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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Conta-Gotas


O Cachorro do Frederico pegara uma mania estranha, engraçada e meio irritante. Quando o Frederico estava dormindo na beira da cama, com os braços ou pernas sobrando pra fora do colchão, o seu cachorro se aproximava andando com alguma velocidade, e o abalrroava. Sério. Abalrroava, mesmo. Tipo, o Farley Mowat do Sea Shepherd faz nos navios baleeiros japoneses na costa da Antártica.
Frederico, á princípio, não entendeu muito bem porque o seu cachorro agia daquela forma, até por que, é difícil pensar em qualquer coisa quando você acorda ás quatro e vinte e três da manhã após ser acossado por um animal de quarenta e dois quilos, e se depara com o bicharoco o olhando cândidamente ao lado da cama. Mas, analisando framente após acordar, Frederico chegou à conclusão de que seu cachorro era o tipo de animal que não vivia muito bem sozinho. Golden retrievers, assim como quase todos os retrievers, são animais bastantes sociais, logo, é de se pensar, que o cachorrão sentisse saudades enquanto o Frederico dormia, e, na ânsia de vêr o amigo acordado, e ouvir sua voz, e fazer um pouco de festa, forçava o contato, qualquer contato, incluindo aí, o golpe de lateral de paleta com o qual ele o açoitava todas as noites.
Frederico pensou, também, que não são apenas os cachorrões amigáveis que forçam o contato. Quem jamais sentou ao lado de algum desconhecido no ônibus, e após duas ou três quadras de viagem, sabia tudo á respeito da vida da pessoa? Quem nunca viu um bêbado discursar na rua sobre as mazelas do mundo e da sua vida? Quem nunca disse "e aí, tudo bem?" e ouviu que não, não estava tudo bem, e mais um longo rosário de queixas desfiado na sequência?
Um dia, um sujeito pediu fogo pro Frederico na rua. Ele não fuma. Disse ao seujeito que lamentava, mas não fumava. Ele fez cara de enterro e disse que nada estava dando certo pra ele. Que seu sócio lhe dera um golpe em uma empresa de propaganda, deixando-o sem nenhum dinheiro e com toneladas de dívidas. Que sua esposa o abandonara por que ele começara a beber, vergado sobre o peso do fracasso profissional. Que agora, ele não tinha trabalho, e que sua esposa o afastara de sua filha, e que ele nem sequer tinha condições de pagar a pensão alimentícia, que inclusive, naquele momento, estava indo para uma audiência onde declararia a falência de seu negócio para tentar se livrar das dívidas que o haviam reduzido a um sujeito vivendo sozinho em um apartamento vazio e escuro, entregue ao álcool e ao desespero. Quase que o Frederico saiu correndo pra pedir fogo junto com o sujeito e evitar que ele cometesse o suicídio por não poder acender um cigarro.
Em pouco menos de três minutos, uma pessoa expôs todos os males de toda a sua vida nos últimos meses... Isso, é contato forçado. Aliás, pensou o Frederico, parece existir uma relação de proporção inversa entre o nosso interesse na pessoa, e a quantidade de contato que temos com ela. Um desconhecido desesperado lhe conta toda a sua vida em minutos, então alguém de quem você quer saber tudo, te conta as coisas a conta-gotas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Veraneio...



Os pais do Benício tinham uma casa perto da praia em um balneário menor do Rio Grande do Sul, não "tinham", assim, no sentido pleno de posse. Era uma casa de família.
No caso, da família do pai do Benício.
Se alguém era, de fato, dono daquela casa, era a avó do Benício, dona Fefa, que estivera presente, inclusive, na construção da casa, em meados dos anos cinquenta. Ainda assim, era a casa da vó e do pai, e dos tios do Benício, e, sendo casa do pai do Benício, era, também, de sua mãe.
O Benício nem era capaz de lembrar de seu primeiro verão naquela casinha, até por que, seu primeiro veraneio começara aos três dias de vida. Hoje em dia um médico poderia ficar escandalizado ao saber que um bebê de poucos dias viajara pro litoral, expondo-se a, sabe Deus quantas doenças. Felizmente, no início do anos oitenta, não se ficava doente com tanta facilidade quanto hoje em dia. Na verdade, analisando friamente, parece que existiam menos doenças naquela época do que hoje em dia. De qualquer modo, foi no final de fevereiro do ano de mil novecentos e oitenta e um, que o Benício, com três dias de vida, foi à praia pela primeira vez.
E, rapaz, ele adorava a praia. De uma maneira orgânica, de ficar doente se não fosse, como dizia seu avô materno, "salgar os colhões" pelo menos uma vez por ano. Era fácil, afinal de contas, a casa de veraneio de sua família estava sempre lá, pronta pra acolher Benício, e assim foi feito, todos os verões, entre oitenta e um e oitenta e seis, sem sobressaltos.
Foi no verão de 1987, o primeiro após seu divórcio, que a mãe da Carol, Lígia, alugou a casa vizinha à da família de Benício, tanto pra Carol se distrair e curtir um pouquinho de normalidade, quanto pra ela própria desopilar um pouco do que fora um ano infernal. Ela ficou feliz ao saber que a casa da direita estava ocupada por uma família dita ideal, a família de Benício, com pai, mãe e filho, e a da esquerda, por uma senhora gorducha com pinta de avó, que cozinhava muito e estava sempre levando guloseimas pros vizinhos e que tinha cachorros Daschhund suficientes para invadir Mordor, a dona Marly.
Carol, então com sete anos, adorou a casa, adorou a praia, e a liberdade do balneário. Apenas ressentia-se da falta de mais crianças com quem brincar na vizinhança. Em Caxias, onde vivia, morava em um condomínio, esses com parquinho interno, de modo que criança com quem brincar era artigo abundante. Ali, porém, a única criança na mesma faixa-etária que ela, era Benício. As demais já tinham entre doze e quatorze anos, e não queriam brincar com gurizinhos e guriazinhas de metade de sua idade.
Isso jamais incomodou Benício, ele era um guri de apartamento. Totalmente, inapelavelmente, hermeticamente ensimesmado.
