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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tocando a vida.



Vladislau caminhou para dentro do brete de fita sustentado por pequenos postes de metal que abrigava a fila da loja.
Ficou lá, parado, avaliando suas opções para em seguida. Segurava uma calça jeans, três camisetas e um casaco de veludo, vasculhava os bolsos procurando pelo cartão da loja enquanto se perguntava se seu limite cobriria as compras ou se precisaria dar uma entrada em dinheiro, talvez pagar as camisetas á vista... Conjecturava a esse respeito, pensando se faria uma gordurosa incursão ao burger king depois das compras, ou se iria procurar a SuperInteressante e o Homem-Aranha daquele mês, se compraria um jogo de videogame ou se iria guardar dinheiro pra alguma eventual necessidade e se compraria a TV de 42 polegadas que estava namorando já fazia alguns meses... Pequenos pensamentos mundanos de final de mês na fila de uma loja de shopping.
Vladislau alisava o casaco que adquiriria quando se virou casualmente para trás, ao pressentir a aproximação de outra pessoa, olhadela rápida, com o rabo dos olhos, apenas para ter ciência de quem se postara atrás de si, e o choque.
A mulher que vislumbrava, de olhos baixos, as próprias compras era bonita, morena, os cabelos negros compridos e ondulados se deitavam sobre os ombros torneados e firmes e emolduravam o rosto coberto de sardas, as sobrancelhas bem desenhadas, os lábios carnudos, o nariz afilado com um quê de Julia Roberts... Era uma mulher bonita, mas não era essa a razão do choque de Vladislau, a razão do choque era outra:
Aquela mulher e ele partilharam um passado comum.
Ela fora, durante dois anos e meio, a mulher da vida de Vladislau. Seu nome era Isabel, fora a namorada de portão de Vladislau, fora seu primeiro amor sincero e consciente, um amor que ele escolheu nutrir, que não fora criado por circunstâncias.
Sim, Isabel fora a mulher que Vladislau escolhera para amar, que ele escolhera para ser a mãe de seus filhos, com quem queria construir um futuro, Vladislau passara dois anos e meio nutrindo o amor por Isabel, e, de uma forma ou de outra, achara que fora correspondido, embora, olhando pra trás, ás vezes tivesse certeza de que amara mais do que fora amado e talvez até houvesse sido esse fato que houvesse acelerado o final da relação, vá saber...
A questão foi que, em certos momentos Vladislau se sentia fora de lugar naquela relação, ele por vezes se sentia vilipendiado e preterido nas afeições de Isabel, e o amor que ele nutrira com tanto interesse e dedicação foi sendo ressecado por palavras mordazes e atitudes irônicas e sarcásticas de parte à parte, culminando numa separação em que muito foi colocado pra fora, que fora regada à lágrimas, mas que, pelo menos fora sem ressentimentos, e talvez, até ainda com algum resquício de afeto entre ambos.
Agora, mais de dez anos haviam se passado, e ali estava ela, Isabel, menos de vinte e cinco centímetros de distância de Vladislau, remexendo as próprias compras, Vladislau não sabia como reagir, desde o final do namoro encontrara Isabel poucas vezes, sempre rapidamente, sempre em ocasiões em que um ou o outro estavam prestes á fazer alguma outra coisa com outra pessoa.
O que ele diria? O que faria? Será que ele estava bem? Engordara uns quilos, mas isso podia ser disfarçado na postura, ele ajeitou a coluna, pondo-se em posição ereta, conferiu o próprio hálito, tudo bem, comera uma caixa inteira de tic tac, o hálito estava OK.
O que diria à ela, por Deus? Viraria-se casualmente, a cumprimentaria fingindo surpresa "Isa? Quanto tempo!". Não... Melhor não chamá-la de Isa, não seria apropriado, afinal, não queria soar íntimo demais...
"íntimo demais", mas que bobagem!
Claro que era íntimo demais de Isabel, explorara o corpo nu dela em mais de uma ocasião, conhecia os recônditos mais particulares dela pessoalmente, poderia cumprimentar os tais recônditos com um "Opa, beleza?" de tão bem que os conhecia, e agora ali estava, pensando em não soar demasiado íntimo de uma mulher com quem tomara banho mais de uma vez, de uma mulher com quem dormira sem roupa, com quem partilhara sorvete de casquinha na mesma colher, claro que eram íntimos, com mil demônios.
Mas tudo bem, não era de bom tom se valer desse expediente.
