Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Resenha DVD: Mogli: O Menino Lobo
Eu não sou exatamente um fã de animações. Se hoje em dia eu volta e meia abro exceções na minha agenda de idas ao cinema pra ver desenhos, isso nem sempre foi regra. Uma das minhas implicâncias juvenis, das quais hoje eu me arrependo, era com as animações da Disney.
Eu tinha uma inexplicável ojeriza para com os desenhos do estúdio que meio que inventou as animações de longa-metragem, por uma razão, e uma razão apenas:
Os números musicais.
Eu odiava, na infância, quando em meio à história os personagens paravam o que estavam fazendo pra cantar uma canção.
Eu era muito intolerante com musicais à época. Ainda mais do que sou hoje. Então, se eu tinha uma ideia vaga de sobre o que se tratava Mogli: O Menino Lobo, não era por conta da premiada animação de 1967. Mas apenas por ter lido ou ouvido falar a respeito da história original, dos livros de Rudyard Kipling aos quais, admito, não li.
Foi, então, com alegria que descobri que Jon Favreau estava trabalhando em uma versão (mais ou menos) live action da história.
Infelizmente, o prazer de assistir ao filme no cinema me foi sonegado à medida em que, em Porto Alegre apenas uma sala reservou um horário para exibição do filme com idioma original, casualmente num dos piores cinemas da cidade, o Cinemark Barra-Shopping sul, onde frequentemente os horários das sessões atrasam e o ar-condicionado da sala é desligado durante a exibição, tornando o cinema, infelizmente, impossível de frequentar.
De modo que, como eu não estava interessado em assistir ao filme com as vozes de um elenco de globais, me restou esperar que o longa alcançasse o mercado de home-video.
Assistido o filme na madrugada de ontem, só me resta erguer o braço em protesto, e amaldiçoar os cinemas de Porto Alegre por não terem pensado em reservar ao menos um horário do dia para adultos alfabetizados irem ao cinema apreciarem a adaptação.
Desde sua sequência inicial, Mogli: O Menino Lobo é um deleite.
E a corrida de Mogli, o estreante Nehil Sethi, com seus irmãos lobos e a pantera-negra Bagheera (brilhante trabalho de dublagem de Ben Kingsley) é apenas o primeiro passo de uma trama episódica que conduz a audiência por uma série de pequenas aventuras, perigos e piadas conforme acompanhamos esse "filhote de homem" encontrado por Bagheera e levado para a alcateia onde o lobo alfa Akela (Giancarlo Esposito) o acolheu, e a loba Raksha (Lupita Nyong'o) o criou como se fosse seu filhote.
A vida de Mogli, tentando se tornar um lobo de verdade, convivendo com os outros animais da selva é alterada quando, uma trégua da água é declarada.
Uma longa estiagem tornou a água escassa e com os animais reconhecendo que beber é mais importante do que comer, a margem do lago é declarada um ponto livre de caça e todas as espécias podem ser encontradas matando a sede juntas.
É nesse momento que surge o tigre Shere Khan (Idris Elba), um poderoso caçador marcado por um encontro prévio com homens.
Khan não suporta a ideia de Mogli viver entre os animais, pois filhotes de homem crescem e se tornam homens, e ele oferece a Akela um ultimato:
Quantas vidas valem a vida de Mogli?
Quando as chuvas retornam e a ameaça de Shere Khan se torna uma sombra cada vez mais pesada sobre a alcateia, Mogli resolve partir, e, com a ajuda de Bagheera, chegar à aldeia dos homens, onde ele finalmente estará entre os seus e seguro do ódio do tigre.
Mas além da insaciável sede de sangue de Shere Khan, há outros perigos na floresta, e não tarda para que o pequeno Mogli logo se veja frente a frente com criaturas tão distintas quanto a anaconda Kaa (Scarlett Johansson), o enorme orangotango (na verdade um exemplar do ancestral Gigantopitecus) Rei Louie (Christopher Walken), e o urso Baloo (Bill Murray), animais que nem sempre têm a segurança e o bem-estar do filhote de homem em mente.
Conforme segue seu caminho entre essas criaturas tão diferentes, Mogli se vê em um ponto onde precisa descobrir quem é, e qual seu lugar no mundo.
É magnífico.
