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sábado, 30 de julho de 2011

Resenha Cinema: Capitão América - O Primeiro Vingador


Todo mundo sabia que em algum momento ele tinha que sair das páginas das revistinhas e alcançar os cinemas do mesmo modo que haviam feito seus colegas X-Men, Homem-Aranha, e Demolidor. Mais ainda depois que o Homem-de-Ferro se transformou em ícone pop, o Thor não fez feio e o incrível Hulk, mesmo injustiçado, ressucitou no cinema com Ed Norton depois da incursão desastrada com Ang Lee. E o que esse povo todo tem a ver com o bandeiroso?
Bom, eles fazem parte do supergrupo mais clássico da Marvel, os Poderosos Vingadores, a resposta da casa das ideias à Liga da Justiça da DC. E, esses heróis já citados, Homem-de-Ferro, Thor, Hulk, e outros mais, são membros dos vingadores sob a liderança dele. Do Capitão-América.
Bueno, se o cara é o líder do grupo, se ele é, como alardeia o título do filme, o primeiro vingador, e tudo mais, então por que esperaram todo mundo já ter seu próprio filme (O Homem-de-Ferro já tem sua própria franquia!) pra apresentar o sujeito?
Provavelmente por que, pro público civil (E quando eu digo civil, quero dizer não-nerd), o Capitão-América é apenas um valentão vestido de bandeira. Pior ainda, de bandeira dos EUA.
Não deixa de ser algo que provavelmente assusta os executivos de um estúdio. Hoje em dia, o grosso da arrecadação de um blockbuster vem do estrangeiro, então, como convencer o público que nunca abriu um gibi que o Capitão-América é mais que um cara anabolizado brigando por petróleo com gente menor que ele?
Como mostrar que o personagem surgido em 1941 nas páginas da editora Timely como um herói da antiga que espancava seus inimigos com um violento cruzado de direita não era só um xarope veículo de propagação do americanismo?
Bom... Capitão-América - O Primeiro Vingador acerta a mão ao tentar fazer isso contando a história de Steve Rogers (Chris Evans, ex-Tocha Humana), um mirrado rapaz do Brooklyn, filho de um soldado americano morto na Primeira Guerra Mundial e de uma enfermeira, jovem que sempre foi brutalizado pelos valentões da região mas jamais desistiu de lutar. Com a Segunda Guerra Mundial matando soldados americanos na Europa, Steve sente que tem a obrigação de ajudar, mas com seu físico de tuberculoso e extensa lista de problemas de saúde ele simplesmente não é aceito nas Forças Armadas não importa o quanto tente.
Até que surge em seu caminho o Dr. Abraham Erskine (Stanley Tucci, competentíssimo, emprestando ao cientista uma profundidade inexistente nos quadrinhos e muito bem-vinda), físico alemão que desertou e, nos EUA, oferece aos americanos o seu Projeto Super-Soldado. Erskine reconhece em Rogers a coragem de alguém que, mais que apenas "matar uns nazistas", quer fazer a coisa certa. Alguém que reconhecerá o valor da força e do poder por conhecer as amarras da fraqueza e da impotência, e, acima de tudo, um bom homem.
Após receber o Soro do Super Soldado e ser exposto à radiação de raios Vitta Steve aparece com físico de Hércules, capaz de realizar prodígios de força, de velocidade e resistência.
O rapaz, porém, acaba se tornando o único espécime do que deveria ser um exército, e, sendo valioso demais para ser desperdiçado, acaba sendo empurrado, ao invés das linhas de frente, para os palcos dos shows de captação de bônus de guerra. Entretanto, na Europa, após descobrir que a dissidência tecnológica do Reich, a Hidra, encabeçada pelo cruel Johann Schmidt, capturou praticamente todo o 107° batalhão, Steve decide abandonar os palcos e abraçar o conflito para salvar seus companheiros.
Eis aí a premissa do filme. E ele funciona. Chris Evans, pra quem quase todo mundo, incluindo eu, torceu o nariz quando foi anunciado não faz feio. Ele abandona as caretas e piadinhas presentes em sua filmografia anterior e abraça com competência o personagem, sendo heróico e corajoso, sim, mas também passando sempre a impressão de ser um sujeito humilde. O resto do elenco não faz feio, Tucci, como já foi dito, é ótimo no papel do Dr. Erskine, Tommy Lee Jones, no papel do Cel. Chester Phillips é divertidíssimo em sua rabugice e responsável pelos melhores momentos cômicos do filme, que felizmente estão sob controle. Há ainda Hayley Atwell, como Peggy Carter, obrigatório interesse romântico do herói, Sebastian Stan, no papel de Bucky Barnes, melhor amigo de Rogers, Neal McDonough como Dum-Dum Dugan, e Dominic Cooper como um jovem Howard Stark.
No lado do mal, Johann Schmidt, o Caveira Vermelha é interpretado por Hugo Weaving, que não tem muito que fazer com o personagem, demasiado raso, cheio de frases de efeito e obviamente calcado no (ótimo) visual. O Arnin Zola interpretado por Toby Jones tem um pouco mais de profundidade, e se mostra mais interessante quando está em cena.
O trabalho do diretor Joe Johnston, de Rockteer, é bem feito, e ele entrega uma aventura divertida e despretensiosa, que escapa de algumas armadilhas recorrentes da filmografia Marvel mas incorre novamente em outras tantas. O negócio, agora é torcer para que, com o tabuleiro montado para Os Vingadores os filmes solo da Casa das Ideias possam se focar mais em seus personagens principais e em aparar arestas que têm ficado em todos os longas.
Como de hábito, fique até o final dos créditos. Você não se arrependerá.

