Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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domingo, 17 de junho de 2018
O Escudo do Novo Star Wars
Fiz uma descoberta terrível essas últimas semanas.
Algo que não teria descoberto se a mídia não tivesse, encarecidamente, me avisado.
Descobri, essa semana, que sou um misógino sexista, racista, e homofóbico.
Coisas que, francamente, desprezei desde que sou capaz de compreender os conceitos. Valores que eu honestamente abomino e, os quais descobri, casualmente, que partilho.
E eu nem imaginava...
Sempre me julguei favorável à igualdade de gênero, raça e opção sexual... Sempre vi a todos como iguais, sempre me esforcei para ter certeza de defender valores humanistas (e seculares) que vissem além de rótulos rasos como gênero, cor da pele ou opção sexual, mas subitamente fui iluminado e ganhei consciência de que sou o tipo de verme preconceituoso que sempre me causou ojeriza, o tipo de pessoas torpes aos quais sempre me referi como "escrotos do caralho".
Foi em meio à celeuma que se formou entre a base de fãs de Star Wars e a Lucasfilm, agora parte do conglomerado da Disney.
Houve, pelo que entendi, um boicote organizado a Solo: Uma História Star Wars nos EUA, e, havendo relação, ou não, o filme tem feito uma carreira extremamente prejudicada nas bilheterias do mundo todo.
Solo estreou em um final de semana prolongado arrecadando abaixo das projeções, e ficou uma única semana na primeira colocação nas bilheterias tornando-se o Star Wars mais pobre da história da franquia em todos os tempos.
Enquanto o filme naufragava nas bilheterias, uma nova celeuma surgiu, com a atriz Kelly Marie Tran, a Rose de Os Últimos Jedi, tendo deletado sua conta no Instagram por conta do assédio dos fãs de Star Wars.
Isso foi suficiente para que uma enorme fatia da mídia assumisse o lado de Tran, e passasse a se referir a todos os fãs de Star Wars como homens brancos gordos e preconceituosos que se desesperam ante a visão de personagens femininas fortes e que são incapazes de aceitar que Star Wars agora é um produto multicultural muito maior do que sua base de fãs.
Deixe-me começar dizendo que, quem quer que tenha resolvido dedicar tempo a atormentar Kelly Marie Tran nas redes sociais é um imbecil.
Mais do que isso, qualquer pessoa que tenha odiado Kelly Marie Tran e Rose Tico, apenas por ser uma mulher asiática, também é um imbecil.
E eu digo isso nos sapatos de alguém que odiou Rose Tico por ser uma personagem mal escrita, irritante, sem nada a agregar ao pior filme da franquia Star Wars em todos os tempos, mas que sabe que Kelly Marie Tran estava ali apenas no exercício de seu ofício, interpretando um papel escrito por um roteirista que, mesmo sendo um péssimo escritor de Star Wars, também não merece ser alvo de ódio (no máximo de desprezo, que é o que sua vindoura trilogia original Star Wars receberá de minha parte).
Posto isso, gostaria de me dirigir às pessoas que acreditam que os fãs de Star Wars que não gostaram do momento da série a partir do episódio VII são caras brancos e gordos machistas, racistas e/ou preconceituosos... Eu sou um branco (Nos EUA eu seria considerado "latino"? É possível... Me chamo Rodrigo Garcia...) gordo.
Mas não sou machista, racista ou preconceituoso.
Se os novos Star Wars fossem estrelados por Rey, vivido por Chris Hemsworth, Finn, vivido por Chris Pine, e Poe Dameron, vivido por Chris Evans, esses filmes continuariam tendo os mesmos problemas narrativos que incomodam até mesmo aos fãs capazes de perdoar George Lucas por A Ameaça Fantasma.
Rey continuaria sendo um personagem subdesenvolvido e com um arsenal de talentos deus ex machina capaz de fazer Galen Marek corar de vergonha, a única diferença é que ele seria chamado de Gary Stu ao invés de Mary Sue.
Finn ainda seria um faxineiro glorificado e a audiência ainda estaria se perguntando como é que o zelador sabe desligar os escudos de proteção da Estrela da Morte III ou como ele consegue usar um sabre de luz com tamanha galhardia.
Poe ainda seria o melhor personagem da nova série e continuaria tendo razão na discussão com um eventual "almirante Aldo" interpretado por Bruce Dern que não contasse ao comandante de seus esquadrões aéreos qual era o plano de evacuação enquanto, condescendentemente, o taxava de "cabeça quente"...
A agenda ideológica de Kathleen Kennedy, obcecada por multiculturalismo e personagens femininas fortes, não é o principal problema dos novos Star Wars, mas essa agenda se tornou uma bandeira e um escudo para os filmes.
Independente da (falta de) qualidade dos longas, qualquer pessoa que ouse erguer a voz contra o novo momento da franquia agora, o faz por ser sexista e inseguro.
O problema não é a Rey ser uma personagem inexplicavelmente super-poderosa e unidimensional. O problema é ela ser mulher.
O problema não é a linha narrativa de Finn e Rose ser absolutamente tosca e inútil. O problema é essa linha narrativa ser estrelada por um negro e uma asiática.
O problema não é o plano de Holdo e Leia ser inacreditavelmente burro. O problema é os fãs não saberem lidar com mulheres em posições de poder...
Ou ao menos essa é a bandeira erguida pela Lucasfilm. "Os longas são perfeitos, e os fãs estão de má vontade porque são preconceituosos".
Eu não posso falar por todos os fãs de Star Wars no mundo. Não ousaria sequer tentar.
Eu não duvido que haja aí fora gente tão cretina que realmente desgoste desses filmes unicamente por termos um trio protagonista formado por uma mulher, um negro e um hispânico. Mas garanto que não é meu caso.
E nem é o caso de todos os fãs que conheço e não gostaram do filme.