A parte técnica do filme é um disparate de tão boa, da floresta, renderizada à perfeição como um labirinto de enormes árvores retorcidas, muitas vezes compostas por centenas de vinhas emaranhadas que se erguem do solo ao céu, passando pelas encostas enlameadas do momento das monções, a iluminada caverna de Baloo ou o fantástico palácio de Louie, tudo é encantador, feito, não para emular a realidade, mas para ter o tom fabular e fabuloso que a história pede.
O elenco, de fato, tem apenas o jovem Nehil Sethi em cena, os demais personagens do filme são todos gerados por computador, mas o elenco de dubladores escalado por Favreau é inspiradíssimo.
Muito mais do que uma coleção de celebridades fazendo pontas, cada uma das vozes casa perfeitamente com o animal a quem representam, ou seu papel no filme.
Ben Kingsley dá show como a imponente pantera-negra Bagheera, uma figura de mentor cheia de majestade. O paternalismo solene e digno das vozes de Giancarlo Esposito e Lupita Niong'o como Akela e Raksha é palpável, assim como é a disposição boa-vida na voz de Bill Murray como o divertido Baloo. Christopher Walken está sensacional como o ameaçador rei Louie, e Scarlett Johansson tem um tom de voz tão marcante que já conseguiu tornar um I-pod sensual, e faz a mesma coisa pela hipnótica cobra Kaa, enquanto Idris Elba destrói na sua interpretação assustadora da voz do obstinado Shere Khan. Tão assustadora é sua performance, por sinal, que só quando o filme se encaminhava para o fim eu me dei conta de que, na melhor tradição de bons vilões, suas motivações e pontos de vista são totalmente justificáveis e fundamentados.
Cada um dos personagens está ali com uma função, para ajudar Mogli a crescer e cumprir seu caminho, descobrindo que as coisas que o tornam diferente, sua engenhosidade inata e sua capacidade de usar a "flor vermelha" do fogo, não são necessariamente um mal, e podem ser usados para o bem daqueles que ama.
Embalando uma mensagem de coexistência pacífica entre o homem e a natureza em um espetáculo de efeitos visuais de primeiríssima linha equilibrando ação, aventura, suspense e comédia Mogli: O Menino Lobo encontra seu caminho direto até o coração da audiência graças às sacadas do roteiro de Justin Marks e um trabalho mais do que seguro de Jon Favreau na direção, oferecendo uma roupagem moderna e bela aos escritos centenários de Rudyard Kipling.
Palmas pra eles.
Assista. É um dos melhores filmes do ano.
"-Ele é especial.
-Eu sei que ele é especial. Eu o criei."
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Resenha Cinema: Café Society
O último filme de Woody Allen, Homem Irracional, foi, ao menos pra mim, uma quebra numa boa sequência de filmes do octogenário cineasta.
Eu realmente não gostei do filme, que tinha um elenco de primeira, com Emma Stone e Joaquin Phoenix, mas contou uma história aborrecida e mal ajambrada.
Cheguei a brincar quando escrevi sobre o filme, que Homem Irracional era o tipo de filme que dificultava minha vida na hora de defender Allen nas rodas de conversa sobre cinema.
Não que Allen precise da minha humilde defesa.
Seus eventuais tropeços são perfeitamente desculpáveis considerando a excelência de seus numerosos acertos, e acho que o próprio Allen reconhece que seu cinema, infelizmente, não é pra todo mundo.
Porém, eu sou um dos fãs do diretor de Neblina e Sombras, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e Tudo Pode Dar Certo, de modo que ontem, junto com outras dez testemunhas estava a postos para a estréia de Café Society, nova empreitada de Allen.
No longa, que abre em uma suntuosa mansão hollywoodiana recebendo uma elegante festa na piscina, conhecemos Phil Stern (Steve Carell), um próspero homem de negócios que atua como agente das mais requisitadas estrelas da Hollywood dos anos 1930.
Phil recebe a ligação de sua irmã Rose Dorfman (Jeannie Berlin), Rose, que mora em Nova York, e lhe pede que ajude seu filho caçula, Bobby a se instalar em Los Angeles, talvez lhe conseguir um emprego.
Bobby (Jesse Eisenberg) é um jovem cheio de energia mas que realmente não sabe o que quer fazer da vida. Seu tio Phil, um homem importante, está sempre muito ocupado, ou talvez desinteressado, para recebê-lo, de modo que leva mais de uma semana para que o executivo possa encontrar uma brecha em sua agenda para o jovem.
Quando isso finalmente ocorre, Bobby se torna um office boy particular para Phil, que , para ajudar o sobrinho torna sua secretária, Vonnie (Kristen Stewart), responsável por ajudá-lo a se aclimatar à vida na Califórnia.
