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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Mocotó


Romão conheceu Agatha, pasmem, na internet. Logo Romão, que parecia alérgico á inovações e tecnologias de qualquer espécie, Romão, que achava telefone celular um troço de outro mundo, tecnologia de Jornada nas Estrelas. Pois é. Romão, numa madrugada insône, seguiu os conselhos de seu amigo Mauro, e foi para um chat da internet.
Desde que Romão terminara seu namoro com Cleyde ele andava cabisbaixo, não demonstrava interesse por nada, por ninguém, parecia alheio á tudo e á todos Além de ser triste ver um sujeito divertido como Romão naquela fossa, ele já estava começando á ficar chato, afinal, o rompimento fora á mais de dois anos, pelo amor de Deus. O cadáver daquele namoro não tinha só esfriado, já tinha putrefado e sido comido pelos bichos. Que Romão passasse pra próxima, que fosse á luta. Era um sujeito bacana, poderia encontrar alguém com quem se relacionar. Mas precisava fazer algum movimento.
As idas á bares foram infrutíferas, programas sociais, de modo geral, não eram o forte de Romão, ele sentava e ficava encarando o infinito respondendo á quem falava com ele por monossílabos.
Mauro sugeriu o chat.
Disse á Romão que, se ele não encontrasse a mulher da vida dele na internet, pelo menos poderia encontrar uma mulher desfrutável que lhe aliviasse a solidão por duas horas que fosse.
E Romão, que não se sentia assim tão solitário, nem tão melancólico aceitou a sugestão. Aceitou mais pra que, quando lhe cobrasse no futuro pudesse dizer "Mas eu tentei e não adiantou.".
Escolheu uma sala de sua cidade, um nick entre o descolado e o misterioso, e lá se foi, procurar alguém com quem trocar umas mensagens durante a noite.
Notou o nick logo que ela entrou "Agatha". Ele achou bacana, interessante. Pelo menos mais interessante do que os "Morena gostosa", "Rabuda", e "Solitária com Tesão" que infestavam o chat.
Clicou sobre o nome dela e preencheu o campo de mensagens com um descolado "Christie?"
Menos de um minuto depois a resposta dela "Quem me dera".
Encarreiraram uma longa conversa. Ambos gostavam de romances policiais, embora ela curtisse livros de Stephen King e ele detestasse, gostavam de blockbusters, de House e Lei & Ordem, e gostavam de rock. Mais que apenas isso. Eram fãs de Bowie, de Beatles, Stones e Metallica. Ainda mais que apenas isso. Eram fãs de Led Zeppelin, Rush, Jethro Tull e Creedence.
Migraram rapidamente para o MSN, trocaram músicas, ele a achou linda, ela não o achou feio, na verdade o achou agradável, culto, educado e disse que seu cavanhaque lembrava o de James Hetfield, o que ele achou muito lisonjeiro, era o segundo melhor elogio que ouvira na vida, tirando quando alguém muito especial lhe disse, certa vez, que ele era como o Batman, aquele era o elogio definitivo, mas a comparação á Hetfield era muito legal, também.
Agatha, que se chamava Agatha em homenagem á Christie, mesmo, era muito legal, também. Era alguns anos mais jovem que Romão, nada grave, era do Rio de Janeiro, e morava no Rio Grande á pouco tempo, detestava frio, que Romão adorava, mas também, nada de grave.
A química entre eles foi ótima. Conversaram pelo messenger mais algumas vezes, depois trocaram telefones, ligaram-se várias vezes e tiveram longas e divertidas conversas.
A vida retornou á Romão. Ele parou de chatear seus amigos, parou com a melancolia e a tristeza. Romão parecia disposto, após mais de dois anos, a arriscar um pouco em um namoro, ele parecia, de fato, disposto á tentar viver novamente.
Havia apenas um detalhe, uma prova para que Romão se comprometesse, de fato, á dar um salto de fé.
O mocotó.
Mulher para Romão, podia ter todas as frescurites do mundo. Podia não querer acampar, não querer abraçá-lo quando ele estivesse suado depois do futebol, sair da cama se ele flatulasse sob as cobertas, não deixar que ele entrasse no banheiro quando ela estivesse no chuveiro, podia preferir ficar em casa fazendo as unhas á ir ao cinema, e ver Sex and the City ao invés de Rambo IV, Romão relevava, na verdade, ele até achava bonitinho, sexy, feminino.
Mas havia uma frescurite que Romão não admitia. E era que mulher entortasse o nariz pra um mocotó.
Mocotó de verdade, não sopa de dobradinha com azeitona e feijão branco. Mocotó, mesmo, daqueles feito com pata, mondongo, cualheira, tripas finas e grossas, linguiça e ovo picado. Daquele que depois de tomar o vivente fica com os lábios superior e inferior grudentos, daquele que se tu deixa esfriar no prato dá pra cortar com faca e comer em cubinhos. Mocotó á moda campeira.
A Cleyde adorava Mocotó. Á despeito de toda a sua delicadeza de princesinha, de seu jeito patricinha cor-de-rosa de ser, ela adorava mocotó, e, depois de sorver com gosto uma colherada generosa de mocotó, ela gostava de espremer os lábios um no outro ruidosamente e dizer "Tá de colar os beiços!".
Romão adorava aquilo. Aquela contradição da moça magra, pálida e delicada sendo capaz de comer um pratarrão de mocotó com gosto e mencionar a qualidade "gruda beiço" do prato.
Romão, entre várias outras coisas, se apaixonara por aquilo. E agora, inclinado á deixar as coisas acontecerem e se entregar á um eventual relacionamento com Agatha, tinha medo.
E se ela não gostasse de mocotó?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Identidade.


