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segunda-feira, 21 de março de 2011

Rapidinhas do Capita


De quando em quando eu penso na gente e rio sem parar, sabe? Em outras, dói muito, agora, por exemplo, tá doendo
Ás vezes eu me pego esperando que algo de muito ruim aconteça sem nenhuma razão, antes do começo, antes do fim
Eu sei, eu sei, é paranóia da minha parte, nem só de coisas ruins se faz a vida, eu sei, é claro, eu entendo
coisas boas ás vezes acontecem, tu por exemplo, é dessas coisas boas que acontecem, só não acontecem pra mim.

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O verão acabou, amor, acabou, que bom, assim fica mais fresco, acaba o calor, tá eu sei, acabar, mesmo, não acaba, pelo menos não imediatamente, mas já não vai ser tão quente. Eu nem achei que esteve tão quente assim, na verdade reclamei mais por hábito, acho que já vi verões bem mais quentes, tu não acha? Eu não sei, de qualquer modo, acho que já tiveram, sim. Nesse ano, tirando uns dias de janeiro, antes das férias, em que não deu nem pra tomar banho sem suar, achei que não foi ruim. O do ano passado, por exemplo, eu achei bem pior, sabe? O lado bom, amor, é que, acabado verão, quando a gente se encontrar, eu não vou estar suando em bicas. Pois é. Não vou ficar me encolhendo quando a gente for se abraçar por que minha camiseta está molhada no peito e nas costas, e nem vou estar com um bigode de gotículas de suor quando for te dar um beijo, por que eu pretendo te beijar, amor, pretendo, sim, espero que tu não te incomode de ganhar um abraço apertado e um (monte de) beijo de mim.

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Ah, como eu queria saber te arrancar um sorriso soprando um verso no teu ouvido.
Como eu queria te dizer um par de palavras e estar certo de que melhorei teu dia.
Mas o melhor que eu posso fazer, amor, é te beijar a orelha e deixar um zumbido.
Por que eu posso ser razoável de beijo e de retórica, mas sou muito ruim de poesia.

O messager


Ela estava esperando por ele em uma lanchonete onde iam desde que se conheceram. Ela nem era particularmente fã da tal da lanchonete, mas, à todas essas, já havia se acostumado com ela, de modo que era quase automático marcar os encontros dos dois lá. Ela olhou pro relógio do telefone celular. Ele estava atrasado. Estranho. Ele nunca se atrasava. Já tinha dez minutos de atraso. Ela alimentou aquelas minhocas de sempre, tinha razões pra tal, passado, e tudo mais. Enfim, ele apareceu. Chegou com uma expressão estranha no rosto, o cabelo repartido pro lado, uma boina na mão, e sentou na frente dela.
-Olá, chére.
Ela lançou-lhe uma expressão divertida e algo surpresa, e sorriu de volta:
-Olá.
Ele ficou olhando em volta como se estivesse conhecendo o lugar pela primeira vez. Ela perguntou se ele ia querer tomar uma Fanta, ou dividir uma Coca com ela.
-No, no - Ele responeu. -Eu vou tomar... Ah, no. Non posso tomar álcool, n'est pas? Tudo bem, enton, uma Coca-Colá.
Ela riu. Ele, de vez em quando, fazia dessas coisas. Brincadeiras que ela não entendia. Aquele sotaque francês fajuto se encaixava no tipo de humor dele.
-Tá bem, então, "François". Já vai pensando no que tu vai querer comer, pois eu acho que não vai ter nenhum lanche que inclua salada niçoise. - Ela disse enquanto agarrava o cardápio. Ele olhava pra ela, com um meio sorriso nos lábios. Ela ergueu uma sombrancelha, olhou pra ele, e estendeu-lhe um cardápio:
-Menu, monsieur?
Ele sorriu e segurou a mão dela.
-Eu consigo entender por quê ele te ama, mas non me entrra na cabeça a razón parra alguém como vous amá-lo.
Ela puxou a mão de volta.
-Tá, chegou dessa brincadeira sem graça, tá me assustando, Erasmo.
-Non, non, ma chére... O Errasmo non pôde comparrecer, non hoje, pelo menos.
-Chega, Erasmo...
-Ele querria. Ele não gosta de perder oportunidade de partilhar do teu tempo...
-Pára, Erasmo.
-Não sou o Errasmo, mon amour. Eu sou o Pierre.
-Tá bem, "Pierre", então chama o Erasmo, fa'çoavor?
-Non posso, chére. Ele non está disponível, agorra.
-Se tu não parar de palhaçada eu vou embora.
-Ele non pôde vir, pois o Errasmo non consegue dizer as coisas, savoir? Ele gostarria, ele querria, mesmo, mas é mais forte que ele. O Errasmo non é má pessoa, tem lá seus defeitos, mas quem não têm, n'est pas?
-Parou, Erasmo. Tá me assustando.
-Non prrecisa ter medo, chére. Ele tá segurro. Tá bem. E vai voltar em brreve. Mas antes...
-Antes o quê?
-Antes o vieux Pierre, aqui, terrá que fazer o serviço que o Errasmo non consegue, oui? Enton, vamos fazer rápido, parra o bobón poder voltar logo.
-Tá...?
- Entón... La vérité, é que o Errasmo non sabe falar o que sente, savoir? Ele non consegue exprressar os sentimentos dele, entón, têm muitas coisas que ele deixa passar, non? Ele tem tendência a se distanciar, se afastar, parrece que non está joyex, hãn? Parrece que está... Como é a palavrra...? Parrece entediado, acabrrunhado, oui?
Era verdade, ela pensou. O Erasmo tinha isso. Ele se distanciava, se emburrava, criava uma barreira entre eles. Ela nunca tinha certeza do que estava se passando pela cabeça dele, e por consequência, ela não sabia o que pensar.
-Ele nunca diz como é bom estar contigo, ele nunca diz como gosta de toutes les choses que tu faz, como te admirra, como gosta das afinidades que vocês partilham, ele non consegue dizer que te acha linda, que adorra le votre sourire, votre cheveux, votre sourcils, oui? Errasmo adorra tudo isso, entendre? Errasmo adorra tudo isso, ama tudo isso de passion, mas non sabe dizer. Je suis juste an messager, um mensageiro, oui? Prra te dizer que o Errasmo, mesmo sem saber como dizer, mesmo sendo un fou, mesmo com le distance, vous aime. Te ama.
Ela ouviu tudo com atenção. Ficou parada enquanto o Erasmo se levantava e dizia "au revoir, chére", e andava em direção ao banheiro. Ficou ali sentada, olhando pro cardápio sem de fato exergá-lo. Ergueu os olhos quando Erasmo voltou sorrindo, com o cabelo penteado como sempre, e sentou se desculpando pelo atraso.
-E então, vamos dividir uma pizza? - Ele perguntou.
-Oui. - ela respondeu sorrindo. -Uma pizza, o sol, as estrelas, la vie...
Estariam tré bien.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Conselhos