Conhecendo as mansões de astros como Barbara Stanwick, passeando pelas praias de Malibu e frequentando botecos mexicanos não tarda para que Bobby se apaixone por Vonnie, que, para seu azar, tem um namorado a quem ama muito mas que não vê com frequência.
Bobby não desiste, porém, e consegue se tornar amigo de Vonnie, e, com mais tempo, e alguma sorte, seu namorado, ao menos até o antigo namorado voltar à cena complicando de vez a vida do rapaz.
Quando Bobby volta à Nova York para trabalhar com o irmão Ben (Corey Stoll, que novamente faz um ótimo trabalho com pouco tempo em cena com fizera vivendo Ernest Hemingway em Meia-Noite em Paris), um truculento gângster judeu, Bobby agora vacinado quanto às mazelas da vida numa cidade "movida a ego" e com amigos como a agente de modelos Rad Taylor (Parker Posey) e seu marido Steve (Paul Schneider), conhece Veronica (Blake Lively), e logo forma uma vida com ela.
Enquanto lida com os problemas de administrar um night clube e lida com o irmão, a mãe, o pai (Ken Stott, o Balin de O Hobbit, ótimo), a irmã mais velha Evelyn (Sari Lennick) e o cunhado acadêmico Leonard (Stephen Kinken) e cresce se tornando um homem mais responsável e seguro, Bobby balança quando Vonnie ressurge em sua vida, e ele se pergunta o que fazer...
De novo... Woody Allen não é cinema para todos os gostos, e na comparação com os maiores acertos de sua filmografia, mesmo longas como Magia ao Luar e este Café Society são realizações menores, ainda assim, o longa é repleto de qualidades, a começar pelo elenco.
Eisenberg, violenta e merecidamente enxovalhado pela crítica após seu Lex Luthor em Batman V Superman faz um ótimo trabalho como o dublê de Allen em cena.
Seus trejeitos e maneirismos simplesmente casam com o que esperamos do judeu nova yorkino neurótico e niilista dos filmes de Allen, as ele consegue oferecer espectro emocional e uma segurança que são todos seus. Steve Carell manda muito bem como o próspero executivo que conseguiu tudo na vida, enquanto Corey Stoll interpreta um tipo de bandido charmoso e divertido que merecia mais tempo em cena.
Jeannie Berlin e Ken Stott têm ao menos uma cena brilhante no filme, quando discutem religião ates de dormir, uma sequência que é, fácil, o momento mais engraçado do filme e talvez o único que arranque gargalhadas.
Quem também faz um ótimo trabalho é Blake Lively. A loira tem uma participação reduzida no longa, mas rouba todas as cenas em que aparece trabalhando com um roteiro econômico que se esforça para tornar humano. A mulher é puro glamour e faz Kristen Stewart simplesmente desaparecer, tornando a frase de Phil, de que "em questões do coração, as pessoas fazem tolices", simplesmente obrigatória para justificar a dúvida de Bobby entre Vonnie e Veronica.
Outro acerto é a linda fotografia de Vittorio Storaro, que torna o que é o primeiro filme de Woody Allen filmado em formato digital uma obra de arte dourada.
A despeito da natureza episódica do roteiro, que oferece um ritmo ágil ao longa de econômicos 96 minutos, mas ao mesmo tempo torna todo o conflito e drama contido na trama de crime, amor não-correspondido e traição algo superficial, o filme agrada, e quando sobem os créditos, é impossível não se admitir que a experiência foi divertida, ainda que nada memorável.
Para um realizador menor, não seria problema, para Woody Allen, é quase um tropeço.
Tentamos de novo ano que vem, Woody.
"-A vida é uma comédia, escrita por um sádico escritor de comédias."
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Celeuma Besta
Vem rolando ao longo dos últimos dias uma celeuma na internet.
Como a maioria das celeumas da internet é algo absolutamente sem importância que ganhou proporção nas pontas dos dedos de uma geração que vive pra redes sociais e nada além disso.
De qualquer forma, o ponto de discórdia atual diz respeito ao novo filme do Homem-Aranha, Spider-Man: Homecoming, que estréia no ano que vem.
Uma suposta lista vazada de personagens do longa deu conta de que a cantora e atriz Zendaya Coleman seria a Mary Jane no filme do herói.
