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sábado, 14 de janeiro de 2012

Top 10 Casa do Capita: Os Melhores Games de Todos os Tempos


Foi com algum alívio que eu li nesta semana a notícia de que o Playstation 3 ainda vai ser o carro chefe da Sony por mais alguns anos (Até 2016, segundo Kaz Hiray, chefe de tecnologia da empresa).
Gastei dinheiro que eu não tinha pra comprar o meu primeiro console HD da Sony anos atrás, e ficaria triste de saber que ele se tornaria obsoleto já na próxima E-3. Imbuído desse sentimento eu formulei a lista com meus dez games favoritos da plataforma. Algumas injustiças foram cometidas, eu sei, então, vamos remediar isso, e com mais um dos infâmes Top 10 Casa do Capita, não apenas de Playstation 3, mas de todas as plataformas, elencar os dez melhores, e mais importantes games, não só de PS3, mas de todas as plataformas.

10 - Red Dead Redemption

Fiquei em dúvida se devia ou não colocar um game tão recente e sem grandes inovações na minha lista. Entretanto, a qualidade da narrativa de Red Dead Redemption e o carisma do fora-da-lei reformado John Marston me obrigaram a apostar no espetacular game de 2010.
Muito mais do que apenas um GTA do Velho Oeste, Red Dead Redemption é uma declaração de amor a um breve período histórico que se recusa a sair do imaginário coletivo.
Não há como não se apaixonar pelo game, sua história e seus personagens, tampouco como evitar em diversos momentos, a vontade de apenas cavalgar pelos territórios de fronteiras selvagens apinhados de feras e bandoleiros.
Com uma jogabilidade esperta, trilha sonora invocada e gráficos de derrubar queixo, Red Dead Redemption faz por merecer seu lugar ao sol.

9- Resident Evil 4

Tanta gente vai chiar com essa escolha. Mas é a mais pura verdade. Resident Evil foi o grande sucesso comercial em termos de survival horror, me lembro do pânico da gurizada jogando o game de Playstation em meados de 96. O sucesso foi tamanho que em 98 saiu a sequência Resident Evil 2, que aumentava o escopo do game original, limitado à uma mansão, e o levava à uma cidade inteira. Outras sequências seriam lançadas anualmente até 2004 sem grandes inovações. Foi em 2005 que saiu Resident Evil 4, o game que os puristas amam odiar.
A ambientação saía de Racoon City e rumava à Europa, onde Leon Scott Keneddy, o personagem principal do segundo game estava, á serviço do governo dos EUA procurando pela filha do presidente, Ashley, sequestrada por uma seita dominada por uma sinistra forma de vida.
A tensão do survival horror ainda estava lá, mas ganhava mais ação do que em qualquer capítulo da série num festival de clichês cinematográficos que nós adoramos controlar.

8- Street Fighter II

Aquele que nunca foi brincar de luta no pátio do colégio durante o ensino fundamental e gritou "Eu sou o Blanka!", que atire a primeira pedra.
Street Fighter II, lançado em 1991 era sequência de um game que quase ninguém jogou, e revolucionou os games de luta trazendo cenários personalizados ao redor do mundo com música própria à cultura de cada ambiente retratado na tela. Foi o primeiro game com o sistema de combos que anos depois chegaria aos desnecessários trocentos mil hits, e certamente o game de luta mais clonado da história dos video games. Street Figter II deu tão certo, que apenas em 2008 lançaram Street Fighter IV, o primeiro game da série com modificações práticas na (excelente) jogabilidade original, e ainda assim, as mudanças são apenas na renderização dos personagens, que sai do 2-D com pinta de recorte de papel, e passa um 3-D caprichado com belos efeitos de pintura oriental.
Mesmo com poucas alterações, Street Fighter mantém a saúde como maior franquia da Capcom, e segue sendo um viciante best seller.