A cumprimentaria casualmente, sim, mas com alguma deferência, mostrando apropriada gentileza:
"Oi, Isabel, tudo bem contigo? Como vão as coisas?".
Sim, eles conversariam, alegremente, ela elogiaria seu casaco, ele diria sorrindo meio pro lado que não entendia o suficiente de moda pra elogiar as roupas dela, eles ririam, ele a convidaria para tomar um sorvete de casquinha, "não na mesma colher, ah, ah, ah, ah, ah..."...
Não, melhor não.
Ele a convidaria, casualmente para jantar, sim, algo como "Estou indo jantar agora, e tu?", ela diria que também estava, e eles jantariam juntos como nos velhos tempos, como faziam nas quartas-feiras, jantar, cinema, depois ver TV abraçadinhos, deitar e fazer amor apaixonado... Sim, ele gostaria disso, não gostaria?
Ela fora o amor de sua vida, a mulher de sua vida, talvez agora ela aprendesse a amá-lo como ele a amava, e eles seriam felizes como não haviam sido, sem as cobranças, ironias, sem as palavras ferinas e o sarcasmo...
Vladislau se virou casualmente, olhando Isabel, ela devolveu o olhar erguendo levemente as sombrancelhas, encararam-se em silêncio por breves segundos, ele falou:
-Isabel?
Ela fez uma expressão indefinida e apenas disse:
-Sim...
Ele não pôde acreditar, será que ela não o estava reconhecendo? Seria isso?
-Oi, Isa. Tudo joia contigo?
-Ahn... Tudo, tudo joia, e contigo?
Ela não o estava reconhecendo... Não... Não era possível, ela não o estava reconhecendo. A ele, a ele que a amara, a ele com quem tomara banho, a ele que conhecera intimamente os recônditos mais particulares do corpo nu dela, ela não o estava reconhecendo.
-Tudo bem... O que tem feito?
-Ah... Trabalhando, trabalhando muito...
Ela não fazia ideia de quem ele era... Como aquela vaca insensível podia não lembrar dele, ele que lembrava de tudo, lembrava do chaveiro em forma de coração partido, lembrava da camiseta cinza que usava pra correr e ela queria pra dormir por ser larga e confortável, lembrava da música que ouviram na noite em que fizeram amor pela primeira vez, os corpos se tocando, as roupas sendo removidas enquanto Pepeu Gomes declarava que era o marinheiro do barco fantasma que iria pegá-lo... E ela não lembrava? Que bazófia era aquela? Que tipo de meretriz vil e de coração gelado desprovida de qualquer empatia ou bom sentimento poderia esquecê-lo àquele ponto?
Claro, ele engordara uns quilos, vestia-se de maneira mais sóbria, cortara os cabelos diferente, mas ainda era ele! Sua voz não mudara, seus trejeitos não haviam mudado, seu rosto não mudara, como...
Resignou-se.
Não podia abrir a cabeça de Isabel e enfiar-se lá dentro a procurar pelas memórias que ela deveria ter de ambos. Na verdade, não chegava a ser surpresa, Isabel jamais o amara como ele à ela, logo, era perfeitamente plausível que ela houvesse colocado uma pedra sobre a memória da relação de ambos assim que terminou.
Fazia sentido.
Sua vez no caixa chegou, escolheu as condições de pagamento, cinco parcelas, pagou as camisetas à vista, despediu-se friamente de Isabel:
-Tchau, bom te ver, hein? Manda um beijo pra tua mãe.
Ela disse algo, mas ele não prestou atenção. Voltou pra casa, comeu umas batatas fritas de lata, dormiu e tocou a vida.
Isabel também fez suas compras, duas blusas de alça e uma camisola verde-água. Passou o cartão, apanhou as compras e foi, também, pra casa.
Comeu um salgado na padaria perto do seu prédio e tomou um chá gelado. Ao chegar em casa, colocou as sacolas de compras sobre a cama, e sentou-se ao lado. De baixo da cama puxou uma caixa de papelão, dentro da caixa algumas fotos, um scooby-do de pelúcia, cartões, uma caneca de louça branca onde se lia "Namorada Número 1 Do Mundo", um chaveiro representando metade de um coração partido e uma camiseta cinza meio amarfanhada.
Isabel retirou a camiseta da caixa e a levou pertinho do rosto, ela ainda mantinha um cheiro cítrico de perfume e de desodorante.
