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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Resenha Game: Heavy Rain



Nos últimos dias de Março peguei meus minguados rendimentos e, após uma rápida contabilidade, achei que poderia me auto-presentear com um novo jogo de videogame. Fui até o shopping e lá, vasculhei as prateleiras em busca de novidades. Três jogos imediatamente entraram na disputa que organizei em minha própria mente para ver qual seria o escolhido:
Aliens VS. Predador, God Of War III, e Heavy Rain.
Em que se pese que eu não joguei God Of War I e II, e apesar de ser fã de Aliens e Predadores não guardo as melhores lembranças de jogos relacionados aos extraterrestres, acabei pegando Heavy Rain, cujas novidades eu vinha acompanhando pela internet no último ano, e sobre o qual repousava grande curiosidade de minha parte com relação às decantadas inovações em termos de gameplay.
Agora, após ter terminado minha primeira incursão no mundo do "Assassino do Origami", posso falar a respeito com algum lastro. Vamos lá.
Heavy Rain é um suspense bastante semelhante aos que infestam os canais de filmes a cabo, na história, uma cidade típica dos EUA é assolada pelos ataques de um assassino serial conhecido como "Assassino do origami", que sempre opera da mesma forma: Sequestra um garoto com idade entre oito e dez anos, o mantém cativo por uma semana, o afoga, e então, abandona o cadáver da criança em algum lugar inóspito com uma orquídea e uma figura de origami.
Nesse cenário, surgem os personagens principais do game, que são quatro, todos com papéis a desempenhar na trama, cada um com sua história e todos jogáveis em capítulos sucessivos:
Ethan Mars, arquiteto divorciado, meio que o personagem central do game, teve o filho mais velho, Jason, morto em um acidente dois anos antes dos eventos do jogo, ele se vê envolvido nos crimes do origami de duas formas diferentes quando seu filho, Shawn, é sequestrado pelo criminoso ao mesmo tempo em que o trauma da morte de Jason começa a fazê-lo questionar a própria sanidade.
Scott Shelby, o detetive particular asmático, ex-policial, é o personagem com o maior número de sequências de ação, e parece resoluto em descobrir quem é o assassino não importa a que custo.
Norman Jayden, criminologista do FBI é enviado de Washington para auxiliar a polícia local na resolução do caso, ele possui um aparato de investigação criminal de fazer inveja ao pessoal do C.S.I., é dedicado e segue as regras, embora o seu vício em drogas possa complicar, e muito, sua investigação.
Fechando a quadra há Madison Paige, repórter insone que se vê envolvida no caso quase por acidente, e subitamente se torna o fiel da balança que pode significar vida ou morte para Shawn Mars.
Eu sei, não parece grande coisa.
Qualquer pessoa que tenha jogado um survivor horror em algum momento desde a era dos trinta e dois bits já viu histórias semelhantes.
Mas não se engane, Heavy Rain é bem diferente dos demais games que enchem as prateleiras das lojas por, pelo menos, três razões:
É um jogo de investigação, de suspense, onde as ações de cada um dos quatro personagens em suas respectivas linhas narrativas pode alterar o final do game, beleza, inovação número um.
O jogo investe em uma trama que foge das que geralmente vemos em videogames de última geração, é um suspense, não é um game de terror, nem é um game de ação, embora hajam alguns momentos tensos (A sequência de Madison no porão do médico é de fazer roer as unhas.), e esporádicas (e boas) sequências de ação, o clima é de investigação durante a maior parte do jogo, inovação número dois.
Durante essa investigação não há certo ou errado, não há um script correto para seguir. O jogador é responsável pelo jogo baseado em suas escolhas e em seu esmero ou desleixo na hora de realizar as tarefas que o game propõe.
Se você falhar em um quick time event (Aqueles momentos estilo God Of War em que uma sequência de botões deve ser realizada corretamente para cumprir uma tarefa.), se você não tiver tempo de tentar de novo, sua falha é incorporada à história, e você seguirá por uma linha narrativa que conduzirá a um desfecho diferente do que seria em caso de sucesso.
Se um dos personagens morre enquanto você joga, não há game over, ele morreu, e você segue jogando numa linha narrativa que incorpora a morte do personagem e você terá que encarar sua falha até o final do game (Ainda lamento ter "matado" o agente Norman Jayden... Prometo cuidar melhor de você na minha segunda tentativa, Norm.), inovação número três.
Além dessas belas novidades, há o apuro técnico. Heavy Rain é um jogo de animação bela e gráfico perfeito, os personagens são incrivelmente vivos. Claro, há problemas em certos momentos de movimento mais lento, quando se percebe que a movimentação dos personagens não é tão fluída quanto a de pessoas de carne e osso seria, porém as feições digitalizadas dos atores que interpretam os papéis no game (Com a mesma técnica de captura de performance usada por Robert Zemeckis em A Lenda de Beowulf e Expresso Polar) são de comover, assim como a boa dublagem e os cenários perfeitos.
Um bônus que nós, Brasileiros ganhamos na carona dos nossos patrícios portugueses é a possibilidade de jogar o game dublado em português (luso, não é o bicho, o som em inglês é bem melhor.), ou com legendas em português de Portugal, bacana pra quem não domina inglês, uma vez que o texto é fundamental para aproveitar o que o jogo oferece de melhor, sua história.
Eu sei, é uma história parecida com todos aqueles filmes dos canais a cabo à noite e tudo mais, mas aqui, você está no comando do personagem principal. Mais que isso, dos quatro personagens principais. Se estiver atrás de um game onde pensar e ser paciente é tão útil quanto esmagar botões, gritar, babar, bater no peito e gritar que é muito macho, invista cento e oitenta reais nesse. Vale a pena.

"Eu sou um pai, também..."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Estratégias...


Um. dois, três petelecos.
Rondineli virou pra esposa, Lurdinha que não parava de bater nele.
-Que isso, Lurdinha! Para, criatura!
-Para nada, tu não tirava os olhos daquelazinha! -Respondeu Lurdinha enfurecida.
-Mas... Mas do que tu tá falando, mulher? Que "zinha"? Que bobagem é essa? -Perguntou Rondineli, dando um passo pra longe de Lurdinha e ajeitando o cabelo.
-Pensa que eu não vi, Rondineli? Pensa que eu sou trouxa? -Perguntou Lurdinha, avançando pra perto de Rondineli e batendo nele enquanto perguntava entre os dentes cerrados: -Pensa que eu sou trouxa? -Separando cada palavra com um novo peteleco na cabeça do Rondineli que gritou "Ai!" e se afastou de novo.