"-Você quer matar nazistas?
-Eu não quero matar ninguém. Eu não gosto de valentões; não me importa de onde eles vêm."

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Rapidinhas do Capita


-Tu sabe que não existe esse negócio de perfeição, né?
-Lá vem tu, de novo...
-Não, só pra tu saber, por que, tipo, eu já tinha te dito isso antes.
-Tá.
-Então, de repente, até pra tirar o peso que tu pode depositar em cima dos ombros dessa pessoa, fica esperto... Perfeição, e tal... Isso não existe.
-Arram.
-Só pra tu saber.
-OK, obrigado.
-...
-...
-... Não adianta, né? Tu ainda acha que ela é perfeita.
-Não.
-Não?
-Não.
-Me diz um defeito que tu acha que ela tenha, então.
-Bom... Eu não tenho certeza se ela tem, sabe? Ás vezes acho que sim, mas não tenho cem por cento de certeza. Mas espero que ela tenha mau-gosto pra homem.

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Um amigo, alguém especial, ou não, que gosta de você, que se importa com você, tem que fazer tudo ao seu alcance pra que você seja feliz, pra que não se machuque, e não enfie os pés pelas mãos. Não cuidar de você. A gente cuida é de criança. Amigos, e outras pessoas que nos são caras e especiais, esses a gente aconselha.
Não é raro, porém, que as nossas palavras e ações sejam mal-interpretadas. Não é uma coisa impensada que, vez que outra, nossos conselhos sejam vistos com desconfiança. As pessoas têm tendência à maldade por natureza, então, também por natureza, nós reagimos com reserva quando alguém nos sugere esse ou aquele rumo de ação.
Um amigo, ou uma pessoa que se importa com você, e que te tem como especial pra si, tem que ser bom pra sua vida. Te trazer coisas boas. Não dúvidas. Não tem que te fazer passar trabalho ou dificuldade de qualquer espécie. Não é assim que funciona. Não é assim que é. Quando uma pessoa é especial pra ti, quando ela entra na tua vida a ponto de estar nos teus pensamentos todas as horas do dia, de estar nos teus planos, e nos teus melhores cenários, isso exige dedicação. Exige cuidado.
Poder e responsabilidade, manja?
Dar coisas boas pra vida de alguém que só traz coisas boas pra tua. É assim que tem que ser. É assim que é pra ser.