Mesmo que eu me ressinta um pouco do fato de todos os homens brancos dos novos Star Wars serem vilões ou morrerem sem razão nenhuma durante a projeção, eu seria mais do que capaz de amar Rey, Finn e Poe se eles fossem personagens melhor desenvolvidos. Pra ser bem franco, gosto de Finn e gosto muito de Poe. Meu problema é com Rey e a completa falta de justificativa para a imensa extensão de seus poderes.
Eu jamais teria qualquer tipo de problema com a heroína se ela tivesse um arco de desenvolvimento. Se ela aprendesse alguma coisa ao longo de sua trajetória. Mas dois filmes se passaram e Rey é o retrato de Os Últimos Jedi: Ela é especial porque sim.
Porque "a firma" resolveu.
Ela não tem uma jornada, ela nunca está em perigo. Ela não aprende nada exceto que já sabe tudo. E quando eu não gosto dessa personagem preguiçosamente escrita, é porque eu sou sexista.
Se Luke tivesse destruído a Estrela da Morte sem ajuda em Uma Nova Esperança, derrotado Vader sem esforço em O Império Contra-Ataca e partido o imperador Palpatine ao meio em O Retorno de Jedi ninguém gostaria dele, também...
Personagem excessivamente poderosos não são gostáveis. São antipáticos.
E em sua ânsia por mulheres poderosas, Kathleen Kennedy criou uma heroína infalível cuja existência não suporta dois minutos de escrutínio critico de ninguém.
Personagens femininas fortes não são o problema. Nunca foram.
Todos amam a princesa Leia. Todos amam a Mulher-Maravilha, a Viúva Negra e a Imperator Furiosa. Nenhum nerd tem problemas com a posição de poder de Ripley, de Sarah Connor, Éowyn, ou Neytiri.
Talvez porque essas personagens não tenham sido empurradas goela abaixo na audiência. Porque seus conjuntos de habilidades tenham sido justificados ou construídos junto ao público e não fossem simplesmente pipocando conforme a trama pedisse.
Eu não sou machista, sexista, racista ou preconceituoso, nem acho que o grande público nerd seja (que o diga Pantera Negra).
Eu não sabia do boicote organizado nos EUA e não fui assistir Solo apenas porque era uma história de Star Wars que não me interessava e porque Os Últimos Jedi havia sido tão ruim que eu havia resolvido não assistir mais aos longas da série de qualquer forma.
A generalização do preconceito é nada além de um escudo para proteger um produto que não vende. E se essa for a regra para Star Wars daqui pra frente, serem filmes menores que se defendem atacando a sua base de fãs, então veremos muitos outros Solo nos anos vindouros.
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Je Ne Regrette...
Sentado no escuro... Tempo úmido. Madrugada fria dentro de casa, abafada na rua... Uma grossa neblina se deitando sobre as ruas, embaçando as janelas.
Olhava as luzes de mercúrio amarelas envoltas em um grosso halo do lado de fora de casa, e pegou-se pensando que, uma vez, naquele mesmo dia, no que parecia ter sido há muitos anos atrás, uma menina bonita lhe pediu um beijo.
Era a deixa da qual ele precisava.
Passara a noite toda querendo beijá-la. O que não era muito, já que queria beijá-la há alguns meses àquela altura.
Ele a beijou, e horas mais tarde, não queria mais nada dessa vida.
No dia seguinte, ao reencontrá-la, sem saber bem o que fazer, mas querendo dar algum tipo de declaração, respirou fundo e tomou sua mão, fazendo-a andar de mãos dadas com ele sem pedir permissão ou saber se ela estava de acordo.
De volta ao presente, apanhou o celular de cima da escrivaninha ao lado da janela, e olhou uma foto em seu banco de imagens.
Sorriu ao acariciá-la com o polegar.
Não se envergonhava de ter-lhe tomado a mão sem pedir permissão.
Podia não ser Edith Piaf, mas no tocante àquela noite... E muitas noites vindouras... Não se arrependia de nada.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Com Quem Contar
Quando ela desceu do Monza cinza na esquina ele já estava parado na frente do prédio. Eram seis e onze da manhã, e o frio e a umidade faziam o ar expirado por ele se condensar em uma névoa no ar. Ela andou saltitando em sua direção. Vestia um casaco vermelho vivo, uma saia preta curta e meias de lã pretas. Ao redor do pescoço tinha o que ele supunha ser um cachecol, mas descobriria mais tarde ser uma pashmina, cinza.
Ela sorriu:
-Deixa eu ver.
Ele balançou a cabeça negativamente, e então sorriu mostrando o dente quebrado.
Ela riu enquanto entrava no prédio. Identificou-se com o porteiro, e foram pro elevador.
Alguns minutos mais tarde ele já estava deitado na cadeira do consultório enquanto ela conectava seus instrumentos na bancada ao lado.
Ela disse:
-Eu sei que tu tem agonia com dentista. Mas não te preocupa, Ned. Sou eu. Pensa em alguma coisa que te agrade que em menos de meia hora tu vai estar saindo daqui com o sorriso novinho em folha. - Fez uma expressão de maluca e "acelerou" a broca, fazendo o ruído encher o silêncio do consultório vazio.
Ele gargalhou:
-Tu parecia a "overly attached girlfriend" fazendo essa cara.
-Que é isso? - Ela perguntou.
-Ah, é um meme bem conhecido. Não importa... -Ele deu de ombros.
Ele tirou o agasalho de moletom preto que vestia, e deitou na cadeira com a camiseta de manga curta.
-Tu não tá com frio, criatura? - Ela perguntou, fazendo cara de horror.
Ele respondeu negativamente. Sabia que estava frio, mas a verdade é que o frio não o incomodava tanto, e cumprira a distância entre sua casa e o consultório dela a pé, o que lhe aquecera.