7- Tetris

Como assim, Tetris? É, isso mesmo. Tetris. O game de blocos encaixáveis que até camelô vendia anos atrás e que veio "da Rússia com amor" é provavelmente o jogo eletrônico mais viciante já criado em todos os tempos. Não há como explicar a tensão enquanto você vê os blocos caindo, nem a satisfação quando as linhas completas se desitegram ou a frustração quando os blocos chegam ao topo da tela. É tão viciante, que em mais de uma ocasião eu, jogando GTA IV, parava em um dos fliperamas virtuais do jogo e passava horas jogando a versão de Teris existente em Liberty City, a QUB³D.

6- Super Mario 64

Os games de Plataforma da série Super Mario World eram divertidíssimos, Super Mario Kart, idem. Agora, maneiro, mesmo, foi ver o encanador apaixonado pela princesa Peach falando pelos cotovelos, rindo e gritando enquanto corria por plataformas multicoloridas em três dimensões e realizando malabarismos improváveis por ambientes tão variados quanto montanhas nevadas, planícies desérticas e castelos assombrados.
Super Mario 64 subverteu todas as regras conhecidas da franquia, até então jogos de plataforma em 2-D, e ainda assim se manteve fiel à essência dos games anteriores com cenários fantásticos que pareciam sempre ter uma nova surpresa para oferecer, estabelecendo diversos novos parâmetros para games futuros, como, por exemplo, a utilização de uma câmera livre.
Nada mal para um encanador italiano que gosta de estrelinhas e princesas...

5- Super Metroid

Joana Dark e Lara Croft que vão se lascar. Samus Aran é a mulher mais casca grossa da história dos games. Era na pele macia da heroína (devidamente protegida pela sua armadura) que os gamers do mundo partiam atrás dos piratas espaciais para recuperar a larva Metroid roubada dos laboratórios Ceres.
Andando por ambientes sombrios que evocavam Alien - O Oitavo Passageiro, enfrentando vilões extremamente cruéis e melhorando o seu equipamento de acordo com a sua perícia ao completar as missões ao som de uma ótima trilha sonora Super Metroid é um clássico de alta dificuldade que mostrou quão tensos podiam ser games de 16 bits e fez a alegria de toda uma geração no distante ano de 1994...

4- Goldeneye 007

Em 1997 sete em dez jogadores de video game estavam viciados em um título de Nintendo 64, mesmo aqueles que já haviam migrado para a Sony e seu Playstation.
O jogo era Goldeneye - 007, adaptação gamística do filme de mesmo nome que lançou Pierce Brosnan como o espião em 1995.
Olhando em perspectiva Goldeneye têm diversas restrições técnicas, especialmente se for comparado aos games de tiro de hoje, como Call of Duty, entretanto dezessete anos atrás o game foi uma revolução espetacular. Se o divertidíssimo modo history que seguia a trama do filme era viciante, o que dizer então do multiplayer cheio de boas sacadas e inovações que ainda hoje ecoam na indústria? Quem não sentiu o prazer de empunhar duas DD-44 Dostovey e fugir dos arquivos de Moscou não sabe, de verdade, o que é se divertir.
Talvez o maior clássico entre os games de tiro em primeira pessoa.

3- Chrono Trigger

Eu nunca fui fã de RPGs eletrônicos, mas o game da Square era espetacular demais pra passar batido. Repleto de inovações com relação aos outros RPGs da época, em uma trama dramática cheia de referências à mitologias variadas, bons gráficos, sistema de combate esperto e trilha sonora espetacular, Chrono Trigger nos desafiava a juntar um pequeno exército e terminar a aventura de Chrono, Lucca e Marle para impedir que Lavos destrua o planeta, e depois continuar jogando até experimentar os dezoito (!) finais que o game oferecia. Tudo isso criado por um dream team que contava com nomes do calibre de Akira Toriyama, criador de Dragon Ball e Hironobu Sakaguchi, da série Final Fantasy e embalado pelo que talvez tenha sido a melhor trilha sonora de um game da era 16 bits.