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-Nossa, eu acho o Rorschach muito atraente...
-Sério? O Rorschach do Watchmen?
-Arram...
-Putz...
-É, aquela personalidade meio psicótica dele. Pensa bem, imagina uma mulher com aquela característica... Não é atraente?
-Não. É a Glen Close de Atração Fatal.
-Hmmm. É, acho que só funciona pra homens.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Das certezas e das crenças


-Eu tenho certeza - Elucubrava Leomir. - De que se o Calvin, do Waterson, fosse casar com alguém, não deveria ser com Susie Derkins. Susie é uma boa menina, cresceria e se tornaria uma boa moça, provavelmente toleraria o Calvin, mas não seria feliz ao lado dele. Susie seria feliz casando com um sujeito como o pai do Calvin. Alguém ajustado, correto, que se exercita com frequência, e que gosta de inúmeras atividades ao ar-livre. Se o Calvin fosse casar com alguém, seria com a Mafalda, do Quino. São dois espíritos inquietos, duas mentes afiadas, dois desafiadores de autoridades. São o tipo de crianças que você odeia ter como vizinho a menos que também tenha seis anos de idade. São os alunos que os professores não querem, e os filhos que os pais têm que aprender a amar. São projetos de gente com o tipo de visão que mais pessoas deviam ter.
Os amigos da Mafalda são todos toscos demais pra ela. Ela jamais teria o estímulo intelectual necessário pra se desenvolver enquanto ser humano do lado do Filipe, ou do Manolito, ou do Miguelito, nunca daria certo entre eles, e não apenas por que ela os conhecia desde a infância, mas sim por que ela conhecia todos os defeitos de todos eles desde a infância. Mafalda e Calvin, sim, teriam tudo a ver, ela seria até capaz de tolerar a fixação dele com o Haroldo. Ela seria capaz de aprender a usar o fato de a consciência dele ser um tigre de pelúcia e extrair o melhor do Calvin através do Haroldo.
Da mesma forma, ela sendo tão voltada pra questões humanitárias e tudo mais, daria a ele um perímetro de liberdade pra suas divagações filosóficas e momentos de introspecção profundos pra ser o Homem-Estupendo, o Astronauta Spiff, e tudo mais.
Eu não vejo casal mais perfeito do que Mafalda e Calvin, não vejo, mesmo. - Ele disse, tomando fôlego, e continuando:
-O problema, aí, seria o fato de que eles vivem em universos diferentes. Têm backgrounds diferentes, coisas diferentes a fazer. A Mafalda deixaria de fazer tanta coisa pra estar nas tirinhas do Calvin, ela abriria mão de tanta coisa. Ela valoriza tanto aqueles amigos abestalhados dela, o Filipe, do Manolito, do Miguelito, a Susanita, o Guile e a Liberdade, que nem dá pra imaginar o tamanho do sacrifício que ela teria que fazer pra deixar todos pra trás e viver nas tiras do Calvin, que nem sequer são separadas em quadrinhos.
E o Calvin... Por mais que ele fosse querer estar com alguém como a Mafalda. Por mais que ele fosse ser feliz com a Mafalda, por mais que a ausência da Mafalda depois da sua presença fosse deixá-lo arrasado por algum tempo, talvez muito tempo... Ele ainda teria o Haroldo. Eu creio que ele ainda poderia, vez que outra ser o Homem-Estupendo, ou o Astronauta Spiff. Moleques são extremamente flexíveis. Ele ia se virar.
Leomir terminou e respirou fundo, mordendo ruidosamente um chocolate Bis. Não havia mais ninguém na sala. Apenas um retrato da Rejane enfiado no meio de uma revista que ele prometera não voltar a abrir.

