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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ideias distintas


O Abílio e a Roberta, ambos extremamente religiosos, viajando juntos para o casamento no Rio natal dos pais dela. Toda a cerimônia aconteceria conforme os sonhos da Roberta, uma menina meiga e doce e dedicada que encontrara em Abílio, um rapaz gentil, educado e centrado, o seu príncipe encantado.
Casarse-iam virgens, à moda da Sandy e do Kaká.
Eram feitos um para o outro, ambos solenes, rebuscados e polidos. Se não casassem um com o outro, talvez jamais se casassem.
Viajavam pois, juntos, de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, onde moravam os pais dela, lá fariam a cerimônia de casamento onde iriam celebrar seu amor diante do Deus a quem devotamente seguiam e às suas respectivas famílias.
Imprevistos, porém, sempre podem acontecer, e Abílio e Roberta tiveram problemas com a conexão do vôo e acabaram em um hotel bem meia-boca pago pela companhia aérea em Santa Catarina. 
Como eram um casal, acabaram colocados em um quarto que possuía unicamente uma cama de casal, sem sofá. 
Naquela noite gélida de agosto, a Beta, não faria o futuro marido dormir no chão frio. Não eram animais de fazenda, podiam controlar-se, deitar-se-iam juntos e dormiriam candidamente, sem malícia, pois. 
Podiam esperar até que seu casamento fosse oficial aos olhos de Deus e diante das leis dos homens, era-lhes importante que fosse assim.
Deitaram-se após escovarem os dentes e vestirem seus pijamas, abafaram-se sob as cobertas e apagaram as luzes dando singelos beijinhos de boa-noite e virando-se cada um para um lado.
Menos de dez minutos depois, porém, a Roberta, friorenta que só ela, tremendo, toda encolhida sob o edredom, cochichou quase batendo queixo ao ouvido do Abílio:
-Bílio? Tá acordado?
O Abílio, acordando, confirmou num grasnado:
-Arram.
A Beta, com voz chorosa suplicou:
-Me pega mais uma coberta? Eu tô tiritando aqui...
O Abílio, alquebrado pela viagem, moído de cansado, porém dedicado, se levantou da cama esfregando os braços, andou até o armário, e apanhou um cobertor. Sonolento, se aproximou da cama e ofereceu a coberta à Roberta, que pediu, novamente com a voz melosa:
-Me cobre?
E Abílio, dedicado e com os olhos cheios de remela, a cobriu com delicadeza e dedicação, voltando a deitar-se.
Era, porém, uma noite bastante fria, e Roberta era suscetível ao frio como um havaiano morando na Sibéria, de modo que, menos de meia hora depois, acordou-se novamente com frio:
-Abílio? Ô Abílio... Tá acordado?
O Abílio, novamente despertou de seu sono, resmungou um "sim" quase ininteligível.
-Ainda tô com frio, Bílio... Me pega mais uma coberta? - Suplicou-lhe a Roberta com a voz cheia de manha.
Novamente ergueu-se Abílio da cama como se fosse um zumbi de George Romero, rengueando com dificuldade até o armário, apanhando um cobertor e o colocando delicadamente sobre a Roberta, que agradeceu-lhe sorridente.
Foi apenas às quatro e quinze da manhã que Roberta cutucou novamente o Abílio.
-Bílio? Ô Bílio? Abílio!
Abílio abriu os olhos, olhando em volta, assustado:
-Quê foi?
-Ai, me deu mais frio... Me pega outra coberta?
Abílio virou-se para Roberta na cama, olhou-a nos olhos, e, com voz aveludada sugeriu em tom de traquinagem:
-Beta... E que tal se, só por hoje, nessa noite fria, a gente fingisse que já somos casados?
A Roberta, surpresa pela audácia e pela malícia contidas na proposta súbita de Abílio sorriu sem graça. Revirou os olhos castanhos brevemente enquanto pensava, o que poderia acontecer de mais? Pensou. Estavam mesmo viajando para se casar, ninguém os condenaria por uma pequena insensatez movida a frio e paixão.
