Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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sábado, 21 de novembro de 2015
Resenha Série: Jessica Jones: Ladies Night
Demolidor, a série engendrada pela parceria da Marvel com o serviço de streaming Netflix, foi um triunfo absoluto.
Os treze episódios do seriado estrelado pelo advogado cego que protege a Cozinha do Inferno como um diabo da guarda usando seus sentidos ampliados por um acidente radioativo e seu treinamento ninja deixou bem claro que a capacidade da Marvel de produzir conteúdo além das aventuras leves do cinema era uma realidade.
A luta de Matt Murdock (Charlie Cox) para proteger o bairro onde cresceu do crime organizado encabeçado pelo rei do crime Wilson Fisk (Vincent D'onofrio) é uma tremenda história de super-herói, sombria, adulta, violenta e que jamais, ao longo de seus treze episódios, deixa a peteca cair.
Aclamada pela crítica e pelo público, Demolidor ganhou sinal verde para sua segunda temporada e gerou antecipação entre fãs que passaram a aguardar ardentemente as séries irmãs do show do vigilante cego.
A Marvel prometeu outras quatro séries, estreladas por Luke Cage, Punho de Ferro e Jessica Jones, que depois trabalhariam juntos em um programa d'Os Defensores.
Ontem a Netflix disponibilizou os treze episódios da temporada 1 de Jessica Jones, estrelada por Krysten Ritter (de Breaking Bad).
O piloto, intitulado Moça Bonita Não Paga, apresenta Jessica Jones, detetive particular. Jessica não é exatamente apegada a seu emprego, descrito por ela como revirar o lixo do mundo, e fazer tocaias para fotografar gente transando.
À primeira vista, Jessica é durona e sabe se defender. É meio trash, tem um escritório caindo aos pedaços em Hell's Kitchen, um apartamento bagunçado e sujo onde imperam garrafas de uísque vazias, roupas atiradas e a própria Jessica tentando dormir, mas resolvendo sair para bisbilhotar a vizinhança com sua câmera e uma garrafa de bebida.
Jessica aceita casos de particulares além de entregar intimações difíceis para a advogada Jeri Hogarth (Carrie Anne-Moss, a Trinity de Matrix) usando habilidades muito particulares de seu emprego anterior.
Ao ser contratada por um casal de Omaha para encontrar sua filha desaparecida, uma jovem estudante universitária chamada Hope (Erin Moriarty), Jessica acredita que é apenas mais um caso de universitária porra-louca que largou tudo para seguir um namorado aproveitador, mas esbarra com um caso ligado ao seu passado, e a um trauma que a persegue de maneira perene não importa onde ela vá.
Ladies Night opera dentro de uma estrutura de piloto de TV bem clássica. Isso não preocupa ou incomoda. As melhores séries que eu já assisti tinham pilotos bastante convencionais, de Breaking Bad a Demolidor passando por House of Cards.
O episódio dirigido por SJ Clarkson e escrito pela showrunner Melissa Rosenberg apresenta os personagens com competência, deixando claro que Jessica Jones opera em um mundo noir de mulheres fortes e independentes.
A personagem central é bem apresentada, deixando claro que é alguém marcada pela vida e pelo passado, a poucos passos de se tornar um desastre, mas mantendo um senso de responsabilidade que a impede de naufragar por completo.
O flerte com Luke Cage (Mike Colter) é um respiro em meio à cara amarrada perene da heroína (e leva à uma cena de sexo que alude diretamente aos quadrinhos), e Zebediah Kilgrave (o Dr. Who, David Tennant) é uma presença extremamente ameaçadora nas sombras, especialmente no final do episódio, quando deixa bem claro o tipo de atrocidade que é capaz de cometer.
Em suma, o piloto de Jessica Jones sucede no mais básico dos testes para uma série de TV:
Faz com que a audiência queira ver o segundo episódio. Torçamos para que os episódios seguintes mantenham (e elevem) a qualidade mostrada nesse primeiro contato.
"-Dia duro no escritório?
-Todos são."
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Inconstante
Ela estava deitada nua por cima dele. Aquela era a primeira vez que a via nua. Já haviam feito sexo antes, mas fora sexo corrido, ligeiro, de pé contra uma estante.
Agora, não. Agora estavam em quarto. Em um motel, o primeiro motel onde ele entrara, e ela estava sentada em cima dele, completamente nua, ajustando a temperatura do ar-condicionado sem deixar de rebolar maliciosamente o quadril enquanto manuseava o controle remoto do aparelho.
"Que abafamento nojento.", disse, sem cessar o rebolado.
Sorriu de olhos fechados ao sentir a lufada de ar gélido deixar o aparelho. Sua pele se arrepiou e ela dançou com os ombros enquanto se remexia sobre ele, intumescido como estivera desde o momento em que recebeu a ligação dela, no dia anterior, dizendo que Jorge viajaria e ela teria três dias livres.
"Me leva pra algum lugar e me come.", disse em sua habitual maneira impiedosa.
Ele sequer pensara duas vezes. Perguntou onde. "Num motel." ela respondeu. "Escolhe e me diz onde é. Te encontro lá.".
Ele desligou o telefone sem nem pedir o número dela. Foi para a internet procurar um motel. Não precisou de muito tempo para encontrar um. Alimentou, brevemente, a ideia de escolher algo que pudesse agradá-la, mas dado o que sabia de Ludmila, julgou que o ideal era escolher por seu próprio gosto.
Se ela não gostasse, tinha certeza, lhe diria, ou simplesmente não entraria mais em contato.
Parecia o estilo dela.
Escolheu um motel com banheira na suíte. Estava calor e ele julgou que seria agradável poder esperar por ela em um banho de imersão após sair da academia. Fez a reserva online e só então se deu conta de que não tinha como avisá-la de onde deveriam se encontrar.
Remoeu a própria tolice por quase três horas até ela ligar. Ela pediu seu número de celular.
Não pediu. Ordenou que ele o entregasse.
