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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Resenha DVD: Em Ritmo de Fuga


Eu tenho, e já admiti, uma implicância inexplicável com musicais. Uma aversão à ideia em si, que não necessariamente se traduz em aversão aos exemplares que eu me arrisco a, de fato, assistir... Mesmo filmes como La La Land, que me causava urticária à sua simples menção à época em que era só do que se falava nas conversas sobre cinema, são espetáculos que, no momento certo, sob a devida atmosfera, se tornam passatempos dos quais eu sou capaz de usufruir e torno-me incapaz de odiar após conferir, ainda que me dispusesse a fazê-lo com grande entusiasmo, antes.
Li muito pouco sobre Em Rito de Fuga antes do lançamento do filme, mas uma das coisas que li, sobre o longa ser baseado em um videoclipe dirigido por Edgar Wright, o gênio por trás da trilogia Cornetto e de Scott Pilgrim Contra o Mundo, foi o suficiente para me fazer ignorar o filme durante sua breve passagem pelo circuito de cineplexes em Porto Alegre (ou ao menos parece-me que foi breve. Não tenho certeza pois não prestei atenção).
De qualquer sorte, pouco impressionado com a premissa do jovem boa-pinta que é piloto de fuga após Carga Explosiva e Drive, eu deixei o filme pra lá.
Até sexta, quando, ao passar pela locadora, na falta de algo mais para ver, acabei locando o filme, e percebendo o tamanho do meu erro em tê-lo ignorado no cinema.
Em Ritmo de Fuga conta a história de B-A-B-Y, Baby (Ansel Elgort), um jovem que é um capeta atrás de um volante e usa suas incríveis habilidades como motorista a serviço de Doc (Kevin Spacey).
Doc é um chefão do submundo, especialista em organizar assaltos. Ele jamais usa a mesma equipe duas vezes, embora trabalhe geralmente com as mesmas pessoas. A única coisa constante nos trabalhos organizados por Doc é Baby, o piloto de fuga que sempre escapa e que se tornou um tipo de amuleto para Doc com o passar dos anos.
O acordo de Doc com Baby é ligeiramente diferente do acordo dele com seus demais contratados. Ainda criança Baby roubou um carro de Doc. O veículo estava carregado com bens valiosos e, em troca do perdão por sua falta, Baby tem trabalhado para Doc desde então e devolvido a imensa maioria dos lucros do serviço ao seu empregador para saldar sua dívida.
Introspectivo Baby, que sofreu um acidente automobilístico na infância que o deixou com um zumbido no ouvido, está sempre com fones escutando música. Isso faz com que o mundo dance ao redor de Baby ao som do que quer que ele esteja ouvindo no momento.
O som, ele explica, o ajuda a se concentrar, e dirigir perigosamente é a sua única válvula de escape.
Dirigir e gravar fragmentos de conversas ao seu redor e os transforma em breves remixes musicais que o ajudam a manter-se conectado com seu dia após dia.
Mas o trabalho como piloto de fuga é apenas uma pequena parte da vida de Baby. E, embora seja uma com a qual ele tem que lidar, não é a mais importante.
