohemian Rhapsody, muito da potência do longa está tanto em sua partitura de hits, quanto na presença de seu protagonista.
Taron Egerton crava os dentes na criação de um retrato vivo e emocional de Elton John, interpretando com garbo e sutileza uma pessoa de verdade e não o pavão de lantejoulas que víamos no palco. Ele exprime com galhardia uma série de pensamentos e sentimentos de maneira muito mais comedida do que o script do longa faz, além de cantar as próprias canções sem jamais precisar imitar o biografado.
Grande parte do que funciona em Rocketman é graças aos esforços de Egerton e sua dedicação ao papel, além de sua química com Jamie Bell e Richard Madden, esse tripé de atores mantém a cabeça do longa fora d'água em seus momentos menos inspirados, e o eleva mais alto em suas melhores sequências.
Rocketman ainda valeria uma espiada nem que fosse pela playlist cheia de clássicos de Elton John que são impossíveis de não cantarolar junto (pra mim é Tiny Dancer, que sempre me faz lembrar de uma pequena morena que eu nunca vi dançar), mas há mais na cinebiografia do que apenas isso. Uma bela direção, produção caprichada, alguns bons números musicais, e atuações acima da média de um elenco que ainda inclui Charlie Rowe, Tate Donovan e Stephen Graham que garantem que Rocketman esteja do lado certo das cinebiografias em geral, nas cabeças das cinebiografias musicais em particular.
Definitivamente vale os R$9,90 da locação digital.

"-Eu tenho o álbum número um nos EUA, de novo, estou prestes a embarcar na turnê mais rentável da história do rock, sou pessoalmente responsável por 5% de todas as vendas de discos do planeta inteiro e tenho o maior adereço de cabeça conhecido pelo Homem, então, sim. Eu acho que estou bem!"