"Me dá teu celular.", disse do outro lado da linha, de forma tão incisiva que se ela estivesse diante dele ele provavelmente teria tirado o aparelho do bolso e entregue nas mãos dela.
Assim que ele declamou o último algarismo do número, ela desligou sem se despedir, e ele passou a receber mensagens dela por aplicativo de troca de mensagens.
Ele lhe disse em qual motel fizera reserva, o endereço do lugar, e que pensara em encontrá-la às seis.
"Por que tão tarde?", ela perguntou numa mensagem. Para na seguinte, enviada segundos depois inquirir "Que horas tu sai do trabalho?".
Ele respondeu, ela enviou "Quatro e meia.".
E não disse mais nada. Ele entrou no site do motel novamente e reagendou a reserva.
No dia seguinte, não foi à academia e tomou um táxi na esquina do trabalho assim que saiu, descendo diante do motel e pensando no ridículo de chegar de táxi a um motel.
Foi à recepção, pagou o quarto por duas horas com opção de mais duas, e para o quarto.
Luz rosa/lilás no ambiente.
Cama do tamanho de um tatame.
Lençóis de tecido brilhoso e liso... Cetim, talvez? Ele era péssimo com tecidos. TV de tela grande e canais adultos, segundo o display ao lado do aparelho. Uma banheira redonda dominava o meio do ambiente . Ele se despiu, largou as roupas junto à cama e encheu a banheira, deitando-se lá dentro.
Não teve nem dez minutos de relaxamento quando bateram à porta. Levantou-se, enrolou-se em uma grande toalha branca e atendeu à porta.
Ela sequer lhe deu oi, foi entrando. Tirou os óculos escuros, e andou até o meio do quarto, olhando em volta. Estava estranhamente despojada. Calças de ginástica pretas, bustiê esportivo azul-marinho, tênis de corrida Asics com mais cores do que ele se julgava capaz de nomear, o cabelo longo e platinado preso em um prático rabo de cavalo.
Ele a ficou olhando. Era ainda mais gostosa em roupas de ginástica do que em seus trajes sóbrios e elegantes.
Deus salve a Lycra, pensou.
Ela se virou com pouco caso, e o percebeu a olhando.
Sorriu. "Não gostou?".
"Gostei.", ele respondeu sentindo-se estranhamente seguro. "Só estranhei. Nunca te vi tão à vontade.".
Ela riu. "Não estou à vontade. Estou na academia.". Tirou o bustiê num movimento rápido sobre a cabeça e completou, "Vou ficar à vontade agora. Tira meu tênis.".
A mulher realmente gostava daqueles joguinhos de mandar, ele pensou. Começava a estranhar ela jamais tê-lo chamado de escravo. Subitamente deu-se conta de que vê-la em trajes de ginástica em um ambiente onde ambos estavam em pé de igualdade a desmistificou um bocado.
A desmistificou mas não a tornou menos sexy. Ele pôs um dos joelhos no chão diante dela e apanhou sua perna pela panturrilha firme, erguendo-a. Desatou o laço do tênis e folgou o cadarço com movimentos ligeiros e decididos. Removeu o calçado e o jogou pra longe.
Esperou um segundo por uma reprimenda que não chegou. Descalçou a meia de cano curto do pé delicado dela. Cheiro de talco. As unhas pintadas com base translúcida e feitas com esmero. Beijou o peito do pé dela, e o pousou no chão.
Repetiu a operação com o pé esquerdo. Livre dos calçados, agarrou a calça de ginástica pelo elástico da cintura, e a puxou apenas até o meio das coxas. Agarrou-a com as duas mãos pelas nádegas e a puxou para seu rosto, beijando-lhe os pelos bem aparados do púbis com voracidade.
"Não." Ela disse, afastando-lhe o rosto com uma das mãos. "Isso a gente já fez. Figurinha repetida não completa álbum.", sorriu maquiavélica. "Eu vou sentar na tua cara.".
Ele se levantou, desenrolou a toalha da cintura, e andou em direção à cama secando-se rapidamente e deitando-se em seguida. Ela terminou de despir a calça, andou nua até onde ele estava enquanto soltava os cabelos, e cumpriu a promessa, sentando-se languidamente sobre o rosto dele, e pondo-se a rebolar.
Ela rebolou por um bom tempo, e, se tivesse que arriscar um palpite, ele diria que ela gozou ao menos uma vez fazendo aquilo.
Talvez mais.
A lubrificação abundante entre as coxas rijas era testemunho, no mínimo, de uma fagulha de satisfação.
Vez que outra, o agarrava pelo pênis, o masturbando brevemente, ou se esticava e lhe chupitava a glande por alguns segundos, apenas o suficiente para mantê-lo com uma ereção quase dolorida de tão constante.
Depois disso, levantou-se, e o chupou com voracidade, mas apenas por alguns minutos, então, pôs-se de quatro, e ordenou que a comesse com força, ao que ele obedeceu.
Ergueu-se sobre os joelhos e se posicionou atrás dela, agarrando-a pela cintura. Pegou o próprio pau junto à base, e direcionou para a entrada da boceta dela.
Enfiou devagar, até suas bolas estarem coladas ao monte de Vênus dela.
Começou a se movimentar pra dentro dela, realizando os movimentos fortes e compassados, quase uma pancada com o púbis à cada estocada. Não levou vinte minutos para ouvir o arfado dela se tornar um gemido, e o gemido um quase uivo que terminou com um tremor leve percorrendo-lhe o corpo e fazendo-a apoiar um dos braços no cotovelo, e não na mão.
Ele se sentiu poderoso, e ainda que suasse em profusão, sentindo as gotículas escorrerem-lhe pelas costas, testa, peito e braços, negou-se a parar. Manteve-se comendo-a de maneira inexorável, quase com raiva que lhe transbordou dos movimentos e escapou por seus lábios em um asqueroso "Goza, puta.".
Todavia, ela não se ofendeu.