A despeito de uma lista semelhante jurar de pés juntos que Jena Malone interpretaria a Oráculo em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, e já ter sido divulgado que Zendaya interpretaria uma personagem chamada Michelle, que poderia aludir à personagem dos quadrinhos Michelle Rodriguez, muita gente chiou.
A Internet virou um vespeiro de gente maldizendo a produção e condenando o filme a nascer morto por tal heresia.
O griteiro foi tão grande que Stan Lee, criador da personagem e James Gunn, diretor e roteirista de Guardiões da Galáxia foram às redes sociais defender a atriz a despeito de a Marvel não ter admitido que personagem Zendaya vive no filme.
Stan Lee disse que se a jovem é uma boa atriz, então está tudo resolvido, enquanto James Gunn foi mais longe.
O cineasta disse que, se a única coisa memorável a respeito de uma personagem é a cor de seu cabelo, então esse deve ser um personagem muito chato.
Eu concordo em partes com Gunn.
Conforme eu escrevi quando Jamie Foxx foi escalado para o papel de Electro em O Espetacular Homem-Aranha 2, eu não vejo a etnia de um ator como um empecilho, embora essa seja uma modinha que eu não veja com bons olhos.
E eu repito o que disse à época: E se fosse o oposto, e mudassem a etnia de um personagem negro?
Se escalassem um ator branco para interpretar Alex Cross, Othelo, ou Luke Cage?
Obviamente que um personagem é muito mais do que a cor de seus cabelos ou de sua pele. Nós vimos Michael B. Jordan fazer um Tocha Humana perfeitamente reconhecível em Quarteto Fant4stico, e que provavelmente teria sido muito bacana em um filme melhor, ainda assim a caracterização de um personagem é importante, outrossim porque é que Dave Bautista e Zoë Saldaña estavam pintados de verde em Guardiões da Galáxia? Porque é que Chris Evans e Henry Cavill malham feito alucinados pra viver Capitão América e Superman? Porque é que o falecido Phillip Seymour Hoffman jamais foi cotado para interpretar o Batman? Por que Robert Downey Jr. cultivou um cavanhaque em Homem de Ferro e Hugh Jackman as costeletas do Wolverine? Porque é que Mark Ruffalo usa aquele infame traje de captura de movimento em Os Vingadores?
A caracterização importa...
Eu não conheço as habilidades dramáticas de Zendaya. Nunca vi nada com ela. Mas vendo suas fotos no set de filmagens, ela não tem nada de Mary Jane, a party girl espevitada e namoradeira que foi a ponta menos preferida de um longevo triângulo amoroso com Peter e Gwen e que brilhava em passarelas e novelas.
Não tem nada a ver com a cor da pele ou dos cabelos dela, que é muito bonita e poderia ser uma Mary Jane muito apaixonante, com a caracterização certa:
Ainda assim, eu acredito que Zendaya não deverá interpretar a MJ por um motivo que vai muito além da etnia da atriz ou da personagem:
Segundo Kevin Feige, a jornada desse novo Homem-Aranha será de crescimento e amadurecimento, e uma das mais duras lições que aprendemos conforme ficamos mais velhos é a de que a imensa maioria de nós, simplesmente não termina com seu primeiro amor.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Diferenças
Ele acordou sentindo a luz do Sol entrar pelas janelas abertas do apartamento banhando a cama de uma luz dourada.
Ao abrir os olhos, percebeu-a sentada nua, em posição de lótus de frente para a janela. A iluminação matutina, o corpo nu dela, a forma como suas nádegas firmes se aninhavam parcialmente no lençol como se provocando em um jogo de mostra e esconde...
Seus cabelos presos de maneira despreocupada atrás da cabeça, fazendo com que pequenos fios dourados escapulissem do coque improvisado lambendo-lhe os ombros e as costas delicadas que ganhavam um halo dourado por conta da luz, compunham um cenário magnífico e poético que a faziam parecer como uma gloriosa diathim.
Tudo o cenário foi arruinado pela sensação gelada que ele sentia na bochecha denunciando que dormira de boca aberta e a baba certamente escorrera-lhe pelo rosto como se ele fosse Jabba, o Hutt.
Sentia o inchaço nos próprios olhos, o hálito da manhã e ao erguer a cabeça do travesseiro percebeu o desgrenho do próprio cabelo.
Era inacreditável como sempre acordava parecendo um taun-taun...
Ficou pensando em como eram diferentes dormindo ela ele... Não que não fossem diferentes, muito diferentes quando acordados, ele um nerd grandalhão e barbudo, ela, uma graciosa e esguia moça com quê de bailarina, eram muito e genuinamente díspares, mas dormindo...
