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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Rapidinhas do Capita


-Tu vai seguir acordando pela manhã, fazendo o que precisa fazer, sendo quem precisa ser, da melhor forma possível. Tu vai abrir os olhos, sair da cama, e vai seguir fazendo tudo o que sempre fez. E vai doer. Ainda vai doer por muito tempo. E, em algum momento, tu vai pensar, "puxa, não dói, hoje!", e então, vai começar a doer outra vez, e aí, tu vai ter dado o primeiro de muitos passos com relação à essa dor, e ela nunca irá embora. Não totalmente. Ela sempre vai estar lá, e sempre vai doer. Quando tu não sentir mais nada, vai querer dizer apenas que está meio dormente, e então, quando a dormência passar, quando tu pensar a respeito, a dor vai voltar. Ela nunca vai diminuir de intensidade, tu apenas vai se acostumar com ela, e aprender a conviver com ela, até ela não incomodar tanto, como aqueles velhinhos com reumatismo que fazem previsão do tempo de acordo com a dor no quadril, sabe?
-Valeu. Puta força tu tá me dando, velho.
-Sabe de onde saiu esse discurso?
-Não.
-Faz um esforço.
-... Não sei...
-Mesmo?
-...
-Tá lembrando?
-...Cacete...
-Pois é. Tu me disse isso, quase nessas exatas palavras dois anos atrás. Lembra?
-... Lembro.
-É.
-...
-...
-E?
-E o quê?
-Me diz que eu tava errado. Diz pra mim que passa. Diz que, depois de duas semanas eu nem vou me lembrar mais.
-Tu tava errado. Passa. Daqui duas semanas tu nem vai te lembrar mais.
-Valeu.
-De nada.
-...
-...
-É mentira, né?
-É.
-Cacete...
-Pois é.

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-Não existe solidão mais vil do que a do sexo feito sem amor, Fabí. - Disse o Antenor olhando pra Fabíola sobre um copo de coca-cola pela metade.
-Consigo pensar em duas ou três solidões muito mais vis do que essa, Antenor... - Respondeu a Fabíola com pouco caso.
-Não. Não consegue. Tu só quer me dar o contra como tu faz desde que a gente se conheceu. - Replicou o Antenor tomando de um gole o refrigerante no copo e servindo o que ainda havia na garrafa.
-De onde tu tirou essa frasesinha cafona, diga-se de passagem? Coisa mais brega e puritana... - Perguntou a Fabíola como quem se dá conta de que está sentado em uma tábua com pregos virados pra cima.
-Ela é de um puritano dos mais tradicionais, mesmo. - Respondeu o Antenor rindo com um lado apenas do rosto.
-De quem é a citação? - Quis saber a Fabíola.
-Nelson Rodrigues. - Respondeu Antenor, com pouco caso.
-Mentira. - Disse Fabíola, virando pro outro lado.
-Verdade. - Respondeu Antenor, rindo.
-Mentira, tua. Mentiroso. - Disse Fabíola, ficando ruborizada de raiva.
-Procura no Google. - Desafiou Antenor.
-Procuro, mesmo. Procuro. Tu quer é me enrolar, dar lastro pra essa besteirinha pueril. - Disse Fabíola entre dentes cerrados.
-O que importa de quem é a citação? O autor te faz sentir mais ou menos culpada por ter sido responsável pela mais vil das solidões em ene oportunidades? - Perguntou Antenor, jocoso.
-"Ene" o teu cú. - Respondeu Fabíola, falando alto e se levantando da mesa do bar atraindo a atenção de todos ao redor enquanto ia embora.
Antenor não se levantou. Continuou sentado sorvendo a sua Coca-Cola enquanto Fabíola saia pela do estabelecimento a passos largos. Seu sorriso, no entanto, desapareceu. Ele nem lembrava se a frase era de Nelson Rodrigues, mesmo, apenas quis cutucar Fabíola. Sentiu uma ponta de vergonha. Era, depois de velho, o moleque que durante o recreio puxa as tranças da coleguinha por quem é apaixonado.