Era, talvez, reflexo de sua criação. Filho único, vivendo em um prédio onde crianças eram raras, onde barulho não era visto com bons olhos, era amante de brincadeira silenciosas, de gibis do Conan, do Homem-Aranha e do Superman, de desenhos animados dos Comandos em Ação, He-Man, Homem-Aranha & Seus Incríveis Amigos, Superamigos, e Thundercats. Quando ia à praia, ganhava uma liberdade que lhe era excitante, sim, que lhe era bem-vinda, sim, mas que não lhe alterava os hábitos solitários. Não era raro vê-lo sozinho em cima do muro de pedras da casa fingindo enfrentar múltiplos inimigos carregando um taco que, em sua imaginação, se tornava uma Espada Vorpal, ou um sabre-de-Luz, ou percorrendo as dunas perto do mar, usando um chapéu de palha sobre os cabelos pretos encaracolados e com uma corda enrolada na cintura, que em suas brincadeiras tornavam-se o Fedora legítimo e o chicote certeiro de um intrépido arqueólogo.
Para Benício era normal brincar sozinho. E era divertido.
Pra Carol, não.
Tanto que foi iniciativa dela própria, sem precisar de encorajamento da mãe, ir até a casa ao lado e perguntar, não ao Benício, mas ao pai dele, se o piá podia brincar.
Após ouvir aquele orgulhoso "claro que pode!", e, o consequente "ele tá lá nos fundos, pode entrar.", ela encontrou o moleque solitário causando um trágico acidente em uma rodovia repleta de carrinhos de fricção.
No papel da rodovia, o muro baixo que limitava o terreno da casa, no papel da razão do trágico acidente, um Tiranossauro Rex de borracha. Carol não se fez de rogada. Parou perto de um desconfortável Benício e anunciou:
-Teu pai te mandou brincar comigo.
Benício suspirou olhando em volta, algo intrigado com a presença da pitôca da cabelo chanel loiro e vivos olhos azuis. Esfregou a mão no Homem-Aranha sujo de picolé de uva em sua camiseta, e, como se não houvera mais nada a fazer, estendeu à Carol o Tiranossauro de borracha:
-Ó... Destrói a rodovia enquanto os carros tentam fugir. Esse aqui é o principal. -
Era uma coisa do Benício. Pra ele brincadeiras eram como filmes. Tinham que ter um protagonista e um roteiro. Naquele caso, um Gran Torino vermelho e branco igual ao de Starsky e Hutch que deveria escapar da tragédia.
Não foi o que aconteceu.
Nas mãos de Carol o T-Rex saltava grandes distâncias, cuspia fogo, falava, e mesmo sob protestos de Benício, chegou a voar algumas vezes. Ainda assim, com seu "roteiro" virado do avesso, seu protagonista morto, e o tiranossauro sendo coroado simbolicamente rei da rodovia suspensa, Benício se divertiu muito.
E continuou se divertindo nos dias que se seguiram.
Outras brincadeiras aconteceram. Carol personificou Marion Ravenwood, a princesa Leia, a Flama, Thyla, Cheetara e Mulher-Maravilha. Outras vezes Benício viu-se transformado em um marido devotado em várias brincadeiras onde Carol era uma mãe atarefada. Ninou, ruborizado de vergonha, ursos de pelúcia e bonecas Meu Bebê, foi um aluno aplicado e um bagunceiro quando Carol incorporava uma professora primária, e foi um temido assassino que deveria entrar pela janela e estrangular uma estrela de cinema se não tivesse caído, machucado o cotovelo e voltado chorando pra casa.
Correram de mãos dadas pela praia, e brincaram de derrubar a areia que formava pequenos penhascos de trinta centímetros ao redor do córrego que rumava serpenteando pro mar, inticaram com os cachorros da dona Marly apenas pelo prazer de vê-los fazendo alarido, comeram picolés, sorvetes e crepes, se lambuzaram até quase a alma de todas essas guloseimas.
No final do mês, no aniversário de Benício, Carol comeu bolo com ele, salgadinhos e brigadeiro em sua festa. Ajudou-o a abrir brinquedos, e lhe deu de presente um livro, Pedrinho Esqueleto, que ele teria achado muito sem graça se tivesse sido dado por qualquer outra pessoa. Competiu com ele e venceu um campeonato de embaixadinhas com balões, e chorou quando ele acidentalmente a atingiu perto do olho com um dardo de ventosa disparado de uma pistola de plástico verde-bandeira. Quando março chegou, eles se despediram sem muita conversa ou emoção.
Eram amigos de verão.
Deram tchau, e mais nada. E Benício ficou olhando sua amiga partir pela janela do carro de Lígia, e sorriu quando ela acenou pra ele pelo vidro traseiro do carro, com os cotovelos apoiados no banco de trás.
Nos anos seguintes, de oitenta e oito à noventa e um, Carol e Benício seguiram sendo melhores amigos de verão. Se encontrando e renovando o arsenal de brincadeiras a cada veraneio.
Em dias chuvosos jogavam xadrez chinês, damas e dominó enquanto comiam bolinhos de chuva e tomavam toddy, nos dias ensolarados iam à praia e ficavam na água até os dedos murcharem, depois saíam batendo dentes e comiam milho-verde, encontrando alívio para os rigores do gélido vento nordestão na água morna que escorria do milho recém cozido, ou então torravam sob o mormaço inclemente do litoral gaúcho após pensarem, incautos, que com o tempo nublado não precisavam tanto de protetor solar.
Eram amigos, mas, conforme cresciam, iam se tornando também, confidentes.
Carol contava a Benício das mazelas de ser a filha de um lar desfeito. Benício a consolava contando-lhe as mazelas de ser o filho de um lar tradicional.
Carol desdenhava da mãe, talvez uma ponta de ressentimento e saudades do pai.
Benício ressentia-se de seu pai, da instabilidade emocional dele, e de sua fraqueza pelo álcool.
