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sexta-feira, 21 de junho de 2019
Resenha Série: Jessica Jones, Temporada 3, Episódio 3: I Have No Spleen
Após passarmos uma hora na companhia de Trish Walker e ver os primeiros passos da loirosa na carreira de vigilante em Nova York, retornamos à programação normal.
O ataque sofrido por Jessica foi ainda mais violento do que parecia. A investigadora beberrona perdeu seu baço por conta do esfaqueamento sofrido na porta de sua casa no final do primeiro episódio, e se vê em uma posição especialmente difícil para uma detetive particular solitária com super-poderes:
Vítima de um crime.
A relutância de Jess em aceitar esse papel é bastante crível para com o passado da personagem. Órfã, vítima de um relacionamento abusivo com um psicopata (sem contar toda a relação com o sujeito dos clubes noturnos, anos antes, e o novelão com a mãe dada como morta ressurgindo como vilã e morrendo pelas mãos de Trish...), é óbvio que ela detesta se ver indefesa ante qualquer pessoa.
A forma instantânea como ela nega o rótulo quando o detetive Costa (John Ventimiglia) tenta tomar seu depoimento diz tudo. Ela não vai esperar que a polícia pegue seu agressor quando ela própria é capaz de arremessar uma mini-van.
Ou era, antes de sofrer os ferimentos que sofreu.
Saindo do hospital contra as recomendações de seu médico, Jess imediatamente começa uma caçada a Andrew Brandt (Matt Weiss), o sujeito do apartamento invadido no primeiro episódio, em paralelo com Trish, que tem perseguido o sujeito atrás da escultura roubada há semanas.
Trish e Jessica fazem um jogo de gato e rato bem chatinho ao longo desse episódio.
O capítulo anterior nos ajudou a entender as razões de Trish para estar no que parece um duelo de patadas com sua irmã adotiva nos últimos tempos, ainda assim, o episódio não chega a fazer maravilhas pela apresentadora que segue agindo como a dona da verdade e mestra da virtude . Ainda assim, se o seu discurso para Jessica a respeito das diferenças entre justiça e vingança soam vazios, ela não deixa de ter razão na hora de diferenciar pessoas com poderes e heróis, seja como for, a insistência na queda de braço entre as duas já começa a se tornar enfadonha.
Falando em enfadonho, Jeri Hogarth e sua insistência em retomar o relacionamento com a namorada da faculdade, Kith (Sarita Choudhury, de Negócio das Arábias) está começando a encher o saco após apenas três episódios.
A personagem de Carrie Anne-Moss sempre foi moralmente dúbia, como todos os advogados que não são Nelson e Murdock devem ser, e, tudo bem, nós conseguimos sacar uma pessoa egoísta como Jeri dedicando toda a sua energia a passar seus últimos dias com a pessoa que considera o amor de sua vida custe o que custar, mas essa linha narrativa é bastante parada, e desvia foco da trama principal. Pra piorar, alimenta os conflitos de consciência de Malcolm, que consegue a proeza de ser ainda mais chato do que a obsessão de Jeri que, ao menos, tem uma dinâmica interessante com Kith, uma mulher inteligente e segura que, aparentemente, é capaz de ver além da manipulação da ex que começa a andar em cima da linha da vilania.
O ponto central desse episódio, porém, é mesmo a rivalidade entre a ex-Patsy e Jess enquanto as duas caçam o mesmo homem.
E, novamente, eu entendo a vontade da série de se dirigir à nova dinâmica do relacionamento entre Jessica e Trish, após os eventos da temporada passada e reforçar porque elas chegaram a esse nível de animosidade, mas a insistência no tema pode, em breve, começar a encher o saco, especialmente quando fica muito claro que as duas querem, basicamente a mesma coisa. Por mais que eu seja capaz de entender se aelas não se tornarem melhores amigas de novo, parece bastante cristalino que elas irão, ao menos, formar uma parceria, tomara que a showrunner não espere até que a audiência não suporte mais a dupla para fazê-lo. Idealmente alguma coisa acontece para mudar essa dinâmica antes da metade dessa inchada temporada.
"-Você faz isso há duas semanas, eu sou uma heroína há vinte-
-Super. Você é super, Jess. Tem uma diferença."
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quarta-feira, 19 de junho de 2019
Resenha Série: Jessica Jones, Temporada 3, Episódio 2: You're Welcome
Após o primeiro episódio da nova temporada de Jessica Jones ter terminado com um brutal atentado à investigadora, o segundo capítulo voltou no tempo até o final do último season finale, no momento em que Trish descobriu que a experiência de Karl havia funcionado e ela desenvolvera algum tipo de aprimoramento.
Dirigido por Krysten Ritter, praticamente todo o episódio ocorre em flashback, nos mostrando o que a ex Patsy andou fazendo de sua vida.
Basicamente, assim que descobriu suas novas habilidades, Trish se pôs a treinar incansavelmente testando a extensão das mudanças que a cirurgia do doutor Malus lhe causaram. Ela vai para o parque e salta, corre, pula, escala e faz piruetas com crescente habilidade cada vez mais segura e feliz da vida com a extensão de seus novos poderes.
Após chegar ao que considera o ideal em termos de habilidades físicas, Trish começa a monitorar a frequência da polícia pronta para agir. Inicialmente chegando sempre atrasada às ocorrências que lhe interessam, ela eventualmente tem a chance de botar a mão na massa ao presenciar um roubo de celular. É quando a senhorita Walker descobre que ser uma persona pública não combina com vigilantismo após ser reconhecida tanto pela vítima que ajudava quanto pelo ladrão que agrediu (O que nos leva à cena onde ela experimenta uniformes e faz alusão direta ao uniforme que a personagem usa nos gibis).
Intimada pelo bandido, Trish é obrigada a recorrer aos serviços de Jeri Hogarth (é estranho que Trish, desempregada e vivendo de suas economias vá atrás de uma advogada caríssima ao invés de procurar por conselheiros legais mais modestos como Nelson & Murdock, por exemplo...), e um desconfortável reencontro com Malcolm.
You're Welcome fez um ótimo trabalho mostrando quão isolada Trish se tornou após suas desastradas decisões na temporada passada.