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TRADUÇÕES:

Ele disse:
-Não, capaz, tô tri bem, vamo jogar, sim, amanhã tô aí com a minha chuteirinha e o meu futebol de Nílton Santos.
Mas na verdade ele quis dizer:
-Claro que eu não tô bem, eu tô demolido, mas vou fazer um esforço aparecer e jogar pra ninguém me tirar pra veado.

Resenha Cinema: Transformers 3 - O Lado Oculto da Lua


Ontem fui ver a última empreitada de Michael Bay e seus amigos Autobots no cinema. Uma semana depois da estréia, encarei uma sessão em 3-D de Transformers 3, último capítulo da (Inevitável) trilogia dos robôs que estrelaram algumas das brincadeiras infantis que guardo com mais carinho na minha memória oitentista.
Se no primeiro filme Bay conseguiu mesclar com competência comédia e ação e ainda contar uma história obtendo um sucesso de público (Familiar) e (um estranho) de crítica, no segundo longa, o injustiçado A Vingança dos Fallen, ele foi achincalhado além de todos os limites. Transformers 2 era tão divertido e competente quanto o primeiro filme. Ainda havia um fiapo de história (Ou alguém quer me convencer de que a história do primeiro longa era assim tão superior?) servindo pra que Bay, um diretor tremendamente limitado, fizesse a única coisa que sabe fazer direito: Mostrar espetaculares cenas de ação intercaladas com piadinhas por vezes infames e deixar a platéia de queixo no chão com os embates entre Decepticons e Autobots e as corridas de Megan Fox em câmera lenta.
Porém, mesmo com todo o sucesso de bilheteria do segundo longa, as críticas magoaram o esquentadinho e vaidoso Bay, e ele prometeu que, na terceira incursão ao mundo dos aliens de organismo cibernético, ele iria "acertar a mão".
Se em um primeiro momento parecia uma boa ideia, afinal, um bom roteiro nunca fez mal pra filme nenhum, as coisas foram começando a soar estranhas conforme a produção caminhava.
Enquanto John Malkovich, Frances McDormand e Ken Jeong eram contratados, Megan Fox, após trocar picuinhas com Bay via internet era demitida. Skids e Mudflap, robôs "negros" do segundo longa eram limados, também, enquanto Bay não parava de dizer que as coisas seriam diferentes do segundo longa que taxou como "lixo".
Rosie Huntington-Whiteley, modelo da Victoria's Secret entrou no lugar de Fox, deixando claro que, pra Michael Bay, Mikaela era uma personagem descartável, cenas de A Ilha foram usadas no filme, que teve problemas durante as filmagens por conta das câmeras de Avatar, e, alguns meses, vários milhões de dólares e muita fofoca depois, o filme estreava.
E, depois de assistir, dá pra dizer que, embora ainda seja um ótimo e divertido filme de ação, que o 3-D seja espetacular e que os caras da Industrial Light & Magic só melhoraram depois que a WETA entrou no mercado, Transformers 3 - O Lado Oculto da Lua, mantém a maldição hollywodiana das trilogias, e é o pior dos três longas.
Na história de como os habitantes de Cybertron influenciaram a corrida espacial na aurora da Guerra-Fria (O que criou situações como o medonho dublê digital de John Kennedy), e como os Autobots resolveram que deviam visitar a nave abatida na lua e ressuscitar o Sentinel Prime, antecessor de Optimus como líder dos Autobots (dublado com estilo por Leonard Nimoy), e como isso faz com que uma guerra entre Decepticons e a humanidade seja travada, muita coisa desnecesária acontece e aparece.
Começamos com o elenco.
Por quê John Malkovich está no longa? Malkovich é ótimo ator, mas se era para colocá-lo no papel de um afetado dublê de Steve Jobs que tem, quando muito, dez minutos em cena, que chamassem outro cara.
Frances McDormand. Ela repete um papel que já havia sido feito por outros atores no primeiro e no segundo filmes, o do político burocrata que não gosta nem confia nos transformers, não vê nada demais em Sam Witwicky, e que quer as coisas da sua maneira. Então, pra quê Frances McDormand? Por que, não um rosto desconhecido?