A música é importante. Seu pai adotivo Joseph (C. J. Jones), que gosta de sanduíches com a pasta de amendoim espalhada até as beiradas do pão e de "ouvir" música através das vibrações das caixas de som de casa é importante, e, quando Baby acerta sua ´divida com Doc, a garçonete Debora (Lily James) também se torna uma parte importante da vida de Baby, que se prepara para se endireitar e deixar o passado de crime pra trás.
Ao menos até Doc ressurgir à sua porta com uma oferta que Baby, literalmente, não pode negar, colocando o jovem piloto e todos a quem ele ama em risco.
Em Ritmo de Fuga é ótimo.
O longa dá uma respirada em meio a super-heróis, robôs gigantes, remakes e sequências para ser apenas um bom filme de assalto à moda antiga. Mesmo se fosse apenas isso, Em Ritmo de Fuga já mereceria um aplauso ou a deferência de uma espiada, mas Edgar Wright tem muito mais a oferecer.
Vários diretores são capazes de escolher grandes trilhas sonoras, alguns conseguem transformar a trilha em personagens, mas Wright vai além, ele torna a trilha um personagem imprescindível, trabalhando sempre em uníssono com a ação na tela desde a primeira ótima sequência de perseguição do longa após Darling (Eiza Gonzáles), Buddy (Jon Hamm) e Griff (Jon Bernthal) assaltarem um banco no centro de Atlanta.
Dali pra frente, nós passamos o tempo inteiro esperando pela próxima canção, e como ela irá se encaixar para embalar o mundo quando sair de um dos inúmeros I-Pods de Baby.
As ótimas sequências de ação e uma trilha inspirada, porém, são apenas parte do cardápio.
Wright manja demais de escolher elencos, e não faz diferente aqui.
Ansel Elgort, Lily James e C.J. Jones são adoráveis, cada um a seu modo. Não estamos apenas torcendo por eles, estamos REALMENTE torcendo por eles. Nos importamos com esses personagens e queremos que eles fiquem bem.
Seria muito fácil contrapor esse trio de gente-boas a um bando de vilões escrotos uma barbaridade, mas não é o que ocorre aqui.
Mesmo vilões óbvios como o Doc de Kevin Spacey e o Bats de Jamie Foxx têm profundidade, e conseguem ser tão divertidos ou ternos quanto perigosos quando o momento se apresenta.
Não há personagem que não tenha sido cuidadosamente imaginado por Wright, que além de diretor é o roteirista do filme, como uma pessoa real, com dimensões e profundidade, da balconista dos correios ao sobrinho de Doc, passando pelo assaltante que trocou a tatuagem da palavra Hate (ódio) em seu pescoço por Hat (chapéu) e o desenho de um chapéu para melhorar suas chances de conseguir um emprego porque, afinal, quem não gosta de chapéus?
A mão privilegiada de Wright para equilibrar ação, tensão e comédia não é novidade para quem acompanha seus outros trabalhos, e esse balanceamento beira tanto a perfeição neste filme que eu me peguei realmente lamentando que o cineasta tenha saltado fora de Homem Formiga.
Em pouco menos de duas horas de ação, adrenalina, comédia e música, Edgar Wright e companhia fizeram, senão um dos melhores filmes, certamente uma das mais divertidas sessões de cinema do ano, seja num cinema de verdade, ou no sofá de casa.
Certamente vale a locação.