Pelo espelho que ocupava a parede diante da cama ele a viu sorrir com todos os dentes, e fechar os olhos enquanto movia o quadril para cima e para baixo no compasso da metida dele.
Após alguns minutos que começaram a parecer excessivamente lentos para ele conforme suas virilhas sentiam a carga do movimento de vai e vem, ela enunciou "Eu vou gozar de novo.".
A declaração dela o fez esquecer do cansaço e da dor. A segurou com firmeza pelos quadris e meteu sem piedade, o saco chicoteando-lhe a bunda à cada investida até ela confirmar, em um grito sussurrado e rouco "Tô gozando, tô gozando", e desmoronar sobre a cama.
Ele jogou o peso do corpo pra trás. O pau continuava duríssimo, mas as pernas latejavam acima dos joelhos. Sem dizer nada, a virou de barriga pra cima, de maneira decidida. Abriu-lhe as pernas, e se colocou entre elas. Achou o caminho até dentro dela e continuou se movimentando. O suor brotava de sua têmpora escorria por seu rosto e pingava nela. No rosto, pescoço e peito.
Ele pensou que se fosse outra situação. Outra pessoa, seria o momento em que ele sorriria e diria alguma coisa a respeito da chuva de suor que lançava. Mas não era o feitio dela.
Continuaram.
Por um longo tempo, por posições diversas, até que, ela por cima, achou que estava muito quente, e ajustou a temperatura do ar-condicionado.
Rebolava com ele rijo dentro de si. Então, o olhou e concedeu. "Tem alguma coisa que tu queira fazer antes de eu ir embora?", perguntou.
Ele sorriu. "Acho que cobrimos quase tudo o que eu gosto de fazer.".
"Não precisa ser alguma coisa que tu goste. Alguma coisa que tu queira.", ela disse, maliciosa, mas deteve-se "Quase... O que faltou?", perguntou.
Ele pensou em sorrisos e cumplicidade. Mas achou que seria risível pra ela.
Ela era uma mulher prática. Pragmática. Não entenderia ou quereria entender do que ele sentia falta. Sem razão consciente, disse "Ficar deitados sem roupa.".
Ela se levantou de cima dele de cara amarrada.
"Isso eu só faço com o meu marido.".
Andou até o chuveiro. Tinha uma vitrine que dava para o quarto, de modo que, deitado na cama, ele a enxergava perfeitamente se banhando. Estava de costas para ele.
Teve a sensação inequívoca de quê havia acabado ali sua breve aventura com a mulher mais velha e casada.
Era, a bem da verdade, uma sensação de certo alívio.
Vestiu novamente a cueca boxer preta, e ficou deitado encarando o teto espelhado. Olhando além de si. Sempre tinha alguma repulsa à própria imagem após fazer algo errado, e tinha a sensação de que aquelas últimas horas, desde atarde anterior, haviam sido uma inexequível sucessão de erros crassos.
O chuveiro se desligou.
Ele olhou na direção dela, que juntava os tênis e as meias que ele jogara pelo quarto. Vestiu as calças e o bustiê, sentou na cama atrás dele e se pôs a vestir as meias.
Ele a olhou de esguelha pelos espelhos. Parecia cansada.
Teve um ímpeto de tocar de leve nas costas dela, mas não o fez.
Não sabia como ela reagiria, e ele não tinha certeza de que tipo de relação era aquela.
Ela calçou os tênis e os atou. Pegou os óculos escuros no chão do meio do quarto, os colocou sobre os cabelos como uma tiara e saiu sem se despedir.
Ele tomou banho e chegou à recepção pouco antes de fechar as duas horas pelas quais havia pagado.
Saiu do motel pelo estacionamento, e a viu parada junto a um Mondeo prata.
Ia passar reto, mas ela o chamou. Andou a contragosto, como um moleque.
"Quer uma carona pra casa?", ela perguntou.
"Não. Obrigado." ele respondeu. Não queria mais andar com ela. Não queria mais passar nem um minuto perto dela. "Quero andar um pouco.", mentiu sentindo as pernas e a musculatura da pélvis e cintura latejarem.
Ela assentiu em silêncio. Ele andou mais alguns passos e ouviu a porta do carro se abrir.
"De novo, amanhã?", ela perguntou quando ele esperava ouvir a porta batendo.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Intervalo
Ela estava sentada no banco de ferro da praça, com ele deitado no banco, a cabeça pousada sobre o colo dela.
Ele, bem mais alto do que o banco era longo, conseguia pousar os pés no chão com facilidade. O mormaço da tarde lhe pegava bem no rosto, de modo que ele tinha os olhos fechados.
O fato de eles terem almoçado há pouco e ela passar as unhas de leve por sua barba, apenas o fazia sentir mais vontade de adormecer.
Ela deve ter percebido que ele começaria a dormir a qualquer minuto, ou então ele cochilou e roncou. Porque ela falou, totalmente de supetão:
-Mais amor, por favor.
Ele, sem abrir os olhos, respondeu:
-Eu te amo.
A resposta silenciosa se estendeu de tal modo que ele abriu um olho e viu que ela, ainda que permanecesse cofiando-lhe a barba, olhava adiante. Ele ergueu de leve a cabeça, e mirou na direção onde ela olhava. Na parede de uma garagem próxima, um cartaz dizia aquelas exatas palavras:
Mais amor, por favor.
Ele suspirou enquanto deitava novamente a cabeça:
-É uma boa pedida.
Ela ficou em silêncio mais alguns momentos, e quando falou, deu pra ver que ela tinha tentado segurar, mas não conseguiu:
-Tu nunca me disse isso enquanto a gente namorou.
Ele abriu os olhos. Já tinham tido aquela conversa.
-É... Eu sei. - Ele disse, num jab verbal. - Eu... É engraçado. Eu tinha dificuldade pra expressar meus sentimentos com palavras... - Completou.
Ela riu:
-"Tinha"... Que bonitinho. - Disse, cínica.