2- Grand Theft Auto IV

Muita gente prefere San Andreas, o capítulo anterior da franquia de roubo de carros, mas se o segundo e terceiro games foram maneiraços, foi na quarta incursão da série aos games que a excelência narrativa foi alcançada.
É quando conhecemos Niko Bellic, imigrante Sérvio recém chegado a Liberty City (Uma Nova York turbinada) e sua luta para sobreviver em meio às pataquadas do primo viciado em apostas, o assédio de policiais corruptos, gângsters cruéis e agências governamentais obscuras.
Além do cenário inacreditável, com uma cidade imensa composta por três ilhas que podiam ser exploradas sem telas de carregamento nem perda de detalhamento entre uma e outra, havia uma história digna de Martin Scorsese, e um protagonista tão carismático que dá até ums ponta de tristeza saber que não voltaremos a vê-lo nos games futuros.

1- The Legend Of Zelda: Ocarina Of Time

Não há como escapar. Se A Link To The Past, o game de Super NES era excelente, foi apenas em 1998 que nós pudemos, de fato, ver até onde ia Hyrule. O Link de Ocarina Of Time flutua entre a infância e a idade adulta, vai e volta no tempo e mostra que mesmo heróis de poucas palavras podem demonstrar um espectro de emoções sensacional.
Na pele do elfo nós enfrentamos monstros imensos, combinamos equipamento e armamento variado, viajamos por cenários tão variados quanto os povos que vivem em Hyrule, derrubamos governos tirânicos e restauramos povoados arruinados, e ainda podemos nos dar ao luxo de, volta e meia, tocar uma musiquinha na nossa ocarina. O vilão Ganondorf Dragmire é sinistro, o cenário é monstruosamente grande, a trama começa sensacional e avança até espetacularmente épica.
Em Zelda : Ocarina Of Time, tudo funciona à perfeição, e o resultado é um game perfeito que te faz manter o Nintendo 64 à mão, pois a gente sempre pode sentir vontade de jogar mais uma vez e mostrar aos fãs de God of War que Link limpa o chão com Kratos a qualquer hora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Top 10 Game: Games de PS3


Como o Playstation 3 ainda tem uns bons três anos de vida útil, bora fazer uma listinha do que saiu de melhor e mais divertido pro console da Sony!
Sim, este é mais um dos infâmes Top 10 Casa do Capita dedicado aos jogos mais maneiros do PS3, a ele, pois.
Ah, os critérios de escolha são os mais simples possíveis: Tem que ser bonito e divertido, igual mulher que a gente se apaixona.

10 - FIFA 12

Eu poderia colocar aqui qualquer uma das versões do futebol virtual da EA se nenhuma injustiça, coloquei a edição 12 apenas por ser a mais recente do viciante game, já que a franquia se aprimora a cada ano, sempre agregando inovações que tornam FIFA o simulador de futebol definitivo.
Quem assiste futebol, joga PES, quem ama futebol, joga FIFA...

9 - Star Wars - The Force Unleashed

Eu sei, tecnicamente nem é um jogo tão memorável, mas eu sou fã de Star Wars daqueles que ainda ficam perplexos quando Vader diz que é pai do Luke, então tenham paciência e entendam meu carinho por The Force Unleashed que tirou daqui o espetacular Red Dead Redemption (Que será devidamente homenageado em outro top-10).
Como nerd fã da saga de George Lucas é impossível não se sentir como um piá de Kichute novo ao controlar os poderes da Força e trilhar o caminho oposto ao de Darth Vader em busca de redenção na pele de Galen Marek, o Starkiller, enquanto brande com fúria um sabre de luz.

8 - Assassin's Creed Brotherhood

Se o primeiro jogo da série era um sandbox bem competente com uma história interessante mas que pecava pela repetição, o segundo game já tinha superado esses problemas ao oferecer um gameplay mais arejado no tocante ao avanço da trama, foi, porém, no terceiro capítulo que o pessoal da Ubisoft encontrou a excelência da série, combinando o que havia de melhor nos dois capítulos anteriores e construindo uma trama imersiva e divertidíssima com espaço para ação, aventura, quebra-cabeças e teorias conspiratórias.