"-Quer dizer, ele é retardado?
-'Retardado' significa 'lento', ele foi lento?"

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Resenha DVD: Atômica


Quando o trailer de Atômica caiu na internet alguns meses atrás eu realmente fiquei com vontade de ver o filme. Não apenas por parecer um James Bond de saias, ou acenar com uma sequência de sexo lésbico entre a protagonista Charlize Theron e Sofia Boutella, ou mesmo por ser um longa de David Leitch, co-diretor de De Volta ao Jogo, que prometia pancadaria de fundamento no longa metragem, mas por todos esses fatores combinados ao talento de Charlize Theron que, depois do festival de canastrice de Velozes & Furiosos 8, precisava de algo para se redimir...
Não consegui assistir ao filme no cinema. Ando preguiçoso com cinema esse ano. E desapontado... Mas peguei o filme pelo pé assim que ele chegou à locadora nessa semana, e o assisti ontem.
Atômica narra a história de Lorraine Broughton (Theron) uma espiã do MI-6 britânico que, às vésperas da queda do muro de Berlim, é incumbida de viajar à Alemanha para investigar o assassinato de um colega e recuperar arquivos confidenciais com uma lista de nomes de agentes duplos.
Para tanto, ela entrará na Alemanha sob o disfarce da representante legal da família do agente falecido tentando recuperar o cadáver. Usando a rede de contatos do agente David Percival (James McAvoy), chefe da estação britânica em Berlim, ela vai mergulhar de cabeça em uma intrincada trama de enganação e espionagem durante os estertores da Guerra Fria, onde ela precisará usar toda a extensão de seu vasto rol de habilidades para, mais do que cumprir sua missão, sobreviver à ela, em um arriscado jogo onde as únicas opções são vencer ou morrer...
É justo dizer que, se Atômica se chamasse "Atômico", e fosse exatamente o mesmo filme, mas estrelado por um homem... E não necessariamente um mau ator, mas por um sujeito de razoáveis habilidades dramáticas, tal qual um Chris Evans ou Charlie Hunnam, provavelmente seria um lançamento direto pra DVD para o qual ninguém ligaria.
Muito da graça de Atômica vem do fato de termos uma loira bonita e de aparência delicada caindo na porrada e fazendo proezas físicas como saltar de uma sacada usando uma mangueira de jardim como corda de segurança, ou saindo no braço com meia-dúzia de policiais alemães em um apartamento... Se tivéssemos um sujeito boa-pinta com físico de action hero no papel, não teria nem metade do impacto.
Especialmente porque Atômica não chega a ser um primor em sua trama algo genérica. O roteiro de Kurt Johnstad, baseado no gibi de Antony Johnston e Sam Hart é uma correta história de espionagem durante a Guerra Fria que, vez que outra, escorrega na hiper-exposição e chega a dar a impressão de se achar mais esperto do que realmente é, fato que podemos relevar pelo voto de confiança que Leitch e Johnstad dão à audiência ao suprimir praticamente qualquer informação a respeito de Lorraine além de um breve resumo de seus conjunto de habilidades e um breve flashback onde revela-se que ela teve um envolvimento com o agente cuja morte catalisa a história.
Com um intérprete menos hábil no papel central, o longa poderia ser um daqueles filmes que passam de tarde no Telecine Action; por sorte, a estrela é Charlize Theron, que transpira talento.
A protagonista pega a falta de background da personagem e usa isso para torná-la genuinamente misteriosa. Ao invés de vazia, ela se torna ensimesmada.
Ela tem um olhar de mormaço, um quê de diva enfarada, que torna seus prodígios físicos convincentes. Quando Lorraine ri da expressão "superiores" durante o interrogatório pós-missão, nós concordamos com ela. Os burocratas engravatados do outro lado da mesa não são seus superiores. Lorraine anda o tempo todo preparada para ser atacada tanto por ser espiã quanto por ser uma mulher. Sua "poker face" é sua primeira linha de defesa antes de pontapés, murros, tiros e facadas, e porque sua poker face é convincente, também são suas sequências de ação.
E elas são ótimas. As lutas são encenadas com garra pela sul-africana, e em nenhum momento ela parece super-humana ao enfrentar marmanjos com o dobro de seu tamanho. Ela se arrebenta inteira, e precisa usar técnica e surpresa para subjugar seus antagonistas, quando isso não funciona, as lutas se tornam mais complicadas para Lorraine e ela apanha um bocado, precisando improvisar para sobreviver em sequências de ação ao melhor estilo The Raid, filmadas com galhardia por Leitch, por vezes em tomadas sem cortes visíveis onde a câmera persegue os lutadores pelo cenário.
Somando-se ao talento dramático de Theron e à mão privilegiada de Leitch pra pancadaria, há uma fotografia bem sacada de Jonathan Sela, que deixa tudo meio cinzento a maior parte do tempo, contrastando com neons vermelhos e azuis estrategicamente posicionados nas decorações do filme, e uma trilha sonora com tudo a que uma ambientação oitentista tem direito.
No elenco há Toby Jones, James Faulkner, Sofia Boutella, Til Schweiger, Bill Skarsgård, Eddie Marsan e John Goodman, mas não tem pra ninguém:
Charlize Theron desfila majestosa por cada cena memorável do filme, e o carrega em suas costas delicadas durante pouco menos de duas horas oferecendo ao que seria um filme esquecível a chance de se tornar um bom programa.
Vale a locação.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Trailer de Vingadores: Guerra Infinita

E houve um dia, um dia como nenhum outro dia, quando a Marvel divulgou o trailer de Vingadores: Guerra Infinita:



Estrelado por todo mundo que ainda está vivo no Universo Cinemático Marvel e dirigido pelos irmãos Russo de Capitão América 2 e 3, Vingadores: Guerra Infinita estréia em 26 de Abril de 2018.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 13: Memento Mori


