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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Lado Sombrio


-O Lado Sombrio, a tudo obscurece.- Disse o Estevão à cabeceira da mesa do bar de sempre, sob o olhar surpreso do Jael e do Lontra.
-Quê? - Perguntou o Jael, tentando entender enquanto levava o copo de chope à boca.
-O Lado Sombrio... Ele obscurece tudo. Nubla os nossos sentidos, embaça nossa visão, nos faz tomar más decisões. - Respondeu o Estevão, enigmático, olhando pra cestinha de rodelas de calabresa diante de si.
-Tá louco, porra? - Inquiriu o Lontra, alterado.
Essa, aliás, era a dinâmica recorrente daquele grupo. O Estevão tinha epifanias, o Jael não entendia, e o Lontra se alterava. No mínimo uma dessas três coisas acontecia sempre que saiam juntos.
O Estevão não respondeu. Apanhou uma das últimas calabresas, empalada em um palito de dentes e a levou perto do rosto, então a mordeu e fechou os olhos enquanto mastigava.
-Que quié isso de Lado Sombrio, Estevão? - Quis saber o Jael, ainda confuso.
O Estevão fez um gesto como quem pede pra esperar enquanto mastigava. O Lontra, impaciente, bebeu um gole de chope e fez um "nhah!" de quem está impaciente.
-Fala duma vez, caceta.
-Calma. Eu vou explicar... - Disse, tranquilo, o Estevão.
-Tenho até medo quando tu diz que vai explicar... - Retrucou o Lontra.
-O medo é um dos caminhos que levam ao Lado Sombrio...
-Ah, te fode, Estevão... Essa porra é do Guerra nas Estrelas. O bagulho lá da Força...
-Ah, esse é aquele que tem o Doutor Spock? - Quis saber o Jael.
-Não. -Respondeu o Estevão. -Esse é no Jornada nas Estrelas, e é "senhor" Spock. O doutor a bordo da enterprise é o Leonard MacCoy.
-Ah...
-Vem com esses papos de nerd aí... E eu ainda dou atenção. - Continuou o Lontra, com pouco caso.
-A tua falta de fé me perturba. - Disse o Estevão, olhando pras calabresas novamente.
-Vai se ferrar. - Respondeu, ríspido, o Lontra.
Focaram em silêncio. Mas o Jael o rompeu após beber mais um pouco de seu chope e fazer "Ah!":
-O que eu queria, mesmo, daqueles filmes eram as espadas. As espadas de laser eram do Guerra, não do Jornada, né?
-Sim. - Confirmaram Lontra e Estevão, juntos.
-Aquelas espadas eram muito fodas. Queria aquela vermelha do Lorde Vader...
-Darth - Corrigiu o Lontra. -Darth Vader.
-Mas Lorde Vader não chega a estar errado. Os militares imperiais á bordo da Estrela da Morte se referiam ao Vader como "Lorde Vader". -Disse o Estevão, bebendo um gole da sua coca-cola, já morna e sem gás.
-Vai tomar no teu cú, Estevão. Para de me retrucar, criatura. - Respondeu o Lontra, de sopetão, antes de beber mais um gole de seu chope.
-O que vocês queriam daqueles filmes? - Perguntou o Jael, enquanto erguia seu copo.
-Eu queria a Princesa Léia. Mas sem aquele penteado fone de ouvido - Disse o Lontra, empilhando várias bolachas de apoio de copo e agarrando uma calabresa. -De cabelo soltinho, que nem ela aparece em Os Irmãos Cara de Pau.
-Ah... - Suspirou o Estevão. -Com o biquíni dourado da versão escrava do Jabba...
-Ah, é... -Lembrou-se o Lontra, admirado, olhando pra cima como um ancião que lembra da juventude. - O biquíni dourado do Jabba...
-Que biquíni é esse? Quem é esse Jabba? -Quis saber o Jael, curioso.
-Jabba era tipo, um verme gordo gigante... -Começou o Lontra. Ele sequestrava a Léia- Mas o Estevão o interrompeu.
-Ele não sequestrava, ela. Ela invadia o palácio dele e era feita prisioneira.
-Puta que o pariu, não vai me deixar contar a história, caralho?
-Não. Tá contando errado, não deixo.
-Então conta, tu, sabe-tudo-de-merda-do-caramba.
Ficaram os dois em silêncio. Estevão bebeu sua coca-cola, Lontra seu chope. O Jael também bebeu, e ficou esperando:
-Tá, e aí? E o Jabba esse, e o biquíni?
O Lontra e o Estevão se olharam. O Lontra fez sinal pro Estevão seguir, e ele começou:
-Então, o Jabba era um Hutt, uma raça de alienígenas que parecem, mesmo, uns vermes gordos e gigantes. O Jabba vai matar um dos personagens do filme, o Han Solo, que é-
-Versão curta, porra, versão curta. - Apressou o Lontra.
-Tá, tá. Então o Jabba vai executar o Han Solo, um dos personagens centrais do filme, e a Leia se infiltra no palácio do Jabba como um caçador de recompensa, mas é descoberta, aí o Jabba faz dela prisioneira, e ela aparece acorrentada pelo pescoço ao trono do Jabba, usando um biquíni metálico dourado com verde-musgo, que... Velho... Tipo, é o píncaro do sex-appeal nerd. É o equivalente sci-fy da tirada de luvas da Rita Hayworth em Gilda, é um lance que, sei lá... Fez uma geração inteira sonhar em ser um verme gigante e gordo vivendo em um deserto...
-Pô, tanto assim? -Perguntou, desconfiado, o Jael.
-Tanto assim. - Responderam, em uníssono, Estevão e Lontra.
O Jael riu e bebeu o último gole de seu chope.
-Se não acredita na gente, coloca no Google. "Bikini" e "Leia", e clica em imagens. Tu vai ver. - Aconselhou o Estevão, matando a sua coca-cola morna em um só gole.
-Tá, então, pra mim é a espada laser-
-Sabre de luz. -Corrigiu o Estevão.
-Isso, era esse o nome. Então, pra mim é o sabre de luz vermelho do Darth Vader, pro Lontra o biquíni da Léia-
-O caralho, rapá, pra mim é a Léia de biquíni, ô.
-Isso, foi o que eu quis dizer, a Léia de biquíni, e pra ti, Estevão?
O Estevão ficou olhando pra cesta vazia de calabresas por um momento, e então disse, como se iluminado.
-O truque mental Jedi!
-Que porra é essa? -Perguntou o Lontra fechando um olho como quem faz força pra lembrar.
-É aquela finta de mão que, acompanhada pela sugestão do jedi e o poder da Força convence pessoas de mente fraca a aceitar qualquer coisa, lembra? O Obi-Wan usa nos Stormtrooper quando chega a Mos Eisley no episódio quatro, depois o Luke usa no guarda gamorreano do palácio do Jabba, no episódio seis... Sabe? Aquele lance assim:
Estevão fez o clássico gesto em forma de arco com a mão direita, os dedos indicador e médio estendidos, o anular e o mínimo encolhidos, da esquerda pra direita enquanto dizia:
-These aren't the droids you're looking for.
-Ah, tá! Tô ligado. Arram. Isso é foda. Boa pedida. -Aquiesceu o Lontra.
Ficaram rindo, com os copos e a cesta de aperitivos vazios sobre a mesa. O garço se aproximou;
-Querem que feche a conta?
O Estevão olhou pro garçom e repetiu o gesto do truque mental Jedi:
-Miguelito, você quer nos trazer mais dois chopes, uma coca e uma cesta de calabrezas.
-É pra já. - Respondeu o garçom, saindo.
Riram mais um pouco.
-Porra - Disse o Lontra. -Devia ter pedido por conta da casa.
-Ah, mas aí o Miguelito ia ter que pagar. - Replicou o Estevão.
-Ah, foda-se. - Treplicou o Lontra, com pouco caso.
Estevão ficou sério e olhou por Jael:
-Eu não disse que o Lado Sombrio a tudo obscurece?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pessimismo