-Que horror. Eu tô congelando. Nem queria tirar o pijama, quando acordei. Aliás, não queria sair debaixo das cobertas. Não há pijama que chegue nesse frio. - Ela disse, esfregando as mãos antes de calçar um par de luvas de látex azuis.
-Meias de náilon... E polainas... - Ele disse, hesitante.
-Meias de náilon e polainas? - Ela perguntou, algo surpresa enquanto colocava uma touca e a máscara. -Esse é o teu pijama ideal nesse frio?
-Não é a versão masculina, claro... - Ele disse. -Mas sim. - Ele confirmou. E continuou:
-Mas não essas meias normais, tipo meia-calça... Meia... Eu não sei a proporção... Sete oitavos? Pode ser? - Inquiriu, fazendo uma careta.
-Daquelas que vão até o meio da coxa? - Ela perguntou, a voz abafada por trás da máscara cirúrgica.
-Ai, é... - Ele confirmou, fazendo uma careta diferente, que contava com um sorriso.
-Não sei se combina. - Ela disse, franca enquanto franzia levemente o cenho.
-Quem liga se combina, ou não. Não é pra atender a um evento. É pra usar em casa... - Ele retrucou.
-Só isso, então? Meias sete oitavos e polainas? - Ela perguntou, se inclinando pra cima dele com a broca em punho.
Ele, ainda deitado na cadeira, boca bem aberta, pensou um pouco enquanto ela usava o aparelho em seu dente quebrado. Respirou fundo e assim que ela terminou, disparou:
-Ah, não! Tem mais coisa... Aqueles chapéus... Chapéu, gorro, não sei... Uns lances, tipo uma boina... São bem grandes...
-Um sombrero? - Ela perguntou, irônica.
-Não, tonta... - Ele disse, afastando a ideia com a mão.
Ela saiu de cima dele, que continuou:
-É tipo... Tipo uma babushka... ushanka... Sei lá. Uns chapéus de pele. Pra lugares muito frios...
-Ah... - Ela assentiu -Tipo aqueles chapéus de russo?
-Isso. - Ele concordou -Como chama aquilo?
-Como é que eu vou saber? Tu já me viu de chapéu na tua vida? - Ela perguntou sem esperar resposta, maneando a cabeça como quem não reconhece a validade da questão enquanto se virava de volta pro balcão atrás de si pra apanhar um frasco.
Ele se apoiou no cotovelo, olhando pra ela que removia um pouco de resina do frasco com uma pequena pá.
-Tu fica muito, muito séria quando tá trabalhando, alemoa...
Ela riu:
-Eu preciso me concentrar, senão teu dente vira uma presa.
-Peraí... - Ela disse erguendo a mão, o que a fez estacar por um momento, e continuou:
-Tu tá querendo dizer que dá pra me fazer presas?
-Cala a boca e deita aí... - Ela disse, se impulsionando na própria cadeira até a dele, e puxando-lhe a cabeça mais pra perto de si.
Momentos de silêncio enquanto ela, cuidadosamente, reconstruía o incisivo frontal quebrado.
-Fica bem paradinho. - Disse, enquanto se inclinava de volta pra trás, apanhando um aparelho com cara de arma futurista, e segurava apontado pro dente recém reconstruído: -Abre bem a boca e inclina a cabeça pra trás.
Ele obedeceu.
Ela começou:
-Pra mim... Pra mim seria regata e cueca boxer cinza... Tipo agasalho de mescla, sabe? Não gosto de branco. Tem guria que tem tesão em cueca branca... Eu não gosto. Tinha um louquinho, bonito, que nadava no clube lá em Dois Irmãos, ele era todo sarado... Abdome de Paulo Zulu, as gurias babavam nele... Mas o cara ia de sunga branca pro clube. Ai... Era o ó. Não tinha como. Homem de sunga branca, Deus que me perdoe, mas parece tudo viado.
Ele riu tanto quanto conseguia, com a boca escancarada e a cabeça jogada pra trás. Ela continuou:
-Preto... Eu acho bonito, cueca preta. Mas quem é que dorme de regata e cueca preta, sabe? Cueca preta, até conheço. Mas regata preta, só quem usa é marombeiro, pra andar na rua. Aqueles guris suburbanos ou playboyzinho metidos a fortinho... Regata preta e calça jeans desbotada, não tem como levar a sério. E o cara de cueca preta e regata de outra cor, branca, cinza... Não teria o mesmo efeito pra mim. As duas peças têm que combinar pra ter cara de pijama, saca? - Deteve-se:
-Deixa eu ver uma coisa.
Apanhou uma fina lâmina plástica e começou a cavoucar vigorosamente entre o dente reconstruído e o vizinho do lado.
-Firma a cabeça - Recomendou, enquanto parecia serrar com força os dentes dele. Esguichou-lhe água na boca e disse:
-Cospe.
Ele se inclinou pro lado e cuspiu dizendo:
-Não fala assim comigo que eu sou de família.
Ela não riu:
-Tua gengiva tá sangrando um pouco. Isso é começo de gengivite. Tu usa fio dental?
-Não posso - Ele respondeu. -Minha bunda é peluda.
Ela fez uma cara que dizia "eu não precisava ouvir isso". Ele riu:
-Não. Meus dentes são muito juntos. O fio dental me incomoda.
-Usa fita. - Ela disse.
-E existe isso? - Ele perguntou.
Ela balançou a cabeça em sinal de descrença:
-Na próxima vez que tu morder uma azeitona e quebrar o dente da frente eu vou te cobrar integral.
-Eu disse que te pagava integral! - Ele protestou.
-Tô brincando, orgulhoso. Deita aí.
Ele obedeceu. Ela se inclinou novamente por cima dele enquanto regulava a altura da cadeira onde ele estava deitado, baixando os óculos sobre os olhos azuis.
-Morde. Deixa eu ver se ficou certo...
Ele cerrou os dentes:
-O dente torto tá pegando aqui - Ele disse, apontando a parte de trás do dente reconstruído com a língua.
