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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Rapidinhas do Capita


A Bruna achava que o Vinícius levantava o mindinho quando pegava o copo ou os talheres pra parecer mais refinado.
Dava até dó nela, que sempre se segurava pra não dizer pra ele que levantar o mindinho, ao contrário do que Penn e Teller haviam mostrado em seu antigo programa Bullshi*, não era sinal de refino, mas sim o oposto.
A Bruna entendia que o Vinícius, um rapaz de origem humilde, trabalhador, que estudava e era bom e honesto, jamais tivera tempo pra se aprofundar em pormenores da etiqueta, então, mesmo sendo educado, cometia essas pequenas gafes, que pra ela, a bem da verdade, quase nada importavam.
Ainda assim, ela ficava meio aflita, pensando como seria se, no casamento dos dois, na hora de tomar champanhe com as taças entrelaçadas, ele esticasse aquele dedo mingo... Aquilo afligia a Bruna barbaridade.
Tanto que em mais de uma ocasião ela pensou em falar pra ele que aquilo não era bacana. Mas não queria passar por megera controladora.
Pensou em falar fazendo piada, como que dizendo que aquilo era coisa de boiola... Mas aí seria grosseria.
A Bruna ficava, volta e meia matutando aquilo sempre que via o Vinícius erguer o mindinho antes de beber alguma coisa. Uma hora ela tomava coragem e falava com ele.
Era só descobrir como.
O que a Bruna não percebia era que o Vinícius erguia o mindinho e o indicador. Mas o fura-bolo acabava oculto pela boca do copo.
Não era um falso sinal de refinamento que ele fazia, era o gesto de lançar teias do Homem-Aranha.
O Vinícius podia não ser uma flor de polimento, mas tampouco era afetado, o mal que lhe afligia de verdade era ser nerd até a medula.

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Cinco da manhã. Tocou o celular. Ele atendeu de susto, gosto de baba na boca:
-...Arruam...?
-O inverno está chegando, lorde Stark! - Proferiu a voz jovial do outro lado da linha.
Ele levou alguns segundos pra concatenar de quem era a voz, a referência literária, e o que aquilo tudo significava junto naquele momento específico. Após o período que levou pra entender respondeu:
-Tu não pode tá falando sério...
Mas ela estava.
Ele tem corrido todos os dias de manhã muito, muito cedo. Quando o nevoeiro não deixa enxergar dez metros na frente do rosto, a luz amarela das lâmpadas de mercúrio descreve raios ao deixar o topo dos postes, tão densa é a cerração, o suor que evapora da blusa segunda-pele condensa e esfria dentro do casaco impermeável que ele veste por cima, e uma camada de água gélida se forma sobre sua barba e bigode após o percurso de cinco quilômetros.
Todos os seus músculos doem sábado e domingo inteiros após as séries de abdominais, remo e levantamento de peso da semana, mas ela estava certa:
Ele se sentia bem como não acontecia a muito, muito tempo.

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Ela disse:
-Não se preocupe. Eu já fiz isso antes.
E arrancou o coração dele, ainda pulsando, de dentro do peito. Jogou no chão e pisou em cima até o órgão brilhante, vermelho e vivo ficar parecendo um trapo esfarrapado.
Ele pensou em se atirar no chão dizendo "Por favor, não faça isso! Eu te imploro!", mas a verdade é que ele meio que já estava preparado pra quando aquilo acontecesse.
Disse apenas:
-É. Dá pra ver que tu é boa nisso.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quadrinhos: Planetary - Arqueologia Espaço-Temporal