Roberval não era lá uma grande pessoa, entende? Não era uma boa pessoa. E nem digo isso baseado na minha crença inabalável, pra não dizerem que não creio em nada, então, nem baseio isso na minha crença inabalável de que as palavras "boa" e "pessoa" jamais casam numa mesma frase. Ele não era uma boa pessoa. Não é que ele não fizesse nada de bom, sabe? Ele até fazia. Mas nunca fazia pensando nos outros. Ele fazia pra se sentir bem consigo mesmo. Sei lá, se essa franqueza o tornava melhor ou pior do que a média, mas baseado na média, de que adianta ser melhor, né? Não chega a ser lá grande coisa.
Então, quer dizer, era esse tipo de coisa, sabe? Essa... Sei lá. Falta de auto-comiseração, talvez? O Roberval sempre achou que as pessoas têm muita facilidade pra sentirem pena de si mesmas. Ele não. Quando alguma coisa ruim acontecia ao Roberval, ele sempre pensava "claro. Faz sentido.". Ele não tinha pena de si próprio. Nem de ninguém, que fique bem claro. Tinha pena dos ursos polares. Muita. Não consiguia passar um dia sem guardar um momento pra sentir dor pelos ursos polares. Não me pergunta por que. Não tinha pena das baleias. Não tinha pena das focas, nem dos outros ursos. É dos polares que ele sentia pena. Quando alguém falava de focas sendo mortas ainda filhotes por causa da pele, das baleias sendo arpoadas pelos japoneses, quando lhe falam de tubarões sendo pescados, tendo as barbatanas arrancadas e sendo jogados de volta ao mar pra morrerem, ele sempre pensava que era nisso que dava dividir o mundo com a humanidade. Os ursos polares não. Os ursos polares o feriam. O entristeciam. Quer acabar com o dia do Roberval, mostre os ursos polares à deriva em uma mínima placa de gelo com nada exceto água ao redor. Aquilo entristecia tanto, mas tanto, o Roberval, que ele ficava pensando "Nah, ele não vai morrer. Ursos polares são exímios nadadores". É. Ele chegava a esse ponto. Ele tentava ser otimista. Quem conhece o Roberval sabe que otimismo não é sua praia. Podem perguntar pra quem o conhece. Pessimismo. Esse é o negócio dele. Em qualquer coisa. Economia, futebol, política, na vida de modo geral. Pessimista nato. Pessimista a ponto de correrem ele da sala durante jogos de futebol. Pessimista a ponto de as pessoas desistirem de discutir com ele, não por que seus argumentos são muito bons, mas por que elas ficam deprimidas. Esse tipo de pessimismo.
Ser pessimista assim, sempre rendeu bons frutos ao Roberval. Ele raramente se desapontava. Ele não era de criar expectativas mágicas a respeito de coisa alguma, nem de deixar de tentar ascoisas esperando que tudo se resolvesse, embora na maior parte das vezes fizesse as coisas pelo prazer de ver dar errado e falar "eu não disse?". Ainda assim, ele não se abstinha de viver. Se abstinha, sim, de algumas coisas que podiam não dar certo, de coisas que ele supunha, não fossem pro seu bico.
Ele tinha certeza de que, ela, por exemplo, era uma dessas coisas. Inalcançável. Inatingível e que, das duas uma:
Ou ele tinha algum problema grave por imaginar o contrário, ou ela tinha um problema grave por não perceber o quão problemático ele era.
Essa era uma daquelas ocasiões em que Roberval gostaria de estar errado.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O segredo da felicidade





