Tempo Pretérito


-Eu sou um lobo solitário. - Disse, Heitor, de peito cheio, no alto de seus oito anos de idade com um álbum de figurinhas do RoboCop sob o braço. Não era a primeira vez que Heitor se via excluído de uma atividade. Na verdade, a exclusão era matéria frequente para ele. Heitor jamais fora a mais social das pessoas. Jamais fora de demonstrações gratuitas de afeição. Seus pais nunca se preocuparam com o fato de Heitor ser um moleque um pouco mais ensimesmado. A verdade é que, para eles, a introspecção do rebento era um sinal de bom comportamento, e, por consquência, de um trabalho bem realizado pelos genitores. E, quiçá em parte, fosse, de fato. Entretanto, não era apenas isso.
Heitor não era afeito às regras do mundo.
As conhecia à todas. As respeitava. Mas não gostava delas. Então, encolhia-se do mundo, vivendo à seu modo sempre que essa opção lhe era oferecida. Não era um isolacionista convicto, o Heitor. Mas era, sim, um menino solitário. Em parte por opção, em parte por imposição. Não se queixava, porém. Sabia aproveitar o seu tempo, sendo um soldado, um caubói, um guerreiro medieval enfrentando monstros imaginários, fazendo parte de projetos científicos que o transformavam em um ciborgue, em um super-ser, ou fugia pra uma galáxia bem, bem distante, onde se unia à Ordem Jedi e enfrentava o malvado império galáctico.
De toda sorte, Heitor aproveitava sua infância quando estava sozinho. E na escola, onde poderia fazer amigos, fazia-os poucos. Não era de ter um milhão de amigos. Um ou dois a cada ano. E, aficcionado que era por ficção, quadrinhos e aventuras fantásticas, não raro era excluído dos grupos de trabalhos. Das brincadeiras organizadas no recreio, e dos esportes da Educação Física. Não se importava, contudo. Era nesses momentos em que Heitor dizia a frase lá do início:
-Eu sou um lobo solitário.
E tocava em frente. Servia-lhe. Na infância, por estranho que pareça, foi fácil para Heitor ser solitário a maior parte do tempo. Havia, claro, interlúdios de companhia. Amizades fugazes. Todavia, nada que mudasse quem Heitor era. E Heitor passou incólume pela infãncia. Sem traumas, sem dores, ou amarguras. Aproveitou o tempo que partilhou com seus amigos de ocasião, ofereceu o que tinha de si em abundância, e recolheu o que lhe era oferecido. Aprendeu ali sua lição. Aprendeu a viver e saber viver sozinho, mesmo em meio à multidão. Aprendeu a partilhar quando acompanhado, mas a não precisar de companhia ou de partilha pra viver.
Na adolescência, houve muito mais companhia na vida de Heitor. Ele chegou a se distanciar da pessoa que fora anos antes. Chegou a pensar que sabia ser diferente. Que sabia viver acompanhado. E soube, apenas não gostou tanto assim. E lembrou-se: Era um lobo solitário.
E logo, voltaria a recolher-se sob o manto da solitude onde preferia trafegar.
Já adulto, aprendeu a equilibrar a solidão que o agradava com o acalanto da companhia tantas vezes saudável, necessária. Sem esquecer quem era. O que era. Sempre lhe serviu a consciência de que, alguns de nós, são, sim, vá lá, senão lobos, solitários de coração.
Quando era abandonado, vilipendiado, esquecido, jamais permitia que aquilo o ferisse. Pois sabia ser só. Sabia não precisar de ninguém.
Sabia...
Hoje, já não tem certeza se sabe mais. E lhe dói não saber.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Medidor


-Tu me ama? - Ela perguntou, enquanto ele segurava a mão dela esfregando o próprio nariz na maçã de seu rosto.
-Eu não sei... Acho que sim. Mas não tenho certeza, ainda. - Ele respondeu, dolorosamente honesto.
Ela ficou dividida entre admirar-lhe a franqueza, ou sentir-se açoitada pela verdade, de que, a despeito de ela ter se entregado de corpo, alma e coração, ele ainda tinha restrições. Engoliu em seco. E, com voz firme, quis saber:
-E por que tu veio falar comigo?
Ele sorriu.
-Por que? Não era pra ter ido?
-Não... - Ela replicou suspirando. - Não foi o que eu disse. Eu só... Sei lá...
Ele viu que ela estava incomodada. Parou de sorrir.
-Foi por que eu te achei bonita.
-Ah. - Ela fez virando o rosto. -Fala sério comigo, pôxa...
Ele se endireitou, colocando a mão sobre o peito dela, muito sério:
-Não foi nada que tu tenha dito, não foi nada que tu tenha feito, nenhum gesto, nenhum movimento, nada. Me deixa ser sincero a respeito da minha superficialidade: Foi porque tu é linda. Eu nem imaginava todo o resto. Eu nem sequer podia sonhar com todo o resto. Se alguém me falasse antes, de tudo mais que havia, eu chamaria de trovador e seguiria caminhando. Eu jamais poderia acreditar em tudo o que tu é antes de ver, tocar, experimentar. Porque tu é praticamente perfeita, tudo de bom, de linda, de melhor, só não é perfeita por uma razão, que é o teu péssimo gosto pra homem. Tirando isso, menina, tu é o ó do borogodó.
Ela ficou olhando pra ele:
-Mas ainda assim tu não me ama. - Disse com a voz embargada de decepção.
-Não foi o que eu disse. - Ele se defendeu.
-Tu não tem certeza se me ama. - Ela corrigiu, ainda decepcionada.
-Não. Não totalmente. - Ele admitiu. -Mas eu diria que tem uns bons noventa e cinco por cento de chances de que sim. - Ele disse com o cenho franzido numa careta falsa de preocupação.
-E tu me avisa quando forem cem por cento? - Ela pediu.
-Pode apostar. - Ele disse a abraçando enquanto buscava, com seus lábios os dela, e seu medidor interno de certeza subia a passos largos em direção ao máximo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Rapidinhas do Capita