-Lurdinha, eu não sei do que tu tá falando, eu não tava olhando mulher nenhuma, tava acompanhando a banda, cheguei á te dizer que o baixista parecia um galã de novela mexicana com aquele cabelo sem vergonha cheio de gel. -Argumentou Rondineli, diminuindo o passo e encarando a Lurdinha.
-Que tu disse, o quê, Rondineli? Tu balbuciou alguma coisa mas nem deu pra entender. Tu tava com muita baba na boca de tanto olhar praquela loira aguada. Homem é bicho triste, é só aparecer uma mulher com uma bunda enorme que, pronto. Acabou-se, eles não percebem mais nada. É só oxigenar o cabelo e dar um jeito de ficar com um rabão e deu, todos os trouxas da festa não vão tirar o olho. -Completou ela, desdenhosa.
Lurdinha parou com os petelecos. Afastou-se como quem desiste da raça humana.
Rondineli se aproximou dela, tentou tocar seu braço, mas ela o rechaçou:
-Não, não. Por que, olha, vou te contar, viu? Pensei que tu era diferente. Pensei que tu era... Sei lá. Pelo menos que tivesse bom gosto. A cara daquela pistoleira. Cara de fim de linha, Rondineli, e vestida daquele jeito? Aquela calça... Parecia que tinha nascido dentro. Os peitos quase de fora. Óbvio que tava caçando. E a isca deu certo. Lá tava o trouxa, babando atrás dela. O problema é que tu tava comigo, Rondineli, comigo! E eu não mereço isso. É, antes de tudo, uma falta de respeito. Te larguei, viu?
O tom de Lurdinha, os cantos da boca apontando pra baixo, deixavam claro que ela estava extremamente desgostosa com toda a situação. Rondineli, não se lembrava francamente de ter ficado babando atrás da tal da loira bandida, olhara, claro, quem não olharia? A bandida tava mesmo quase nua no salão, era, de fato, algo pistoleira, tinha pinta de quem tava caçando, isso é excitante. A loira não era uma mulher bonita, mas era, sei lá, uma potrancuda, e estava expondo a mercadoria de forma extremamente eficaz. Tava tudo lá. Mas não era uma mulher que Rondineli seguiria babando por uma festa, jamais deixaria Lurdinha, pequenininha, graciosa, delicada, proporcionalmente perfeita por uma mulher como aquela loira. Nem sequer lhe passaria pela cabeça trair Lurdinha com uma mulher daquelas. Com mulher alguma, exceto, sei lá, se a Megan Fox ou a Scarlett Johansson surgisse intimando Rondineli com um "Agora ou nunca.". Rondineli amava a esposa, francamente, por isso casara com ela. Apenas gostara das formas generosas da loira bandida, e achara que uma olhadinha ou duas não fariam mal.
Ledo engano. Agora a santidade do seu casamento estava ameaçada por uma bobagem como aquela. O tom do discurso de Lurdinha acenava com uma bolsa de viagem cheiam de roupas e a casa da mãe dela, aquela víbora.
Rondineli achou que a delicadeza do cenário pedia um movimento estratégico bem pensado. Afastou-se da Lourdes, enfiou as mãos nos bolsos e disse.
-já entendi o que é isso. Mas não vai funcionar, Lurdinha. Tu não vai inverter essa situação.
Lurdinha chegou á pensar em deixar passar, detectou algum movimento estratégico por trás daquele comentário, mas a curiosidade de saber quual era o esquema de Rondineli venceu seus instintos e ela perguntou:
-Inverter o quê, Rondineli?
-A coisa toda. Tu não tirava os olhos daquele escamoso daquele baixista. -Disse Rondineli com uma nota de desapontamento na voz.
-Tu tá louco? Aquele cara... Aquele cara com aquela pinta de galã de rodoviária? Tu pensa que eu... Peraí. Eu entendi o que tu tá fazendo... Tu tá me acusando de inverter as coisas pra inverter as coisas. Que golpe baixo, Rondineli, até pa ti.
-É... Golpe baixo... Parece que disso tu entende, né? Claro, faz sentido, agora. Tu comentou demais a porcaria do solo de baixo. Falou do movimento das mãos... É, dona Lourdes... Francamente... -Rondineli olhou pra cima como quem diz "Perdoa-a, ela não sabe o que fez".
Lurdinha chegou á ficar vermelha. Parou e encarou Rondineli:
-Tu pensa que eu sou burra, né, Rondineli? Por que só isso explica essa tua ideia. Eu, interessada naquele cara escroto? Bochechudo, com aquela suíça... Nem suícça, costeleta. Parecia o primo brega do Wolverine. Aquela camisa floreada com aquela calça branca, aquele barrigão...
-Ah, então tu tava olhando, mesmo, né? Sabe direitinho como ele tava vestido, como ele era... Gostou, mesmo do escamoso.
-Ah, vai se catar, Rondineli.
-Não vou, não vou, não vou, não. Tu vai parar. Parar com essa besteira. Tá. Eu olhei pra bandida. Olhei mesmo. Achei gostosona e olhei. Admito. Mas não quero pra mim. A mulher da minha vida é tu, Lurdinha. É só por ti que eu babo. Seja de amor, seja de raiva. É tu, Lurdinha, só tu.
Rondineli abraçou Lurdinha e a beijou. Á princípio ela tentou resistir, mas se entregou, correspondendo o abraço e o beijo.
Mais tarde, em casa, fizeram amor apaixonadamente, depois, Rondineli adormeceu com Lurdinha encostada em seu peito, e a sensação do dever cumprido.
Á seu lado, Lurdinha ficou feliz por ter riscado os tês e pingado os is com Rondineli. Além disso, tivera a vitória pessoal de fazer o marido admitir que olhara pra piranha na festa. Adormeceu feliz, mas antes, deu um leve suspiro ao lembrar do baixista da banda e de seu charme rústico.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Inconveniente


Ela chegou de mansinho, como quem não queria nada. Deixei-a entrar por que sou um tolo, ou talvez por que ela não tenha me dado nenhuma outra opção. Chegou acompanhando quem eu, de fato, convidara.
Não lhe neguei passagem, nunca houve, afinal, nenhuma espécie de garantia de que ela pediria minha permissão antes de chegar. Não é do feitio dela.
Deixei que entrasse, que desarrumasse as minhas coisas, que afetasse meu dia á dia, que me dissesse que filmes assistir, que músicas ouvir, que livros ler, deixei que atrapalhasse minha vida interferindo em meus horários, em meus relacionamentos, que ficasse me apontando os defeitos dos outros, e como eram, todos, tão diferentes do meu ideal.