Isabel a cheirou profundamente, e segurou a camiseta junto ao colo. Seus olhos ficaram marejados por um segundo. Ela guardou a caixa de novo e foi tratar de suas coisas, tocar a vida.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Resenha filme: Homem-de-Ferro


Eu sei, eu sei, estou dois anos atrasado, mas com a chegada da sequência na sexta-feira, aliada ao fato de que revi o filme em DVD ontem e estou construindo uma réplica do mini reator ARC pra ir ao cinema na sexta, e não me ocorreu nada melhor sobre a qual escrever, me pareceu um momento propício para essa resenha, afinal de contas, estamos falando do que foi um dos melhores filmes baseados em quadrinhos da Marvel no cinema.
É interessante pensar que dois anos atrás, Homem de Ferro (O título do filme não tem os hífens que existem no nome do personagem no quadrinho...) era uma aposta da Marvel. A casa das ideias havia feito um empréstimo gigante e iria produzir os próprios filmes, pelo menos os próprios filmes de personagens da editora que não estivessem licenciados á outras produtoras, como os X-Men, o Demolidor e o Quarteto Fantástico, presos á FOX (Coitados...), e o Homem-Aranha nas mãos da Sony.
A Marvel tinha, então, a possibilidade de realizar filmes de personagens como Thor, Homem de Ferro, Hulk, que revertera á editora depois do fiasco do filme de Ang Lee, e Capitão América, entre outros. E, o primeiro personagem á ganhar uma encarnação cinematográfica direto da editora mãe seria, justamente, o Homem de Ferro.
A marvel começou acertando em cima da pinta com a escolha do diretor do longa do ferroso.
Jon Favreau, que iniciara a carreira como ator, havia realizado como diretor os bacanas Um Duende em Nova York e Zathura - Uma Aventura Espacial, provando nesses filmes, em especial no segundo, que conseguia encarar as demandas técnicas de um blockbuster cheio de efeitos especiais, mas que era capaz, também, de inserir e trabalhar os elementos de conflitos humanos, tão caros aos quadrinhos da Marvel.
O diretor estava escolhido, mas um dos fatores primordiais para o sucesso de um longa metragem é seu protagonista, e, mais uma vez, a Marvel deu um tiro certeiro.
Para o papel do alter-ego do herói, Tony Stark, um playboy bilionário, egocêntrico, sarcástico, além de inventor genial e auto-destrutivo, foi escalado Robert Downey Jr., que como ator tem seus momentos geniais e um histórico auto-destrutivo.
Completando o elenco estrelado havia ainda Gwineth Paltrow, no papel do (Nada convencional) interesse romântico de Stark, Pepper Potts, Jeff Bridges, excelente como o vilão Obadiah Stane, e Terrence Howard, como o melhor amigo de Stark, tenente-coronel James "Rodhey" Rodhes.
Sob a batuta de Favreau, esse povo contou a história de Anthony Stark, gênio da indústria bélica que lucra rios de dinheiro através do comércio de morte, desprovido de consciência Stark colhe os frutos de sua genialidade levando uma vida de nababo, com festas, mulheres e álcool. Egocêntrico e arrogante, Stark é uma pessoa consciente de sua genialidade, e faz seu trabalho sem se procupar com as consequências.
Isso até sofrer um atentado no Afeganistão, e se tornar prisioneiro do grupo terrorista Irmandade dos Dez Anéis, que demandam que Stark lhes construa uma poderosa arma de destruição em massa.
Ferido por suas próprias armas durante o atentado, Stark é obrigado a trabalhar para os terroristas, entretanto, ao invés de construir a arma que lhe foi pedida, ele passa a desenvolver uma armadura que poderá ser seu passaporte para fora do cativeiro.
Com a ajuda de Yinsen (Shaun Toub), outro prisioneiro dos Dez Anéis, Stark monta a primeira versão do traje de super-herói, e escapa dos seus algozes.
De volta aos Estados Unidos, Stark, confrontado com a realidade de seu trabalho, e temendo por seu legado decide que não quer ser lembrado como um mercador de destruição, ele decide mudar o foco de sua companhia e trabalhar em prol da paz.
Isso, porém, vai de encontro aos interesses de muitas pessoas, que não estão dispostas a abrir mão de tudo que as armas de Stark proporcionam, em especial a mais nova e poderosa delas:
O Homem-de-Ferro.
É uma premissa interessante, que poderia resultar em apenas outro filme movimentado de super-herói, mas nas mãos de Favreau e Downey Jr. se tornou um filme com humor (Afinal, um filme de super-herói não pode se levar a sério demais, como o Coringa mostrou ao Batman em Cavaleiro das Trevas), com alma, cérebro (Favreau?) e coração (Downey Jr.?), que abriu com maestria o caminho para o futuro filme dos Vingadores e fez muita gente desejar que a Marvel jamais tivesse cedido os direitos de filmagens de seus personagens pra estúdios.