Semana pra ter orgasmos nerd na web:
Teaser de Dark Knight Rises, de Os Vingadores, e de O Espetacular Homem-Aranha, trailers de John Carter of Mars, Cowboys & Aliens e Sherlock Holmes, fotos de Thorin Escudo-de-Carvalho na rede, críticas positivas ao filme do Capitão-América e Harry Potter quebrando recordes de bilheteria. Se o mundo acabar, mesmo, em 2012, eu ao menos vou ter visto os filmes que queria ter visto.

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-As pessoas me dão crédito demais, Firmino. Demais. - Disse Franco, quase suspirando.
-Estourou o cartão de crédito? - Perguntou Firmino, desligado.
-Não, burro. Eu disse que as pessoas me dão crédito demais. - Explicou Franco.
-Ah. - Assentiu Firmino. Mas virou-se quase instantaneamente perguntando: -Como assim?
-Ah, meu Deus... As pessoas pensam que eu sou capaz de mais coisas do que eu de fato sou, Firmino. Elas me têm em conta demasiado alta. Sempre acham, pro bem ou mal, que eu sou capaz de mais do que eu de fato sou. Geralmente, pro mal. Elas me tomam por um canalha manipulador desprovido de moral, decência ou bons sentimentos capaz de trapacear, mentir e realizar toda a sorte de atrocidades suburbanas.- Explanou Franco, professoral. -Elas esquecem que, á despeito de eu ser um sujeito reservado, distante e quiçá, até um pouco frio, mesmo, eu suponho, eu ainda sou capaz de me magoar.
-Hmmm... Eu não te tenho em alta conta, Franco. Te acho um tremendo trouxa. - Disse, o Firmino, cândido, colocando a mão no ombro de Franco, que hesitou brevemente, e, deu de ombros, pousando, também sua mão no ombro do amigo e dizendo:
-Obrigado, meu velho.

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Não é tu. É o que tu divide com o mundo. O que tu tem, de sobra, e que quase escorre pelos teus poros, é isso que tu pode dividir. A gente não divide as coisas que não tem em quantidade suficiente. Como diz minha mãe, em uma analogia extremamente católica mas que estranhamente faz sentido, não se tira dos pés de um santo pra colocar nos de outro. É por isso que nós só dividimos o que temos em excesso. Aquilo de que podemos dispôr. De outro modo, a partilha é inócua. Quando dividimos apenas aquilo que temos de sobra não estamos sendo egoístas, estamos apenas sendo justos. Oferecendo o que temos em quantidade suficiente pra satisfazer outrem, sem prejudicar nem a nos mesmos, nem a eles.
Como tu. Tu que tem tanta alegria, tanta doçura, tanta vida que transborda de ti. Que inunda os lugares que têm a sorte de te receber, que encabula o mundo com teu sorriso tão grande e tão bonito. Tu tem coisas boas de sobra pra partilhar. Tanto tem que, a despeito de ter lá suas restrições com gente, escolheu ajudá-las. Pois é doçura demais. É carinho demais. É tudo de bom demais pra guardar pra si, então, tu divide.
Eu não. Eu sou um bicho do mato. Não tenho lá coisas muito boas pra dividir com ninguém em quantidade alguma. Sou o oposto de ti em vários sentidos e por várias razões. Não escolhi ser assim, apenas, foi o que saiu. É o produto resultante de vários fatores em sucessão. O que eu tenho de bom pra dividir eu meço a conta-gotas.
Mas quer saber? Não vou dividir com ninguém, exceto contigo. Aliás, nem dividir vou. Pega que é teu.
É meio amargo, mas é de coração.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sensível