Ken Jeong. O afetado Mr. Chou de Se Beber, Não Case dá as caras como um funcionário de uma empresa de software que sabe alguns segredos da ligação Decepticon com a humanidade. Aparece fazendo caretas e envolvido em situações de cunho sexual que não fazem o menor sentido, nem têm lá grande função pra trama. Por que, então, Ken Jeong?
Bay foi colocando bons e conhecidos atores em papéis reciclados dos longas anteriores ou escritos com giz-de-cera pra ver se eles fariam um milagre com o roteiro meia-boca? Bem, não fizeram, os personagens desses intérpretes, assim como praticamente todo o núcleo humano, permanece sendo nada além de acessório pra que as verdadeiras estrelas brilhem:
Os robôs gigantes!
Quem vai ao cinema ver Transformers 3 em 3-D, não espera muito além de robôs gigantes lutando com uma desculpa plausível (Plausível em um mundo onde um cara com a estampa de Shia LaBeouf troca Megan Fox por Rosie Huntington-Whiteley, e existem robôs gigantes alienígenas.), quem diz o contrário não manja nada de cinema nem sabe o que a audiência quer. Quem quer um mega-roteiro, atuações de luxo, e ideias criativas assiste outro tipo de filme, e não Transformers. É por isso que apenas quando finalmente entrega o que a audiência quer, Transformers apresenta as qualidades de um excelente exemplar de seu gênero.
Bumblebee, Ratchet, Ironhide, e, claro, Optimus Prime quebrando o pau contra as forças de Megatron, Soundwave, e companhia valem o ingresso. As espetaculares sequências de ação em câmera lenta ficam lindas, as explosões digitais e de verdade são magníficas e ver uma megalópole ser engolida por uma robô-lula-gigante em três dimensões não tem preço (Na verdade, tem, vinte e um reais, no sábado.).
Os Transformers transformam (rá-rá, entendeu o trocadilho?) um longa que se arrastava chafurdando em falta de ritmo e más escolhas de roteiro e elenco em um filme espetacular nos quarenta minutos finais, quando o pau canta em Chicago, e o combate entre Decepticons e Autobots alcança todos os limites da película. Alguém devia avisar a Michael Bay que, no caso dele, pensar demais faz mal, e, quando se trata de Transformers, todos os humanos são tão descartáveis quanto Megan Fox (Só esse filhote de Hitler pra achar Megan Fox descartável.), inclusive ele próprio.
Que venha Transformers 4, Optimus Prime e companhia nasceram pro cinema, só não vê quem é frutinha.

"-O que seria de você sem mim, Optimus?
-Vamos descobrir..."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Tentando Melhorar



Uma vez, quando era criança, o Genaro acompanhado de seu primo mais velho, Jonathan andava pelo quintal da casa de praia de sua avó quando encontraram um morcego oculto sob arbustos de hortênsias em uma tarde de verão. O bicho estava em frangalhos, tentando desesperadamente se proteger da luz do sol. Genaro sempre teve aflição com morcegos, já não tinha, aos sete anos, a ideia equivocada de que morcegos fossem vampiros, sabia, inclusive que eles eram responsáveis pela polinização de flores, disperção de sementes e que eram predadores de insetos. Ainda assim, as asas de pele quase translúcidas, os braços alongados e o nariz revirado dos morcegos lhe causavam repulsa.
E foi com repulsa na voz que Genaro disse a Jonathan, enquanto colocava as mãos para trás do corpo por reflexo, ainda que estivesse distante quase um metro do animal, que deixasse o animal onde estava. Genaro não escondeu as mãos por receio de tocar no morcego. Ao menos não específicamente. Genaro tinha medo de tocar em qualquer criatura viva.
Genaro, já tocara em outro animais. Gatos, coelhos, cachorros... Mas sempre tocava da mesma forma: Com a ponta do dedo indicador esticado. Com o braço esticado, e, normalmente oferecendo o corpo de lado ao seu alvo, como fazem os grandes zagueiros ao marcarem um adversário habilidoso, ou os pistoleiros do faroeste ao enfrentar um adversário no duelo.
Genaro era ruim de contato. Muito ruim de contato.
