Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Quadrinhos: Hellboy - Edição Histórica Vol.5 : Máscaras e Monstros
Este setembro foi um bom mês para os fãs do demônio mestiço Anung Un Rama. Além da edição caprichada (e muito boa) Hellboy - A Noiva do Demônio e Outras Histórias a Mythos colocou nas bancas este quinto volume da Hellboy Edição - Histórica, série caprichada publicada pela editora com capa dura com letra dourada, papel bonito no miolo e tudo mais a que o diabo favorito dos fãs de quadrinhos tem direito.
Essa edição, Máscaras e Monstros traz um crossover duplo de Hellboy com heróis da DC comics.
Na primeira, Nazistas em Gotham, como o título explicita, Hellboy vai a Gotham City para ajudar Batman com um caso envolvendo o doutor Ted Knight, o Starman original, que é sequestrado por um grupo de nazistas com poderes místicos durante uma palestra. Após uma breve investigação da dupla, os dois heróis descobrem que os vilões fugiram pra amazônia levando o refém consigo.
Na segunda parte, Horror na Floresta, Hellboy parte para a amazônia acompanhado de Jack Knight, filho de Ted e novo Starman para resgatar seu pai, descobrir os reais planos dos nazistas e dar-lhes um fim.
É uma história menor de Hellboy, esse crossover. Embora tenha muitas das melhores características que nos acostumamos a encontrar nos quadrinhos do herói, como o os monstros lovecraftianos, os nazistas e tudo mais, e tenha roteiro e arte de Mike Mignola, o pai do HB, me senti desconfortável em ler uma história do Hellboy onde ele praticamente se torna coadjuvante dos convidados, especialmente do Batman.
É até engraçada a excessiva reverência que os escritores em geral têm para com o morcegão na hora de fazer um encontro de qualquer personagem com o Homem Morcego.
Ainda assim, Batman Hellboy Starman é uma história que vale a leitura, especialmente para fãs de qualquer um dos três personagens, embora não vá fazer nenhum novato se apaixonar por nenhum dos heróis.
A sequência da edição traz um encontro de Hellboy com outra personagem da Dark Horse Comics, e que, ao menos pra mim, era completamente desconhecida, tanto que eu nem sequer sabia que se tratava de uma personagem com gibi próprio nos EUA:
Ghost.
Ghost era Elisa Cameron, uma repórter assassinada por criminosos que busca vingança contra seus executores bem como detalhes a respeito do porquê de sua morte.
Na história partilhada entre a moçoila e o vermelhão, Hellboy viaja até a cidade natal de Ghost, Arcadia, para investigar o fantasma que mata pessoas com pistolas calibre 45., a própria Ghost.
Após o primeiro contato de ambos, a heroína é levada à presença de uma criatura que se auto-intitula Paz, e essa entidade diz que pode oferecer algo que Ghost deseja em troca da mão direita de Hellboy, o que coloca os dois, inicialmente um contra o outro, e depois, conforme manda o manual do crossover, unidos contra o inimigo em comum.
Essa história é melhor que a anterior, o roteiro de Mignola é divertido, mas a arte de Scott Benefiel não é das melhores. Na verdade é provavelmente a arte mais sem graça que já vi num quadrinho de Hellboy, nada que atrapalhe a diversão, porém.
Entre os extras, além de várias capas, glossário arcano e caderno de esboços (tudo isso "itens de série" nos quadrinhos do Hellboy publicados pela Mythos) há ainda a curiosa forma como Mignola passou o roteiro do crossover de Ghost com Hellboy a Scott Benefiel: Tudo na forma dos layouts de cada página.
Enfim, Hellboy - Edição Histórica Volume 5: Máscaras e Monstros é divertida, leitura pra se devorar em pouco tempo sentado do lado de um copo de guaraná em temperatura ambiente, mas não é melhor que A Noiva do Demônio e Outras Histórias, e se tu tiver que escolher entre uma e outra, fique com a segunda sem arrependimentos, mas se der, compre as duas. Vale a pena e fica bonito na estante.
"Com todo o respeito, Batman, por mais que acredite ser experiente no que diz respeito à magia, se comparado a mim você não sabe nada."