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Resenha Cinema: Coringa


Quando fiquei sabendo que um filme solo do Coringa estava em desenvolvimento, meu primeiro pensamento foi que essa era uma ideia imbecil. Estava na mesma esfera de bobagens caça-niqueis como Venom, Morbius, ou um filme do Sexteto Sinistro, e me parecia ainda pior pois ao contrário da Sony, que detém apenas os direitos do Homem-Aranha para tentar criar um universo de filmes de gibis, a Warner e a DC Comics estão sob o mesmo guarda-chuva corporativo da AT&T de modo que o estúdio tem total liberdade para fazer todos os filmes de super-heróis que quiser sem precisar apelar a tal expediente. Entretanto, quase imediatamente me ocorreu que as melhores histórias da DC são as de seu selo Túnel do Tempo (Elseworlds, originalmente), e eu pensei que, se havia um vilão que merecia seu próprio filme, esse vilão era o príncipe palhaço do crime, um personagem que historicamente não tem uma origem oficial e que segue aberto a interpretações após quase oitenta anos desde sua primeira aparição.
Quando Joaquin Phoenix foi confirmado no papel principal as coisas deram um tremendo passo na direção certa, e o primeiro trailer do filme, em abril, tornou Coringa o projeto mais promissor da DC em muito tempo.
Ontem eu peguei uma sessão de pré-estréia em um horário bem razoável no cinema mais perto de casa e conferi o longa de Todd Phillips.
No filme conhecemos Arthur Fleck (Phoenix, excepcional), um sujeito frágil, solitário e triste que sofre de uma condição neurológica que o faz reagir ao estresse com gargalhadas incontroláveis. Ele vive com sua mãe (Frances Conroy) em um apartamento modesto em um prédio caindo aos pedaços na parte ruim de Gotham City, tem um emprego miserável como palhaço de aluguel e sonha em fazer uma carreira como comediante de stand-up quase tanto quanto sonha com uma figura paterna em sua vida.
Arthur se consulta periodicamente com uma psiquiatra que não lhe dá ouvidos, toma sete medicamentos diferentes que não aplacam seu sofrimento e só não é totalmente invisível porque parece atrair valentões que o veem como um alvo fácil onde exercitar sua covardia ou descontar suas frustrações.
Após anos sendo enxovalhado tanto pelas pessoas a seu redor quanto pelo sistema no qual está inserido, Arthur finalmente reage a uma agressão, e algo estala dentro dele, dando início a um processo que transformará esse homem alquebrado em algo novo e terrível. Algo tão grande que vai muito além de Arthur e se espalha pela cidade decadente onde ele vive como um rastilho de pólvora que dará ao mundo um de seus mais fascinantes monstros.
É fácil entender a dificuldade que a crítica especializada tem tido em categorizar Coringa. Dos oito minutos de ovação e do Leão de Ouro no Festival de Veneza aos cinemas que se recusam a exibir o longa nos EUA, Coringa é um filme difícil de digerir para a nossa sociedade contemporânea.
Os liberais irão se contrair frente à "masculinidade tóxica" de um homem branco abraçando com entusiasmo a brutalidade e a violência. Os conservadores irão apertar os esfíncteres frente à mensagem revolucionária de caça aos privilegiados que o protagonista dispara conforme se aprofunda em sua jornada rumo ao papel de ícone do crime e do terror. Ninguém fica confortável ao assistir Coringa e ninguém deveria.
Não é a ideia.
O longa co-escrito por Scott Silver e Todd Phillips é menos entretenimento baseado em quadrinhos e mais um estudo de personagem. Uma análise do que seria necessário para transformar uma pessoa comum em um monstro. Não é uma jornada fácil de acompanhar. Especialmente quando Phillips transforma Gotham City em uma Nova York dos anos 1970 que grita Táxi Driver, Desejo de Matar e Serpico com uma ambientação decadente e opressiva que serve de casulo para a metamorfose de Arthur.
O ato derradeiro do filme, quando Arthur Fleck realmente abraça a persona homicida do Coringa em toda a sua glória é particularmente medonho e brutal de uma maneira catártica de todas as formas erradas almejadas pela natureza humana.
Sim. É algo pretensioso.
Mas não há nada de particularmente ofensivo em um pouco de pretensão artística. RoboCop seria o filme que é se Paul Verhoeven não visse o longa sobre o policial ciborgue como uma analogia a Jesus Cristo?
Todd Phillips acerta muito mais do que erra na condução da história, e a forma como a audiência no cinema frequentemente ria em cenas que não tinham intenção alguma de ser engraçadas é testemunho do acerto do diretor de Se Beber Não Case e Um Parto de Viagem em narrar a história de Arthur Fleck de uma maneira propositadamente desconfortável.
Outro acerto capital do filme é a atuação de Phoenix.
O ator, esquálido para o papel, cria uma série de tiques e contorções que inicialmente fazem lembrar de seu papel em O Mestre, mas logo ganham uma identidade própria. A maneira como ele desata a rir quase em desespero toda a vez que é confrontado no começo do filme tornam seu Coringa, que ao invés da tradicional gargalhada exercita seu êxtase com passos de dança quase hipnóticos, diferente de todos os demais, mas o ator vai além da mera construção física. Há profundidade emocional em seu Coringa. Ele é menos um agente do caos do que alguém procurando um lugar no mundo e disposto a abraçar qualquer forma de notoriedade que lhe garanta atenção. Ele é uma bomba relógio trágica trazida à vida com galhardia por um ator no auge da forma.
O restante do elenco, que conta com Robert De Niro como o apresentador de talk show Murray Franklin, a bela Zazie Beetz como Sophie, a vizinha por quem Arthur nutre uma paixonite, mais Brett Cullen como o aspirante a prefeito Thomas Wayne além de Glenn Fleshler, Leigh Gill, Shea Whigham e Bill Camp seguram a peteca, mas têm pouco o que fazer além de orbitar Phoenix, que alicerça o longa com tremenda segurança e competência.
Somando-se a óbvia paixão de Phillips pelo projeto ao comprometimento de Phoenix e o valor de produção esperado para uma produção de um grande estúdio, Coringa é um excelente filme que jamais se envergonha de suas origens (a cena durante o talk show alude descaradamente a O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, e Phillips não se furta de nos mostrar novamente uma das cenas mais revisitadas da história das adaptações de quadrinhos), mas as referencia dentro do próprio contexto, em seu próprio tempo e em sua própria abordagem.
É bem possível que fãs de quadrinhos em geral, do Batman em particular gostem mais de Coringa do que a audiência mais ampla, mas qualquer amante de cinema que não esteja demasiado ávido por fazer uma avaliação política do filme será capaz de apreciá-lo pelo que ele realmente é:
Um filmaço.