E ela o fez, fez por que é da natureza dela, fez por que eu deixei, por que, em algum momento da vida, dei à ela a liberdade para fazer isso sempre que surgisse uma oportunidade. Ela me deixou de olhos marejados como fizera tantas outras vezes, me fez cantarolar músicas bregas de dez anos atrás ou até mais, deu significados inéditos, nenhum particularmente confortador, á trechos de filmes que vi mil vezes. Ela fez, ela fez e seguiu fazendo.
É o que ela sempre faz, diga-se de passagem. Meu erro, se é que se pode chamar assim, foi não atentar á isso antes, foi não perceber que, depois que eu a vislumbrei pela primeira vez, ela não largaria nunca mais do meu pé, como a Glen Close em Atração Fatal, e, á despeito de ela jamais cozinhar o coelho de ninguém, eu não posso simplesmente afogá-la na banheira, quisera eu fosse fácil assim.
Depois que nos conhecemos, toda a vez que eu convido a colega dela, de quem eu gosto, que coloca um sorriso no meu rosto e me faz assobiar enquanto caminho até a Beira-Rio pra dar uma corridinha, que me faz improvisar um moicano de xampu enquanto cantarolo embaixo do chuveiro, nessas ocasiões, não tarda, e ela aparece.
A amiga, de quem eu tanto gosto, se chama lembrança, e a colega inconveniente dela, se chama saudade.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Modéstia


Ela estava sozinha, escorada junto ao balcão da danceteria. Bonita, jovem, cabelos castanho-avermelhados compridos, presos em um generoso rabo de cavalo fixado no alto da parte de trás da cabeça, os cachos abertos, algo caídos por causa do suor, a nuca á mostra... Ah, a nuca... Talvez tenha sido a nuca. Não que o resto não fosse bom, o resto era muito bom. O corpo firme, não era dessas anoréxicas que mal tem peito e parece que esqueceram a bunda em casa, não, ela era quase como aquelas aves natalinas, no bom sentido, claro, mais coxa, mais peito... Tudo muito suculento enfiado dentro de uma calça azul marinho brilhante e de uma blusa de lurex prateada de frente única.
Ela mexia os ombros ao ritmo da música, e mexia os pés de forma intercalada, o que fazia seus quadris dançarem suavemente de maneira quase hipnótica, e um sulco surgir na parte externa de sua coxa, e que tremenda coxa.
Ela tinha feições bastante distintas, um rosto forte, de traços marcantes, o nariz, os lábios, os olhos, encantadores, de uma castanho-melado... Linda, linda, linda. Mas haviam outras bela mulheres lá, por isso ele acreditava, de fato, que houvesse sido fisgado afinal de contas, pela nuca á mostra.
A nuca, tão alva, com alguns fios mais curtos do cabelo avermelhado teimando em se grudarem na pele vagamente úmida de suor... Não pôde resistir. Quando deitou os olhos sobre ela, era a única mulher que estava no salão. Era a única mulher do bairro, da cidade, quiçá do mundo! Exceto se a Nana Gouvêia surgisse, mas essa era uma hipótese pouco factível.
De qualquer modo, ele a viu. Ele, no caso, era o Norberto.
Norberto já havia cruzado o cabo da boa esperança, também no bom sentido, é claro. Tinha cinquenta e um anos. Norberto se divorciara á pouco, contra a sua vontade, que fique bem claro. Se dependesse apenas dele, ele ainda estaria casado com Clarice, independente do pesadelo que aquele matrimônio se tornara para o casal. O Norberto estava, bem ou mal, satisfeito, era dessas pessoas de desejos simples que confundem marasmo com segurança, ou talvez saibam a diferença e nem ligam. O fato é que Norberto estava feliz trabalhando das nove ás cinco, morando em uma casa de três dormitórios só com a esposa, indo deitar ás onze e meia, passando férias em Cidreira e guardando um dinheirinho todo o mês pra comprar uma TV de 42 polegadas no final do ano. Ele estava, era um homem modesto, de ambições modestas, era um homem de certa idade, ora, bolas, era de um tempo em que as mulheres estavam satisfeitas com homens que fossem bons provedores, que ajudassem na criação dos filhos com um "Obedece a tua mãe e tá acabada a história.", e que não fossem "putanheiros" como dizia a sua mãe.
O problema foi que a Clarice, depois que o Fabrício e a Norminha saíram de casa, ficou com muito tempo livre. Norberto trabalhava quase o dia todo, sem os filhos em casa, ela terminava cedo as tarefas do lar e dizia-se entediada. Norberto culpava-se por ter dito "Arruma alguma atividade, então, nêga.", "Alguma coisa pra te distrair.".
Bom, foi o que a Clarice fez. Começou com grupos de leitura, depois grupos de caminhada, então surgiram a academia e, por fim, o trabalho voluntário. Ao redor de tudo isso orbitaram temporadas inteiras de Sex and the City, e Lipstick Jungle, filmes da Sofia Copolla e livros da Martha Medeiros, uma cirurgia plástica, dois finais de semana em um spa, e, de repente, lá estava Clarice, vestindo uma minissaia, dizendo á Norberto, no meio da sala, que precisava de espaço, que casara cedo demais e não aproveitara a vida como gostaria, poderia e deveria.
Queria o divórcio.
Ela fez ouvidos moucos ás súplicas de Norberto para que pensasse nas crianças, que pensasse em tudo que eles haviam partilhado, que pensasse, que droga, nas convenções sociais.
Ela não ouviu.
Ele dizer que, á despeito da plástica, ela continuava sendo velha, só que com a pele espichada pra baixo do queixo, não ajudou em nada. Na verdade ele tinha a impressão de que só complicara as coisas.
Norberto não teve opção. Cedeu a "carta de alforria", forma como Clarice saudou o documento assinado, á agora, ex-esposa.
E, subitamente, após quase trinta anos de casamento, Norberto se viu solteiro. Como era um homem modesto, de pretensões modestas, ele não demorou á se habituar á nova rotina. Na verdade, o período de auto descoberta de Clarice foi um laboratório pra vida de solteiro de Norberto, que se viu obrigado á aprender á fazer tarefas de casa novamente.
Ele saía do serviço, ia pro apartamento de um quarto que comprara perto do centro com sua parte do dinheiro da venda da casa, e limpava rapidamente. Preparava e comia alguma coisa simples, ás vezes comida pronta, e depois assistia TV até adormecer no sofá. Uma hora e meia depois de adormecer, ás vezes menos, acordava com uma dor medonha no corpo por pegar no sono todo torto no sofá, e então ia pra cama.
Um amigo próximo, Juvenal, esse sim um notório putanheiro, o aconselhou á aproveitar a liberdade. Disse que ele que era feliz, que devia aproveitar que era um adulto maduro, dono do próprio nariz de novo, e tirar o atraso. "Comer umas moças novas", nas palavras do amigo. Disse que Norberto certamente encontraria alguma nessas danceterias e bares que pipocavam na Cidade Baixa. Era uma forma de se manter ativo pra, sabe-se lá, o caso da Nana Gouvêia aparecer e querer testar as suas habilidades de amante.