Dormindo eram ainda mais.
Pareciam filhos de mundos distintos de galáxias bem, bem distantes.
Ela dormia bonito.
Ficava fresca, lábios e olhos fechados, aninhada... Já a vira dormindo. Lembrava-se de ter acordado uma vez de madrugada pra ir ao banheiro, e que ao voltar, sentou-se na cama e a ficou observando, perguntando-se se estava rompendo algum tipo de barreira. Era muito cedo da manhã... Antes das cinco, e uma luz azulada entrava pela janela, iluminando-a de leve.
E ele a olhou, e percebeu que, à exceção da maquiagem borrada nos olhos, ela estava bonita como se tivesse se aprontado pra sair. Se passasse a mão nos cabelos, bastava se vestir e pronto. Poderia ir à qualquer festa ou evento com aquele mesmo rosto.
Conhecera uma quantidade limitada de mulheres na vida, admitia. Mas dentre todas as que conhecera, ela era, fácil, a que dormia mais bonito.
Ele?
Ele roncava, dormia de boca aberta, babando, cabelos desgrenhados, todo esparramado na cama, a pele, por alguma razão, ficava muito oleosa enquanto dormia, a ponto de se perguntar, pela manhã, se alguém passara azeite em sua testa e nariz durante a madrugada.
Ela dormia de pijama, calça e camiseta, ou blusa de alças e short.
Tudo bonito, combinado, feminino e cheiroso como ela só.
Ele dormia com pijama improvisado. Calção velho, cujo elástico da cintura já não era confiável pra usar pra correr ou jogar futebol, e camiseta desbotada cujas mangas ele arrancava com as mãos quando resolvia que precisava de um pijama novo.
Mesmo quando dormiam nus a disparidade continuava lá.
Porque ele, nu, era uma bagunça medonha, e ela, nua, era uma visão.
E ali estava ele, feito um nativo de algum planeta distante à beira de uma singularidade cósmica aterrorizante, massivo e desgrenhado, e ela, esguia, miúda e delicada como a filha do lado mais claro de uma lua de Saturno.
O que foi que ela viu nele?
Como podia suportá-lo?
Ela se virou levemente, tinha um meio sorriso no rosto. Avançou engatinhando feito uma bothana sobre a cama:
-Bom dia, bela adormecida...
Ele cobriu a boca enquanto esfregava os olhos temendo estar remelento pra piorar ainda mais as coisas:
-Não! - Disse, enquanto ela se debruçava sobre ele. -Tô com bafo...
Mas ela o pegou pelo pulso com decisão e disse:
-Tudo bem... Ainda não escovei os dentes, também.
O beijou.
E enquanto ele segurava a parte de trás da cabeça dela com uma das mãos, e sua cintura com a outra, todos os parsec que separavam seus planetas de origem desapareceram, e ele deixou suas inseguranças pra lá.
Estava ocupado demais para elas, sendo feliz.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Resenha Cinema: Ben Hur
Eu devo ter assistido ao Ben Hur de 1959 ao menos uma vez considerando-se quantas vezes eu comecei a ver o filme, ou peguei partes dele passando na TV ao longo da minha infância e adolescência.
Vou confessar que, ainda que eu respeite a importância de Ben Hur para o cinema, seus onze Oscar e tudo mais, eu tenho um certo problema em avaliar esses longas megalômanos de outrora por conta da estética.
Eu não vou, obviamente, ficar fazendo piada com a forma de Charlton Heston atuar em Ben Hur ou em Os Dez Mandamentos, a sua abordagem para os papéis nesse filme seguem o modelo teatral e exagerado que os épicos de sandálias e espadas partilhavam nas décadas de 50 e 60, mas posto isso, se alguém atuasse da maneira como Heston, Yul Brynner e Victor Mature atuavam em seus épicos de sandálias e espadas cinquentistas hoje em dia, cuspindo texto de maneira empostada como se fosse Escritura, seria considerado um tremendo canastrão.
A estética do cinema mudou. As linguagens e formas narrativas, também, de modo que um filme parrudo e de queixo quadrado como o Ben Hur de 1959 (que por sinal já era um remake) poderia, sim, ganhar um remake com nova linguagem, estética e efeitos visuais. Num tempo como o nosso, onde remakes e adaptações são as molas que propulsionam o cinema, porque é que uma história universal como a de Judah Ben Hur ficaria de fora?