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
O Jogador Problema
Existe no RPG um tipo de player a quem cabe chamar de Jogador problema. Feliz do mestre de jogos que consegue levar sua campanha adiante sem um jogador problema no grupo. Esse mestre consegue conduzir a trama de sua campanha de maneira leve e descontraída, aumentar o foco na interpretação em certas ocasiões e deixar as coisas mais dramáticas em outras tantas. Esses mestres que não tem um jogador problema no grupo não sabem a sorte que têm a menos que já tenham tido um jogador problema no grupo.
E vamos deixar bem claro que, quando me refiro a jogador problema, não estou falando daquele colega que tem vergonha de interpretar seu personagem à mesa, nem daquele porra-loca que fica dissecando o livro de regras em busca de uma maneira de aumentar os próprios poderes a qualquer custo... Não. Esses jogadores um mestre tira de letra. Eles são fáceis de levar, são até divertidos em determinadas ocasiões.
O jogador problema é diferente disso. O jogador problema não está particularmente interessado nos seus índices de jogo, embora, claro, tenha interesse em ter o melhor personagem possível, ele não está interessado em ser uma máquina de matar, não. Tampouco tem vergonha do role play, embora, ás vezes, o mestre e os demais players à mesa desejem que ele tivesse.
O jogador problema é identificável pois ele é o jogador que monta o personagem que ninguém quereria montar. Enquanto todos gostam da ideia de ser um personagem forte, ou com grande potencial que crescimento de poder, o jogador problema monta personagens que só funciona dentro da sua cabeça, e que só existe na mesa do coitado do mestre que o acolheu.
O jogador problema é um meio-elfo com quatro classes de personagem ao mesmo tempo. Ele é um gnomo cantor, é um halfling dançarino, um anão pacifista com lesões cerebrais.
O jogador problema é aquele que sempre se separa do grupo obrigando o mestre a conduzir uma narrativa que é somente sua, e que serve unicamente pra que ele se sinta protagonista e atravanque a condução da história.
O jogador problema prefere ser um protagonista que só se dá mal, a ser um coadjuvante trabalhando pelo bem do time.
Claro que existem formas de mestrar para o jogador problema. Elas geralmente envolvem que o mestre use sua prerrogativa de ser árbitro do jogo e se comporte de forma arbitrária...
Aquela caixa na sala abandonada? Tinha um leopardo da neve faminto, lá dentro.
Aquela porta trancada no corredor do oitavo andar? Um portal dimensional levando para o abismo...
A velhinha andando solitária pela rua que entrou em um beco? Um doppleganger muito mal intencionado...
Não faz sentido, eu concordo. Parece estrambólico ou exagerado, mas são maneiras de se fazer um sinal, um sinal bem claro e específico, mostrando ao jogador problema que, se ele age de maneira idiota, coisas idiotas acontecem com ele.
O maior risco que o mestre corre é o de o player começar a pegar gosto pelas próprias desventuras, não importa o quão idiotas elas sejam...
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Resenha Cinema: Dredd
Em 1977 o escritor de quadrinhos John Wagner, com a participação do desenhista Carlos Ezquerra e do editor Pat Mills, criou o "tira durão" definitivo para figurar no elenco do quadrinho britânico 2000 AD.
Na visão de futuro distópico de Wagner e companhia o Mundo de cento e vinte anos no futuro fora consumido pela guerra atômica e os sobreviventes se esconderam das ruínas do planeta em megalópoles hiper populosas conhecidas como Mega Cidades.
Na cidade de Mega City 1, lar de 400 milhões de pessoas vivendo em imensos complexos habitacionais conhecidos como "city Blocks", assim como em todas as Mega Cidades, o crime se tornou uma praga. Uma praga tão incontrolável e devastadora que a única forma de controlá-la, ou ao menos mantê-la em níveis toleráveis, foi a criação do Sistema de Juízes. Uma tropa de mantenedores da lei formada por agentes que acumulam o papel de polícia, juiz, júri e, se necessário, executor.
Na corporação, nenhum Juiz é mais temido e eficiente do que Joseph Dredd.