Ele riu de volta. Mas continuou:
-Sabe... Eram muitos, muitos, muitos "eu te amo" que eu tinha guardados dentro de meu coração à certa altura da minha vida... Muitos, juntados ao longo de muitos e muitos anos. Amor, pra mim, é coisa séria... Séria demais, até sisuda. "Eu te amo" dá poder a quem ouve. Agrilhoa quem diz. Ao menos quando é dito de coração.
Ela, atenta, continuava acariciando-lhe a barba.
Ele continuou:
-Me lembro da primeira vez que disse "eu te amo" de coração. Estava na rua, na avenida Praia de Belas, com a minha primeira namorada de verdade. Achei por bem dizer. Era noite, dia de semana. Estávamos sentados lado a lado, de mãos dadas numa calçada. E eu percebi que amava ela... E não pude não dizer.
Ela sorriu:
-E como foi?
-Não muito bom - Ele riu de volta. -Ela não retribuiu. Me disse que, quem dizia "eu te amo", o dizia esperando ouvir o mesmo em resposta.
-É verdade. - Ela assentiu, casual.
Ele concordou:
-É...Eu esperava. Mais tarde, quando, julgo, ela percebeu e teve certeza de que também me amava, ela me disse... Mas aí o estrago estava feito.
-Estrago? - Ela riu do exagero.
-Muito - Ele assentiu. -Eu nunca mais disse "Eu te amo".
-Não é verdade. - Ela protestou. -Tu disse.
Ele olhou direto pra ela. Sorriu:
-Mas nunca à uma namorada. Por um longo tempo. Passei três outras relações mantendo silêncio absoluto de rádio.
-É... - Ela confirmou. -Eu sei.
-Mas sabe... - Ela continuou. -Dizia "eu te amo" em profusão a amigos e amigas. Mas nunca mais à uma amante...
-"Amante"... - Ela interrompeu, sarcástica.
-É... - Ele confirmou, ignorando a pitada de veneno. -Porque, como eu disse, eram muitos e muitos os que tinham ficado armazenados... Nem sempre eu dizia de coração cheio, e por vezes afastei pessoas que me interpretavam errado.
-Sério? - Ela perguntou, incrédula. -Tinha gente que achava que tu tava apaixonado assim, logo de cara?
Ele assentiu.
-Pior que tinha... Ah... Paciência. "Eu te amo" é coisa séria, sisuda e agrilhoadora mas merece pronúncia, né? Os mal entendidos são mazelas da vida. Antes todos os mal-entendidos do mundo se originassem de um "eu te amo" mal interpretado.
Ela riu em concordância. Ele continuou:
-Por muito tempo, eu só disse "eu te amo" a amigos... Mas sabe... Não quer dizer que eu não amei ninguém no intervalo.
Ela sorriu pra ele, e se recurvou da maneira como só ela era capaz, alcançando-lhe a ponta do nariz com os lábios e estalando-lhe um beijo.
Ficaram ali parados em silêncio. Ele voltou a fechar os olhos sabendo que em poucos minutos teria que levantar e voltar ao trabalho. Após alguns momentos disse:
-Eu te amo, alemoa.
-Também te amo, ogro. - Ela respondeu.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Resenha DVD: O Exterminador do Futuro: Gênesis
Eu confesso que depois da tentativa com Christian Bale e Sam Worthington cometida por McG não ter funcionado em 2009, achei que o Exterminador do Futuro seria deixado em paz pela Paramount, e se tornar uma daquelas raras franquias que conseguiram ficar no passado recebendo apenas a reverência dos fãs que a amavam mais ou menos como aconteceu com De Volta Para o Futuro, por exemplo.
Mas aparentemente a única lição tirada de O Exterminador do Futuro: A Salvação, foi a de que um filme do Exterminador do Futuro precisa ter trocadilhos do Schwarzenegger em carne e osso, e não um dublê digital mudo.
A Paramount resolveu, então, chamar de volta o Governator, e fazer mais uma tentativa.
Alan Tylor, de Game of Thrones e Thor - O Mundo Sombrio foi chamado para comandar a empreitada, os roteiristas Patrick Lussier (de Fúria Sobre Rodas) e Laeta Kalogridis (Ilha do Medo) escreveram o roteiro, um misto de sequência e reboot, que traria Schwarza de volta ao mundo da guerra entre homens e máquinas.
Orbitando o ciborgue, Emilia Clarke (A Daenerys Targaryen de GoT) surgiu como uma ótima alternativa à Linda Hamilton (E curiosamente, é outra egressa de GoT a interpretar a personagem, já que Lena Headey, a rainha Cersei, deu cara à Sarah Connor em Terminator: The Sarah Connor Chronicles).
Jai Courtney, habituado a papéis de vilão, ganhou uma rara chance como mocinho no papel de Kyle Reese (que já foi de Michael Biehn, Anton Yelchin e Jonathan Jackson), e John Connor encontrou sua sexta encarnação em Jason Clarke.
Times escalados, bola ao centro e toca pra mais uma tentativa de fazer um novo segmento em uma série que vinha dando sinais de desgaste desde o terceiro capítulo.
O Exterminador do Futuro: Gênesis abre em 2029.
A guerra de humanos contra as máquinas da Skynet segue como se todos os outros filmes jamais tivessem acontecido.
John Connor é o líder da rebelião humana, seu conhecimento privilegiado, herdado de sua mãe, Sarah, o leva a ser visto por muitos como um profeta, e tem se mostrado a grande vantagem da humanidade na luta.
Ele e seu braço direito, o sargento Kyle Reese, se preparam para um ataque duplo à Skynet, em dois pontos distintos, um, uma grande fábrica, outro, o que parece um inofensivo campo de prisioneiros, mas guarda a maior criação da Skynet, sua mais terrível arma:
O dispositivo de deslocamento temporal.
Essa máquina é usada para enviar um exterminador T-800, o endo esqueleto metálico coberto com tecido humano que todos nós conhecemos, ao ano de 1984, e matar Sarah Connor antes que ela dê à luz John, e ele se torne o messias guerreiro que lidera a humanidade.
