Bem vindos a casa do Capita. O pequeno lar virtual de um nerd à moda antiga onde se fala de cinema, de quadrinhos, literatura, videogames, RPG (E não me refiro a reeducação postural geral.) e até de coisas que não importam nem um pouco. Aproveite o passeio.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Última a Morrer
Sentado na sua mesa, trabalhando. Notas fiscais indo para o estoque após conferência de material.
Tudo muito chato. Realizado quase em modo piloto-automático. Aqueles momentos onde a mente está operando em modo de baixo consumo de energia.
Item após item...
Da folha de papel para a tabela de Excel... De novo e de novo.
Quase que anestesiado pela monotonia.
Foi memória olfativa que o despertou do torpor.
Um cheiro doce, agradável quase cruzando a fronteira do enjoativo alcançou-lhe as narinas.
A associação foi imediata. Do nariz para o sistema límbico... Do córtex olfativo pro hipocampo. Sem intermediários.
Aquele cheiro era o cheiro dela...
Cheiro de bala... De baunilha... De doce...
Aromas que ele aprendera a associar com ela, e que ao associar com ela, se tornaram sinônimo de felicidade e completude.
"É tu?" Ele se perguntou, erguendo os olhos da folha de papel diante de si e encarando a porta do escritório como o cachorro que farejou o esquilo.
Por uma fração de segundo nutriu a esperança de vê-la surgir na porta, meio corpo oculto atrás do batente, inclinando a cabeça para o lado com um sorriso.
Mas ela não apareceu.
Ele se levantou, chaves em punho, cruzou o escritório chegando à porta, abriu e andou célere pelo corredor até alcançar a rua.
Olhou para a direita e para a esquerda.
Não havia nem sinal dela. Resignado, suspirou e retornou para o escritório, a escrivaninha e a tarefa.
Retomou tudo e lentamente voltou ao seu torpor semi-automático.
Continuaria assim, até sentir um cheiro gostoso de novo.
Quando sentisse, seria tomado de esperança e repetiria o processo.
A esperança, afinal, era a última a morrer.
Resenha Série: O Justiceiro, temporada 2, episódio 2: Fight or Flight
Justiceiro começou lenta, mas meteu o pé com força no acelerador no seu terço final. O segundo episódio, Fight or Flight segue mais ou menos pelo mesmo caminho, mas é menos lento em seu período de preparação.
Após o tiroteio do primeiro capítulo, Frank e sua protegida dirigem a noite toda para acabar em um motel de beira de estrada esperando pela chegada do inimigo.
Há que se louvar o fato de que, nessa segunda temporada, a série pareça mais disposta a manter uma sequência de ação na manga para cada episódio (foram apenas dois, eu sei, mas Demolidor fez isso em seu terceiro ano e o resultado foi espetaculoso). Se é bom ver o pau (e as balas, e as facas) cantar em um programa baseado em quadrinhos, também é importante ressaltar que, até aqui, os vilões da história são pouco mais do que bucha de canhão.
Não temos nem a mais remota ideia de quem são esses capangas todos e nem por que eles querem a cabeça de Amy, que na verdade diz se chamar Rachel. Rachel, aliás, é um dos elos mais fracos desse começo de série. Por mais que sejamos capazes de entender por que Frank a protege (ela representa os meios para um fim, Frank protegeria qualquer pessoa para ter uma desculpa para voltar ao vigilantismo) é simplesmente impossível criar qualquer empatia com a pentelha antipática, petulante e irritante que tem como primeiro reflexo mentir a respeito de tudo e eu me flagrei desejando, no final do episódio, que a bandidagem sucedesse em seu intento. É muito bom que, no futuro imediato, a série dê um jeito de tornar Rachel menos insuportável, seja lhe dando um background e explicando suas motivações, seja apenas atenuando a ranhetice de adolescente que pesa sobre a personagem.
Ao menos nem tudo que envolveu Rachel foi totalmente chato, houve uma sequência engraçada onde ela precisou extrair uma bala da bunda de Frank, e toda a sequência de ação no motel, com o Justiceiro usando estratégia e esperteza para equilibrar suas chances estando em flagrante desvantagem numérica foi um ponto bem alto do episódio.
