Na década passada, mais especificamente em 2002, o espião desmemoriado Jason Bourne voltou a dar as caras fora da literatura (Em 1988 o herói teve a cara de Richard Chamberlain em uma mini série para a TV).
Ele foi a estrela de A Identidade Bourne, bom thriller de espionagem e ação dirigido por Robert Ludlum e estrelado por Matt Damon. Era um filme maneiro, fez uma carreira decente, e garantiu uma sequência dois anos mais tarde, em 2004.
Matt Damon retornou na pele de Bourne, mas houve uma troca na cadeira de diretor, saiu Ludlum, que se tornou produtor do longa, e entrou Paul Greengrass, o que foi ótimo para a série.
A Supremacia Bourne era geometricamente superior ao antecessor em todos os aspectos, e o terceiro filme, O Ultimato Bourne, de 2007, novamente dirigido por Greengrass e estrelado por Damon era ainda melhor e fechou com chave de ouro a trajetória de Bourne nas telonas.
Os três filmes renderam mais de um bilhão de dólares mundo afora e mexeram tanto no cinema de espionagem e ação que uma lacuna surgiu após o fim da série. Uma lacuna tão grande que até James Bond, o pai dos espiões pop do cinema, se viu tentando ser Bourne nas encarnações mais recentes.
Mas apesar das iniciais, James Bond não pode ser Jason Bourne. E os estúdios não estão dispostos a abrir mão de uma franquia rentável nesses dias.
Um quarto longa da franquia Bourne, no entanto, parecia fadado a não acontecer.
Paul Greengrass disse que não voltaria à série, e Matt Damon engrossou o coro, dizendo que, pra ele, chegava de Bourne. Entretanto Tony Gilroy, roteirista dos três longas originais, parecia disposto a tentar descascar esse pepino. E assim o fez com esse recém lançado O Legado Bourne.
O longa dá sequência a série sem precisar continuar a história de Bourne, mas sim iniciando uma trama paralela, que mostra que Treadstone e Blackbriar não eram os únicos e nem tampouco os mais radicais programas de criação de espiões do governo dos EUA, e que a deserção e exposição de Jason Bourne ao público não fizeram bem aos participantes dos demais programas, como os agentes Outcome.
Enquanto Treadstone e Blackbriar criavam assassinos invisíveis para serem espalhados pelo mundo e acionados quando houvesse necessidade, o Outcome criava espiões capazes de missões de infiltração impossíveis através de um experimento que gerava alterações genéticas em cromossomos chave, tornando os agentes mais fortes, resistentes e inteligentes através da administração de medicamentos.
Com a exposição dos programas Blackbriar e Treadstone, a CIA não tem alternativa exceto fechar o programa Outcome, matando todos os participantes do experimento.
Um desses agentes, no entanto, consegue sobreviver à limpeza da CIA.
Aaron Cross (O Gavião Arqueiro Jeremy Renner, dando as caras em outra franquia) escapa inteiro de seus algozes, mas para se manter assim, precisa concluir seu tratamento de melhoria cognitiva, e só conseguirá isso com a ajuda de Marta Shearing (Rachel Weisz, mais linda do que nunca), geneticista da empresa que fabrica os medicamentos usados pela CIA nos seus programas secretos.
Enquanto foge da CIA e do obstinado Eric Byer (Edward Norton), Cross parte em uma viagem ao outro lado do mundo tentando se manter funcional sem sua medicação e protegendo Marta do governo dos EUA, da polícia e de um agente de outro programa de alteração comportamental, o LARX.
Ótimo filme.
Tony Gilroy não é Paul Greengrass, mas certamente está, no mínimo, no mesmo patamar que Robert Ludlum. O personagem central, Aaron Cross é muito interessante, e não fica devendo em nada ao Bourne de Damon, em alguns momentos, é até um personagem com quem o público pode ter uma empatia mais genuína, e realiza todas as proezas que nos acostumamos a ver nos filmes da franquia, como as pancadarias de cortes próximos e movimentos ligeiros, os tiroteios tensos, as correrias sobre telhados e a perseguição automobilística. Faz um pouco de falta, é verdade, a grande porradaria mano a mano contra o agente inimigo da vez, mas nada que vá matar a audiência. A edição também não é o espetáculo que era na época de Greengrass, mas, novamente, nada que estrague o show, até porque o resto da parte técnica do espetáculo está irrepreensível.