A ideia de uma nova versão era apenas natural.
O que eu jamais consideraria uma ideia das melhores era a empreitada ser dirigida por Timur Bekmambetov, o diretor cazaque de Guardiões da Noite, O Procurado e Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros.
O histórico do cineasta acenava com um Ben Hur repleto de explosões, edição surtada e efeitos digitais exagerados.
Ainda assim, ontem eu resolvi dar uma chance ao longa, e me surpreendi.
Ben Hur já abre com o início da sequência da corrida de bigas onde Judah Ben Hur (Jack Huston, de Boardwalk Empire e Trapaça) e Messala Severus(Toby Kebbel Quarteto F4antástico, World of Warcraft) se opõe no circo romano de Jerusalém.
Antes que os competidores ganhem a pista, porém, a narração de Morgan Freeman nos leva de volta oito anos no passado, quando Judah Ben Hur era um jovem príncipe judeu, e Messala o órfão romano adotado como filho por sua família.
Os dois cresceram como irmãos, e eram tão unidos quanto competitivos, mas Messala, que era apaixonado pela irmã de Ben Hur, Tirzah (a gatinha Sofia Black-D'elia), sabia que jamais teria a permissão da mãe dos irmãos, Naomi (A bonitona Ayeleth Zurer, de O Homem de Aço e Demolidor), para casar com ela.
É por isso que Messala resolve se alistar na legião romana, para ganhar status e fortuna, e ser mais do que um órfão.
Enquanto Messala vaga pelos quatro cantos do vasto império romano levando a justiça do imperador aos seus súditos e enfrentando os bárbaros por toda a parte, Ben Hur seguiu sua vida em Jerusalém.
Um jovem abastado, de alto nascimento e privilégio, Ben Hur não se importa com as lutas por liberdade dos zelotes judeus e suas rusgas com os conquistadores romanos. Tudo o que Ben Hur deseja é que as coisas continuem como estão.
Ele se casa com a escrava Esther (Nazanin Boniadi de Homeland), e conhece o jovem carpinteiro Jesus (Rodrigo Santoro) enquanto se mantém apartado das intrigas locais.
Quando Messala volta para casa, agora como um capitão do império romano com placa peitoral de cobre e elmo emplumado, ele e Ben Hur logo percebem que os três anos que passaram apartados não mudou o afeto que sentiam um pelo outro, mas alterou suas visões de mundo.
Quando uma tentativa de assassinato contra o governador Pôncio Pilatos ocorre na casa de Ben Hur, o romano deseja sangue.
Para salvar sua família, Judah assume a culpa pelo atentado, e enquanto sua mãe e irmã são condenadas à cruz, ele é levado para servir como escravo nas galés romanas até a morte.
Após cinco anos remando nos porões romanos, um evento fortuito liberta o ex-príncipe, que auxiliado pelo criador de cavalos e apostador de corridas de bigas Ilderim (Morgan Freeman), tem a chance de retornar à sua terra natal e buscar vingança contra Messala, mas talvez esse não seja o plano de Deus para Ben Hur.
Eu preciso dizer... Ben Hur me arrancou lágrimas.
O filme de fato funcionou pra mim e chega a ser difícil acreditar que Timur Bekmambetov tenha conseguido trabalhar o roteiro de Keith R. Clarke e John Ridley de maneira tão bem equilibrada entre as sequências de ação e o drama.
A ação, especialidade de Bekmambetov, por sinal, é muito boa...
A primeira grande sequência, nos porões do navio, toda mostrada do ponto de vista de Ben Hur e dos escravos nos remos é muito bem sacada, com uma montagem extremamente esperta. E a corrida de bigas do final do filme, é sensacional, com todo o cardápio esperado, condutores atropelados e arrastados, cavalos se empilhando e bigas capotando enquanto a tensão só aumenta rumo ao desfecho do sangrento espetáculo.
Mas por bem montada e espetaculosa que seja, a ação desse novo Ben Hur é secundária. O roteiro está mais interessado em contar a história de Judah em paralelo com a de Cristo. E a de Messala.
Toby Kebbel, por sinal, faz muito bem sua parte para contribuir nesse intento. O ator dá dimensões e profundidade ao personagem impedindo-o de se tornar um vilão óbvio e declarado.
Jack Huston não faz um Ben Hur de cara fechada que exala retidão como fizera Heston. Seu Ben Hur é afável, falho, por vezes hesitante, e perfeitamente crível. Os dois atores mandam bem como protagonistas.