O gibi de Wagner é extremamente bem sucedido na Grã Bretanha, onde é publicado de forma praticamente ininterrupta desde 1977, até 1990 na 2000 AD e de 90 até hoje na sua própria revista.
A longevidade de Dredd se deve tanto à qualidade do trabalho de Wagner e seus associados quanto ao carisma do personagem, um Dirty Harry futurista que vive em um futuro tenebroso que serve ao mesmo tempo como palco às aventuras do juiz e cenário daquela tradicional crítica social que parece inerente ao quadrinho britânico, que usa o poder conferido ao herói como uma crítica aos estados policialescos, e pinta com cores berrantes um inspirado retrato das tribos urbanas inglesas do final dos anos setenta em histórias tão doidas que só podiam, mesmo, originar uma legião fiel de seguidores.
Era óbvio que um personagem tão longevo e com aquela cara típica do herói americano que toma a lei nas suas próprias mãos não ficaria restrito apenas aos quadrinhos.
Foi em 1995 que o herói saiu dos gibis para a telona pela primeira vez. O diretor Danny Cannon chamou Sylvester Stallone, Armand Assante e Rob Schneider e juntos eles cometeram O Juiz. Filme ruim pra mais de metro que escondeu o personagem sob o astro de ação, amoleceu Dredd, e ainda por cima tirou seu capacete (coisa que jamais aconteceu nos gibis.).
Após o fiasco o personagem permaneceu restrito aos quadrinhos até que, nesse ano de fim do mundo em que não há personagem que não ganhe adaptação, remake ou sequência, resolveu dar as caras em celuloide mais uma vez.
Pete Travis, do bem intencionado Ponto de Vista foi quem assumiu a bronca, e apesar do meu desdém absoluto por Dredd 3D desde a primeira notícia, resolvi encarar o filme nesse fim de semana, e posso dizer, sem medo de errar, que 2012 continua muito bom pra adaptações de quadrinhos.
Dredd reapresenta o personagem Joe Dredd (Karl Urban, divertidíssimo no papel, rabugento e raivoso), juiz mais temido de Mega City 1.
Dredd é incumbido de avaliar se a aspirante Cassandra Anderson (Olivia Thirlby), uma jovem mutante com poderes psíquicos, tem condições de aplicar a lei na corporação de Juízes.
Em sua primeira missão, Anderson acompanha Dredd até o bloco de Peach Trees, um enorme complexo habitacional de duzentos pavimentos com milhares de habitantes onde o crime impera sob a forma de Ma-Ma (Lena Headey), uma violenta traficante de drogas que prosperou através de sua crueldade implacável e da droga Slo-Mo, um narcótico que faz com que o usuário experimente a sensação de vivenciar a realidade a um por cento da velocidade normal.
Após uma batida, Dredd e Anderson se veem isolados e incomunicáveis em Peach Trees, sendo obrigados a lutar, mais do que manter a lei, para sobreviver à ira da gangue de Ma-Ma.
Em uma palavra?
Divertidíssimo.
Dredd é um filmão pipoca no melhor sentido da expressão. Pete Travis e o roteirista Alex Garland (parceiro recorrente de Danny Boyle) eliminaram a frescura da equação e conseguiram escapar da chatice dos filmes de origem, dos interesses românticos artificiais e da viadagem da censura livre, fazendo um filme extremamente honesto e coerente para com o personagem em sua fonte original ao resolverem contar uma história simples, de apenas mais um dia de trabalho do Juiz Joseph Dredd, casualmente com a recruta Cassandra Anderson a tiracolo numa missão em que dá merda.
Travis usa cenários claustrofóbicos e econômicos com fotografia chapada que contrastam com belas sequências em câmera lenta que ganham cores brilhantes para ilustrar o ponto de vista dos usuários da Slo-Mo, essas sequências geralmente mostram os viciados se dando muito mal em tiroteios com Dredd, e são plasticamente muito bonitas, além de extremamente violentas.
O diretor e seu protagonista, o Eomer Karl Urban (sempre com os lábios contorcidos pra baixo como nas ilustrações de capa dos quadrinhos de Dredd e entoando o "Eu sou a lei" cavernso que quem já leu um quadrinho do personagem sempre imaginou.), merecem aplausos, também, por serem extremamente fiéis ao gibi, e leais ao espírito do personagem, que não remove seu elmo em nenhum momento do filme, e mantém a rabugisse quase neurótica que o consagrou na 2000 AD, assim como a absoluta ausência de dúvida, remorso ou senso de humor.