Ela segue sendo justificadamente ignorada por Jessica (é um dos raros casos onde conseguimos entender a cara emburrada da protagonista. Se minha melhor amiga matasse minha mãe eu provavelmente guardaria algum rancor, também), olha para Malcolm com desdém por acreditar que o trabalho que o ex-viciado faz para Hogarth é uma forma de livrar a cara de gente suja (realmente é. O próprio Malcolm reconhece como vimos no capítulo anterior), ela perdeu seu talk show, seu apartamento e seu noivo, e a única pessoa que parece disposta a não desistir dela é sua mãe.
Aliás, o episódio mostra um lado mais humano de Dorothy.
A personagem de Rebecca De Mornay (a atriz que ainda hoje mantém o título de melhor cena de nudez mainstream de Hollywood) finalmente parece mais do que uma víbora parasitando o sucesso da filha, e é bom ver que a série se preocupa em dar camadas a seus coadjuvantes.
Sim, Dorothy segue preocupadíssima com a carreira de Trish, mas isso não é totalmente injustificável considerando que a loira precisou vender seu apartamento para pagar custas legais do processo que sofreu e suas economias não vão durar pra sempre.
Ela eventualmente consegue até levar a filha de volta à TV, e ambas parecem encontrar uma forma de equilíbrio onde Dorothy pode gritar com estagiários e dar pitacos na direção do programa de moda e Trish consegue um ganha-pão para sustentar sua verdadeira paixão: O combate ao crime.
A duras penas a apresentadora vai descobrindo que caçar malfeitores é mais do que apenas sair por aí chutando gente nas costelas. A vocação de Trish ao heroísmo, porém, a faz perseverar em sua impaciência para tocaias, e seu primeiro grande sucesso, quando impede um estupro, a deixa com a certeza de estar no caminho certo.
Após o cliffhanger cansado do primeiro episódio (sejamos francos, Jessica poderia ter sangrado até seu corpo estar drenado, nós todos sabemos que a personagem título não vai morrer no primeiro episódio da temporada...) o programa correu riscos com um grande flashback de cinquenta e seis minutos, mas a verdade é que o episódio foi bastante satisfatório.
Trish foi um dos pilares da série em sua primeira temporada, e se tornou terrivelmente enjoada ao longo do segundo ano (que pareceu um esforço deliberado para tornar Jessica menos antipática ao tornar todos os coadjuvantes pessoas piores do que ela). Vê-la ser aprofundada e humanizada de maneira que suas falhas sejam óbvias mas não se tornem as únicas características de sua personalidade foi bastante agradável, e Rachael Taylor fez um excelente trabalho ao mostrar o quanto Trish está sozinha por operar em modo preto no branco em um mundo terrivelmente cinzento, mas se recusa a desistir.
Por mais que suas escolhas erradas sejam frustrantes, ao menos dessa vez parece que o programa está disposto a lhe dar a chance de aprender.
"Eu invejava seus poderes, mas nunca o lance de investigação. Perseguir um cara por semanas? É como ver a grama crescer..."
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terça-feira, 18 de junho de 2019
Resenha Série: Jessica Jones, Temporada 3, Episódio 1: The Perfect Burger
Eu não sei ao certo o que me levou a começar a ver a terceira e última temporada de Jessica Jones na Netflix.
Me pareceu algo fútil ver o desfecho da série que será o fim oficial da parceria Marvel/Netflix antes de o Disney+ se tornar a única e definitiva casa dos heróis do MCU, e Jessica Jones, pra mim, sempre foi a série menos divertida do quatrilho dos Defensores (além de Jessica, Punho de Ferro, Luke Cage e a excepcional Demolidor). Ainda assim, pensei que seria injusto não ver o final do seriado já que eu assistira às duas primeiras temporadas, então, aqui estamos.
Reencontramos Jess (Krysten Ritter) algum tempo após a trágica morte de sua mãe.
Seguindo os conselhos de Alisa, Jessica assumiu seu lado heroico. Ela retomou sua rotina como investigadora, é cheia de clientes e tem uma lista de espera de pessoas a quem ajuda de graça.
Ela tem uma assistente de quem não gosta, Gillian (Aneesh Sheth), ainda bebe demais e faz sexo casual com estranhos que pega em bares, mas seus vísculos estão cada vez mais reduzidos.
Sua relação com Trish (Rachel Taylor) ainda não voltou ao normal após sua melhor amiga-quase irmã ter assassinado sua mãe com um balaço na cabeça. Sua amizade com Malcom (Eka Darville) também segue comprometida após os sucessivos passa-foras da temporada anterior, e eles se falam de maneira cordial e distante apenas quando se esbarram no corredor do prédio. Mesmo seu relacionamento com Oscar (J. R. Ramirez) teve um fim nesse meio tempo e suas interações humanas não-hostis se resumem à tietagem de Vido (Kevin Chacon) e à sua pseudo amizade com Jery Hogarth (Carrie Anne-Moss), que também está isolada.
A advogada durona começou a sentir os primeiros sintomas mais graves de sua esclerose lateral amiotrófica, e começa a ficar com medo, não apenas das consequências da doença, mas também de não ter a quem recorrer se, eventualmente as coisas ficarem ruins a ponto de ela decidir abreviar a própria vida.
A única pessoa na vida de Jeri, é Jessica.
A cena entre as duas, aliás, é um dos melhores momentos de um episódio sem grandes luzes.
Não vamos além daquelas cenas de ação estilo Power Rangers, com gente sendo arremessada e tiradinhas sarcásticas de Jessica, de modo que a discussão entre a investigadora e a advogada talvez seja o ponto mais dramaticamente pujante dessa primeira hora da temporada.
Ao menos até Dorothy (Rebecca De Mornay) surgir no escritório de Jess avisando que Trish desapareceu.
Se inicialmente Jessica faz todo o possível para ignorar as súplicas da mãe mais irritante do MCU, ela eventualmente cede e resolve ir atrás de de Trish, apenas para descobrir que a bonitona anda trilhando um caminho perigoso desde que descobriu que o procedimento a qual se sujeitara na temporada passada rendera frutos e que ela desenvolvera habilidades sobre-humanas.
Jessica não parece muito satisfeita em descobrir o que Trish anda aprontando, e nem parece levar lá muita fé no modus operandi da ex-amiga, o que, sejamos francos, nem é algo pelo qual possamos condenar a detetive beberrona. Se uma coisa ficou muito clara na segunda temporada de Jessica Jones foi que as boas intenções de Trish são inversamente proporcionais ao seu bom-senso.