-Arthur -Ela começou. Dizia Arthur com um sotaque britânico tão forçado e tão pesado que parecia uma nativa de Manchester que vivera, sei lá, no Azerbaijão. Saía algo como Ah-ssuãh. No início ele achava engraçado, agora não achava mais. Ele, às vezes, ficava tão bravo com ela, que fingia não ter ouvido o que ela dissera, só pra poder ignorá-la um pouco mais. Não era, entretanto, a regra. Pelo menos, não fora desde sempre. Eram apenas píncaros de brabeza de casal. Perfeitamente natural, ele supunha. Pelo menos até se tornar excessivamente recorrente, como nessas ocasiões em que ela escolhia o lugar onde iam, e o arrastava pra um bar lotado, quente, e repleto de gente que ele não conhecia, e, pior, nem queria conhecer.
Ela repetiu:
-Ah-ssuãh?
Ele permaneceu fingindo não ter ouvido, ou achando que não era com ele. Ela insistiu novamente:
-Ah-ssuãh?
Ele não aguentaria por muito mais tempo, pois, quando ele a ignorava, ela começava a fazer uma voz casa vez mais esganiçada para atrair-lhe a atenção, o que o deixava agoniado e parecia fazer o seu calor aumentar:
-Quié?
-Ah-ssuãh, eu descobri o segredo da felicidade, my dear...
Quando ela começava a ficar "alegrinha" desatava a falar em inglês. Outra coisa que, no princípio, ele achava bonitinho, e que agora, o irritava.
-Ah, é? -Ele respondeu como quem não quer saber, enquanto se abanava.
-Yeah, darling - O sotaque britânico ia se tornando mais e mais pesado. O "Darling" saiu "dãhlen". -O segredo da felicidade é... Chega aqui pertinho pra eu sussurrar, por que é segredo...
Ela se debruçou por cima da mesa, derrubando um copo que se espatifou no chão. Ninguém percebeu, o bar estava cheio, e havia muita gente falando alto ao redor da mesa. Ela riu, riu bastante, pra dentro, como se estivesse fazendo força pra não rir. Pra ele, pareceu a risada do Muttley, o cachorro do Dick Vigarista. Ela continuou se espichando, braços estendidos, por sobre a mesa para alcançá-lo:
-Here, my love - O sotaque subitamente se tornou irlandês. Com um erre bastante pronunciado em "here" e o "my" soando como "me". -Eu vou te contar um "seacrest".
"Seacrest". Ela definitivamente bebera demais. Ele embrabeceu de vez.
-Tá, parou. Te endireita, aí.
Ela não lhe deu ouvidos, alcançou-o, agarrando-o firmemente pelo pescoço e queixo:
-José Cuervo, lovely lad. O segredo da felicidade é Jose Cuervo Special Gold...
Ela sussurrou isso quase lambendo seu ouvido. Outra coisa que, subitamente passara a incomodá-lo. Como ela ficava sexualmente agressiva quando bebia.
-Tá, tá bem, chega.
Ela não parou. Lambeu atrás da orelha dele. Ele suava, tentou afastá-la, mas ela lutou, ainda o segurando, disse:
-Aqui tem sal, cadê o limão?
Ele a segurou firmemente pelos pulsos delicados e a conduziu com decisão de volta à cadeira. Ela sentou, parou de rir e ficou séria, olhando pro próprio colo.
"Ela vai chorar... Puta merda, ela vai chorar." pensou Arthur, arrependido da própria truculência impensada e antevendo uma cena. Mas a cena não se consumou. Ela ergueu os olhos e apanhou o copo que estava do lado de sua bolsa. 
"Bolsa em cima da mesa.", Arthur pensou enquanto ela apanhava o copo. "Tá pedindo pra ser roubada. Não adianta falar.". Suspirou um ruído qualquer.
-Vamo embora? -Perguntou olhando o relógio e erguendo as sobrancelhas fingindo alarme com a hora.
Ela segurava o copo e o mirava com os olhos semi cerrados.
-Sabe qual é o teu problema, Ah-ssuãh?
-Ah, meu Deus...
-Tu é um reprimido, honey.
-Arram.
-E me odeia por que eu sou free.
-Nesse momento eu provavelmente te odeio um pouquinho, sim...
-Não é minha culpa, my love, se tu não sabe viver... Eu sei. Mas ó... Ainda assim, sendo um velho ranzinza preso no corpo de um jovem, eu te amo, viu?
-Tá bem.
Ela meio que tinha razão. Ela de fato, sabia viver. Não o tipo de vida que ele apreciava, mas, que diabos, quem era ele pra dizer como os outros deviam viver? Ele com seus gibis, livros, filmes, video games e colecionáveis Marvel e Star Wars? O que ele sabia de viver? Talvez ela estivesse certa. Talvez ele a odiasse por que ela sabia viver e ele, não. 
Pelo menos algumas vezes. 
Na maior parte do tempo, porém, ele a amava por saber viver. Por ser o que ele não sabia ser. Por complementá-lo como se fora o yin do seu yang. 
Se o preço dessa completude era, vez por outra, fazer papel de velho ranzinza... Ah, que diabos. Ele aceitava.
-Não me odeie, Ah-ssuãh. Don't hate me...
-Tô me esforçando, mas de vez em quando é complicado, viu...?
-Hã?
-Nada. Termina tua tequila e vamo embora. Tô com sono.
Ela lhe mandou um beijo estalado do outro lado da mesa enquanto erguia as mãos para o ar num desajeitado movimento de dança. Ele fez um"tsc" estalando a língua no céu da boca. Mas, por dentro, sorriu.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