E aconteceu. Após longos anos, finalmente uma editora brasileira concluiu a publicação da genial Planetary, brilhante obra de Warren Ellis e John Cassaday para a Wildstorm.
Planetary - Arqueologia Espaço-Temporal compila as edições 19 a 27 do gibi que investigou a história secreta de um mundo estranho repleto de maravilhas ocultas do público por uma trama de conspirações através dos olhos de Jakita Wagner, O Baterista e Elijah Snow.
Na primeira história Mistério no Espaço, Snow, Jakita e o Batera vão até o Zâmbia, onde um posto de monitoramento de Planetary detectou um aparato alienígena vagando nas imediações do sistema solar.
Para investigar a anomalia, Elijah usa os anjos, entidades extraterrestres que se alimentam de informação.
Enquanto Jakita e O Baterista se maravilham com o interior da imensa construção, onde uma civilização inteira se desenvolve em cada seção da espaçonave, Snow espera que o fenômeno atraia a atenção de Jacob Greene.
Na história, Ellis brinca com o conceito sci-fi do Big Dumb Object, e homenageia Galactus, o devorador de mundos.
A história seguinte, Encontro, é uma sequência direta da anterior, e apresenta, finalmente Greene.
Membro dos Quatro a ficar demasiadamente deformado pela anomalia que deu aos vilões seus poderes únicos (qualquer semelhança com o coisa não é, claro, mera coincidência), Jacob Greene vive escondido, seus poderes, uma resistência que o torna "imatável", além de força física absurda e ressentimento infinito contra a humanidade, uma paleta de qualidades que o tornam a mais perigosa arma nas fileiras dos Quatro de Randall Dowling.
Mas Elijah Snow tem um plano para lidar com ele. De preferência, de maneira definitiva.
Um plano tão bem guardado e arquitetado que faz com que Jakita se pergunte o que aconteceu ao líder do Planetary.
A terceira história, Telemetria de Máquina da Morte mostra Elijah Snow buscando a ajuda de uma feiticeira.
Embora Melantcha se considere uma cientista especializada em um ramo muito particular da ciência, ela obviamente segue o estilo Dr. Estranho de expansão da mente e indução à visões.
Na história (que rendeu a John Cassaday o prêmio Eisner de melhor desenhista em 2004), Elijah busca recuperar sua memória, parcialmente apagada por Randall Dowling, com o auxílio de Melantcha ele invade o domínio dos mortos, e desvela segredos envolvendo seu papel no mundo como um dos Bebês do Século.
História sem grandes referências, Telemetria de Máquina da Morte traz boas revelações sobre a função dos Bebês do Século de Ellis, bem como da visão do autor para o papel das pessoas com super-poderes no mundo.
Em A Tortura de William Leather conhecemos a origem e o passado da versão malvada do Tocha Humana de Planetary, o William Leather do título, e como se deu sua longa sociedade com Randall Dowling (num flashback que remonta a O Cavaleiro Solitário, O Sombra, O Besouro Verde e O Aranha).
Com a narrativa de Leather, aprendemos um pouco mais sobre os Bebês do Século, as reais intenções dos Quatro, e a natureza dos super-poderes.
A seguir vem Percussão, onde, durante uma conversa entre O Baterista e Jakita ficamos sabendo mais a respeito da origem do membro mais jovem de Planetary, e de por que ele pode ser a pessoa com mais razões para apoiar a violenta investida de Elijah contra os Quatro.
Percussão talvez seja a primeira história e explorar um pouco mais a fundo O Baterista, dando ao leitor uma chance de entender melhor seus poderes, mas também como esses poderes o fazem se relacionar com o mundo e as outras pessoas.
Mais ainda, a história revela, através do batera, o que de fato é Elijah Snow.