Ou seja, a história do primeiro O Exterminador do Futuro.
O Exterminador (Um Schwarza rejuvenescido no computador bem convincente) chega peladão ao observatório Griffith em Los Angeles em meio a jornais amassados e um orbe de energia elétrica e ruma contra os três punks que estão prontos para serem exterminados quando um exterminador notadamente envelhecido surge, e os dois caem na porrada!
Acontece que no momento em que Reese entra na máquina do tempo, um exterminador infiltrado (O Dr. Who, Matt Smith) ataca John, um evento jamais registrado. Esse fato inédito, cria uma fratura na linha temporal que conhecemos, e o 1984 ao qual Kyle Reese deveria ser enviado, simplesmente não existe.
Ao invés de encontrar uma Sarah Connor novinha e inocente trabalhando como garçonete e sendo perseguida por um T-800, ele chega encontrando um T-1000 (o modelo de metal líquido de T-2, agora vivido por Lee Byung-Hun) que o estava aguardando!
John é salvo no último instante por uma Sarah Connor que não é nem de longe a mocinha inocente da qual John lhe falou (ainda que não seja a neurótica truculenta de T-2).
Ela tem consigo um Exterminador modelo T-800 guardião a quem chama carinhosamente de "Pops" (terrivelmente traduzido em português como "papi").
Esse T-800 foi enviado para proteger Sarah quando ela ainda era uma menininha e sofreu um atentado realizado por um T-1000, que matou seus pais.
Sarah foi criada pelo T-800, aprendendo a sobreviver e lutar com o ciborgue, e o ensinando a emular um comportamento mais humano (os sorrisos são hilários), aguardando a chegada de Reese, e dos outros exterminadores enviados para matá-la, mas que a encontraram mais preparada do que nunca.
Sarah e Pops criaram um dispositivo de deslocamento temporal, e munidos da CPU de um dos exterminadores, agora podem usá-lo para viajar até 1997 e impedir o dia do julgamento, quando a Skynet toma o controle do sistema de mísseis das forças armadas dos EUA e lança um ataque nuclear que dizima 3 bilhões de vidas.
Mas Reese percebe que o destino deve ser outro:
Ele tem uma memória nascida do momento da fratura temporal, de um recado de si mesmo dizendo que o apocalipse foi adiado vinte anos, ocorrerá em 2017 e está ligado a algo chamado Gênesis.
Reese e Sarah viajam até 2017, encontrando-se com Pops e preparando-se para fazer (mais) um ataque derradeiro à Skynet e impedir o apocalipse nuclear, mas para isso, terão de enfrentar o último inimigo que esperavam:
John Connor.
O Exterminador do Futuro: Gênesis é um filme que gera sensações conflitantes. Ele é cheio de sacadas interessantes (Emilia Clarke como Sarah Connor é um achado, a atriz britânica está uma delicinha no papel), boas sequências de ação, por vezes vertiginosas, e até momentos de suspense realmente tensos.
A história engendrada por Lussier e Kalogridis não chega a ser um disparate em se tratando da mitologia de viagens temporais, e no geral, Gênesis é amplamente superior a A Salvação e A Rebelião das Máquinas.
O grande problema do longa, e de toda a série Exterminador do Futuro, por sinal, é O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final.
O filme de 1992 é, ainda hoje, um dos melhores filmes de ação já realizados, e é difícil sequer chegar perto de igualá-lo, de modo que tudo o que tem a marca Exterminador de lá pra cá, parece um pastiche daquele filme.
Além disso, ao fazer mais uma volta ao passado, mais um ataque definitivo à Skynet, e impedir o dia do julgamento mais uma vez, Gênesis desautoriza os filmes originais, trapaceia, e faz com que toda a série pareça uma jornada infrutífera, à medida em que, não importa o que os mocinhos façam, a Skynet esteja fadada a surgir e fritar a humanidade rumo à guerra (Se duvida, veja a cena oculta no meio dos créditos).
Por mais divertido que seja ver Schwarzenegger voltar ao papel que o consagrou, atirar, lutar, ser arremessado e explodido, deixar o robô envelhecer, aprender novos truques e até emular emoções, Gênesis não se justifica.
Não há nada de horrível em O Exterminador do Futuro: Gênesis. Nem de longe.
Apenas horrivelmente desnecessário.
"-Velho, mas não obsoleto."
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Resenha DVD: Divertida Mente
É a Pixar.
E eu poderia encerrar essa resenha por aqui, provavelmente tendo te convencido a ver o filme.
Porque mesmo quando a Pixar é menos do que pode ser, ainda faz coisas divertidas como Universidade dos Monstros, Valente e Os Incríveis, e mesmo quando é ainda menos, faz sucessos que agradam ao menos as crianças, como Carros e Aviões. Mas quando a Pixar é tudo o que pode ser, produz coisas como Toy Story, como Wall-E, e como Up- Altas Aventuras.
A única coisa que me impediu de ir assistir Divertida Mente no cinema, foi a ausência de cópias legendadas. Se UP acertou na mosca ao escalar Chico Anísio na voz de Carl Fredricksen, já nos trailers de Divertidamente deu pra ver que Miá Mello, Dani Calabresa, Otaviano Costa e Léo Jaime não chegariam nem perto do trabalho do veterano, e nem dos dubladores originais norte-americanos, de modo que, antes de ouvir cantores, pseudo-humoristas e apresentadores de programas de variedades dando voz aos personagens do longa, preferi sentar e esperar o lançamento do filme em home-video.
Nesta madrugada, fiz sessão dupla, primeiro o duvidoso Pixels, e depois a aposta mais segura, Divertida Mente.
Segura?
Não. Não segura:
Certeira.
Divertida Mente se passa dentro da mente da menina Riley. Desde o nascimento, ao ouvir pela primeira vez a voz de sua mãe, ela conheceu a Alegria (Amy Poehler, de Parks & Recreation). Imediatamente após conhecer a Alegria, Riley foi apresentada à Tristeza (Phyllis Smith, de The Office).