Estavam o Maiquél e o Jeison na locadora. Dois fedelhos na parte mais triste da adolescência, aqueles anos que que não há certo ou errado, preto ou branco, mas apenas tonz de cinza, e, nesses tons de cinza se realizam projetos e prodígios que, ás vezes, em se contando, ninguém acredita.
O Jeison, um poço de hormônios em ebulição andava entre as estantes de filmes tendo um nervoso Maiquél ao seu lado. Jeison parou em frente à estante onde lia-se "romance", e passou a mirar as lombadas dos DVDs com interesse sacando um ou outro título escolhido e olhando a capa de forma atenta.
A tensão finalmente foi demasiada para Maiquél enfrentar em silêncio e ele acabou desembuchando:
-Essas gurias que tu vai levar na tua baia, hoje...
-Hã?
-Como elas são?
-São gurias, Maiquél. Tu já viu, um pouco menores que um guri, têm cheiro melhor, cabelo comprido, tetinhas, bundinhas, e outras coisas que nos interessam... - Respondeu, com pouco caso, um chovinista Jeison.
-E essas gurias vão ver filme com a gente? - Inquiriu Maiquél, ainda nervoso.
-Um pouco, pelo menos. Na verdade, eu espero que lá pela metade elas já estejam ocupadas fazendo outras coisas, eh, eh, eh, eh. - Riu o Jeison, maquiavélico.
-Hã...
-Que foi, mano?
-É que... Tipo... Que filme tu vai levar pra elas verem? - Quis saber Maiquél, torcendo os dedos das mãos.
-Tava pensando em romance, tá ligado? Pra amolecer elas pra gente atacar! - Respondeu Jeison, com um DVD na mão. - Olha esse. Antes do Amanhecer. - Mostrou a capa ao Maiquél.
-Ih, velho... Leva esse, não... - Suplicou Maiquél.
-Por que? - Quis saber Jeison, examinando a capa do filme. - É muito ruim? Tu já viu?
-Não é ruim, não... É que... Leva esse, não. Leva outro...
-Esse aqui, então...? Antes do Pôr-do-Sol? Acho que são as mesmas pintas na capa. O cara que fez Dia de Treinamento, e pá... - Sugeriu Jeison, tirando outro filme da prateleira.
-Não... Esse aí, também, não... - Vetou Maiquél, olhando pro outro lado.
-Tá... Então esse... Simplesmente Amor. É de comédia, até.
-Não... Não... Leva outro. Tipo, um de terror, aí elas se assustam e abraçam a gente, e talicoisa! - Sugeriu Maiquél, iluminando-se.
-Aê! Boa! Vamo pegá um de terror bem casca-grossa! - Assentiu Jeison, animado. Mas deteve-se.
-Peraí, peraí...
-Que foi? - Perguntou Maiquél, já a meio caminho dos filmes de horror.
-Que papo é esse, de elas abraçarem a gente, velho? Tu é todo encabulado, e agora vem com esse papo pra cima de mim? Aí tem coisa... - Declarou Jeison, desconfiado.
-Tem nada, mano. Eu quero abraçar as gurias, e tal... - Desconversou Maiquél.
-Qué, nada, velho. Desembucha a real, aí.
-Tem nada, meu. Tô dizendo.
-Fala, mano.
-... Tá, mas, tipo... Tu não pode falar pra ninguém. - Respondeu Maiquél, cochichando.
-Tá, diz, aí. - Concordou Jeison, com pouco caso.
-Não, mano, tu tem que prometer que não vai contar pra ninguém, nem pro Pestana. - Exigiu Maiquél.
-Ih, véio, até parece que eu conto tudo pro Pestana... - Disse Jeison, ofendido.
-Tu conta, mano, tu conta e depois o Pestana conta pro resto da galera, o Pestana parece uma lavadeira, só tu que é trouxa e não vê. - Exasperou-se Maiquél.
-Que foi que o Pestana andou contando pra galera? - Quis saber Jeison, agora ele, nervoso.
-Da Cledinéia. - Disse Maiquél.