"Eu costumava achar que minha vida era uma tragédia, mas agora eu vejo que é uma puta comédia."

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Rapidinhas do Capita


Há cerca de dois dias circula na internet o boato de que a Marvel estaria considerando seriamente a possibilidade de trazer um novo personagem ao MCU no terceiro filme solo do Homem-Aranha, que segue sem título, mas ganhou uma data de lançamento para 16 de julho de 2021.
A sequência de Homem-Aranha: Longe de Casa daria sequência ao cliffhanger do último longa, quando a identidade secreta de Peter Parker é exposta por Mysterio (Jake Gyllenhaal) e J. Jonah Jameson, e aparentemente a ideia da Marvel é ter Peter recebendo ajuda legal de uma de suas brilhantes mentes jurídicas.
Com a série da Mulher-Hulk nos planos da Marvel para o Disney +, Jennifer Walters, alter-ego da sensacional prima de Bruce Banner, é uma opção para a posição de advogada de Peter Parker, mas Jen seria um plano B.
Aparentemente a Marvel deseja que o representante de Peter nos tribunais seja o Demolidor.

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Mais do que retirar o Homem sem Medo de sua aposentadoria após os cancelamentos das séries da Marvel na Netflix, Kevin Feige gostaria que o intérprete de Matt Murdock no longa fosse, novamente, Charlie Cox.
O ator que era um dos alicerces da série e capturou com insuspeita maestria todas as nuances do pio herói da Cozinha do Inferno seria a primeira escolha do cabeça da Marvel para interpretar Murdock que, em princípio, apareceria no longa do cabeça de teia apenas em sua identidade civil, como um easter-egg para os fãs, mas pavimentaria o caminho para a adição do Demolidor ao MCU para estrelar uma série própria no Disney + e se juntar ao grupo de personagens passíveis de aparecer em longas da Marvel nos anos vindouros, respeitando o período de dois anos durante os quais a Marvel não poderia usar os personagens d'Os Defensores da Netflix segundo cláusula contratual.

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Outra possibilidade com a adição do Demo ao MCU, seria trazer de volta à Marvel o Rei do Crime, e, novamente, os rumores seriam de que a Disney quer Vincent D'Onofrio, outro dos pilares da série do Demolidor na Netflix, reprisando o papel de Wilson Fisk que poderia assumir o posto de arqui-inimigo do Homem-Aranha no Universo Cinemático Marvel deixando Norman Osborn na geladeira por mais algum tempo.
Apesar de parecer estranho que o MCU fosse reaproveitar não apenas personagens já vistos em outras plataformas, mas também seus intérpretes, a resposta imensamente positiva dos fãs para o retorno de J. K. Simmons ao papel de J. Jonah Jameson na cena pós-créditos de Homem-Aranha: Longe de Casa pode ter sido o termômetro de que a Disney precisava para ver que não há necessidade de se reinventar a roda quando se trata de escalar os atores certos para cada personagem.
Demolidor da Netflix segue sendo uma das melhores adaptações de gibis que eu já vi, e certamente está entre as minhas três preferidas em qualquer mídia e eu digo isso sem nenhum medo de estar exagerando. Ver Charlie Cox, D'Onofrio e, quem sabe, Deborah Ann Woll e Elden Henson se unirem oficialmente às fileiras do MCU seria um tremendo presente para um órfão de Demolidor que ainda não superou a perda de sua série preferida.
A notícia originalmente foi publicada pelo We Got This Covered, e teria vindo de uma fonte com grande histórico de acertos.
Vamos torcer para que esse seja mais um deles.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Trailer de Aves de Rapina: Arlequina e sua Fantabulosa Emancipação