Alfredo conhecia as regras da convivência e da etiqueta. Sabia se portar á mesa, segurava a porta para os vizinhos, deixava que as moças e as pessoas mais velhas passassem primeiro... Todas essas pequenas gentilezas diárias, Alfredo dominava e cultivava. Á primeira vista, Alfredo poderia ser considerado uma pessoa agradável, uma pessoa gentil, um bom sujeito. Na verdade, era assim que as pessoas lembravam de Alfredo. Raramente ele deixava uma impressão longeva nas pessoas, elas conversavam com ele, absorviam sua gentileza mundana por alguns minutos, e logo o esqueciam, depois, quando, por alguma eventualidade queriam se referir á ele diziam "Aquele cara... Pô, super gente-boa, como era o nome dele? Um de cabelo preto...". Era assim. A impressão que Alfredo deixava nas pessoas, em sua maioria, era uma impressão fast-food, ela tinha um bom sabor enquanto era experimentada, mas pouco depois, já não era mais lembrada.
Alfredo não ligava. Á despeito de ser gentil, polido e agradável, Alfredo nutria uma profunda indiferença para com as outras pessoas. Alfredo as olhava com condescendência, como um velho sábio olha um jovem imaturo. Não que Alfredo de considerasse um sábio, longe disso, ele apenas desconsiderava solenemente a opinião alheia.
Alfredo desprezava o senso comum, jamais pedia conselhos e tomava decisões baseado única e exclusivamente nas próprias crenças e vontades. Alfredo, á despeito de não se pautar pelo que os outros consideravam correto, era correto. Ele não tentava tirar vantagem de ninguém, não queria invadir o espaço alheio, nem nada do gênero. Ele apenas não usava parâmetros alheios para se decidir no que dizia respeito á ele individualmente. Alfredo não era uma pessoa de fácil convívio, ele tinha uma postura bastante rígida com relação á certo e errado em quase tudo, não acreditava em praticamente nada, e, embora acreditasse que todos tinham direito de discordar dele, discutia até a morte quando se opunham á suas ideias de maneira ríspida.
Alfredo não era unanimidade nem entre os familiares, muitos o viam como um acomodado preguiçoso, como um tolo, como um burro. Outros o enxergavam como se fosse um frio e calculista gênio do mal. Nenhuma das teorias estava certa, Alfredo não estava nem tanto ao céu nem tanto ao mar, ele era uma pessoa comum, talvez com um senso de responsabilidade e de individualidade um pouco acima da média, nada de tão fantástico. E, no final das contas, não lhe fazia nenhuma diferença, pois ele continuava não ligando pra o que os outros pensavam.
O caminho escolhido por Alfredo era um pouco solitário, muitas vezes as pessoas se cansavam de Alfredo antes de conseguirem entendê-lo o que, ele sabia, ás vezes podia tomar tempo, e nem sempre era garantia de que gostariam do resultado. Mas Alfredo, ainda assim, preferia se abraçar ás próprias crenças, e fazer o seu melhor de acordo com seus parâmetros particulares. Ele podia ser feliz ou infeliz fazendo isso. Poderia alcançar sucesso ou fracasso. Mas fosse qual fosse o resultado, Alfredo estaria em paz consigo mesmo. Por isso Alfredo vai torcer pelo Dunga e pela Seleção na Copa do Mundo, por que Alfredo sabe exatamente como Dunga se sente.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sensatez