O Roberval estava decidido:
Daquele dia, não passava. Ou era agora, ou não era mais. Chegara seu momento, era hora de ter olho de tigre, de assumir a responsabilidade, de tomar uma providência, de fazer acontecer, de ser o melhor "ele" possível. Ele tinha que chegar junto na Clotilde e dizer à ela como se sentia. Entre todas as suas resoluções de ano-novo, essa era, sem dúvida, a que ele mais ansiava em cumprir. As outras, beber menos, , ler um livro por mês, parar de pedir coisas emprestadas e não devolver, estudar mais, se dedicar mais ao trabalho... Bom, essas ele não estava, assim, tão interessado em cumprir. Mas dizer à Clotilde como se sentia, ah, isso ele queria. Queria muito. Até por quê, achava que a Clotide se sentia da mesma forma, embora o flerte entre os dois fosse algo bipolar, ás vezes indo muito bem, em outras sendo algo fiasquento. Ainda assim, davam-se bem, tinham interesses semelhantes, ele a achava muito atraente, tanto fisicamemnte quanto sua personalidade, parecia-lhe justo que, naquele começo de 2011, ele dissesse à Clô, como se sentia, e colhesse os frutos, doces, ele esperava, daquela resolução.
Planejou tudo, a encontraria "casualmente" na saída do trabalho, conversariam um pouco, ele perguntaria se ela tinha compromisso, ela diria que não. Ele quase podia ouvir a conversa:
-Clô! Oi, tudo bem?
-Tudo, Roberval, e tu?
-Tudo ótimo. Que tu anda fazendo, guria?
-Tava trabalhando.
-Ah, é... Tu trabalha aqui, né?
-É. E tu? Que anda fazendo pra esses lados?
-Ah, saí pra dar uma volta. Desopilar um pouco... Vem cá, tu tem compromisso agora?
-Não.
E ele a convidaria para jantar, ou dar uma volta, ou ir ao cinema, qualquer coisa, enfim. Então, a entreteria com boa conversa, eles dariam boas risadas, talvez ela tocasse de leve o seu braço quando ele dissesse algo engraçado a respeito de alguma coisa, e então, aquele toque seria elétrico, e ela perceberia que gostava dele, talvez mais do que apenas como um amigo casual, e ele diria, com todas as letras, como se sentia, e voilá. Estariam juntos.
Rá. Não tinha erro.
Naquela segunda-feira dia três, depois do trabalho, tomou um longo banho, aparou as unhas, fez a barba, borrifou refrescante bucal, passou perfume, vestiu-se com esmero, penteou os cabelos, e saiu confiante.
Chegou ao prédio onde Clotilde trabalhava, e imediatamente a viu saindo. Observou sorrateiro enquanto ela se despedia de duas colegas, e então se aproximou, casual, e a viu, fingindo surpresa quando ela o percebeu, também.
-Clô! Oi, tudo bem?
-Tudo, Roberval, e tu?
-Tudo ótimo. Que tu anda fazendo, guria?
-Tava trabalhando.
-Ah, é... Tu trabalha aqui, né?
-É. E tu? Que anda fazendo pra esses lados?
-Ah, saí pra dar uma volta. Desopilar um pouco... Vem cá, tu tem compromisso agora?
-Tenho.
-Ah, bom.
-Por quê?
-Nah... Nada não. Bom, nos vemos por aí. Tchau.
Roberval saiu andando, virou-se brevemente, e viu que Clotilde ainda o olhava. Acenou, ainda casualmente, e com um sorriso quase grande demais no rosto, destoando do coração partido dentro de seu peito.
Enfim... Ano que vem ele tentava de novo.

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Ele acordou com sono, amaldiçoando o ruído do despertador do telefone celular. Seu quadril doía, suas costas, também. Chegou ao banheiro, e foi surpreendido com um presente de grego deixado por seu cachorro. Limpou o banheiro. Lavou o rosto, e, ao abrir o armário, percebeu que acabara a pasta de dente. Lutou com fúria contra o tubo para arrancar um volume mínimo de creme dental e fazer sua escovação. Apanhou seu anti-séptico, e começou o bochecho. Resolveu aproveitar aquele minuto e ver a previsão do tempo. Saiu do banheiro e foi abalrroado pelo seu cachorro, um animal do tamanho de um leopardo e que sente saudades suas enquanto ele dorme. O choque com o cachorrão o engasgou, e ele engoliu o anti-séptico. Tossiu, acalmou o cachorro. Lavou a boca com água. Foi até a janela apanhar seu tênis, que ficara ali pra arejar. Derrubou o tênis na casa da vizinha de baixo, que já saíra para o trabalho. Começava a chover. Não era um bom indicativo pro futuro imediato do seu tênis. Paciência. Apanhou outro tênis, se vestiu. Foi pegar o guarda-chuva. Percebeu que esquecera o guarda-chuva no trabalho. Pensou se tinha como um dia começar pior. Achou que sim, mas demandaria alguma tragédia grega, ou um desastre natural.
Sorriu.
Não que ele acreditasse nessas bobagens, mas, depois de ontem, o karma estava livre pra fazer o que quisesse com a sua manhã.

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TRADUÇÕES:

Ele disse:
-Ih, aquilo é a maior vagabunda, Deus me livre, quero mais é distância daquela mulher, credo...
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-Ih, aquilo é a maior vagabunda, Deus me livre, nunca mais chego perto daquela mulher, credo...

Ele disse:
-A Lurdinha? Não, nunca reparei... Quer dizer, ela é bonita, e tudo, mas... Sei lá, acho que não consigo ver ela assim, desse jeito, amor. Ela é nossa amiga, então eu acho que, naturalmente, já vejo ela de outra forma...
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-A Lurdinha? Maior gostosa de todas... Tipo, não tem como olhar pra Lurdinha e não pensar em sacanagem, eu até pensei em te propôr um ménagecom ela, mas sei que tu não ia querer, e, sabe? Eu entendo o teu lado...