Em Sistemas, a quinta história do livro, Snow abre o jogo com Jakita e O Baterista, deixando claro que entendeu seu papel no multiverso após a consulta com Melantcha e contando o que pretende fazer, e por quê.
A compreensão de Snow gera uma resposta violenta dos Quatro, e prepara o tabuleiro para o começo do jogo.
Fria, a história que se segue mostra Elijah Snow indo ao encontro de seu velho amigo John Stone, em busca de respostas.
Flertando com Nick Fury e a SHIELD na figura de Stone, mas indo em direção à Apokolips d'O Quarto Mundo de Jack Kirby no flashback das revelações do espião, a história de Ellis mostra a verdade sobre como os Quatro conseguiram seus poderes e a que custo.
A sétima história não tem título, mas foi publicada na edição 26 da revista Planetary original, e tem uma capa fodona.
Nessa edição Elijah Snow chama Randall Dowling e Kim Suskind, os membros remanescentes dos Quatro para uma conversa derradeira, o encontro que vai culminar com vinte e cinco edições de ressentimento e tensão de parte a parte.
Elijah tem apenas uma chance de utilizar todo o conhecimento acumulado como arqueólogo do mistério para pôr fim à ameaça dos Quatro e daqueles responsáveis pelos poderes deles.
A última história da edição, na verdade um epílogo, também não tem título.
A Organização Planetary começou a dividir com o mundo as maravilhas da ciência que os Quatro ocultaram da Terra por décadas.
Tratamento anti-câncer, sistemas de levitação elétricos, super impressoras 3-D, estações de vida, dispositivos de comunicação com o espaço profundo, folhas de hiper-colimação... Nada parece impossível para os segredos que os Quatro trancafiaram longe dos olhos da humanidade.
Mas entre todas essas maravilhas, há apenas uma que interessa a Elijah Snow:
Uma forma de salvar Ambrose Chase, antigo terceiro homem da equipe de campo, dado como morto durante uma missão anos antes.
O problema é que a única maneira de salvar Ambrose depende de inúmeras variáveis e pode ter como efeito colateral a destruição do tempo e do espaço. Estará Elijah Snow disposto a enfrentar tais riscos para salvar seu amigo? E se estiver, será que ele entende realmente o que significa fazê-lo?
Mais uma ótima história, onde o Baterista, graças a seus poderes e aos dados secretos dos Quatro assume um papel de liderança em Planetary e onde Jakita Wagner questiona sua utilidade e capacidade de viver em paz após passar tanto tempo lutando.
Em meio à salada de física quântica que envolve o tipo de viagem no tempo imaginada por Ellis, ainda sobra espaço para Elijah Snow mostrar que não é tão frio quanto parece, e que o futuro da organização Planetary permanece brilhante, mesmo que não possamos vê-lo.
Espetacular. A despeito da tristeza de saber que Planetary não vai mais aparecer nas bancas (exceto se resolverem publicar a versão Omnibus por aqui), dá gosto de poder ter na estante, finalmente completa, uma das melhores e mais inteligentes séries de quadrinhos já publicadas.
Planetary tem todos os melhores elementos de um bom gibi, com personagens carismáticos e espertos, tramas cheias de reviravoltas e mistérios, e, de lambuja, uma série de homenagens e referências a marcos da cultura pop do Século XX inteiro, tudo isso ilustrado com o traço único de John Cassaday, facilmente um dos melhores artistas do quadrinhos mainstream norte-americano.
As 228 páginas de Planetary - Arqueologia Espaço-Temporal voam enquanto a gente lê, e quando terminamos, dá vontade de correr pra reler a série inteira de uma vez só.
Por 24,90, com capa cartão e papel LWC no miolo é pra comprar duas. Uma pra deixar na estante e outra pra ler sempre que tiver vontade com os dedos sujos de Doritos.