Enquanto Francisco empilhava as suas roupas na bolsa de viagem e ouvia os gritos de Cecília na sala. Ela, de quando em quando, surgia na porta do quarto, e despejava uma pequena, porém bastante variada, série de impropérios e insultos, cerca de seis ou sete xingamentos bastante contundentes. De início, Francisco contou, esperando que ela repetisse algum, porém, após a quinta série sem nenhuma reprise, ele desistiu.
Abriu a gaveta do guarda-roupa e a encarou com tristeza. Como separar as suas meias soquete brancas das de Cecília? Não compravam meias por número, por tamanho, apenas compravam, e as partilhavam depois. Estavam juntos á tanto tempo, partilhavam tanta coisa, que as meias eram irrelevantes. Meias brancas, de usar com tênis, claro, eles tinha meias que eram apenas de um ou de outro, as meias sociais que ela insitia em chamar de "carpim", que ele usava com sapatos quando ia trabalhar, ou os meiões de futebol que ele usava com chuteiras, ela tinha suas meias longas de ginástica, que ele insitia em chamar de "pulligan", as meias-calça, de usar com saia e salto-alto, e meias elásticas que iam até pouco abaixo do joelho e que melhoravam a circulação.
Mas as meias brancas, as meias soquete, essas estavam todas juntas numa mesma gaveta.
Francisco poderia começar a contar as meias, e pegar metade dos pares. Mas a verdade é que não estava com vontade de fazer isso. Pegou cinco pares, jogou na bolsa, e partiu pra próxima gaveta. Apanhou suas cuecas, nem sabia que tinha tantas, Umas quinze cuecas. Por que raios precisaria de quinze cuecas? Poderia perfeitamente sobreviver com três. Imaginava se "Dirty" Harry Calahan, o personagem imortalizado por Clint Eastwood no cinema, teria uma gaveta com quinze cuecas. Claro que não. No máximo uma meia-dúzia. William Munny, então? Ou Blondie? Esses deveriam ter uma cueca. Duas, no máximo. Três, vá lá. Uma no corpo, outra no varal, e a terceira de back-up. Homens sensatos não precisam de mais de três cuecas. A quarta cueca é um símbolo de insensatez, de insegurança. Francisco largou novamente as cuecas no fundo da gaveta. Elas eram um símbolo de insensatez.
Assim como era Sofia.
Sofia era a causa da gritaria de Cecília, era a razão pela qual Francisco estava fazendo as malas. Sofia era a amante de Francisco. Quer dizer... Amante é um exagero. Amante evoca a ideia de uma teúda e manteúda sustentada por Francisco e que á qualquer momento poderia ter um filho dele. Não era o caso. Sofia era uma amiga de Francisco. Uma amiga antiga, de antes de Francisco conhecer Cecília. Sofia era loira, bonita, magrinha e baixinha demais pra o gosto de Francisco, que se sentia atraído por mulheres mais fartas, fornidas, por assim dizer. Francisco gostava de ter carne onde enfiar os dentes. Talvez por isso, na juventude, quando conheceu Sofia, jamais tentou levar as fronteiras do relacionamento de ambos para além da amizade. Era uma amizade divertida. Sofia era divertida. Haviam perdido contato após a faculdade, quando Sofia foi viajar para a Europa pra passar um tempo lá.
"Coisa de americano", como dizia Francisco, que após se formar imediatamente foi trabalhar na empresa de engenharia de um amigo do pai.
Lá conheceu Cecília. Cecília, com quase um metro e oitenta, cabelos castanho-escuros longos e lisos, e volume acumulado nos lugares certos imediatamente chamara a atenção de Francisco.
Ele a cortejou, ela aceitou, e logo estavam namorando. Eram muito diferentes, mas, apesar diso, se davam bem. Mantinham acordos tácitos, de abrir precedentes. Ele abria precedentes para programas de Cecília, Cecília abria precedentes para programas de Francisco, e assim iam.
Um dia jantavam fora e iam ao cinema, ou ao teatro, programas que agradavam á Francisco, em outro iam á um bar, ou fazer compras, programas de Cecília.
Entretanto, conforme o tempo foi passando, Francisco foi se tornando a parte que abria mais e mais precedentes, enquanto Cecília abria menos e menos precedentes.