Jonathan era diferente de Genaro. Não que fosse amante de morcegos, ou que não tivesse receio de tocar em animais de qualquer espécie.
Ele tinha.
Especialmente com relação a morcegos. Mas era, como já foi dito, diferente de Genaro. Com dois galhos de madeira, Jonathan apanhou o morcego de sob as sombras acolhedoras do arbusto de hortênsias, e, equilibrando o animal, o carregou como pôde até um recipiente de plástico com tampa, onde o prendeu.
Fez tudo isso sob os protestos de Genaro, que pediu o tempo todo que Jonathan deixasse o animal em paz. Mas Jonathan não o fez.
Pelo contrário. Com o quiróptero preso dentro da embalagem plástica, o levou para a rua, onde, diante das demais crianças do quarteirão, o bicho foi exposto como um troféu. As crianças bolavama brincadeiras onde o morcego era um vampiro capturado. Um pterodáctilo assassino. A cobaia de um experimento para acabar com monstros que infestavam a vizinhança.
Em todas as ideias o morcego foi um vilão, e como vilão foi tratado. Sendo sacudido, molhado, cutucado e espetado. Em meio a todos os gritos, alarde e à esposição ao sol inclemente, o morcego foi deixando de se movimentar, ficando mais e mais estático. Foi quando Jonathan bradou que, o momento era de dar cabo do animal, e perseguido por um séquito de infantes acéfalos, marchou até os fundos da casa abandonada do seu Mauro, onde jogou o morcego dentro de um balde, e posicionou o recipiente sob a torneira do tanque de lavar roupas.
Enquanto o balde se enchia d'água com o morcego lá dentro, Genaro, com lágrimas nos olhos, sentia como se fosse nele próprio a agonia experimentada por aquela criatura. E, como ele não estava sendo acossado pela luz do sol, nem estava enfraquecido por ter sido exposto a sevícias de nenhuma espécie por uma corja de sádicos, decidiu que cabia a ele pôr fim áquele prepóstero. Juntando tudo o que tinha de auto-respeito e dignidade, Genaro caminhou a passos firmes, que se tornaram uma decidida corrida, e por fim uma carga inexorável em direção ao algoz do morcego, Jonathan, que pagaria diante de seus asseclas pela sua crueldade.
Porém, era uma praia pequena do litoral norte do Rio Grande do Sul em meados de mil novecentos e oitenta e sete, não uma fortaleza rebelde dominada pelo império galáctico. Genaro era apenas um moleque de sete anos de idade usando calções azuis e uma camiseta amarela do Homem-Aranha, e não um glorioso paladino de Dol-Amroth trajando uma brilhante armadura. E Jonathan, por mais que estivesse executando uma ação que era um claro sinal de psicopatia futura, era só um moleque sádico, e não um déspota vil. Aquele não era um cenário para milagres, nem para confrontações épicas, ou para mudanças definitivas de rumo.
Genaro errou seu ataque. Apanhou de Jonathan, e de mais um ou dois moleques. Gabriel, e Márcio, talvez, ele não viu pois estava no chão. Não chorou. Ficou ali, abraçado nos joelhos, ouvindo o alarde das crianças enquanto o morcego se cansava de lutar para permanecer à tona e abraçava a morte por afogamento no fundo daquele balde velho nos fundos da casa do seu Mauro. Depois que as crianças foram embora, deixando o animal no balde, Genaro caminhou até lá. Esvaziou o recipiente, e com a ajuda de uma pá de plástico, carregou e enterrou o morcego na beira da praia. Pra ele, depois daquela tarde de suplícios, o animal merecia alguma deferência. Enquanto encarava a cova improvisada nas dunas, Genaro não pôde deixar de pensar que talvez, se não fosse tão ruim de contato, ele pudesse ter feito algo por aquele animal. Algo além de colocá-lo em um buraco cavado com uma pazinha roxa nos cômoros.
Mais de vinte anos depois, Genaro ainda é muito ruim de contato.
Mas está mais forte. E tentando melhorar.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Conserto


O Mário entrou no escritório alguns minutos atrasado, ofegava. Não que tivesse corrido, não, ele não correra, mas queria causar a impressão de que correra, mesmo que houvesse chagdo ao trabalho andando a passos tranquilos, e chegado, inclusive, a assobiar antes de entrar no rpédio.
