Conforme alardeado por Tom Holland e Jake Gylenhaal ontem, o novo filme do Homem-Aranha no MCU ganhou sua primeira prévia hoje, pouco antes do meio-dia. O teaser de pouco mais de dois minutos e meio mostra tia May confortável com a vida heroica do sobrinho e flertando com Happy Hogan, Peter e Michelle numa constrangida troca de elogios, Nick Fury hackeando as férias de Peter na Europa e Mysterio:
Novamente dirigido por Jon Watts e trazendo de volta Tom Holland, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya e companhia Homem-Aranha: Longe de Casa será lançado em cinco de julho, dois meses após Vingadores:Ultimato.
Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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terça-feira, 15 de janeiro de 2019
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Mel do Mundo

Os dias são cheios de preocupações. Responsabilidades. Desgostos...
O fel do mundo.
É assim que é ser um adulto.
Trabalhamos, cumprimos nossas obrigações e encaramos todos os problemas de ter que cuidar da própria vida.
Alguns dias são difíceis, outros, muito difíceis. Não existe almoço grátis, precisamos correr atrás da máquina enquanto estamos vivos e todos os adágios populares que se aplicam à existência em um mundo que tira muito mais do que dá.
Do nascer ao pôr do sol, a rotina cobra seu preço, e nós o pagamos em suor, sangue lágrimas e quaisquer outros fluidos físicos que sejam requeridos para garantir um mínimo de conforto, um mínimo de estabilidade, enfim, um mínimo..
Podemos e devemos almejar mais, mas descobrimos, com o passar dos anos, que, ao querer mais, precisamos oferecer muito mais. Muito mais nos é cobrado. A menos que se esteja em uma posição de privilégio, a progressão entre o que se almeja e o preço que devemos pagar para obter isso é geométrica.
E é assim que o mundo gira. É assim que as coisas são. Não há com quem contar, então mata esse tijolo no peito e se vira tentando arredondá-lo porque a taxa de exigência só aumenta e paciência se tu não concordou com as regras antes de ser convocado pro jogo, mala suerte, amigo.
A única coisa a fazer é tentar encontrar um porto seguro. Um bálsamo. Alguma forma de se reconfortar, recarregar as baterias e tentar manter a sanidade dentro e a tristeza que a compreensão carrega consigo sob controle.
Uma forma de olhar o mundo sob uma ótica menos pragmática e cruel.
Um ponto de foco que mostre que vale a pena continuar fazendo parte dessa carnificina toda.
Que o mundo é uma festa horrorosa a maior parte do tempo, mas que vale a pena frequentar.
Pra mim, ultimamente, são as noites.
Os momentos em que leio a tua voz.
Vejo os teus pensamentos.
Suponho teus sorrisos.
São as breves horas em que a vida é menos amarga. O riso não é responsabilidade, mas reflexo natural. E o calor no peito não é fruto do abafamento do verão, mas da tua presença.
Com ela, as noites são cheias de diversão. Promessa. Acalento...
O mel do mundo.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Quites

De modo geral, uma e meia da madrugada era sua hora de dormir entre segunda e quinta. Era um horário de se recolher que o deixava com cerca de sete horas de sono, o que ele considerava mais que o suficiente. De modo geral, era capaz de funcionar com seis horas de sono diárias. Eventualmente até menos. Mas sete... Sete era a margem de segurança ideal.
Como fazia todos os dias, jogou um pouco de videogame e quando viu que era uma e vinte, foi ao banheiro, escovou os dentes, foi à cozinha, bebeu um montão de água com gás no gargalo da garrafa (na esperança de acordar de madrugada pra ir ao banheiro, um de seus maiores prazeres simples era acordar por volta de quatro, cinco da manhã para ir ao banheiro sabendo que poderia voltar pra cama e dormir mais um bom tempo). Foi ao quarto e tirou a camiseta regata preta que vestia. Estava calor e ele resolveu não dormir com o pijama improvisado, composto de uma regata preta e cuecas boxer de algodão da mesma cor.
Só usando cuecas, voltou à sala. Posicionou o ventilador de frente pro próprio rosto, e ligou a TV no canal de notícias, ajustando o timer, não para desligar, mas para caçar noticiários durante toda a madrugada.
Deitou-se no sofá (ainda não dormira em sua cama desde a mudança), e preparou-se para o último passo de seu ritual pré-sono:
Apanhou o celular e pesquisou o nome dela no Google.