Norberto, mais por tédio do que propriamente por interesse, resolveu tentar. Penteou bem os cabelos ralos e grisalhos, vestiu uma camisa preta, calças Lee (Pois é, Norberto era do tempo em que qualquer calça jeans era "calça Lee".), e um tênis, e foi pra noite.
Escolheu uma danceteria meio ao acaso. Primeiro observou a fila pra ter certeza de que não haveriam só crianças lá dentro. Chegou à conclusão de que apenas a imensa maioria era de crianças (Pros padrões do Norberto pessoas com idades abaixo de vinte e cinco, eram crianças e não tinha discussão.), mas também haviam alguns trintões e ele tinha certeza de que uma mulher na fila, uma gorda com blusa de oncinha, devia ter perto de quarenta.
E agora, ali estava ele. Mesmerizado pela Valquíria ruiva que se apoiava no balcão e dançava de maneira sutil ao som de uma música horrorosa que tocava tão alto que Norberto mal podia ouvir o que pensava.
Respirou fundo, alisou o cabelo com a palma da mão e caminhou resoluto até a moça.
Parou atrás dela, repetindo para si mesmo como um mantra que o sucesso só ama quem tenta.
Inclinou-se pra falar ao ouvido dela, sentiu o perfume suave que emanava de sua nuca, "putzgrila!" pensou. Então parou e pensou se ainda se dizia "putzgrila".
Recuou, chegar falando no ouvido dela não parecia um rumo de ação dos mais aceitáveis, não queria parecer um sem-vergonha. No tempo dele, pelo menos, não era de bom tom.
Tocou no ombro dela.
Ela virou, o olhou por um instante e abriu um sorriso, pareceu surpresa ao ver um senhor de cabelos grisalhos e bigode.
Ele perguntou polidamente, aumentando o tom da própria voz conforme percebia que não era audível, se podia olhar o cardápio com ela.
Ela sorriu e disse que sim, claro. Ele se perfilou ao lado dela no balcão, e ficou pensando no que faria á seguir conforme percebia que tirando cerveja, ele não conhecia o nome de nenhuma bebiba naquela carta. "Sex on The Beach", "Lagoa Azul", "Vezúvio"... Que fim levara o Kir Royal e a Cuba Libre?
Parou um segundo e mirou a jovem ao seu lado. Linda. Norberto gostaria de ser vinte anos mais novo pra ter um romance com ela. Não que fosse dispensar uma eventual noite de sexo casual com uma bela mulher, mas Norberto acostumara-se á gostar de alguém, á estar com alguém, se importar com alguém, e se a Clarice não tivesse começado á agir feito uma velha louca, ele ainda estaria casado com ela, e, com mil demônios, estaria feliz, afinal de contas, a amava. A vaca.
Fora vista pelo Juvenal jantando com outros dois casais, estava acompanhada de um homem de "uns quarenta anos", conforme Juvenal relatara. Ela que nunca queria fazer nada com ele, nenhum programa por que não queria deixar as crianças sozinhas, por que não suportava os amigos dele, agora fazia programas de casalzinho.
Que as plásticas dela estourassem durante o sexo com o tal do quarentão. Aquela vaca.
Respirou fundo, decidira levar a aventura sexual adiante. Tinha um Viagra em casa, dado pelo Juvenal, para o caso de as coisas se tornassem um desastre. Perguntaria o nome dela, faria um comentário á respeito, elogiaria os olhos dela, emendaria uma conversa sobre atualidades, e então daria o bote, algo como:
"-Ah, é? Fulana? Mas que nome lindo. Lindo como teus olhos. Tu sabias que é o nome de uma deusa grega? Aliás, visse os tumultos na Grécia? Coisa feia... Não me lembro o que ela, a Deusa que tem o mesmo nome que tu, representa. Tenho um livro á respeito em casa. Vamos lá pesquisar e descobrir?".
Sim... Passaria a mão nas costas nuas dela, arrancando-lhe suspiros, talvez um gemido leve... Por quê, não?
Abriu a boca para iniciar seu flerte, mas ela foi mais rápida:
-O senhor quer que eu leia?
Mais tarde naquela noite, Norberto riu. Mas na hora ele sentiu uma parte de si morrer. Chegou á pensar que choraria, ele que não chorava desde que o Inter fora campeão Brasileiro Invicto em 1979, tamanho foi o nó na sua garganta na hora em que a menina perguntou se ele precisava de ajuda pra ler o cardápio.
Fizera um papel de velho ridículo, morrera de vergonha. Saiu correndo sem dizer nada inteligível em resposta, e se apoiara na parede pra respirar e se recuperar do vexame.
Agora, sentado no rpóprio quarto, sorria. Levantou da cama sem fazer barulho, foi até o banheiro e constatou, com certo alívio, que o efeito do Viagra passara. Atendeu o chamado da natureza, e, voltando pro quarto, apanhou uma blusa de oncinha do chão. Sentou na cama e observou a mulher gorda ali deitada, ressonando alto, quase roncando.
Norberto certamente pediria o número dela, mas não ligaria. Queria apenas recuperar o amor-próprio. Antes de dormir imaginou se a ogra espalhada na cama prestaria-se á esse propósito, mas calculou que sim.
Era um homem modesto, de ambições modestas.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Menelau e o Diabo


Menelau acordou naquela madrugada com dor de cabeça. Era a terceira vez seguida que aquilo acontecia. Ás três da manhã, e Menelau, com a cabeça latejando como se fosse açoitada pela bateria da Imperadores do Samba, mantinha os olhos fechados por saber que abrí-los e se levantar não aliviaria sua violenta nevralgia.
Tentou respirar fundo, de forma compassada, olhos fechados e silêncio, apenas o som da própria respiração e os carros passando na rua abaixo. Inspirava e expirava, inspirava e expirava, inspirava e expirava, num ritmo cadenciado que foi, aos poucos, entrando no ritmo do latejar de sua cabeça. Tambores de selva.
Era isso que parecia. O som de tambores primitivos em uma selva escura com árvores centenárias de galhos retorcidos e folhagem densa por onde a luz não passa. Aquele pensamento opressivo fez a dor de cabeça de Menelau aumentar. Ele trancou a respiração por um segundo e apertou a cabeça entre as mãos. Só então ele se deu conta: Continuava ouvindo uma respiração compassada dentro do quarto.
Abriu os olhos num átimo, e distinguiu, sentado aos pés da cama, um homem.