Então, mordendo os lábios de ansiedade, assentiu num cochicho hiperventilado:
-Tá bom, vamos, sim!
Abílio sorriu tocando-lhe o rosto com delicadeza, e então disse:
-Tá, então vai lá e pega tu a tua coberta, nêga.

Homens e mulheres têm ideias bem distintas do que é casamento...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Resenha Game: Grand Theft Auto IV



Ontem foi divulgado o primeiro trailer do aguardado GTA V, nova sequência da polêmica e mal afamada série campeã de vendas da Rockstar Games, empresa que, depois da má resposta do público à aposta da desenvolvedora no policial LA: Noir, precisa de um hit de vendas para recuperar o prejuízo.
Nunca fui um grande fã da série dos ladrões de carros. Na verdade, passei batido pelas versões Vice City, San Andreas e outras.
O primeiro game da série GTA em que coloquei minhas garras foi justamente Grand Theft Auto IV, lançado em 2008 para Playstation 3.
Fui imediatamente fisgado pela história de Niko Bellic, o personagem central do game. Um sujeito durão e atormentado, mas espirituoso e humano, Niko, além de todos os outros tipos estranhos que orbitavam ao seu redor, são assim, conquistam o player na primeira cut scene.
Nem sei quantas vezes terminei GTA IV sem conseguir completar os cem por cento do game e nem quantas mais ainda voltarei a fazê-lo porque GTA IV é um tremendo jogo.
O game é centrado no personagem Niko Bellic, sérvio veterano da guerra dos balcãs, e ex-contrabandista de pessoas que chega à Liberty City (Dublê de Nova York) para se encontrar com o primo Roman, com quem se corresponde a anos, e de quem ouve apenas maravilhas sobre a América.
Ao chegar a seu destino e encontrar o primo, porém, Niko descobre que os e-mails de Roman podem ter sido um pouco exagerados, e que, ao invés de mansões, carros esportivos e modelos nuas em banheiras de hidro-massagem, ele pode encontrar agiotas e mafiosos rosnando nos seus calcanhares.
É a partir do primeiro confronto com os agiotas que Niko se vê em uma espiral descendente que o arrasta mais e mais profundamente no mundo do crime organizado de Liberty City.
É impossível não se divertir nas horas e horas que se pode passar diante do console jogando. Há uma imensa variedade de missões paralelas e atividades periféricas a se realizar sem que seja necessário avançar na history line do jogo propriamente dita.
Há shows de comediantes (com Ricky Gervais e Kaat Williams, que dublaram e participaram da captura de movimentos dos shows de stand-up que protagonizam no jogo.), rádios diversas com seleções de músicas feitas por cantores de verdade (Iggy Pop e Juliette Lewis são os responsáveis pelas rádios de rock do game, por exemplo...), mais de cem websites criados para expandir a "realidade" do mundo do game, além de programação de TV, jogos de fliperama, jornais e noticiários.
Tecnicamente o jogo é espetacular, a imensa área de Liberty City com suas quatro ilhas, Broker, Bohan, Algonquin e Aldernay não estão disponíveis desde o início do jogo, mas a certa altura, todas estão lá para serem visitadas sem que haja intervalo de carregamento entre uma e outra, um feito especialmente grandioso se levarmos em conta o nível de detalhamento das áreas da cidade.
O gameplay é de fácil assimilação, com comandos simples e bem atrelados à ação, tanto nos momentos de entrar em confronto, seja físico ou armado, quanto na direção de bólidos possantes, afinal, esse é um game da franquia do ladrão de carros.
Todo o esmero técnico do game, porém, não valeria nada se não houvesse uma grande história em GTA. Por sorte, essa história está ali.
Niko não é apenas um capanga do crime organizado, ele tem uma missão particular em Liberty City, e é assombrado por um passado sangrento na Sérvia. Ele queria mudar, levar outra vida nos EUA, mas aparentemente, a única linha de trabalho disponível para ele, além dos táxis do primo endividado, é empunhando uma arma.