Pra jogar ainda mais lenha na fogueira, após conhecer um sujeito em um bar (Benjamin Walker, de Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros), Jessica é atacada em seu escritório e esfaqueada.
The Perfect Burger é um episódio de reintrodução decente.
Nós reencontramos esses personagens, descobrimos o que eles têm feito desde a última vez que os vimos, que eles cresceram a mudaram ao longo do hiato entre as temporadas e que parecem prontos para continuar mudando conforme forem encarando o que o futuro reserva ao mesmo tempo em que o terreno é preparado para o que vem pela frente nos próximos doze episódios (a propósito, por que treze episódios? Tanto Punho de Ferro quanto Demolidor foram tão bem com dez capítulos em suas temporadas finais?).
Jessica Jones teve uma primeira temporada muito chata, salva por Trish e especialmente Kilgrave, a segunda temporada foi superior sob diversos aspectos, mas ainda longe de ser perfeita, veremos se o terceiro ano será aquele proverbial canto do cisne.
"-Talvez seja melhor se você ficar de fora.
-Porque você é uma heroína, agora?
-Sim."
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segunda-feira, 17 de junho de 2019
Minha Fortaleza da Solidão
Durante muito tempo, fora só ele.
Mesmo quando não era.
Mesmo quando havia mais alguém.
Era só ele.
Ele gostava assim.
Achava importante que houvessem momentos para estar só.
Para se dedicar às próprias coisas e pensamentos.
Para se entregar à melancolia solitário.
Para encarar o vazio sem que lhe perguntassem se estava tudo bem.
Para decidir que, naquele sábado, estava com preguiça de jantar.
Que naquela terça dormiria depois do banho e passaria a madrugada assistindo TV.
Gostava da privacidade de escolher a própria rotina.
Mesmo que, de modo geral, não fosse dado a arroubos de imprevisibilidade.
Apenas gostava de ter um perímetro de individualidade.
Vira pessoas que amava sofrerem por conta disso.
Mas não sabia evitar.
Crescera sem acesso a privacidade.
Fora o filho de uma casa onde todas as portas estavam sempre abertas.
Mesmo as que deveriam estar fechadas.
Quando finalmente teve a chance de estar só, gostou.
Não era lá grande companhia, mas se bastava.
Jamais se deu conta que podia estar magoando pessoas caras.
Nem se deu conta que alienava quem queria por perto.
Habituou-se a isso.
À solidão e aos retiros estratégicos.
A se afastar quando incomodado.
A se isolar de tempos em tempos.
Lhe era natural.
Quase automático.
Ele gostava assim.
Não quer dizer, porém, que só sabia ser assim.
Não quer dizer que não houvesse alguém capaz de mudar-lhe as disposições.
Havia.
Há.
Há quem o faça querer abrir todas as portas e todas as janelas.
Há quem o faça querer transformar seu "eu" em "nós".
Há quem o faça querer dividir tudo, o tempo todo.
Há quem o faça estar pronto a abrir as portas de sua Fortaleza da Solidão.
Há quem o faça desejar se abrir, oferecer um brinde em sua caneca favorita e dizer:
Bem vinda, amor da minha vida.
Resenha Minissérie: Chernobyl
Quando criança, eu acredito já ter tido essa reminiscência por aqui, eu tinha uma liberdade surpreendente no que tange ficar acordado até altas horas da madrugada, ás vezes sem supervisão, e assistir filmes muito além de minha faixa-etária (além do programa Comando da Madrugada com Goulart de Andrade no SBT, que tinha strip-teases em alguns blocos, mas isso é outra história). Assisti grandes filmes naquela época, o Planeta dos Macacos original, 2001: Uma Odisseia no Espaço (cuja trilha me apavorava), ...E o Vento Levou, Lawrence da Arábia, O Tesouro de Sierra Madre, e outros não tão grandiosos, A Dama de Vermelho, na verdade quase toda a filmografia de Wilder e Pryor, e Lewis e Martin, os filmes catástrofes setentistas, Terremoto, Inferno na Torre, O Destino do Poseidon e ao menos um dos filmes da série Aeroporto, ainda que eu não lembre qual, e uma série de filmes de terror, de O Bebê de Rosemary a O Exorcista passando por grandes bombas como O Ataque das Aranhas Gigantes, Alligator e dúzias do incipiente cinema slasher. Nenhum filme, porém, me assustou da maneira de O Dia Seguinte assustou.
O longa de 1983 que mostra o resultado de um ataque nuclear contra os Estados Unidos foi uma das experiências mais aterrorizantes da minha infância, e me fez nutrir genuíno pânico de energia nuclear ao longo de muitos anos de minha vida, de uma forma que nem mesmo os milagres atômicos da Marvel (O Homem-Aranha era picado por uma aranha radioativa, o Demolidor recebia um isótopo nos olhos, os X-Men eram os "filhos do átomo"...) eram capazes de amainar.
Eu cresci interessado no assunto, sempre de maneira assombrada, e ao me tornar um estudante de História, as vezes em que estivemos no limiar de um desastre nuclear só não me apavoravam mais do que as ocasiões em que esse tipo de energia realmente fora usado contra seres humanos.
Quem jamais viu Robert Oppenheimer falando a respeito da bomba atômica deveria procurar esse vídeo. Quem não sabe o tamanho da tragédia que uma bomba nuclear causa deveria ler O último Trem de Hiroshima, quem não tem medo da fissão do átomo, deveria se informar a respeito.
Meu pavor por energia nuclear foi reavivado na última semana, quando assisti Chernobyl, minissérie da HBO que revisita o desastre ocorrido na usina nuclear de mesmo nome na madrugada de 26 de abril de 1986 na cidade de Pripyat, na Ucrânia, e suas consequências.
Brilhantemente estruturada e contando com atuações excepcionais de um grande elenco encabeçado por três cobras, Jared Harris, Emily Watson e Stelan Skarsgard, Chernobyl é uma série que a cada hora que assistimos parece ficar mais pesada e mais sombria, tornando-se mais poderosa e impressionante em mesma medida conforme o foco da narrativa é tanto no desastre quanto nas pessoas que "sofreram e se sacrificaram" (como nos diz o recordatório ao final do último episódio).