E a Warner revelou há alguns minutos o primeiro trailer de Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (versão menos inspirada de Aves de Rapina e a Fantabulosa Emancipação de uma Arlequina, tradução literal do título original em inglês), longa que seria a respeito da sidekick do Coringa mas eventualmente se misturou ao Sereias de Gotham e acabou virando um longa a respeito das Aves de Rapina que já tiveram até seriado no CW na época de Smallville.
A prévia mostra Harley tentando se estabelecer após o fim de seu relacionamento com o Coringa, e formando um grupo de vigilantes para livrar uma jovem do vilão Máscara Negra.
Confira:



Dirigido por Cathy Yen e escrito por Christina Hodson o longa tem, além de Margot Robbie reprisando o papel de Arlequina, Mary Elizabeth Winstead como a Caçadora, Jurnee Smollett-Bell como Canário Negro, Rosie Perez como Reneé Montoya, Chris Messina como Zsasz e Ewan McGregor como Máscara Negra.
O mais ou menos uma sequência de Esquadrão Suicida tem estréia marcada para 7 de fevereiro do ano que vem.

Resenha Game: FIFA 20


Neste ano de 2019, pela primeira vez em nem sei quanto tempo, eu realmente pensei se compraria a edição anual de FIFA, ou não.
Porque embora eu seja um apaixonado por futebol e um fã da série FIFA, a verdade é que, de uns meses pra cá, flertei pesadamente com a ideia de, nesse ano, variar o script e comprar Pro Evolution Soccer, um game de futebol que sigo considerando tecnicamente inferior, mas que conta com os campeonatos brasileiros das séries A e B, oferece divertidas opções de customização e patches para consertar todos aqueles times terrivelmente genéricos do catálogo de campeonatos dos quais a Konami não conseguiu obter a licença, tornando, por exemplo a Premier League, uma coisa deprimente de se olhar.
Minha principal restrição para com FIFA era que, em anos recentes a EA viu seu FIFA Ultimate Team se transformar em uma mina de ouro para a qual os aficionados por modos online sempre voltavam pra deixar mais dinheiro, resolveu investir alguma coisa em um modo história, e mandou os jogadores solitários às favas.
Eu não era capaz de lembrar a última vez em que o Modo Carreira havia recebido alguma atenção da desenvolvedora, e, sentindo-me negligenciado enquanto consumidor, estava considerando seriamente experimentar outros ares (e economizar oitenta reais, já que FIFA custa R$ 279,90 contra os R$ 199,90 de PES).
Mas eis que, por coincidência, a EA resolveu se coçar, e dar uma recauchutada em seu modo single player mais raiz, e, diante desse aceno, resolvi que, 2019 ainda não seria o ano em que eu ia virar a casaca.
Na sexta-feira saí da academia e passei numa loja do Centro para apanhar a minha versão de PS4 de FIFA 20, e após um final de semana de intensa jogatina, vi que não foi apenas o Modo Careira que ganhou um tapa.
Para mim, que até a semana passada ainda estava jogando FIFA 19, logo de cara nota-se que FIFA 20 tem leves alterações visuais que eu francamente não sei se foram necessariamente para melhor. O nível de detalhamento dos modelos dos jogadores parece ter sido levemente esmaecido, talvez numa tentativa de reduzir a diferença entre o visual dos jogadores que têm suas feições capturadas digitalmente para a criação de suas contrapartes eletrônicas e os jogadores com feições mais genéricas (uma discrepância que nunca foi excessiva em FIFA mas que é quase risível no PES). Essa é uma alteração visual muito sutil, mas é na hora em que a bola rola que nós começamos a ver que a EA fez mais do que apenas atualizar o jogo do ano passado na nova versão.
A mais óbvia diferença é na velocidade do jogo.
FIFA historicamente alterna entre games mais cadenciados e mais ligeirinhos, mas a versão atual trouxe um divertido equilíbrio à essa equação ao criar uma variação de velocidade entre os jogadores que simplesmente era ignorada em games anteriores. Quem nunca ficou frustrado ao controlar um Danny Ings da vida correndo em desabalada carreira pela beirada do campo e de repente perceber que um Harry Maguire da vida estava emparelhando contigo pra fazer o desarme?