Niko dança conforme a música e se aprofunda no lado mais sombrio da vida na grande metrópole conforme vê o sonho americano em ruínas. O carisma do personagem central, além, claro, de todos os excelentes personagens coadjuvantes, como Little Jacob, Packie e Francis McReary, Brucie Kibbutz e tantos outros que formam a "fauna" de Liberty City ajudam o game a ser uma potente sátira ao American Way of Life fantasiada de entretenimento eletrônico. Se duvida, dê uma olhada em todos os websites disponíveis na internet dentro do game, ou passe algumas horas assistindo TV em um dos apartamentos dos Bellic.
Enfim, GTA IV certamente é um dos dez melhores games já lançados para videogames de qualquer plataforma, um triunfo narrativo e técnico que prende o player ao joystick, e que, entre um tiroteio e outro, ainda te oferece alguma coisa em que pensar.
Boa sorte GTA V. Você vai precisar.

"-Você não se preocupa com a sua alma?
-Depois que você entra em um vilarejo e vê cinquenta crianças, todas sentadas em fila, apoiadas contra a parede de uma igreja, com as gargantas cortadas e as mãos decepadas você percebe que a criatura capaz de fazer isso não tem alma."

Aí o link para ver o trailer do quinto game da franquia.
http://www.youtube.com/watch?v=oQYn8qKebLk

Frustração


Não são as feridas nas mãos, nem o torcicolo de ter dormido todo torto em um carro caindo aos pedaços. Não é o cheiro de tinta nem a tinta, mesmo, presa embaixo das unhas. Não é a dor nos músculos dos ombros, nem tampouco as três horas e meia tendo que escolher entre ouvir Roupa Nova ou as peripécias do filho recém nascido do seu primo.
Não é o remorso por fingir que estava dormindo pra não precisar conversar, nem a dor na consciência por ter jogado fora um pincel recém comprado por preguiça de lavá-lo. Não é a raiva por estar fazendo um trabalho que tu pensou ter deixado pra trás quando ainda era adolescente, e, pra piorar sem ser pago, apenas por pressão de familiares chantagistas que te supões o único homem em idade produtiva da família.
Não... Tudo isso é secundário.
Essas pequenas dores, raivas e angustias suburbanas são superáveis.
Quando ele estava no chuveiro pela manhã, junto com a tinta e o suor do labor daqueles dois dias intermináveis ele viu escorrer pelo ralo aquelas frustrações comezinhas.
A frustração que ficou, aquela que ainda persiste, que não se vai, é a de tê-la desapontado.
A de tê-la deixado sem resposta, a de tê-la deixado ir sem dizer um "oi!", um "tchau", e vários "eu sou louco por ti" entre uma coisa e outra. A frustração que permanece, é a de que ela deve, e com razão, ter se cansado dele, da família dele, e das bagunças que surgem entre um e outro. A frustração que permanece, de verdade, é a que ele causou nela. E a dolorosa compreensão de que ela merece mais, e muito, muito melhor, e que ele merece apenas aquela foto, aqueles presentes e as lembranças... A lembrança do cheio do cabelo dela, da textura da sua pele, do gosto dos seus lábios.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Privação


-Quando eu era criança me ofereceram um cachorro...
-Que sortudo que tu é. Pra mim nunca ofereceram cachorro, eu sempre pedia e nunca me deram. Me diziam que dava trabalho, responsabilidade, que quando eu fosse uma menina crescida, se eu ainda quisesse muito um bochinho podia ganhar um gato.
-É... Pra mim ofereceram um cachorro de presente, e eu não quis.
-Tu não quis?
-Não.
-Por que? Tu tem medo de cachorro?
-Não... Não, não tenho medmo, não. Eu adoro cachorro, na verdade... Gosto muito, acho um bicho muito maneiro.
-Quantos anos tu tinha?
-Uns oito anos, eu acho... Oito, nove...
-Mas então porque tu não quis o cachorro quando te ofereceram?