A série revisita uma tragédia de proporções inimagináveis através dos homens e mulheres que estiveram lá, que morreram na explosão ou nos esforços de contenção que se seguiram e aos cientistas que tentavam entender o que originara o mais trágico acidente nuclear da História da humanidade que, sob a lente de Johan Renck, se torna mais devastador quando leva o espectador para dentro do microcosmo do evento de carona com seus personagens.
Chernobyl começa bastante episódica. Após um prólogo, somos apresentados a vários personagens que orbitam os eventos daquela fatídica madrugada de 26 de abril quando um teste de segurança que fora adiado por conta do calendário de produção das fábricas soviéticas foi levado a cabo durante a noite, com funcionários de plantão inexperientes e/ou mal-informados quanto à natureza da operação que deveriam realizar liderados pelo engenheiro chefe Anatoly Dyatlov (Paul Ritter, simplesmente asqueroso, e isso é um elogio ao ator), um escroto abusivo querendo uma promoção a qualquer custo. Sob a batuta de Dyatlov os funcionários da usina foram, tanto levados a cometer erros, quanto expostos a perigos inimagináveis conforme seu superior se recusava a reconhecer a extensão da tragédia que suas ações haviam gerado. A recusa de Dyatlov em admitir a catástrofe coloca em risco a vida de todos os trabalhadores sob seu comando e massacra os bombeiros chamados para conter o que pensavam ser apenas um incêndio no telhado da usina, alheios à verdadeira natureza do fogo, mas é a ação dos políticos do governo soviético, mais interessados em manter as aparências frente a comunidade internacional que condena milhares de residentes de Pripyat nas horas que se seguiram à explosão do reator número 4.
É quando entra em cena um dos pilares da série, Valery Legasov (Jared Harris, excepcional), físico nuclear convocado para servir como consultor por sua expertise em reatores nucleares RBMK, modelo usado em Chernobyl. Legasov é o primeiro a perceber o que de fato ocorreu em Chernobyl, e o que isso realmente significa após ler o relatório que indica a presença de grafite fora do prédio. Ele imediatamente sabe que isso significa uma explosão no reator, e não um mero vazamento no tanque de resfriamento, a versão oficial passada adiante pelas autoridades. Após enfrentar a ferrenha oposição dos líderes locais do Partido Comunista, Legasov finalmente recebe carta branca para iniciar protocolos de contenção apropriados para o problema verdadeiro, e todas as consequências que ele poderia acarretar, inclusive explosões nos outros três reatores, ainda ativos na usina, um vazamento de radiação se espalhando pelo oeste da União Soviética, e a possibilidade do derretimento do reator danificado contaminar todo o suprimento de água do país e de partes da Europa oriental.
A minissérie nos leva a descobrir como, ao custo do sacrifício de dezenas de milhares de vidas humanas, cada um desses desastres em potencial foram evitados colocando homens em face de níveis de contaminação tão elevados que os aparelhos de medição simplesmente deixavam de funcionar por conta dos altíssimos índices de radiação, forçando Legasov, o oficial do primeiro-ministro Boris Shcherbina (Skarsgaard) e a física nuclear bielorussa Ulana Khomyuk (Emily Watson) a encontrar soluções para impedir o alastramento de um desastre jamais visto durante a passagem do Homem pela Terra.
Além deles, há ainda espaço para termos um vislumbre do impacto sobre as vítimas e seus familiares através de Lyudmilla (Jessie Buckley), esposa de um dos primeiros bombeiros a chegar ao reator, e, no quarto capítulo, "The Happiness of All Mankind", descobrirmos pormenores do esforço de contenção com Pavel (Barry Keoghan, de Dunkirk), que se junta a uma equipe encarregada de sacrificar animais que viviam nas imediações de Pripyat e se tornaram agentes contaminadores, incluindo animais domésticos abandonados em um episódio dolorosamente deprimente, sim, mas conduzido e atuado de maneira certeira garantindo que o soco no estômago não seja forte demais a ponto de afugentar a audiência.
Equilíbrio, aliás, é algo no cerne do que faz Chernobyl funcionar tão bem.
O escritor Craig Mazin (Cujo currículo abismal inclui os scripts de Super-Herói: O Filme, Todo Mundo em Pânico 3 e 4, Uma Ladra Sem Limites e Se Beber Não Case partes II e III) e o diretor sueco Johan Renck (egresso de videoclipes e de seriados como Bates Motel, Vikings e Breaking Bad) acertam tão na mosca na hora de destacar o elemento humano por trás do desastre que aqueles que, a exemplo de mim, ainda se lembram, apavorados, das notícias a respeito de Chernobyl nos telejornais conseguem ver o que antes era um evento entendido com distanciamento tão emocional quanto físico de forma totalmente nova. A abordagem da dupla é o que torna um material que poderia facilmente se tornar acadêmico e científico em algo inteligível, quase tátil.
Novamente, essa é uma tarefa onde a dupla tem o apoio de um elencaço na ponta dos cascos, começando pela trinca principal.
Stelan Skarsgard faz um dos grandes trabalhos de sua vida como o político carreirista do Partidão soviético que subitamente percebe que as falácias ideológicas que movem a máquina do socialismo bolchevique não vão resolver os problemas de Pripyat. A maneira como a abordagem de seus superiores vai mudando sua visão do governo soviético só não é melhor que sua química com Harris ou seu espetacular trabalho de atuação.
Emily Watson tem uma missão ingrata, a de viver Ulana Khomiyuk, criada para a série como avatar de parte da comunidade científica soviética da época, e o que ela consegue fazer com um personagem que poderia facilmente se transformar em um recurso narrativo ou uma máquina de exposição parecer uma pessoa mesmo à revelia de, frequentemente ser um veículo para expor o poder da KGB, a busca pela verdade ou apenas os horrores do rescaldo da tragédia.
Jared Harris, por sua vez, está monstruoso. A forma como ele imbui Legasov com intelectualismo o suficiente para nós sabermos que ele sempre é a pessoa mais inteligente na sala, mas não tanto a ponto de desumanizá-lo é espetacular. Somado à forma como sua voz frequentemente treme sob notas de desespero ou resignação, deixando dolorosamente claro que ele está tentando resolver um problema que talvez não possa ser resolvido, e que já causou tanto estrago que pode já ter matado todos os envolvidos, incluindo ele próprio tornam o seu trabalho uma obra-prima. Não e exagero colocá-lo como favorito em todas as listas de premiação do ano que vem.