De negativo mesmo, fica a excessiva necessidade de situar o filme o tempo todo no último filme O Ultimato Bourne, o que permite que voltemos a ver personagens como Noah Vosen (David Strathairn), Albert Hirsh (Albert Finney) e Pamela Landy (Joan Allen), mas prejudica o desenvolvimento das caras novas como o Eric Bayer de Norton e o Mark Turso de Stacy Keatch, além das excessivas menções a Bourne, que poderiam ter ofuscado totalmente o novo protagonista se não houvesse um bom ator no papel.
Ainda assim, fica a esperança de que essa necessidade de ligar a nova série à anterior tenha sido apenas uma forma de estabelecer uma história, e que daqui por diante a franquia de Aaron Cross possa caminhar com suas próprias pernas (E com as belas pernas da Rachel Weisz, também.).
"Jason Bourne era só a ponta do iceberg."
Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Resenha Cinema: Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros
Preciso confessar que jamais tive vontade de ler os romances de Jane Austen, como Desejo e Reparação, Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito. Assisti a alguns dos filmes que adaptam a obra da britânica, mas mesmo assim, sem lá muito interesse. Os clássicos romances da senhora Austen, na verdade, jamais me despertaram nenhum interesse.
Entretanto, a versão escrita por Seth Grahame-Smith, que adicionava zumbis à história original de Austen... Esse parecia algo divertido de se ler.
Mais divertido ainda parecia ser o segundo romance do autor no estilo mashup, este Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, que mostrava o estoico décimo sexto presidente dos EUA como um incansável combatente dos mortos-vivos sugadores de sangue vindos da Europa.
Foi justamente esse segundo livro, que enquanto via o co-irmão Orgulho, Preconceito e Zumbis engasgar, perdendo diretor, protagonista e sendo adiado, chegou às telonas graças ao produtor Tim Burton e ao diretor Timur Bekmambetov.
O filme mostra um passado oculto de Lincoln a partir de um diário secreto do próprio, onde ele conta como dividiu sua vida entre a dedicação ao direito e à sua família, e o combate aos vampiros.
A trama acompanha Lincoln desde os nove anos de idade, quando perde sua mãe após uma discussão de seu pai com Jack Barts (Marton Csokas), proprietário de uma empresa de expedição.
Abraham se dedica aos estudos e ao trabalho até a morte de seu pai, quando finalmente parte em busca de vingança contra Barts.
É nesta tentativa de se vingar que Lincoln (Benjamin Walker, filho perdido de Liam Neeson?) conhece a verdade sobre vampiros após quase morrer nas mãos de seu alvo e ser salvo por Henry Sturges (Dominic Cooper).
Sturges ensina a Abe como caçar e matar os vampiros, e então envia o jovem à Springfield, Illinois, onde ele monta sua base e inicia sua caçada enquanto aguarda pela chance de finalmente se vingar.
Entretanto, enquanto atenta à sua vendeta particular, Abraham pode acabar se tornando parte de algo muito maior, conforme descobre que a escravidão no sul dos Estados Unidos serve a interesses muito mais sombrios do que os fazendeiros da região.
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é bem divertido.
A mão de Timur Bekmambetov não pesa em demasia, mas o diretor de Guardiões da Noite e O Procurado deixa sua assinatura bastante visível, em especial nas sequências de ação, repletas de sangue e acrobacias em câmera lenta, e fazendo um uso bastante satisfatório da computação gráfica além de saber dosar com estilo o efeito 3-D, que fica discreto e maneiro.
O elenco do longa, que ainda tem Rufus Sewell como o líder vampiro Adam, a delicinha Mary Elizabeth Winstead como Mary Todd Lincoln, Jimmy Simpson como Joshua Speed e Anthony Mackie como Will Johnson não deixa a desejar, e embora o início do terceiro ato do filme, já com um Lincoln cinquentão e presidente no início da Guerra Civil Americana seja um tanto arrastado, ele logo retoma o ritmo ágil e mostra um fecho bastante empolgante para o longa.
No fim das contas Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é um filme divertido, ligeiro, menos pretensioso do que o livro que lhe serve de base e embora tenha alguns problemas de ritmo aqui e ali, consegue entreter a audiência sem maiores percalços.
Não é obrigatório no cinema, mas assista ao DVD.
"Apenas os vivos podem matar os mortos."
Entretanto, a versão escrita por Seth Grahame-Smith, que adicionava zumbis à história original de Austen... Esse parecia algo divertido de se ler.
Mais divertido ainda parecia ser o segundo romance do autor no estilo mashup, este Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, que mostrava o estoico décimo sexto presidente dos EUA como um incansável combatente dos mortos-vivos sugadores de sangue vindos da Europa.