Aquela situação incomodava Francisco, o fato de Cecília fazer o possível e o impossível para não atender aos programas que lhe cabiam, e, ao mesmo tempo, fazer um escândalo cada vez que ele tentava, de algum modo, escapulir dos programas dela.
O relacionamento se tornou um jogo de empurra, e foi, aos poucos, afastando Francisco de Cecília.
Cecília, que via todas as suas vontades prevalecerem, sequer notou o que acontecia, mas Francisco foi perdendo o interesse na relação, a identificação, e foi vendo seus sentimentos por Cecília empalidecerem. Talvez ele devesse ter deixado Cecília e seguido seu caminho. Teria sido mais honesto. Mais correto. Mas Francisco era demasiado acomodado. Pra ele parecia, á despeito da estagnação de seu relacionamento com Cecília, mais cômodo aguentar as pontas do que ter todo o trabalho de acabar um relacionamento, ou passar pelo estresse de sentar com Cecília e falar de suas aflições como seria mais sensato. Então, á despeito de a situação estar longe de ser a ideal. Ele foi levando com a barriga.
Eis que, por acaso, numa tarde após escapulir do trabalho para comer um pastel de palmito da pastelaria do Japonês, Francisco encontrou Sofia.
Ela havia morado fora do Brasil por 8 anos, vivera na Grécia, no Marrocos, na Espanha, mas voltara, não só por estar com saudades de casa, mas também por que sua mãe estava doente e carecia de cuidados.
Acabaram comendo juntos na pastelaria. Sofia continuava agradável, continuava divertida e bonita.
E estava de volta á vida de Francisco. Retomaram a antiga amizade, saíam juntos, iam ao cinema, ao teatro, eis que, em um momento de fraqueza, suas mãos se tocaram, o toque involuntário levou á toques voluntários, carícias, beijos, até que estavam ambos nus, suados e resfolegantes no carro de Francisco.
Um deslize. Conversaram, perceberam que fora um erro. Francisco era casado, Sofia ainda estava buscando estabilidade, não podiam seguir com aquilo, nem queriam, estragaria sua amizade, fora um momento de fraqueza, de insensatez.
Entretanto, á despeito de terem combinado que as coisas permaneceriam como estavam, que seguiriam sendo amigos, o imponderável surgiu em meio ao acordo de Sofia e Francisco.
Cecília e Franscisco estavam indo ao mercado fazer compras, quando Cecília se esgueirou pra apanhar o brilho labial que derrubara, e, sob o banco do carona, encontrou um sutiã.
O sutiã de Sofia.
Ele ergueu a peça e a olhou por longos minutos, sob uma expressão aturdida de Francisco. Então lhe mostrou á peça rendada e perguntou:
-O que é isso?
Ele não sabia o que responder. O que diria? Que o sutiã pertencia á Cecília e ela não lembrava? Que era melhor ela não tocar pois podia ser macumba?
Francisco, tomado por uma coragem inédita, contou a verdade. Era de Sofia.
De quem? Sofia, sua amiga, patati, patatá, contou tudo.
Cecília mandou levá-la de volta pra casa. Foram em silêncio todo o caminho.
Ao chegarem á garagem do prédio, Cecília sentenciou:
-Arruma tuas coisas e some.
Agora ali estava Francisco, pagando pela própria irresponsabilidade, pela própria covardia, pela própria insensatez.
Encarou a gaveta de cuecas com uma expressão torta.
Enquanto Cecília, com o rosto molhado de lágrimas e vermelho de raiva, encarava a TV desligada, Francisco passou em direção á porta.
Ele olhou para a mulher com quem dividira a vida por anos, e se amaldiçoou por não ter falado com ela antes. Pensou em se despedir, mas desistiu. Saiu sem dizer nada.
Cecília foi ao quarto, as gavetas do armário abertas, numa delas, vários pares de meias soquete brancas, na outra, uma dúzia de cuecas.
Enquanto o elevador levava Francisco ao térreo, ele apalpou as três cuecas no bolso da mochila.
Ligaria para um hotel, depois ligaria para Sofia. Contaria tudo o que acontecera pra ela, diria tudo pra ela. Falaria de suas aspirações, vontades e desejos.
Dali em diante, seu mote seria sensatez.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Resenha Cinema: Alice no País das Maravilhas.