Ele disse:
-Olha, meu anjo, se tu tem dúvidas a respeito da nossa relação, então a gente deve sentar e conversar sobre isso, e, se for o caso, e eu espero que não seja, a gente tem que lidar com isso da forma mais adulta possível.
Mas, na verdade, ele quis dizer:
-Vai, mala. Me dá um motivo pra te enfiar o pé na bunda e ir pra noite.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz Ano-Novo


O Heraldo estava encosado no parapeito da sacada olhando os fogos que já espocavam pelo céu áfora, embora, no seu relógio, ainda faltassem dois minutos para a meia-noite. Dentro do apartamento, ás suas costas, as pessoas já se abraçavam e beijavam fazendo felicitações e expressando o desejo de um feliz ano-novo. Algumas discursavam, turbinadas pelos abusos etílicos comuns ao reveillon. Heraldo se ergueu do parapeito. Olhou a própria roupa, a camiseta branca, as calças azuis, os tênis. Pensou que, mais ridículo do que aquilo, só se tivesse, de fato, usado uma cueca amarela como lhe recomendara uma amiga "Pra atrair dinheiro".
Achava todo o ritual de ano-novo tão... Tão over. Quase tão over quanto usar a expressão "over". Mas achava. Achava exagerado, sem sentido, bobo. Era apenas a virada do calendário. Não apagava os erros do passado, não dava margens a novos começos, pelo menos não mais do que qualquer outro dia. Ele não entendia por que vestir branco, por que usar cuecas amarelas se quisesse atrair dinheiro, ou vermelhas se quisesse atrair paixão. Usou cuecas pretas, achou que atrairia solidão, que, afinal de contas, ele já sentia, mesmo, apesar de estar no meio daquela multidão de desconhecidos pra onde fora arrastado pela irmã e pelo cunhado.
Pensou por um momento, e deu-se conta que, na maior parte do tempo se sentia solitário. Na maior parte do tempo, sentia como se sentia naquela festa. Sobrando no meio de um monte de gente. Como se a vida fosse uma festa na qual ele entrou e onde não conhecia ninguém.
Ouviu a conagem regressiva vindo da sala, as pessoas trazendo garrafas de champagne, cidra e espumante pra estourar junto ao parapeito da sacada. Gritavam muito:
-Dez!
-Nove!
-Oito!
Casais já começavam beijos que só terminariam no ano que vem. Bêbados já bradavam boas-vindas ao ano que se avizinhava.
-Sete!
-Seis!
-Cinco!
Garrafas agitadas indevidamente disparavam suas rolhas. Uma mulher foi atingida no calcanhar e deu um grito, seu namorado achou que ela tivesse sido atingida por uma bala, riram quando perceberam que fora só uma rolha.
-Quatro!
-Três!
-Dois!
Todos gritavam, se abraçavam, um sujeito berrava para alguém que pegasse dois mil e dez e enfiasse no traseiro. Uma moça gordinha chorava copiosamente nos braços de uma amiga. Um homem ria convulsivamente com os braços e pernas bem abertos olhando os fogos que inundavam o céu.
-Um!
Catarse geral. Todos celebravam. As pessoas abraçavam-se umas às outras trocando rapidamente após desejarem feliz ano-novo brindando. A moça gordinha que chorava começou a rir, o sujeito que ria soluçou e começou a chorar. Casais terminaram beijos que haviam começado no ano anterior e sorriam um para o outro.
Heraldo, viu tudo e viajou. Sua mente foi para outro lugar. Seu coração, com outra pessoa. Ele se amaldiçoou por estar sozinho. Por querer etar sozinho. Pensou em como podia ser tão parvo, tão débil e medroso. Pensou em como seria bom estar abraçando alguém, beijando alguém. Vendo o ano que se iniciava com algum otimismo, ou, pelo menos, com a promessa de mudança.
Alguém se aproximou fazendo barulho. Uma amiga do anfitrião, talvez. Bonita. Abraçou-se a ele colando o corpo no seu enquanto dizia em seu ouvido que esperava que, em dois mil e onze, ele alcançasse tudo o que desejava. Ele agradeceu correspondendo ao abraço dela. Murmurou um "igualmente" meio sem graça. Ela estava muito perto dele, muito perto, mesmo. O beijou na orelha. Talvez não fosse intencional, ele era bem mais alto, talvez a orelha fosse o que ela conseguira alcançar na posição em que estava. Ergueu a taça de champagne pela metade que trazia na mão direita colocando-a na frente dos olhos dele:
-Tin-tin.
Heraldo tinha uma lata de Fanta na mão. Brindou e bebeu um gole. Ela sorriu:
-Quantos anos tu tem? Oito?
Ele não entendeu:
-Quê?
-Bebendo refri. -Ela esclareceu.
Ele sorriu sem responder. Não disse mais nada, ela se afastou. Heraldo virou a cabeça e observou a moça andando de volta pra dentro da sala. Seu rebolado dentro do justíssimo vestido branco, e sua hesitação quando pousava os pés envolvidos por sapatos de salto-agulha no chão. Era bonita. Era atraente. Parecia bacana. Mas não era ela.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Top 10 Negativo Cinema: 2010


Não há ano de grandes filmes sem que apareçam uns filmes bem mequetrefes pra avacalhar. No Top 10 Negativo Casa do Capita, sempre guardamos vagas pra filmes que eram muito aguardados ou que fizeram grandes bilheterias á despeito da ruindade, ou que ganharam muito espaço na mídia, ah, é obrigatório que eu tenha assistido o filme na TV a cabo, DVD, ou no cinema, então, amantes da saga vampirema Crepúsculo, não se desesperem, eu nunca mais vou ver um filme dessa série.
À ela, então. A lista dos dez piores de 2010!