E pode parecer, ao ler essa resenha, que Chernobyl é toda falatório, mas a verdade é que não faltam momentos de deixar o coração na garganta, especialmente no primeiro episódio, 1:23:45, que é um incessante pontapé nas gônadas, ou a forma como acompanhamos os técnicos e socorristas da usina literalmente se desmanchando como consequência de sua exposição ao grafite lançado de dentro do núcleo do reator exposto, e, novamente, isso não é gore gratuito, pois o enfoque de Chernobyl nos leva a pensar nos personagens passando por tais desgraças com mais pesar do que curiosidade.
Somado a isso uma fotografia belíssima, edição de primeiríssima categoria, orgânica e opressiva trilha sonora da compositora Hildur Guðnadóttir e um fidelíssimo design de produção, Chernobyl nos enche de pavor e assombro. Sem jamais se entregar à soluções fáceis ou espetáculo vazio, a minissérie ilustra um desastre de proporções inimagináveis e faz uma dolorosa pergunta:
Qual o custo das mentiras?
"-Não houve nada de são a respeito de Chernobyl."
quarta-feira, 12 de junho de 2019
Top 10 Casa do Capita: Os Casais Mais Maneiros da TV
Ah, o dia doze de junho... Dia dos namorados para nós brasileiros, aquele dia de chegar do serviço com um balão em forma de coração pra entregar pra patroa, ou um buquê de rosas, uma caixa de bombons, ou a ombreira de uma armadura de couro (sério, foi o que o meu irmão comprou pra minha cunhada...), dia de jantares românticos, idas ao cinema, ou ao motel, ou hotel, ou qualquer lugar com camas, na verdade (não recomendo hospitais e lojas de móveis) onde os casais possam demonstrar seu afeto de forma mais veemente e inventiva.
Um dia muito mais especial para alguns de nós, o doze de junho é dia de celebrar o amor, e eu volto a fazer minha parte com mais um infame Top 10 Casa do Capita, desta vez, dedicado aos casais mais maneiros da TV.
À lista:
10 - Maddie e David (Cybill Shepherd e Bruce Willis - A Gata e o Rato)
Quando criança eu assistia A Gata e o Rato na companhia de minha mãe e de minha tia (que chamavam a série de a Rata e o Gato porque ambas eram apaixonadas por Willis), anos mais tarde, revi o seriado, não me lembro se no Mutishow ou no canal Sony por mera nostalgia, e se o programa oitentista não envelheceu bem com suas piadas e produção típicas da TV daquela década, a verdade é que a tensão sexual entre Shepherd e Willis era de incendiar. Os dois transformaram a expectativa sobre se eles cederiam àquela chama em uma forma de arte, e, infelizmente, eles eventualmente cederam, e a coisa toda ficou meio sem graça. Ainda assim, a ex-modelo e o detetive malandro são um dos casais pelo qual eu tenho mais afeto em meus tempos de criança.
9 - Carol Hathaway e Doug Ross (Julianna Margulies e George Clooney - ER/Plantão Médico)
Eu me lembro de, na praia, no verão de 96, enquanto minha família jantava churrasco ao redor da mesa na garagem, eu ia para a sala comer assistindo Plantão Médico, nome da série no Brasil...
A melhor série médica de todos os tempos (sim, melhor que House e dá uma surra de pau mole em Grey's Anatomy) também teve um dos mais maneiros casais a dar as caras na TV: Doug Ross, vivido pelo então desconhecido George Clooney, e Carol Hathaway, interpretada por uma Julianna Margulies que ainda não era a boa esposa de ninguém. Ross era um pediatra meio porra-louca e problemático, Carol uma enfermeira durona e diligente, os dois se complementavam e o casal de atores tinha uma química excepcional que fez mais doloroso quando eles se separaram, após Clooney deixar o programa, e mais recompensador quando Doug ressurgiu para reencontrá-la no último episódio de Margulies anos mais tarde.
8 - Amy e Sheldon (Mayim Bialik e Jim Parsons - The Big Bang Theory)
Acho que é um traço particularmente nerd se sentir algo ofendido pela interpretação que The Big Bang Theory faz dos amantes de cultura pop.
No entanto, mesmo sem ser um grande fã do longevo seriado criado por Chuck Lore, eu assisti a uma boa quantidade de episódios da série, que melhorou exponencialmente com a adição de Bernadette e, especialmente, de Amy.
A neurocientista tão brilhante quanto qualquer um dos quatro nerds originais se apaixonou por Sheldon a despeito, ou por causa, de suas excentricidades, e escavou com dedicação um caminho até o coração do astrofísico.
Infinitamente mais recompensador do que ver Amy se apaixonar por Sheldon, porém, foi ver o doutor Cooper retribuir o amor que lhe foi dedicado, ainda que de maneiras por vezes cômicas, inapropriadas ou desconfortáveis, no retrato definitivo de que, em algum lugar, há alguém para todo mundo.
7 - Scully e Mulder (Gillian Anderson e David Duchovny - Arquivo X)
Qualquer pessoa seria sortuda em ter um relacionamento romântico nos moldes de Mulder e Scully. O relacionamento que começou como uma desigual relação profissional entre a pragmática católica não-praticante e o agente do FBI que despirocou após o sumiço da irmã e colou um poster escrito "Eu Quero Acreditar" na parede do escritório onde se ocupava dos casos mais estranhos que chegavam ao bureau evoluiu ao longo dos anos.
Eventualmente Dana e Fox formaram uma parceria complementar, onde ele a fazia olhar além do que os olhos podiam ver e a mente podia aceitar, e ela o mantinha com os pés no chão quando ele começava a flutuar em direção a algum raio luminoso no céu.
De parceiros a amigos, e de amigos a amantes, Mulder e Scully continuaram sendo uma dupla antes de serem um casal, sem jamais permitir que seus sentimentos interferissem em seu relacionamento e esse, talvez, seja o grande charme dos dois.
6 - Onze e Mike (Millie Bobby Brown e Fynn Wolfhard - Stranger Things)
Pode parecer estranho para adultos ficarem torcendo para crianças se tornarem um casal, mas acho que a maioria de nós fez isso com Onze e Mike em Stranger Things, porque... Quem foi que nunca se apaixonou na infância?