-Masquefilhadaputa! - Exclamou Jeison, atraindo um olhar feio do balconista da locadora.
Com a boca coberta repetiu o impropério em um cochicho:
-Aquele filha da puta, mano! Eu pedi pra ele não dizer nada!
-É, mas ele contou. Contou da Cledinéia atrás do muro da casa da dona Rose, contou que tu roubou um pacote de Bono no super no começo do semestre e que tu sonhou com o Anderson Silva andando pelado no vestiário do clube. - Declarou Maiquél.
-Mas que! Cara, quem sonhou com esse negão pelado foi ele, mano! Ele que vive assistindo MMA e malhando feito alucinado na academia! E eu não roubei a bolacha, enfiei no bolso e esqueci de pagar, véio! Aquele Pestana filho de um cão! Eu quebro ele! - Exclamou Jeison com as mãos na cabeça.
-Tá, tá... - Interrompeu Maiquél. - Seguinte, eu acredito em ti, mano. Mas ó, tu quer saber o porque de eu não querer esses romances aí, tu não pode contar pra ninguém. Especialmente pro Pestana.
-Eu não falo nada, véio. Especialmente praquele filho de uma égua do Pestana. Otário... Por que não dá pra ser romance... Aquele corno...
-Mano. Eu... Ó, não fala pra ninguém, mesmo, hein? - Reforçou Maiquél.
-Não falo, mano, juro no pé da santinha. - Disse Jeison, erguendo a mão, solene.
-Mano... É que esse filmes de romance, e pá... Eles, tipo... Bah... Eles me fazem chorar tá ligado? - Disse Maiquél, engolindo em seco.
Jeison ficou sério alguns segundos, mas suas bochechas foram se enchendo de ar conforme ele apertava os lábios e seus olhos se reviravam, até que ele não resistiu e explodiu em uma estridente gargalhada.
-Porra, mano! Tu, tipo, chora vendo filme de guria, véio? - Perguntou Jeison, secando uma lágrima.
-Porra, meu! Fala baixo, véio, tá todo mundo olhando. - Ralhou Maiquél, entre dentes.
-Tá, tá... Peraí... Desculpa... - Disse Jeison, recuperando o fôlego. -Tá... Então, tu chora vendo esse filmes. Tipo... Todos?
-Ah, não todos... Só... Só, tipo... - Hesitou Maiquél.
-Tipo quais? - Encorajou o amigo.
-Ah... Tipo, os bons, tá ligado?
Nova risada de Jeison, seguida de novo protesto de Maiquél.
-Porra, véio...
-Tá... Parei, parei...
Jeison suspirou.
-Mas mano, filme de terror é tipo, faca de dois gumes, tá ligado? Se não for terror de susto, tipo, elas podem nem curtir, podem ficar só de estômago revirado, e aí ferrou a barca, mano.
Maiquél estacou pensativo ante a inegável lógica da ponderação de seu companheiro. Encarou o chão por breves segundos, indeciso. Jeison reforçou seu ponto:
-Tipo, será que não tem como tu engolir o choro, mano? Um filme só? E tipo, com a Mariana, véio, do teu lado, toda romântica e tal, querendo beijinho. Se pá tu estréia tua mão num peito, hoje.
Maiquél ergueu uma sombrancelha, parecia inclinado a tentar, mas ainda não estava certo. Jeison apanhou um filme ao acaso, e mostrou para Maiquél.
-Ó, esse aqui é musical. Mamma Mia! Que tu acha? Tentamos?
Maiquél olhou por um instante pra capa do filme, respirou fundo. Pensou na Mariana. Nem a conhecia, mas o cenário proposto por Jeison era, de fato, inspirador. Concordou.
-Tá bem. A gente tenta. -Assentiu ante uma pequena dancinha de satisfação de Jeison.
Mas complementou enquanto passavam no caixa:
-Mas tipo, quando a Meryl Streep cantar The Winner Takes it All eu vou ter que sair da sala, mano...