No último sábado fui ao cinema, pelo segundo final de semana consecutivo, tentar assistir Alice no País das Maravilhas, releitura de Tim Burton do clássico de Lewis Carrol, e, ao contrário da semana anterior, quando, por conta da lotação de Alice, acabei revendo Homem de Ferro 2, consegui sentar a minha carcaça na sala 1 do Cinesystem do shopping Total, e ver o filme. Talvez por minhas expectativas serem baixas, não achei mau filme, não, pelo contrário, até achei bacana.
O filme é uma releitura/sequência do Alice no País das Maravilhas original, e de Através do Espelho (E o que Alice Encontrou Por Lá), ambos de Carrol. Nele encontramos Alice (Mia Wasikowska, pálida, bonita/estranha, bem ao gosto de Burton), aos dezessete anos, a menina, prestes á ser pedida em casamento por um jovem aristocrata com cara de flatulência, não tem memórias de suas viagens anteriores ao País das Maravilhas, imaginando que as estranhas figuras que povoam seus sonhos e pesadelos não são mais do que fruto de sua imaginação.
Porém, durante sua "festa de noivado", ela é atraída pelo coelho branco que a leva de volta para o Mundo Subterrâneo (Underland, Wonderland, sacaram?), onde as coisas não vão bem.
A Rainha Vermelha (Helena Bonham-Carter, divertidíssima na melhor atuação do filme.) domina o mundo com mão de ferro, cortando as cabeças de quem se opõe à ela, sem sofrer represálias por ter nas suas tropas o Valete de Copas (Crispin Glover, esquisito como sempre.) e, principalmente, o terrível Jabberwocky, que só pode ser vencido pela espada Vorpal, também em poder da Rainha Vermelha.
Alice, pensando estar em um sonho, deixa-se levar pelas criaturas estranhas como os gêmeos Tweedledee e Tweedledun (Matt Lucas), o rato e o gato risonho (Stephen Fry, maneiraço.), o Chapeleiro Louco (Johnny Depp, fazendo uma performance meio Willy Wonka, meio Sweeney Todd), a Lebre de Março, e a Rainha Branca (Anne Hathaway, que, como Amy Adams, nasceu pra interpretar princesinhas.) conforme reencontra sua coragem, e redescobre o País das Maravilhas.
É, no final das contas, uma mescla decente entre um típico filme da Disney, e um filme do Burton. Não os melhores filmes de Burton, como Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, mas certamente superior a O Planeta dos Macacos e A Fantástica Fábrica de Chocolate, claro, tem lá seus defeitos, a protagonista, Mia Wasikowska (Diga isso rápido três vezes!), deixa um pouco á desejar no quesito talento dramático, Johnny Depp está irregular no papel de Chapeleiro Louco, o que, talvez seja proposital, o uso dos efeitos em 3-D é meio gratuito, sem a elegância discreta de Avatar, por exemplo, e no desfecho do filme, surge uma batalha no estilo "filhote de O Senhor dos Anéis" que é bastante desnecessária, assim como o número de dança constrangedor de Depp.
Ainda assim, é um filme simpático e otimista, com um visual lindo (A produção de arte de filmes de Tim Burton sempre é candidata á prêmio.), algumas ótimas atuações, especialmente do time de dubladores que inclui Michael Sheen e Alan Rickman, e que pode ser ainda melhor aproveitado se não houver um par de cocotas pós-púberes apaixonadas por Johnny Depp na fila atrás de você.