Cabe dizer aqui, que Menelau morava sozinho, o que explica a reação apavorada dele.
Ele sentou, mirando o estranho sentado aos pés de sua cama, olhou para o telefone celular no criado-mudo ao lado da cama, mas o estranho falou, com uma voz macia e profunda, que encheu o quarto com um calor sufocante:
-Tu não vais precisar disso, Menelau. Tu não precisas chamar por ajuda. Eu estou aqui pra te ajudar.
Algo na voz daquele homem, á despeito do calor no quarto, gelou até a alma de Menelau. Ele encolheu as pernas e as abraçou. Mirando ainda o estranho, buscou fôlego para falar, mas antes que balbuciasse qualquer coisa, o estranho falou novamente:
-Quem tu achas que eu sou?
Menelau não fazia ideia, entretanto, começava á torcer para que fosse um ladrão. Com um ladrão saberia lidar. Aquelas recomendações que as autoridades fazem na TV em época de onda de assaltos, manter a calma, não reagir, falar o menos possível, entregar o que o meliante exigir... Tudo isso estava bem vívido na mente de Menelau, mas aquilo... Aquilo era diferente. Algo transcendental, sobrenatural, ou seja lá como pudesse ser rotulada. Menelau não gostava.
O homem perguntou de novo, sua voz firme e baixa, pouco mais que um sussurro:
-Quem tu achas que eu sou, Menelau?
-Eu não sei. -Balbuciou Menelau, horrorizado.
-Chuta. - Aconselhou o sujeito, casual.
-Um fantasma? -Sugeriu Menelau, com alguma esperança.
-Tu podes chutar melhor que isso, Menelau. Tu já chutaste melhor que isso. Lembra, na sexta-série? Na gincana de Ciências? Ninguém sabia, tinha passado e repassado, valia o dobro de pontos, e tu chutou. Chutou por que a História só ama aos vencedores. "Simetria Radial" tu disse, fingindo ter certeza, e quando a professora gritou que estava certo e teu grupo comemorou, tu lançou um sorriso superior pra Viviane, como se tu tivesse planejado aquela ação inteira.
Menelau sentiu seu sangue gelar. Mal lembrava daquela ocasião. Era verdade, ele chutara descaradamente, depois usou aquele pequeno triunfo para fazer charme pra Viviane, a moreninha que viera de Brasília com o irmão. Flertava muito com ela. Foi ali que ele conseguiu coragem pra finalmente dar um passo á frente e tascar uns beijos na Vivi.
-E foram bons, não foram? Aqueles beijos, eu digo. - O estranho falara novamente, arrancando Menelau de seu devaneio e o colocando novamente na realidade imediata e aterrorizante instalada em seu quarto.
-Não foram bons? Os beijos? - Insistiu o estranho.
-Foram. Foram muito bons. - Aquiesceu Menelau, incerto. Pensou, então, que não havia razão para a incerteza, os beijos de Viviane fora excelentes, ela beijava bem, na verdade, ela meio que ensinou Menelau á beijar, ele era um beijador menos que amador. Se não fosse por Viviane ele jamais teria feito o sucesso que fez mais tarde com-
-Andréia... A Andréia da farmácia. Outra beleza...
Fora o homem novamente. Era verdade, era o que Menelau diria á seguir. Andréia, filha do dono da farmácia era uma morena voluptuosa. Desenvolveu-se cedo, tinha um corpaço de mulher aos treze anos, os guris da sala e da escola inteira sonhavam com as curvas de Andréia. E Andréia, sabe Deus por que, dera bola á Menelau. Menelau que, à época, "ficava" com Viviane, e, sem nenhum peso na consciência, desmarcou o encontro com Vivi atrás do museu após a aula para se encontrar com a voluptuosa Andréia. E, naquele encontro quente com Andréia, quando ela elogiou os beijos de Menelau, ele sorriu, o mesmo sorriso pretencioso e malicioso que dera após chutar "simetria radial" na gincana de biologia, ou naquele tempo ainda era "ciências"? Bom, não importava, era um sorriso pro lado, pretencioso, malicioso, algo cínico, e foi o que Menelau lançou para Andréia antes de beijá-la novamente, e agarrar com firmeza a cintura dela, e depois de um beijo longo deu um beijo curto, apenas no lábio superior dela, exatamente como Viviane fizera nele nos dias que sucederam a gincana.
-Eu, particularmente, adorava o sorriso. Por que tu parasse com ele? - Inquiriu o interlocutor misterioso de Menelau.
-Sei lá... Acho que... Não tive muitas outras oportunidades. - Respondeu Menelau, que por um momento esqueceu a estranheza da situação e foi o mais honesto possível. Até por que, sendo bem franco, Menelau também sentia um pouco de falta daquele sorriso.
-Ah, oportunidades tu teve. Apenas não as aproveitou. - Disse o sujeito aos pés da cama, passando as costas da mão na camisa preta impecável que vestia. E prosseguiu:
-Por que tu não aproveitou, por exemplo, naquele trabalho da faculdade? Aquele sobre os ciganos. Geografia Humana, não era?
-Era... - Concordou Menelau, puxando pela memória. -Professor Pedro Rocha, que nem o jogador do São Paulo.
Menelau lembrava do trabalho. Povos sem pátria. Queria os Palestinos, que eram significativos e para o qual fontes de pesquisa eram praticamente inesgotáveis, no sorteio ele e seu grupo acabaram com os ciganos. Praticamente nenhuma literatura.
Como todos os membros de seu grupo trabalhavam á tarde, dividiram as tarefas, e juntariam tudo ao final do prazo dado pelo professor.
Antes, porém, de iniciar o trabalho, Menelau foi até o professor Pedro Rocha e comentou as dificuldades em encontrar fontes de pesquisa, o professor concordou, e deu-lhe um par de revistas antigas que continham algumas informações sobre o tema.
Menelau guardou-as para si, fez seu relatório um dia antes do prazo final de entrega e, durante a apresentação do trabalho, inventou e contou uma história sobre ciganos pouco amistosos que o teriam expulsado de uma acampamento nos arredores de Guaíba. Sucesso total, nota dez, parabenizações pessoais proferidas pelo professor. A únca apresentação á receber tal honraria.
Uma colega sua, Jaqueline, que passara as duas semanas do trabalho pesquisando na biblioteca e na internet e, após a apresentação recebera algumas críticas, olhou para Menelau com admiração e uma ponta de inveja. Era a chance perfeita para o seu sorriso, aquele sorriso algo superior, algo cínico e pretencioso.
-Mas tu não sorriste.
-Não... Não sorri. Bom, sorri.
-Sorriu um sorriso simpatético. Como quem se desculpa pelo próprio sucesso.