Houve, também, mais espaço para Billy Russo e Madani. A agente do FBI está totalmente obcecada com Russo, a quem faz desagradáveis visitas diárias. Madani não acredita que os problemas neurológicos de Billy sejam reais, e mantém vigilância total sobre o ex-fuzileiro. Madani segue sendo uma personagem muito chata, mas ao menos ganhou função narrativa (ainda que meio esfarrapada), juntar as linhas narrativas de Frank e de Billy.
Russo, por sua vez, se mantém ambíguo.
É difícil saber se ele realmente está sofrendo com perda de memória ou se está fingindo, mas cabe dizer que, para alguém que está impossibilitado de usar a cara para atuar, Ben Barnes faz um ótimo trabalho apenas com voz e gestual para compôr esse novo e atormentado momento de Russo mantendo a ambiguidade que moldou o personagem na temporada anterior.
Falando em ambiguidade, a psiquiatra de Russo, Krista Dumont (Floriana Lima), não tem nenhuma. Ela é tão obviamente mal-intencionada que é a responsável pelo surgimento do termo "quebra-cabeça" (Jigsaw, nome do vilão em inglês, significa "quebra-cabeça", e não "Retalho", como foi traduzido), e encoraja Billy a deixar o monstro sair da jaula... A exemplo de Rachel e do vilão vivido por Josh Stewart, a doutora Dumont também poderia se valer de mais profundidade. Esperemos que seja entregue...
O segundo capítulo de Justiceiro foi mais curto que o anterior em termos de história na ponta narrativa de Frank, mas compensou isso com uma boa dose de ação na sequência do motel e com um olhar um pouco mais alongado sobre Billy Russo. Os novos personagens realmente precisam ser melhor trabalhados, há tempo para isso com treze capítulos na temporada e antes seria melhor do que depois, especialmente para Rachel, a insuportável sidekick de Frank que, até o momento, não justifica a trabalheira do vigilante para protegê-la.
"-Isso é normal pra você? Ser baleado?
-Não na bunda. Essa é a primeira vez."
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Resenha Série: O Justiceiro, temporada 2, episódio 1: Roadhouse Blues
É difícil pra mim, enquanto fã de quadrinhos e de boas adaptações de quadrinhos não dar uma brochada com o fim do MCU da Netflix. Não que todas as séries fossem um primor, longe disso. Se analisarmos friamente (despidos de quaisquer arroubos ideológicos), as únicas séries realmente excelentes da iniciativa foram Demolidor e Justiceiro. Luke Cage teve uma boa primeira temporada e deu uma escorregada na segunda, Jessica Jones fez o caminho inverso, primeira temporada muito aborrecida, eventualmente salva por Kilgrave, e segunda temporada boa, mesmo caminho seguido por Punho de Ferro, e a união dos heróis em Os Defensores foi um tanto quanto decepcionante, apesar de alguns bons momentos.
Seja como for, quem assiste a segunda temporada de Justiceiro sabe que, quase certamente, está vendo a última temporada do programa, assim como quem for corajoso o suficiente para ver a terceira temporada de Jessica Jones, agendada para Março, terá a mesma certeza.
Esse universo compartilhado acabou e nós estamos perdendo, no mínimo, duas séries excepcionais.
Talvez por essa tristeza da morte anunciada eu tenha demorado tanto para começar a ver a segunda temporada de Justiceiro, que está disponível na Netflix desde 18 de janeiro e eu só me cocei pra começar a ver no último sábado.
A segunda temporada começa com um Justiceiro que os fãs de quadrinhos jamais viram:
Um Justiceiro que encontrou um final feliz.
A encarnação adaptada da Netflix de Frank Castle não moveu uma guerra pessoal contra todo e qualquer crime. Ele sabia quem eram seus alvos e por mais extensa que fosse sua missão, ela terminou com os objetivos cumpridos. Os militares que mataram Maria e as crianças foram devidamente punidos, e Frank Castle acabou a primeira temporada claramente estendendo as mãos para obter seu quinhão de paz após o fim de sua guerra de um homem só.
Quando o reencontramos nesse episódio, Frank (o excelente Jon Bernthal) está evando uma vida tão normal quanto possível. Ele é um andarilho que deixou Nova York para trás e viaja pelas cidades pequenas dos EUA vivendo um dia de cada vez.
Ouvindo uma banda country em um bar de beira de estrada, Frank encontra um par romântico, a mãe solteira Beth (a bonitona Alexa Davalos) e nos mostra que Frank Castle é mais do que rosnados, gritos e punição, com uma bela coleção de cenas que mostram um lado mais gentil e empático do carrasco com a caveira no peito.