Será que a sexta-feira demora muito pra chegar...?

"Me dê um scotch, estou faminto."

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Convicções


Jessé cambaleou trôpego como um hébrio e caiu sobre sacos de lixo apoiados em uma placa de sinalização. Uma dor reverberou latejando da ferida em sua barriga espalhando-se com igual intensidade por todo o seu corpo. A pior parte foi quando ela chegou á sua cabeça, onde fez latejarem, ao mesmo tempo, todos os seus dentes.
Jessé se apoiou na mão esquerda, enquanto com a direita pressionava a ferida aberta em seu abdôme, entretanto, não teve força para se erguer com apenas uma das mãos, se apoiou como pôde, ficou de joelhos, e se ergueu apoiando o corpo no poste da placa de trânsito.
Sentia frio, sua roupa estava molhada, não apenas pela água da chuva que fustigara a cidade nos últimos três dias, mas também pelo sangue que abundava de sua ferida aberta. Jessé imaginava quanto sangue haveria perdido. Não sabia estimar a quantidade, mas chutava, pelo tamanho das manchas de sua roupa, quase um litro. Ficava se perguntando quanto sangue uma pessoa trazia no corpo, nunca lembrava, já lera, mas havia esquecido. Quatro litros? Cinco? Algo assim? Se eram quatro ele podia se preocupar, perder um quarto do sangue do corpo, ou um quinto, que fosse, não parecia uma perspectiva das mais tranquilizantes.
Jessé imaginou se não era um bom lugar pra morrer, ali em meio aos sacos de lixo. Eles nem estavam cheirando mal, eram macios, ele podia ficar ali, morrer sobre o lixo, era até algo poético, ele que durante toda a vida fora acusado de tratar aos outros como lixo, morrer em cima de sacos do mesmo.
Jessé sentiu uma ponta de auto comiseração ao pensar nessa possibilidade. Imaginou como seria se um de seus amigos o visse agora, ali, sangrando feito um suíno, precisando desesperadamente de ajuda. Será que o ajudaria?
Jessé não era uma pessoa fácil de conviver. Na verdade, ser amigo de Jessé era uma tarefa que demandava certo esforço. Jessé era avesso a atividades sociais, Jessé detestava sair á noite, não gostava de festas, parecia entediado sempre, era uma pessoa com gostos extremamente particulares. Tirá-lo de casa, fosse para o que fosse, dava trabalho. Não que Jessé não saísse nunca, ele frequentemente saía com seus amigos, ele apenas escolhia com muita propriedade os programas aos quais atenderia, e eram poucos, isso criava essa distância entre Jessé e seus amigos.
Jessé também se envolvia apaixonadamente em discussões de toda a espécie, religião, política, futebol, Jessé tinha opiniões concretas sobre todos os assuntos, ele geralmente mantinha suas opiniões para si, mas quando uma discussão se iniciava, Jessé fincava o pé e mantinha suas convicções até ser convencido do contrário, o que acontecia muito raramente. Não por que Jessé se achasse o dono da verdade, ou se imaginasse superior aos outros, nem que fosse turrão com suas opiniões pétreas, ele apenas escolhia suas convicções com parcimônia, de modo que custava para se desfazer delas, o que era outro fator de distanciamento de Jessé das outras pessoas.
Jessé não era uma pessoa sentimental, suas reações eram as mais racionais possíveis, não que ele jamais tomasse atitudes passionais, ou que fosse lógico e frio feito um vulcano de Jornada nas Estrelas, ele simplesmente preferia abraçar a racionalidade, isso o mantinha são, e ele gostava de ser são e de estar no controle de si próprio, de ter uma margem de espaço do resto da humanidade, mesmo daquelas raras pessoas de quem ele gostava, Jessé precisava de um perímetro, uma zona de conforto.
Agora ele estava distante de todos, perdendo sangue pelo buraco de bala em sua barriga... E nem lembrava ao certo por que fora baleado, ele havia discutido com o sujeito dentro da danceteria... Pelo quê? Uma garrafa, um encontrão? A discussão virou uma briga, empurrões, chutes, e o sujeito saiu depois de Jessé acertar-lhe uma cabeçada, Jessé não teve mais clima para permanecer na danceteria, seus amigos tentaram dissuadí-lo por causa do horário, mas Jessé não ouviu, disse que pegaria um táxi em frente... Não havia táxi, Jessé resolveu andar até encontrar um, caminhou quatro quarteirões, somente ele na rua, até que, subitamente, ouviu o chamarem e, ao se virar, foi alvejado. Levou algum tempo para entender o que acontecera, ouviu o estampido, viu o sujeito com quem brigara, de nariz ensanguentado, que saiu correndo, ainda pensou em correr atrás do sujeito, mas sentiu algo molhado na camisa, e percebeu o sangue...