"Por que um corvo é igual á uma escrivaninha?"

sábado, 8 de maio de 2010

Resenha DVD: Julie & Julia


Ontem foi sexta-feira, depois daquele tradicional quebra-canela fantasiado de futebol com a gurizada, cheguei em casa, pedi uma pizza, e coloquei no DVD Julie & Julia, o mais recente trabalho de Meryl Streep á chegar nas locadoras.
Foi saboreando fatias de pizza de lombo com catupiry que acompanhei o simpático filme da diretora Nora Ephron (Mens@gem pra Você) que intercala de forma divertida as biografias de Julia Child (Meryl), esposa de diplomata norte-americana que, em sua passagem por Paris, se apaixonou pela culinária francesa e se tornou chef, e Julie Powell (Amy Adams), funcionária pública e escritora frustrada que, em 2003, resolveu levar adiante um blog chamado The Julie/Julia Project, em que se propunha á preparar, em um ano, as mais de 500 receitas de Mastering The Art of French Cooking, calhamaço escrito por Julia Child para ensinar "donas de casa americanas sem empregadas" á fazer comida francesa.
Talvez a melhor ideia de Nora Ephron tenha sido intercalar os episódios da vida de suas personagens principais dando um ritmo mais ágil ao filme, que poderia se tornar muito monótono se fosse a biografia de apenas uma das personagens principais do filme.
Como há duas protagonistas vivendo em momentos absolutamente distintos (Julia Child se apaixonou pela culinária francesa e passou á aprendê-la nos anos quarenta, enquanto Julie Powell escreveu seu blog nos anos 2000), o ritmo do filme se torna mais ágil, podendo ser digerido por machões que, como eu, acham chick flicks (E Julie & Julia é um chick flick como todos os filmes de Nora Ephron.) meio modorrentos.
Claro, ajuda o fato de Meryl Streep dar show no papel de Julia Child, uma caipirona de quase 1,90m de altura com uma voz extremamente característica (Procure no Youtube os episódios de The French Chef, programa culinário da Julia Child de verdade nos anos 60, e comprove.), e sua ótima química com o ótimo Stanley Tucci, que interpreta seu marido no longa.
Amy Adams, no papel de Julie Powell não está, claro, no patamar de Streep, mas segura a onda, e sua interpretação não ofende ninguém, aliás, alguém que exala a aura de doçura de Amy Adams não ofende ninguém nem xingando.
No final das contas, Julie & Julia é um programa decente, um filminho leve pra ver, se divertir e esquecer duas horas depois, á menos, claro, que você, como eu, fique se lambendo de vontade de provar um creme bávaro de amoras.