-Não é assim que funciona, velho.
-Eu sei.
-Não adianta tu entrar nessa, é furada.
-É. Tem razão.
-Eu sei que parece fantástico, que parece sensancional, mas, encare os fatos, meu amigo: Não é assim que o mundo funciona.
-É verdade.
-Tu tá com a tua noção de realidade nublada pela empolgação. Tu tá colocando o carro na frente dos bois. Tá contando com o ovo dentro da galinha. Tá ouvindo os latidos antes de a caravana passar.
-Acho que esse último tá errado.
-Pode ser, mas tu entendeu.
-OK.
-A verdade é que a seara que tu resolveu trilhar, leva unicamente ao desastre.
-"seara"?
-É... Achei que um pouco de solenidade na linguagem iria mostrar o quanto o lance é sério.
-Ah.
-Tu não foi feito pra isso. Tu nem devia ter permissão pra falar com gente, que dirá se relacionar com gente. Tu sabe como as coisas vão ser. Tu não é um ingênuo. Tu tem todos os defeitos do mundo, mas ingênuo tu não é.
-Puxa, obrigado.
-Sério, tchê. Se tu pensar, se tu concatenar por um breve instante que seja, tu vai ver que eu tenho razão. Isso já me aconteceu, lembra? Com aquela guria de Canoas. E o que tu me disse?
-Que ela era gorda.
-Não... Bom. Isso também. Mas não, tu me disse que eu não tava pronto pra aquela relação. Que eu era imaturo, idiota, e que eu ia colocar tudo a perder. E o que aconteceu?
-Mas vocês tão juntos até hoje!
-É, mas eu pareço feliz?
-Ah, cala a boca.
-Não, não... Falando sério, agora. Tu sabe como é que essas coisas acontecem. Olha... Não me obriga a apelar pra "Em caso de Emergência Quebre o Vidro".
-Tu não teria coragem...
-Ah, teria. Teria, sim. Se for o necessário pra te fazer ver a luz, eu teria.
-Não.
-Tu tá convencido?
-... Tô...?
-Não. Tu hesitou. Tá, me desculpa, mas eu vou ter que fazer isso. Finge que ouviu um barulho de vidro quebrando.
-Não.
-Lembra dela?
-Não.
-Lembra das conversas de vocês?
-Não. Não.
-Lembra como tudo parecia sensacional?
-Lálálálálálálálálálálá, não tô ouvindo, lálálálálálálálálálálálá!
-Lembra da...
-Não diga esse nome.
-Meyre?
-Desgraçado.
-Lembra ou não lembra?
-...
-Eu sei que sim, mas quero ouvir da tua boca.
-...
-Vamo, rapaz, tu tem quantos anos? Oito? Fala. Lembra?
-... Lembro.
-Ah, pois é. Me refresca a memória. Como foi que aquilo acabou?
-Mal.
-Mal...?
-É.
-Só mal?
-É.
-SÓ?
-...
-Desenvolva.
-Tá... Bem mal.
-Acho que a expressão que tu procura é tragédia.
-Nah... Não é pra tanto.
-Desastre. Armageddon. Holocausto. Apocalipse. Hecatombe.
-Tá, tá, eu entendi.
-Quanto tempo sem sair de casa?
-Uns dias...
-Vinte e dois?
-...
-Ainda bem que foi nas férias, senão tu tinha perdido o emprego.
-É possível...
-Quantas vezes tu ouviu Stop Crying Your Heart Out?
-... Todas, eu acho...
-É... Eu me lembro por que aquilo aconteceu. Tu lembra?
-Sim...
-Então tu sabe que eu tenho razão, não é?
-Sei.
-E vai seguir meu conselho?
-...
-Vai agir com o cérebro? Vai pensar no teu bem-estar e no que é certo?
-...
-Não, né?
-Não. Acho que não.
-Então boa sorte, filho da puta.
-Valeu, velho.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sério isso, Bethânia?