"Vamos então passar o resto de nossa longa, longuíssima vida, neste mundo tão estranho que nós amamos. Mantendo-o assim."

sábado, 24 de maio de 2014

Resenha Cinema: X-Men - Dias de um Futuro Esquecido


Bryan Singer e mutantes... Não tem como dar errado.
Essa foi a reação dos fãs de X-Men desde a primeira veiculação da notícia de que Singer assumiria a sequência de Primeira Classe, o melhor filme mutante desde 2003, quando Singer realizara X-2. Singer merecia o voto de confiança não importava o quê. Os melhores filmes com um X no título e um mutante no elenco sempre tiveram envolvimento dele em algum nível, fosse como diretor (X-Men - O Filme, X-2) fosse como produtor(Primeira Classe), de modo que essa confiança permaneceu sendo decantada como um mantra a medida em que surgiam novas informações a respeito do filme.
Adaptação da história Dias de Um Futuro Esquecido, uma intrincada trama envolvendo um futuro apocalíptico para a raça mutante, viagens no tempo e missões de assassinato... Em Bryan "we trust"...
União do elenco clássico e do elenco Primeira Classe... Em Bryan "we trust"...
O retorno de Hugh Jackman após os fiasquentos filmes solo do Wolverine em Bryan "we trust"...
Singer mereceu o voto de confiança, mesmo tendo trocado X-Men por Superman em 2006, o que resultou em, não um, mas dois filmes que não agradaram (X-Men 3 foi lixo puro, Superman - O Retorno jamais decolou sendo incapaz de convencer como reboot, sequência ou sequer como filme, á despeito da qualidade dos envolvidos), tanto por seu talento como cineasta quanto por sua profunda compreensão do universo X.
O diretor sempre demonstrou entender que, para funcionar, X-Men precisa de uma dose de humanidade tão alta quanto a de espetáculo, e que uma coisa não funciona sem a outra quando se trata de X-Men.
É por isso que todos estavam tão ansiosos para ver o filme, e tão confiantes no resultado.
Bryan Singer e mutantes... Não tem como dar errado.
Ontem, um dia depois da estréia oficial, na quinta 22, fui conferir X-Men após uma maratona de X-Filmes durante a semana.
Dias de um Futuro Esquecido abre em 2023 (A série de Singer sempre se passou em um "futuro não muito distante"), um tempo de guerra.
Os mutantes da Terra são caçados, aprisionados ou exterminados por máquinas de matar chamadas Sentinelas.
A imensa maioria dos mutantes do mundo sucumbiu ante a opressão, mas não todos. Escondendo-se nas sombras, lutando por sua sobrevivência, os X-Men permanecem unidos sob o sonho de Xavier.
Blink (Bingbing Fan), Apache (Booboo Stewart), Mancha Solar (Adan Canto), Colossus (Daniel Cudmore), Homem de Gelo (Shaw Ashmore), Bishop (Omar Sy) e Lince Negra (Ellen Page) desenvolveram uma forma de salvaguardar a raça mutante.
Toda a vez que há um ataque, os X-Men lutam, e, quando a derrota é iminente, Kitty envia a consciência de Bishop de volta no tempo para escapar.
É por causa desse curso de ação que Tempestade (Halle Berry), Wolverine (Hugh Jackman), Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) vão ao encontro de Kitty e dos demais na China.
Eles planejam usar a tática para enviar a mente de Charles Xavier de volta a seu corpo em 1973. O ano em que o assassinato de Bolivar Trask (Peter Dinklage) por Mística (Jennifer Lawrence) iniciou uma cadeia de eventos que transformou os robôs sentinelas nas máquinas de matar indestrutíveis do futuro, liberou o ódio aos mutantes em sua totalidade e, em suma, criou o futuro negro vindouro.
Entretanto, mesmo um cérebro poderoso como o de Xavier é incapaz de suportar uma viagem de cinco décadas ao passado sem sofrer avarias.
Mas e quanto a um cérebro capaz de se regenerar ao mesmo tempo em que se desfaz?
Logan é, então, a melhor alternativa para fazer a viagem, mas o que fazer para unir os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) quando eles não podiam estar mais separados?
Com Magneto preso cem andares abaixo do Pentágono e Xavier viciado no coquetel de drogas desenvolvido por Fera (Nicholas Hoult) para controlar sua mutação, que lhe garante poder caminhar e suprime sua telepatia, o futuro da raça mutante não parece lá muito promissor.
Enquanto Wolverine lida com esse quebra-cabeças no passado, no futuro é só questão de tempo até que os sentinelas localizem os X-Men remanescentes e os destruam, tornando toda a missão uma corrida contra o tempo e contra a morte.
Genial.
X-Men - Dias de um Futuro Esquecido tem todos os melhores elementos da franquia X-Men no cinema e escapa de todas as arapucas.
A ideia da viagem no tempo ajuda a consertar algumas das incongruências mais berrantes da confusa linha de tempo da franquia, conserta ou ignora coisas de quê ninguém gostava (os filmes de Wolverine e X-Men 3) e entrega um dos melhores filmes-pipoca da temporada.
Com direção pra lá de segura, um ótimo trabalho do grande (em todos os sentidos) elenco, com destaques para McAvoy, Stewart, McKellen e Lawrence (eita, mulher... Tudo de bom, talentosa, raivosa e gostosérrima...), o roteiro de Simon Kindberg, Jane Goldman e Matthew Vaughn encaixa redondinho, dá espaço ao sol pra todos os mutantes do filme (destaque especial para Blink e para o Mercúrio Evan Peters, dono da sequência mais hilária do filme), e entrega o ótimo filme de X-Men de que todo mundo, especialmente Hugh Jackman após Wolverine Imortal, precisava.
Assista no cinema, vale demais a pena, dispense o 3-D.
Que venha X-Men - Apocalipse.
Bryan Singer e mutantes... Não tem como dar errado.

"-Todos esses anos desperdiçados lutando uns contra os outros, Charles..."

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Resenha Filme: X-Men Origens: Wolverine

Retrospectiva X-Men:
Última parada na retrospectiva dos X-Men nos cinemas, o filme solo do Wolverine que todo mundo queria ver e que saiu completamente errado.
Tu pode ler as resenhas de X-Men primeira classe aqui:
http://casadocapita.blogspot.com/2011/06/resenha-cinema-x-men-primeira-classe.html
E de Wolverine Imortal, aqui:
http://casadocapita.blogspot.com/2013/07/resenha-cinema-wolverine-imortal.html

X-Men Origens: Wolverine (Gavin Hood, 2009)