Ela lhe dizia por que os livros da série Vaga-Lume eram coisa de criança, e ele explicava à ela porque, na prática, o Homem-Aranha era o herói mais poderoso dos quadrinhos.
Conversavam sobre isso e muito mais, apoiavam-se um no outro naquele mês que partilhavam todo ano, depois despediam-se com "tchaus" verbalizados entre dentes e acenos discretos.
Naquele verão de noventa e um, Benício pensou consigo mesmo quando viu o carro de dona Lígia virar a esquina em direção à Estrada do Mar por que não dera um abraço apertado e um beijo estalado na bochecha de Carol na despedida.
"Talvez eu faça isso quando nos encontrarmos no ano que vem.", pensou.
Leu mais ao longo daquele ano.
Seu primeiro livro que não era parte da Série Vaga-Lume. A Marca de Uma Lágrima, achou chato pra danar, lembrou-se de Roxanne, com o Steve Martin, e lembrou-se de Cyrano de Bergerac, cujo autor não sabia ser Edmond Rostand, ainda assim, leu o livro com certo prazer, pensando que seria bom conversar com Carol sobre literatura, de que ela tanto gostava, ao invés de encher seus ouvidos com X-Men, Homem-Aranha, Star Wars e os livros do Marcos Rey.
Porém, no verão seguinte, em noventa e dois, para desapontamento de Benício, Lígia chegou à praia sem Carol.
Carol viajara com o pai, ficou sabendo, mais tarde.
Lígia estava com um namorado novo. Novo, mesmo. Um sujeito bem mais jovem que ela, que tinha cabelo longo, surfava e jogava futebol no campo da colônia de férias próxima. O pai de Benício achou o sujeito muito bacana. A mãe de Benício taxou dona Lígia, entre outras coisas, de desnaturada e sem-vergonha. Benício não formou opinião. Leu gibis, livros, andou a cavalo e em bicicletas para duas pessoas.
Tudo sozinho.
Naquela época já haviam mais crianças da idade de Benício na rua, mas ele não se interessou em brincar com nenhuma delas. Já estava estudando havia algum tempo, e mesmo na escola, onde passava quase um ano inteiro com as mesmas pessoas, era um jovem de poucos amigos, imagine, então, na praia, com apenas um mês para se relacionar. Ás vezes socializava com suas primas e primos, era divertido, mas era fugaz. Aquele verão pareceu mais curto pra ele.
No ano seguinte, quem não foi à praia foi Benício. Quer dizer, foi, mas foi a outro balneário, acompanhando seus avós maternos. A mesma coisa aconteceu em noventa e quatro e noventa e cinco.
Em noventa e seis, Benício veraneou novamente na praia de sempre. Em janeiro.
Foram anos diferentes e divertidos aqueles últimos para Benício. Especialmente após noventa e quatro.
Ele cresceu.
Não era, ainda, um adulto, mas guardava pouco do moleque ensimesmado e tímido de anos antes. Fizera muitos amigos em Porto Alegre, passara a praticar esportes, namorar. Ainda lia gibis e via filmes em profusão, mas seu leque de interesses abriu-se um pouco. No verão de noventa e sete, foi com a namorada para a praia. Estava feliz com ela. Uma moça mais velha, muito bonita e divertida. Após abrir a casa, colocar as cadeiras de vime na varanda, e remover os tapumes da janela, Benício olhou com uma ponta de expectativa pra casa vizinha ao perceber o movimento.
Mas não era dona Lígia, nem tampouco Carol.
Benício veraneou com a namorada em noventa e sete, e no ano seguinte, veraneou sozinho, já não estava mais com a menina, seus pais não tinham mais paciência pra ir à praia, pois haviam desenvolvido um gosto todo especial pela serra, seus tios e primos agora cruzavam o rio Mampituba e faziam suas férias em Santa Catarina.
Benício passou outros dois ou três anos sem voltar à velha casa, até que, em dois mil e três, resolveu retornar.
Chegou ao balneário, abriu a casa, colocou as cadeiras de vime na varanda, e os colchões no sol para arejar. Foi sob o colchão do que fora sua cama na infância, no quarto repleto de beliches destinado às crianças, que encontrou, ao acaso, um exemplar envelhecido de um livro.
Pedrinho Esqueleto, que ganhara no seu aniversário de seis anos.
Segurou aquele livro entre as mãos, e o abriu, sentindo o cheiro de coisa guardada. Saiu até a varanda, onde o colocaria para arejar, também, e foi quando viu um carro estacionar na casa ao lado, e dele sair uma moça loira muito bonita, um sujeito bem apessoado, também loiro, e uma criança, um molequinho de dois ou três anos de idade.
O piá saiu correndo em direção à casa, tropeçou no degrau de pedra coberto com uma lisa lajota cor de laranja e se estabacou no chão. Chorou. A moça loira correu para consolá-lo. Ao se levantar com o pequeno no colo, seu olhar e o de Benício cruzaram, e ela sorriu.
Benício sorriu de volta, e acenou discretamente, dizendo um "oi" sem som do outro lado do muro.
Era Carol.
Benício olhou em silêncio e sorrindo enquanto a família entrava na casa. Não pôde evitar pensar em como teriam sido as coisas se, de volta em noventa e um, tivesse dado aquele beijo estalado em Carol. O pai do menino voltou ao carro, apanhou várias malas, e também acenou para Benício, sorridente. Benício correspondeu.
"Há chances", pensou enquanto voltava pra dentro da casa, "Que não podemos desperdiçar.".

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Algo errado


Ela estava esperando ele na saída do trabalho. Assim que o viu, saindo com dois colegas, abriu um sorriso. Ele se despediu dos companheiros, e foi em sua direção. Estava sério. Deu-lhe um beijo meio sem graça nos lábios, enquanto colocou a mão na sua cintura.
-Tudo bem?
-Tudo, tudo...
Ela sabia que havia algo errado. Não se conheciam a tanto tempo assim, mas não era necessário consultar um manual pra ver que a expressão em seu rosto não era das melhores, mas, se ele não queria conversar a respeito, o negócio era esperar. Saíram andando, ela segurou a mão dele, ele retribuiu meio chocho.