Ao ver os resultados se materializarem na tela branca de sete polegadas, e cutucou o primeiro da lista com o dedo indicador.
Duas novas postagens.
Sorriu. Sempre sentia um calor no peito ao saber dela.
Viu a primeira postagem rindo. Sentindo-se ao mesmo tempo acalentado e melancólico. Devia ser a música...
Estava com o coração tranquilo quando visitou a segunda postagem...
Pôde vê-la falando.
Ouvir a voz dela.
Escutá-la.
Viu o vídeo três vezes. Depois mais uma. O tempo todo, o coração ribombava dentro do peito. Lembrou-se de uma coisa que sempre amara quando a abraçava...
O coração dela. Audível quando os corpos se colavam. Feito um tambor.
Às duas e meia da manhã ainda não havia conseguido pegar no sono. E sentia os próprios batimentos cardíacos. Sorriu olhando pro teto enquanto amaciava o travesseiro:
"Estamos quites, meu amoR."
sábado, 5 de janeiro de 2019
Questão de Fé
Não é fácil, pra mim, compreender a mente de um religioso. Não de um clérigo ou ministro de nenhuma estirpe, esses eu até consigo entender.
Dever de ofício não é algo que fuja da minha compreensão.
É a mente do fiel que me intriga.
A da pessoa que compra o objeto de crença de olhos fechados, sem questionar ou, tão ruim quanto, apesar de questionar.
É difícil pra mim acreditar em qualquer coisa sem uma boa dose de desconfiança e um período de convencimento que, pra ser bem franco, jamais termina totalmente.
Eu preciso ser constantemente re-convencido das coisas em que acredito, de preferência de forma tão empírica e ancorada na realidade quanto possível sem jamais aceitar cegamente nada.
Mesmo coisas nas quais acredito, eu aceito com o proverbial grão de sal, sem abraçar cegamente, seja porque não tenho todas as informações necessárias, seja porque não estou equipado para testar de forma empírica.
É um sistema funcional e que me parece mais seguro e honesto, me mantendo ao largo da credulidade que renego com toda a minha força.
Fé, afinal de contas, é a desculpa que as pessoas dão para acreditar em algo sem um bom motivo, e eu me recuso a fazê-lo. Venho me recusando desde que sou capaz de pensar a respeito, e por isso eu não consigo entender as pessoas que têm fé.
Porque elas aceitam cegamente. Sem poder testar. Sem poder comprovar.
Elas fazem uma aposta definitiva seja por medo, conveniência ou conforto. Elas acreditam porque sim, e nada me revolta mais do que "porque sim".
Talvez por isso meus debates e conversas a respeito de fé sejam acalorados.
Talvez por isso eu tenha, certa feita, afugentado um representante da igreja adventista da minha porta, não por não querer falar com ele, mas por querer falar demais.
E esse, talvez, seja o principal motivo para minha aversão à fé.
É um, digamos "dom", assim mesmo, entre aspas... Um "dom" que demanda crença inconteste, uma habilidade de interpretação da realidade quase deformadora que eu não sou capaz de oferecer.
Exceto contigo.
Me dei conta de que sou, contigo, como qualquer religioso é com seu deus.
Contigo eu ofereço qualquer crença cega.
Faço qualquer Aposta de Pascal.
Dou qualquer salto da Cabeça do Leão.
Vejo qualquer sinal como milagre e qualquer acaso como evidência.
É o que eu tenho feito desde que te conheço, e seguirei fazendo enquanto viver.
Abraço a Analogia da Poça d'água de Douglas Adams, e faço de conta que todos esses sorrisos pescados ao acaso são pra mim.
São meus.
E assim, encontro esperança pra seguir andando.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
Rapidinhas do Capita
O calor nos últimos dias de dezembro e nos primeiros dias de janeiro estava impossível.
Os termômetros alcançaram 38 graus, mas a sensação térmica esteve acima dos quarenta e cinco em certas áreas de Porto Alegre.
Emergências ficaram lotadas de pessoas com crises de pressão baixa e casos de desidratação, e uma quase epidemia de gastroenterites acometeu os moradores da região metropolitana.