Conforme crescia, Riley ia ganhando novas emoções, Medo (Bill Hader, de Superbad), Nojinho (Mindy Kaling, outra egressa de The Office), e Raiva (Lewis Black, e eu recomendo fortemente o stand-up do homem, Black-out on Broadway, é sensacional).
Essas cinco emoções comandam as ações e memórias de Riley através de um painel de controle dentro da mente da menina onde comandam suas ações e criam as memórias dela, armazenadas em esferas translúcidas da mesma cor que a emoção em que foram baseadas (amarelo para alegria, azul para tristeza, vermelho para raiva, roxo para medo e verde para nojo), essas memórias viajam pelocérebro de Riley através de tubos de sucção que ligam as diferentes localidades da mente da menina e guardadas em imensos arquivos que circundam a sala de controle onde as emoções "pilotam" Riley cada uma de uma vez, e as ilhas de personalidade, cinco centros com cara de parque temático que contém tudo o que Riley ama e é.
Quando Riley chega aos onze anos de idade (com a voz de Kaitlin Diaz), Alegria se orgulha de que a maioria das memórias dela sejam felizes.
Entretanto, a decisão do pai (Kyle McLachlan) e da mãe (Diane Lane) de Riley de se mudar de Minnesota para São Francisco pode alterar isso.
Ao deixar para trás a casa, a escola e os amigos que ama, Riley e suas emoções passam por um grande estresse. Ao chegar a São Francisco, Alegria se esforça para manter as coisas sempre positivas a cada percalço durante a problemática mudança, ainda assim, as tudo começa a dar errado quando, no primeiro dia de aula de Riley na nova escola, uma lembrança feliz muda de cor ao ser tocada pela Tristeza, fazendo a menina chorar diante dos colegas.
Uma altercação entre Tristeza e Alegria faz com que Memórias Centrais, as lembranças mais importantes de Riley, caiam de seus contêineres e sejam apanhadas pelo sistema de sucção, lançando-as junto com as duas emoções em zonas periféricas da mente da menina.
Daí em diante, acompanhamos Alegria e Tristeza tentando voltar ao centro de comando enquanto Nojinho, Medo e Raiva lutam para manter as coisas na melhor ordem possível até que as Memórias Centrais sejam recolocadas antes que a personalidade de Riley se desintegre.
É brilhante.
Divertida Mente é outro desses clássicos instantâneos da Pixar que continuam na nossa cabeça mesmo após o final dos créditos.
O modo como a psicologia é tratada pelo diretor Pete Docter (O mesmo de UP.) que bolou a história junto com Ronnie Del Carmen (que trabalhou no departamento de arte e desenvolvimento de Up, Procurando Nemo, Ratatouille entre outros e co-dirige Divertida Mente.) é tão honesto e relacionável que é virtualmente impossível não traçar paralelos entre o que se passa no filme e alguma experiência pessoal passada ou presente. Um excelente exemplo é a forma como a depressão de Riley (que nunca é tratada nominalmente como "depressão") é descrita.
Mesmo as mais felizes de suas memórias se tornam tristes à medida em que a melancolia da saudade dá a tudo outros matizes, e a audiência é levada junto pela torrente de emoções da menina conforme a história se desenrola. Um exemplo disso é a participação de Bing Bong (Richard Kind).
Bing Bong foi o amigo imaginário de Riley na sua tenra infância, e com o passar dos anos foi sendo deixado de lado. Bing Bong é uma mistura de elefante, gato e golfinho com corpo de algodão doce vestido feito um mendigo que chora balas e tem um carrinho voador movido a música. Ele é uma criatura de imaginação que apenas deseja que Riley seja feliz, e é divertido e engraçado à primeira vista, mas seu segmento na história, ainda que tenha momentos hilários, tem um desfecho de cortar o coração.
O roteiro de Meg LeFauve e Josh Cooley tem aquela qualidade intrínseca dos filmes da Pixar, de fazer rir e chorar com intervalos mínimos, e falar à audiências de todas as idades conseguindo que pessoas de faixas-etárias absolutamente distintas riam de uma mesma cena por razões completamente diferentes.
Jogando com metalinguagem (O lugar onde os sonhos e pesadelos são "gravados", ou o abismo do esquecimento, ou a masmorra do subconsciente), fazendo homenagens à estilos de arte e animações (A passagem pelo Pensamento Abstrato) e satirizando coisas que passam batidos pros bem pequenininhos mas que na hora arrancam uma risada dos adultos (a piada com relação a opiniões e fatos, ou a utilidade de certas memórias são os exemplos mais óbvios desse tipo de humor) ou o pastelão puro e simples, Divertida Mente lança um olhar cálido e genial sobre o que é amadurecer, e como nossas emoções se tornam mais complexas conforme crescemos não é apenas outra das grandes animações da Pixar, é um dos melhores filmes do ano, se perfilando a Up - Altas Aventuras como o supra-sumo do que o estúdio é capaz de realizar.
Alugue sem pensar duas vezes, mas tenha o lenço à mão.
É a Pixar.
"Leve-a até a lua por mim, Ok?"
Resenha DVD: Pixels
Quando eu vi o primeiro trailer de Pixels, confesso que me empolguei. A premissa do longa, aliens encontram cápsula de comunicação terrestre que inclui amostras de games oitentistas, e invadem a Terra seguindo o modelo descritos nos ditos jogos era empolgante demais pra passar batida por qualquer gamer do mundo.
O nome de Chris Columbus não chegava a ser um empecilho. O diretor de filmes juvenis já deixou claro que, apesar de seus escorregões, sabe conduzir um filme. O grande problema é quando aparecia na tela a cara do Adam Sandler.
Não me entenda mal. Eu não odeio o Adam Sandler. Na verdade, tenho ao menos um filme com o comediante egresso de Saturday Night Live na minha lista de favoritos.
Tudo bem que é Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson, mas ainda assim, Sandler é o protagonista. Também gosto de Reine Sobre Mim, e Afinado no Amor.