Mike e Onze nos levam de volta àquele momento da vida em que nós só temos olhos pra aquela paixão de verão que não sabemos se vamos rever no ano que vem. Os dois são tão desgraçadamente fofos juntos, ou fui só eu que fiquei com um nó na garganta quando eles se reencontraram em The Mind Fyer? A inocente história de amor dos dois fedelhos é adorável de uma maneira que só quem foi uma criança nos anos oitenta (quando uma paixonite e um selinho não eram hiper-sexualizados ou considerados uma forma de agressão) é capaz de compreender, e sim, eu sei que amores de infância não são feitos para serem duradouros, mas como Visão sabiamente nos disse, as coisas não são belas porque duram...
5 - Elektra e Matt (Élodie Yung e Charlie Cox - Demolidor)
À certa altura da segunda temporada de Demolidor, eu estava torcendo para que Karen e Foggy ficassem juntos de modo a limpar o caminho para Matt ficar com Elektra.
Esse é o tanto que eu gosto desse casal.
Sim, a morena é uma assassina fria incapaz de conter seu instinto matador, e Matt é um vigilante católico incapaz de tirar uma vida, ainda assim, ele está disposto a acreditar que ela pode fazer e ser melhor de uma forma tão contrita que é capaz até mesmo de convencê-la a tentar. E, no limiar do fim, quando parece que só o que resta são os dois e a luta contra o Tentáculo, Matt está disposto a largar tudo para ficar, não com Karen, mas com Elektra, que a despeito de todas as suas falhas de caráter, é o verdadeiro amor de sua vida.
Difícil não entender Matt quando Elektra foi interpretada pela linda Élodie Yung, com quem Charlie Cox partilhava uma excelente química em cena, tornando sua mal contida atração pela ninja cativante e divertida.
4 - Winnie Cooper e Kevin Arnold (Danika McKellar e Fred Savage - Anos Incríveis)
Quando criança, eu precisava fazer malabarismo pra driblar o Jornal Nacional do meu avô e a novela das sete da minha avó, e conseguir assistir uns episódios de Anos Incríveis na TVE.
Eu me identificava com Kevin Arnold antes mesmo de conhecer uma morena com quem eu queria passar o resto da vida. A história de amor entre Kevin Arnold e Gwendolyne "Winnie" Cooper ao longo dos seis ou sete anos pelos quais os acompanhamos pode ser resumida a uma frase:
“Era uma vez essa garota que eu conheci, que morava do outro lado da rua. Cabelo escuro, olhos castanhos. Quando ela sorria, eu sorria. Quando ela chorava, eu chorava. Tudo o que me aconteceu e importou, de algum modo, teve a ver com ela. Naquele dia, Winnie e eu prometemos um ao outro que não importava o que acontecesse, estaríamos sempre juntos. Foi uma promessa cheia de paixão e verdade e sabedoria, Foi o tipo de promessa que só pode vir do coração dos muito jovens.".
3 - Ygritte e Jon Snow (Rose Leslie e Kit Harrington - Game of Thrones)
Jon e Daenerys até podiam combinar por terem trajetórias de vida semelhantes e serem ambos bonitos e pequenos, mas não há dúvida de que o grande casal de Game of Thrones foi formado por Ygritte e Jon Snow.
A selvagem beijada pelo fogo era o contraponto perfeito ao bastardo nortista de coração puro e honradez quase irritante. Desde o momento em que eles se aninharam para dormir de conchinha junto à uma pedra além da Muralha ficou claro que era pra ser. Infelizmente, o dever de Jon para com seus irmãos da Patrulha da Noite falou mais alto do que seus sentimentos por Ygritte, e ela eventualmente morreu em seus braços durante o assalto do Povo Livre a Castelo Negro, ainda assim, os momentos que os dois compartilharam no período em que Jon se juntou ao exército de Mance Raider foi muito mais significativo do que o romance artificial armado entre ele e Dany, e rendeu tanto um casamento de verdade entre Leslie e Harrington, quanto os memes "Você não sabe nada, Jon Snow", e, a tocante resposta dele:
-Eu sei algumas coisas... Eu sei que te amo.
2 - Monica e Chandler (Courtney Cox e Matthew Perry - Friends)
Sejamos francos, Friends se desenvolveu quase que inteiramente ao redor das idas e vindas do relacionamento entre Rachel e Ross, mas a verdade é que eles não eram nem o segundo melhor casal da adorada sitcom (esse era formado por Phoebe e Mike).
A honraria de casal definitivo da série coube a Mônica e Chandler e surgiu quase ao acaso quando Mon, bêbada e deprimida por ter sido confundida com a mãe de Ross, acaba caindo na cama com Chandler, que estava lá para apoiá-la.
Os dois amigos acabaram descobrindo que além do afeto entre pessoas que se conheciam desde a adolescência, ainda tinham uma excelente química sexual, partilhavam sensos de humor alinhados e tinham personalidades distintas o suficiente para não se entediarem um com o outro sem jamais entrarem nas folhetinescas idas e vindas de Ross e Rachel.
1 - Pam e Jim (Jenna Fisher e John Krasinski - The Office)
Quando entramos pela primeira vez na Dunder Mifflin logo fica claro que a cumplicidade entre Jim Halpert e Pam Beesly é mais do que apenas camaradagem entre colegas de escritório. Por muito tempo parece que apenas as brincadeiras e o flerte com Pam mantém Jim voltando à empresa de papel dia após dia. Os desencontros amorosos entre os dois ao longo das primeiras temporadas, com Pam noiva e Jim transferindo-se para outra cidade, e depois começando um namoro com outra colega fez parecer que o mote da relação dos dois seria o "vai-não vai" de tantos outros programas, mas na terceira temporada os dois se transformam em um casal (Quem não ficou com o coração leve quando ele interrompeu a entrevista dela para convidá-la pra jantar?).
Felizmente, a fagulha de cumplicidade que havia entre os dois desde o primeiro episódio jamais se apagou enquanto eles foram do flerte ao namoro, ao noivado, ao casamento e à criação de uma família, garantindo aos dois o posto mais alto nesse pódio.