-Quer ir comer alguma coisa?
-Não... Não tô com fome, obrigado. Tu quer?
-Não, não... Só perguntei.
-Tá bem.
Ela precisava saber. Não queria forçar a barra, não queria ser dessas mulheres que perguntam e perguntam e perguntam até estourar a cabeça do sujeito, mas precisava saber:
-Tem alguma coisa errada?
Ele olhou pra ela com alguma ternura cansada no rosto:
-Não... Não tem, não...
Continuaram andando, ela tentou puxar algumas conversas, ele respondeu a tudo sem muita empolgação. Parecia distraído, absorto. "Ai, meu Deus... Ele tem outra?" ela pensou. Começou a ficar preocupada. Não conhecia ele a tanto tempo. Ele podia ser um cafajeste completo. Podia ser um cínico, vil e depravado, desprovido de qualquer moral ou decência, o tipo de sujeito que namora várias meninas ao mesmo tempo e que vai esfriando suas relações até que a menina exploda e dê-lhe um pé na bunda poupando-o do trabalho. Tudo isso passou rapidamente pela cabeça dela. Tudo isso girou em seu estômago como uma revoada de pardais assassinos à la Hitchcock, mas ela lutou pra se conter. Pra não perguntar a ele qual era o problema. Lutou com força sobre-humana e com tenacidade de samurai.
Foi apenas estavam chegando perto da casa dela, que toda a sua firmeza de propósito foi vencida pela curiosidade e, por que não, pela preocupação. Antes de subirem as escadas que levavam à porta do prédio, ela o segurou pelas mãos e perguntou:
-Eu tô vendo que não tá tudo bem. Fala pra mim. Qual é o problema?
Ele tentou negar. Maneou a cabeça com uma expressão de quem procura uma saída, parecia arredio:
-Não é nada, amor. Nada, mesmo.
Mas ela insistiu, e ele acabou confessando:
-Tá bem... Olha, eu não quero que tu fique brava, muito menos triste comigo. Eu... Olha, eu não sei como te dizer isso, mas... Ah... Tá. Lá vai: Eu odeio o Big Brother, e se eu tiver que ver outro episódio inteiro dessa porcaria, meu cérebro vai derreter!

Viram Como Funciona O Universo, no Discovery. Estão bem.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


-Eu não queria parecer...
-Não, não, 'magina...
-Então não...
-Não, capaz...
-Então a gente...
-Claro, na boa...
-Bah, ainda bem...
-Sem problema...
-Por que eu tava, tipo...
-Nem esquenta...
-Que alívio...
-Bobagem...
-Por isso eu adoro conversar contigo, amor. Tu sempre me entende.

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Ele e ela andavam na rua. Ela estava claramente enfurecida, vinha cutucando o braço dele, ali do lado do bíceps, com a falange do dedo indicador. Ele ia relevando, afinal de contas, amava ela, iam casar. Mas ela estava forçando. Já havia reclamado de tudo. Das bebidas (Só cerveja? Não pensam que alguém pode não querer beber álcool, ou não querer beber aquilo?), dos amigos dele (Tudo safado, não quero nenhum deles no nosso casamento), e das mulheres na festa (Tudo piranha). Ele disse que a Cinara não era piranha. Ela disse que era sim. Ele só sorriu pro lado e suspirou. Ela se enfureceu, mesmo, de vez. Houvessem raios Gama no corpo dela, ela teria ficado verde e enorme. Perguntou entre os dentes cerrados:
-O que é que você tá pensando, hein, Décio?
-Quê?
-O que é que você tá pensando?
-Quê que é isso?
-Como quê que é isso? Eu quero saber se você me acha com cara de palhaça-
-Não, não, isso eu entendi. Que negócio é esse de "você". Que é isso? A gente sempre se tratou por "tu". De onde saiu esse "você"?
-Quê?
-"Você", Maria Rita, "você", que negócio é esse de "você"? Tu nunca usa essa expressão.
-Não desvia o assunto, Décio...
-Não, não... Desembucha, aí. Que negócio é esse de "você"?
-Já disse, pombas. Não sei do que cê tá falando, menino.
-"Menino"? Como assim, menino? Quê que é isso, guria? Quié isso? "você", "menino"? Aí tem coisa...
-Bobagem sua...
-Bob... Bobagem "sua"? "Bobagem "sua", e não "tua"?
-Como, minha?
-Não, Maria Rita, não disfarça. Tu disse "bobagem sua", não disse bobagem "tua". Tá falando que nem paulista, agora?
Ela só sorriu pro lado e suspirou.
Ele correu atrás dela pela rua, mas não conseguiu alcançá-la. O casamento foi cancelado.

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-Se eu fosse esperto, eu sumia, sabe?
-Arram.
-Se eu fosse esperto, eu não levava isso adiante. Não tem, tipo... Sei lá. Eu não sou uma pessoa fácil, entende? Não sou acessível. Não sou legal. Em algum momento... Em algum momento ela vai ver. Sabe o que eu quero dizer?
-Claro.
-Se eu fosse esperto, eu nem teria começado isso. Não teria deixado chegar onde está. É caminho sem volta, já. Não consigo... Á essa altura, eu não tenho mais muito controle sobre as coisas...
-É. Agora complicou.
-Se eu fosse esperto, eu diria pra ela que uma coisa dessas, por mais legal que pareça, tem, especialmente com uma pessoa que nem eu, pouquíssimas chances de funcionar.
-É verdade. Ainda mais hoje em dia...
-Se eu fosse esperto, eu dizia pra ela como eu me sinto. Que eu sou louco por ela, mas que, em algum momento, ela vai enjoar de mim, dos meus maus humores, das minhas manias, das minhas idiossincrasias, e vai embora... E eu vou ficar arrasado por que eu fiquei louco por ela lá no início, entende?
-Perfeitamente.
-O que que eu faço, velho?
-Nada. Tu não é esperto. Aproveita.
-Ah, é... Bem lembrado. Valeu, tchê.
-Disponha.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Recomeço?