Em nenhum momento, porém, vi nenhum paladino da boa vontade falar mal das pessoas que gostam de calor por sua insensibilidade para com aqueles que não têm como se proteger das mazelas do verão. Não vi nenhum filantropo de botequim afirmar acusadoramente que enquanto os amantes do tempo quente se divertiam na praia, havia gente desmaiando de desidratação nas ruas da cidade, o que confirmou minha suspeita de que os fracotes que tem medinho de frio não estão preocupados com as pessoas que passam necessidades durante os dias de inverno, apenas as usam como argumento pra justificar a própria frescura.
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As primeiras características marcantes do novo governo federal, além de um Mercado louco de faceiro, é uma preocupação muito, muito grande com cores.
Ontem mesmo, segundo noticiou-se, as cadeiras do Palácio da Alvorada foram substituídas. Eram vermelhas, agora são azuis. Mas aí, ficou a dúvida:
Por que azuis? Onde as meninas irão sentar? No chão? Ou ficarão de pé?
Porque, também foi noticiado ontem, a ministra das Mulheres Família e Direitos Humanos Damares Alves estava comemorando uma "nova era" em que meninas usam rosa e meninos usam azul... E ninguém deu notícia sobre algumas cadeiras cor-de-rosa para a mulherada poder sentar sem avacalhar as regras da Nova Era...
Aliás, fica mais uma pergunta de como a Nova Era da ministra pastora evangélica fica em relação à preferência do novo presidente, que é louco por verde-amarelo, e odeia vermelho, conforme deixou claro em seu discurso de posse, mas que não se manifestou com relação a azul e a rosa.
Mas tudo isso é secundário. Estamos no Brasil, e precisamos referir as questões mais importantes atingidas por essa celeuma das cores:
E o futebol?
O ódio do presidente e de seus seguidores por vermelho significa que Inter, Flamengo, Sport e outras equipes que tem a cor em seus uniformes sofrerão uma grande seca pelos próximos (idealmente) quatro anos?
E como ficam as torcedoras de Grêmio, Cruzeiro, Paysandu e outros times que vestem azul? Poderão usar o fardamento de seus clubes do coração ou estarão cometendo algum tipo de descalabro?
Considerando esses últimos três dias há apenas uma certeza:
Todas essas perguntas serão respondidas.
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A reapresentação do Internacional para a temporada 2019 ontem foi uma das mais melancólicas de que me lembro em anos recentes, ficando atrás, apenas da reapresentação para a temporada da segunda divisão em 2017. Nenhum reforço que se possa levar em consideração para um grupo que se mostrou insuficiente em 2018 e que perdeu força com a saída de Leandro Damião, e a promessa de refazer tudo o que foi feito no ano passado, ou seja:
Não ganhar nada.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
Festinha
-...Tu sabe quando a mulher tá gozando?
A pergunta realmente o pegou desprevenido. Ele sentiu o calor subir-lhe pela face fazendo-o enrubescer quase que instantaneamente, e teve certeza de que ir àquela festa havia sido uma ideia idiota.
Não era um amante de festas. Jamais fora. Odiava ter que gritar acima da música quando tentava conversar. Odiava gente entorpecida se balançando ritmadamente ao som de techno (As pessoas ainda ouviam techno?)... Claro. Aquela não era uma dessas festas.
Era o aniversário de seu cunhado, e não havia ninguém dançando, a música que tocava não era techno, mas um apanhado de algumas das piores coisas gravadas nos últimos treze anos, mas estava em um volume bastante razoável. Havia comida em uma mesa e as pessoas se serviam em pratos de plástico branco e comiam escoradas em paredes quando não eram capazes de encontrar uma das cadeiras, que eram superadas em números de 3 para um pelos convidados.
Ele, espertamente, chegara sentando-se.
Fora um movimento pusilânime, ele sabia. Chegar adonando-se de uma cadeira, uma das mais confortáveis, por sinal. E não se levantar nem para se servir dos quitutes de festa disponíveis.
Conhecia sua irmã.
Ela se prontificava, sem pedido, a municiá-lo com guloseimas e bebida de tempo em tempo. Era tanto uma coisa de personalidade dela, mesmo mais nova sentir-se um pouco mãe dos irmãos, quanto um sinal de gratidão. Um aceno de "Eu sei que tu não queria vir. Obrigada pelo esforço."
Ele não queria, mesmo, ir. Nunca queria.
Achava irônico como tantos dos castigos da infância haviam se tornado seus hobbies de adulto. Não sair de casa... Ficar trancado no quarto... Não poder comparecer à festa de aniversário de um amigo... Coisas com as quais ele era ameaçado quando era pequeno, hoje, eram sua ideia de um final de semana perfeito.