O final de temporada de O Justiceiro chegou com o confronto que todos estavam esperando. Após cuidar de Rawlins, era hora de Frank Castle acertar as contas com o amigo que o traiu, Billy Russo, e fechar a conta de sua vingança de maneira definitiva, mas antes, Frank precisava de cuidados médicos.
A surra que Rawlins aplicou em Castle no capítulo anterior não foi pouca coisa, e sem a ajuda de Micro, de Madani, e do pai dela, o cirurgião Hamid Madani (Houshang Touzie) Castle talvez não tenha gás para dar o próximo passo. Enquanto Castle luta por sua vida, Billy Russo se prepara para fugir de Nova York após o fim de sua operação com a CIA. Ele, porém, não quer deixar pontas soltas, não conhecendo Frank, e ele parte em busca de uma apólice de seguro para o confronto derradeiro que se desenha em seu horizonte.
O desfecho do primeiro ano de O Justiceiro chegou com rotação menos acelerada do que o episódio anterior, mas ainda comparável aos melhores momentos da temporada. Memento Mori é um ótimo capítulo, com as reverberações dos acontecimentos da série se sobressaindo frente à ação.
Claro, há boas cenas de ação no episódio, óbvio, mas elas empalidecem na comparação com ao menos dois grandes momentos do season finale, o primeiro deles, sem dúvida, o flashback mostrando a família Castle indo ao parque junto com o "tio Bill".
A cena que antecede o último encontro entre Frank e Billy é perfeita para ilustrar o tamanho da animosidade entre os dois, do rancor de Frank sente por ter sido traído por alguém que era parte de sua família, e do longo percurso que Russo trilhou para se tornar o homem que aguarda Frank no carrossel para um duelo.
Billy não se tornou um vilão do dia pra noite, mas foi lentamente deixando que suas ambições e traumas o transformassem em um sujeito amoral e egoísta, incapaz de ver além do próprio umbigo. As interações entre Bernthal e Barnes estão entre as melhores coisas dessa primeira temporada de Justiceiro, com sorte veremos mais disso na segunda temporada.
O outro momento é a forma como Frank escolhe lidar com a situação após seu desfecho.
Se Frank tivesse simplesmente recomeçado sua vida, a série estaria sendo desonesta com seu desenrolar. Frank não demonstra culpa, mas há tristeza e pesar genuínos nele quando ele pesa a sua vingança.
Se o Justiceiro dos quadrinhos é uma máquina de guerra irresistível em sua luta para levar terror e morte aos criminosos, o Justiceiro trazido à vida na série é uma pessoa de carne e osso com sentimentos e remorso verdadeiros, que fez o que julgou necessário e terá que conviver com essa decisão nos dias vindouros, esse retrato se despede de nós de maneira vívida graças à interpretação de Jon Berthal, que mantém a excelência de seu trabalho em cada cena.
Da mesma forma, Ebon Moss-Bachrach mostrou uma química insuspeita com Bernthal, e em diversas ocasiões a amizade entre Frank e David foi o coração de O Justiceiro. Micro apareceu pouco nesse capítulo final já que seu arco na série estava concluído após ele recuperar sua família e sua vida, mas eu francamente espero que voltemos a vê-lo.
Se a série sobre Frank Castle ficou devendo em algum ponto, foi no núcleo da Segurança Nacional de Dinah Madani, que começou e terminou a série sem dizer a que veio, soando sempre como intrusos de uma outro programa aparecendo de penetra.
A primeira temporada de O Justiceiro estabelece a série como o o segundo melhor produto Marvel/Netflix quase em pé de igualdade com Demolidor. A mera coragem de tocar em assuntos delicados como transtorno de estresse pós-traumático, controle de armas e em humanizar um assassino em massa com uma caveira pintada no peito sem cair no ridículo merece aplausos mesmo que nem tudo funciona à perfeição.
Grande trabalho de elenco e equipe de produção equilibrando drama e ação com tremenda qualidade, e O Justiceiro finca o pé como uma das melhores adaptações de quadrinhos no mercado atua em qualquer mídia.
Bem vindo, Frank. Espero vê-lo de novo no ano que vem.

"-Sabe, enquanto eu estava na guerra, eu nunca pensei no que aconteceria depois. No que faria quando acabasse. Mas acho que é isso, sabe? Acho que pode ser a parte mais difícil. O silêncio. O silêncio quando o tiroteio acaba. É como... Como viver desse jeito? Acho... Acho que é o que vocês todos estão tentando descobrir. É o que vocês estão fazendo. Estão trabalhando nisso. Eu respeito isso. Eu só... Se vai olhar pra si mesmo. Olhar bem no espelho, tem que admitir quem é... Mas não só pra si mesmo... Tem de admitir a todos. Pela primeira vez que me lembro não tenho uma guerra pra lutar. E acho que, sendo sincero, eu só... Estou com medo."