Batatinha quando nasce espalha rama pelo chão
Menininha quando dorme, põe a mão no coração

E aí, Ministério da Cultura, cadê meu um milhão e trezentos mil reais?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Não desista


Gilberto chegou em casa alguns minutos antes do horário de sempre, seu chefe o aliviara após pedir-lhe que ajudasse no treinamento de um novo funcionário, de modo que, naquela semana, vinha saindo meia hora mais cedo praticamete todo dia. "Deixa o novato trabalhar dobrado nessa meia hora final de expediente, Gilberto.", lhe dizia o patrão às cinco e meia, liberando-o de seus afazeres. "Vai namorar, jogar uma bola, ou ao cinema, só te some daqui.". E Gilberto, embora não quisesse jogar futebol, nem ir ao cinema, e muito meno namorar, ia, não apenas pra não desperdiçar a boa intenção de seu chefe, mas também por que andava cansado, abatido, alquebrado.
Chegou em casa e deparou-se com a faxineira, dona Gerusa, que lhe disse que tinha tomado a liberdade de beber o refrigerante que tinha na geladeira e arrumado umas gavetas que, nas suas palavras, "tavam pedindo pra virar ninho de barata". Ela havia jogado um monte de contas telefônicas velhas e faturas da TV a cabo fora, mas tinha achado umas coisas que talvez ele fosse querer, e, se não quisesse, ela levava agora com o resto do lixo e deixava na frente do prédio com os sacos.
Gilberto, meio a contragosto, foi fazer o inventário. Um álbum de figurinhas da Marvel de 1991, uns gibis da Mônica e do Cebolinha, meia dúzia de polígrafos da faculdade, e uma foto. Na foto, um Gilberto louco de faceiro fazia uma careta pra câmera abraçado em uma moça bonita de cabelos longos e negros. Essa moça era razão que, hoje em dia, lhe tirava a vontade de namorar.
A Fernanda.
O Gilberto era doido pela Fernanda. Era louco por ela, adorava ela de paixão, não sabia conversar sobre mulheres com os amigos sem falar dela, não sabia falar de nada sem mencioná-la, na verdade. Achava recompensador, importante, até, alardear o quanto ela era sensacional, quanto se davam bem, quanto tinham em comum, como ela era fantástica em tudo, especialmente em aguentá-lo com seus maus-humores, melancolias e inconstâncias. Ás vezes, quando um amigo seu dizia que a guria com quem estava saindo era isso, ou era aquilo, outro imediatamente já dizia, "É, mas a Fê...", antecipando o que inevitavelmente o Gilberto diria, mostrando por A + B, que a Fernanda era tão boa quanto a moça em questão, se não fosse muito melhor.
A Fernanda, esperando pelo Gilberto em casa quando ele chegava, ou o esperando na porta do trabalho, ou saindo da faculdade e sorrindo pra ele quando ele a esperava, eram as imagens vivas da felicidade às quais o Gilberto se agarrava pra ilustrar sua ideia de... Bom, felicidade, oras.
Até que aconteceu. Em um determinado momento, a Fernanda e o Gilberto brigaram. Feio. Feio, mesmo.
O mais engraçado, ou o mais triste, é que o Gilberto nem sequer lembrava por quê a briga começara. Mas lembra que acabou com ela dizendo que ele era reprimido, e com ele dizendo que ela era galinha.
"Galinha".
Parecia uma bobagem tão grande, olhando em perspectiva. "Galinha" era xingamento de quarta série, na concepção de Gilberto. A bem da verdade, o "galinha" saiu por que o Gilberto estava muito fulo, e não conseguiu pensar em nenhum xingamento mais violento. Ou, fosse ele mais calmo, tivesse suficiente presença de espírito, teria sido sardônico, teria sido sarcástico, e usado uma ofensa que fizesse justiça à Fernanda. Fernanda não era galinha. Ás vezes era briguenta, eventualmente era avoada. Galinha ela não era. Era orgulhosa. Ele lembra dela arrumando suas coisas sem derramar uma lágrima. Lembra da expressão fechada dela quando lhe entregou sua cópia da chave do apartamento. Lembra de ter pensado em segurá-la pela mão antes que ela saísse pela porta, e dito á ela que não fosse embora. Que não desistisse dele.
Mas ele não disse. Ele ficou lá, olhando ela partir usando uma máscara de orgulho que não lhe cabia.
Pensou em mandar dona Gerusa jogar a foto fora. Mas pensou melhor.
-Não, dona Gerusa. Eu vou guardar. Não tô preparado pra desistir disso.