Mas não... Sua irmã, apavorada com a ideia de ter a casa repleta de amigos do marido dos quais não gostava ou aos quais não conhecia o suficiente, o convenceu a comparecer ao evento e "ficar só um pouco" para que ela não ficasse sozinha. O cunhado, afinal de contas era amigo dele antes de ser marido dela, de modo que, em teoria, ele não devia se sentir particularmente deslocado atendendo à celebração.
Em teoria.
Na prática, sua irmã estava alegremente indo da cozinha pra sala e da sala pra cozinha, e da cozinha para o pátio com mais salgadinhos e doces e bebidas, enquanto ele estava sentado sozinho na sala, entre dois desconhecidos que conversavam um com o outro mas de vez em quando olhavam pra ele esperando algum aparte que, francamente, ele não prestara atenção o suficiente à conversa para oferecer.
Sabia que levantar daquela cadeira era um movimento arriscado.
Provavelmente não encontraria outra. Mas aí se deu conta de que, sem ter onde sentar, teria a desculpa perfeita para uma retirada estratégica digna. Se saísse agora, chegaria em casa a tempo de ver Liga da Justiça na HBO antes de jogar videogame até o amanhecer de domingo e então dormir até meio-dia.
Levantou-se, deixando os dois chatos conversando entre si, e saiu. Andou até a mesa, apanhou um salgadinho de palmito com presunto e mordeu com gosto. Serviu-se em um copo plástico com Pepsi, e andou com o copo e meio salgadinho até o pátio, decorado com luzes de natal nas plantas.
Olhou em volta, não conhecia ninguém, mas viu duas cadeiras vazias, num canto obscuro do pequeno pátio, perto das folhagens junto do muro. Sentou-se esperando poder manter-se ali, longe dos olhos de todos por alguns minutos antes de sua retirada estratégica.
Colocou seu copo na cadeira ao lado para desencorajar potenciais intrusos, e puxou o celular do bolso. Mal havia aberto o browser quando percebeu uma figura assomando.
Era uma mulher.
Cabelos castanhos presos atrás da cabeça, vestido preto, tênis all-star dourado. Era bonita.
A mulher olhou com um sorriso, e apontou seu copo na cadeira vazia com o queixo.
Ele entendeu o sinal, sorriu a contragosto e apanhou o próprio copo, dando um gole.
A mulher sentou.
-Calorão, né?
Disse, abanando-se com um prato plástico vazio.
Ele concordou com um aceno de cabeça, já que acabara de colocar a metade restante de seu salgadinho na boca.
-Amigo do noivo ou da noiva? - Ela perguntou, com um meio sorriso.
Ele riu.
-Do noivo. Sou irmão da noiva. - Respondeu.
Ela fez uma careta de surpresa, como quem diz, sem palavras, "mas vocês não se parecem em nada", ou ao menos foi a impressão que ele teve.
Ela estendeu a mão:
-Rita.
Ele a cumprimentou, dizendo o próprio nome de maneira lacônica. Olhou para o celular, prestes a fazer cara de "já?" e pedir licença, mas Rita começou a falar.
E falar...
E falar...
Falou muito... Sobre muita coisa... Durante muito tempo.
Falou sobre seu trabalho, sobre como conhecera o cunhado dele na faculdade e mantinha contato desde então por acreditar piamente que o futuro do empreendedorismo estava no networking.
Falou sobre o ex-namorado-quase-marido que a traíra com uma colega de faculdade e que se tornara o pivô de sua decisão de jamais se relacionar novamente com homens mais novos.
Falou sobre seu trabalho como promoter e suas ideias para montar uma academia.
Falou sobre astrologia...
Sobre política...
Sobre fatos da vida.
Falou sobre cinema e sobre música sem jamais deixar espaço para uma réplica completa pois toda a vez que ele começava a tentar responder alguma coisa ela pescava algo no meio de sua primeira frase e tecia uma tese. À certa altura começou a sobre como as aparências enganam, e disse que, olhando pra ele, não iria imaginar que ele fosse alguém tão fácil de conversar.
Ele pensou em responder que aquilo não era uma conversa, mas uma palestra com breves apartes da plateia de um homem só, mas refreou-se. Apenas concordou que as aparências enganam, repetindo o adágio com o qual nem sequer concordava totalmente apenas esperando que ela dissesse "isso me lembra de", para interrompê-la e pedir licença pra ir embora.