Um dia muito mais especial para alguns de nós, o doze de junho é dia de celebrar o amor, e eu volto a fazer minha parte com mais um infame Top 10 Casa do Capita, desta vez, dedicado aos casais mais maneiros da TV.
À lista:
10 - Maddie e David (Cybill Shepherd e Bruce Willis - A Gata e o Rato)
Quando criança eu assistia A Gata e o Rato na companhia de minha mãe e de minha tia (que chamavam a série de a Rata e o Gato porque ambas eram apaixonadas por Willis), anos mais tarde, revi o seriado, não me lembro se no Mutishow ou no canal Sony por mera nostalgia, e se o programa oitentista não envelheceu bem com suas piadas e produção típicas da TV daquela década, a verdade é que a tensão sexual entre Shepherd e Willis era de incendiar. Os dois transformaram a expectativa sobre se eles cederiam àquela chama em uma forma de arte, e, infelizmente, eles eventualmente cederam, e a coisa toda ficou meio sem graça. Ainda assim, a ex-modelo e o detetive malandro são um dos casais pelo qual eu tenho mais afeto em meus tempos de criança.
9 - Carol Hathaway e Doug Ross (Julianna Margulies e George Clooney - ER/Plantão Médico)
Eu me lembro de, na praia, no verão de 96, enquanto minha família jantava churrasco ao redor da mesa na garagem, eu ia para a sala comer assistindo Plantão Médico, nome da série no Brasil...
A melhor série médica de todos os tempos (sim, melhor que House e dá uma surra de pau mole em Grey's Anatomy) também teve um dos mais maneiros casais a dar as caras na TV: Doug Ross, vivido pelo então desconhecido George Clooney, e Carol Hathaway, interpretada por uma Julianna Margulies que ainda não era a boa esposa de ninguém. Ross era um pediatra meio porra-louca e problemático, Carol uma enfermeira durona e diligente, os dois se complementavam e o casal de atores tinha uma química excepcional que fez mais doloroso quando eles se separaram, após Clooney deixar o programa, e mais recompensador quando Doug ressurgiu para reencontrá-la no último episódio de Margulies anos mais tarde.
8 - Amy e Sheldon (Mayim Bialik e Jim Parsons - The Big Bang Theory)
Acho que é um traço particularmente nerd se sentir algo ofendido pela interpretação que The Big Bang Theory faz dos amantes de cultura pop.
No entanto, mesmo sem ser um grande fã do longevo seriado criado por Chuck Lore, eu assisti a uma boa quantidade de episódios da série, que melhorou exponencialmente com a adição de Bernadette e, especialmente, de Amy.
A neurocientista tão brilhante quanto qualquer um dos quatro nerds originais se apaixonou por Sheldon a despeito, ou por causa, de suas excentricidades, e escavou com dedicação um caminho até o coração do astrofísico.
Infinitamente mais recompensador do que ver Amy se apaixonar por Sheldon, porém, foi ver o doutor Cooper retribuir o amor que lhe foi dedicado, ainda que de maneiras por vezes cômicas, inapropriadas ou desconfortáveis, no retrato definitivo de que, em algum lugar, há alguém para todo mundo.
7 - Scully e Mulder (Gillian Anderson e David Duchovny - Arquivo X)
Qualquer pessoa seria sortuda em ter um relacionamento romântico nos moldes de Mulder e Scully. O relacionamento que começou como uma desigual relação profissional entre a pragmática católica não-praticante e o agente do FBI que despirocou após o sumiço da irmã e colou um poster escrito "Eu Quero Acreditar" na parede do escritório onde se ocupava dos casos mais estranhos que chegavam ao bureau evoluiu ao longo dos anos.
Eventualmente Dana e Fox formaram uma parceria complementar, onde ele a fazia olhar além do que os olhos podiam ver e a mente podia aceitar, e ela o mantinha com os pés no chão quando ele começava a flutuar em direção a algum raio luminoso no céu.
De parceiros a amigos, e de amigos a amantes, Mulder e Scully continuaram sendo uma dupla antes de serem um casal, sem jamais permitir que seus sentimentos interferissem em seu relacionamento e esse, talvez, seja o grande charme dos dois.
6 - Onze e Mike (Millie Bobby Brown e Fynn Wolfhard - Stranger Things)
Pode parecer estranho para adultos ficarem torcendo para crianças se tornarem um casal, mas acho que a maioria de nós fez isso com Onze e Mike em Stranger Things, porque... Quem foi que nunca se apaixonou na infância?
Mike e Onze nos levam de volta àquele momento da vida em que nós só temos olhos pra aquela paixão de verão que não sabemos se vamos rever no ano que vem. Os dois são tão desgraçadamente fofos juntos, ou fui só eu que fiquei com um nó na garganta quando eles se reencontraram em The Mind Fyer? A inocente história de amor dos dois fedelhos é adorável de uma maneira que só quem foi uma criança nos anos oitenta (quando uma paixonite e um selinho não eram hiper-sexualizados ou considerados uma forma de agressão) é capaz de compreender, e sim, eu sei que amores de infância não são feitos para serem duradouros, mas como Visão sabiamente nos disse, as coisas não são belas porque duram...
5 - Elektra e Matt (Élodie Yung e Charlie Cox - Demolidor)
À certa altura da segunda temporada de Demolidor, eu estava torcendo para que Karen e Foggy ficassem juntos de modo a limpar o caminho para Matt ficar com Elektra.
Esse é o tanto que eu gosto desse casal.
Sim, a morena é uma assassina fria incapaz de conter seu instinto matador, e Matt é um vigilante católico incapaz de tirar uma vida, ainda assim, ele está disposto a acreditar que ela pode fazer e ser melhor de uma forma tão contrita que é capaz até mesmo de convencê-la a tentar. E, no limiar do fim, quando parece que só o que resta são os dois e a luta contra o Tentáculo, Matt está disposto a largar tudo para ficar, não com Karen, mas com Elektra, que a despeito de todas as suas falhas de caráter, é o verdadeiro amor de sua vida.
Difícil não entender Matt quando Elektra foi interpretada pela linda Élodie Yung, com quem Charlie Cox partilhava uma excelente química em cena, tornando sua mal contida atração pela ninja cativante e divertida.
4 - Winnie Cooper e Kevin Arnold (Danika McKellar e Fred Savage - Anos Incríveis)
Quando criança, eu precisava fazer malabarismo pra driblar o Jornal Nacional do meu avô e a novela das sete da minha avó, e conseguir assistir uns episódios de Anos Incríveis na TVE.