terça-feira, 15 de março de 2011

Na fila


Dagoberto estava parado na fila do mercado, tinha um cesto na mão, dentro dele dois refrigerantes, um normal, e um zero. Não tomava nada dietético, mas seus amigos diabéticos não podiam consumir o açúcar de uma Fanta tradicional. Além dos refrigerantes uma caixa de bombons, um pacote de Doritos, um desodorante, as coisas de sempre. Nas costas uma mochila cheia de livros, lápis, folhas de papel, pastas canaletadas e outras tralhas que denunciavam que aquela seria uma tarde de RPG. Ele sorriu. Adorava RPG, achava divertidíssimo. Sabia que a maioria das pessoas viam RPGistas como nerds lunáticos que matavam amigos com facões em lugares ermos durante alucinadas sessão de jogo em live-action. Não era o caso dele e de seus amigos. Pelo menos, assim ele esperava.
Olhava distraído os livros em uma daquelas gôndolas estrategicamente colocadas na boca do caixa, Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda. Não era dado a poesias, mas das de Neruda, gostava. Sempre sonhara em ser capaz de escrever poemas como os de Neruda. Apanhou, casualmente, o livro da gôndola, para ver se havia algum soneto escrito na contra-capa.
-Eu sempre soube - Disse a voz harmoniosa atrás dele. -Que sob essa dureza toda existia um romântico.
Dagoberto virou-se rápido, algo contrangido, não pôde evitar, e deparou-se com uma moça loira, cabelos curtos, olhos claros. Levou uma fração de segundo para ligar um nome de seu vasto arquivo à pessoa diante de si:
Regiane.
Regiane, com quem Dagoberto tivera um romance rápido, mas memorável. Claro, Dagoberto não pensou nessas palavras ao vê-la. O que pensou foi "Ah, não.". Não que Regiane fosse desagradável, ela não era. Ela bonita, era inteligente, tinha bom papo, estava, portanto, na contramão de ser desagradável. O "Ah, não" de Dagoberto fora causado pelo fato de ele não se sentir particularmente bem consigo mesmo naqueles dias. Mal barbeado, mal vestido, descabelado, não era, nem de longe, a melhor ocasião pra encontrar alguém com quem partilhara um passado. Especialmente alguém como Regiane, que aparentemente aproveitara muito bem os anos longe dele. Estava ainda mais bonita, com o sorriso brilhante iluminando-lhe o rosto delicado, cortara o cabelo, ele preferia cabelos longos, mas não podia negar que o corte caíra-lhe bem. Ela deu um passo a frente, abriu os braços, ele hesitou um segundo, chegou a titubear, como se estivesse prestes a receber um golpe, mas se recompôs rápido o suficiente para retribuir o abraço fraternal, e também o estalado beijo que recebeu na bochecha.
-Quê tu anda fazendo, guri? - Perguntou, jovialmente. Ele disse o que andava fazendo, ela também, ficaram conversando enquanto ele passava suas compras no caixa, continuaram enquanto ela passava as suas, ela disse que voltara ao velho pago recentemente, que sentira muitas saudades durante o tempo em que estiveram fora, aprendera a valorizar seu lar. Disse que a cidade continuava praticamente a mesma, haviam poucas diferenças, e, se algumas coisas haviam piorado, outras tantas melhoraram na proporção. Ela era otimista, lembrou-se Dagoberto. Isso sempre o incomodara, mas, ao mesmo tempo, era uma coisa que lhe faltava, ele que era sempre tão pessimista...
Ela continuou, disse-lhe que ele estava bem, que a barba o deixara distinto, que ele parecia mais alto do que ela lembrava, "Será que eu encolhi?", ela perguntou fazendo uma cômica cara de pânico.
Ele sorriu. Regiane era ótima. Se davam tão bem, sempre se divertiam, conversavam muito, durante muito tempo, era sempre estimulante falar com ela, quase o fazia sentir inteligente. Sorriu pra ela enquanto a ouvia falar, sentiu um calor tomando-lhe conta do peito e subindo-lhe pelo rosto, uma excitação. A convidaria pra sair? Devia convidar? Não tinha nenhuma ideia de como funcionava a etiqueta nesse tipo de caso. Com relação a ex-namoradas, ou, seja lá qual fosse o tipo de relação que tivera com Regiane antes. Eles jamais se preocuparam em rotular aquela relação, por isso ele jamais soube se ela era uma namorada, uma ficante eventual, um caso, ou o quê, não precisava saber, eles apenas se divertiam juntos. Por que eles não estavam juntos, mesmo? Ele nem era capaz de lembrar.
Ela continuava falando:
-Tu não usa mais óculos?
-Ah, ás vezes... Pra ler, ir a cinema, de vez em quando...
-Bom, sem óculos tu fica mais bonito.
Ele sorriu:
-Mesmo?
-Sim. - Ela confirmou. -De óculos tu parece um pouco, ah, sei lá, parece um nerd.
O sorriso dele sumiu. Lembrara porque não estavam juntos.