Após o resultado algo decepcionante de X-Men 3, que apesar de fazer mais de 450 milhões de dólares em bilheterias (a um custo de mais de 200 milhões de orçamento) foi vilipendiado pela crítica e achincalhado pela maioria dos fãs, a FOX não iria largar o osso tão fácil.
Se parecia óbvio que o super grupo precisava de um descanso após o cataclismo que fora X-Men 3, também era bastante claro que a franquia era uma mina de ouro. Super-heróis rendiam e rendiam muito.
Os três filmes do Homem Aranha fizeram dois bilhões de dólares só em bilheterias, a Marvel começava seu universo cinemático com um Homem de Ferro que arrancava elogios de todo mundo, o Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan empilhava fortunas e críticas positivas, a FOX havia sentado na graxa com o Quarteto Fantástico e com o Demolidor, então, o que eles tinham para capitalizar, eram os mutantes da Marvel.
Foi quando alguém teve a ideia dos filmes da série X-Men Origens, que seriam filmes solo, estrelados por personagens ligados ao universo mutante sem, necessariamente, envolver o grupo de discípulos de Charles Xavier.
Os primeiros nomes que ganhariam tal tratamento, seriam Magneto (?) e(óbvio) Wolverine.
Se causava algum estranhamento ver um filme solo do maior vilão/aliado/antagonista filosófico dos X-Men, o filme do carcaju canadense era uma boa sacada.
Poucos personagens tem um passado tão misterioso (e extenso) quanto o Wolverine dos quadrinhos. Suas peripécias se estendem por cem anos de aventuras. Suas histórias solo têm encontros com o Capitão-América durante a Segunda Guerra, períodos como espião ao lado de Dentes de Sabre, períodos operando disfarçado na ilha fictícia de Madripoor, o velho oeste... Não faltariam opções de histórias a serem contadas com Logan.
Obviamente que os fãs queriam, mesmo, ver uma adaptação de Arma-X, até hoje um dos maiores clássicos estrelados por Wolverine e talvez a pista mais sólida de seu passado, ao menos até o lançamento de Origem.
A vontade de todo mundo de ver o processo brutal que deu ao herói seu indefectível esqueleto de adamantium só aumentou após Bryan Singer dar vislumbres do episódio em X-Men 2.
Escalado para dirigir Jackman no filme, Gavin Hood, dos bons O Suspeito e Infância Roubada era uma boa ideia. Liev Schreiber foi escalado inicialmente para viver um jovem William Stryker (personagem de Brian Cox em X-Men 2), mas logo foi revelado que ele viveria o vilão Victor Creed, o Dentes de Sabre.
Danny Houston seria Stryker.
A eles juntaram-se a belezura Lynn Collins como Kayle Silverfox, Will.I.Am do Black Eyed Peas, no papel de John Wraith, Kevin Durand como o Blob, Dominic Monaghan como Bolt, e Ryan Reynolds como Deadpool.
Além desses Daniel Henney seria o Agente Zero, Taylor Kitsch como Gambit, e Tim Pocock como Scott Summers.
Essa imensa profusão de mutantes logo deixou a impressão de que havia alguma coisa de errado com X-Men Origens: Wolverine. Essa impressão de confirmaria assim que qualquer pessoa assistisse ao filme.
O longa acompanhava Wolverine desde sua infância, quando era um menino canadense adoentado chamado James Howlett.
Após a família Howlett ser dizimada por uma tragédia, James foge com seu meio-irmão Victor, e ambos crescem em fuga.
Partilhando estranhos poderes de cura, sentidos aguçados como os de um animal, e garras ósseas eles encontram seu caminho na guerra.
Lutam na Guerra civil norte-americana. Na primeira Guerra Mundial, na Segunda Guerra Mundial, no Vietnã... Sempre nas linhas de frente, sendo mortalmente feridos e se recuperando de maneira milagrosa para lutar novamente.
Eles acabam sendo notados por William Stryker, que os convida a se unirem a um grupo especial de mutantes do exército dos EUA.
Eles aceitam e participam de diversas missões até que a selvageria de Victor e a natureza sombria das missões o levam a se afastar.
James, agora conhecido como Logan conhece Kayla, e vive uma vida simples ao lado dela por algum tempo, até que Victor e Stryker voltam a cruzar seu caminho, um encontro que o coloca em uma trilha sangrenta de vingança.
Mais uma vez o que poderia ser um bom filme acabou se diluindo em uma trama bobinha para pegar censura livre. O desenvolvimento dos personagens foi deixado em segundo plano em nome do desfile de super-heróis e da pirotecnia num filme tão medonho que foi solenemente ignorado na hora de fazer a sequência, Wolverine Imortal, outra tremenda porqueira.
Após X-Men 3 e X-Men Origens: Wolverine, só voltaríamos a ver uma participação de Jackman na pele do carcaju canadense em um bom filme numa ponta em X-Men - Primeira Classe.
Vamos torcer para que não tenha sido a última. Hoje eu confiro X-Men - Dias de um Futuro Esquecido, e amanhã conto por aqui como foi.

"-Seu país precisa de você.
-Eu sou canadense."

