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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ia ser bonito, não ia?


Ia ser bonito, não ia?
Se eu encontrasse um recado teu logo cedo de manhã no meu celular.
Uma coisinha boba. Um bom dia que fosse. Ia ser bonito. Até um e-mail. Ia ser, sim.
Por que ás vezes, as coisas mais bobas, mais simples, têm um significado especial, dependendo de onde elas vêm. De quem elas vêm. Porque elas vêm. Proveniência é tudo, eu acho.
Mas ia ser bonito, não ia?
Se eu acordasse de manhã, e a primeira coisa que eu visse, fosse o teu rosto.
E eu ia me levantar com cuidado pra não te despertar antes da tua hora. Ia ser, sim.
Por que muitas vezes a gente levanta de mau-humor pois falta algo pra dar a perspectiva exata de o quanto a gente é feliz e não sabe. A gente podia ser muito feliz, eu acho.
Ia ser bonito, não ia?
Se no trabalho, em um momento particularmente chato, eu, distraído, irritadiço, meio rabugento, levasse a mão ao nariz depois de levantar os óculos, e encontrasse lá o cheiro do teu creme perfumado. E eu ia ficar mais tranquilo, sabendo que no fim do dia, eu ia sentir aquele cheiro em ti, na tua pele. No teu pescoço. Talvez atrás da orelha. Ia ser, sim.
Por que a felicidade tem gatilhos. E os meus todos iam ser relacionados contigo. Teu cheiro, voz, gosto e textura. Tua cor, forma e movimento. Talvez tu pudesse encontrar um gatilho relacionado comigo, também. Procurando bastante tu encontraria alguma coisa, eu acho.
Mas ia ser bonito, não ia?
Se um dia eu resolvesse te surpreender cozinhando pra ti. Fazendo o teu jantar. Ia pegar umas receitas do Gordon Ramsey e ia errar tudo. Ia emporcalhar toda a cozinha, e amaldiçoar minha falta de jeito quando tu fechasse um olho bem apertado enquanto dava a primeira garfada. E a gente ia pedir uma pizza e limpar a cozinha enquanto esperava ela chegar, e tu ia me beijar e dizer que o que valia era a intenção, e depois nós comeríamos pizza vendo Como Funciona o Universo sob os teus protestos, ou um filme Dinamarquês em preto e branco sob meus protestos enquanto brigávamos pela última fatia de quatro-queijos, mas ainda assim, abraçados. Ia ser, sim.
Por que eu ia querer ser melhor pra ti, porque tu seria perfeita pra mim, aguentando os meus defeitos mais chatos, as minhas manias mais irritantes, e, de vez em quando, tu ia bufar depois que eu fizesse uma besteira, mas aí ia respirar fundo, me olhar e sorrir, pois ia saber que eu estava dando o máximo, mesmo não sendo tão bom quanto tu é ao natural. Eu nunca conseguiria ser bom como tu merece, eu acho.
Ia ser bonito, não ia?
Se um dia, bem velhinhos, tu me abraçasse no hospital depois de eu quebrar o quadril brincando de Homem-Aranha com o nosso bisneto, e me dissesse "Tu não mudou nada", e eu sorrisse em silêncio, sem replicar, mas no fundo soubesse que era uma pessoa muito melhor por causa do convívio contigo, e te agradeceria sem dizer nada por ter sido tão paciente e persistente durante tantos anos, e por não ter desistido de mim quando a maioria das outras pessoas teria. Ia ser, sim.
Por que ás vezes a gente não tem ideia do que estava perdendo até experimentar. E nessas horas, a gente só pode agradecer à pessoa que nos forçou a tomar a atitude que mudou quem éramos e fez com que imaginássemos como era possível ter vivido sem aquilo todo aquele tempo. Tu ainda vai me forçar a experimentar, eu acho.
Eu sei...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