Mas, ela disse:
-Verdade... Tu sabe quando a mulher tá gozando?
Ele demorou a concatenar. Ficou, conforme já foi dito, inflamado de vergonha, e sentia o rosto aquecendo-se. Pensou se, ali, à meia-luz do pátio seria possível discernir-lhe o vermelhão. Nem entendeu, ao certo, o que ela quisera dizer. Respondeu:
-Hã...?
Na verdade esperando que ela fosse continuar, como em "Sabe tal coisa? Então...". Mas ela não emendou outra tese. Repetiu a pergunta:
-Tu sabe? Reconhecer quando a mulher goza?
Ele olhou em volta, brevemente, para ver se alguém ouvira aquilo. Não se considerava um puritano, mas não achava que falar em gozo com estranhos fosse de bom tom, especialmente após menos de meia hora de conversa.
-Se eu sei quando uma mulher está gozando? - Ele repetiu, tentando obter confirmação.
-É. - Ela confirmou, casual.
Ele raciocinou tão rápido quanto pôde. Tinha alguma base, alguns indícios. Mas não podia afirmar que sempre sabia. Não podia afirmar, com certeza, que soubesse a qualquer tempo, na verdade... Resolveu ser honesto.
-Não... Não sei.
Ela riu.
-Não sabe?
Ele se sentiu enrubescer novamente:
-Não com certeza...
Ela riu, como quem faz pouco-caso.
-Bom... Existem alguns indícios...
-Espero que tu não esteja falando de gemidos e respiração ofegante.
Ele não disse nada. Os gemidos, ele geralmente ignorava, mas a respiração ofegante ele levava em conta, sim...
Ela riu, sarcástica:
-Tá te lembrando de quantas vezes tu achou que estivesse abafando por causa de um gemido estridente?
Ele se sentiu desconfortável. Respondeu algo ríspido:
-Não. Eu nunca na vida achei que estivesse "abafando"... De qualquer forma, não tem nenhum sinal evidente como tem com nós, homens.
-É sempre a desculpa dos homens. Mulher é diferente...
-É - Ele concordou. -É a razão pela qual eu gosto delas.
Ela olhou pra ele como quem não entende. Ele explicou:
-Eu gosto de mulher exatamente por elas... Vocês, serem diferentes dos homens.
-Ah - Ela entendeu. -Mas mesmo gostando tu não entende... - Ela acusou.
Ele se sentiu um pouco ofendido. Se defendeu:
-"Entender" é um termo amplo. O que significa pra ti?
Ela se endireitou na cadeira, um sinal, ele aprendera na última meia hora, de que ia começar uma tese, mas eis que, sem aviso, sua irmã surgiu:
-Tu sumiu lá de dentro. Achei que tinha ido embora sem se despedir. - Disse, pousando a mão sobre o ombro de Rita.
Ele olhou pro relógio, já havia perdido treze minutos de Liga da Justiça, mas se saísse agora, chegaria em casa a tempo de tomar um banho e ver o arranca-rabo da Liga contra o Superman redivivo e a luta final contra o Lobo da Estepe. Levantou-se:
-Não ia ir embora sem me despedir, mas preciso ir agora. Bom te conhecer, Rita.
Deu uma piscadela para a irmã, um tapinha no ombro do cunhado, de passagem ao cruzar a sala, e ganhou a rua para andar as três quadras que o separavam de casa.
Quando começou a caminhar, deu-se conta que acabara perdendo, além de duas horas e pouco de sua vida, a chance de entender as mulheres, ou ao menos de ouvir o conselho de uma especialista para identificar um orgasmo feminino. Deu de ombros ao lembrar-se, ligeiro, que havia apenas uma mulher que queria entender, e que ela, poderia lhe dizer, algum dia, exatamente o que queria que ele fizesse para agradá-la.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Último Passo
Leomir sentou-se à mesa da ceia de ano-novo com a família suando frio.
Todos ao redor conversando animadamente, tentando ignorar o barulho da Ivete Sangalo cantando na TV, e ele ali, quieto feito guri cagado. Quando falavam com ele, respondia de maneira vaga. Quase monossilábica, como quem não quer perder a concentração. Havia comido o peixe, o porco, a lentilha, todas as comidas de réveillon obrigatórias, além de algumas outras opcionais, bebera refrigerante e fizera o brinde com espumante (que ele sabia que champanhe é só a espumante produzida na região de Champagne, no nordeste da França) desejando feliz ano-novo a todos os familiares que estavam junto, mas agora aproximava-se o momento da verdade. O teste de fogo no qual Leomir não queria falhar.