"Bon Appétit"

terça-feira, 4 de maio de 2010

Pragmatismo.


Amadeu não era um homem feliz. Longe disso. Amadeu não chegava á ser um homem infeliz, mas feliz? Oh, não, não mesmo. Amadeu não estava vivendo um bom momento de sua vida já fazia uns dez anos.
Estava levando a vida, não a estava vivendo. Não gostava de como as coisas estavam indo, mas também não podia remexer demais sua vida, pois, para o bem ou para o mal, ele vivenciava alguma estabilidade. Não gostava do emprego, mas podia trabalhar nele. Não gostava da faculdade, mas tirava boas notas no curso. Não gostava de onde estava vivendo, mas o aluguel era barato e era perto do trabalho, e da faculdade. Não gostava de estar sozinho, mas não sentia-se preparado para iniciar um relacionamento.
Vácuo.
Amadeu estava preso em uma espécie de vácuo. Uma vida morta-viva, mas ainda assim, que lhe garantia algum conforto. Não parecia muito, mas olhando friamente em perspectiva, Amadeu sabia que a situação poderia ser muito pior, que era muito pior para inúmeras pessoas ao redor do mundo, esse pensamento algo pragmático o ajudava a ver com melhores olhos a imitação de vida modorrenta que ele, e muitos outros, levavam.
Amadeu estava, de um modo ou de outro, conformado com sua vida até ali. Não era a vida com a qual ele sonhava, mas não era o pior cenário, e, assim, ele seguia.
Amadeu tentava ser lógico, tentava ser frio e calculista, por que era mais fácil aceitar as mazelas da vida colocando-se nesse papel. Nem sempre ele se sentia á vontade nesse papel, de pessoa fria e lógica, mas era mais fácil viver desse jeito. Amadeu despia-se de sua carapaça unicamente com seu cachorro. Não com qualquer cachorro, apenas com o seu. Era um cachorro grande e bobo, pe pelagem macia e farta, não era um cachorro treinado, era um cão mal-criado, que ignorava as suas ordens, era demasiado efusivo em suas reações, e amistoso em excesso.
Talvez Amadeu amasse tanto aquele cachorro por que o cachorro era o extremo oposto dele. O cachorro era tudo que Amadeu não era. Era amigável, afetuoso, caloroso, ilógico, não guardava rancores, nem mágoas, reagia imediatamente á tudo.
Era natural que o cão se comportasse dessa forma, era todo instinto e nenhuma razão, não natural era que Amadeu fosse todo razão e nenhum instinto, nenhuma emoção.
Amadeu nem sequer era como aquelas velhinhas solitárias com seus cães, gatos ou periquitos, que transferem todo seu afeto aos animais por não terem mais ninguém.
Amadeu sentira amor, sentira amizade, sentira emoções, apenas decidira que era mais cômodo entregar seus sentimentos á alguma coisa que não se aprovetaria deles. Amadeu decidira que a humanidade não valia a pena.
Era outro pensamento frio, calculista e pragmático de Amadeu, era ruim, mas a pior parte, é que ele jamais recebia um sinal de que estivesse errado.