Foi justamente esse segundo livro, que enquanto via o co-irmão Orgulho, Preconceito e Zumbis engasgar, perdendo diretor, protagonista e sendo adiado, chegou às telonas graças ao produtor Tim Burton e ao diretor Timur Bekmambetov.
O filme mostra um passado oculto de Lincoln a partir de um diário secreto do próprio, onde ele conta como dividiu sua vida entre a dedicação ao direito e à sua família, e o combate aos vampiros.
A trama acompanha Lincoln desde os nove anos de idade, quando perde sua mãe após uma discussão de seu pai com Jack Barts (Marton Csokas), proprietário de uma empresa de expedição.
Abraham se dedica aos estudos e ao trabalho até a morte de seu pai, quando finalmente parte em busca de vingança contra Barts.
É nesta tentativa de se vingar que Lincoln (Benjamin Walker, filho perdido de Liam Neeson?) conhece a verdade sobre vampiros após quase morrer nas mãos de seu alvo e ser salvo por Henry Sturges (Dominic Cooper).
Sturges ensina a Abe como caçar e matar os vampiros, e então envia o jovem à Springfield, Illinois, onde ele monta sua base e inicia sua caçada enquanto aguarda pela chance de finalmente se vingar.
Entretanto, enquanto atenta à sua vendeta particular, Abraham pode acabar se tornando parte de algo muito maior, conforme descobre que a escravidão no sul dos Estados Unidos serve a interesses muito mais sombrios do que os fazendeiros da região.
Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é bem divertido.
A mão de Timur Bekmambetov não pesa em demasia, mas o diretor de Guardiões da Noite e O Procurado deixa sua assinatura bastante visível, em especial nas sequências de ação, repletas de sangue e acrobacias em câmera lenta, e fazendo um uso bastante satisfatório da computação gráfica além de saber dosar com estilo o efeito 3-D, que fica discreto e maneiro.
O elenco do longa, que ainda tem Rufus Sewell como o líder vampiro Adam, a delicinha Mary Elizabeth Winstead como Mary Todd Lincoln, Jimmy Simpson como Joshua Speed e Anthony Mackie como Will Johnson não deixa a desejar, e embora o início do terceiro ato do filme, já com um Lincoln cinquentão e presidente no início da Guerra Civil Americana seja um tanto arrastado, ele logo retoma o ritmo ágil e mostra um fecho bastante empolgante para o longa.
No fim das contas Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é um filme divertido, ligeiro, menos pretensioso do que o livro que lhe serve de base e embora tenha alguns problemas de ritmo aqui e ali, consegue entreter a audiência sem maiores percalços.
Não é obrigatório no cinema, mas assista ao DVD.
"Apenas os vivos podem matar os mortos."
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Rapidinhas do Capita
A Larissa acordou satisfeita da vida naquela manhã. Era a primeira vez que acordava na casa do Renato. Melhor ainda, era um sábado, e eles poderiam passar a manhã usufruindo da presença um do outro como haviam usufruído do corpo um do outro naquela madrugada de paixão.
Eram dez e meia quando a Larissa acordou. Renato já havia levantado, ela ouvia o som da TV. Ele devia estar jogando video-game. Ela se levantou leve, foi ao banheiro, escovou os dentes, lavou o rosto, e então flanou até a cozinha e fez um chá.
Pouco depois entrou na sala toda faceirinha, sorridente de camisola de bolinhas, pantufas e a xícara de chá de frutas vermelhas fumegando na mão.
Estava alegre. Fez um passinho de dança antes de caminhar pela frente da TV para abrir a janela, e proferiu um "Bom dia, mundo", todo fofinho. Virou-se lépida, cantarolando Cássia Eller:
-Quem sabe ainda sou uma garotinha... - E voltou, passando novamente na frente da TV.
Foi quando o Renato, sentado no sofá, resmungou, batendo com as mãos espalmadas nas coxas e disse:
-Buzina antes de passar, ô espelho sem aço.
A Larissa trocou de imediato o sorriso por uma expressão surpresa. E sem dizer nada continuou andando em direção ao quarto. Respirou fundo e continuou:
-Esperando o ônibus da escola... Sozinha...
Mas o Renato grunhiu:
-E dá pra cantar mais baixo, porra?
Não adianta. Não há romantismo que a rotina não massacre.
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Eles voltaram.