Resenha filme: X-Men 3 - O Confronto Final

Retrospectiva X-Men:
Bora com mais uma parte da retrospectiva X-Men, vendo como foi a vida mutante nos cinemas pelos últimos 14 anos e sete filmes. Agora, o primeiro tropeço da série na terceira incursão do super-grupo mutante em celuloide:


X-Men 3 - O Confronto Final (Brett Ratner, 2006)

Se tinha uma certeza na vida dos fãs de quadrinhos e de filmes em quadrinhos na primeira década dos anos 2000 era que a série X-Men estava nas melhores mãos possíveis.
Bryan Singer dirigira dois filmes do super grupo que eram praticamente irrepreensíveis (embora alguns, eu incluso, achassem que o Wolverine ganhava sempre as melhores sequências, o que diminuía um pouco a importância de membros clássicos do grupo) , a terceira parte da série estava por vir, e todo mundo estava louco pra ver o que Synger iria tirar da cartola num filme que prometia adaptar a Saga da Fênix e apresentar novos personagens!
Mas, no caminho havia um problema. Um problemão.
A Warner vinha a anos tentando trazer o Superman de volta do limbo cinematográfico, entre idas e vindas, roteiros e diretores, uma fortuna havia sido gasta sem que nenhum metro de filme houvesse sido rodado.
Eis que a Warner achou que, após a boa recepção de seu Batman Begins, era um bom momento para trazer o Superman de volta, e, que o diretor ideal para a empreitada era Bryan Singer.
Singer era jovem, tinha estofo e visão, liderara com êxito um par de adaptações complicadas e tornara X-Men um sucesso. Mais que isso, conseguiu tudo contando abertamente ter-se espelhado na cartilha da verossimilhança de Richard Donner para seu Superman - O Filme de 78, filme do qual era um ardoroso e confesso fã.
Foi o que bastou. Singer largou os mutantes de mão em cima do laço, bandeando-se para o lado da concorrência, e deixando a nau mutante à deriva.
A Fox começou então a procurar pelo substituto de Singer.
Matthew Vaughn chegou a ser contratado, trabalhou sobre o roteiro de Simon Kindberg e Zak Penn, chegou a escalar atores, mas também desistiu, alegando em cima da hora que não conseguiriria passar tanto tempo longe da família (Vaughn fez a mesma coisa após assinar para dirigir Thor, e só foi terminar um trabalho relacionado à Marvel quando dirigiu Kick-Ass, em 2010), com a saída de dois diretores o longa caiu no colo do atroz Brett Ratner, diretor da série A Hora do Rush, Um Homem de Família com Nicolas Cage e de Dragão Vermelho, filme que talvez tenha garantido o emprego em X-Men 3 a Ratner já que foi onde ele demonstrou ser um diretor sem nenhum problema em emular o estilo de outro cineasta.
Por insípido que fosse Ratner, e por mais que tenha tentado emular a forma de filmar de Singer, X-Men 3 não funcionou.
Misturando a Saga da Fênix Negra com o arco inicial de Joss Whedon à frente da série Surpreendentes X-Men, o roteiro de Kindberg e Penn aumentava a Irmandade de Mutantes, acrescentava personagens como o Fanático (o ex-jogador de futebol com a expulsão mais rápida da história do esporte, Vinnie Jones)e Callisto (Dania Ramirez) e o Homem-Múltiplo (Eric Dane) pelo lado do mal, mais Warren Worthington III, o Anjo (Ben Foster), o Fera Henry McCoy (Kelsey Grammer), Kitty Pryde, a Lince Negra (Ellen Page) pelo lado do bem, fora trocentas outras pontas de mutantes famosos que iam de Jubileu à Psylocke, muitos surgindo em vislumbres rápidos em algum ponto do filme.
Na trama, enquanto o magnata Warren Worthington II (Michael Murphy) e a doutora Kavita Rao (Shohreh Agdashloo) alardeavam ter descoberto uma cura mutante, os X-Men ainda tinham que se preocupar com a ressurreição de Jean Grey (Famke Janssen), trazida de volta dos mortos, não pela entidade interdimensional Fênix, como nos quadrinhos, mas sim pelo seu próprio poder, já que, no filme, era a mutante mais poderosa do mundo e eventualmente seria dominada por suas habilidades.
Após matar Ciclope (James Marsden), e voltar à mansão X, Jean era cooptada por Magneto para sua imensa nova Irmandade de Mutantes, e usada pelo vilão para destruir qualquer vestígio da tal cura, colocando os X-Men em uma situação delicada, onde viam-se obrigados a lutar contra outros mutantes para proteger os criadores da "cura" que poderia varrer o homo superior da face da Terra, e, pior ainda, ter de fazer isso contra um grupo mais numeroso, poderoso e que contava, em suas fileiras, com uma amiga querida por todos.
Ainda que a premissa fosse bacana e pudesse até fazer sentido, a verdade é que misturar a cura mutante e a saga da Fênix Negra diluiu demais as duas tramas, mais que suficientes para segurar um filme por conta.
A vontade louca de mostrar dezenas de novos mutantes e dar mais espaço a personagens que haviam feito pouco mais do que pontas antes (Como a Lince Negra que teve em Ellen Page sua terceira intérprete e o Colossus de Daniel Cudmore), também não fez bem ao filme, e nem mesmo a grande batalha campal entre mutantes ao final do longa ou o Arremesso Especial de Wolverine e Colossus no comecinho do filme salvaram X-Men 3 de ser bem porcaria.
Com um inchado orçamento de 210 milhões de dólares (cem milhões a mais do que o anterior), O Confronto Final fez apenas 52 milhões a mais do que X-2 nas bilheterias do mundo, mostrando que forma não agradava sem conteúdo.
Ainda assim, a FOX não aprenderia essa lição rapidamente como veríamos mais adiante...