Era isso... Jessé morreria na rua, em cima do lixo, por causa de uma briga numa danceteria. Ele que odiava danceterias e brigas em proporções quase iguais, que fora á festa unicamente por ser aniversário de uma amiga por quem tinha grande apreço, morreria ali.
Pensou em como agira, em quantas vezes magoara as pessoas que o cercavam, em quantas vezes fora displicente, irônico ou sarcástico com pessoas que lhe eram caras, em quantas oportunidades teve de dividir momentos com pessoas que o amavam e desperdiçou essas oportunidades em nome de satisfação rápida e vazia. Se tivesse uma oportunidade de voltar atrás, sim... Jessé faria exatamente igual.
Ele era assim, uma pessoa de convicções pétreas.
Deitou sobre o lixo, ajeitando-se, diminuiu a pressão sobre a ferida e sorriu. Estava pronto.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Homem-Aranha: Com Grandes Poderes...


Após vários dias com a revista pesando em minha estante sem ter sido lida, resolvi, após ler as duas Superinteressante que estavam melhor posicionadas na fila dos meus interesses momentâneos, ler Homem-Aranha: Com Grandes Poderes... Primeira edição da série especial lançada pela Panini com alto padrão de acabamento gráfico que promete ótimas histórias inéditas de alguns de seus personagens mais clássicos. Promete, beleza, mas cumpre?
No quesito alto padrão de qualidade gráfica, certamente que sim, capa dura com verniz localizado, páginas em papel couché, tudo muito bonito, pra ficar uma belezura na estante e por módicos dezenove reais e noventa centavos, espetáculo.
Mas quanto á ótima história...
Francamente, achei que não.
Homem-Aranha: Com Grandes Poderes... É um história do tipo retcon, que acrescenta elementos, personagens e situações aos dias iniciais da carreira de Peter Parker como Homem-Aranha, quando ele ainda não tinha, como o título deixa bastante claro, grandes responsabilidades. Temos ali um Peter Parker retratado de maneira até bastante crível, ele foi vilipendiado pelos seus colegas de escola durante todo o ensino médio e subitamente se vê capaz de prodígios espetaculares, é perfeitamente aceitável que um pirralho de quinze anos se achasse o rei da cocada preta, que se tornasse respondão e que resolvesse dar vazão aos seus instintos mais baixos e prioridade ás coisas que lhe dão prazer em detrimento de suas obrigações.
A história escrita por David Laphan e desenhada por Tony Harris enfatiza essa faceta "aborrescente" do personagem enquanto mostra seus primeiros dias de Aranha como estrela de TV e da luta-livre, apresentando personagens que jamais haviam sido mencionados e criando motivações "plausíveis" pra coisas como os lançadores de teia e o uniforme, explicações plausíveis que jamais fizeram falta ao cânone de Lee e Ditko, mas enfim, que vão de encontro aos interesses de uma geração que conheceu o personagem dos quadrinhos no cinema e ainda não é capaz de guardar as proporções entre os gibis escritos no começo da década de sessenta e o filme produzido na aurora do século XXI.
A história de Com Grandes Poderes é consistente, e entrega o que se propõe, mostra um jovem adolescente com grandes poderes e nenhuma responsabilidade, mas escorrega feio ao alterar demais, não só a personalidade de Peter, mas o espírito do personagem como o conhecemos (Ou conhecíamos, baseado em recentes eventos dos quadrinhos...).
Peter pode ter flertado com irresponabilidade e fortuna fácil, mas ele jamais foi um covarde, jamais foi um ingrato, e jamais daria as costas ao tio Ben e à tia May.
Recentemente uma história curta de J. M. DeMatteis foi publicada no gibi mensal do Homem-Aranha, ela mostrava o Homem-Aranha, no auge de seus quinze anos, em uma de suas primeiras missões de super-herói após a morte do tio, seu medo, sua falta de jeito, e todos os elementos que teriam feito qualquer outra pessoa largar tudo aquilo de mão.
Não era uma história longa como a da edição especial, não era tão elaborada. Mas tinha alma.