Olhou para Leandro, que estava sentado olhando pra tela do computador e não desviou os olhos pra dar bom-dia ao colega.
Mário começou a falar enquanto ia tirando a vasta quantidade de peças de roupas que o protegiam do frio inclemente da rua:
-Rapaz, que friaca. Eu não sou muito do calor, mas já perdeu a graça. Ontem saí com a nêga-véia e a gente quase congelou indo pro restaurante e pior ainda na volta, mas comemos uma pizza bem boa ali na Lima e Silva, bem pra lá, sabe? Passando a Venâncio, naquela parte onde ninguém vai. E tu? Fez o que, ontem?
-Tu te lembra do Andre Agassi quando ainda tinha cabelo?
-Quê?
-O Agassi. O tenista. Lembra dele quando ainda tinha cabelo?
-Agassi...
-É, era o cara da geração anterior, os fodões eram ele e o Pete Sampras, antes de Nadal e Federer virarem os reis do pedaço. Lembra?
-Acho que lembro... Um careca?
-Isso. Lembra dele com cabelo?
-Não...
-Ó. - Leandro virou o monitor do PC pro colega, mostrando uma foto de Andre Agassi com um flamante mullet descolorido, e um agasalho rosa pink e branco.
-Caraca... - Comentou Mário sem muita convicção.
-Arram. - Assentiu Leandro, ainda mexendo no teclado.
-Visse o jogo, ontem?
-Só o primeiro tempo, acabei dormindo, tava com sono.
-Não perdeu muita coisa. Valeu mais pelo domínio, sabe? O time tá se acertando.
-Que bom.
-Dormiu a noite toda?
-Te lembra de Os Intocáveis?
-Hã?
-Os Intocáveis, aquele do Brian DePalma, com o Kevin Costner e o Sean Connery?
-Filme?
-Sim, filmaço, com o Robert De Niro fazendo o Al Capone, e o Andy Garcia, tá ligado?
-Sim, sim, bom filme... Baita trilha. De quem é a trilha?
-Ennio Morricone, mestre...
-Verdade... O que tem o filme?
-Te lembra do Connery xingando um matador da máfia dizendo que era coisa de carcamano levar uma faca pra um tiroteio?
-Não...
-Aí ele persegue o cara com uma doze de cano serrado e o Nitti mata ele?
-Não me lembro de nada disso...
-Mas tu tá ligado no lance esse, de nunca levar uma faca pra um tiroteio?
-Sim, sim...
-Te liga, aqui. - O Leandro virou de novo o monitor pro Mário, uma foto ocupava a tela inteira, nela, Mace Windu decapitava Jango Fett com seus indefectível sabre-de-luz roxo sobre os dizeres "Jango Fett: Levou uma arma pra uma briga de espadas". Mário riu, mas deteve-se.
-Mas peraí, ô porra... Por que tu fica mudando de assunto o tempo todo? O que tu fez ontem de noite?
Os olhos de Leandro ficaram marejados um momento. Mário entendeu.
-Foi ela?
Leandro assentiu com a cabeça.
-E aí...?
Leandro novamente sinalizou com a cabeça, mas agora negativamente.
-E o que tu vai fazer agora, velho? Pra te consertar?
Leandro encolheu os ombros.
-Ver coisas engraçadas na internet, pra começar. - Disse, incerto.
-Tá funcionando?
-Não.
-Vai funcionar em algum momento?
-Não sei...
-Quer ajuda?
-Não... Obrigado, mas não. Quero ficar sozinho.
-Beleza. Mas tu sabe que isso provavelmente é a causa do problema, né?
-Sei...
-Me mostra esse do Jango e do Mace Windu, de novo, depois bota aí Megan Fox, biquíni, e vamo trabalhá. - Sentenciou Mário.