10 - O último Mestre do Ar
M. Night Shyamalan é um dos meus diretores preferidos. Desde que o indiano surgiu pro mainstream com O Sexto Sentido, jamais perdi um filme dele no cinema, e posso dizer isso de poucos diretores. Mas já faz um tempinho que ele anda com um três-oitão apontado pro próprio pé. O Último Mestre do Ar, fantasia zen baseada na série animada Avatar da Nickelodeon foi a bala que perfurou o pé do diretor. O filme começa e termina sem dizer a que veio, abusando do didatismo, e com uma ação que jamais vai além da ameaça.
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9 - Alice no País das Maravilhas
Alguém precisa pegar o Tim Burton pelo braço e dizer pra ele que chega de Johnny Depp, Helena Boham-Carter e Christopher Lee. Também precisam avisar ele que chega de "versões mais sombrias" de histórias que todo mundo conhece. Precisam dizer que aquela batalha entre exércitos no final do filme é idiota, e que a dancinha do Chapeleiro Maluco não deve ser repetida nunca. Jamais. Em tempo algum.
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8 - Resident Evil - Recomeço
Falando sério, depois dos três primeiros filmes, alguém ainda achava que as coisas melhorariam na quarta incursão da série ao cinema?
Como se uma Milla Jovovich não fosse o bastante pra acabar com a série, nesse quarto longa há várias dela, enfrentando o infâme Albert Wesker... Uma dica ao Paul W. S. Anderson:
Nos jogos de video game, a fraqueza de uma trama é sustentada pela interatividade, no cinema essa muleta não existe, e o que você tem, no final, é um filme ruim. Como Resident Evil - Recomeço.
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7 - Caçador de Recompensa
Gerard Butler devia fazer só filmes de porradaria como Gamer e 300 e abandonar as comédias românticas. P.S. Eu Te Amo, A Verdade Nua E Crua, e agora esse Caçador de Recompensa, onde ele fala se cuspindo todo e a Jennifer Aniston interpreta a Rachel de Friends. Quê? A personagem dela não é a Rachel de Friends? Conversa...
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6 - Um Olhar do Paraíso
Peter Jackson resolveu adaptar um filme sobre o estupro e assassinato de uma menina de quatorze anos. Decisão corajosa do senhor Jackson, hein? Não tanto. Quando o filme começa percebemos que o diretor de O Senhor dos Anéis e do vindouro O Hobbit pareceu ter ficado com medo de mostrar qualquer coisa relacionada, de fato, ao crime, e acabou não mostrando nada. Fez um filme chato que jamais encontra o tom entre o drama familiar que não convence, o trhiller que na maior parte do tempo não tem tensão, e a fantasia que jamais emociona. Entre mortos e feridos salvam-se Stanley Tucci e Saoirse Ronan, de resto...
Volte pra Terra Média Peter.
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5 - A Caixa
Richard Kelly despontou com o cult Donnie Darko, sucesso absoluto de crítica, depois deu uma escorregada com o fraquinho Southland Tales, e, aparentemente, resolveu, ele próprio colocar um prego no seu caixão com este A Caixa. Uma pretensiosa história que flerta com Fausto, filmes B de ficção dos anos cinquenta e terror. Cameron Diaz, Jaes Marsden e Frank Langella até se esforçam, mas o filme não diz nada, não empolga, nem faz refletir. Melhor sorte na próxima, se houver, senhor Kelly.
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4 - A Hora do Pesadelo
O novo Sexta-Feira 13 fez relativo sucesso nos cinemas, era, claro, questão de tempo até Freddie Kruegger ser retirado de sua aposentadoria. Até um ator com algum estofo dramático foi chamado pro papel, o indicado ao Oscar Jackie Earl Haley. Mas não bastou. Um diretor ruim barbaridade e um arremedo de roteiro que era basicamente a mesma história do filme de 84 mostraram que mesmo um ator talentoso não consegue salvar um filme que nasceu pra ser porcaria. Volte pro mundo dos sonhos Freddie.
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3 - Jonah Hex
Josh Brolin no papel principal, John Malkovich como vilão e Megan Fox de corpete. Não tinha como dar errado, certo?
É... Tinha. A aventura do pistoleiro desfigurado Jonah Hex ficou com cara de Van Helsing, e não vingou. O filme é inteiramente ruim? Não. A Megan Fox é linda, e o filme é curto. Acho que, de positivo, é isso...
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2 - Legião
Este samba do anjo doido é outro exemplo de como um elenco bacana não é garantia de filme bom. Aqui os bons Paul Bettany e Denis Quaid se perdem em uma trama mal ajambrada sobre anjos atacando a humanidade para matar um bebê que é a ressurreição de Cristo. A trama não desenvolve, o elenco não segura o rojão, a ação é fraca e, pra piorar, o final aberto sugere uma sequência que,se Deus quiser, jamais verá a luz do dia.
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1 - Fúria de Titãs
Remake do cult de 1981 dirigido pelo francês Louis Leterrier. Bom elenco, diretor bem-intencionado, premissa divertida... Bomba atômica de proporções bíblicas. O filme conseguiu deixar os excelentes Ralph Fiennes e Liam Neeson canastrões. Mostrou que Sam Worthington talvez não seja assim tão promissor, e que mesmo um monstro gigante emergindo do oceano para destruir uma cidade pode ser chato. Roteiro bobo com um herói relutante que mais parece um moleque birrento, coadjuvantes descartáveis que morrem feito moscas e não deixam saudades, e um confronto final sonolento. E isso que nem vi o filme em 3-D, pois, ao que parece, a conversão feita nas coxas deixava o filme ainda pior.
Sério? Tinha como ficar pior?