Ele observara a loira durante toda a noite. "Observara", na verdade, não fazia justiça. Ele a secara descaradamente. Uma mulher que percebesse um sujeito a olhando como ele olhava pra a loira iria requerer uma ordem judicial pra mantê-lo à distância. Ele olhava pra ela mais ou menos como o Damien Rice olhava pra guria da praia naquele clipe de The Blower's Doughter, que todo mundo acha que chama "I Can't Take My Eyes Off you", sabe qual? Lembra da cara de maníaco do Rice? Então. Era como ele olhava pra ela.
Até dava pra entender. Ela era linda. Um arraso. Um disparate. Bonita demais, mesmo. Bonita demais pra uma festa que ele frequentasse, pelo menos. Uma deusa loira e longuilínea serpenteando com desenvoltura pelo salão, falando com pessoas, dançando, bebendo. E ele ali, escorado em uma parede, mascando chiclete como quem espera que a festa acabe pra poder ir embora, o que de fato estava. Estava ali como vítima de um casal de amigos, o Augusto e a Maroca, que o obrigaram a ir à tal festa na esperança de que ele arrumasse, também, uma namorada, e parasse de segurar vela, o que, aliás, vinha sendo a única coisa vagamente romântica que ele fazia a quase dois anos.
Não era o sobrevivente de nenhum relacionamento que terminou em hecatombe, apenas acabara um namoro já a algum tempo e não encaixou nenhum namorico na sequência. Sua vocação pra solidão se manifestou, e ele resolveu ficar sozinho por alguns meses, que se tornaram vários, que se tornaram um ano, que estavam quase se tornando dois. Seu melhor amigo e a namorada, suas companhias mais frequentes, estavam preocupados, diziam, até com a saúde dele. Física e mental. Disseram que ele não podia ficar em casa, largado às moscas, vendo pornografia na internet e evitando gente. Ele protestou dizendo que estava em pleno gozo de suas faculdades mentais, que sua saúde estava ótima e que nem evitava gente, nem via pornografia na web e que eles queriam, mesmo, é que ele lhes desse um pouco de privacidade, o que ele faria com prazer.
Não adiantou.
Eles resolveram que iriam ressucitar a vida social dele. E essa festa era o seu primeiro encontro com o desfibrilador social que os dois planejariam, querendo ele, ou não. Agora ele começava a ter mais e mais certeza de que, o que eles queriam, mesmo, era ter um tempinho sem ele por perto, nem dor na consciência por tê-lo deixado de escanteio. Olhou pro copo de soda limonada que tinha na mão e suspirou enquanto bebia um gole.
Foi então que ele percebeu, a movimentação dela, a deusa loura, ganhou propósito e direção e... Sim. Ela se aproximava dele. Usava um vestido tubinho preto de um tecido bem leve, que marcava suas curvas quando ela andava, seus tornozelos estavam delicadamente envoltos pela tira do sapato de salto alto que ela calçava com elegância. Ele olhou pra ela e ficou apavorado. "Meu Deus, meu Deus, ela tá vindo pra cá, o que que eu faço? O que que eu faço?", ele pensou enquanto, escorado na parede atrás de si, fazia cara de descolado.
"Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!", pensou enquanto sentia que o suor começava a lhe escorrer pelas costas e do cabelo sobre as orelhas. "O que é que eu faço, essa mulher é linda, linda, linda. O que que eu digo? O que será que ela vai dizer? Ah, meu Deus, que mico, ela vai dizer que me confundiu com alguém. Ai, minha nossa. Olha só pra ela. Que beleza. Minha Santa Aquerupita. Tem cara de inteligente. Deve ser inteligente, também. Pra completar a minha humilhação. Vai parar perto de mim, linda desse jeito, e querer conversar sobre física quântica. Imagina minha cara:
Ela:
-Oi, tudo bem?
e eu:
-Tudo, e tu?
E ela:
-Tudo ótimo. Visse as últimas da física quântica?
E eu engasgo por que não me ocorre nada pra responder, e ela pergunta se eu tô me sentindo bem, e pra não passar por burro eu me jogo no chão fingindo que não consigo respirar, ou que desmaiei, ou que morri, qualquer coisa, quelquer vexame pra ela não ver como eu sou um idiota."
Ela estava cada vez mais perto. Um sujeito a cumprimentou com três beijinhos.
"Ah, pronto. Isso, fica com esse cara aí, nem chega perto de mim, desafasta como diz o Falcão. Ele também não deve manjar de física quântica, mas certamente deve ter abdôme de crocodilo, com cento e setenta e três gomos, então, quando ela perguntar se ele viu as últimas da física quântica ele levanta a camiseta, mostra a barriga pra ela e ela vai embora com ele, e eles viverão felizes para sempre, e eu terei, pelo menos, a satisfação de ter juntado esse casal perfeito que vai dar origem a toda uma geração de semi-deuses olímpicos ou participantes do Big Brother."
Ela se despediu do tal sujeito, e continuou andando em direção a ele.
"Ai, meu Deus. Sua burra. Por que não foi com o cara? Ele tem o abdôme de atleta, deve ser rico, bem dotado, sei lá o que mais. Não chegue perto, não chegue perto... Ai, meu Deus do céu."
Ela estava a menos de cinco metros dele, abriu um sorriso.
"Será que foi pra mim? Será que foi pra mim? Só pode. Ou isso ou o homem invisível está na minha frente e essa cabeleira loura cheia de gel dela é equipada com a visão térmica do Predador, só pode. Atrás de mim só tem parede. O que eu faço? Sorrio de volta, claro. O que mais? Evito física quântica.
-Visse as últimas da física quântica?
respondo:
-Não, estou em meu ano sabático.
Deve funcionar. Minha nossa, e se ela gostar de sujeitos medianos que nem eu? Será que existe isso? Mulher linda que nem essa que se apaixona por sujeitos meia boca que nem eu? E se for? Nossa, talvez meus filhos sejam bonitos que nem ela. O nariz, a boca, os olhos, o corpo, tudo dela, e meus... meu... Ah, meu sobrenome, vá lá, já tá de bom tamanho. Nossa, linda e inteligente, não posso dar ponto sem nó. Preciso pensar bem pra não dar mancada."