Ela apanhou a broca e esculpiu a resina.
-Agora?
Ele rilhou os dentes e ergueu o polegar afirmativamente:
-Perfeito.
Ela esguichou-lhe água na boca, ele bochechou e cuspiu. Ela lhe deu alguns guardanapos pra ele secar o bigode e o cavanhaque, molhados, e disse:
-Vou te dar uma receita de bochecho. Compra na farmácia. Eu quero ver esse dente de novo daqui duas semanas.
Ele ergueu as sobrancelhas:
-Não tá pronto?
-Ai, tá, mas não tá. Eu reconstruí quase tudo, mas a parte mais perto da gengiva eu tive que usar um material provisório por causa do sangramento. Faz o bochecho com o remédio, usa o fio dental e volta pra eu poder trocar essa partezinha.
Ele assentiu perguntando:
-Quanto eu te devo?
Ela deu de ombros:
-Vou ver quanto dá de material. Depois tu me paga.
-Eu preferia te pagar agora. Integral. Te tirei de casa seis da manhã pra me dar essa força. Posso te pagar. Prefiro pagar pra ti do que pra um dentista de verdade.
Ela levantou o dedo médio das duas mãos fazendo cara de furiosa. Ele riu e a abraçou:
-Sério, alemoa. Me deixa te pagar. Não quero que tu te incomode com o teu chefe, e além disso, tu trabalhou. Precisa ser paga.
Ela suspirou e assentiu sob condições. Ele entregou o dinheiro, recebeu uma receita e uma nota fiscal. Ela cedo, pouco mais de sete da manhã. Ele perguntou:
-Tu vai ficar aqui?
Ela fez que não com a cabeça.
-Vou pra casa. Hoje trabalho só de tarde.
Ele se aproximou e a abraçou:
-Obrigado, Alemoa. Por ter vindo. Valeu, mesmo.
Ela lhe estalou um beijo na bochecha barbada:
-E tu? Vai pra casa?
-Não. Vou indo pro trabalho devagarinho. Dá tempo de chegar lá e ver uma entrevista do Letterman na Netflix antes de abrir a loja.
Ela sorriu:
-Boa pedida. Eu vou voltar pra casa e dormir até as onze. E te garanto que não vai ser usando só polaina, meia sete oitavos e um chapéu de pele.
Ele fez cara de pouco caso, puxando o elástico da cueca preta pra fora da calça jeans:
-Azar o teu. Pra teu governo, eu durmo com isso e uma regata preta... E também tenho um conjunto cinza.
Ela mostrou os dedos médios pra ele de novo, que acenou com uma piscada enquanto tomava o rumo do trabalho.
Era bom, pensou, ter amigos.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
Resenha DVD: The Post: A Guerra Secreta
É difícil não pensar que Steven Spielberg tocou The Post com alguma pressa tendo em vista o delicado momento da política norte-americana e a relação desajeitada de Donald Trump com a imprensa.
É perfeitamente plausível supôr que Spielberg tenha lido o script de Liz Hannah e Josh Singer e pensado em Trump twitando "fake news!" dia sim, dia também, a cada vez que vê alguma coisa a respeito de si próprio com a qual não concorda no noticiário, ou em seus assessores falando sobre "fatos alternativos" quando o presidente é pego na mentira. Dessa forma o drama histórico/biográfico de Steven Spielberg se torna tanto um relato do passado quanto um comentário do presente.
O longa narra a saga dos "Pentagon Papers", quando em 1971 o jornalista Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) coloca as mãos em milhares de páginas a respeito da história da guerra do Vietnã, incluindo todas as mentiras que o governo norte-americano contou ao público ao longo do mandato de quatro presidentes. À certa altura, o relatório informa que em 1965, o governo dos EUA já sabia que não podia vencer aquela guerra, e só não se retirava do Vietnã por medo da humilhação.
Após seis anos, o medo do fiasco já ceifara milhares de vidas de soldados americanos na guerra que se alongava, e é nesse momento que o The New York Times começa a publicar reportagens a respeito dos relatórios, desvelando a verdade por trás do conflito.
Ao mesmo tempo em que as cortes julgam que o Times não pode publicar novos documentos, tampouco as informações neles contidas, o Washington Post tem acesso aos papéis quando o repórter Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, o Saul Goodman) chega à mesma fonte do Times.
Isso coloca o Post sentado em cima de milhares de páginas de informações sigilosas e confidenciais que tribunais julgaram impublicáveis exatamente no momento em que a dona do jornal, Kay Graham (Meryl Streep)está abrindo o capital da empresa na bolsa de valores.
Kay estava sitiada por todos os lados. Não apenas era uma mulher em um mundo essencialmente masculino, frequentemente escanteada da tomada de decisões pela sua junta diretora, mas também estava em uma situação socialmente delicada à medida em que, sendo uma ricaça de Washington, estava no círculo pessoal de diversas pessoas implicadas no escândalo, como o autor dos relatórios, Robert McNamara (Bruce Greenwood) de quem era amiga pessoal.
Para piorar a situação de Graham, ela estava em uma janela de tempo na qual os investidores podiam desistir da opção de compra das ações do Post, levando o jornal à bancarrota, e se via frequentemente em uma queda de braço moral com seu editor, Ben Bradlee (Tom Hanks), que não tem a mais remota dúvida de que o Post precisa publicar as informações por dever moral de ofício.
Fica difícil não admirar dois personagens interpretados por dois dos atores mais talentosos/amados em atividade no cinema contemporâneo. Ambos estão sensacionais em seus papéis, e enquanto Hanks encontra o tom certo para Bradlee, alguma coisa entre o grave e o turrão, naquela toada de homem comum alçado à situação extraordinária que o vencedor de dois Oscar é capaz de fazer dormindo, Meryl Streep entrega uma de suas melhores atuações em anos recentes, deixando claro que suas indicações anuais aos prêmios da academia não são, de forma alguma injustificadas. Seu retrato de Kay Graham é repleto de nuances, deixando claro o quão acima da média Streep é, e quão longe ela pode chegar quando dirigida com excelência.