-Eu... Eu sabia que cachorro viviam menos que a gente. Eu sabia que, antes de eu ser um adulto, o meu cachorro já seria um ancião. Ele ia começar a se deteriorar, e não ia poder me acompanhar nas brincadeira, e eu ia sentir pena dele. Ele ia ficar doente, e talvez tivesse que ser sacrificado. Eu não ia poder suportar a perda. Eu talvez não me recuperasse.
-Mas... Mas isso é a ordem natral das coisas... A gente não é eterno. Da mesma forma que a gente perde quem a gente ama, muitas pessoas que nos amam nos perdem... Os bons momentos que tu e o teu cachorro tivessem passado juntos iriam superar a tristeza de tê-lo perdido, especialmente se tu tivesse te esforçado ao máximo pra garantir que a vida dele fosse tão boa quanto pudesse ser pelo tempo que ela durasse...
-É... Hoje em dia eu sei disso. Naquela épca eu não sabia, então não quis ter o cachorro. Aliás, eu me privei de muitas coisas na vida pensando nisso, sabe? Em não sofrer com a perda... Não queria me afeiçoar nem a nada nem a ninguém, não queria me apaixonar, e nem me aproximar de nada... Preferia ser mártir a ser testemunha.
-E o que te fez mudar de ideia?
-Tu.

O Amor é um zorrilho.


-O amor... - Começou o Everaldo, arrancando um suspiro do Paulo Roberto.
-O que tem o amor, Everaldo? - Perguntou, a contragosto.
-O amor é um zorrilho, Pê Erre... O amor é uma porra dum zorrilho manco e faminto... - Disse Everaldo, com os braços caídos sobre o próprio colo, encarando as bolachas de chope de sempre, na mesa de sempre, no bar de sempre. Encarou o Paulo Roberto com os cantos da boca virados pra baixo e reforçou com um cochicho, a voz começando a embragar:
-Um zorrilho...
-Putz... Um zorrilho? - Perguntou Paulo Roberto, comendo uma castanha de caju da tigela de vidro verde no centro da mesa.
-Um rozilho, Pê Erre... Digo, um zorrilho. É uma porra dum zorrilho, um bicho fedido, um bicho medonho, um bicho nojento...
-Ah, peraí, Everaldo, os zorrilhos não são medonhos, vá... São bonitinhos, até... Não te lembra do Peppe Le Pew, dos Looney Tunes? Todo romântico, e tal, apaixonado por aquela gata... Como era o nome da gata?
-Cala a boca, Pê Erre. Não tá vendo que eu tô em crise?
-Everaldo, meu velho, tu tá em crise desde que eu te conheci. E isso já tem uns vinte e poucos anos.
-Baita amigo, tu é. Eu aqui, fragilizado, e tu tirando sarro de mim. Quer saber o que mais? Vai tomar no olho desse teu cu, tá sabendo?
O Paulo Roberto riu enquanto sinalizava pro garçom pedindo mais uma Coca-Cola.
-Tá bom, Everaldo, então abre o teu coração. Me diz qual é o mal que te aflige.
O Everaldo resmungou alguma coisa enquanto se endireitava na cadeira com os braços equilibrados sobre a mesa molhada que sujou as mangas de sua camisa branca. Suspirou como quem ia começar a falar, mas refreou-se quando o garçom chegou com o refrigerante do Paulo Roberto.
-Mais um chope, Everaldo? - Perguntou o rapaz, apontando com o queixo pro copo vazio diante do cliente.
-Agora não. - Respondeu o Everaldo.
-Obrigado. - Complementou Paulo Roberto, olhando pro Everaldo com reprovação.
Serviu a Coca no copo com gelo e limão e olhou pro Everaldo:
-Então...?
O Everaldo suspirou, olhando em volta.
-Pê Erre... Tu é feliz?
O Paulo Roberto ficou encarando o Everaldo sem expressão.
-Como assim...? Quer dizer... Não sei, por que isso?
-É uma pergunta simples pra caráleo, Pê Erre, a resposta devia ser, também. Tu é feliz?