Ela chegou perto, rescindia um perfume cítrico, de seus cabelos, de sua pele, de tudo, ele supunha. Ela suspirou olhando pra ele:
-E aíam? Team chicléam?
Ele levou uma fração de segundo pra entender o que ela dissera por causa do sotaque do bomfim, carregadíssimo, e da voz nasalada que ela tinha.
-Quê? Ah, chiclete? Tenho, sim.
Estendeu a cartela prateada de trident de morango.
-Ah, naum... Esse daíam eu não gostóam...
Ele recolheu o chiclete e guardou-o novamente no bolso.
-Lamento, é só o que eu tenho...
-Faloam. - Ela respondeu, e então se afastou, serpenteando novamente em meio à multidão.
Ele ficou ali, olhando pra ela enquanto ia embora. Bonita, sim. Mas tinha a voz meio enjoada, né? Falava muito cantado. Mesmo pros padrões portoalegrenses, e, era impressão dele, reflexo do tempo que passara sozinho, ou ela era meio mal educada?
Seus amigos se aproximaram, foi a Maroca quem perguntou:
-Bah, quem era aquela gostosa, ali?
Ele olhou desencantado pra frente, pensando em dizer que era uma piriguete irritante, mas, ao ver os olhos esperançosos da Maroca e do Augusto, disse apenas:
-Talvez a futura mãe dos meus filhos...
O Augusto riu enquanto puxava a Maroca pelo braço de volta à pista de dança, deixando-o novamente a sós com seus pensamentos. Nos próximos dias ele daria um sossego pra Maroca e pro Augusto. Não sairia com eles nem se fosse convidado. Talvez ele ficasse em casa, evitando pessoas, jogado às moscas, quiçá até visse pornografia na internet, mas talvez, quem sabe, saísse pra encontrar alguém... Alguém que se parecesse mais com uma pessoa de verdade, que fosse bonita, claro, mas também divertida, inteligente e que soubesse se comunicar por mais do que gemidos monossílabícos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O de sempre


Estavam ela e ele sentados no restaurante, o mesmo restaurante de quatro anos atrás, a mesma mesa perto da janela, outra vez numa noite de sexta-feira de um outono ainda moderado de Porto Alegre.
Ela sorria muito, ele parecia nervoso. Isso era normal entre eles, não ela sorrir, ela sorria, claro, mas não era essas pessoas que tratam a todos como dentista, mostrando os dentes o tempo todo, não. Ele, por outro lado, estava sempre nervoso. Ou, ao menos, parecia nervoso. Essa noite não era exceção. Ele parecia nervoso dentro do seu blazer preto, de sua camisa cinza e de sua camiseta branca. De vez em quando afastava a camisa do peito e assoprava lá pra dentro tentando se refrescar.
"Errei a roupa.", repetia sem parar. "Errei feio".
Não adiantou ela lhe dizer que fosse até o banheiro e se livrasse da camisa, ou da camiseta.
"Onde é que eu vou colocar a camiseta? Ou a camisa, se eu tirar?", ele perguntou.
Ela pensou em responder que sua bolsa era grande, e uma camiseta enroladinha, como a gente dobra pra colocar na mochila ocupando menos espaço em uma viagem, caberia facilmente ali. Mas desistiu ao lembrar que, se dissesse isso, ele iria dizer que queria ficar com a camiseta e tirar a camisa, e que a camisa, se colocada na bolsa dela, iria amarrotar inteira, e não sei mais o quê. Ela, depois desses quatro anos, ainda se espantava com a facilidade que ele tinha pra tergiversar quando queria continuar se fazendo de vítima, ou apenas continuar se queixando sobre qualquer coisa. Não mencionou a bolsa. Disse apenas pra ele fazer como quisesse.
Ele segurou a camiseta e a camisa entre o polegar e indicador e as sacudiu rapidamente. "Por que não ligam o ar-condicionado, aqui, meu Deus?", suspirou.
Ela olhou pra ele com ternura, embora tentasse, na verdade, se lembrar se ele sempre fora chato, assim.
Ele bufou. "Cadê os garçom?", olhava pros lados. Quando se incomodava, ele abandonava a concordância verbal. "os garçom" ela repetiu baixinho.
-Quê?
-Nada. Não vi nenhum desde que a gente se sentou. Mas eles devem existir, aquela mulher gorda ali tá comendo. - Ela respondeu, apontando com o queixo pra uma moça de cintura bem ampla sentada em uma mesa próxima.
"Ele vai fazer um 'psssssssssssssh' sussurrado e meio rindo e me dizer pra não apontar", ela pensou "O de sempre".
-Psssssssssssssh, não aponta! - Ele disse, sussurrando entre risos, mas parou imediatamente.
Ela sorriu olhando pra ele quando a pegou pela mão, ainda olhando em volta.
Quando foi que ele se tornou tão previsível? Será que foi quando ela percebeu tudo o que deixara de fazer pra ficar com ele, ou foi depois? Ou antes?
Ele não era má pessoa. Só... Ela não sabia. Talvez ele tivesse um prazo de validade curto. É. Era isso. Sua validade era breve. Mais breve do que quatro anos, pelo menos. Quatro anos, e ela era capaz de antever todas as reações dele. Nenhum problema nisso, ela pensou. Provavelmente era um efeito colateral normal de uma relação de longo prazo.
O problema eram todas as reações dele, de repente, a incomodarem.
O garçom finalmente apareceu. Ele fez um "ah!". "Ele vai soltar a minha mão, agora", ela pensou. "ele sempre solta a minha mão quando vai falar com as pessoas. Parece que se eu estou segurando a mão dele ele se torna incapaz de articular uma palavra."
Ele soltou a mão dela e fez hãããããã, enquanto olhava pro cardápio. "Ele vai pedir uma água com gás." ela pensou. "O de sempre.".
-Uma água com gás. - Pediu. -E tu? - Perguntou pra ela.