Mas Roadhouse Blues não é apenas um passeio pela faceta mais amigável de Frank. A despeito de dois atos bastante deliberados em seu andamento, aproveitando todo o tempo do mundo para nos mostrar quem Frank pode ser, não tarda para que o caminho do ex-fuzileiro se cruze com o de Amy (Giorgia Whingham), uma menina que se envolveu com os tipos errados e se torna alvo de uma tentativa de assassinato.
Se Frank Castle precisava de uma desculpa para deixar o Justiceiro voltar à cena, ele consegue.
E, por mais que não haja em Justiceiro (pra ser franco, em nenhuma outra série...) nada que se perfile ao espetáculo de combates mano a mano de Demolidor, é impossível negar que as sequências de pancadaria em curtíssima distância dentro do banheiro do bar são empolgantes como poucas coisas na primeira temporada haviam sido, e ajudam a equilibrar as coisas com o início arrastado.
Entrementes ainda houve espaço para revermos Billy Russo (Ben Barnes) e Dinah Madani (Amber Rose Revah), e se eu entendo perfeitamente que o Retalho precisasse retornar, eu não consigo entender a volta da agente do FBI. A personagem foi a parte abaloada da narrativa da série na primeira temporada, se a primeira temporada de Justiceiro tivesse sido exatamente igual, mas sem Madani, a série provavelmente teria sido um pouco mais curta e muito melhor. Resta torcer para que ela tenha uma função nesse segundo ano, nem que seja ser assassinada ali pelo sétimo episódio.
Não há necessidade de apontar que o primeiro episódio da segunda temporada de Justiceiro teve um ritmo lento. Esse, afinal, parece ser o padrão das séries Marvel/Netflix, e já vimos isso dar muito errado (Punho de Ferro... Jessica Jones...), mas também vimos dar muito certo (Demolidor, Justiceiro...), vamos esperar para ver o desenrolar dos próximos episódios. Como amostragem Justiceiro parece manter o bom nível do primeiro ano.
"-Vai haver mais deles?
-Espero que sim."
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
Resenha Cinema: Green Book: O Guia
Ontem comecei, tardiamente, minha temporada de cinema para 2019, e resolvi começar com um dos filmes multi-indicados/premiados em cartaz, esse Green Book: O Guia.
Um raro esforço diretorial solo de Peter Farrelly, que geralmente trabalha em parceria com seu irmão Bobby na construção de comédias pastelão que, quando funcionam, são algumas das melhores fitas de humor grosseiro que alguém poderia querer assistir (Débi & Lóide, Eu, Eu Mesmo e Irene, Kingpin: Estes Loucos Reis do Boliche...), e que quando não funcionam são simplesmente ruins demais pra sequer ver uma segunda vez (Ligado em Você, As Aventuras de Osmose Jones, Os Três Patetas...).
No longa corre o ano de 1962, e Tony "Bocudo" Vallelonga (Viggo Mortensen) tem um emprego no tradicional night club novaiorquino Copacabana como porteiro. Um sujeito durão e afável, Tony luta para sustentar sua família através de seu trabalho, mantendo suas conexões com os "wise guys" ítalo-americanos da vizinhança restritas ao campo social, sem jamais trabalhar para eles.
As coisas se complicam para Tony quando o Copa fecha suas portas para reformas. Desempregado por dois meses, Tony precisa dar um jeito de manter o aluguel pago e comida na mesa da esposa Dolores (Linda Cardellini, adorável) e dos dois filhos. Com o dinheiro minguando, ele vê a chance de ficar financeiramente confortável pelo período de reformas do Copacabana quando seu caminho se cruza com o do doutor Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista clássico de imenso prestígio que está prestes a embarcar em uma turnê pelo sul dos Estados Unidos apresentando-se em teatros, clubes e até residências privadas por oito semanas de viagens.
Don Shirley é tudo o que Tony não é: Elegante, eloquente, metódico e negro.
Habituado à sofisticação de Nova York, Shirley entende que pode necessitar das qualidades de um sujeito como Tony, mesmo que, pessoalmente, não esteja impressionado com o carcamano. E a recíproca é verdadeira. Tony nutre sua cota de restrições contra afrodescendentes, e não vê com grande entusiasmo o trabalho de ser chofer para um "preto", ainda assim, os dois caem na estrada munidos com o Livro Verde do Motorista Negro que dá nome ao filme, um guia mostrando localidades onde negros eram bem-vindos no amplamente segregado sul norte-americano dos anos 60.