Após filmar em segredo durante um breve período na Grécia, o diretor/roteirista Richard Linklater, e os atores/roteiristas Julie Delpy e Ethan Hawke divulgaram a primeira foto de Antes da Meia-Noite (Before Midnight), terceira incursão do casal Jesse e Céline às telonas.
Vem aí mais uma sessão de sorrisos e coração leve.
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-Sorria. - Disse o Giordano, olhando bem fundo nos olhos da Sandra enquanto segurava sua mão.
-Não, obrigada. - Ela respondeu, muito séria, sem olhar de volta, e tirando a mão do meio das dele.
Mais tarde, naquela noite, se despediram sabendo que não voltariam a se falar.
Quadrinhos: Biblioteca Histórica Marvel: Homem-Aranha volume 4
O Homem-Aranha precisou completar cinquenta anos de idade e ter um filme novo nos cinemas pra Panini tomar vergonha na cara e publicar mais uma edição do que se tornou meu quadrinho de super-herói preferido nos últimos anos.
Quase três anos após a publicação do terceiro volume da série, em outubro de 2009, chegou às bancas e livrarias o quarto encadernado da Biblioteca Histórica Marvel, compilação pra lá de caprichada das histórias seminais do Homem-Aranha nos quadrinhos. O grande diferencial desse quarto volume é que as histórias começam a deixar de ser tão seminais. Já começamos a ver o retorno de vilões apresentados anteriormente, e as consequências de atos do herói em histórias prévias.
A edição, que compila as edições 31 à 40 do gibi The Amazing Spider-Man mostra o retorno do Doutor Octopus (Numa história particularmente marcante "Se É Esse Meu Destino..."), de Kraven o Caçador, onde o vilão incorpora o Homem-Aranha para forçá-lo a um jogo de gato e rato (Semelhanças com A Última Caçada de Kraven não devem ser mera coincidência), do Magma, e claro, do Duende Verde, em outra história muito marcante.
Ainda é nessa edição que surgem dois coadjuvantes que se tornariam parte intrínseca da mitologia do personagem: É ao se matricular na Universidade Empire State que Peter conhece Harry Osborn, e Gwen Stacy. O primeiro viria a ser o melhor amigo de Peter com o passar dos anos, e a estonteante loirinha seria o grande amor de sua vida substituindo Lizz Allen, que deu uma desaparecida e Betty Brant, que sairia abruptamente da vida de Peter por um longo período.
Outro ponto interessante que essa edição especial mostra é a passagem de bastão de Steve Ditko para John Romita como desenhista titular da série na edição 39, a penúltima história do encadernado, dando ao leitor a oportunidade de acompanhar o que talvez sejam os dois mais importantes e talentosos artistas a desenhar o herói aracnídeo no mesmo livro, tudo isso sob os deliciosos roteiros de Stan Lee, repletos de humor, aventura e inocência.
Corra até a banca. O capricho da encadernação em capa dura, com papel de qualidade no miolo deixa qualquer estante de nerd mais bonita, e pra cabeça de teia que se preze essas histórias são essenciais. Os sessenta e cinco reais nem pesam tanto no bolso.
E que a Panini não leve mais três anos pra colocar o número cinco nas livrarias.
"Valha-me Força de Aranha!"
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Rapidinhas do Capita
Morreu, na segunda feira, dia três de setembro, o ator Michael Clarke Duncan. Se você não sabe quem é, é aquele negão enorme, muito forte, com uma voz cavernosa que interpretou o Rei do Crime Wilson Fisk no filme do Demolidor, foi o capanga da máfia Frakie Figo em Meu Vizinho Mafioso, e o gigante gentil John Coffey em À Espera de Um Milagre.
Lembrou dele, né?
Michael Clarke Duncan estava hospitalizado desde julho, após sofrer uma parada cardíaca da qual foi salvo por sua noiva.
O gigante de quase dois metros de metros de altura e cerca de cento e cinquenta quilos foi segurança de vários astros hollywoodianos antes de iniciar sua carreira em 1995. Fez comédias e filmes de ação, mas acabou sendo, de fato revelado ao mundo no drama À Espera de Um Milagre onde interpretava um ingênuo prisioneiro condenado à morte em uma prisão do sul dos Estados Unidos. Sua performance na fita estrelada por Tom Hanks rendeu-lhe uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.
Big Mike Duncan tinha 54 anos e estaria planejando se casar com Omarosa Manigault.
Literalmente uma grande perda. Descanse em paz, Big Mike.
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O Afrânio, sozinho em casa, lendo um livro qualquer, espirrou, bem alto. Imediatamente seguiu-se ao espirro um "Saúde." vindo de lugar nenhum.