-Uma coca light.
O garçom anotou os pedidos, deixou dois cardápios e saiu.
"Ele pede antes de mim, agora. Antes, ele sempre me perguntava o que eu queria, antes de pedir. Será que fui eu que matei o cavalheirismo dele? Com a minha auto-suficiência, talvez?", ela se perguntou, "Ou será que foi ele? Ou será que foi o tempo?".
-Tô seco por uma água com bolinha. - Ele sentenciou procurando a mão dela. Mas ela recolheu a mão. Fingiu mexer na bolsa. Ergueu os olhos. Ele olhava pra ela. Sorriu. Ele sorria fechando bastante os olhos. Tinha os olhos pequenos, e eles quase sumiam quando ele sorria.
Ela sorriu de volta. Foi um sorriso forçado. "Será", ela pensou, "que um sorriso forçado significa alguma coisa? Nada de bom, eu suponho. Um fim, talvez.", mas não disse nada. Baixou os olhos mirando novamente a bolsa. Não conseguia mais fingir estar procurando nada. Nem tinha tantas coisas na bolsa naquela noite. Ele apanhou a mão dela com firmeza, e levou até perto do nariz. Do lado da narina direta. Apanhou, com cuidado, o dedo indicador dela, e passou ali, do lado do seu nariz, naquela reentrância que existe onde a narina se junta com a maçã do rosto.
-Tá sentindo? - Ele perguntou.
Ela sentiu, de fato, uma pequena aspereza na região. Uma linha de pele mais dura. Respondeu que sim. Perguntou o que era.
-É uma cicatriz. Dois pontos. Parece uma bobagem, dois pontos. Dois pontos não são nada. Mas essa cicatriz eu consegui quando tinha cinco pra seis anos. Eu nem sequer tinha chegado à pré-escola. Era bem pequeno. Naquela época, primeira metade dos anos oitenta, o SBT passava um seriado do Capitão-América. Era muito ruim. O uniforme do Capitão América nem era parecido com o do gibi, ele usava um capacete ao invés de máscara, o escudo dele era de plástico transparente, eu nem faço uma ideia remota, hoje, de qual era o mote do seriado, mas suponho que fosse alguma coisa como a série do Homem-Aranha com o Nicholas Hammond, uma tentativa frustrada de repetir o sucesso do Hulk com o Bill Bixby e Lou Ferrigno, enfim, eu tô me desviando do assunto, desculpa. O meu ponto é que eu, nos meus cinco, seis anos, adorava essas séries todas. Hulk, Homem-Aranha, Capitão-América. E eu tenho quase certeza absoluta, que eu estava brincando de Capitão-América, quando resolvi fazer uma manobra mais arrojada, que consistiria em subir no sofá da sala, tomar um pequeno impulso, correr pelo chão da sala, encerado com esmero pela minha mãe, me ajoelhar, e deslizar sobre os joelhos até embaixo da cama, ainda que isso fosse me deixar com joelheiras de Tacolaqui, que era a cera que minha mãe usava, nas calças de abrigo azul-marinho que eu vestia. Eu não sei, ao certo, o que essa manobra representaria na minha brincadeira. Eu suponho que, o sofá, representasse um helicóptero, que eu tivesse nocauteado o piloto, a aeronave estivesse caindo, e eu fosse saltar dela. Assim, a minha corrida e posterior deslizamento seriam por uma estrada de chão batido, e a cama seria um caminhão, sob o qual eu estaria me abaixando pra não ser atropelado. O que é muito legal se considerarmos que no início dos anos oitenta, nenhuma série de TV teria cenas de ação tão elaboradas, de modo que isso advoga em favor da minha criatividade infantil. Enfim, a minha manobra foi calculada com frieza, entretanto, minha elasticidade aos cinco anos de idade não era digna de super-herói, e embora eu tenha sucedido no meu intento de saltar do sofá/helicóptero, e tenha sido capaz de correr por breves metros no chão, e me ajoelhado e deslizado, eu não consegui me abaixar o suficiente pra evitar a cama/caminhão. E bati justamente com esse espacinho, do lado do nariz, na quina da cama. Eu, claro, chorei. Afinal, era um piazinho de apartamento que ainda nem frequentava a escola, meu pânico, porém, só surgiu quando minha mãe me olhou e disse algo como "aimeuDeusdocéu!" e correu comigo pra lavar o rosto. Foi só quando eu percebi o sangue. Muito sangue. O que é normal, claro, o nariz é uma zona super irrigada, qualquer coisinha nas imediações sangra uma barbaridade. Mas na época eu não sabia, e me desesperei. E enquanto eu estava sendo vestido pela minha mãe pra ir ao pronto-socorro, enquanto ela telefonava pro meu pai pra avisar ele que eu tinha me machucado e me mandava fazer pressão no nariz, eu tive, por alguma razão, certeza de que eu ia morrer.