O Paulo Roberto ficou sério... Olhou pro próprio copo, olhou pra TV do bar, ligada na ESPN, e riu:
-Cara... Não é assim tão simples... Quer dizer... Se eu tivesse que dizer simplesmente sim ou não, eu diria provavelmente que não... Mas eu não acho que a vida seja assim, eu não acho que a gente seja feliz ou infeliz, acho que a gente tem momentos de felicidade e de infelicidade. Eu já experimentei os dois, entende? Já fui feliz e já fui triste. Acho que a gente não pode se definir como feliz ou infeliz porque, quer dizer, a vida vai sucedendo episódios, então, a gente não pode dizer "eu sou feliz" ou "eu sou infeliz", porque logo ali adiante, pode acontecer alguma coisa nova e mudar isso.
O Everaldo ficou olhando detrás dos óculos pro Paulo Roberto enquanto mexia com o dedo em um anel de água que suara de um copo de chope:
-OK... Faz sentido... Eu acho que tu ficou punheteando o assunto pra não responder, mas tem fundamento no que tu disse... Então me diz... Hoje... Tu tá feliz?
O Paulo Roberto jogou a cabeça pra trás e contraiu os lábios como quem reclama, mas se conteve. Suspirou:
-Hoje, em que sentido? Na últimas vinte e quatro horas? Nessa fase da minha vida? Nesse momento?
-Digamos na porra das últimas vinte e quatro horas, Pê Erre.
-Bom... Eu diria que sim, quer dizer... Eu estou com um amigo, que mesmo sendo chato pra caramba, depressivo, e incapaz de apenas jogar conversa fora como qualquer pessoa normal me acossa com profundas questões filosóficas... Estou vendo gente, tomando um refrigerante geladinho, comi um sanduíche bastante satisfatório, não me aconteceu nada de ruim no trabalho, minha casa está dentro de um patamar que eu considero funcional... Sim. Eu diria que nas últimas vinte e quatro horas eu estive mais pra feliz do que pra infeliz.
O Everaldo comeu uma castanha-do-pará da tigela no centro da mesa.
-"Mais pra feliz", tu disse... Mas feliz, feliz mesmo... Tu tá, Pê Erre?
O Paulo Roberto se impacientou:
-O que tu quer ouvir, Everaldo Que eu sou infeliz? Que minha vida é uma merda? Que eu me acordo todo dia de manhã pensando que ela não tá comigo? Que eu não senti mais o cheiro dela, do cabelo dela, que eu não vi mais o rímel em volta dos olhos dela, nem senti o sabor do batom com nome fazendo referência a alguma coisa fofa, que eu não senti mais a textura da pele dela, que eu não senti mais a maciez dos lábios dela... Então tá, eu sou infeliz, eu sou miserável, eu sou um desgraçado, um arremedo tristonho de gente, um autômato movido a sofrimento, tá melhor assim? Assim satisfaz a tua necessidade de companhia na tragédia?
O Everaldo tirou os óculos e os limpou enquanto acenava pro garçom com seu copo vazio. Colocou novamente os óculos no rosto enquanto pigarreava:
-Tu percebeu, né, Pê Erre... Que quem falou dela não fui eu... Foi tu. De qualquer forma, me agrada saber que tu tá infeliz por causa dela. Sabe... Isso me conforta por que vai ao encontro da minha ideia dessa questão de felicidade e infelicidade. Sabe, o meu ponto de vista, Pê Erre, é que, porra, se tu já foi feliz, como eu acho que tu foi com ela, e como, caralho, eu sei que eu já fui, quer dizer... Quando tu experimenta a definição de felicidade que é se sentir completo no abraço de alguém, ou se sentir melhor porque encontrou uma pessoa que te força sem nenhum esforço a ser o teu melhor... Porra... Porra, Pê Erre... Depois que a gente experimenta a felicidade desse jeito, sabe? Como essa merda é feita pra ser, porque, se existe um Deus, e ele inventou a felicidade, a porra que ele tinha em mente era isso: A completude que tu encontra em outra pessoa. O acalento. A calidez... Puta que pariu, tô me desviando do assunto...