No ano passado, parte dessa discrepância havia sido polida ao termos jogadores fisicamente mais fortes levando vantagem sobre os magrelos nos lances de divididas de bola, mas a revisão da versão atual parece melhor sacada, criando a sensação de que os jogadores velozes são tão rápidos quanto deveriam e garantindo que, dependendo do teu estilo de jogo, ter um jogador mais veloz, ou mais forte em determinada posição, pode fazer a diferença (que o diga meu ataque do Newcastle United, composto por Callum Wilson e Andy Carrol, fazendo chover). Essa alteração entre força e velocidade dos jogadores torna o jogo mais desafiador, pois se chocar com um zagueiro é quase certeza de ser desarmado, e errar o bote no atacante é garantia de cometer a falta.
Outra diferença é que a bola esse ano parece mais leve. Por vezes um balão pra afastar o perigo da área faz a bola voar de uma maneira que ela parece capaz de entrar em órbita para cair dois passos à frente da área. Não chega a afetar de maneira excessiva os chutes a gol, mas torna lançamentos longos um pouco mais desafiadores até pegar a manha da nova física.
Fora isso, não há grandes diferenças de gameplay na hora de jogar FIFA, à exceção de alguns detalhes cosméticos como animações mais variadas na hora de pegar uma bola de primeira ou chutar de chapa pra colocar um efeito na redonda.
Falando em efeito, as jogadas de bola parada foram total e absolutamente revistas na nova versão, com batidas de pênalti e especialmente de falta se tornando quase um mini-game onde nós escolhemos onde mirar o chute, e, enquanto corremos para a bola, escolhemos que tipo de efeito queremos colocar na batida. É um sistema bastante interessante comparado com a pobreza das cobranças em anos anteriores, mas demanda tempo para dominar. Eu tenho acertado o travessão com bastante frequência, mas ainda não guardei a minha primeira batida na gaveta.
Em relação aos modos de jogo, após três anos o divertido e piegas Jornada foi aposentado pela EA após Alex e Kim Hunter e Danny Williams trilharem seus caminhos no mundo do esporte bretão.
Nesse ano a grande novidade é o Volta Football, que mistura um modo de história cheio de todos os clichês de filmes de superação esportivo com uma herança espiritual do finado e saudoso (para alguns) FIFA Street.
Podendo ser jogado em versoes 3 contra 3, 4 contra 4, 5 contra 5 e Futsal em arenas elaboradas que vão de favelas do Rio de Janeiro ao topo de arranha-céus em Tóquio o Volta Football deve ser divertidíssimo para jogar entre amigos, fazendo malabarismos e dribles revoltantes, tabelando com as paredes e comemorando gols com celebrações excessivas, enquanto modo história, é bastante singelo, menos envolvente do que a coleção de clichês do Jornada, mas distrai, além de ter a vantagem de ser bem mais curto e oferecer opções de personalização particularmente engraçadas que vão dos tênis aos cabelos dos jogadores.
O modo Carreira, por sua vez, ainda que seja meu preferido desde sempre, segue sendo o patinho feio da coisa toda, mas, conforme eu disse ali em cima, finalmente foi recauchutado após anos sendo solenemente ignorado pela EA.
A apresentação das ligas segue sendo um dos maiores trunfos do modo, dos patrocinadores ao HUB televisivo, tudo evoca à perfeição os grandes torneios verdadeiros, Premier League, Liga Santander, UEFA Champions League e UEFA Europa League, todos devidamente apresentados à imagem e semelhança do que vemos ao sentar para ver um jogo na ESPN. As narrações e comentários são ótimos (a Premier League leva vantagem no quesito já que a melhor dupla de comentaristas do jogo é inglesa) e o visual dos jogos tem uma autenticidade que não se vê, por exemplo, no PES. Há a possibilidade de participar de torneios de verão, vender e comprar jogadores, cumprir objetivos secundários propostos pela diretoria e realizar treinos para melhorar as habilidades dos jogadores e torná-los mais eficientes para o time ou mais valiosos para vendê-los durante a próxima janela de transferências, tudo igual que nem foi em anos anteriores.