Infelizmente, o longa não permite que nenhum dos protagonistas entre em um "tour de force", e isso se deve ao fato de o roteiro jamais deixar que haja verdadeiro suspense no desenrolar da história.
Mesmo quem não sabe absolutamente nada a respeito do escândalo dos Pentagon Papers é capaz de antever com uma boa antecedência como os eventos do longa se desenrolarão, e o que deveria ser um longa sobre o peso da escolha de Kay Graham, que se viu entre a cruz e a caldeirinha com o destino de seu negócio e do legado de sua família em suas mãos, não chega a deixar a audiência na ponta da cadeira ou roendo as unhas.
Por sorte, toda a vez em que The Post parece perigosamente perto de se tornar um melodrama edificante de cartilha, o talento de alguém surge pra elevar novamente o longa.
Do elenco, que conta com gente do calibre de Carrie Coon, Sarah Paulson, Tracy Letts, Bradley Whitford, Jesse Plemons e Michael Stuhlbarg passando pela fotografia de Janusz Kaminski, a trilha de John Williams ou a edição de Sarah Broshar e Michael Kahn, não faltam elementos para tornar o longa memorável, e fazer o espectador se comprometer para com o filme. Afinal de contas, o longa é mais um trabalho de um sujeito que é um dos cineastas fundamentais de nosso tempo.
Conforme eu disse lá em cima, The Post é tanto um relato do passado quanto um comentário do presente, mas acima de tudo, um libelo em favor da liberdade de imprensa, uma instituição que, sim, precisa de escrutínio crítico, mas merece um pouco mais de crédito em um momento onde tanta gente parece tão disposta a aceitar "fatos alternativos" de fontes que não podem ser confirmadas.
Certamente vale a locação.
"A imprensa deve servir aos governados, não aos governantes."
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Resenha Cinema: Deadpool 2
O primeiro Deadpool era mais que um ótimo filme de super-herói.
Era uma grata surpresa.
Em meio a tantos filmes OK ou menos do gênero (em especial os paridos pela Fox, estúdio detentor de X-Men, Quarteto e, à certa altura, Demolidor e Elektra), Deadpool era um subproduto de gibi executado da maneira que o personagem pedia, e, se estava longe de ser perfeito pra todas as audiências, era perfeito pro Deadpool, o personagem noventista criado por Rob Liefeld e Fabian Nicieza que se tornou um ícone da porra-louquice nos quadrinhos ao longo de sua trajetória nas páginas dos quadrinhos da Marvel.
Encarnado por um comprometido Ryan Reynolds no medonho X-Men Origens: Wolverine em 2009, o mercenário tagarela precisou de muita insistência do ator canadense e de muito chororô de fã na internet pra finalmente ganhar seu filme em 2016.
O sucesso de bilheteria foi estrondoso, tornando Deadpool o maior sucesso comercial de um filme baseado em quadrinhos no tocante à relação entre investimento e arrecadação, e a maior bilheteria de um filme para maiores em todos os tempos.
O êxito foi tão grande que uma sequência se tornou certeza.
A cena pós-créditos do primeiro longa apresentava a ideia de ter Cable na eventual nova aventura, o que logo se tornou um festival de coroas pedindo o papel nas redes sociais, de Ron Perlman a Dolph Lundgren, e Kyle Chandler chegou a ser apontado como favorito ao papel do mutante que, eventualmente, ficou com o Thanos Josh Brolin.
No meio da pré-produção o longa perdeu seu diretor, Tim Miller, por diferenças criativas, e ganhou a mão firme pra porradaria de David Leitch, o mesmo de John Wick, e foi alardeado que Drew Goddard, do Demolidor da Netflix e Perdido em Marte, seria um dos responsáveis pelo roteiro ao lado dos escritores originais, Rhett Reese e Paul Wernick pra tentar manter a qualidade do primeiro longa.
Time montado, filme rodado, era hora de Deadpool entrar em campo com a indigesta tarefa de disputar espaço com Vingadores: Guerra Infinita, que estreou duas semanas atrás, e Han Solo: Uma História Star Wars que estréia na semana que vem.
Estaria o mercenário tagarela à altura do desafio?
Ontem peguei uma sessão de pré-estréia do filme no cineplex mais perto de casa, e posso assegurar que Deadpool 2 sucede em seu intento.
No longa, o mercenário (Ryan Reynolds) está vivendo o sonho.
Ele se tornou um caçador de recompensas internacional, viajando pelo mundo e aceitando pagamentos para matar os piores dos piores.
Mafiosos, traficantes, negociadores de armas... Se o sujeito não presta e tem inimigos dispostos a pagar por seu extermínio, é bem possível que Wade lhe faça uma visita.
Mas não é apenas o sucesso no negócio de mercador da morte que ocupa um lugar de destaque na vida de Wade no momento.
Seu namoro com Vanessa (Morena Baccarin) vai muito bem, obrigado. Tanto que o casal está prestes a dar o próximo passo e pensa em começar sua própria família.
Entretanto, nada é fácil na vida de um super-herói, e quando um evento inesperado coloca Wade na prisão para mutantes Caixa de Gelo junto com o adolescente Russel (Julian Dennison), nosso herói se vê inadvertidamente na mira do viajante do tempo Cable (Josh Brolin), que chega do futuro disposto a tudo para impedir a tragédia que destruirá sua vida. É então que Pool precisa descobrir onde está seu coração, decidir que tipo de pessoa deseja ser, e compreender que "família", não é um palavrão.
Deadpool 2 está tão longe de ser perfeito quanto o primeiro filme estava, mas é um veículo tão perfeito para esse personagem quanto seu antecessor.