Ela riu. Ele continuou:
-Eu sei, é uma bobagem, quem é que morre por causa de um corte perto do nariz, certo? Nós sabemos disso. Mas, aos cinco anos, eu não tinha essa consciência. Pra mim, perder sangue, especialmente em grandes quantidades, e ser levado pro hospital, eram sinônimos de morte iminente. O desespero da minha mãe não ajudou a mudar a minha opinião. Claro, eu levei dois miseráveis pontos. Conversei e brinquei com o taxista que nos levou ao HPS, com o médico que inclusive me deu a agulha da "operação", com meu pai, que disse que eu ia ficar com cara de bandido e ser temido pelos meus futuros colegas na escola... Nada daquilo, porém, mudou a sensação de "saber" que eu ia morrer que eu experimentei. O que foi uma bobeira de criança que se machuca pela primeira vez, acabou sendo uma coisa positiva, sabe? Nos anos que se seguiram, especialmente quando eu fiquei um pouco mais velho, eu sempre me lembrava daquela sensação. A sensação de morte iminente, ainda que artificial, ainda que injustifcada, sempre me fazia valorizar um pouco mais as coisas, entende? Eu sou um sujeito aborrecido, eu não nego. Eu me aborreço com facilidade, e não custa muito pra eu me tornar rabugento, pra ficar de mal com o mundo. Não é algo que eu cultive por que gosto, é um traço de personalidade com o qual eu tenho que lidar. De qualquer forma, durante muito tempo, a minha muleta pra achar um pouco mais de cor nos meus dias, era aquele episódio de "quase morte". O sangue, a adrenalina, a urgência. Mas, claro, conforme eu fui ficando mais velho, aquilo foi perdendo o sentido. Eu fui aprendendo coisas, perdendo entes queridos, vendo gente que eu amava ir embora por que queria ou precisava. E aquele episódio, esses dois pontinhos, perderam o peso, a relevância, e eu perdi essa muleta. Mas quando a gente se conheceu, e tu, por alguma razão gostou de mim, e foi doida o suficiente pra querer ficar junto comigo... Bom, isso virou a motivo pela qual eu, vez que outra, me flagro pensando que estou sendo mais rabugento e resmungão do que a vida merece. A razão pela qual meus maus humores ás vezes se tornam humores menos piores, ou até, quase bons humores. E a tinta que torna meus dias cinzentos mais coloridos. Então... Bom: Obrigado.
O garçom chegou perto da mesa antes que ela pudesse responder qualquer coisa.
-Querem pedir? - Perguntou, jovialmente.
Ele olhou pra ela:
-O que tu vai querer?
"O de sempre." ela pensou. "Pra sempre."

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sobrevivendo


O Luís e o Sandro estavam sentados no sofá, um do lado do outro. O Luís tinha uma garrafa de seicentos mililitros de Fanta, na mão direita, e o controle remoto do DVD na esquerda. Sua expressão deixava bem claro que ele vira momentos mais felizes.
O Sandro segurava uma cerveja long neck na mão esquerda, e um pacote de ruffles que poderia alimentar Bangladesh na mão direita, não tinha nenhuma expressão no rosto. Na TV, o Batman de Christian Bale esmurrava o pescoço de bandidos fingindo serem reféns em uma das últimas cenas de Cavaleiro das Trevas.
-Fodão esse filme, "heinhô, Batista"? - Perguntou o sandro, imitando a voz de um narrador meia-boca da televisão gaúcha e seu bordão ao se dirigir ao comentarista.
-É... - Respondeu, sem lá muita convicção, o Luís, tomando mais um gole de sua Fanta.
-Como assim, "é"? Esse é o filme de super-herói mais fodaço que já fizeram, velho.- Replicou o Sandro, ainda olhando pra TV sem expressão no rosto.
-Eu tô ligado, só... Sei lá. Prefiro Homem-Aranha 2.
-Cala a boca.
-Tá bem. - Concordou o Luís, se contorcendo pra alcançar o pacote de batatas fritas na mão do Sandro, e enfiando um punhado delas na boca com um "crunch-crunch" enquanto mastigava.
O Coringa estava pendurado de ponta-cabeça, a câmera se virava para deixá-lo na posição do espectador na tela. O Sandro apontou pra TV:
-Essa aí é uma sequência genial. Brilhante. Coisa de Kubrick.
-Kubrick era um mala. - Suspirou o Luís.
-Blasfêmia! - Proclamou Sandro, ainda de olho na TV e sem alterar o tom de voz.
-Só não é mais chato que o Robert Altman e o Terrence Malick. - Completou Luís, apanhando mais batatas.
-OK... Para enquanto tu pode, esse é um terreno perigoso, Gafanhoto... - Advertiu o Sandro.
-Tá bem. - Concordou o Luís, com a boca cheia de batatas.
Batman corria em meio a contâineres, perseguido pela polícia, o comissário Gordon de Gary Oldman entoava o texto final do filme, Batman subia na Bat-Pod e desaparecia em meio a luz, quando o título do filme finalmente surgia na tela e a trilha de Hans Zimmer ressoava. Luís pressionou a tecla stop do controle remoto do DVD por duas vezes. Então desligou o aparelho.
-Que filmaço. - Proclamou Sandro.
-É... Bacana...
-Tu vai continuar, criatura?
-Por que que ele assumiu a culpa, no fim?
-Como...? Pra proteger a imagem do Harvey Dent.
-E por que ele não disse que tinha sido algum outro meliante? Gotham City é só bandido, mesmo...
-Pra evitar os imitadores, caraca!
-Os quem?
-Os imitadores, meu! Os carinhas fantasiados de Batman lá do início do filme.
-Ah... Ah, bom. É... Então faz sentido, mesmo.
-Abre o coração, monstro. Qual é o mal que te aflige?
-Nah... Nada.
-A Isadora, ainda?
-Não... Nada a ver. Eu nem tô mais por essas, ih... Capaz...
-Sério?
-Não. É ela ainda...
-Porra...
-Não adianta, meu. Eu não consigo acreditar que... Ah. Deixa pra lá.
-Não, não... Fala. O que é?
-Tá, esquece todo o resto... Só me diz o seguinte... Putz. Não acredito que eu vou perguntar isso logo pra ti... Tá... Tu acredita em relacionamentos à distância?
-Claro.
-Sério?
-Sim. Sério. Totalmente. Sem dúvida.
-Puxa...
-Especialmente pra ti.
-Cara... Putz, eu... Sei lá, isso é até um alento. E eu achando que tu fosse me chamar de... Peraí. Porque "especialmente" pra mim?
-Por que as tuas relações sempre acabam com a mulher querendo distância de ti.
-Vai tomar no cú.
O Sandro se levantou, andou até a estante de DVDs do Luís e falou:
-Eu sei o que vai te animar.
Jogou pro amigo a caixa de Homem-Aranha 2.1.
-Liga essa bosta, aí, enquanto eu pego mais uma ceva. Quer mais um refri?
-Quero. Mas Homem-Aranha 2 não é uma bosta. É um filmaço.
-Tá, que seja. Só presta, mesmo a luta no trem...
-Cala essa boca, bichona.
-Tá bem.
Com a ajuda dos amigos, tudo se supera...