Top 10 Cinema: 2010




Nesse ano que se encaminha pro fim, eu fui menos do que gostaria ao cinema. Fui menos do que em 2009, também. Pode ter sido preguiça pura. Ou, talvez, esse ano não tenha sido tão rico em filmes como foi o ano que passou. Ainda assim, não podia deixar 2010 acabar sem fazer o infâme Top 10 Casa do Capita. Deu um pouquinho de trabalho, inclusive por culpa das nossas distribuidoras, que não mandaram pra Porto Alegre uma porção de filmes que eu queria ver, ou mandaram e deixaram aqui por pouquíssimo tempo. De qualquer modo, à lista:

10 - Invictus
OK, tecnicamente é um filme de 2009, mas só estreou no Brasil em 2010, então, entra na lista. A história de como Nelson Mandela (Morgan Freeman) usou descaradamente a Seleção Sul-Africana de Rúgbi para dar unidade a um povo afastado por anos de appartheid funciona com perfeição na tela, graças ao elenco encabeçado por Freeman e Matt Damon, e à mão firme de Clint Eastwood, que, se é grande na frente das câmeras, atrás delas é gênio!
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9 - Kick-Ass - Quebrando Tudo
Matthew Vaughn flertou e fugiu da Marvel em mais de uma ocasião. Ele já havia amarelado na direção de X-Men 3 e de Thor, foi apenas na terceira tentativa, com Kick-Ass, que ele finalmente encarou o desafio de levar às telonas a adaptação de um quadrinho da editora do Homem-Aranha. E o resultado foi ótimo. É impossível não se divertir com as peripécias e desventuras de Dave Lizewsky e sua epópeia para, armado apenas com uma fantasia improvisada, um par de porretes e muita ingenuidade, se transformar em um super-herói do mundo real. Sua trajetória se complica e suas lesões se tornam mais graves conforme ele chama a atenção de bandidos e heróis (A Hit-Girl é a filha que todo nerd gostaria de ter.) de verdade. Ágil, honesto, e, acima de tudo, muito divertido. Que venha Kick-Ass 2.
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8 - O Livro De Eli
Nunca sabemos ao certo quanto tempo faz que a guerra devastou o mundo. Não sabemos, também, que tipo de guerra foi. O que sabemos, é que o céu foi queimado pelas bombas, e sob ele há apenas um arremedo calcinado do que antes foram cidades. Sabemos, também, que um homem chamado Eli (Denzel Washington, grande!) ruma de maneira incessante para o oeste, levando consigo um livro que pode salvar a humanidade, e que talvez tenha sido a causa da guerra que quase a destruiu. Em seu caminho surge Carnegie (Gary Oldman, ótimo.), que comanda uma pequena vila, mas sonha com muito mais, e sabe que o livro que Eli leva consigo pode ser a ferramenta de sua ascensão, e não está disposto a permitir que Eli suceda em sua missão. Grande filme dos irmãos Hughes, que não deixam a peteca cair no quesito ação, e nem permitem que o discurso sobre fé se torne o mote do filme tornando-o panfletário ou enfadonho. Futuro cult movie nas estantes de nerds intelectualóides, mas nem por isso, menos do que ótimo. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
7 - Tudo Pode Dar Certo
Após anos filmando na Europa filmaços como Match-Point e Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen voltou a sua Nova York de sempre e fez uma pequena jóia com a cara da sua filmografia. Boris Yellnikoff (Larry David, um Woody Allen V-12) é um físico que se afastou da humanidade e vive isolado mastigando a própria misantropia, niilismo e hipocondria após uma tentativa fracassada de suicídio. Vivendo de ensinar crianças a jogar xadrez, ele está satisfeito com a própria infelicidade até conhecer a desmiolada Melody (Evan Rachel Wood, tudo de bom), rainha de concursos de beleza no sul que fugiu de casa e pede que Boris a acolha enquanto tenta se ajustar à vida na big apple. Dessa relação, surge um efeito dominó em que pessoas passam pela vida de Boris e, dele, rumam em busca de sua parcela de felicidade. As interações do casal protagonista são ótimas, mas é quando Boris se dirige à audiência que percebemos o quão engraçado e cerebral Woody Allen pode ser na mesma sentença.
Bem vindo de volta a NY, Woody.
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6 - A Estrada
Outro filme pós-apocalíptico que chegou ao cinema em 2010 e não fez feio. Em A Estrada, um homem (Viggo Mortensen, excelente.) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) vagam obstinadamente por um mundo gelado, cinzento e estéril lutando para manterem-se vivos até chegar ao litoral.
Em meio à devastação e o marasmo quebrado apenas pela constante ameaça da extinção e eventuais encontros fortuitos, ou não, nos deparamos com a luta de um pai para dar esperança ao filho em um mundo onde a redenção está cada vez mais distante, e onde todas as decisões, em algum momento, parecem más decisões quando o doloroso hoje, é comparado com um iluminado ontem.
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5 - O Segredo dos Seus Olhos
Pode ter sido a emoção, mas vi esse filme ontem, e hoje ele entrou na minha lista. Impossível não dar o braço a torcer pra produção cinematográfica argentina, os caras entendem dos riscado, e o suspense elegante sobre um homem (Ricardo Darín, um dos grandes, se não o maior intérprete hermano) que não consegue se conformar com a insolubilidade de um homicídio de mais de trinta anos atrás talvez seja o ápice da cinematografia portenha. Direção comedida e segura de Juan Jose Campanella, atuação ótima de Ricardo Darín e da excelente surpresa Soledad Villamil construindo um suspense enxuto e sem arroubos. Mas não é melhor que Tropa de Elite 2, como Maradona não é melhor que Falcão.
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4 - Ilha do Medo
Martin Scorsese é mestre no seu ofício, todo mundo sabe. E a parceria dele com Leonardo DiCaprio rende frutos saborosíssimos desde Gangues de Nova York, passando por O Aviador, Os Infiltrados, e agora Ilha do Medo, ótimo suspense onde Scorsese mostra o quanto entende de cinema brincando com vários estilos simultâneamente, mas sem se perder nos labirintos visuais das referências, da história que quer contar.