Lena Headey não faz feio no papel de Madeline Madrigal, a Ma-Ma, e mesmo fazendo cara de má em alguns momentos e não tendo expressão nenhuma em outros, convence como vilã. Olivia Thirlby é engraçadinha, faz uma bacana versão recruta da juíza Anderson, que apesar da inexperiência ainda consegue seus bons momentos de heroísmo. O elenco, que tem ainda Wood Harris e Langley Kirkwood não compromete, e nem tinha como.
Pete Travis e Alex Garland conseguiram sintetizar tudo o que o juiz Dredd tem que ser em qualquer midia nos 95 minutos de cinema de primeira, com parte técnica acima da média, ação de qualidade e frases de efeito de rachar o bico de Dredd.
Será que custa sonhar com uma sequência da mesma equipe?
"-Estava pensando em quando você notaria que esqueceu o capacete.
-O capacete interfere nas minhas habilidades psíquicas, senhor.
-Uma bala interferiria mais.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Sinceridade
Foi ainda no começo da adolescência que conheci o César.
Sujeito de estatura baixa e má construção física, era aqueles magros com uma barriga murcha pendendo como uma pochete flácida de pele sobre a cintura (onde, aliás, geralmente repousava uma pochete de lona de verdade.). Ele mesmo referia-se ao próprio tipo físico como "Uma minhoca que engoliu uma azeitona".
Tinha pernas e braços finos, a tez muito branca, quase amarela, e uma quantidade generosa de sinais e pintas pelo corpo. Careca, com alguns poucos cabelos castanhos finos ao redor da cabeça, tinha um rosto quadrado, olhos bem juntos, quase nenhuma sobrancelha e um espaço generoso entre os dois dentes superiores da frente.
Geralmente vestia-se com bermudas jeans que obviamente haviam visto dias melhores na forma de calças até estarem envelhecidas e maleáveis, serem cortadas sem lá grande esmero ou cuidado na altura das pernas e seguirem sua vida deixando os cambitos de César à vista de todos.
César tinha uma pequena loja, mais ou menos do tamanho de um armário de vassouras na cidade baixa, e vendia ali todo o tipo de porcaria velha. Se alguém tivesse um fogão fabricado em 1972 e precisasse de peças de reposição, era provável que as encontrasse na loja do César. Se alguém estivesse procurando aquelas agulhas pra desentupir a boca dos queimadores do fogão, encontraria ali, também. O mesmo valia pra placas de carro velhas e enferrujadas, crânios de animais, aqueles engradados em miniatura da Coca Cola, com algumas das garrafas com conteúdo pela metade e as demais faltando, bichos de pelúcia caolhos, ventiladores com as hélices e a grade de metal, e outras porcarias do tipo.
César também vendia revistas velhas, que pendurava com prendedores de roupa em alguns varais que cruzavam pelo alto o exíguo espaço de sua loja. Vendia todas sem muita distinção, lá havia edições da Planeta datadas dos anos setenta, da revista Manchete, até uma Cruzeiro eu vi pendurada lá, uma vez.
Foi justamente por isso que conheci o César. Por causa das revistas.
Certa feita passei em frente à sua loja e vi uma edição encadernada de Batman - O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller pendendo em seu varal. Haviam alguns garranchos feitos à caneta azul na capa, mas o interior do gibi, à exceção de algumas orelhas em diversas páginas, estava em perfeito estado. Comprei por dois Reais. Na época nem havia nota de dois, dei duas notas de um Real, daquelas verdes, com um beija-flor que nem existem mais.
Continuei frequentando a lojinha do César dali por diante, e, conforme me tornava, de fato, seu cliente recorrente, fui aprendendo o quanto o César era desagradável.