E meio que para por aí...
Pra piorar as coisas, descobri que o roteiro do filme (que adapta o curta de mesmo título dirigido por Patrick Jean em 2010) fora realizado por Timothy Dowling (de Esposa de Mentirinha e Guerra é Guerra) e Tim Herlihy, responsáveis por escrever a maioria das porcarias de Sandler desde Billy Madison - O Herdeiro Bobalhão até Gente Grande 2, passando por O Paizão, Little Nick e Um Faz de Conta que Acontece... E pronto, lá se foram não só minha empolgação como qualquer vestígio de vontade de ver o filme.
Não foi por mais senão falta de opção que resolvi assistir ao filme em DVD, ao menos pra saciar minha curiosidade e ver se eu não havia sido injusto com Pixels. Guardadas as proporções, eu também havia esnobado Noite sem Fim no começo do ano, e acabou que era um tremendo de um filme, de modo que, quando cruzei com Pixels na estante da locadora, suspirei "Ah, que diabos".
Na fita, o ano é 1982, o moleque Sam Brenner passa na casa do amigo Will Cooper e eles correm para o fliperama da cidade para passar horas torrando moedas em máquinas clássicas como Galaga, Space Invaders, Pac-Man, Centipede e Animal Crossing.
Sam é um aficionado, ele enxerga os padrões de imediato, dominando os games com tanta naturalidade que Will o encoraja a se inscrever num campeonato de arcade.
Lá, Sam e Will conhecem o menino prodígio Ludlow Lamonsoff, e o "Fire Blaster" Eddie Plant. É justamente contra Eddie que Sam disputa a final do torneio, em uma máquina de Donkey Kong, onde sam é derrotado.
Mais de 30 anos depois, Will e Sam (agora com as caras de Kevin James e Adam Sandler) continuam bons amigos.
A despeito do que Will imaginava, a vida de Sam degringolou, e enquanto ele é o presidente dos Estados Unidos, Brenner trabalha fazendo instalação de eletrônicos, jamais tendo se recuperado do fracasso no torneio de 1982.
Ele vem de um casamento desfeito, sem filhos ou perspectiva exceto os encontros regulares com seu amigo presidente.
As coisas podem mudar quando uma raça de alienígenas encontra uma cápsula espacial com informações sobre games dos anos oitenta que inclui o campeonato de Brenner, e a interpreta erroneamente como uma declaração de guerra.
Após destruírem uma base militar norte-americana no Peru, os aliens se preparam para repetir a dose em Londres quando o presidente Cooper resolve ouvir os avisos de Sam e Ludlow (que crescido é interpretado por Josh Gad, uma versão mais barata de Jack Black), e correr para salvar o mundo do ataque pixelizado.
Para isso, eles terão a ajuda da tenente-coronel Violet Van Patten (uma lindona Michelle Monaghan), que desenvolve as únicas armas capazes de danificar as formas eletrônicas dos invasores, e do desafeto de Sam, o bad boy do fliperama Eddie "Fire Blaster" Plant (Peter Dinklage).
Juntos, eles precisam defletir o ataque de Centipede à Londres, e o maior Pac-Man do Mundo em Nova York para impedir a destruição da Terra.
Existe um sentimento ambíguo com relação a Pixels.
Ao mesmo tempo em que todos nós já vimos filmes muito, muito, muito piores estrelados por Adam Sandler (Cada um tem a Gêmea que Merece, por exemplo, deveria ser queimado em praça pública), e já os vimos fazerem sucesso nas bilheterias (Ninguém em sã consciência continuaria financiando coisas como Esse é Meu Garoto, Juntos e Misturados e Esposa de Mentirinha se não fizesse dinheiro, não é?); Pixels parte de uma premissa tão cheia de potencial, que mesmo não sendo, nem de longe, o pior filme de Adam Sandler, cria uma sensação de desperdício tão palpável que fica difícil não odiar o filme.
Chris Columbus faz o que pode, dirigindo sequências de ação interessantes e com efeitos visuais muito bons em uma produção visivelmente mais qualificada que qualquer outra já estrelada por Sandler, ainda assim, o roteiro de Herlihy e Dowling é tão miserável, que o diretor parece desinteressado na hora de filmar qualquer cena que não envolva os pixels do título.
O arremedo de script parece ansioso por escantear a mistura de ação e sci-fi contida na ideia básica do filme em nome do mais do mesmo do cinema da produtora Happy Madison de Sandler, onde sempre há espaço para aparições de camaradas do comediante, atores sérios fazendo papel de idiotas (aqui é Sean Bean, que ao menos tem sua dignidade menos manchada que Al Pacino quando se associou a Sandler), e o tratamento à mulheres variando entre infantil e juvenil.
Não bastasse isso, Sandler, James e Gad estão péssimos. O protagonista nem parece estar tentando atuar, James se restringe à dancinhas e caretas, Gad grita e desmaia o tempo todo, enquanto Michelle Monaghan, coitada, interpreta a habitual caricatura feminina, chorando no armário bebendo vinho após ser trocada por uma mulher mais jovem. A exceção pertence a Dinklage, que detona no papel do (quase) vilão Eddie Plant, entregando uma atuação exagerada na medida.
Com tudo isso, Pixels é uma óbvia falha, um produto escrito para adolescentes que não vão entender a nostalgia dos games da geração 8 bits, ou adultos com idade suficiente para sentir falta do fliperama que não terão paciência pro festival de idiotice do longa.
Ainda que renda algumas risadas aqui e ali, Pixels é uma tremendo desperdício de potencial.
"-Eu esculachei o teu jogo!"
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Resenha DVD: Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível
Desde o final do ano passado, Tomorrowland vinha sendo alardeado como um dos grandes lançamentos de 2015. O longa metragem de Brad Bird, egresso da Pixar com o divertidíssimo Missão: Impossível - Protocolo Fantasma no cartel, prometia a criação de um filme estrelado por atores com a alma e o coração das animações do estúdio que revolucionou os desenhos animados. Por meses todos ficaram ansiosos pelo filme, que figurava nas listas de mais aguardados de quase todos os sites e revistas de cinema.