Um passo de cada vez.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Frio da Incerteza


Foi com pesar que o Alceu encarou o relógio e constatou que já eram duas e cinquenta e sete da madrugada daquela noite glacial. Sair de sob as cobertas doera fisicamente nele. Não que ele não gostasse do frio por conta disso. Não. Alceu era dessas pessoas capazes de sentir um certo prazer no desconforto. Uma certa alegria na dificuldade. Provavelmente reflexo de anos de desconforto e dificuldades aos quais ele fora exposto enquanto se tornava a meia-pessoa que hoje era.
Alceu levantou-se com dificuldade de sob as cobertas. Sentiu o ar gelado açoitar-lhe as pernas descobertas e sorriu. Usava um calção branco e preto do time do Santos que devia ser mais velho que o Neymar, mas era de estimação, e era muito confortável. Quando seus pés descalços tocaram o chão, ele sentiu a onda de frio se esticar da sola dos pés até os cabelos. Pensou que bateria os dentes de frio, mas cerrou o maxilar com força, evitando tiritar. Levantou-se sob os protestos rosnados de seu cachorro que estava sob as cobertas e não gostara da ideia de ser descoberto. Cobriu o cão com cuidado, e andou trôpego até o banheiro. Escovou os dentes, e passou água no rosto. A sensação de ser esfaqueado nas bochechas não podia ser muito diferente, mas ao menos estava mais desperto. Caminhou de volta rumando para a cozinha, deteve-se brevemente em frente ao rack da televisão. Vislumbrou uma foto em um porta-retratos customizado do Homem-Aranha. Não conseguiria evitar o sorriso mesmo se tentasse. Andou até a cozinha, tomou dois comprimidos, um anti-inflamatório e um analgésico empurrados goela-abaixo com um gole de Coca-Cola. "O desjejum dos campeões", pensou. Comeu dois biscoitos Bono, recheados com morango de dentro de um jarro. Horríveis.
Lavou o copo. Como a água doía em contato com a pele, pensou. Voltou à sala terminando de secar as mãos na camiseta. Sentou-se no sofá. Mirou a foto novamente. Dessa vez não sorriu. Não fez mais nada. Mirou a foto por alguns minutos esfregando a mão esquerda no braço direito. Lembrou dela. De uma noite fria em que fora feliz mesmo sem cobertas sob um ventilador. Uma noite em que não se mexeu como se fosse acossado por bichos carpinteiros. Uma noite em que tudo fez sentido. Apanhou o celular que estava na mesinha do telefone ao lado do fixo. Abriu a caixa de mensagens e navegou até a pasta com o nome dela. Estavam lá. Todas as mensagens. Talvez, pensou ele. Talvez fosse melhor deixar as coisas caminharem. Dar o próximo passo. Ser capaz de ser feliz por ela. Deixá-la ir, fazer suas coisas, viver o que havia pra ser vivido sem um pálido e distante fantasma a assombrá-la. Tocou no display do aparelho, selecionando a primeira mensagem da lista. Sorriu enquanto lia o recado. Moveu o polegar e tocou no ícone em forma de lata de lixo no pé da tela.
"Tem certeza de que deseja excluir essa mensagem?" perguntou-lhe o aparelho, friamente em letras brancas sobre um fundo vermelho.
Tenho? Perguntou-se Alceu.
Escorou-se sobre o sofá, puxando sobre as pernas uma colcha que jazia dobrada sobre o encosto. Largou o celular e ligou a televisão na Globo News. Esticou a mão sobre a pilha de revistas posicionada no vão sob a mesa do telefone e puxou um volume encadernado. Adormeceu novamente enquanto lia os dois últimos capítulos de Superman - As Quatro Estações. Acordou horas mais tarde enquanto seu telefone vibrava ao som de Beachwood Sparks, com o corpo encolhido sob o frio da madrugada, e o coração encolhido sob o frio da incerteza.
Aquele dia seria uma droga...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Olhar.


A Loraine sentou em frente ao Rubens na sala de aula como fazia todas as manhãs desde que eles haviam começado o ano letivo no distante e quente final de fevereiro. A Loraine sempre sentava mais na frente pois, apesar de ter um pequeno problema de visão que a obrigava a usar óculos com lentes prescritas, Loraine fazia tudo ao seu alcance pra evitar o aparato, inclusive "pagar de CDF", como diziam suas amigas, sentando-se bem na frente na classe.