A história do agente federal Teddy Daniels, que, em 1954, ao lado de seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo), vai até a prisão-hospício da ilha Shutter investigar o desaparecimento de uma paciente. Scorsese rege com habilidade as reviravoltas da trama que envolvem campos de concentração, traumas do passado, médicos de intenções duvidosas e psicóticos em tratamento culminando com um daqueles finais "Ma'como???".
Atuações seguras de um elenco que ainda conta com Ben Kingsley, Max Von Sidow, Emily Mortimer e Michelle Williams completam o pacote de um dos melhores filmes do ano.
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3 - A Rede Social
Algumas pessoas pode ter imaginado, ao ler a notícia de que David Fincher ia dirigir um filme sobre a criação do site de relacionamentos Facebook, que o diretor de Seven e Zodíaco havia bebido água do parto. Algumas pessoas se enganaram. Ao invés de simplesmente dirigir um filme sobre os bastidores da criação do orkut dos gringos, Fincher conta, de forma não linear, uma história de traição e ganância protagonizada por caras que não são lá muito diferentes daquele seu amigo bobão que manja tudo de informática. Quando Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, ótimo no papel) leva um fora da namorada e resolve se vingar em seu blog, e depois, com a ajuda do amigo Eduardo Saverin (Andrew-Homem-Aranha-Garfield, muito bem.), cria um site para comparar a aparência das universitárias.
Daí em diante é um pulo até Zuckerberg criar(?) o seu The Facebook, e ver essa criação lhe trazer desafetos como os gêmeos Winklevoss (Armie Hammer, que nem parece um único ator fazendo dois papéis), idealizadores de um site de relacionamentos para alunos de Harvard que supostamente foi copiado por Zuckerberg, e amigos duvidosos como o co-criador do Napster, Sean Parker (Justin Timberlake, surpreendentemente bem.).
Sem apontar culpados, certo ou errado, Fincher traça um retrato do jovem de hoje: Egoísta, isolacionista, e iludido pela máscara de anonimato da internet. Bravo!
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2 - Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro
Em 2007 José Padilha se juntou a Wagner Moura para contar a história do BOPE limpando as favelas cariocas durante a chegada do Papa ao Brasil, ao mesmo tempo em que apresentava os aspiras Neto e Mathias que saíam da corrupta PM carioca para se juntar à tropa de elite da polícia do Rio. De lambuja, o bom drama policial ainda apresentou o que se tornaria, talvez, o grande ícone pop brasileiro: O capitão do BOPE Roberto Nascimento. Sucesso absoluto de público, e filme divertidaço.
Três anos se passaram, e a dupla dinâmica Padilha/Moura tinha a missão de superar o primeiro filme. Bueno, missão dada, missão cumprida.
Dez anos se passaram, e Nascimento agora é coronel. Após uma operação que acaba mal sob seu comando, Nascimento, por uma dessas ironias da política, acaba promovido, ao invés de rebaixado, tornando-se sub-secretário de segurança do Rio de Janeiro. Com o apoio do coronel, o BOPE se transforma em uma máquina de guerra, destroçando o tráfico nas favelas cariocas. O que Nascimento não sabe, é que, ao fazer isso, cria um vácuo de poder que é perfeitamente ocupado pelos novos, e mais perigosos inimigos da lei e da ordem: Policiais e políticos corruptos dispostos a tudo para aumentar sua margem de lucros.
Tropa de Elite 2 é um tremendo filme de ação, assim como o primeiro, e aborda temas realistas espinhosos como a primeira parte, mas ganha em imediatismo, uma vez que a ação não se passa dez anos atrás. O elenco afiado, encabeçado por Moura, reune André Ramiro (Capitão Mathias), Milhem Cortaz (O ótimo capitão Fábio) e Maria Ribeiro (Rosane), e adiciona Seu Jorge (Beirada), André Mattos (Fortunato, roubando suas cenas), Sandro Rocha (Rocha), Irandhir Santos (Fraga) e Tainá Müller (Clara), está todo redondinho, e a montagem invocada, os bons efeitos especiais, a trilha sonora barulhenta e a ótima direção de José Padilha se complementam e fazem de Tropa 2, um produto de gênero, entretenimento do bom, e ainda, material pra reflexão. Um dos melhores filmes do ano.
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1 - Origem
Muito mistério antes e durante as filmagens de A Origem devem ter ajudado o filme a ficar com fama de produto de difícil acesso, ininteligível, hermético e não sei mais o quê. Bobagem. A Origem é, grosso modo, quase um filme de espionagem ao estilo Bourne, ou um filme de assalto ao estilo Onze Homens e Um Segredo. A diferença é que, ao invés de desfilarem sua habilidade e elegância em bancos, ou cassinos, ou bases militares inimigas, os personagens mostram do que são capazes dentro do subconsciente de seus alvos, conectando-se a eles enquanto dormem e roubando-lhes segredos, de outro modo, inacessíveis.
O grande mestre dessa arte sutil e moralmente reprovável, pra dizer o mínimo, é Don Cobb (Leonardo DiCaprio, mostrando cada vez mais talento tanto como ator quanto como escolhedor de projetos), americano impossibilitado de voltar para os Estados Unidos por razões legais, e que ao lado de seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt, se recuperando da participação em G.I. Joe com outra boa atuação) trabalha no ramo dos segredos industriais. Ao tentar invadir a mente de Saito (Ken Watanabe, outro tremendo ator), Cobb e Arthur são desafiados a realizar um trabalho sensivelmente diferente do que estão acostumados: Ao invés de extração, inserção de uma ideia.
Começa aí a montanha russa de A Origem, com Cobb, disposto a tentar a inserção, considerada impossível por muitos em troca de seu retorno seguro aos EUA e seus filhos. Para isso ele une a equipe formada pela arquiteta Ariadne (Ellen Page), o falsário Eames (Tom Hardy), o químico Yousuf (Dileep Rao), unidos para invadir a mente de Robert Fischer (Cillian Murphy) e plantar lá, a ideia que pode mudar os rumos da indústria de energia enquanto lida com a perseguição onírica de sua falecida esposa Mal (Marillon Cotillard).
Elenco talentosíssimo que conta ainda com Michael Caine e Tom Berenger trabalhando em conjunto com uma equipe técnica capaz de tornar coisas absurdas possíveis, música e roteiro irrepreensíveis sob a batuta do cada vez melhor Christopher Nolan constróem o grande filmes de 2010.