O longa crava os dentes em tudo o que funcionou no filme de 2016 e aumenta o escopo ao mesmo tempo em que se mantém relativamente humilde no tocante à escala da econômica trama.
Deadpool não está tentando salvar o mundo, nem a raça mutante, mas a si próprio. Isso dá um senso de modéstia ao filme que é muito bem vindo em uma época onde até o Esquadrão Suicida tinha um raio no céu e o destino do mundo estava em jogo.
As apostas de Deadpool são menores, e o fato de o diretor e os roteiristas (incluindo Ryan Reynolds, creditado como um dos responsáveis pelo script) saberem disso faz bem ao longa que consegue se comportar como uma sitcom em certos momentos, como um conjunto de gags mal ajambradas em outro, ou como uma boa comédia de ação na maior parte do tempo já que nem tudo funciona o tempo todo.
O festival de referências a todos os filmes de super-herói lançados em todos os tempos se torna exaustivo à certa altura (apesar de sempre renderem ao menos um sorriso pra quem entende a piada) já que todo o primeiro ato do filme parece um esforço para encontrar a maior quantidade possível de cenários cômicos para inserir Deadpool. Bem melhores são as interações do protagonista com os coadjuvantes e elenco de apoio, em especial Colossus (voz de Stefan Kapcic), Al Cega (Leslie Uggams) e Cable, que nos oferecem um pouco mais de camadas para a personalidade de Wade além do traje vermelho e das palhaçadas.
Cable, por sinal, acaba meio escanteado considerando o espaço que ocupa na divulgação do longa.
Pouco nos é mostrado do soldado futurista além da morte de sua mulher e filha em uma cozinha cheia de néon. Nós não ficamos sabendo como é o futuro de Cable, e nem porque ele deveria ser evitado além da morte da família do personagem, ou quem ele é além de um sujeito muito fodão com um braço biônico.
Mas ele não é o único personagem subaproveitado.
Deadpool 2 é um veículo para seu protagonista, e deixa isso bem claro desde o início. Toda a X-Force e os demais personagens do filme, incluindo os egressos do primeiro longa, como Colossus, Weasel (T. J. Miller), Míssil Adolescente Negassônica (Brianna Hildebrand) e Dopinder (Karan Soni) ficam na periferia do anti-herói título, até mesmo a X-Force faz figuração de luxo, exceto pela Dominó de Zazie Beetz, que além de muito, muito, muito linda manda bem demais nas cenas de ação. As sequências onde seus poderes de boa sorte sobrenatural funcionam são algumas das melhores do filme, mas a verdade é que a segurança de Leitch para filmar pancadarias fica bastante evidente em todas as cenas de ação do filme.
Apesar da disparidade entre seus segmentos, Deadpool 2 funciona muito bem a partir do instante em que consegue conciliar o foco no personagem central e na escala mais contida de sua história para entregar um filme à altura do hype gerado pelo sucesso do primeiro longa com mais grosseria, sangue, humor e, surpreendentemente, coração do que o antecessor.
Não é um filme perfeito, mas é perfeito para o Deadpool.
Assista no cinema. Vale horrores a pena.
"-Quem é você?
-Sou o Batman."
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terça-feira, 8 de maio de 2018
Resenha DVD: O Destino de Uma Nação
Meu filme preferido no ano passado foi Dunkirk. O longa de guerra que contou a história, não de uma batalha, mas de uma retirada. No caso, a retirada das forças armadas britânicas da França após o exército local e os reforços aliados não serem capazes de conter o avanço alemão.
Este O Destino de uma Nação é praticamente o irmão de outra mãe de Dunkirk, pois enquanto o filme de Christopher Nolan mostrava a operação Dínamo tentando desesperadamente evacuar as praias de Dunquerque, o filme do diretor Joe Wright se concentra na ginástica que o primeiro-ministro inglês fez para tentar tirar mais de trezentos mil homens da França pelo Canal da Mancha.
Mas não apenas nisto.
O Destino de Uma Nação se passa entre os dias 8 de maio e 4 de junho de 1940, período em que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) é coagido pela oposição a renunciar ao cargo por não ser considerado capacitado para liderar o país em tempos de guerra.
Os nazistas avançam contra a França e a Bélgica e os ingleses querem ação.
O favorito do partido para o cargo é o visconde Halifax (o Stannis Baratheon Stephen Dillane), porém é público e notório que apenas um nome conservador será aceito pela oposição:
O de Winston Churchill (Gary Oldman, oscarizado pelo papel).
A questão é que Churchill chega chutando a porta e conclamando o povo inglês a lutar contra Hitler, enquanto o restante de seus aliados políticos, incluindo Chamberlain, Halifax e o rei inglês George VI (Ben Mendelsohn, finalmente não interpretando um burocrata vilanesco) anseiam por um acordo de paz com a Alemanha nazista.
Diante da possibilidade de ter seu exército esmagado na França, a Grã-Bretanha se vê diante de uma encruzilhada: Tentar costurar um acordo de paz com os nazistas tendo a Itália fascista de Mussolini como intermediária, ou seguir lutando sozinhos uma guerra que podem não ter como vencer contra um inimigo que está tomando a Europa de assalto.
Brilhante.
Espertamente, o roteiro de Anthony McCarten se foca em um breve período do início do mandato de Churchill para mostrar como as decisões do primeiro-ministro decidiram os rumos da Inglaterra na Segunda Guerra, e, por consequência, do mundo.