Vi um cachorro manco um dia desses. Fiquei arrasado, deprimido, me sentindo um crápula por ser, sei lá, crápula demais, calculista demais, prático demais pra fazer alguma coisa, qualquer coisa pra aliviar a vida daquele cachorro. Ele não parecia estar sofrendo. Estava andando, mas havia alguma coisa naquele bicho com a pata atrofiada, que revirou meu estômago, não no sentido de nojo, por que eu não tenho essas frescuras, como pizza de estrogonofe assistindo O Homem-Elefante, não o filme sobre John Merrick, mas o documentário sobre o doente asiático com tumores gigantes no rosto. Deve servir pra dar uma ideia de como eu não sou nojento. Enfim, aquele cachorrinho me revirou o estômago. Amaldiçoei a minha própria mente lógica, que diz que servir um pote de água e de ração pra aquele cãozinho mutilado não significaria absolutamente nada no balanço do universo, até por que, o universo não fecha pra balanço, e nem tem balanço algum baseado nas coisas que a gente vê por aí.
O cachorrinho seguiu mancando pela rua, e eu o observava.
Foi quando vi, atrás do cachorro, um papeleiro, desses que puxam carrinho. Ele parou com o carrinho para recolher caixas de papelão e o cão parou junto com ele. Me aproximei, e perguntei se o cachorro era dele. Ele assentiu. Disse que o cachorro era dele, e mais que isso, era seu melhor amigo. Pulei no mercado e comprei-lhe um pacote de ração dos médios. Uma água com gás, pois anda quente pra danar em Porto Alegre. Ele era colorado. Dei-lhe, também, uma das minhas trocentas mil camisas do Inter. Ele agradeceu dizendo emocionado, que era sua primeira camisa oficial do Inter.
Eu o vi ir embora, e colocar o cachorro dentro do carrinho de papelão.
De algum modo, o fato de saber que aquele cachorro não estava só, me fez sentir menos culpado por não me sentir tão só ultimamente.

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Sabe aqueles dias em que tu acorda de mal com o mundo? Aqueles em que não aconteceu nada de particularmente errado, mas aquele inescapável espírito de porco te pegou? Aí tu sai de casa olhando torto pra todo mundo, responde ao "bom dia" musical da moça da banca de jornal com um "oi" grunhido entre dentes cerrados e torce pro teu chefe não estar no escritório por que se estiver tu é capaz de mandar ele longe?
Aqueles dias em que tu leva uma maçã verde pro trabalho, daquelas verde-escuras mais cítricas, quase azedas que tu adora, mas quando olha pra fruta ela não te apetece? Em que tu não participa de nenhuma conversa por que sabe que pode acabar sendo grosseiro em uma discussão e não quer que isso aconteça? Em que o teu cachorro só consegue te arrancar um esboço de sorriso fazendo as suas bobagens e quando a tua mãe te telefona tu conta até dez e só atende por obrigação filial?
Tem dias que são assim. Amanhecem trazendo consigo a certeza de que nada vai dar certo. Mas aí... Aí tu recebe notícias de alguém especial, e pensa se não estava sendo duro demais com aquele dia miserento.

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TRADUÇÃO:

Ela disse:
-Não
Mas na verdade ela quis dizer:
-Sim.

Ela disse:
-Sim.
Mas na verdade ela quis dizer:
-Não.

Ela disse:
-Não tem nada me incomodando.
Mas na verdade ela quis dizer:
-Tu tá me incomodando.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Rapidinhas do Capita


Carmem e Jaime estavam sentados juntinhos no sofá da sala da casa dela no maior amasso. Já se conheciam a algum tempo, davam-se bem, mas, por íntimos que fossem trocando carícias e beijos resfolegantes, não eram íntimos no sentido de se conhecerem profundamente. Aquela intimidade, sabe? Que as pessoas têm quando uma sabe como o humor da outra vai estar durante o dia inteirinho apenas pela forma como ela enunciou "bom dia" quando se viram de manhã. Essa intimidade, a Carmem e o Jaime ainda não haviam alcançado. Mas era algo que o Jaime almejava. Ele queria saber mais da Carmem. Foi pensando nisso, e em tentar trazer um pouquinho mais de romantismo ao relacionamento dos dois, que ele perguntou, enquanto a acariciava, qual era o sentido do kanji que ela tinha tatuado atrás do ombro esquerdo.
Surpeendeu-se quando ela, olhando pra TV, lhe respondeu com pouco caso:
-Não sei.
-Não sabe? Como assim, não sabe?
-Não sei... Quer dizer, ele tem algum significado, e tal, mas eu nem lembro, tava meio bêbada quando escolhi. O tatuador deve ter me explicado, mas eu não lembro, não. É um desenho bonito, mas é que nem a tua tatuagem. Não significa nada, só um desenho bonito.
Jaime não disse nada. Ele tinha um símbolo de super-herói tatuado no braço. Pra maioria das pessoas podia não ter nenhum significado, mas pra ele tinha. Pra ele, servia pra lembrar do valor do sacrifício, de como ás vezes pode ser solitário tentar tomar sempre as decisões mais corretas, de como a responsabilidade é importante, e de como pode ser compensador deitar a cabeça no travesseiro à noite sem ter nada do que se arrepender. Mas não disse nada. Ficaram olhando TV abraçados por algum tempo, até ele olhar por relógio e fazer cara de já. Se despediu com um beijo morno, dizendo "até amanhã", e se Carmem já tivesse um pouco mais daquela intimidade, notaria pela forma como Jaime enunciou seu "até amanhã", que talvez eles não se vissem.