"Charles Xavier fez mais pelos mutantes do que você jamais saberá. Meu único e maior arrependimento é ele ter que morrer para o nosso sonho viver."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Resenha filme: X-Men 2

Retrospectiva X-Men:
Seguindo com a retrospectiva da série X-Men no cinema, vamos ver como foi a segunda (e ainda melhor) incursão do super grupo mutante às telonas.


X-Men 2 (Bryan Singer, 2003)

X-Men - O Filme havia sido um filme de sucesso. A crítica gostou bastante e o público compareceu ao cinema de modo que o filme praticamente quadruplicou o investimento financeiro só nas bilheterias. A Marvel entrou no mapa das adaptações cinematográficas, não mais restritas aos filmes do Batman.
A sequência era inevitável, e, mais do que isso, ansiosamente aguardada pelo público. X-Men 2 (X-2: X-Men United no original) teve um desenvolvimento muito mais relaxado do que o filme original, que sofrera com orçamento reduzido, prazos estourados e protagonistas sendo substituídos pouco antes das filmagens. À exceção de alguns desentendimentos entre Allan Cumming (que se juntou ao elenco no papel do mutante Noturno) e o diretor Bryan Singer, tudo correu bem.
Com orçamento mais robusto do que três anos antes (110 milhões de dólares), um diretor mais confortável no comando da brincadeira, e um elenco que sabia o que estava fazendo, X-Men 2 se passava meses após os eventos do "futuro não muito distante" do primeiro filme, e abria com uma sequência de Noturno invadindo a Casa Branca para matar o presidente dos EUA que, sozinha, já valia o ingresso, e se houvesse um prêmio para o melhor começo de um filme, ela certamente seria candidata forte.
Na sequência, descobríamos que a tentativa de assassinato era parte dos planos de William Striker (Brian Cox), um cientista militar norte-americano com conhecimento profundo sobre o Instituto Xavier, para acabar com a raça mutante usando técnicas de controle mental baseadas nos poderes mutantes de seu próprio filho, os dons telepáticos do Professor X (Patrick Stewart) e uma versão deturpada da máquina Cérebro.
Para impedir os planos de Stryker, os X-Men precisariam se juntar ao seu arqui-inimigo, Magneto (Ian McKellen), que escapara de sua prisão de plástico com a ajuda de Mística (Rebeca Romijn) em outra sequência memorável do filme.
Tudo isso enquanto o triangulo amoroso entre Wolverine (Hugh Jackman), Jean Grey (Famke Jansen) e Ciclope (James Marsden) dava um passo adiante, um outro se formava entre Vampira (Anna Paquin), Homem de Gelo (Shaw Ashmore) e Pyro (Aaron Stanford), Jean Grey começava a ter que lidar com a Entidade Fênix, Wolverine descobria pistas a respeito de seu passado com Stryker (em flashbacks que pareciam arrancadas das páginas de Arma X), aprofundava o drama de ser diferente dos mutantes em uma ótima sequência com a família de Bobby Drake, e ainda havia uma sequência de ação espetacular onde a mansão X era invadida pelo exército dos EUA!
Com todos os ingredientes de um ótimo filme, X-Men 2 se aprofundou no cânone quadrinístico com um roteiro escrito à dez(!) mãos por Zak Penn, David Hayter, Michael Dougherty, Dan Harris e Bryan Singer, que novamente mostrou sua competência como cineasta ao equilibrar cérebro e espetáculo numa fita pra fã de quadrinhos nenhum botar defeito, que melhorava em tudo, incluindo no visual dos personagens, em relação ao primeiro filme.
A resposta da crítica foi novamente muito positiva, e o público foi aos cinemas transformando X-Men 2 num gigante de 407 milhões de dólares em bilheterias mundiais. Era só curtir X-Men 2 e esperar, sorridente, por X-Men 3... Pois é...