Juntos, o esnobe pianista clássico virtuoso e o simplório porteiro brucutu precisam aprender a se suportar fazendo uma jornada através de injustiças e preconceitos enquanto mudam um ao outro, aprendem um com o outro e descobrem que, apesar de tudo, não são tão diferentes.
Eu sei que, colocada assim, essa sinopse grita "fórmula básica do road movie" aos quatro ventos. Por Stan Lee, parece até um remake de Conduzindo Miss Daisy onde a cor de motorista e passageiro foram invertidas.
Mas se Green Book: O Guia abusa do formato do road movie com parceiros que não combinam entre si, acerta a mão ao fazê-lo sob o prisma das relações raciais em uma época extremamente retrógrada da história dos EUA, e apoiando sua história, baseada em fatos reais, nos ombros de dois atores fenomenais.
Viggo Mortensen desaparece sob o corpo quadrado de tiozão de Tony Vallelonga. O ator tem trejeitos, expressões faciais, sotaque e pança de coroa italiano, um cigarro perenemente colado no lábio e apetite de misturador de cimento e ainda assim, não é uma mera caricatura. Os trejeitos e a aparência física são apenas uma parte do personagem, que apesar de todos os seus pequenos desvios de caráter, ainda tem noção de certo e errado o suficiente tanto para não se tornar um criminoso quanto para rever seus próprios conceitos quando exposto à uma realidade que ignorava.
Mahershala Ali, vencedor do Globo de Ouro com o papel, é outro animal, adicionando uma admirável quantidade de matizes à um personagem que poderia facilmente se tornar unidimensional nas mãos de um intérprete menor. O ator enche Don Shirley de elegância, mas deixa claro o quanto daquela atitude superior e condescendente é uma fachada para proteger um homem repleto de atribulações pessoais, que prefere se distanciar das pessoas do que expôr a própria vulnerabilidade.
Peter Farrelly espertamente explora o trabalho dos dois atores e a excelente química que os dois partilham em cena movimentando a história inteiramente através da dupla, com isso, ele edifica um filme à moda antiga, que tem temas complexos como seu pano de fundo, mas os aborda quase sempre com leveza, para garantir que a experiência de assistir ao longa seja sempre agradável, mas jamais inócua e nem totalmente livre de momentos de revirar o estômago.
Ainda que seja convencional em seus temas, abordagem edificante, em até em seus defeitos (O longa foi amplamente acusado de simplificar e diluir o peso do racismo nos EUA), é difícil não gostar de Green Book: O Guia, seja pela enorme quantidade de talento em cena, seja pelo inegável (e talvez descabido) otimismo no script de Brian Currie, Nick Vallelonga e do próprio Farrelly.
Uma agradabilíssima sessão de cinema para começar 2019 na sala escura com o pé direito.
Certamente vale o ingresso.
"O mundo está cheio de pessoas solitárias esperando pra tomar a iniciativa."
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Rapidinhas do Capita
"Tu escorre em minhas veias", ele escreveu. Releu... Pensou... Apagou o texto.
"Minha mente te orbita", digitou. Novamente parou, avaliou o que escrevera, e cutucou o botão de deletar vinte e uma vezes, apagando as palavras.
"Eu te respiro", "Me inebrias", "te quero a cada minuto do dia", "Tu és a Roma das minhas afeições, todos os caminhos levam a ti"... Escrevia e deletava, escrevia e deletava. Inclinou-se pra frente, apoiou o cotovelo na escrivaninha e o queixo sobre o punho. Olhava a tela branca, o cursor em forma de travessão vertical piscando no canto superior esquerdo do ecrã o julgando desafiadoramente.
Pousou os dedos sobre o teclado olhando a tela... Tentou procurar em sua mente como colocar em palavras como estava se sentindo, mas não conseguia elucubrar nada que não estivesse na ordem da pieguice em seu estado mais puro, a fina flor da cafonice.
São os males, pensou, de se estar perdidamente apaixonado:
A única forma de expressar honestamente o que se sente é com os mais melosos e constrangedores clichês.
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Sabe aquelas histórias que povoam a literatura de fantasia em doses cavalares, aqueles vídeos que volta e meia pululam pelas redes sociais, a quintessência do não julgar pelas aparências, de que não se declara vitória antes do embate, o proverbial Davi contra Golias, onde alguém muito pequeno enfrentando um antagonista muito grande contra todas as chances sai triunfante do embate?