Morgan Freeman é um ator que chegou a um patamar de sua carreira em que pode ficar vomitando sabedoria por uma hora com sua voz de veludo e nos convencer, e Rodrigo Santoro faz um Jesus digno e humano, com seu discurso de amor e esperança.
Nem tudo são flores, claro.
Personagens como Tirzah e Naomi são usadas como acessórios, e o segundo ato é um tanto arrastado, mas isso não chega a ser um pecado imperdoável, já que o primeiro ato é competente e o terceiro é acima da média.
Talvez o Ben Hur de 2016 não tenha a grandiloquência do antecessor de 1959, sua pretensão e fome de prêmios embrulhados em mais três horas e meia de megalomania... Mas isso não é uma grande perda.
A mensagem de redenção e amor da história está inteira lá, embrulhada em um filme pipoca divertido e bem feito.
E que vale demais a visita ao cinema.
Assista.
"Lembra-se de quando eu me feri e você me carregou com toda a sua força, o mais longe que pôde?"
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Rapidinhas do Capita
E o primeiro poster de Spider-Man: Homecoming caiu na rede.
A arte promocional com uma pose clássica do cabeça de teia foi avistada em um evento focado em produtos licenciados em Las Vegas, e logo caiu no instagram.
Bacana e simples.
Spider-Man: Homecoming, dirigido por Jon Watts e estrelado por Tom Holland estréia em 6 de junho de 2017.
Além de Holland, o elenco conta ainda com Marisa Tomei, Robert Downey Jr. e Michael Keaton, entre outros.
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John Williams confirmou que, nas próximas semanas deve assistir à uma versão prévia de Star Wars: Episódio VIII para iniciar seu trabalho na composição da trilha sonora do longa.
Responsável por oito em dez das mais memoráveis trilhas sonoras do cinema, e pelas músicas dos sete outros filmes da franquia, o octogenário compositor dono de 50 indicações ao Oscar será uma das primeiras pessoas no mundo a assistir à altamente antecipada sequência de O Despertar da Força.
Ainda sem título definido, Star Wars: Episódio VIII estréia em 15 de dezembro de 2017. As filmagens comandadas por Ryan Johnson, de Looper e A Ponta de um Crime já se encerraram.
Antes do episódio VIII, o universo Star Wars volta às telonas nesse ano com Rogue One: Uma História Star Wars.
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Sensação mista ontem, assistindo à partida comemorativa dos dez anos da primeira conquista da América do Internacional.
Um bálsamo ver jogadores identificados com o clube, vencedores e bons de bola atuando com a camisa colorada dos dois lados.
Triste perceber que até Dadá Maravilha e príncipe Jajá, já acima dos sessenta, correm e se apresentam mais pro jogo do que os atletas que compõe o elenco principal da equipe hoje.
O grupo principal do Inter, de vexatória campanha no atual brasileirão, deveria ter sido forçado a concentrar no estádio e assistir ao jogo para entenderem a real dimensão da camisa que defendem, e a estatura dos atletas que já a envergaram.
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sábado, 13 de agosto de 2016
Resenha Cinema: Negócio das Arábias
Eu sou um grande fã de Tom Hanks. Por sinal, conheço poucos fãs de cinema que não são.
Hanks estrela ao menos dois dos meus filmes favoritos, e uma infinidade de filmes que vão do muito bom ao excelente, além de uma porção de filminhos descartáveis que são simpáticos.
Devo confessar que fui assistir a esse Negócio das Arábias ciente de que o longa deveria se encaixar na última categoria. Descartável e simpático. Mais ou menos como Larry Crowne, por exemplo (que, diga-se de passagem, é até mais descartável do que é simpático).
A premissa, inclusive, é semelhante em certos aspectos. Negócio das Arábias, tal qual Larry Crowne, aborda questões pós-crise econômica americana de 2008. Um personagem que perdeu seu emprego e a estabilidade financeira e emocional que ele carregava consigo, e que precisa encarar um novo começo.
Por sorte, as semelhanças param por aí.
Negócio das Arábias abre com uma sequência de sonho onde o personagem de Hanks, Alan Clay, anda falando com a câmera sobre mazelas da vida conforme sua casa, carro e esposa de desvanecem em nuvens de fumaça, entrecortado com sua expressão atônita durante um passeio de montanha russa, e conforme Clay se pergunta "como eu cheguei até aqui?", nós sabemos que sua vida não seguiu o rumo que ele imaginava.