Nesse anos há a possibilidade de criar seu próprio avatar para ficar à beira do gramado durante os jogos e negociar com atletas e empresários.
Essa era uma opção que eu queria desde que surgiram aqueles modelos pré-estabelecidos esquisitos para interagir com jogadores e empresários dois anos atrás. Eu ficava fulo por não poder fazer um boneco para me representar na beira da cancha, e confesso que é divertido tentar criar um treinador barbudo e cabeludo para aparecer eventualmente comemorando os gols do time diante da casamata (a EA deveria ter disponibilizado óculos de grau entre as opções de customização, porém. E barbas maiores...). É possível fazer um treinador ou treinadora e escolher sua altura, cor de cabelo e roupas além de criar seu rosto da mesma maneira como se faz com jogadores desde sempre...
Outra novidade do Modo Carreira é o foco na moral do time e dos atletas. Conforme navegamos pelo gerenciamento do time é possível ver smiles ao lado do nome dos jogadores que vão dos vermelhos, que estão terrivelmente descontentes, até os verdes, que estão felicíssimos. A moral de cada jogador depende tanto de sua utilização na equipe e de sua performance em campo quanto da maneira como tu escolhe interagir com o atleta, seja diretamente, quando ele pede para começar a próxima partida porque acha que está em um bom momento, quanto indiretamente quando tu responde perguntas a respeito dele durante as coletivas de imprensa.
Eu realmente gosto das coletivas, mas me ressinto de elas se resumirem à escolha de uma entre três respostas possíveis a cada questão e nem sequer serem dubladas. Ao invés de o treinador ter uma voz e falar, nós apenas o vemos mexendo a cabeça e os lábios enquanto a legenda surge embaixo da tela. Com poucas opções de diálogo tanto nas entrevistas quanto nas negociações, a EA poderia ter criado meia dúzia de opções de vozes masculinas e femininas para que o jogador escolhesse a sua no começo do jogo, mas enfim, algum avanço é melhor do que nenhum...
Claro, a galinha dos ovos de ouro da EA, o FUT está de volta.
Eu francamente desprezo esse modo de jogo, mas há um grande alarde sobre a possibilidade de escolher jogadores icônicos de uma leva ainda maior para o seu time, objetivos por temporada e mais opções de customização.
Os fãs da série continuarão ligando o PS4 apenas para jogar o FUT e enchendo os cofres da EA de dinheiro, enquanto aqueles que não foram fisgados pelas ligas online dificilmente vão migrar à essa altura.
FIFA 20 segue sendo um game de futebol lindo, que busca criar a experiência mais próxima de um autêntico simulador de futebol, deixando a parte mais lúdica do esporte para o PES. O game segue sendo extremamente divertido e viciante como sempre foi para os fãs, e a adição do Volta Football adiciona um pouco de variedade aos modos de jogo com partidas rápidas, comemorações elaboradas e disputas de habilidades além de jogar com a notalgia dos órfãos do FIFA Street.
Dar alguma atenção ao Modo Carreira foi uma boa sacada, mas a EA precisa fazer mais, muito mais se quiser continuar trazendo os jogadores solitários de volta no ano que vem (meu irmão, FIFeiro há dezessete anos, migrou pro PES nesse ano...), escolher FIFA por padrão comportamental ainda é uma ocorrência comum, eu suponho, mas é melhor a EA deve parar de se sentar nos louros de ser o melhor simulador de futebol do mercado e oferecer mais a todos os segmentos de clientes no futuro.

"Vamos mostrar ao mundo quem nós somos..."