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 12: Home


Atenção! Há spoilers do episódio abaixo!
O episódio 11 de O Justiceiro, Danger Close, se equiparara aos melhores momentos da série solo do vigilante mais sanguinário dos quadrinhos. Home, porém, deu um passo além, e foi, sem sombra de dúvida, o melhor capítulo da jornada solo de Frank Castle.
Frank e David vão até Madani e oferecem seus testemunhos para a Segurança Nacional antes de colocar em prática um plano suicida para recuperar Sarah e Zach das mãos de Billy Russo e Rawlins em um arriscado movimento que coloca o Justiceiro nas mãos de seus inimigos e em uma batalha definitiva de vida ou morte.
Se Home fosse o último episódio de O Justiceiro, teria sido o proverbial fecho de ouro para uma série que sempre foi muito acima da média das adaptações de quadrinhos televisivas.
Numa das melhores decisões narrativas do programa, o episódio colocou a audiência dentro da cabeça de Frank Castle enquanto ele decidia se era hora de se juntar à sua esposa e filhos na morte, ou se tentaria se manter respirando para lutar por mais um dia.
As cenas onde Frank e Maria (Kelli Barrett) dançam em um cenário onírico quando o espancamento de Rawlins se torna mais feroz e sangrento são sensacionais para nos aprofundar na psique do Justiceiro, e nos mostrar que, por mais que valorize a sua família, Frank é, acima de tudo, um soldado com uma missão, e não há descanso enquanto a missão não for cumprida. O que significa más notícias para Rawlins e para Billy.
Rawlins, aliás, seguiu com seu papel de vilão genérico nesse episódio. Sim, ele torturou Frank com vontade durante quase o capítulo inteiro, mas isso não o tornou um personagem mais interessante em nenhuma medida já que conhecemos o agente da CIA em uma sessão de tortura.
Entre os vilões da trama, Billy segue sendo o mais interessante, e sua interação com Frank durante um intervalo no espancamento de Rawlins, onde ele assume seu papel na morte da família Castle, parece ser muito mais dolorido para Frank do que qualquer um dos socos do Agente Laranja.
Os escritores da série fizeram um trabalho sensacional ao tornar Billy Russo um vilão humano e cheio de camadas, a quem a audiência pode entender, mesmo se não possa gostar ou aprovar. O desenvolvimento do personagem foi louvável ao longo de toda a temporada, e o trabalho de Ben Barnes com o material é ótimo, tornando a jornada de Billy absolutamente plausível e crível, um dos pilares da série.
Outro pilar da série é Ebon Moss-Bachrach. O personagem que surgiu como um maluco algo arrogante escondido em um porão qualquer passou por uma transformação sutil ao longo dos últimos onze capítulos. Sua aliança com Frank se tornou uma verdadeira amizade, e mudou sia visão de mundo. O David Lieberman que luta para salvar seu amigo não é o mesmo que perseguiu Frank Castle com sistemas de vigilância intrincados no início da temporada. Ele é um sujeito que foi impregnado com o senso de justiça bíblico preto no branco de Frank, e está disposto a lutar por isso.
A cena onde ele implora pela vida de seu amigo é ótima, mas quando ele desafia Madani a respeito de como se faz para levar justiça a homens como Russo e Rawlins é que nós somos capazes de vislumbrar a evolução desse personagem.
Jon Bernthal segue sendo um capítulo à parte. Seu trabalho à frente de O Justiceiro é digno de premiação. Muito das razões para que vejamos Frank como uma pessoa dolorosamente atormentada e não como uma máquina de matar movida a desejo de vingança passa pelo trabalho do ator que empresta uma humanidade quase dolorosa ao anti-herói. As lágrimas que ele derrama ao descobrir que Billy sabia que sua família seria assassinada são de partir o coração, e conseguir emprestar esse tipo de emoção a um personagem que passou a maior parte da temporada empapado do sangue de seus inimigos é testemunho do talento de Bernthal.
Quem não tem tanta sorte é Amber Rose-Revah. Dinah Madani segue sendo uma personagem que parece tão perdida na trama quanto o Rawlins de Paul Schulze. Enquanto os três personagens centrais da trama têm objetivos definidos e que são integrais à trama, Madani está ali orbitando a jornada desses três sem, de fato, ser mais do que um acessório da história, servindo apenas para ocupar o meio-campo entre esses três homens e a lei. Veremos o que o futuro reserva para ela no capítulo derradeiro da temporada. Enquanto isso, Home se garante como o melhor capítulo de O Justiceiro até aqui, e provavelmente um dos três melhores episódios de qualquer série da Marvel/Netflix.
A luta de Frank para escolher entre vida e morte garantiu uma hora de entretenimento com coração e alma graças aos trabalhos inspirados de Bachrach, Barnes e especialmente Bernthal.


"-Esse homem está morrendo pela sua justiça, que tal fazer alguma pra ele?"