Everaldo silenciou quando o garçom chegou, passando um pano na mesa para secar o excesso de água, pousou a bolacha e o copo diante do Everaldo, e saiu ouvindo o obrigado do Paulo Roberto.
Everaldo seguiu:
-De qualquer forma, Pê Erre, quando tu experimenta a felicidade que a gente experimentou ao lado delas, todo o resto é infelicidade. E sabe o que é mais estranho nessa putaria toda? Eu nem sequer lastimo a infelicidade de agora, porque essa porra serve pra eu lembrar o quanto eu já fui feliz. Por isso o amor é um zorrilho, Pê Erre, ele fica impregnado em ti, e não importa quantos banhos tu tome, em algum momento, tu vai lembrar do cheiro.
O Paulo Roberto pensou em parar de beber, mas lembrou-se que não bebia já tinha alguns meses. Tomara apenas refrigerante naquela noite. Isso o deixou, de fato, alarmado. Ele encontrara sentido no que lhe dissera o Everaldo, e sequer estava bêbado.
Era um mundo torto aquele em que Paulo Roberto vivia. Everaldo falava coisas com sentido, e ela e ele estavam separados.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mais uma de bar.


O Amadeu o Lúcio e o Carlos, sentados na mesa do bar falando de política, futebol e religião... Falavam mal de tudo, já que eram, os três, pais de família frustrados e cheios de amargura. Estavam no bar naquela noite de sexta justamente pra externar as suas aflições mais mundanas e afogar as mágoas mais imediatas com tantos chopes quantos pudessem pagar sem comprometer o orçamento doméstico da semana. Já haviam atacado as esferas municipal, estadual e federal do governo, os três poderes, e a programação da TV. Haviam falado mal da música nacional, e da música mundial, guardaram um pouco do veneno ao falar da música regional, mas apenas tiveram piedade do vanerão e do xote, o resto, não prestava.
Falaram mal da literatura, falaram mal do cinema, dos respectivos times, os dois gremistas, Carlos e Amadeu tinham mais do que se queixar do que o colorado, Lúcio, que ainda assim, conseguiu fazer muitas reclamações. Falaram mal dos patrões, dos empregos, das esposas e dos filhos.
Enfim, estavam acabando os tópicos de quê falar mal até que o Amadeu se levantou pra ir ao banheiro e, quando Carlos perguntou se ele ia querer mais uma saideira, ele se virou movendo apenas a parte superior do corpo e, apontando o indicador, fez que acertava um tiro, enquanto disse "Sim!".
Quando voltou à mesa, percebeu que o seu gesto sem sentido de bêbado trouxera à baila um novo assunto:
-Bond... James Bond... -Disse Carlos imitando, sem lá muito sucesso, um sotaque britânico.
-Porra, esse teu James Bond parece australiano, caralho... - Recriminou Lúcio.
-Mas já teve, né? James Bond australiano... - Arriscou Amadeu, descascando, com dificuldade, um amendoim.
-Que australiano, tchê? O James Bond é inglês, sempre... - Rosnou o Carlos, estranhamente ofendido.
-Não, burro. - Corrigiu o Amadeu. -O James Bond era inglês, mas um dos atores era australiano... Aliás, o Connery é escocês, o Brosnan irlândes, o Dalton galês... Acho que o único inglês foi o Roger Moore... - Completou Amadeu, espantado pela revelação.
Ficaram em silêncio, brevemente, até que Lúcio, pensativo, falou:
-Mas tu disse todos, rapaz. Nenhum desses é autraliano.
-Não, não... - Corrigiu o Amadeu. - Faltou o George Lazenby.
-Quem? - Perguntou o Carlos, bebendo um gole de chope.
-O George Lazenby. Ele foi o segundo Bond, se não me engano. A Serviço Secreto de Sua Majestade, foi o filme que ele fez. O Bond casava com uma mina lá, no final, e o Blofeld matava ela.
-O Bond nunca se casou. - Disse o Carlos, com pouco caso.