O César, por exemplo, não tinha pudores em vender revistas proibidas para menores a menores. Aliás, não fosse (mais) essa faceta abjeta do César, e eu provavelmente não teria continuado sendo seu cliente dada sua falta de esmero na hora de selecionar o estados dos gibis que comercializava. Nos meus quatorze anos de idade era muito importante pra mim ter acesso à nudez feminina, e as únicas formas disponíveis à época, eram comprando revistas ou assistindo à peças de teatro que porventura apresentassem alguma nudez como A Farsa Trágica do grupo Falos & Stercus, que assisti quatro vezes para ver uma atriz nua.
As peças teatrais eram raras, especialmente aquelas que permitiam a entrada de menores quando havia "conteúdo adulto, e César garantia acesso as revistas.
Mais do que isso, dava dicas.
Ainda lembro de uma vez em que, modesta e timidamente peguei uma Playboy qualquer, não lembro quem era a capa da edição, e ouvi de César:
-Que é isso? Não compra essa revista, não, que isso é uma merda. Quer ver pentelho olha os teus quando for mijar. Aqui, ó. Leva essa importada, é só um real mais cara e "as mina se arreganha inteira".
Talvez agora fique mais claro o quanto o César era desagradável.
Ainda que fosse desagradável, não estivesse nem perto de ser bem sucedido, fosse uma figura feia, e não fosse particularmente inteligente, após algum tempo surgiu uma namorada para trabalhar com César, que ficava na loja em seu lugar em algumas ocasiões. Era mais jovem que o César, tinha os cabelos descoloridos nas pontas com raízes muito escuras, e embora não fosse uma mulher feia como era de se esperar ao lado de César, tinha uma certa qualidade avoada, quase infantiloide, que fazia-me sentir alguma piedade dela.
Nunca soube se ela era de fato namorada do César, não me lembro nem de vê-lo tocar nela, ou sequer chamá-la pelo nome, geralmente ele a chamava com um "ô", ao que ela atendia de pronto.
Logo que ela surgiu, comecei a parar de frequentar a lojinha de César, tanto por vergonha quanto por receio.
Acho que a faceta desprezível do César era tão vívida que eu temia, inconscientemente, que ele fosse tentar se tornar cafetão da tal moça e oferecer serviços de alcova dela a preços módicos, talvez executados em uma cama minúscula, ou num colchão sem forro que, eu supunha, ele fosse ocultar atrás da cortina puída que dividia em dois o espaço acanhado de seu estabelecimento.
Pelo que conhecia de César, não duvido que ele se proporia a agenciar a prostituição de sua companheira e ainda ficar vendo de esguelha enquanto se consumava o ato.
Mas antes disso, em certa feita, eu entrei no muquifo de César e me pus a vasculhar suas revistas enquanto ele conversando com uma velhinha grisalha de vestido floreado e chinelos de camurça. A idosa comentava com César a respeito de uma matéria que vira na televisão, dando conta de um rapaz, que descobrira após o casamento, que sua noiva era um travesti.
A velhinha, escandalizada, dizia:
-Imagine, seu César. Na noite de núpcias, descobrir que a noiva é homem.
E o César, muito natural, sentado em sua banqueta alta com a perna cruzada e o chinelo Samoa batucando no calcanhar, respondeu de bate-pronto:
-Eu viro ela e faço anal. Nem quero saber. Viro ela e faço anal.
A velhinha, com uma expressão escandalizada, cobriu a boca muito aberta com a mão, e despediu-se de César com um aceno mudo, que ele respondeu com um "tchauã".
César era assim... Desagradável.
E talvez o fosse por ser excessivamente sincero.
César não era um desses trolls da internet, dono de uma sinceridade artificial, que se esconde sob o manto da distância e do anonimato para ser grosseiro com todo mundo em busca de uma auto-afirmação de qualquer espécie, ou de risadas grosseiras.
Não. César era um grosseiro genuíno, pois genuína era sua sinceridade. Sua sinceridade e a consequência que ela trazia, aquela qualidade repelente, não eram um joguete, não era um estilo adotado, eram intrínsecos à sua personalidade. Ele não sabia ser diferente daquilo, e sincero que era, provavelmente nem queria.
Conheci, depois, muitas pessoas tão desagradáveis quanto o César. Mas nenhuma tão sincera, e nem tão autêntica.
... Ainda bem...