As chances


Ela bufou sentada no chão, largou o controle do video game, e virou-se pra ele com cara de poucos amigos:
-Não adianta - Disse. - Não consigo cem por cento de sincronização nessa memória idiota. Por que tu tinha que me fazer jogar essa porcaria desse Assassin's Creed? Agora eu viciei!
Ele sorriu por detrás dos óculos, deitado no sofá. Estava lendo um livro sobre a Segunda Guerra Mundial:
-Que memória é? - Perguntou. - A das armas do Leonardo Da Vinci?
-É. O tanque de guerra, aquele.
-Vixe, nunca consegui cem por cento, nessa, não pode tomar dano, né?
-É. É muito difícil, ainda mais aquela parte com os dois canhões!
-É, aquela parte é impossível, mesmo. - Ele disse, sentando-se no sofá e acariciando-lhe os cabelos cheirosos.
-É... - Ela assentiu ainda olhando pra tela da TV, que mostrava a mensagem "Dessincronization - Death" escrita em vermelho e preto no fundo branco.
-Mas - Ele posseguiu. -Nós somos bons nesse lance de impossível, não somos? Quer dizer, quais eram as nossas chances lá no começo, certo? Quando me falavam de tudo que podia dar errado, quando me diziam quais eram as possibilidades de fazer isso funcionar, cruzes, era de desanimar, mesmo. Mas, sei lá, por alguma razão, eu me sentia meio Han Solo: "Nunca me fale das probabilidades", sabe? E continuei acreditando, continuei botando fé, ora imagine, eu botando fé em alguma coisa, mas continuei, por que, sei lá, àquela altura, eu precisava acreditar, era parte de mim, uma parte boa, talvez a única parte boa de mim, e sem ela... Bom, francamente, sem ela, qual era o ponto de continuar, não é? E deu certo, olha só pra gente, não é? Quer dizer, eu, pelo menos, não tenho queixas. Valeu a pena continuar tentando, valeu a pena acreditar que daria certo, e fazer dar certo, então... Pôxa, continua tentando. Acho que pode dar certo. Cem por cento, com certeza...
-A gente ainda tá falando do Assassin's Creed? - Ela perguntou arqueando as sombrancelhas.
-Não. - Ele respondeu sorrindo.
Se beijaram. Ela terminou Assassin's Creed com 87% de sincronização. Foi melhor que ele, que terminou com 79%. Mas não se importaram.