"-Sabe todos aqueles mutantes perigosos de quem você ouve falar nos noticiários? Eu sou o pior deles."

Resenha filme: X-Men - O Filme

Hoje estréia X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido, sétimo filme da franquia mutante (incluindo-se os filmes solos de Wolverine) que vai marcar o encontro das duas gerações de X-Men nas telonas ao unir membros elencos dos filmes de X-Men, X-2 e X-Men 3 e de X-Men - Primeira Classe no que promete ser "Os Vingadores com mutantes".
Antevendo a aguardada estréia do X-Filme do ano, vamos dar uma rápida repassada nos filmes anteriores da série:


X-Men - O Filme (Bryan Singer, 2000)

Blade, filme baseado em um herói de terceira linha da Marvel e estrelado por Wesley Snipes havia sido um sucesso razoável de bilheteria. O Batman da DC, apesar das medonhas adaptações de Joel Schumacher ainda tinha bala na agulha, e dava dinheiro. Por que, então, parecia tão difícil capitalizar em cima dos heróis da Marvel no cinema?
Os produtores Tom DeSanto e Lauren Schuler-Donner devem ter se perguntado a mesma coisa, e resolveram apostar junto com a FOX em personagens queridos do público em geral e que já haviam mostrado que tinham fôlego além dos quadrinhos.
Os X-Men, nascidos de um gibi de super-grupo que traçava paralelos com o preconceito à minorias e as mudanças que a adolescência acarreta, eram estrelas de uma série animada de grande sucesso na TV norte-americana, se alguém, além do Homem-Aranha e do Hulk, tinha demonstrado ser capaz de segurar a peteca além da nova arte, eram os pupilos do professor Xavier.
O problema é que ajuntar os elementos necessários para tornar um filme de X-Men real se mostraria uma tarefa tão desafiadora e cheia de percalços quanto a vida dos mutantes nos gibis.
O primeiro passo, porém, foi muito acertado. O diretor contratado para comandar a adaptação foi Bryan Singer. O jovem cineasta que tinha filmes como Os Suspeitos e O Aprendiz num cartel gritava "Suspense" aos sete ventos era a pessoa mais indicada para tornar o longa metragem mais do que um festival tosco de pirotecnia gratuita. O roteiro de David Hayter foi praticamente reescrito por Singer e DeSanto para tornar o duelo entre os X-Men do Professor X e a Irmandade de Mutantes de Magneto tanto uma luta física quanto um conflito de ideais que emulava Martin Luther King e Malcom X.
Tão trabalhoso quanto escrever o roteiro foi finalizar o elenco. Primeiro grande filme a conviver com o escrutínio constante da internet, X-Men era pichado a cada decisão. Ian McKellen era velho demais para ser Magneto, os uniformes de couro preto eram idiotas, o capacete de Magneto era feio, Ciclope tem cara de bundão, a peruca da Tempestade não convence...
Quando as coisas estavam pra começar a andar, pouco antes do inícios das gravações, Dougray Scott, escalado para interpretar o Wolverine no filme, se lesionou fazendo uma cena em Missão: Impossível III, e não poderia estar no filme.
Bryan Singer queria adiar o início das gravações, mas foi impedido pela produtora, com o relógio correndo, o orçamento apertado e a necessidade de começar logo a gravar, não houve alternativa ao diretor a não ser escalar um substituto.
Surgia Hugh Jackman.
O legendário teste de cena com Anna Paquin (que está no DVD do filme), intérprete de Vampira, deu o papel ao desconhecido ator australiano, que se juntou a Patrick Stewart (professor X, provavelmente a única unanimidade do elenco), Famke Jansen (Jean Grey), Halle Berry (Tempestade) e James Marsden (Ciclope) do lado do bem, e McKellen, Rebecca Romijn-Stamos (Mística), Ray Park (Groxo) e Tyler Mane (Dentes-de-Sabre) para contar a história de como cabia aos X-Men impedir que Magneto transformasse autoridades do mundo todo em mutantes para tornar a causa do homo superior a causa dos líderes das nações da Terra.
Longe de ser um filme perfeito, X-Men contou uma boa história, soube centrar fogo nas interações entre os personagens, e acertou a mão ao usar Wolverine, o mutante mais popular do mundo como os olhos da audiência enquanto entrava no mundo dos pupilos de Xavier.
Com um orçamento de 75 milhões de dólares, X-Men - O Filme faturou mais de 296 milhões mundo afora, garantindo a sequência que chegaria três anos depois...

"-Vocês saem mesmo vestindo essas coisas?
-Bem, o que você preferiria? Colante amarelo?"