Era a hora da sobremesa.
E a sobremesa tornara-se um teste tão importante para Leomir por conta de um padrão que ele notara na semana anterior à virada.
Começara com uma coisa simples. Na sexta-feira, na academia, ao se despedir dos colegas com quem conversava mais frequentemente durante suas mirradas sessões de musculação, Leomir trocou votos de feliz ano-novo com um conhecido e concluiu os cumprimentos com um:
-Juízo no final de ano que academia de novo, só ano que vem!
E caiu na risada.
Assim que seu colega saiu, dando-lhe um amigável tapinha no ombro ele percebeu a qualidade duvidosa da piada que acabara de fazer. De onde saíra aquilo? Foi enquanto concluía sua série de exercícios que percebera que aquela piada ruim era apenas um elemento em um padrão de mudanças de comportamento e aparência...
Àquela altura da vida, Leomir não conseguia ficar sem óculos. Não era apenas para ler, trabalhar e assistir TV ou ir ao cinema. Não. Leomir não reconhecia pessoas na rua sem óculos. Não conseguia fazer as coisas em casa sem óculos. Habituara-se tanto ao aro sobre o nariz que, vez que outra, quando estava voltando para casa após a academia sem óculos, instintivamente levava o dedo ao nariz entre os olhos num gesto instintivo de posicionar as lentes de volta no lugar.
Não tinha mais paciência com pessoas. Praticamente todo o ser-humano que fosse remotamente chato ou desagradável era imediatamente excluído de seu convívio, e andava de um jeito que todos os seres-humanos lhe soavam chatos e desagradáveis.
Tornara-se condescendente. Não levava as outras pessoas em consideração o suficiente para sustentar uma argumentação. Mesmo sabendo que estava longe de ser um luminar da sapiência, não tinha mais vontade de trocar ideias com ninguém, pois tinha a impressão de que sairia da troca no prejuízo.
Levantou-se da tábua de supino e aproximou-se do espelho. A barba estava embranquecendo no queixo. A quantidade de fios brancos só não era mais evidente por conta das falhas na barba de fios espetados que não tinha mais interesse em aparar. Alguns fios eram do comprimento de seu dedo médio. Tinha fios brancos no bigode. Na cabeça, então, só estavam camuflados pela grande quantidade de cabelo sempre presa em um rabo de cavalo. Olhou o próprio físico. Seu sonho de frequentar a academia e ficar com físico de ator de Hollywood tornara-se realidade: Parecia Joaquin Phoenix em Você Nunca Esteve Realmente Aqui. A figura de um autêntico nêgo véio Riograndense.
Não pôde evitar um choque ao dar-se conta da metamorfose que sofrera. Não se tornara, da noite para o dia, um inseto, como Gregor Samsa, mas, ao longo de alguns anos, tornara-se um tiozão.
Desenvolvera o físico, o comportamento e o senso de humor de um tiozão autêntico. Pançudo, rabugento e fazendo eventuais piadas bestas, tinha até uma sobrinha para carimbar-lhe a credencial. O ciclo, já diria o imperador Palpatine, no tempo em que Star Wars ainda era bom (outro "tiozãoísmo"), estava quase completo. Faltava apenas um passo para que a transformação fosse irreversível, e a prova de fogo viria após a ceia da virada dali alguns dias...
Sentado na mesa da sala tentando pescar uma nesga de ar fresco do ventilador insuficiente para a sala da casa da mãe, Leomir suava tanto de calor quanto antevendo a hora da verdade. Sua irmã e sua tia terminaram de recolher os pratos da ceia e voltaram com o elemento derradeiro da transformação de Leomir:
A sobremesa.
Quando o prato refratário embrulhado em papel alumínio foi colocado no centro da mesa, Leomir quase tremia, mas assim que a cobertura foi removida revelando o conteúdo do prato, ele teve um torpor de alívio. Era um doce de abacaxi.
Leomir nem sequer gostava de doce de abacaxi, o seu alívio era porque aquela iguaria não era um pavê. Ao menos por mais um ano, Leomir conseguiria adiar o último passo de sua metamorfose.
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