Afrânio achou esquisito. E supôs ter sido apenas fruto de sua imaginação.
No dia seguinte, ao chegar do trabalho e largar suas chaves sobre a mesa, ouviu, vindo de lugar nenhum, a mesma voz da noite anterior a lhe perguntar:
-Como foi o trabalho.
Mesmo que não visse o interlocutor, na verdade a interlocutora, já que era uma voz claramente feminina, o Afrânio, instintivamente respondeu. Contou até alguns detalhes do seu dia, antes de entrar no chuveiro.
À noite, quando se preparava para dormir, o Afrânio desligou o abajur ao lado da cama e enquanto se virava sobre o travesseiro ouviu a voz misteriosa lhe desejar boa noite, e respondeu, também, com um boa noite, entes de fechar os olhos.
E o Afrânio, que não acreditava em espíritos nem em fantasmas, chegou a achar que pudesse estar ficando maluco, mas a verdade é que a perspectiva de ter alguém, mesmo invisível, pra lhe desejar "saúde" quando espirrasse, ou pra perguntar como fora seu dia quando chegasse do trabalho era tremendamente animadora.
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Estavam sentados no restaurante. Ela perguntou pra ele, impaciente:
-Tu já sabe o que tu quer?
Ele, olhando o cardápio, indeciso, disse:
-Não. E tu?
-Eu sei. - Ela respondeu, e então sorriu, triste, e olhou pros próprios sapatos.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Resenha Cinema: Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo
Imagine o mundo por acabar. Um asteroide de proporções cataclísmicas se aproximando da Terra, os cientistas e as agências de defesa esgotaram as suas opções de tentativas de neutralizar a ameaça, e o que resta à humanidade é esperar pelo inevitável e inexorável fim.
O que isso faria com a humanidade? O que essa perspectiva de extinção quase absoluta causaria na sociedade em que vivemos? Onde o contato é cada vez menor exceto através de mensagens de texto e atualizações do facebook?
Onde as pessoas encontrariam apoio para superar, ou ao menos suportar a extinção, quando as relações interpessoais são cada vez menos pessoais?
Procura-se Um Amigo Para o Fim do Mundo explora com graça a resposta à essa pergunta.
No longa de Lorene Scafaria, Dodge Peterson (Steve Carrell, ótimo.) está tentando lidar com o fim do mundo à sua própria maneira após ser abandonado por sua esposa assim que o impacto do asteroide Matilda com a Terra torna-se uma certeza aterradora.
Dodge tenta manter sua rotina o mais normal possível em meio ao inevitável caos que toma conta de várias partes do globo. Enquanto segue vendendo seguros, Dodge vai percebendo os colegas abandonarem o emprego ou cometerem suicídio, os jantares entre amigos se transformando em orgias regadas a heroína, e as pessoas desesperadas por qualquer forma, ainda que fugaz, de contato humano. Todos ansiando desesperadamente por ter a seu lado alguém com quem partilhar os momentos finais da aventura humana na Terra.
Dodge não está desesperado por qualquer medida de afeto gratuito ou sintético, e mantém-se afastado das pessoas até que, por acaso, acaba conhecendo Penny (Keira Knightley, adorável, um doce.).
A jovem inglesa, sua vizinha nos últimos meses com quem jamais havia trocado nenhuma palavra e que subitamente aparece na sua escada de incêndio após romper com o namorado.
Ao mesmo tempo, Dodge descobre que Olivia, a garota por quem era apaixonado no colegial ainda pensa nele, e solitário e arrasado por uma revelação, resolve ir atrás dela, acompanhado por Penny, que inadvertidamente causou-lhe um tremendo contratempo, e pelo cão abandonado "Desculpa", numa viagem para encontrar a mulher que ama, salvar seu coração, e não estar sozinho no fim de todas as coisas.
Em sua jornada, Dodge e Penny descobrem o valor de muitas coisas, aprendem um com o outro, encontram pessoas lidando de formas diversas com a iminência da destruição do planeta, como Speck, o ex-namorado militar de Penny, ou o policial desesperado para cumprir suas cotas ou o pessoal do restaurante Frendsy's, que continua aberto e extremamente amigável mesmo no limiar do Armagedom, e tentam se salvar mutuamente, de uma forma ou de outra.