-Pois é... Eu sei... Sei lá. Me senti mal, sabe? Ela passou duas semanas pesquisando. Coitada da Jaque. Tava á beira de um ataque de nervos. Todo mundo tinha medo do Pedro Rocha. Ele era o professor que não dava dez pra ninguém, e tal.
-Tu tiraste o dez na prova do bimestre anterior. Era outra chance de dar aquele sorriso. Ainda mais depois de ter lutado pelo dez.
-Não foi bem luta... Eu recebi a prova com 9,5 e fui perguntar qual havia sido meu erro na questão do 0,5.
-E ele reconheceu que estava errado e te deu dez. Era outra chance de dar aquele sorriso. Por que tu não destes?
-Não me senti assim tão superior. Fui só oportunista.
-Chance que todos os outros tiveram e não usaram.
-Não, só eu tive. Ninguém mais tirou nove e meio.
-Mais uma razão pra dar o sorriso. E tu não destes.
-Pois é...
-Por quê?
-Não... Bom. Sei lá. Não queria fazer aquele papel... Do cara que se acha o maioral, sabe?
-Qual o problema em ser o maioral?
-Em ser o maioral? Nenhum. Mas se achar o maioral sem ser... Bom, isso é algo patético.
-Patético é se desculpar por ser bom em alguma coisa. Tu consegues imaginar um leão se envergonhando de ser um excelente caçador? Tu consegues imaginar ele se desculpando, ou lançando um olhar culpado e um sorriso simpatético pra mãe da zebrinha que ele acabou de abater?
-Na verdade quem caça, mesmo é a leoa.
-Filho da puta. Tem razão. É a leoa. Tu me pegasse. Cadê aquele sorriso?
-Ah... Não é pra tanto. Não foi... Não foi um grande momento. Não merece aquele sorriso.
-E o que mereceria aquele sorriso?
-Hein?
-O que mereceria aquele sorriso, Menelau? Que feito grandioso valeria aquele sorriso? Vários daqueles?
-Ah... Sei lá. Eu era um guri exibido na época daquele sorriso. Orgulhoso. Não era uma boa pessoa.
-Não era... Não era uma boa pessoa? Tu era bom em tudo o que tu fazia naquela época. Tu era capitão do time de futebol, no Vôley era o único que bloqueava as cortadas do Sílvio, todas as gurias da escola queriam dar pra ti! Tu tirava as melhores notas da tua turma, andava com um pessoal barra-pesada e nunca foi influenciado. Senhor do castelo, Menelau. A firmeza de um conde, de um fidalgo. E tu me diz que não era uma boa pessoa? Tu era excelente, Menelau!
-Nah... Não era tudo isso... Eu tinha meus momentos, mas não era... Não era tudo isso. Eu era um fedelho orgulhoso, achava que sabia tudo.
-Mas tu sabes tudo... Tu sabes um pouco de tudo, Menelau! Tu conversas com qualquer pessoa, as pessoas se espantam com tudo que tu sabes! Tu sempre arrancas uma expressão surpresa das pessoas! É sempre mais do que elas esperam, Menelau! Tu tens o direito... Não, tu tens a obrigação, de dar aquele sorriso. Tu tens a porra da obrigação de dar aquele sorriso, entendestes? A porra da obrigação!
O ego de Menelau estava, de fato, inchado. Ele olhava o sujeito, vestido de negro, os cabelos escuros caindo na testa por causa do movimento exaltado que fizera enquanto numerava as qualidades de Menelau, sua camisa e calça, impecavelmente negras, seus sapatos de bico fino muito sujos de barro destoando um pouco do resto da roupa, os olhos faiscando de excitação. O sujeito mirou Menelau:
-O que valeria aquele sorriso, Menelau? Me conta. Seria a Valéria voltar? Ela volta. Foi tu quem dispensou ela. É só tu querer que ela volta. Ela nunca esqueceu de ti. Hoje, com o namorado novo, ela olha pro teto com ele em cima dela e lembra de ti. Ela lembra de gemer o teu nome baixinho, Menelau. Na verdade, logo que eles começaram á namorar, ela fez isso, deu até briga, sabe?
-Não... Eu... Eu ainda gosto da Val, mas não quero ela de volta. Nosso namoro era um pesadelo.
-Eu sei... Eu sei... Tu podias ter traído ela e não traiu. Mais de uma vez.
-É, mas até aí, ela podia ter me traído, também. Várias vezes. Talvez tenha traído, vai saber...
-E tu não ligas?
-Não... Já passou.
-Olha só... Que estóico... Parece que eu estou falando com Marco Aurélio.
-Ah, que isso... Capaz.
-Então, não muda de assunto... Tu tá tentando me enrolar e conseguindo. Não me faz perder o foco, seu safado. O que vale um sorriso daqueles? Dobrar tua produção no trabalho sem se esforçar? Manter o faturamento daquele verão, mais de oitenta por cento acima da média? Os teus colegas de cabelo em pé, e tu ali, tranquilo, fazendo chover!
-Não... Não, não. Aquele trampo nem... Eu nem curto aquilo. É só um lance que eu faço pra viver. Não tem nada de agradável lá. Eu só faço a minha parte.
-Olha só... O pilar da empresa, e essa modéstia. Fala, fala o que seria, qualquer coisa, Menelau. Fala que a gente dá um jeito, eu topo qualquer parada pra ver aquele sorriso de novo, qualquer coisa! Escrever um romance best seller em uma mês? Por que tu podes, nós dois sabemos das tuas extravagâncias literárias! Gol de bicicleta na final do campeonato da firma? Tu sabes que pode, é só alguém cruzar à feição que tu guardas, tu é assim, um craque lúcido e discreto, um Zidane amador. O que é? O quê? Impedir um assalto e nocautear o bandido? Foto na Zero Hora entregando o marginal armado pra PM? Com essa direita a gente sabe que rola, é só tu teres a oportunidade, encontrar um tolo incauto que tenha a ousadia de mexer contigo... Fala, Menelau, fala que eu te escuto, é só dizer que a gente arranja.
O sujeito estava ansioso, as mãos crispadas sobre as cobertas de Menelau, falava rápido, arremessandro perdigotos em direção á Menelau, seu hálito cheirava á carne crua, os cabelos, agora, em completo desalinho, os olhos arregalados.
-Olha - Começou Menelau. - Eu já entendi quem tu é... Por que... Por que esse interesse em mim? Eu não sou, sei lá, eu não sou um grande homem de nosso tempo, sou um sujeito comum, bem mediano, até... Por que... Por que essa atenção?