7 - Uncharted - Drake's Fortune

Todo mundo sabe que o segundo capítulo, Among Thieves e o terceiro, Drake's Deception são melhores, mas foi nesse primeiro game que a Naughty Dog nos apresentou Nathan Drake, o Indiana Jones de que os games precisavam. O caçador de tesouros canastrão é um personagem carismático em uma aventura com cara de matiné das mais maneiras que permite ao player transitar por museus sombrios, templos abandonados e florestas tropicais enquanto distribui murros poderosos e tiros certeiros e arrasa corações.

6 - Dead Space

Se Assassin's Creed deu aquela refrescada nos games em estilo sandbox Dead Space deu uma arejada no estilo survival horror. Paradoxalmente fez isso ao enfiar o gamer em uma claustrofóbica trama onde o engenheiro Isaac Clarke preso na Ishimura, uma imensa nave de mineração em meio à uma medonha infecção alienígena que a infesta com cadáveres deformados animados apenas pelo desejo de aumentar a infecção.
Armado com os cortadores de plasma e outras ferramentas de mineração Isaac tem que colocar a Ishimura em movimento de novo para poder voltar pra casa.

5 - Call of Duty - Modern Warfare 2

Call of Duty 4, o primeiro Modern warfare foi um jogaço com uma trama maneiraça e um gameplay simples e fácil de jogar, era viciante e divertido. O segundo game, porém, foi o que mostrou do que era capaz o Playstation 3 em termos gráficos.
Inexplicável, de cair o queixo, e deslumbrantes são alguns dos adjetivos que cabem para descrever os cenários onde se desenrola a história e a forma como eles são alterados conforme se desenrola a invasão massiva da Rússia contra os EUA.
Jogaço de tiro em primeira pessoa com "J" maiúsculo.

4 - The Elder Scrolls V - Skyrim

Um mundo onde o jogador pode ir onde quiser, ser o que tiver vontade, fazer o que quer que lhe passe pela cabeça na hora em que decidir. Tudo isso com gráficos de altíssima geração, um sistema de jogo simples e sem frescura, com um cenário abissal repleto de ameaças em cada curva das estradas de chão batido, onde um escudo melhor e uma espada mágica podem ser a diferença entre ser um herói triunfante e o almoço de uma fera bizarra.

3 - Batman Arkham City

Se Batman Arkham Asylum era um jogaço de fazer a alegria de qualquer nerd que se preze, não era um game perfeito. Apesar da ótima trama dos gráficos sensacionais e do gameplay simples que deixava qualquer guri de apartamento se sentindo o cavaleiro das trevas em pessoa, Arkham Asylum era curto. Curto demais pra um game que oferecia tanto em termos de qualidade. Esse erro foi remediado na sequência, Arkham City, que ampliou o game original em todos os aspectos e mostoru, mais uma vez, qual é a criatura mais perigosa de Gotham City.

2 - Heavy Rain

O "filme interativo" da Quantic Dream me fisgou na primeira jogada. O game que investia muito mais em drama e investigação do que na ação e na aventura mostrou o quanto os estúdios são tacanhos na hora de aproveitar o potencial gráfico dos games da novíssima geração. Heavy Rain, com seus quatro protagonistas repletos de expressão e emoção interpretados de fato por atores de verdade e desenrolar onde não existe game over serviu pra abrir portas à uma nova forma de encarar video games, e mostrar que, com um pouco de interesse e coragem, podia-se escapar de fórmulas batidas e esgotadas de esmagar botões, gritar, babar, bater no peito e gritar que é muito macho.