-Claro que casou, rapaz. No final de A Serviço Secreto de Sua Majestade. A mulher é uma condessa italiana, lá. Não lembro o nome... - Corrigiu Amadeu, contrariado.
-Casou nada. O Bond jamais se casou. O Bond ficou solteiro pra poder comer todas as mulheres que passaram na frente dele, que é o que eu deveria ter feito se eu fosse esperto... - Disse Carlos, olhando pro infinito.
-Mas aí tem dois problemas, né Carlinhos? Tu nem é esperto, e nem tem cacife pra comer todas as mulheres que passam na tua frente. - Observou o Lúcio, arrancando risadas dos amigos.
Ficaram em silêncio. Comeram amendoim e beberam chope de seus copos. Até que o Lúcio quebrou o silêncio.
-E esse alemão novo?
-Que alemão? - Perguntou Amadeu, distraído.
-Esse alemão que faz o James Bond, agora? O que cês acham dele?
Carlos e Amadeu resmungaram brevemente. Amadeu falou:
-Eu não curto, não... Gosto dos filmes, acho o cara um puta ator, mas ele não é o James Bond. Ele é o dublê inglês do Jason Bourne. Não é o Bond nem fodendo.
-Mas é inglês, né? - Quis saber o Lúcio. - Nascido na Inglaterra, mesmo, e tal.
-É... Acho que é, sim. - Assentiu o Amadeu.
-É... Acho que depois do Connery é o que eu gostei mais. - Completou Lúcio. - Os filmes tem mais ação e tal...
-Eu gosto do Connery. É o original, e tudo. Gosto mesmo. Gosto do Brosnan, também. Especialmente no GoldenEye, mas cara... Vou dizer que o meu preferido era o Timothy Dalton. Velho, o Bond dele era frio pra caralho. Era tão frio quanto o Bond do Daniel Craig, mas era Bond. Ele comia as bond girls, ele bebia o martini batido, não mexido, porra, velho... Permissão Para Matar deve ser o melhor filme de ação e espionagem da franquia... O Timothy Dalton, sim... Esse era o cara. - declarou Amadeu, olhando pro próprio copo.
Lúcio virou-se pro Carlos e perguntou:
-E tu, Carlinho? Qual teu preferido?
O Carlos, amargo, rosnou:
-Qualquer um, menos esse polaco, aí.
-Qual polaco? O Craig? - Quis saber o Lúcio.
-E. - Assentiu o Carlos.
-Mas por quê? - Inquiriu o Amadeu.
-Porra velho...- Começou o Carlos, bebendo o último gole de chope do copo. -Cês viram esse último 007? O último filme? Esse que não teve nome em português? Quantum seiláeuoquê?
-Quantum Of Solace. - Acudiu o Lúcio.
-É. Esse filme aí. - Confirmou Carlos. - Cês lembram das mulheres do filme?
O Lúcio puxou pela memória. O Amadeu, menos bêbado e menos esquecido, lembrou-se rapidamente.
-Arram... Eram aquela inglesa do Príncipe da Pérsia... Cumé o nome dela... Porra, no filme ela era a agente Strawberry Fields! Cara, genial! Como é que chama a atriz? Gemma alguma coisa... E a outra era aquela ucraniana linda demais, a Olga Kurylenko...
-Aí que me refiro. - Disse o Carlos, estendendo a mão como se quisesse pegar o argumento flutuando no ar. Lembra dessa Olga Kurylenko? Lembra dessa mulher?
Lúcio e Amadeu confirmaram suspirando e olhando pra cima.
Pois então. O James Bond lá, comeu a Strawberry Fields, beleza. E a Olga Kurylenko? Ele comeu?
O Lúcio nem se esforçou pra tentar lembrar, olhou direto pro Amadeu que balançou brevemente a cabeça e respondeu:
-Não... Não comeu.
-Arrá! - Esbravejou o Carlos, batendo com a mão espalmada na mesa e derrubando o copo vazio. - Esse filho da puta não comeu a Olga. Não comeu. Porra velho. O James Bond tem a merda da obrigação moral de comer todas as bond girls. TO - DAS! - Frisou, movendo as mãos como se estivesse colocando neón nas sílabas.