sábado, 1 de maio de 2010

Resenha Cinema: Homem de Ferro 2


Uns dias atrás eu escrevi na minha atrasada resenha de Homem de Ferro que o filme se apoiava em dois pilares que lhe garantiram qualidade e o decorrente sucesso: Jon Favreau, o diretor, e Robert Downey Jr., o protagonista.
Após assistir Homem de Ferro 2, a óbvia sequência do hit de 2008, posso garantir que o novo filme do herói enlatado, á despeito de suas ótimas adições, mantém a fórmula essencial do sucesso, Jon Favreau segue dirigindo com maestria, e Robert Downey Jr. ainda é o coração do filme.
A trama de Homem de Ferro 2 pega o carro de onde o primeiro filme termina, a coletiva onde Stark (Downey) assume sem pudores ser o herói de armadura. Ali já somos apresentados à primeira cara nova, Ivan Vanko (Mickey Rourke, ameaçador, convincente, excelente.), filho de um antigo sócio traído pelo pai de Tony, Howard Stark, que morre esquecido e na penúria enquanto o Homem de Ferro ganha a mídia mundo áfora.
Enquanto isso, descobrimos que Tony está sofrendo efeitos colaterais de sua nova vida, por conta da tecnologia que a mantém, o reator ARK miniaturizado em seu peito, é movido á baterias de paládio, que estão envenenando seu sangue em um ritmo cada vez mais rápido, isso obriga o herói á buscar uma alternativa á fonte de força enquanto equilibra a vida de celebridade, super-herói e empresário.
Ao mesmo tempo em que Tony lida (muito mal) com a possibilidade de morte iminente, ele se vê atacado em diversas frentes simultâneamente:
Vanko inicia seu plano de vingança pessoal, enquanto outro novo personagem, Justin Hammer (Sam Rockwell, competente como sempre, brincando com violentas alterações de humor) tenta, através de uma comissão do governo dos EUA, á quem supre armamentos, se apropriar da tecnologia Homem de Ferro. Não bastasse tudo isso, os segredos de Tony começam a deteriorar suas relações com Pepper Potts (Gwineth Paltrow, tão meiga e competente como antes), e Jim Rodhes (Don Cheadle, substituindo naturalmente Terrence Howard).
Eu sei, parece um bocado de coisas acontecendo ao mesmo tempo, e há ainda Natalie Rushman, codinome de Natasha Romanoff, a Viúva Negra (Scarlett Johansson, linda), agente da SHIELD infiltrada nas indústrias Stark como secretária de Tony, além de boas cenas com Happy Hogan (Jon Favreau), fazendo valer seu salário de guarda-costas /motorista de Stark, o senador Stern (Garry Shandling), Howard Stark (John Slattery) e Nick Fury (Samuel L. Jackson), e, eu adoro ressaltar isso, essa enxurrada de personagens está lá por uma razão, para ilustrar todos os problemas com os quais Tony Stark tem que lidar depois de "privatizar a paz mundial", além de lidar com seus próprios demônios para se tornar o herói que deseja ser.
Claro, por melhor que fosse, um bom roteiro não sustentaria sozinho as duas horas e quatro minutos de projeção de um filme de super-herói, um filme desse tipo precisa de boas cenas de ação, e Homem de Ferro 2 tem isso, são pelo menos três sequências de ação de tirar o fôlego, a primeira, em Mônaco, durante o GP de Fórmula 1, a segunda quando há dois homens de ferro trocando bordoadas na mansão de Tony, e o clímax na Stark Expo 2010, quando acontece a investida final de Vanko como Whiplash.
Não se trata, porém, de um filme perfeito, ele sofre do mesmo mal de outros filmes do gênero, o terceiro ato tem uma resolução demasiado rápida, enquanto os personagens alcançam ótimos níveis de desenvolvimento (No final das contas nós conhecemos a motivação por trás das ações de todos os personagens, o que é ótimo.) o clímax do filme é algo abrupto, com muita ação, sim, mas sem a tensão que marca o restante da projeção, não que isso manche o filme, que segue sendo excelente, mas é um ponto onde ele poderia melhorar.
No final das contas Homem de Ferro 2 é uma sequência á altura de seu antecessor, ainda apoiados no carisma e talento de Robert Downey Jr. e na direção esperta de Jon Favreau, os filmes do ferroso são ótimos, valem a ida ao cinema, e vão sedimentando o caminho da Marvel no cinema, preparando terreno para Os Vingadores. Fique até o final dos créditos e você vai me entender.

"Ao contrário da crença popular, eu sei exatamente o que estou fazendo."