Claro que sabe.
Não há mídia que já não tenha esgotado essa premissa.
O ponto é que nunca (digamos quase nunca, já que eu não consumi todo o conteúdo que se vale de tais parâmetros narrativos) nos mostram o ponto de vista do Golias. Do império derrubado pelos rebeldes. Do gigante derrotado pelo nanico.
E, sendo um sujeito grande, esse sempre foi o ponto de vista que mais me preocupou. Não porque não haja ninguém maior do que eu, eu não sou nenhum jogador da NBA, mas se alguém maior do que eu me desse uma surra, não haveria vergonha, apenas lógica, enquanto ser subjugado por alguém de menor estatura e volume, sempre me pareceu a mais completa e definitiva das humilhações. Uma bobagem, eu sei... Bruce Lee era um anão e certamente poderia limpar chão com dez caras do meu tamanho. Ainda assim, sempre houve essa questão do orgulho pra mim. Eu pensava nos sentimentos de Tong-Po, de Ivan Drago, Karl, e de Fezzik, porque era capaz de me colocar no lugar deles e imaginar o quão devastador seria ter sido derrotado por pessoas menores.
E a prova cabal de que o destino é o gozador definitivo, é que uma pessoa de pouco mais de metro e meio surgiu na minha vida me fazendo de gato e sapato.
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Pessoal pensou que estava elegendo o capitão Nascimento, mas na verdade era o major Rocha...
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Ambição
O Leco era um rapaz humilde...
Próximo de completar vinte anos Leco não estudara além da sétima série, que abandonara após a segunda reprovação. Com o pai tendo abandonado a família lhe parecia efêmero continuar estudando quando a irmã pequena necessitava de sustento e a mãe de auxílio financeiro para manter a casa modesta de um dormitório em que a família vivia.
Leco flertou com a ideia de tentar seguir uma carreira no exército quando se apresentou para o serviço militar obrigatório, mas acabou dispensado e viu essa possibilidade de trabalho ser riscada de seu minguado rol de empregos em potencial. Com pernas finas, mas fortes, resolveu abraçar a primeira oportunidade de trabalho que surgisse, e calhou de ser entregador de água para uma distribuidora do Centro de Porto Alegre.
Leco morava no Campo da Tuca, uma região complicada da cidade em termos de desenvolvimento humano e segurança. Vira amigos e vizinhos serem cooptados pelo crime e testemunhou sua cota de tragédias, mas ele próprio jamais sentiu nenhuma vontade de entrar na vida errada. Fosse pela fibra moral da mãe, uma mulher tão honesta quanto alguém poderia ser, fosse pelo senso de preservação de alguém que fora enxovalhado demais pela vida para gostar de confrontações de qualquer espécie, Leco não via no dinheiro fácil uma motivação para aceitar os riscos de se perfilar à uma facção criminosa.
Não...
Ele não era ambicioso, ficaria com os rendimentos modestos de um salário mínimo mais vale-refeição e vale-transporte com o eventual bônus por excelência que o seu Tadeu pagava aos entregadores de água em bicicletas que trabalhavam na distribuidora.
Leco podia não ser excelente em muitas coisas na vida, mas sabia pedalar em uma bicicleta, sabia ser solícito e mesmo não sendo prodigiosamente forte, desenvolvera uma técnica infalível para colocar o galão de água mineral no bebedouro sem desperdiçar nem uma gota, o que agradava sobremaneira diversas clientes, em especial as velhinhas que prezavam pela limpeza impecável da cozinha e desenvolviam urticária ante a simples ideia de ter respingos na parede e chão atrás do bebedouro. Esse cuidado tornara Leco pródigo em receber gorjetas das senhoras venerandas que abriam sorrisos amarelados ante a gentileza bem ensaiada e a eficiência de Leco, que conseguia engordar seus módicos rendimentos graças aos pequenos trocados que recebia como agradecimento pelo serviço bem-feito aos clientes e pelos bônus do seu Tadeu, que oferecia duzentos reais à guisa de incentivo ao ciclista que fizesse mais entregas no mês, uma honraria que Leco não obtivera em apenas três meses dos quase três anos que trabalhava na distribuidora.