Clay desperta deste sonho em um avião rumo ao reino da Arábia Saudita.
Ele está indo ao país para tentar vender um sistema de teleconferência holográfico ao rei, que pretende construir, no meio do deserto, uma moderníssima cidade com um milhão e meio de habitantes nos próximos nove anos.
O negócio parece ser a última chance de Clay deixar pra trás seu passado desastroso nos negócios, quando transferiu a produção de bicicletas da Schwinn dos Estados Unidos para a China demitindo quase mil trabalhadores, uma iniciativa que obviamente não deu certo, e conseguir dinheiro para pagar pela faculdade de sua filha Kitty (Tracey Faraway).
Não deixa de ser irônico que, ao chegar à Arábia Saudita, Clay, que vende uma ferramenta para tornar possíveis reuniões entre pessoas que não estão no mesmo lugar, jamais encontre o rei saudita, porque ele nunca está na cidade que ainda não existe.
Alan viaja uma hora diariamente do seu hotel até a sede do projeto de cidade real apenas para ser informado pela recepcionista de que o rei não está, mas que talvez esteja amanhã... Ou depois... Ou depois...
A viagem se estende de maneira indefinida por conta da indiferença real, e com sua equipe técnica passando os dias em uma tenda no meio do deserto, sem Wi-Fi, comida ou ar-condicionado, sendo pressionado por seu chefe nos Estados Unidos a obter resultados, sofrendo de um interminável jetleg que jamais o deixa acordar na hora, forçando-o a utilizar repetidamente os serviços do motorista e guia Yusef (Alexander Black), Alan logo descobre um perturbador caroço em suas costas.
Não tarda para que o vendedor logo eleja aquele caroço como sua kryptonita pessoal, culpando-o por todas as suas mazelas enquanto escreve cartas para sua filha e tenta se ajustar à uma realidade surreal que lembra a interminável rotina de dias repetidos do Phil de Feitiço do Tempo.
É justamente quando resolve reagir que Alan percebe que, mesmo os menores gestos, podem render frutos.
Ao desobedecer a recepcionista e não esperar no saguão, ou ao desobedecer as leis sauditas e entrar em Meca com seu guia que teme ser assassinado pelo marido da amante, ou ao desobedecer o senso comum e explorar seu calombo com uma faca...
Os pequenos gestos de desafio rendem pequenas recompensas que, na narrativa do diretor e roteirista Tom Tykwer ganham ressonância na vida comezinha de Alan.
Conforme firma pequenos laços com Yusef, e posteriormente com sua médica, doutora Zahra (Sarita Choudhury), Alan vai percebendo novos horizontes se abrirem diante dele, e a possibilidade de, finalmente, encontrar um novo começo.
Muito da qualidade do longa repousa na presença de Tom Hanks, um ator muito acima da média com carisma de sobra pra carregar um filme nas costas e que tem uma qualidade de homem comum que o torna perfeito para determinados papéis.
Negócio das Arábias não tira Hanks de sua zona de conforto, nem demanda um grande trabalho de intérprete, ainda assim, o vencedor de dois Oscar é alguém a quem gostamos de assistir até quando atua meio no piloto automático, reproduzindo situações que já vimos antes (mais explicitamente Mensagem pra Você e Splash: Uma Sereia em Minha Vida).
No elenco, que conta com Tom Skerritt, Sidse Babett Knudsen e uma ponta de Ben Whishaw, destacam-se Alexander Black que, a despeito de ser menos árabe do que eu, faz um bom trabalho na "coadjuvância" de Hanks, com seu Yusef mantendo uma camaradagem crescente para com Alan que é crível e doce.
Sarita Choudhury também se destaca, emprestando sobriedade e vida à Zahra, pivô da subtrama romântica que movimenta o terceiro ato do filme, mas é o protagonista quem comanda a bagaça.
Hanks consegue nos fazer rir dele e lamentar sua sorte, e até mesmo nos preocupar com sua "maldita boa saúde", e ainda que a adaptação do livro de Dave Eggers seja um filme irregular, que perde muito de sua qualidade surreal ali pelo meio do segundo ato, é um feelgood movie bastante satisfatório.
Conforme eu disse lá em cima, descartável e simpático.
Não renderá novas láureas a Hanks, tampouco ficará na mente da audiência por muito, mas provém uma hora e meia de distração honesta.
"-O rei não vem aqui há algum tempo...
-Quanto é 'algum tempo?
-Bem, eu estou aqui há dezoito meses e ainda não o vi."
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