1 - GTA IV

O imigrante leste-europeu que chega á América e escala a pirâmide do crime do completo obscurantismo até os mais altos escalões da máfia e do governo dos EUA apresentou um dos maiores e mais detalhados mundos digitais de que se tem notícia. A Liberty City de Grand Theft Auto IV é imensa, detalhada, orgânica. Do bairro repleto de imigrantes em Broker até as mansões de Alderney passando pelos arranha-céus de Algonquin todas as ilhas estão disponíveis ao mesmo tempo. Os personagens coadjuvantes memoráveis e os trabalhos sujos em que o player se envolve pela metrópole áfora sempre surpreendem e rendem mais uma risada ou mais um momento de admiração com a riqueza da trama. Tudo isso pra mostrar quem é Niko Bellic, e porque ele está nos EUA.
Clássico absoluto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pela Janela


Não foi, definitivamente, de propósito que o Aurélio se apaixonou pela Renata.
Na verdade, analisando friamente, como o Aurélio fazia costumeiramente, a Renata seria a última pessoa por quem ele se apaixonaria. Não que a Renata fosse feia. Não, não era o caso. A Renata era muito bonita. Uma graça de guria. Tinha um rosto lindo, uma pele macia e lisinha, cabelos cheirosos, pernas de enlouquecer... Era uma beleza de menina.
Não era, também, que a Renata não fosse legal. A Renata era. A Renata era muito legal. Um doce de guria. Divertida, esperta, engraçada, sem frescuras... Tudo de melhor.
Então, era perfeitamente possível que uma pessoa normal se apaixonasse pela Renata. A questão aqui, é justamente que o Aurélio não era uma pessoa normal.
Quer ver um exemplo clássico?
Quando era criança, enquanto os amigos do Aurélio queriam ser pilotos de corrida, policiais, bombeiros ou jogadores de futebol, o Aurélio queria ser beduíno.
É... Beduíno.
O Aurélio, quando criança, queria ser um membro desse povo nômade originário da península arábica, que vive no deserto e que viaja em caravanas vivendo do comércio de mercadorias variadas com as populações sedentárias das regiões onde vivem.
O Aurélio chegava a se imaginar vestido de preto, de turbante, no meio do deserto montado em um camelo. Achava o máximo o visual beduíno, meio mendigo, meio jedi.
Isso provavelmente já mostra o tipo de pessoa que o Aurélio era.
A Renata era normal... Bom, era bastante normal. Ela tinha algumas idiossicrasias e estranhezas, entretanto, as dela não a tornavam menos encantadora, na verdade a tornavam mais encantadora, mais perfeita e delicada.
E essa pessoa encantadora que era a Renata, talvez por algum mecanismo psíquico de cuidar de gente ferida, doente ou triste, encontrou em seu coração espaço pra receber o Aurélio.
Não foi fácil. Renata era cautelosa, Aurélio era paranóico. Mas aconteceu. Ela o encontrou, e ele a deixou entrar, ao menos um pouco.
E foi bom pro Aurélio.
A Renata iluminou sua vida como aquele sol de julho, que entra pela janela e faz o cachorro correr pra deitar ali e se aquecer. Ela fez o Aurélio experimentar emoções e sentimentos que ele ignorava até então. Fez ele ansiar por toques, carícias e palavras que ele desconhecia. O fez valorizar gestos que ele consideraria insignificantes antes de conhecê-la.
Todavia, por melhor que fosse Renata. Por mais dedicada, por mais tenaz, Aurélio ainda era... Bom, o Aurélio.
Naturalmente solitário, misantrópico, niilista, pessimista, quebrado além do reparo ou conserto e programado para ver o pior de tudo em todas as situações.
Aurélio percebeu que não fazia bem à Renata, que o convívio com ele não oferecia a ela nenhum benefício.
Aurélio tinha todos os defeitos do mundo, mas não era ingênuo nem egoísta.
Ao perceber pra onde ia o caminho que trilhava, resolveu salvaguardar a pessoa com quem mais se importara na vida. Bastava se afastar. Fazer silêncio. E esperar que ela voltasse a sorrir longe dele, onde seu sorriso jamais seria ameaçado.
Ia doer, claro. Muito. Mas Aurélio sabia como proceder quando lhe faltava o ar de tanto sofrimento.
Ele fazia algo banal. Oferecia um sentimento de normalidade à sua rotina. Via um filme, lia um livro, acompanhava as aventuras de Austin Stevens e O Universo no Nat Geo...
Doía... Mas de alguma forma, parecia ser o certo a se fazer. Isso, e torcer pra que ela fosse feliz o suficiente pra sorrir tantos e tão grandes sorrisos que, de vez em quando, iluminassem seu dia através da janela, pra que ele encontrasse a calidez que vinha dela, e se aninhasse ali por breves intervalos de paz.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Adeus de leopardo