-Ah... Eu devia saber que não dá pra te enganar, Menelau. Tu és inteligente e perspicaz demais pra mim, mereces uma explicação. Veja bem, Menelau, - Começou o estranho se ajeitando na cama de Menelau:
-Como eu posso te explicar... Sabe quando tu comes em um restaurante caríssimo, e a comida é deliciosa, algo pretenciosa, cara, e depois que tu comes, tu tens a certeza inatacável da experiência gastronômica superior, mas, por mais deliciosa e perfeita que fosse aquela comida, falta algo, tu não sabes o quê. Tu comestes a entrada, o prato principal, o acompanhamento, a sobremesa e o cafézinho, mas faltou alguma coisa. E então, tu sai do restaurante, entra no carro, dirige duas quadras e para no sinal, e um moleque te oferece uma paçoca, e tu compra, compra mais pro guri não voltar pro meio-fio de mãos vazias, tu compra e larga ali por cima do painel do carro.
Então, por acaso, pra não enfiar o dedo no nariz, no sinal seguinte, algo distraído, tu comes a tal da paçoca, e, quase como por mágica, ela te dá uma sensação de completude e satisfação profundas, e tu percebe que, aquela paçoquinha cretina, vagabunda, bagaceira, em sua infinita simplicidade, era o que faltava à lauta e cara refeição do restaurante. Entendeu, Menelau? Genocídios, estupros de crianças, abortos e desvios monstruosos de dinheiro da saúde me alimentam, agradam ao meu paladar, são meu prato principal, mas as travessuras, os pequenos orgulhos vazios... Esses me deliciam.
Menelau o encarou com serenidade.
-Cachorro acorrentado. - Disse.
-Quê? - Perguntou o sujeito, recuando como se levasse um soco na cara.
-Tu é um cachorro acorrentado. Só me morde se eu chegar perto. - Explicou Menelau.
-Do que tu estás falando, Menelau? -Retrucou o sujeito. Já não estava tão impecável, a camisa já estava amarrotada e felpas brancas da coberta de Menelau se grudaram á sua calça.
-Eu não quero nada do que tu tem á oferecer. O que eu quero eu consigo sozinho, ou não consigo sozinho. Não preciso da tua ajuda, nem quero a tua ajuda. Obrigado.
-Filho da puta! Filho de mil putas! Como que tu, um medíocre de merda, com o nome de um corno histórico da literatura tem a audácia de me dizer "não"? Quem tu pensa que é, desgraçado? Miserável! Imbecil! Vai morrer sozinho e ser esquecido uma semana depois! Uma semana, no máximo! Engasga com cuspe e morre cretino! Tu podia ter sido grande, mas em algum momento na porra da tua adolescência tu resolveu ser "uma boa pessoa" e virou um monte de nada, um medíocre, um cretino que não é bom de verdade em porra nenhuma, em porra nenhuma!
O sujeito cerrou os punho jogou a cabeça pra trás e gritou alto, fazendo tremer o apartamento, então encarou Menelau e, quando abriu a boca para falar, Menelau acordou.
Estava deitado na cama, no quarto, e não havia ninguém sentado à seus pés.
Ele massageou as próprias têmporas e se deu conta que não estava mais com dor de cabeça.
Afofou o travesseiro, e o virou, deitando a cabeça no lado fresco da fronha. Antes de fechar os olhos, sorriu pro lado, algo cínico, algo superior, talvez até um pouquinho pretensioso, mas em paz consigo mesmo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Resenha Cinema: Ilha do Medo




Outro dia, falando de O Sequestro do Metrô 123, mencionei a relação entre diretores e seus atores fetiche, ontem fui ver a última produção da dupla Scorsese (Que é 1, 2 e adota um novo ator fetiche) e seu xodó da vez, Leonardo DiCaprio.
Não houve nenhuma surpresa, o produto resultante da parceria é bom como sempre (Gangues de Nova York, O Aviador e Os Infiltrados, são todo bons filmes.), e ainda mostra que Scorsese continua com vontade de sobra pra experimentar, sem nenhuma dispisção de se ater a um único filão do cinema.
No filme é 1954, a Guerra Fria corre solta, e acompanhamos Teddy Daniels (DiCaprio, ótimo no papel), agente federal que, com seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo), é enviado à Ilha Shutter, uma instalação de segurança máxima do governo que abriga criminosos insanos, para investigar a possível fuga de uma paciente/prisioneira, Rachel Solando (Emily Mortimer, misturando ternura e loucura numa nota bem convincente.), enclausurada por assassinar os três filhos.
Desde o momento em que os investigadores colocam o pé na ilha, a atmosfera do lugar começa a afetar Daniels, que não está lá unicamente para investigar o sumiço da prisioneira, mas tem razões próprias, que evocam a morte de sua esposa, dolores (Michelle Williams), e a busca pela confrontação com o homem que a causou, Andrew Laeddis (Elias Koteas), além da suspeita de que a Ilha Shutter guarda mais do que apenas uma prisão-hospício.
Conforme dá prosseguimento à investigação, Daniels percebe que os responsáveis pelo local, os doutores John Cawley (Ben Kingsley, excelente) e Jeremiah Naehring (Max Von Sidow), resistem em lhe dar liberdade para se movimentar no local, o que aumenta suas suspeitas quanto a verdade por trás, não apenas da verdadeira função do hospício, como também de sua própria presença lá. E, no momento em que uma tempestade impede que os investigadores deixem a ilha, Daniels se vê cada vez mais perturbado pelo ambiente, onde é constantemente assombrado por visões de sua esposa morta, e de suas próprias experiências na tomada do campo de concentração de Dachau, no fim da Segunda Guerra Mundial.
Contar mais do que isso poderia estragar a experiência de ver o filme, onde as revelações são parte integrante e importante da diversão.
O que é bacana é perceber que, entra ano sai ano, e Scorsese, a despeito de sua mania de fazer filmes e mais filmes com o mesmo ator, não tem medo de tentar coisas novas, e flutua entre gêneros, ás vezes dentro do mesmo filme (Ilha do Medo surge entre o suspense, o filme noir e o filme de guerra.) sem perder a mão.
O elenco, que além dos protagonistas DiCaprio, Ruffalo e Kingsley, traz gente como Mortimer (Só eu sou louco por aquela mulher?), Von Sydow, Ted Levine, Jackie Earle Haley e Patricia Clarkson, que aparecem e desaparecem rapidamente, no melhor estilo dos filmes de mistério B dos anos 50 e 60, é muito competente, e há personagens que até mereciam maior destaque, mas nada que estrague a experiência.
Ilha do Medo é um ótimo filme, que demanda uma certa dose de paciência, e agrada, em especial, ao espectador detetive, que adora tentar descobrir o mistério junto com o protagonista, mas não vai deixar nenhum amante de bom cinema desapontado.