Loraine, como se pode ver por esse breve relato, era bastante vaidosa. Não era nenhum escândalo a vaidade dela, não, existia a vaidade, mas era controlada, uma vaidade até saudável em uma menina nos seus quinze, dezesseis anos.
O Rubens sentava bem na frente pois o pessoal do fundão não se dava bem com ele. Rubens não chegava a ser um nerd na assepção da palavra. Não era particularmente estudiodo, nem inteligente, mas gostava, e como gostava, de ficção científica. O Rubens, por conta de sua preferência por atividades intelectuais, como devorar uma coleção de livros do Julio Verne no verão, não era lá um esportista dos mais bem dotados, então, não se enturmou com a galera do futebol, que dominava o fundo da sala. Não era um ermitão, o Rubens, não. Tinha amigos na sala. O gordo Jéfferson, que tinha uma cintura bastante ampla, o Matheus Roqueiro, que adorava pagode, e a Suíça, que não nascera na região dos Alpes, mas sim em Viamão, e fora batizada por sua mãe sob a graça de Aparecida, que os colegas reduziram para "Cida", depois aumentaram para "Suicida", e finalmente reduziram novamente para "Suíça".
Rubens sempre sentava, pois, na frente, como não queria ser CDF a ponto de sentar na primeira fileira, e tampouco ficar sob os holofotes da professora Maria do Carmo, que lecionava matemática e comandava aquela classe com mãos de ferro, ele resolveu se misturar e sentar na segunda fileira. Ali, tinha à sua esquerda a Suíça, à direita, o Matheus Roqueiro, atrás de si a proteção do muro de nome Gordo Jéfferson, e à sua frente, a Loraine.
Rubens jamais havia notado Loraine. Não que ela não fosse suficientemente bonita para ele, ela era. Na verdade, era bonita demais pra ele. Ele se via namorando, claro, qual moleque de quinze anos não pensaria nisso com a ebulição de hormônios que ocorria em seu corpo diariamente? Mas ele jamais havia pensado em Loraine daquele jeito. Nunca a vira como mulher, a via quase como um patrimônio do ensino médio, distante, inatingível, e, por isso mesmo, segundo o pragmatismo de Rubens, perfeitamente ignorável.
Até aquela manhã fria de julho. Todos estavam encasacados, usando várias e várias camadas de tecido para vencer o frio de quatro graus celcius que fazia nas ruas de Porto Alegre naquela manhã. Cachecóis, toucas, luvas e até cuecões e pijamas ainda sob as roupas haviam para alguns exagerados. Foi naquela manhã, em que Loraine sentou-se na frente de Rubens, como fizera todos os dias nos últimos quatro meses. Mas naquela manhã de frio glacial, aconteceu uma coisa que não acontecia em todas as manhãs. A Loraine sentou-se à frente de um entediado Rubens, e, uma vez acomodada, encurvou-se para a frente, apenas fazendo um movimento em forma de gancho com a coluna, projetando o tórax pra frente sem que o abdôme ou os quadris se movessem. E, com um movimento rápido e gracioso, ela removeu o cachecol de lã rosa-claro que lhe envolvia o pescoço longo e branco, deixando à mostra sua nuca, e em sua nuca, por Deus, em sua nuca, Rubens pôde perceber, sob a luz pálida daquela manhã de inverno que entrava pela janela do quarto andar, uma penugem dourada quase invisível deitada delicadamente sobre a pele clara da parte de trás do pescoço de Loraine.
Isso foi mais de quinze anos atrás. Se perguntarem a Rubens, ele ainda hoje não saberá o que foi que causou a promoção da beleza de Loraine de "perfeitamente ignorável", para "objeto do desejo". Ele jamais se decidiu entre a flexibilidade das costas dela, a penugem dourada sob o sol daquela manhã fria, ou a pele de pêssego de sua nuca. O que Rubens decidiu, de fato, foi que ele nunca, jamais, em tempo algum, descansaria enquanto não passeasse sôfregamente com seus lábios na pele sedosa da nuca de loraine. Foi com essas exatas palavras que Rubens anunciou seu intento à Suíça, Jéfferson e Matheus, e disse-lhes solenemente que contava com os amigos em seu intento.