Foi na cidade indiana de Guwahati, uma das poucas da índia totalmente cercada por florestas, que um leopardo adulto, faminto e assustado, ao adentrar uma casa deparou-se com um morador, provavelmente também assustado, que de forma incauta atacou o felino com uma barra de ferro.
No que se louve a coragem de um homem dentro de sua casa de tentar defender sua família ou sua propriedade contra uma fera de, digamos oitenta quilos, cheia de presas e garras, há que se também levar em conta a imbecilidade de um incauto que supõe que será capaz de afugentar uma fera selvagem com um pedaço de ferro...
Esse, aliás, é um dos males da humanidade. O Homem supõe que seu controle sobre a terra garantirá à espécie humana controle sobre a fauna, a flora e os elementos.
Bom, embora nós tenhamos o poder de destruir o mundo, diversas vezes se houver vontade, não o faremos sem que hajam consequências. Aí estão os tornados, furacões, terremotos e tsunamis pra mostrar. Mas não é o ponto, aqui...
O ponto é que, na vida, de modo geral, nós muitas vezes somos aquele hindu bigodudo com uma barra de ferro na frente de um leopardo. Nós nos imbuimos de uma coragem e de uma galhardia que não combinam com a situação em que nos encontramos.
Não medimos as consequências do que pretendemos fazer, apenas agimos, puro instinto, pura alma.
Paramos diante de alguém que parece perfeito e deixamos que ela saiba como nos sentimos. Deixamos que ela perceba que, a despeito de nossas fachadas, de nossos equívocos, nós queremos mais... Podemos mais.
Mas sabe como é a vida... Ali estamos nós, em um instante brandindo uma barra de ferro com decisão. E no seguinte, ouvindo um adeus definitivo que nos arranca o escalpo.

A propósito, o Leopardo passa bem.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Resenha Cinema: Imortais