A mistura de filme de apocalipse com road movie, e comédia com drama é ótima. A direção delicada de Lorene Scafaria consegue equilibrar os elementos do filme (Também roteirizado por ela) em uma mistura extremamente agradável, que consegue arrancar risos e lágrimas na mesma medida, tirando o melhor de seus protagonistas, contando ainda com um talentoso elenco de apoio (com nomes como Martin Sheen, Derek Luke e Adam Brody, além de outros) para contar uma história doce, tocante, divertida, e que ainda guarda algumas reviravoltas honestas e belas para o final do que se tornou instantaneamente um dos meus filmes favoritos do ano ao perguntar:
Com quem tu gostaria de estar no fim do Mundo?
"-Eu pensei que nós fôssemos salvar um ao outro.
-Nós salvamos."
Resenha Cinema: Os Mercenários 2
O cinema voltou a ser macho em 2010, quando Sylvester Stallone formou uma confraria de brutos e montou o show de violência e ação descerebrada regada à testosterona de Os Mercenários, filme que fez muito marombeiro suar na tanga ao juntar Stallone, Schwarzenegger e Bruce Willis no mesmo cenário em uma cena.
Sucesso de bilheteria, a união de alguns dos maiores astros de ação dos anos oitenta e dos dias de hoje mostrou que ainda havia espaço pra fitas cheias de explosões e pancadaria cheias de atores incapazes de fazer três expressões faciais contanto que a fita em questão fosse divertida.
Bueno, a sequência era bastante óbvia, pra não dizer obrigatória, e, dois anos depois, chegou ao cinema Os Mercenários 2.
No longa, Barney Ross (Stallone) está de volta, junto com ele continuam Lee Christmas (Jason Statham), Yang (Jet Li), Gunnar (Dolph Lundgren), Hale Caesar (Terry Crews) e Toll Road (Randy Couture), mais a cara nova Billy The Kid (Liam Hemsworth), e o filme, novamente abre com uma ótima sequência de ação.
Após resgatar um bilionário chinês (E um velho amigo, de brinde) e voltar aos EUA, o grupo volta a ser contatado por Church (Bruce Willis), que o coloca em uma missão com Maggie (Nan Yu), para recuperar um item perdido em um avião abatido.
O que deveria ser uma missão simples, porém, se torna uma cruzada de vingança (Porque vingança, como todos sabem, é coisa de macho) após o caminho do grupo de Ross se cruzar com o de Vilain (Jean Claude Van Damme, que a gente não consegue ter certeza se entrou de corpo e alma na brincadeira ou se está levando seu papel muito a sério).
Com um dos seus homens de confiança morto, Barney parte com tudo para dar o troco, e por consequência, salvar o mundo.
O novo filme, dessa vez dirigido por Simon West, de Con-Air, substituto de Stallone na cadeira do diretor é melhor do que seu antecessor. O longa de West sabe rir de si mesmo, e usar o humor e o absurdo em nome do espetáculo que esse filme pode ser.
O roteiro, novamente com a mão de Stallone (que parece estar derretendo, mas mantém a média do seu trabalho de sempre, sendo um herói de ação gente boa), dá mais espaço a Trench (Schwarzenegger) e Church, que têm suas próprias sequências de ação (e incontáveis piadinhas e frases de efeito), além de usar o Gunnar de Lundgren de maneira mais leve e cômica, especialmente se comparado ao ressentido psicopata do primeiro longa. Terry Crews também tem seus momentos de fazer rir, e até Couture ganha lá suas tiradas. Statham aparece mais resmungão e menos risonho do que no primeiro longa, mas tem algumas das melhores cenas de luta do filme. E, claro, há a participação mais do que especial de Chuck Norris, que se apresenta com um novo "Chuck Norris Fact", e gera mais uns dois ou três cada vez que dá as caras no longa como o mercenário Booker.
Não espere nenhum tipo de grande atuação no filme. Não há nenhuma. Não espere, também, um roteiro coeso, ou sequer um bom argumento. Em Os Mercenários 2, isso não existe, nem efeitos especiais convincentes, e nem mesmo um bom trabalho de câmera, pois Os Mercenários 2 é filme de macho, então, o que se encontra no longa é sangue, tiro, explosão e porrada, que é o que homem que é homem gosta de ver no cinema enquanto rosna, baba, bate no peito e grita que é muito macho.
Aliás, Os Mercenários 2, é tão macho que não tem nem mulher bonita. A mocinha do filme, Nan Yu, luta kung fu, dá tiro, e é feia pra danar.
Não tem como um filme ser mais macho que isso.
"-Eu vou voltar.
-A volta dos que não foram? Fique aí esperando. Eu vou voltar.
-Yippee-ki-yay...
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