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 11: Danger Close


O Justiceiro vinha de dois ou três episódios um pouco irregulares na comparação com seus melhores momentos. Seguia acima da média, mas picos de qualidade como Kandahar, Gunner e The Judas Goat ainda não haviam sido alcançados novamente.
Até Danger Close.
Após descobrir a traição de Russo, salvar Karen e impedir que Lewis Wilson sucedesse em suas aspirações terroristas, Frank, todo estropiado, retorna ao esconderijo, onde remói as traições de seu passado recente, o linchamento que a opinião pública faz contra ele, e toma a decisão de assumir a fama de bicho-papão que todos lhe atribuem de uma vez por todas.
Os planos de Frank de levar o inferno a seus inimigos, rompendo sua aliança com Micro, porém, são impedidos por Rowlins.
O agente corrupto consegue autorização de Marion James para utilizar o sistema de vigilância da CIA em Nova York na busca por Frank, isso o leva direto até a família Lieberman após Zach (moleque pentelho do caralho), ficar furioso com a revelação de que Pete Castiglione é, na verdade, Frank Castle, e fazer uma denúncia anônima.
Isso coloca o moleque e Sarah na mira de Billy Russo, e Frank e David na mira dos mercenários da Anvil que são enviados ao esconderijo de Micro, onde Frank, novamente envergando a caveira branca sobre o colete negro, os aguarda para levar sua vingança até o próximo nível.
Danger Close voltou ao que funciona em O Justiceiro sem dó nem piedade e entregou exatamente o que os fãs do Justiceiro poderiam desejar.
O banho de sangue resultante da invasão dos mercenários de Billy à casa segura de Micro é um espetáculo de ação digno de John Wick, o interessante, porém, é que apesar de mostrar a faceta assassina fria e eficaz de Castle, não esqueceu de humanizá-lo.
Após o massacre, Frank está sentado em meio aos cadáveres, olhar vazio, exausto, quase amortecido, como se não tivesse mais nada para oferecer.
A coragem de O Justiceiro de humanizar e dar consciência a um personagem que é, em essência, um assassino em série, é louvável. E mesmo quando as coisas não funcionam como deveriam, O Justiceiro continua sendo uma série acima da média.
O ponto aqui é saber o quanto se pode humanizar Frank sem matá-lo. O Justiceiro não é um super-herói. Nao tem super-força, super-sentidos ou pele impenetrável. Ele é um soldado altamente especializado, mas não creio que haja dúvidas de que ele só pode ir até certo ponto antes de sofrer uma lesão fatal ou incapacitante, e mesmo Micro, ao ver Frank chegar ao esconderijo sangrando feito um porco, lhe avisa que a cruzada deles precisa terminar em algum momento.
Resta saber se a jornada de Frank realmente termina com a vingança pela morte de sua família, ou se, como acontece nos quadrinhos, ele resolve assumir para si a responsabilidade de levar morte e destruição a todos os criminosos.
De qualquer forma não foi apenas a ação que funcionou em Danger Close.
O reencontro de David com Leo (Ripley Sobo) foi tocante, e a hesitação do hacker ante a perspectiva de rever sua filha foi um show à parte de Ebon Moss-Bachrach. Ver que Madani finalmente pode se juntar a Frank e Micro, também foi um alento, embora isso esteja se arrastando há mais tempo do que deveria. Entre as coisas que não funcionam, conforme vai se desenhando que Billy não deverá se tornar Retalho (ao menos não tão já), Rowlins se torna o grande antagonista da temporada.
Se for o caso, ele provavelmente é o pior vilão de uma série da Netflix desde o Cascavel de Luke Cage.
Todos conhecem o sujeito corrupto de move céus e terras e trai até a mãe para manter suas mãos "limpas", mas francamente, ver Rowlins discursando e tramando ao longo dos capítulos dificilmente o torna um antagonista digno de nota e, pra ser bem honesto, eu não vou ficar particularmente mais satisfeito de ver Frank explodir a cabeça dele com um balaço no final da temporada do que ficaria com qualquer outro capanga malvado.
De qualquer forma, Danger Close foi mais um ponto alto da série que se consolida como um dos melhores produtos da Marvel na Netflix, e que entra em sua reta final em alta octanagem.

"-É, bem sutil. Nunca vão vê-lo se aproximando.
-Quero que me vejam."