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Rapidinhas do Capita
Que bela maravilha. Na melhor notícia da semana, a Nestlé avisa que o chocolate Milkybar vai mudar de roupa e parar de malhar pra voltar a ser o fofinho Lollo.
O doce que tinha mudado de nome em 1992 deixando crianças pelo Brasil inteiro (inclusive este humilde e saudoso escriba) órfãs de sua guloseima favorita vai voltar.
Pra quem acha que é furada e que Milkybar é a mesma coisa que Lollo, ledo engano:
A própria Nestlé precisou verificar, antes de oficializar o revival, se ainda teria condições de reproduzir a receita original do chocolate, muito mais macio que a versão atual e que de tão sem graça restringe-se às caixas de Especialidades Nestlé.
Enfim, pra ficar perfeito só falta voltarem à TV as propagandas animadas com uma barra de chocolate bunduda gritando "Tô fofo! Tô fofo!", os picolés Fura-Bolo e Squeeze voltarem a ser produzidos, os Comandos em Ação voltarem a ser apenas brinquedos maneiros e eu arranjar uma máquina do tempo pra voltar à minha pré adolescência.
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Foi em Teresina, no Piauí, que o TRE local e a Polícia Federal iniciaram investigações após declaração do candidato à prefeito Wellington Dias sobre candidatos a vereador que estariam trocando votos por crack.
Bom... A despeito do crime de tráfico de drogas e crime eleitoral, droga na política, parece um lance incrivelmente apropriado...
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Barack Obama disse em um dos jantares pra angariar fundos à sua campanha para concorrer à Casa Branca em 2008 que não nascera em uma manjedoura, mas sim em Krypton.
Depois apareceu em histórias em quadrinhos do personagem Savage Dragon, da Image Comics, e em Homem-Aranha, da Marvel.
O super-herói Great Machine, dos gibis Ex Machina, da Wildstorm impediu um dos atentados de 11 de setembro e se tornou prefeito de Nova York, cargo que J. Jonah Jameson também ocupa nos gibis do Aranha, e no universo DC o vilão Lex Luthor já foi presidente dos EUA.
Agora chegou a vez de um super-herói sentar na poltrona do homem mais poderoso do mundo. No selo Ultimate o Capitão América é eleito presidente dos EUA mesmo sem estar filiado a nenhum partido político e aceita o emprego, tendo a missão de reunir o país, assolado pelo sectarismo e o preconceito contra os mutantes.
Vale lembrar que o Capitão América da linha Ultimate não é o mesmo sujeito com jeito de tiozão boa praça que vemos nos gibis de sempre e nos filmes. A versão idealizada por Mark Millar para Os Supremos mostra um sujeito muito mais conservador militarista. Aparentemente vem um George W. Bush com superpoderes no comando dos EUA do Ultiverso.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Uma Festa Há Muito Esperada...
Em uma casa em Oxford vivia um professor...
Não se tratava, porém, de qualquer professor. Um desses chatos que simplesmente vão de casa pra escola e da escola pra casa e entre uma coisa e outra enchem a lousa com palavras chatas e os ouvidos dos alunos com palestras sonolentas. Não senhor. Esse professor nasceu na extinta República do Estado Livre de Orange, hoje África do Sul, e aos três anos de idade se mudou para a Inglaterra com a mãe e o irmão, onde naturalizou-se britânico. Ele cursou a faculdade de letras em Exeter, e esteve no fronte de combate na Primeira Guerra Mundial. Ele era John Ronald Reuel Tolkien, e isso, acima de tudo, significa Arda.
Mais do que isso, significa O Hobbit. Significa O Silmarillion, significa Contos Inacabados e A História da Terra Média e significa O Senhor dos Anéis...
A Semana Tolkien começou a ser observada pela Tolkien Society em 1978, e segundo a entidade ela é celebrada na semana de setembro que abarca o dia 22.
Segundo nos contou o pai da literatura de fantasia moderna foi em um 22 de setembro, no ano de 2890 da Terceira Era que nasceu Bilbo Bolseiro, personagem central de O Hobbit, e também no mesmo dia 22 de setembro, mas de 2968, nasceu seu primo, Frodo Bolseiro, que seria o protagonista de O Senhor dos Anéis.