"-Se eu tentar furar seu olho com os dentes, você irá conseguir reagir antes que eu o cegue?
-Por quê não tenta?"

terça-feira, 23 de março de 2010

Mais que um nome.


-Lolita. - Disse ela.
-Ah, tá. - Respondeu ele rindo e ignorando a absoluta falta de educação de sua reação.
-"Ah, tá" o quê? - Perguntou ela, irritada.
Ela ficou mais bonita irritada. Cabe dizer que ela era bonita. Miúda, miúda, não. Mignon, que nem o filé. Era pequena, sem volume exagerado em parte alguma. Uma moça compacta, não ocuparia grandes espaços se morasse num apartamento em Tóquio. A pele muito alva, os cabelos castanhos lisos deitados sobre os ombros á mostra na blusa de alças cor-de-rosa. Ela o fustigava com os olhos cor de mel cheios de desagrado, e os lábios avermelhados contraídos, estava, de fato, muito contrariada.
-Qual a graça?
-Nenhuma. - Ele respondeu tentando desconversar.
Ela disse "então tá", cheia de desdém, e foi saindo, desviando das pessoas que se acotovelavam fingindo dançar no salão da danceteria.
Ele a olhou, pequenina, sumindo na multidão, pensou melhor. Correu etrás dela e a segurou pelo braço. Ela virou com a boca entreaberta e um olho fechado, numa expressão clássica de raiva feminina.
Ele disse:
-Qual é o problema dos teus pais? Eram presidentes do fã-clube do Nabokov?
-Escuta aqui, ô- Ela começou, mas ele a interrompeu:
-Não, por que pra batizar um filho com nome de personagem de romance, ainda mais desse romance, ainda mais esse nome, tem que ser alguém muito perturbado. Ainda mais nos dias de hoje.
-Cala a boca, palhaço.- Respondeu Lolita, irritada.
-Não calo, não. Tu nunca pensa á respeito? Isso não te incomoda? Sei lá. Não te parece que "Lolita" não é nome, é destino? Não te preocupa o futuro? Que algum Clare Quilty da vida te sequestre pra tentar te enfiar em um filme pornô?
-Vai encher outra, otário.
-Não vou! Me diz, o quê mais, além da má atitude, tu tem da Lolita da literatura? Costas flexíveis?
-Eu vou te meter a mão na cara.
-Tu é a luz da vida de alguém? O fogo nas entranhas de alguém? O pecado e a alma de alguém?
-Eu... Que lindo isso...
Pouco depois, conversavam, braços colados em uma pequena mesa da danceteria. Berravam no ouvido um do outro por que a Lady Gaga não calava a boca em altíssimo volume fazendo os frequentadores se contorcerem ao som da música. Mas ele e ela pareciam alheios á isso conversando.
Ele parecia boa gente. Á despeito da forma pouco ortodoxa de puxar assunto, era inteligente, educado, conforme conversavam ela lhe fazia perguntas e descobria mais sobre ele.
Era professor. De literatura como seu pai e sua mãe. Era do interior, estudara alguns anos fora do Brasil, na Europa, voltara pra cá havia pouco tempo, morava em uma pensão, mas não dessas fuleiras, um lugar de família. Gostava de poesia, especialmente francesa, mas lia de tudo, até bobagens como Crepúsculo e Harry Potter, que era pra saber o que a garotada andava lendo nos dias de hoje. Obrigação profissional e talicoisa.
Gostava muito de ir ao cinema, também, gostava de fast-food mas tentava evitar, a família tinha tendência á engordar, então ele comia pouco segunda á sexta, se exercitava bastante, para os próprios padrões, e ia á forra nos finais de semana. Raramente ia á danceterias, sua presença ali, naquela noite, era obra do acaso, era aniversário de um colega, ele foi meio á contragosto, na verdade já estava indo embora quando a viu, e não conseguiu tirar os olhos dela. Precisou perguntar seu nome.
Ela sorriu.
-Mas eu devo ser muito velho pra ti. - Ele falou, algo sem jeito, olhando para as próprias mãos no colo.
-Capaz. Quantos anos tu tem? - Ela quis saber.
-Trinta e sete. - Ele respondeu sem rodeios. Era mais do que ela imaginava, mas ele estava, na verdade, em boa forma. Não parecia ter muito mais de trinta.
-Bom, não é uma diferença tão grande. -Ela disse alongando o som do "ão".
-Até parece.- Ele disse com um sorriso algo tristonho.
-Não é!- Ela insistiu.
Ele sorriu e fechou um olho a encarando.
-Tu deve ter o quê? Dezesseis? Dezessete?
-Eu acho que tenho que ficar feliz. Mulher adora quando dão anos á menos. Tenho vinte e quatro anos.
-Vinte e quatro? - Ele não pôde esconder o horror na própria voz.
-Vinte e quatro! - Ela aquiesceu, desafiadora.
-Parece que nome é destino, mesmo. - Ele concluiu.
Se beijaram. Se beijaram por um bom tempo na danceteria, mesmo. Foram para o apartamento dela. Se beijaram mais. Ela o despiu com destreza e agilidade, ele a despiu com um pouco de desânimo, algo desajeitado. Ela o beijou, explorou seu corpo com lábios e língua. Fizeram amor. Ele não alcançou píncaros de prazer. Teve lá um orgasmo algo mecânico, proveniente do movimento, e era isso.
Horas mais tarde, quando o céu já ganhava tons de azul, ele se lavou, se vestiu e se despediu dela à porta. Na luz matutina, sem maquiagem, ela parecia ter mesmo os seus vinte e quatro anos. Até mais.
Ela, meio sem jeito, vestindo uma camiseta grande e com uma toalha nos cabelos se apoiou na porta e disse:
-Sabe que só agora eu me dei conta de que não perguntei o teu nome?
Ele sorriu. Passou as costas do dedo indicador no queixo dela e disse:
-Humberto.
-Prazer, Humberto. Eu sou Lolita Gomes Fagundes. - Ela sorriu e estendeu a mão com o queixo no ombro direito.
Ele segurou a mão dela se emperdigou e disse:
-Prazer. Humberto Agá Gutemberg.
Ela se despediu dele com um beijo que ele não correspondeu com grande entusiasmo. Trocaram telefones mas ele "acidentalmente" trocou o último dígito do próprio número.
Se apressou na rua, já eram quase seis da manhã, ele precisava trabalhar ás sete e quinze. Provavelmente áquela hora dona Charlote já teria começado á preparar o café da manhã para os pensionistas, e ele poderia comer algo antes de sair. Com sorte, andaria com a pequena Dolores até a parada de ônibus.
Nome, com mil diabos, era destino, mesmo.
Mas não precisava ser tanto, pensou Humberto.