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Resenha Série: O Justiceiro, Temporada 1, Episódio 10: Virtue of the Vicious


Virtue of the Vicious, décimo capítulo de O Justiceiro, usou um artifício interessante ao mostrar os mesmos eventos através de diversas perspectivas conforme saltava pra frente e pra trás no tempo.
Por um lado, eu sou um grande fã desse tipo de artifício narrativo, mas por outro, as idas e vindas no tempo acabaram tirando um pouco do foco de capítulo, que deveria ser o desfecho do arco de Lewis Wilson, que foi de jovem traumatizado após o serviço militar a terrorista assassino nos últimos capítulos.
O episódio está centrado nas tentativas do sargento Mahoney (Royce Johnson) de remontar o quebra-cabeças de destruição e morte após uma tentativa de assassinato contra o senador Stan Ori por parte de Lewis e, ao que tudo indica, Frank Castle.
Ao longo de 49 minutos nós acompanhamos as versões de Billy Russo, do senador Ori, de Dinah Madani e de Karen Page sobre o que aconteceu naquele hotel durante o atentado, recebendo mais fragmentos de informação a cada novo depoimento.
O resultado é irregular. Se por um lado faz maravilhas pela ação, com algumas das melhores sequências da série, por outro, a narrativa novamente tem sua dinâmica prejudicada pelo vai e vem da história, e, outra vez, o debate vazio sobre controle de armas (inclusive com o senador escamoso que defende as restrições revelando-se ainda mais covarde do que inicialmente mostrado) interrompe o andamento da trama com nenhum efeito.
Da mesma forma, a linha narrativa paralela de Lewis se encerra de uma maneira algo abrupta. Havíamos passado tanto tempo com esse personagem, vendo suas dificuldades para se reintegrar à vida civil, havíamos conhecido seu pai e visto sua relação com Curtis se deteriorar até o ponto sem volta de Front Toward Enemy, que eu francamente achei que ele teria uma função maior na trama.
Confesso que quando o vi enchendo uma lata de pregos dentro de uma panela de pressão, supus que ele seria responsável pela transformação de Billy Russo em Retalho, algo que não aconteceu.
De qualquer forma, Lewsis não apenas não teve papel fundamental em nenhum grande evento do plot dessa primeira temporada (ao menos até esse décimo capítulo, que parece a despedida do personagem da série), mas também não vimos como a sua transformação em terrorista afetou seu pai, se Curtis ainda seria capaz de sentir compaixão por ele e tentar salvá-lo, e nem nada do tipo. Com alguma sorte esses núcleos podem ser revisitados de maneira a oferecer um pouco mais de encerramento a esse personagem que acabou se destacando tanto por seu tempo em cena, quanto pelo ótimo trabalho de Daniel Webber.
A Karen Page de Deborah Ann Woll que havia parecido deslocada na trama desde sua segunda aparição, quase como que forçando a relação de O Justiceiro com o resto do universo Marvel da Netflix, finalmente voltou a ter função.
A cena onde ela e Frank se despedem no elevador é excelente, e reforça a importância da personagem para o protagonista. À essa altura, Karen é uma das únicas pessoas a quem Castle pode se referir como uma amiga. Explorar o lado mais humano de Frank vem sendo uma das melhores sacadas com o personagem desde seu arco em Demolidor, então foi bem ver isso aflorar naquela sequência. O olhar de Frank, todo esgualepado, quando Karen o abraça, é tocante, lhe oferece a humanidade que o restante do episódio, muito mais focado na forma como cada pessoa que oferece seu testemunho o vê, lhe sonegou.
Falando nas visões que os personagens têm uns dos outros, Madani pode ter tido uma revelação para fazê-la repensar suas alianças. Talvez agora, com o luto por Stein devidamente cumprido e novas informações em seu poder, ela possa deixar de ser o ponto mais fraco da série e assumir um lugar de destaque mais proativo na trama. Um vislumbre disso já foi dado na cena da escada, uma ótima sequência que poderia ter sido muito mais tensa sem a narrativa fragmentada.
Apesar de algumas más decisões narrativas, o capítulo foi sólido, e ter um episódio como esse sendo um dos piores da série é testemunho da força de O Justiceiro.
Faltando três episódios para o final, algumas das histórias paralelas se encerram dando espaço para que a trama principal receba a merecida atenção.

"Lembre-se que é ruína fugir de uma luta, então aguarde ordem aberta, deite-se e espere apoio como um soldado. Espere, espere, espere como um soldado."