Leco não era gastador ou tinha qualquer desejo extravagante. O dinheiro extra não era usado em roupas de marca, rolês da hora ou qualquer variedade de auto-indulgência descartável, mas para a manutenção da casa onde vivia. Conseguira comprar um refrigerador com freezer, um televisor digital e, talvez seu maior orgulho, pagara pelo acabamento da casa onde vivia, antes de tijolos à vista, mas agora devidamente forrada com reboco e pintada de pêssego, cor que lhe cativara no Tumeleiro...
Leco seguia com sua vida simples, focado em ser um provedor para mãe e irmã, jogando seu futebolzinho nos finais de semana e, vez que outra, indo até o bar da dona Rose nas noites de roda de samba para tomar uma cervejinha e confraternizar com os vizinhos sem almejar muito mais do que isso numa vida que ele mais levava do que vivia.
Trabalhando das oito às cinco e precisando pegar dois ônibus para ir para o trabalho e outros dois para voltar pra casa após um dia de intensa demanda física Leco não tinha tempo ou energia para namoros, de modo que vivia assim, preenchendo todas as lacunas de sua vida com trabalho que pra ele começava ao acordar, cinco e meia da madrugada, e só terminava às oito da noite, quando ele saía do banho mal sentindo as pernas finas.
As coisas mudaram para Leco quando o seu Tadeu pediu que ele fizesse uma entrega...
Aquilo não era novidade, era dever de ofício ao qual Leco acostumara-se ainda na primeira semana de trabalho... A novidade é que era na mesma quadra da distribuidora. Coisa de quarenta metros de distância, se tanto. Pior:
Endereço comercial.
Leco sabia que endereços comerciais não davam gorjeta nunca, era, literalmente, um desperdício de seus talentos de encantador de velhinhas e de seu prodígio físico de pedalar por quilômetros carregando galões d'água. Mas, seu Tadeu era o chefe. Um bom chefe. E não convinha a Leco questionar ordens perfeitamente razoáveis de modo que ele colocou o galão na bicicleta e pedalou pela frente de uma estética, uma farmácia, dois prédios residenciais, uma academia de ginástica e estava diante da escola de inglês que pedira a água.
Apanhou o galão de vinte litros usando os pegadores em forma de X e adentrou o recinto deparando-se com a mesa da recepção.
A moça sentada atrás da mesa era linda.
O cabelo castanho avermelhado escorria da cabeça feito uma cascata deitando-se sobre os ombros, os olhos escuros eram vivos e brilhantes. As sobrancelhas arqueadas denotavam vivacidade, o nariz era simétrico e levemente arrebitado e os lábios cor de rosa convidativos.
Leco olhou pra moça por alguns instantes, instantes longos demais para aquela situação, só falou quando a moça ergueu as sobrancelhas encarando-o:
-Hã... Água... - Disse.
Ela fez cara de quem sabia, levantou-se de trás da mesa e levou Leco até o bebedouro, onde o rapaz exibiu toda a categoria, habilidade e destreza que desenvolvera na lida com as bombonas. Com o garrafão devidamente instalado, Leco voltou com a moça até o balcão da recepção onde recebeu a paga que lhe era devida.
A moça lhe entregou o dinheiro, recebeu o troco, e agradeceu com um "Obrigada...?" que Leco levou, novamente, uma fração de segundo mais do que deveria para responder sobressaltado com o próprio nome, ao que ela retribuiu com sua graça:
Milene.
Nos dias subsequentes Leco flagrou-se espichando o olhar para dentro da escola de inglês ao passar chegando ou indo embora do trabalho. Vez que outra o olhar de Milene encontrava o dele, e ela acenava ou maneava a cabeça ao vê-lo, ao que ele retribuía inseguro.
Conhecia o zelador do prédio onde a escola estava instalada, um tipo morbidamente obeso que não pagava imposto para largar qualquer serviço que estivesse fazendo para trocar dois dedos de prosa com quem fosse a quem todos chamavam, apropriadamente, de Gordão.
Foi através de Gordão que Leco descobrira que Milene era estudante universitária de letras em inglês, que trabalhava para pagar os estudos e que não devia ter namorado já que ninguém nunca ia deixá-la ou pegá-la no serviço.
Leco não nutriu grandes esperanças a respeito de ser correspondido por Milene, tinha para si que aquele amor súbito pela jovem era algo fadado a permanecer na esfera do platônico até que se dissolvesse igual um Sonrisal, como muitos dos seus sonhos haviam feito nos últimos anos.
O problema é que aquele Sonrisal não se dissolvia.