Mas junho (maio, nos EUA) chegou, Tomorrowland estreou e não chegou nem perto do evento que todo mundo esperava.
O longa fracassou nas bilheterias, sequer chegando a cem milhões de dólares nos Estados Unidos, e somando um total de pouco mais de duzentos e nove milhões para um orçamento de 190, dando a entender que a reação de todo mundo foi a mesma que eu tive à época diante do poster e dos trailers do filme, um sonoro "Hmmm..." enquanto erguia as sobrancelhas e entortava a boca pro lado.
Ontem aluguei o filme para conferir se eu (e aparentemente todo o mundo mais) havia cometido alguma grave injustiça para com Tomorrowland (que na tradição brasileira ganhou um extremamente longo, pouco acurado e genérico sub-título).
O longa abre com um flashback.
Frank Walker (George Clooney) conta à audiência sua experiência quando, em 1964, viajou à Feira Mundial para concorrer em um concurso de inventores com um jetpack feito em casa. O jovem Frank mostra sua invenção para um jurado (Hugh Laurie) e é esnobado por ele, pois sua invenção ainda não é cem por cento funcional.
Se o jurado David Nix não parece interessado, o mesmo não se pode dizer da menina que o acompanha.
Athena (Raffey Cassidy), uma jovenzinha sardenta de franja no cabelo e grandes olhos azuis, se aproxima de Frank e lhe dá as coordenadas para que ele a siga quando ela for embora com Nix e outros homens, e um aparentemente inofensivo pin.
Agindo conforme ordenado por Athena, o jovem Frank (Thomas Robinson) entra na atração "It's a Small World", da Disney, para, ao entrar em um túnel, ser tragado para um futuro utópico repleto de imensos arranha-céus art-déco que convivem com áreas verdes verticais, piscinas suspensas, monotrilhos voadores que serpenteiam pelo céu e enormes e prestativos robôs construtores, tudo isso cercado por imensos trigais dourados.
Ao sobreviver a uma grande queda graças à sua invenção, Frank reencontra Athena, que lhe deseja boas vindas.
Aí, Frank é interrompido, e conhecemos Casey (Britt Robertson), como ela própria se autodenomina, uma otimista.
Casey é filha de um engenheiro da NASA, e está preocupada com o futuro de seu pai, uma vez que a plataforma de lançamento de Cabo Canaveral, onde ele trabalha, está por ser desativada e desmantelada.
Durante o dia, Casey vai à aula, cuida do irmão mais novo e faz coisas de adolescente. À noite, ela invade as instalações e sabota os guindastes que trabalham na desmontagem da estrutura de lançamento.
A jovem Casey também recebe a visita de Athena, e o misterioso pin. Eventualmente, ela também é levada a Tomorrowland, mas é trazida de volta, e, ansiosa por voltar à Terra do Amanhã, começa uma busca que a coloca em grande perigo, mas também no caminho de Frank Walker, hoje um homem desiludido e amargurado, escondendo-se em uma fazenda isolado do mundo.
Agora, a jovem inventiva e brilhante, precisa se unir ao velho inventor cínico em uma perigosa missão para, com a ajuda de Athena, não apenas encontrar o caminho de volta até Tomorrowland, mas também, para impedir a destruição do nosso mundo.
Assistindo ao filme é fácil perceber porque ele foi tão antecipado.
Tomorrowland é um deleite visual, um festival de apuro técnico em cada aspecto de uma produção cinematográfica. A edição, o som, os efeitos visuais, a trilha sonora, a fotografia, é tudo muito, muito bom.
O filme frequentemente premia a audiência com momentos de fantasia de ficção científica quase oníricos entrecortados por pequenos vislumbres de uma lógica extremamente prática, os ângulos escolhidos por Bird para filmar são sempre espertos, e a maneira como o pin símbolo do filme funciona com Casey, fazendo ela existir em dois espaços de tempo/espaço simultaneamente, é particularmente inspirada.
Em seus melhores momentos, Tomorrowland tem uma pegada firme, que deixa claro o quanto de paixão pelo projeto motivou Bird a realizá-lo. O elenco, em especial Clooney e Cassidy, compra a paixão do diretor, e se esforça para dar lastro à trama, mas a verdade é que há algo em Tomorrowland que impede o filme de empolgar a audiência como obviamente empolgava a Bird...
Talvez seja a própria natureza da trama engendrada por Damon Lindelof, o próprio Bird e mais Jeff Jensen, quase uma ode à ciência e aos privilegiados (ecoando o trabalho de Bird em Os Incríveis...), onde as grandes mentes do mundo se cansaram dos medíocres e fizeram um mundo perfeito só para eles e alguns poucos escolhidos livres das amarras da ambição, da burocracia e da burrice. Talvez seja a personagem de Britt Robertson, a verdadeira protagonista do filme, que não tem absolutamente nada pra mostrar além de gritinhos agudos e teimosia, ou quem sabe o fato de que, a despeito de todo o otimismo salpicado ao longo das duas horas e dez de projeção, o vilão de Hugh Laurie, de fato, tenha um ponto melhor a defender do que os heróis?
Seja como for, Tomorrowland não é ruim. Especialmente, não é ruim como a bilheteria raquítica sugere, e merecia melhor sorte nas bilheterias.
Há momentos genuinamente empolgantes e ao menos um momento realmente tocante, e eu vi filmes infinitamente piores fazendo obeso sucesso financeiro (coff, Transformers, coff, coff, Piratas do Caribe, coff).
Tomorrowland não é um excelente filme, e certamente não vive à altura da antecipação que criou, mas é um trabalho de notável paixão, e qualquer trabalho advindo de tão palpável sentimento, merece, ao menos um pouco de platéia.
Certamente vale a locação.
"Todo o dia é a oportunidade de um amanhã melhor."
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