Talvez esse seja, no final das contas, o elemento que faz uma boa história.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tomara que não chova...


Chato, uma quinta após um feriado que caiu bem no meio da semana. Aqueles feriados em que não há perspectiva de se fazer coisa alguma que não se faça em qualquer outro dia exceto isso:
Fazer coisa alguma.
Chato. De manhã, acordar, vestir as meias, calçar os sapatos, vestir as calças e a camiseta, sair pra trabalhar.
Se estivesse frio não seria tão ruim. Mas não está frio. Não está quente, também. Úmido. Aquele tempo úmido que prenuncia chuva, o céu cor de chumbo, dando ao dia uma tonalidade amarelo-esverdeada modorrenta. O inverno não chega, o outono ainda não está aí, tampouco reina o verão... É uma estação indefinida, nesse dia. Um dia indefinido e modorrento e úmido.
Aquela iluminação amarelo-esverdeada te fustigando e tu, sem guarda-chuva. Tu torce pra não chover, pois tu não está carregando o guarda-chuva, e nem sequer esqueceu, decidiu não levá-lo. Foi uma decisão consciente baseada em praticidade, carregar guarda-chuva e mochila é foda. Mas se desabar o aguaceiro que se avizinha, tu vai chegar ao trabalho ensopado, tomara que não chova.
Ir ao trabalho (Tomara que não chova.), parar no caminho, comprar uma água mineral (Tomara que não chova.), cumprir a jornada, meio dia, sair para o almoço (Tomara que não chova.). Uma hora, de volta ao trabalho (Tomara que não chova.), Voltar pra casa (Tomara que não chova.), chegar, elevador, olha pra vizinha, decotão, par de pernas intermináveis, ajeita a postura, sorri meio pro lado, quase pretencioso:
... Será que chove?
Entrar em casa, festa do cachorro, sair com o cachorro (Tomara que não chova.). Levar ele pra tomar banho, ele está seco mas cheira a cachorro molhado, precisa tomar banho (Tomara que não chova.).
Voltar pra casa(Tomara que não chova.), Tomar banho, colocar roupas na lavadora (Tomara que não chova.), jogar um pouco de video game, ler e-mails (Tomara que ela tenha me mandado notícias.), ir ao mercado comprar uma Fanta e um pacote de salgadinho, Doritos, de preferência (Tomara que não chova.), hoje tem jogo, o time precisa vencer, precisa jogar bem (Tomara que não chova.), sair pra correr? Que preguiça (Tomara que chova.).
Não chove. O dia termina como começou, úmido, modorrento, um prenúncio que não se confirma, chato. Nem foi um feriado instalado no meio da semana, é uma quinta, quinta deveria ser um bom dia, anterior á sexta, e sexta é um ótimo dia. Mas não, foi um dia chato. Eles têm sido todos assim? Os dias? Têm sido, todos eles, chatos? Modorrentos? Quase como feriados no meio da semana?
Olhando em perspectiva, eles meio que têm sido assim. Todos eles...
Mas, e sempre há um mas, o mês caminha á passos largos para o fim, e o mês vindouro carrega consigo promessas de dias mais divertidos, mais alegres, repletos de sensações cálidas de completude.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Situação caótica.


"Ah, meu Deus..." Pensou Alfredo, "Não vai dar tempo." ele elucubrou de forma pessimista enquanto caminhava o mais rápido possível em direção ao banheiro do shopping.
Carregava oito sacolas de compras de supermercado na mão esquerda e uma sacola com uma caixa de sapatos e outra com dois pares de calças na mão direita. Tinha a fronte coberta de gotículas de suor, mas sentia calafrios, um cólica violenta o açoitava de tempos em tempos com intervalos cada vez menores. Seus passos miúdos, com as coxas coladas de forma pouco eficaz mas oferecendo apoio moral ao esfíncter, cada vez mais enfraquecido em sua função de evitar que o pior acontecesse.
Alfredo não merecia aquilo, na sua própria opinião, pelo menos. Era um homem trabalhador, pensava apenas no bem estar de sua família, se comera aquele hambúrguer cheio de pepino e cebola quentes e catchup, se comera uma porção de fritas grandes tambéms lavadas no condimento de tomate, se bebera um milk shake de chocolate de setecentos mililitros foi por mera conveniência, pouparia alguns minutos valiosos se não precisasse esperar que uma refeição de verdade ficasse pronta, afinal precisava ir ao shopping comprar sapatos para a Cecília e calças, por que o Júnior precisava de calças.