Sabe quando tu vai ao cinema ver um filme que tu tem diversas razões pra achar que não vai ser o bicho, e então reduz propositadamente as expectativas de modo a não se desapontar demais? Tu já deve ter feito isso, eu geralmente gosto das animações que me arrisco a assistir por que minhas expectativas são muito baixas com relação ao formato. Adorei filmes medianos por estar com expectativas baixíssimas com relação a eles.
Ontem, entretanto, encontrei um filme que se mostrou imune a esse expediente:
Imortais.
Na trama o maléfico rei Hipérion (Mickey Rourke) planeja levar sua vingança contra os deuses do Olimpo que ignoraram suas preces e permitiram que sua família perecesse. Para isso, Hipérion irá libertar os titãs, aprisionados pelos deuses no monte Tártaro, o que requer o arco de Epiros, cujo paradeiro é conhecido pela oráculo virgem Phaedra (Freida Pinto).
Os deuses do Olimpo liderados por Zeus (Luke Evans), porém, não estão cegos a tudo isso, e escolheram um campeão para se opôr a Hipérion: Teseu (O novo Superman, Henry Cavill), camponês concebido após sua mãe ser vítima de estupro, e considerado um bastardo indesejado, foi treinado desde cedo na arte do combate por um misterioso velho (John Hurt).
Após o ataque de Hipérion à sua aldeia (Uma favela grega?), o herói relutante Teseu precisa encontrar o arco de Epiros e fazer frente ao vilão, impedindo-o de liberar a fúria dos Titãs sobre o Olimpo e a humanidade.
A aventura épico-grega do indiano Tarsem Singh está obviamente amarrada a 300. Desde a paleta de cores usada na produção, tingindo até o céu de um dourado escuro, passando pelos cenários criados com tecnologia de previsão do tempo do Jornal Nacional, e a utilização de planos sequência nos combates em slow motion, o visual do filme tem muito do longa de Zack Snyder que barateou os custos de realização de um épico. Ao mesmo tempo, Singh, que tem no currículo filmes de grande impacto visual como A Cela e The Fall, imprime sua visão (carnavalesca) do panteão grego ao longa. Zeus, Posseidon, Ares e companhia parecem destaques de carro alegórico na Sapucaí, ou strippers de uma boate gay bem afetada. Apesar disso, o filme falha em gerar impacto visual. Os delírios de Joãozinho Trinta de Singh se perdem no eco da reciclagem de situações e cenários. Lá estão a planície árida, os exércitos inimigos se chocando, o discurso motivacional pré-batalha... Tudo muito genérico, vazio.
Se o roteiro não ajuda, e a direção de Singh só adiciona delírios visuais, o elenco também não chega a se sobressair.
Henry Cavill é um herói sem carisma, tem cara de bom-moço, abdôme definido, grita e se descabela, mas não adianta. Na hora em que o pau canta ele não convence. Rourke faz pose e cara de mau, até tem bons momentos, mas está irregular. Freida Pinto mostra a carinha bonita (e a bundinha, também), mas oferece pouco em termos dramáticos, o que, aliás, vale pra todos os deuses gregos, Luke Evans (Zeus) Daniel Sharman (Ares), Kellan Lutz (Posseidon), Steve Baiers (Heracles)e Isabel Lucas(Uma Atena delicinha)são uma moçada bonita e sarada que devia estar em pôsteres de pratique esportes e não tendo falas em um filme.
De bom no elenco ficam o sempre competente John Hurt e Stephen Dorff, que não tem muito o que fazer, mas até se salva na pele do ladrão Stavros.
No final das contas Imortais é um filme vazio, chato, e que, mesmo tendo mais forma do que conteúdo, falha em ser um espetáculo visual.
Aparentemente não tem jeito, pra ver um grande épico de novo, só quando O Hobbit for lançado, em dezembro.

"A alma de todos os homens é imortal. Mas a alma dos homens corretos é imortal e divina."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Resoluções?


Não fiz nenhuma resolução de ano novo. Não é o meu estilo. Ano passado acredito que tenha tentado, fiz uma ou duas. Mas não lembro quais foram, nem se as cumpri. Não importa.
As resoluções de ano novo são um mecanismo para nos dar a oportunidade de deixar pra trás o ano velho, e de abraçar o ano novo em toda a sua glória. Uma maneira de as pessoas varrerem a sujeira das bobagens que fizeram para baixo do tapete do tempo e abraçar a novidade. Arrancar a folha toda riscada do bloco do ano que passou e encarar com um sorriso no rosto, a folha branquinha do ano que se inicia.
Bazófia, claro.
Esse expediente rasteiro pode servir aos que guardam mágoa ou vergonha do que passaram. Aqueles que olham pra trás e não encontram nada de bom no ano que ficou pra trás...
Não é o meu caso. A despeito dos erros e bobagens que eu possa ter cometido no 2011 que se encerrou no sábado, ele tem ótimas memórias. Talvez algumas das melhores do todos os anos.
Não quero esquecer 2011. Não o quero debaixo do tapete.
Vou levar 2011 comigo pra sempre. Não importa o que eu faça ou onde eu vá.
Sou um sujeito difícil, de humores arredios, disposição severa e timidez quase patólogica, ser feliz, sorrir, sentir ansiedade para que algo ou alguém chegue não são facetas comuns a minha personalidade.
Em 2011 eu experimentei tudo isso.
Posso não ter aprendido a ser alegre. Posso não ter aprendido a ser tolerante. Posso não ter aprendido a ser uma pessoa melhor.
Mas aprendi como é bom saber que eu não estou sozinho mesmo à distância.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Melhor