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Quando o Fabrício era pequeno, ele passou uma semana tendo pesadelos na praia. Eram sonhos ruins recorrentes, onde ele passava por uma viela escura á noite, e ali, de um ponto mais alto na escuridão, surgia Darth Vader, que o perseguia pela rua munido de seu tenebroso sabre de luz escarlate. O vilão o seguia correndo pela praia, não a praia ensolarada com a qual ele estava acostumado, mas uma praia sombria, medonha, repleta de árvores mortas e secas de galhos retorcidos que se espichavam para tentar apanhá-lo enquanto ele corria desesperado. Em certo ponto do sonho, porém, Fabrício chegava a um penhasco, e ficava preso entre uma queda para a morte, e o implacável sabre de luz de Vader. Esse, era o momento em que ele acordava na cama, ensopado de suor, chorando pela mãe.
Aquele sonho recorrente durante uma semana assombrou o Fabrício. Seu pai, intrigado, pensou até em proibir o menino de ver TV para que ele não se impressionasse com vilões de cinema. Um dia, indo à praia com Fabrício, o pai percebeu um saco de lixo, atado ao acaso em um poste de iluminação, que, inflado pelo vento, parecia uma cabeça redonda e uma capa esvoaçante. Mostrou ao filho para saber com o que se parecia, e viu a cor sumir do rosto de Fabrício enquanto o menino apertava-lhe a mão e dizia com os lábios entreabertos "Darth Vader!".
Com muita paciência, o pai de Fabrício lhe mostrou que o vulto negro que o perseguia, nada mais era do que um saco de lixo preso em um poste de iluminação. Naquele mesmo dia, após escurecer, Fabrício foi levado pelo seu pai novamente até o local, para ver que o que parecia um pesadelo com capa, elmo e sabre, nada mais era do que a imaginação do menino, um saco de plástico negro, e o reflexo da luz do poste ganhando uma coloração avermelhada ao atravessar o plástico.
Fabrício jamais esqueceu daquilo, e embora nunca mais tenha tido pesadelos com Vader o perseguindo pela praia, jamais esqueceu de como sua mente lhe pregara peças na infância.
Ás vezes nós não somos capazes de ver as coisas mais óbvias, mas conseguimos enxergar um lorde negro de sith em um saco de lixo.