Se ele dirigira as quatro quadras que separavam sua casa do shopping foi por que era mais rápido e ele teria tempo de passar no supermercado e fazer as compras como Margarete pedira de forma veemente ao telefone.
Alfredo era um bom homem, trabalhava, era bom pros filhos, não fazia mal pra ninguém, cuidava de seus assuntos, não merecia o futuro imediato que se descortinava á sua frente, ou melhor, na sua traseira.
Tudo bem, ele ignorara a potencial volatilidade da mistura de seu lanche, o fast food já mencionado, com o seu almoço, que incluiu, fora uma saladinha, mais por desencargo de consciência, três panquecas, dois bifes á parmegianna e espaguete ao sugo, fora um chocolate twix na sobremesa.
Agora, aqueles elementos todos estavam fermentando nas entranhas de Alfredo, misturados ao café que ele ingeria em quantidades industriais sentado no trabalho, e á rapadura que ele comprara de um guri no sinal á caminho do shopping, e eles borbulhavam dentro de seu abdôme, pelo menos era a sensação que ele tinha, enquanto ouvia os ruídos que seu estômago e intestinos produziam.
Alfredo repetia para si mesmo como um mantra que não merecia aquilo e que daria tempo, não merecia aquilo, daria tempo, não merecia aquilo...
Mas a verdade é que Alfredo, descuidado como era, relapso como era com a própria saúde.... Bom, a verdade é que, independente do que ele achava, ele meio que merecia aquilo, sim.
Se não aquilo, alguma outra forma de represália. Não se pode abusar como Alfredo abusava sem sofrer alguma espécie de revés, simplesmente não faz sentido. Ninguém descuida tanto de coisas importantes e fica incólume, e Alfredo descuidara.
Alfredo cuidava de sua família, e do próprio bem estar, OK, mas não era capaz de colocar parte desse esmero em cuidados simples que o poupariam de situações como aquela que agora enfrentava.
Alfredo e sua luta interna (literalmente.) contra seu intestino eram como a humanidade e a natureza. A situação caótica de hoje poderia ter sido evitada se alguns cuidados simples tivessem sido tomadas algum tempo atrás. Tanto Alfredo quanto a humanidade não estariam no limiar de uma situação catastrófica se não tivessem sido gananciosos e incautos no passado.
Agora, não entendiam por que estavam como estavam, e, por mais que lutassem, um observador isento diria que de um modo ou de outro, iria dar merda.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Outra vida.


Edegar era um sujeito simples. Era, mesmo. Não é falácia. Ele era simples. Gostava de coisas simples, vivia de maneira simples, e, mais importante, honesta.
Edegar trabalhava de segunda á sexta, estudava á noite, se exercitava com boa frequência, embora quisesse se exercitar com mais frequência ainda, o que não fazia pela escassez de horários.
Edegar gostava de prazeres simples, gostava de cinema, gostava de esportes, assistia noticiários, mas faltava alguma coisa na vida de Edegar, embora ele não tivesse muita certeza de o que era.
Edegar trabalhava no arquivo público municipal de sua cidade. Era um bom emprego. Trabalhava seis horas por dia, tinha estabilidade, ganhava um salário digno, e era um emprego sem imprevistos. Praticamente ninguém consultava os arquivos públicos após o advento da internet. O Google fizera de Edegar e seu trabalho obsoletos, e ele não se importava. Era mais tranquilo assim. Na verdade, Edegar não gostava muito de seu trabalho. Ele achava chato, pouco estimulante, maçante, até. Ele conseguira aquele emprego graças á influência do marido de uma tia-avó por parte de mãe, que era vereador. Jamais queisera o trabalho em questão, mas sua mãe lhe dissera o quanto era importante que Edegar começasse á trabalhar já que estava fazendo dezenove anos.
Edegar agradeceu ao vereador com uma garrafa de vinho, por recomendação de seu pai, que lhe disse o quão importante era manter uma boa rede de contatos.
Edegar seguiu na faculdade, cursava administração, também recomendação de seu pai, que lhe disse que, já que o jovem não se interessava de verdade por nada em particular, era bom ter um curso universitário genérico. Edegar detestava o curso de administração. Também era chato, maçante e tudo mais, na verdade Edegar queria, mesmo, era cursar turismo e sair viajando pelo mundo, mas não era uma coisa prática, ou factível, então Edegar seguia na administração, tinha um desempenho medíocre que lhe permitia ir levando sem rodar em nenhuma das cadeiras que cursava.