McCarten e o diretor Joe Wright acertam a mão ao focar em Churchill como um homem de convicções, mas não um estadista infalível. O político conhecido pela retórica aguçada dá demonstrações de fragilidade e dúvida. Ele próprio se pergunta o que é melhor para a Inglaterra diante da sombra crescente da extrema-direita sobre o continente. Essa faceta ganha corpo, em parte, graças a presença da excelente Kristin Scott Thomas como Clementine Churchill, a fiel esposa de Winston, e de sua secretária, Elizabeth Layton (Lily James). Quando vemos Churchill pela ótica das duas, ele se humaniza além do retrato que a posteridade criou. O Churchill vivido por Oldman não é feito de caretas e trejeitos, e suas nuances, mesmo sob a pesada maquiagem, conduzem o longa por duas horas e cinco minutos dos quais ele raramente está ausente.
Mas por mais que a interpretação de Oldman seja excelente e digna de todas as láureas que conquistou, não é menos verdade que O Destino de uma Nação não é um show de um homem só.
Da direção de Wright ao roteiro de McCarten, passando pela fotografia lindíssima de Bruno Delbonnel e a trilha sonora equilibrada de Dario Marianelli tudo funciona para levar o longa à excelência que ele alcança. Eu não consigo me lembrar de outro drama histórico que se apoiasse unicamente em seu texto para tensionar a audiência com tamanha competência.
A cena em que Churchill conversa com Roosevelt ao telefone, por exemplo, é testemunho do isolamento que a Inglaterra sofria no início da Guerra, enquanto a sequência dentro do trem, ainda que algo piegas, mostra o tamanho do apreço de que Churchill gozava junto ao povo em tempos de guerra (mas não em tempos de paz...).
O Destino de uma Nação tem o texto como seu grande lastro, e convida a audiência a sentar e acompanhar o filme em seu ritmo, se engajando com a experiência de maneira cerebral, e não visceral. Pode ser um desafio para quem não se interessa pelos bastidores da política na Segunda Guerra ou não tem paciência para filmes que demandam atenção. Se esse não for o caso, porém, pode se preparar para uma lição de História embrulhada em um thriller de proporções genuinamente catastróficas realizado com altíssimos padrões artísticos por um time de craques do goleiro ao ponta-esquerda.
Teria valido a ida ao cinema, certamente vale a locação.
Assista.
"-Não se pode argumentar com o tigre quando nossa cabeça está em sua boca."
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Resenha Game: God of War
A verdade, nua e crua, é que eu jamais fui um grande fã da série God of War. Pra ser completamente honesto, o correto seria dizer que eu sempre meio que desprezei Kratos e seu sistemático massacre ao panteão grego em busca de vingança, e que se não tivesse encontrado, certa feita, uma oferta onde se comprava God of War e God of War II em versões remasterizadas, mais God of War III para PS3 pelo preço de um único game, eu jamais teria jogado nenhum dos capítulos da franquia.
Mesmo após ter jogado os três jogos da série e reconhecido o bom equilíbrio entre hack'n slash e quebra-cabeças dos dois primeiros jogos e o apuro técnico e a grandiloquência do terceiro game, a verdade é que Kratos continuou me parecendo um anti-herói dolorosamente genérico em sua sangrenta busca por vingança. Eu não podia evitar ver o musculoso protagonista de God of War como a epítome do personagem que todo o jogador de RPG faz quando vai começar a jogar: O sujeito durão, atormentado, com a família morta, que não se deixa deter jamais e que sucede a qualquer custo contra qualquer obstáculo sem se deixar demover por nada ou ninguém... Em suma, da aparência física ao apelido cabuloso, o Fantasma de Esparta era um herói de ação oitentista perdido na mitologia grega. Era Stallone Cobra encontrando Fúria de Titãs, Dirty Harry na Lista de Zeus ou algo que o valha.
Era, a bem da verdade, meio exaustivo.
O que me fez querer comprar o novo God of War não foi, de forma alguma, o passado sangrento da série com seu, por vezes divertido, massacre de deuses. Mas o modo como a divulgação desse novo capítulo da saga de Kratos parecia alardear uma tentativa de fazer as pazes com esse passado ao mesmo tempo em que tentava construir um novo futuro. No dia 20 de abril eu estava na megastore mais próxima da minha casa pra comprar o game, e após pouco mais de uma semana de intensa jogatina, posso afirmar que valeu a pena.
Anos se passaram desde que Kratos matou Zeus com a Lâmina do Olimpo e foi empalado pela própria para espalhar o dom da esperança para ser usado pela humanidade e não apenas pelos deuses.
O Fantasma de Esparta deixou a Grécia e rumou para Norte. Quando o reencontramos, o deus da guerra está, novamente, enlutado.
Ele perdeu sua esposa, Faye, e junto com seu filho, Atreus, foi incumbido de cremar o corpo dela, e espalhar suas cinzas da montanha mais alta da região.
Não é um momento fácil par nenhum dos dois. Kratos lida com o luto de forma silenciosa e mecânica. E Atreus é um menino jovem que nutre pouquíssima afinidade com o pai.
Kratos sabe que a jornada até o alto do pico será árdua. A terra onde a família vive está infestada de perigos, de lobos a espíritos malignos que habitam cadáveres com poderes elementais chamados draugrs e até coisas piores.
Para ter certeza de que Atreus está pronto para a viagem, Kratos testa o menino com uma caçada, mas constata que ainda não é o caso. Atreus carece de habilidade e disciplina. E Kratos não arriscará o último desejo de sua mulher.
Ou ao menos essa era sua intenção.
Ao voltar para casa, Kratos é interpelado por um homem coberto de tatuagens. O sujeito não se apresenta, mas parece obcecado com o fato de não ser capaz de sentir nada, e ataca brutalmente o Deus da Guerra, que luta com todas as suas forças para o deter, conseguindo, no último segundo, jogar o estranho em uma greta, e retornar a Atreus coberto de sangue e dúvidas.
Duas coisas ficam claras, porém:
A presença de Kratos na Escandinávia não é mais um segredo para os poderes locais, e, estando Atreus preparado, ou não, é hora de os dois colocarem o pé na estrada.