Eu me identificava com Kevin Arnold antes mesmo de conhecer uma morena com quem eu queria passar o resto da vida. A história de amor entre Kevin Arnold e Gwendolyne "Winnie" Cooper ao longo dos seis ou sete anos pelos quais os acompanhamos pode ser resumida a uma frase:
“Era uma vez essa garota que eu conheci, que morava do outro lado da rua. Cabelo escuro, olhos castanhos. Quando ela sorria, eu sorria. Quando ela chorava, eu chorava. Tudo o que me aconteceu e importou, de algum modo, teve a ver com ela. Naquele dia, Winnie e eu prometemos um ao outro que não importava o que acontecesse, estaríamos sempre juntos. Foi uma promessa cheia de paixão e verdade e sabedoria, Foi o tipo de promessa que só pode vir do coração dos muito jovens.".
3 - Ygritte e Jon Snow (Rose Leslie e Kit Harrington - Game of Thrones)
Jon e Daenerys até podiam combinar por terem trajetórias de vida semelhantes e serem ambos bonitos e pequenos, mas não há dúvida de que o grande casal de Game of Thrones foi formado por Ygritte e Jon Snow.
A selvagem beijada pelo fogo era o contraponto perfeito ao bastardo nortista de coração puro e honradez quase irritante. Desde o momento em que eles se aninharam para dormir de conchinha junto à uma pedra além da Muralha ficou claro que era pra ser. Infelizmente, o dever de Jon para com seus irmãos da Patrulha da Noite falou mais alto do que seus sentimentos por Ygritte, e ela eventualmente morreu em seus braços durante o assalto do Povo Livre a Castelo Negro, ainda assim, os momentos que os dois compartilharam no período em que Jon se juntou ao exército de Mance Raider foi muito mais significativo do que o romance artificial armado entre ele e Dany, e rendeu tanto um casamento de verdade entre Leslie e Harrington, quanto os memes "Você não sabe nada, Jon Snow", e, a tocante resposta dele:
-Eu sei algumas coisas... Eu sei que te amo.
2 - Monica e Chandler (Courtney Cox e Matthew Perry - Friends)
Sejamos francos, Friends se desenvolveu quase que inteiramente ao redor das idas e vindas do relacionamento entre Rachel e Ross, mas a verdade é que eles não eram nem o segundo melhor casal da adorada sitcom (esse era formado por Phoebe e Mike).
A honraria de casal definitivo da série coube a Mônica e Chandler e surgiu quase ao acaso quando Mon, bêbada e deprimida por ter sido confundida com a mãe de Ross, acaba caindo na cama com Chandler, que estava lá para apoiá-la.
Os dois amigos acabaram descobrindo que além do afeto entre pessoas que se conheciam desde a adolescência, ainda tinham uma excelente química sexual, partilhavam sensos de humor alinhados e tinham personalidades distintas o suficiente para não se entediarem um com o outro sem jamais entrarem nas folhetinescas idas e vindas de Ross e Rachel.
1 - Pam e Jim (Jenna Fisher e John Krasinski - The Office)
Quando entramos pela primeira vez na Dunder Mifflin logo fica claro que a cumplicidade entre Jim Halpert e Pam Beesly é mais do que apenas camaradagem entre colegas de escritório. Por muito tempo parece que apenas as brincadeiras e o flerte com Pam mantém Jim voltando à empresa de papel dia após dia. Os desencontros amorosos entre os dois ao longo das primeiras temporadas, com Pam noiva e Jim transferindo-se para outra cidade, e depois começando um namoro com outra colega fez parecer que o mote da relação dos dois seria o "vai-não vai" de tantos outros programas, mas na terceira temporada os dois se transformam em um casal (Quem não ficou com o coração leve quando ele interrompeu a entrevista dela para convidá-la pra jantar?).
Felizmente, a fagulha de cumplicidade que havia entre os dois desde o primeiro episódio jamais se apagou enquanto eles foram do flerte ao namoro, ao noivado, ao casamento e à criação de uma família, garantindo aos dois o posto mais alto nesse pódio.
terça-feira, 11 de junho de 2019
Efeméride
Onze de junho, em 1184 antes da Era Comum, foi o dia em que Tróia foi assaltada pelos gregos, saqueada e queimada, segundo consta da datação calculada do matemático, poeta, gramático, poeta, bibliotecário, astrônomo e filósofo Eratóstenes de Cirene, o Beta, porque era o segundo melhor em tudo o que fazia... Devia ser uma segunda-feira de manhã, ou seu equivalente segundo o calendário usado em Tróia...
Na mesma data, em 1864, nascia o compositor alemão Richard Strauss, e, quando o pequeno Richard completava um aninho de vida, era travada a maior batalha da Marinha do Brasil, a Batalha do Riachuelo, durante a guerra do Paraguai.
A vitória dos marujos brasileiros sobre os paraguaios foi crucial para que a tríplice aliança alcançasse o sucesso derradeiro sobre o Paraguai, arrasando definitivamente o que era uma das nações mais desenvolvidas da América Latina, mas que pensou que podia comprar briga com os três vizinhos ao mesmo tempo e sair por cima da carne seca... Outra consequência da supramencionada batalha foi que a data tornaria-se o Dia da Marinha do Brasil.
Também em 11 de junho, já em 1935 o inventor norte-americano Edwin Armstrong, até onde eu sei, sem relação com o astronauta, demonstrou pela primeira vez, uma transmissão de rádio em frequência modulada, ou, FM. Formato que, setenta anos mais tarde, seria o padrão pra quem não quer ouvir os CDs de trance e pop que tocam na academia.
Efeméride, uma palavra em latim que significa memorial diário, e é usada para classificar datas em que ocorreram fatos marcantes, como aqueles ali em cima, da data de hoje.
Estes, porém, não são os fatos mais importantes ou significativos do dia onze de junho.
Estão muito longe da importância de outro dia 11 de junho...
Um onze de junho oito anos atrás.
Aquele foi um dia... Uma noite, na verdade... Muito, muito mais memorável, importante e marcante.
Não é, afinal, todos os dias que alguém conhece o amor da sua vida.
Feliz nosso aniversário.
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