Leco não conseguia parar de pensar em Milene, e se era um jovem realista, que sabia que alguém como ele pouco tinha a oferecer a alguém como ela, também sabia que não encontraria paz em tentar digerir os próprios sentimentos. Se fosse pra tentar conquistar a jovem de cabelos avermelhados, Leco precisaria investir em si mesmo. Melhorar. Deixar de ser um mero sobrevivente e se tornar uma pessoa com algum objetivo, alguma direção. Julgava-se capaz de fazê-lo, se tivesse a motivação correta, e àquela altura, apenas uma motivação lhe interessava.
Resolveu fazer uma aposta arriscada. Passou alguns dias atento à escala de entregas, e assim que viu a chegada do pedido de uma bombona na escola de inglês, o pegou.
Levou muito, muito mais tempo do que deveria para cumprir o pequeno trajeto entre a distribuidora e a escola de inglês, reunindo toda a coragem que tinha em si a cada volta do pedal da bicicleta para vencer aqueles breves metros.
Parou diante da vitrine, apanhou a bombona e andou a passos hesitantes até a mesa de Milene. Sorriu meio sem graça e disparou:
-Ai góte uássãr.
Por uma fração de segundo sentiu o calor da vergonha subir-lhe pela face, mas foi rápido. Milene sorriu um sorriso aberto como ele ainda não havia visto e respondeu:
-Thank you, Leco.
Leco sentiu seu sorriso se alargar espontaneamente. Aquele aceno de esperança era toda a motivação de que ele precisava para, ao menos, ambicionar um pouco mais.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
Abra Aqui
Meio-dia escaldante. Muito, muito escaldante. Os termômetros marcavam 33 graus mas o abafamento causado pela tempestade da madrugada sugeria 63. Deu o passo até a janela do food truck, e sorriu brevemente para o atendente que, àquela altura, já o conhecia o suficiente para apenas piscar e erguer o polegar fazendo cara de "confirma?", que demandava apenas um outro polegar erguido para garantir que a comunicação funcionara e que sim, era o de sempre. Uma salsicha, sem tempero-verde nem batata-palha, prensado.
Enquanto a cozinheira montava o lanche o atendente do balcão apanhou um saco plástico cheio de sachês de condimentos, e jogou alguns dentro de uma sacola plástica branca.
O cliente apanhou um deles, olhou por um segundo e comentou, casual:
-Lembra do filme plástico em volta das embalagens de CD?
-Nossa, mano. Tu é velho... - Riu o balconista.
-Elas eram um parto de abrir. Eu acho que nunca consegui abrir uma sem esfregar nos dentes ou enfiar uma faca...
-...
-Depois apareceram umas que tinham aquela abinha pra puxar uma fita vermelha e cortar o plástico. Que nem tem em maço de cigarro, chocolate, bolacha recheada...
-Caixinha de chiclete...
-Nunca consegui usar aquilo direito. Acho que sou tosco demais e aquele treco demanda alguma delicadeza, saca?
-Hã...
-Eu geralmente acabo com algumas bolachas esmagadas e a embalagem parcialmente destroçada e a tal da fita vermelha inteirinha do lado de dentro do bagulho. Acho que é meio que um retrato da minha vida...
-Bolacha esmagada?
-Não... Bom, também. Coisas destruídas porque eu não fui delicado o suficiente para manejar.
-Hmmm...
-Há coisas que inevitavelmente demandam um nível maior de paciência. Que devem ser mais cultivadas...
-Cultivar bolacha?
-É... Mais ou menos. É que é importante ser mais delicado com determinadas coisas. Mais paciente. Mais... Gentil. Chegar metendo o pé em tudo é... É a receita da tragédia.
-Sei...
-E ás vezes nós achamos que estamos sendo delicados o suficiente... Gentis o suficiente, e não estamos. E só descobrimos quando o embrulho rasgou, as bolachas esfarelaram e a fita vermelha está lá exposta... A única coisa que permanece intacta em meio ao caos e à destruição.
-Arram...
-Aquela fita vermelha é igual o meu amor por ela.
-Hã?
-A fita vermelha. É que nem o meu amor por ela. Eu não sei usar como deveria. Mas sei que funciona. Porque, não importa o que aconteça, não importa o tamanho do estrago ao redor, ele permanece intacto.
-Tá pronto. Fanta pra acompanhar?
-Hoje, não. Hoje me dá uma Coca.
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