Em sua viagem rumo ao último desejo de Faye, Kratos e Atreus precisarão trabalhar juntos, e isso coloca a dupla e o jogador em uma trilha repleta de perigos e de maravilhas enquanto conhecem um ao outro e visitam diversos elementos da mitologia nórdica.
E funciona?
No tocante à jogabilidade, God of War beira a perfeição. A movimentação do protagonista é fluida e os controles são fáceis de pegar. O machado Leviatã, a nova "ferramenta de trabalho" de Kratos, é uma das mais satisfatórias armas que um game já viu. Além de uma eficiente arma de ataque corpo-a-corpo com poderes congelantes, ele pode ser usado para ataques à distância ao ser arremessado, e retorna à mão de Kratos com um comando ao melhor estilo Mjölnir.
Outra novidade na jogabilidade é a presença de Atreus.
O filho de Kratos não é um desses coadjuvantes irritantes que o jogador se vê obrigado a proteger o tempo todo e amaldiçoa em alto e bom som quando o desgraçado corre feito um demente em meio ao caos (lembranças de Natalia Simonova em Goldeneye 64). Atreus participa da pancadaria de modo ativo e consciente e em diversas ocasiões pode fazer toda a diferença em uma luta, basta que o jogador aprenda a usá-lo.
Além da pancadaria Ateus também toma partido na resolução de quebra-cabeças, e, ilustrando sua familiaridade com a cultura local, é capaz de ler as runas que Kratos desconhece, e frequentemente oferece discas de como proceder em determinadas ocasiões, garantindo que prestar atenção ao que ele fala sempre valha a pena.
A câmera contínua sobre o ombro do protagonista não é tão inovadora quanto foi alardeado. É a mesma perspectiva que deixou muito purista emputecido com o ótimo Resident Evil 4, o grande barato, aqui, é que essa câmera jamais sai do lugar, oferecendo ao jogador a perspectiva que Kratos tem quando enfrenta inimigos enormes, adentra grandes salões abandonados ou precisa resolver quebra-cabeças para avançar em sua busca.
Essa sensação de tomada única dá ao game uma sensação de continuidade muito visceral, e considerando que em toda a minha primeira campanha eu vi uma única queda na taxa de frames, um disparate em termos de realização técnica digno de parabéns.
Os gráficos, por sinal, são dos mais sensacionais que eu já vi em um game. O nível de detalhamento de todos os personagens é simplesmente deslumbrante, de fios de barba a cicatrizes, e o mundo por onde esses personagens andam é espetacular, dos templos dourados e negros às cavernas rochosas com estalactites, passando pelas florestas gélidas, os picos nevados... Tudo é lindo, imersivo e com um pé cravado na mitologia nórdica com referências por todos os lados.
A trilha sonora é uma beleza, com várias músicas belíssimas, algumas inclusive com coral de vozes, e os efeitos sonoros são bons, embora, a certa altura, eles fiquem meio repetitivos junto com as animações das finalizações de inimigos de Kratos. O trabalho de dublagem é ótimo, com destaques óbvios para a dupla protagonista, Christopher Judge, que assumiu a voz do deus da guerra após sete games com Terrence Carson no papel, e Sunny Suljic, que dá voz a Atreus. Os dois são o coração e a alma deste God of War, ainda que os trabalhos de Jeremy Davies como Baldur e Mímir de Alastair Duncan sejam dignos de nota e simplesmente não haja más performances entre um elenco que conta com Troy Baker, Nolan North e Danielle Bisutti entre outros.
A despeito de tantos predicados técnicos o que realmente faz toda a diferença em God of War é sua história e a abordagem que o diretor Cory Barlog escolheu para contá-la.
O novo Kratos é um personagem muito mais interessante e dimensionado do que aquele que vimos nos sete jogos anteriores da série sem necessariamente ser um personagem diferente.
Ele ainda é capaz de grandes prodígios de força, se expressa de forma lacônica, e por vezes é rude e permanece capaz de atos inomináveis de selvageria no calor do combate. Ao mesmo tempo ele é um pai, um pai cheio de dúvidas e segredos que precisa encontrar uma forma de explicar ao seu filho que eles são deuses e que isso os torna um alvo. Kratos não é mais atormentado pela perda de sua família, mas pela necessidade de proteger a família que lhe resta.
A maneira como o espartano tenta ensinar Atreus a ser um guerreiro tão formidável quanto ele próprio ao mesmo tempo em que claramente deseja que seu filho trilhe um caminho diferente é incrivelmente presente, e ganha peso por conhecermos o passado que o protagonista luta para ocultar.
A relação ente os dois, e a evolução dessa relação, é sensacional, e não fica devendo em nada ao espetacular The Last of Us em termos de excelência. O elo que se forma entre Atreus e Kratos é profundo, vivo, e uma via de duas mãos, com Kratos ensinando Atreus a ser um guerreiro e um deus, e Atreus ensinando Kratos a ser um bom homem. Os momentos em que vemos os ensinamentos de um sendo assimilados pelo outro são francamente calorosos, e dão a um jogo tecnicamente irretocável o lastro de uma narrativa que queremos acompanhar até o fim.
God of War é tão competente na condução de sua história e no povoamento de seu mundo que nem sequer precisa lançar mão dos pesos pesados da mitologia nórdica para se sustentar. Pelo contrário. As cerca de 25 horas que o game toma para ter sua linha narrativa principal concluída (sem as atividades secundárias e a exploração à qual o game convida, que alongam consideravelmente o tempo de jogo) se encerram com diversas missões opcionais por atender, de favores aos anões a Valquírias por libertar, e sem mostrar os óbvios Thor, Odin, Súrtur e afins, deixando claro que ainda há lenha pra queimar e lugares por visitar no futuro escandinavo de Kratos e Atreus.
Que esse futuro não demore a chegar.
"Você não deve cometer os mesmos erros que eu cometi. Você deve ser melhor."
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