A versão 2012, que começou ontem, em particular é especial pois celebra o septuagésimo quinto aniversário da publicação de O Hobbit (que terá a primeira parte da trilogia que adapta o livro ao cinema lançada no próximo mês de dezembro), originalmente publicado em 21 de setembro de 1937.
A Semana Tolkien, no hemisfério norte costuma ser lembrada com seminários, promoções em livrarias e até com maratonas de O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.
Aliás, Peter Jackson avisou pelas redes sociais que nessa Semana Tolkien vai presentear os fãs do filólogo mais maneiro da História da humanidade com um novo trailer de O Hobbit, além de mais um ou outro mimo, então vale a pena ficar de olho no Youtube e outros canais de vídeos pra dar aquela espiada no que vem por aí.
Também fica a dica pro pessoal que se amarra nas aventuras passadas no "Mundo Secundário" de J. R. R. pra, quem sabe reler sua obra favorita, conhecer uma nova, ou simplesmente assistir à trilogia original, quem sabe nas versões estendidas que estão nas lojas e valem, muito, a conferida. Além disso, serve de aquecimento pra O Hobbit - Uma Jornada Inesperada, que estréia em 14 de dezembro. Fique com o primeiro trailer e não se arrepie com a canção dos anões:
sábado, 15 de setembro de 2012
O Vilão.
E de repente, o Heraldo, sentado sozinho no muro de tijolos à vista da casa da praia, sentindo o vento que vinha da praia menos de cem metros atrás de si, teve uma sensação muito dolorida.
O Heraldo sempre se imaginou como o coadjuvante do filme.
Sério. Se a vida fosse um filme, o Heraldo jamais se via como o personagem central. Se a vida fosse ...De Volta Para o Futuro, o Heraldo se imaginaria como o doutor Brown, e não como Marty McFly. Se a vida fosse Star Wars, ele não seria o Luke, ou o Vader, ou Han Solo, ele seria Obi Wan Kenobi. Se a vida fosse O Senhor dos Anéis, ele não seria o Froddo ou o Aragorn, mas o Gandalf, e se a vida fosse o universo Marvel, ele seria o Uatu.
Era uma visão de mundo inerente ao Oswaldo, quando ele percebeu que os papéis da vida se limitam ao de vítima ou de testemunha. E ele achava muito mais interessante ser testemunha. Por isso ele não se queixava das coisas. Por isso via a vida por um prisma muito específico de pessimismo e distanciamento que lhe permitiam não se envolver a ponto de ser a vítima da própria história.
Mas o Heraldo era humano, ainda que resoluto, e humano que era, era falho, e, vez que outra, acabava seduzido por aquilo que desejava, e falhava na sua decisão.
Normalmente, tais lapsos de esperança e de ingenuidade auto infligida eram inofensivos, relativamente breves e permitiam que ele recobrasse a consciência sem se ferir ou ferir outrem.
Mas o Heraldo, subitamente se viu onde sempre desejara estar.
Se viu feliz a ponto de imaginar que podia haver um terceiro papel a desempenhar na vida que não o de testemunha ou o de mártir. E ousou se deixar levar. Ousou ser feliz. Ousou se entregar, abrir, pelo menos um pouco, os portões, as portas e as janelas.
E assim, com tudo arejado, e com espaço pra ela começar a entrar, ele se viu, de fato, feliz. Completo. Alegre como nem sabia que conseguia estar. Sem preocupações. Sem problemas. Sem medo.
Mas havia, ainda, uma reserva de Heraldo em Heraldo. E a vida não deixa passar nenhuma oportunidade de chutar um incauto nas costas.
Na primeira, ao vê-la de olhos marejados, Heraldo supôs que não fora nada.
Que fora um lapso. Que não era nada pra se preocupar.
Na segunda, porém, ao vê-la de coração tão cheio. Ao vê-la conjecturando, e percebendo o que estava perdendo por estar junto com ele...
A primeira reação de Heraldo foi ficar com raiva. Ele ficou enraivecido. Muito. Frustrado. Magoado. Sentindo-se traído.
Mas foi breve.