Foi pensando nisso, e nisso apenas, que Rubens começou a cortejar Loraine. Primeiro tímida e desastradamente, é verdade, causando algo entre estranheza e lisonja no alvo de suas afeições.
Mas Rubens foi se refinando com o passar do tempo, e o que lhe faltava em jeito, e sutileza ele compensava com dedicação e afinco. Contava com a ajuda do gordo Jéferson e do Matheus Roqueiro e o filtro da Suíça, que lhe dizia quais dicas dos amigos podia, ou não, seguir, e lhe ajudava a ser insistente o bastante pra não ser esquecido, mas não a ponto de ser chato.
Eventualmente, com muita transpiração e um pouco de inspiração, com muito trabalho duro, e um pouco de sorte, Rubens pavimentou o caminho até o coração de Loraine. Ele conseguiu beijar com sofreguidão a nuca macia de Loraine, passar as mãos pela extensão completa de suas costas flexíveis, e ver o sol nascer sobre os pêlos dourados sob seus cabelos atrás de seus pescoço de alabastro, ah, sim...
E não foi nada do que ele esperava. E enquanto desligava o tom do seu celular ao ouvir o toque pessoal de Loraine, Rubens não conseguiu deixar de lamentar, não o fato de Loraine não ser tudo o que ele imaginava, mas o tempo e o esforço investidos em vão naquela relação.
Rubens, enquanto saía de casa pensando se iria à loja de informática ou ver um dos filmes do Fantaspoa no Cine Bancários nem sequer cogitou a hipótese de que o problema não fosse Loraine, mas sim, ele. Ou melhor, não ele, mas sim o fato de que uma relação não se encerra no começo. Pelo contrário. Ela deve seguir recebendo cuidados. Muitos, todos. Ainda mais do que antes, para manter o viço.
A nuca de Loraine, coberta de pêlos dourados quase invisíveis, exceto à luz do sol continuavam todos lá, no alto das costas flexíveis dela. O que mudara fora apenas o olhar que Rubens, aquele pseudo-nerd cretino, dedicara à eles.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Espaço


O universo é muito grande. Há quem diga que é infinito, mas eu não boto fé. Ainda acho que, em algum canto, o universo tem uma parede preta com estrelas pintadas, se bobear tem alguém sentado lá, torcendo pra ninguém chegar naquela parte só pra não ser obrigado a se explicar. De qualquer forma, o universo é grande. Só de espaço visível, estima-se que o bicho tenha quatorze bilhões de anos-luz. É um monte. Isso sem contar a parte que não podemos ver, pois, supõe-se, o universo esteja em constante expansão a sabe Deus quantos parsecs por dia. Um parsec, é uma medida que equivale a 3,26156 Anos-Luz. Eu nem sei estimar o que esse número significa, apesar de saber que um ano-luz é mais ou menos dez trilhões de quilômetros. Se eu manjasse de matemática seria astro-físico, pois eu adoro esses bagulhos, mas odeio cálculo...
Enfim, eu me distraí, mas o ponto aqui é, com o universo desse tamanho, quatorze bilhões de anos-luz, 140000000000000000000000 (que seriam cento e quarenta sextilhões) de quilômetros, e isso só de espaço visível! Fora os parsecs e mais parsecs de espaço invísivel, oculto, em expansão, ou as dez dimensões da teoria das supercordas (Que já foram vinte e seis!), e a teoria dos Muitos Mundos, e seu multifacetado multiverso habitado por versões de nós mesmos, com tudo isso, com todo esse universo, multiverso e o escambau, como é que a gente pode reclamar da distância?
Nós estamos na mesma dimensão. No mesmo sistema estelar. No mesmo planeta. Nós nos encontramos, e, contrariando nossos instintos naturais, não nos encolhemos e seguimos nosso caminho. Demos uma paradinha. Olhamos em volta. Nos aprochegamos... Claro... Podia ser mais fácil, mas ah... Quem quer moleza senta na gelatina. A gente não precisa disso, a gente aguenta o tranco. Com nós é lightsaber na caveira.