Se encontraram ao acaso na rua após dez anos, e Lisa e o Reginaldo. Foi ela quem reparou nele, já que ele costumava andar olhando sempre pra frente, evitando as pessoas que atravessavam seu caminho, com seu passo largo e apressado. Ela, pequenina, estacou em sua frente e sorriu. Ah, Deus... Nem que não quisesse parar Reginaldo poderia ter prosseguido. O sorriso dela o deixou brevemente de pernas moles. Ele sorriu de volta, timidamente, meio sem graça. Ficou olhando pra ela. Deu-se conta de que já passara mais de meio minuto a encarando e balançou a cabeça como quem acorda:
-Oi, guria... Tudo bem? - Perguntou.
-Tudo, e contigo? - Ela respondeu, olhando pra ele. Estava mais magro. Parecia mais alto. Estaria mais alto? Só tinha um jeito de saber. Deu dois passos pra frente e o abraçou de maneira terna. Sua cabeça batia-lhe na altura do peito. Não. Ele não estava mais alto.
-O que anda fazendo aqui? - Ele perguntou enquanto a soltava afagando-lhe de leve nos ombros desnudos exceto pela alça da blusa vermelha que ela vestia.
Ela riu enquanto passava a mão nos cabelos macios e perfumados e olhou pra baixo um instante:
-Eu moro aqui, agora.
Ele colocou as mãos nos bolsos enquanto suspirava fazendo cara de surpresa:
-Uau... Tu mora aqui, então...
-Moro. -Ela respondeu. -Já tem alguns anos, na verdade.
-Que legal... E tá gostando? - Ele perguntou, tirando as mãos dos bolsos e cruzando os braços.
-Tô... Tô sim. Tô achando muito maneiro.
-Que ótimo... E tá trabalhando?
-Tô. Tô sim.
-Na tua área?
-É. Mas não te preocupa, não é na empresa da música do logotipo. - Ela sorriu.
-Quê? - Ele inquiriu cerrando o cenho.
-A empresa lá... Onde você me mandou não trabalhar por causa da música explicando o logotipo...
-Ah, a tá... - Ele riu da própria falta de memória. - Sim... Mas não era logotipo. Era logomarca. Eles explicavam a logomarca.
Ela não disse nada, apenas sorriu. Ele percebeu que estava balançando o corpo pra frente e pra trás feito um autista de filme em crise. Endireitou-se. Olhou pra ela e se desconcentrou, desmanchando o sorriso falso que construíra.
-E no mais... Tudo jóia? - Ele perguntou, imaginando porque o silêncio o estava deixando tão desconfortável.
Ela olhava pra ele, ainda sorrindo, mas suas sombrancelhas, arqueadas como as de Peter Pan, apontaram brevemente pra cima quando ela balbuciou que sim.
Ele teve ímpetos de apanhá-la pela mão e beijar seus braços e pescoço e lábios. De cheirar o perfume de seus cabelos e de seu colo, e de confessar o quanto lhe doera o silêncio da última década enquanto pedia perdão.
Não fez isso, no entanto. Com a voz embargada deu-lhe um abraço sintético, com tapinhas leves nas costas enquanto dizia como fora bom vê-la.
-Tchau. - Ela disse, acariciando-lhe o pescoço enquanto ele ajeitava a postura.
Saíram andando, cada um pro seu lado. Ele olhou pra trás, viu enquanto ela ia embora. Tão linda quanto dez anos antes.
Tentou se convencer de que ela estaria diferente, agora. De que todas as coisas que a faziam ser tão especial além da beleza e da delicadeza teriam se desfeito na esteira do tempo.
Não se convenceu.
Se ele ainda era, dez anos depois, um niilista misantrópico e solitário, ela ainda devia ser a quintessência do sonho de consumo nerd.
Desejou que ela estivesse bem e feliz. Desejou que ela estivesse trabalhando em um emprego onde pudesse ser a pesoa doce que sempre fora. Que tivesse uma vida cheia de alegria e realização. E até que namorasse o Ryan Gosling ou um dublê passável.
Ele, quebrado além de qualquer reparo que era, só podia desejar o melhor a alguém que o fazia querer ser melhor.