Ele percebeu, então, que a culpa não era dela. Ele percebeu que ela estava fazendo o que era natural de fazer. Conjecturando. Sonhando. Imaginando "e se...?".
E que a culpa era dele. Era dele apenas, pois por mais que tentasse. Por mais que quisesse, esse ainda precisava de um perímetro.
Uma zona de conforto.
Uma área de segurança.
Um espaço pra onde fugir, e do qual não sabia abrir mão.
A culpa era dele, e dele apenas.
Heraldo descobriu, desolado enquanto a brisa açoitava suas costas, que ele não era mártir na sua história, tampouco testemunha.
Ele era seu próprio arqui-inimigo.
O vilão da própria história.
E só tinha uma maneira de derrotá-lo:
Impedindo-o de ferir as pessoas a quem ele amava.
O Heraldo sempre se imaginou como o coadjuvante do filme.
Sério. Se a vida fosse um filme, o Heraldo jamais se via como o personagem central. Se a vida fosse ...De Volta Para o Futuro, o Heraldo se imaginaria como o doutor Brown, e não como Marty McFly. Se a vida fosse Star Wars, ele não seria o Luke, ou o Vader, ou Han Solo, ele seria Obi Wan Kenobi. Se a vida fosse O Senhor dos Anéis, ele não seria o Froddo ou o Aragorn, mas o Gandalf, e se a vida fosse o universo Marvel, ele seria o Uatu.
Era uma visão de mundo inerente ao Oswaldo, quando ele percebeu que os papéis da vida se limitam ao de vítima ou de testemunha. E ele achava muito mais interessante ser testemunha. Por isso ele não se queixava das coisas. Por isso via a vida por um prisma muito específico de pessimismo e distanciamento que lhe permitiam não se envolver a ponto de ser a vítima da própria história.
Mas o Heraldo era humano, ainda que resoluto, e humano que era, era falho, e, vez que outra, acabava seduzido por aquilo que desejava, e falhava na sua decisão.
Normalmente, tais lapsos de esperança e de ingenuidade auto infligida eram inofensivos, relativamente breves e permitiam que ele recobrasse a consciência sem se ferir ou ferir outrem.
Mas o Heraldo, subitamente se viu onde sempre desejara estar.
Se viu feliz a ponto de imaginar que podia haver um terceiro papel a desempenhar na vida que não o de testemunha ou o de mártir. E ousou se deixar levar. Ousou ser feliz. Ousou se entregar, abrir, pelo menos um pouco, os portões, as portas e as janelas.
E assim, com tudo arejado, e com espaço pra ela começar a entrar, ele se viu, de fato, feliz. Completo. Alegre como nem sabia que conseguia estar. Sem preocupações. Sem problemas. Sem medo.
Mas havia, ainda, uma reserva de Heraldo em Heraldo. E a vida não deixa passar nenhuma oportunidade de chutar um incauto nas costas.
Na primeira, ao vê-la de olhos marejados, Heraldo supôs que não fora nada.
Que fora um lapso. Que não era nada pra se preocupar.
Na segunda, porém, ao vê-la de coração tão cheio. Ao vê-la conjecturando, e percebendo o que estava perdendo por estar junto com ele...
A primeira reação de Heraldo foi ficar com raiva. Ele ficou enraivecido. Muito. Frustrado. Magoado. Sentindo-se traído.
Mas foi breve.
Ele percebeu, então, que a culpa não era dela. Ele percebeu que ela estava fazendo o que era natural de fazer. Conjecturando. Sonhando. Imaginando "e se...?".
E que a culpa era dele. Era dele apenas, pois por mais que tentasse. Por mais que quisesse, esse ainda precisava de um perímetro.
Uma zona de conforto.
Uma área de segurança.
Um espaço pra onde fugir, e do qual não sabia abrir mão.
A culpa era dele, e dele apenas.
Heraldo descobriu, desolado enquanto a brisa açoitava suas costas, que ele não era mártir na sua história, tampouco testemunha.
Ele era seu próprio arqui-inimigo.
O vilão da própria história.
E só tinha uma maneira de derrotá-lo:
Impedindo-o de ferir as pessoas a quem ele amava.
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