Edegar namorava uma moça, Edilene, Edilene morara a vida toda na casa ao lado da dos pais de Edegar. Se conheciam desde os sete anos de idade, sempre implicaram um com o outro na escola. Edegar jamais viu Edilene como algo além da vizinha implicante, entretanto a recíproca não era verdadeira, Edilene, por volta dos 17 anos resolveu fazer de Edegar o alvo de suas afeições, e, por recomendação dos amigos, Edegar acabou se envolvendo com a moça, que era de boa família, bem comportada, recatada, enfim, uma moça de fundamento.
Mas Edegar não gostava, de fato, de Edilene. Havia outra moça, Raquel, que atraia Edegar, mas Edegar nem sequer pensou em gastar latim com ela. Raquel era descolada, cosmopolita, bem informada, era, como Edegar dizia, maneira. E uma moça maneira como Raquel não tinha razão pra dar bola pra um sujeito tão... Tão... Tão sem adjetivos como Edegar. Então, Edegar se mantinha ao lado de Edilene, não estava infeliz, mas também não estava feliz.
Edegar queria sair de casa, morar sozinho, mesmo que não fosse sair da cidadezinha, mas tinha que ajudar seus pais. Todo santo dia ouvia o quanto sua ajuda era importante em casa, o quanto as coisas seriam difíceis sem ele. Edegar ouvia os elogios e era corroído por dentro, e ficava. Ficava á despeito de não ter privacidade ou individualidade. Tentava tirar o melhor de tudo, mas ás vezes era difícil, difícil demais. Nessas ocasiões Edegar escrevia, não eram bons textos e ninguém lia eles, Edegar preferia assim. Não sabia se conseguiria lidar com críticas negativas. Edegar descontava suas frustrações no papel. Seu sonho era ser escritor. Por isso aceitara o emprego no arquivo, seria uma maneira de estar em meio á escritos, talvez o ambiente o inspirasse e melhorasse sua escrita. Mas Edegar praticava pouco, quase nada.
Edegar acordava ás seis da manhã, tomava café e saia para o trabalho onde chegava ás oito, ao meio-dia almoçava com Edilene no restaurante do seu Feijó, ele saia do trabalho ás cinco, corria cinco voltas ao redor do parque, ia á faculdade ás sete da noite, chegava em casa perto das onze, conversava com Edilene por meia hora, embora a maior parte do tempo ela falasse sem parar e ele ouvisse muito pouco, depois ele ia para a cama.
Esse era o dia á dia dele, com raras alterações, como ir ao cinema, ou os finais de semana em que Edilene arranjava algum programa do qual Edegar não gostava, mas ia sem reclamar por que, afinal, qual o ponto em reclamar?
Edegar se mantinha em animação suspensa.
Vez que outra se pegava imaginando como seriam as coisas se ele não fosse tão letárgico. Se ele abrisse mão da segurança e da responsabilidade, se ele tentasse, ao menos uma vez, não fazer as coisas conforme todos esperavam, e fizesse, naquela vez, o que ele, e não os outros, queria.
Mas esses pensamentos desvaneciam rápido quando Edegar lembrava que não podia simplesmente dar as costas á sua vida e fazer tudo diferente. Ele tinha obrigações, ele tinha responsabilidades, era honesto demais, responsável demais pra mandar tudo lá pra casa do Capita e agir por impulso. Talvez fosse isso... Talvez isso fosse apenas uma desculpa triste pra sua covardia e apatia. Ele não sabia, e naquele momento, saber não era uma prioridade.
Uma noite, após a sua corrida, Edegar foi á venda do grngo Walter comprar um energético, quando saiu, sorvendo com gosto a bebida gelada, esbarrou com Raquel.
Pediu desculpas, ele viu que ela carregava um DVD, ele comentou, ela sorriu e engataram uma breve conversa sobre cinema, tinham algumas opiniões muito parecidas (Ambos gostavam de Woody Allen) e outras totalmente divergentes (Ela adorava Almodóvar, ele detestava.), mas a conversa foi agradável.
Se despediram, e, quando Edegar retomava seu caminho pra casa, foi impelido á olhar para trás, e, ao se virar, percebeu que Raquel também virou e olhou.
Sorriram um para o outro e seguiram, cada um seu caminho.
Edegar sentiu dentro de si um calor, uma sensação de cor e som... Ele não soube o que era, mas se sentiu bem.
Era uma sensação nova para Edegar, era vida.
Até ali, Edegar não estava morto, ou vivo, outros estavam vivendo a vida de Edegar por ele. Agora, que ele conhecia o sabor de viver a própria vida, seu futuro dependia apenas dele.