-Velho, eu sou casado, eu sou feio, pobre, não posso ficar viajando pelo mundo metendo chumbo e porrada em todos os bandidos que me aparecem pela frente e nem comendo todas as gostosas que passam embaixo da minha vista, então, caralho, metaforicamente falando, o pau do James Bond é o meu pau! E ele tem que ser usado sempre! Sempre!
Carlos terminou o discurso sob os olhares de todos os presentes no bar, cruzou os braços sobre a mesa e deitou a cabeça escondendo o rosto. O Amadeu e o Lúcio não chegaram a ter certeza de que ele estava chorando, mas acharam melhor pedir a conta.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Eu queria ser...


-Eu nunca me imaginei, sabe... Como o personagem principal da história. De nenhuma história. Nem da minha vida. Ás pessoas veem as próprias vidas como um filme da qual são protagonistas, mas eu não... Quando eu penso na minha vida, eu imagino que ela é o personagem principal. A história dela. Os eventos, as coisas que eu presencio... Sempre foi assim. A vida das outras pesoas eram grandes filmes repletos de romance, drama, ação, tragédias e conquistas... A minha não. A minha era um documentário. As outras pessoas eram mártires e heróis nas suas histórias particulares, eu me sentia bem sendo o coadjuvante, entende?
Ela ficou olhando pra ele sem muita certeza de que havia entendido. Foi honesta.
-Não tenho certeza se eu entendi...
Ele suspirou enquanto se virava de barriga pra cima e encarava o teto. Pensou em um símile que pudesse usar de modo a fazê-la entender a que se referia.
-Bom... Pega Star Wars, por exemplo... O personagem central, é o Luke Skywalker, né? É ele o catalisador de toda a trama. É o fato de ele resolver sair de Tatooine e talicoisa que desencadeia tudo, até a morte do Palpatine, certo?
-Certo. - Ela concordou, atenta.
-Bom, a maior parte das pessoas, tem tendência a verem a si próprias como o Luke Skywalker em Star Wars. Claro, pode variar um pouquinho de acordo com a visão de cada um... Tu pode te achar mais Léia... Outra pessoa pode se achar mais Han Solo... De repente tem algum maníaco que se sente mais Darth Vader... Eu não... Se eu fosse imaginar a vida como Star Wars, eu acho que seria o Ben Kenobi...
Ele virou pra ela e sorriu. Ela correspondeu enquanto passava a mão delicada pelo peito dele.
-Sabe... Eu sempe achei o Obi-Wan o cara mais maneiro da galáxia.
Ele riu.
-Achar o Obi-Wan o personagem mais maneiro de Star Wars é a mesma coisa que ter como Beatle preferido o Ringo.
-O molequinho de Simplesmente Amor só conseguia conquistar a Joanna por causa do Ringo.
Ele não disse nada. Continuou olhando pra cima.
-E, sabe... Depois da trilogia nova, com o Obi-Wan do Ewan McGregor, e tal, um monte de gente pode ter começado a curtir o personagem, mas ele já era o meu preferido na época do Alec Guiness... Eu chegava a brincar que era um fantasma da Força e enfrentava stormtroopers e tal... De qualquer forma, eu sempre achei que pra mim estava bom ser testemunha.
Ele se endireitou olhando pra ela, direto nos olhos.
-Mas agora que eu te conheci... Sabe... Me dá um pouco mais de vontade de ser mais catalisador... Mais herói... Até mais mártir se for o caso. Não que eu, de uma hora pra outra, decidi virar o Luke Skywalker, não... Mas talvez, sabe... Quem sabe o Han Solo? Porque eu descobri que tem uma coisa nessa vida que eu não quero ver passar... E é tu.
Ela sorriu envolvendo o seu pescoço com os braços enquanto dizia em seu ouvido:
-Eu te amo.
Ele sorriu enquanto abraçava ela de volta:
-Eu sei.