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Ele estava escorado no balcão de um bar estiloso. Olhava em volta escolhendo aquela que seria sua vítima naquela noite. Sim, pensava ele. Nessa noite, eu sou um caçador dançarino, e preciso encontrar a parceira/presa perfeita. E ele encontrou. Assim que seus olhos deitaram sobre ela, ele soube que ela era a parceira perfeita para a dança especial que tinha coreografado para aquela noite.
Era linda, glamourosa, com longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo quase no topo da cabeça. Os lábios carnudos fulguravam em vermelho envolvendo o canudinho mais sortudo do salão enquanto ela sorvia um drinque mais colorido que o cenário dos Teletubbies.
Era magnífica. Uma criança de menos de onze anos poderia cair em seu decote por três dias sem chegar ao fundo, e suas pernas eram tão longas que pareciam não ter fim, assim como a transamazônica. Sua cintura era ínfima e seus quadris mais generosos que político em campanha. E estava sozinha.
Ele sabia o que fazer se quisesse chegar ao ápice do que aquela noite poderia ser. Deu seu passo. Cochichou algo com o bartender, e recebeu um drinque igual ao que ela segurava.
Do outro lado do salão, esperou até que o drinque dela estivesse terminando. Não podia ser afoito e chegar antes que ela chegasse à metade do copo, tampouco esperar o copo esvaziar, assim que viu a brecha perfeita, três dedos de bebida, deu seu passo.
Se aproximou como um jaguar trazendo o drinque dela em uma mão, e uma dose de whisky, que detestava, na outra.
-Olá - Disse ele, parecendo confiante. Estava confiante, era moreno, alto e forte e bem-vestido. Ofereceu-lhe o drinque.
-Aceita?
Ela assentiu com a cabeça. "Perfeito.", pensou ele. Agora um momento crucial, a hora de se dar bem ou fazer papel de garçom.
-Posso? -Perguntou sinalizando com o queixo, a cadeira vazia à frente dela.
-Claro. - Ela respondeu, mostrando a cadeira com a mão espalmada.
"Feito" ele vibrou em silêncio enquanto sentava.
Ele sentou e olhou pra ela por breves instantes. Tudo parte do balé erótico que, esperava ele, acabaria em uma cama redonda de motel. Um novo passo do balé. Sacudiu a cabeça brevemente, como quem se recompõe de um transe:
-Desculpa... Tua beleza me deixou sem palavras por um momento.
Ela sorriu.
"Sim", ele pensou, "está tudo como devia ser. Alguém devia estar filmando isso, eu precisava de uma estenógrafa pra me acompanhar e registrar isso pra posteridade.".
-Posso perguntar o teu nome? - Ele disse.
-Claro. - Ela respondeu enigmática.
"Mas, ah, guri!" ele vibrou, era perfeito.
-Qual o teu nome?
Ela sorriu com os lábios no canudo do drinque, e após sorver um gole generoso da bebida, disse:
-Carízia.
Ele sorriu como quem não entende:
-Como?
-Carízia. - Ela repetiu.
Ele sorriu por um instante. Então colocou o punho fechado na frente da boca e riu. E então riu mais. E mais. E teve um acesso de riso.
Não pôde segurar. Tentou, mas foi pior. Fez aquele ruído de ar escapando entre os lábios fechados, foi horrível, ela ficou muito séria olhando pra ele, e isso só lhe deu mais vontade de rir. Ela se levantou chamando-o de trouxa e foi embora enquanto ele, sob os olhares desaprovadores de inúmeras pessoas, chegava a balançar as pernas enquanto ria.
Não adianta, não há balé erótico coreografado à exaustão que suporte um nome esquisito.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Esperança


-Ela é tudo de bom, velho, tô te dizendo.
-Tá, mas tu sempre diz isso quando te apaixona, meu, não dá pra levar fé.
-Não, não, meu tô te falando. Ela é tudo de bom, tudo de bom, mesmo. Ela, ela, ela... Sei lá, é tipo, putz, uma, uma...
-Tu vai usar um símile pra se arrepender depois. Tu vai dizer que ela é como a Léia. Na versão escrava do Jabba.
-Não, capaz, não ia dizer isso...
-Vai dizer que ela é uma Jéssica Drew? Ou uma Natasha Romanoff? Uma versão ainda mais gostosa da Tina Fey?
-Ah, de repente...
-Eu sabia.
-Não, não, peraí, não vou usar nenhum desses símiles de sempre. Deixa eu pensar...
-Tá, vai lá. Só cuidado com o cheiro de queimado.
-Vai se lascar. Peraí... Tá, primeiro, ela é bonita. Não é bonita dessas bonitas blé, assim, que tu chuta uma macega na saída de uma boate e diz, ah, guria bonita, e depois esquece, não é assim. Ela é bonita de um jeito muito mais interessante. Ela é inteligente, OK, eu sei, um monte de meninas são inteligentes, mas ela também é esperta, quando eu falo com ela, preciso me cuidar pra não falar besteira, porque senão ela me sacaneia. É legal quando ela faz isso, é divertido por que ela tira onda com a minha cara de um jeito fofo-
-Fofo?
-Cala a boca, invejoso. Ela é aberta a quase qualquer assunto, é... Não sei explicar, mas ela tem uma qualidade meio de moleque, sabe? Tem tatuagem, piercing... Ela curte os mesmos filmes que eu, as mesmas séries, ela não odeia futebol, nem o Sylvester Stallone, ela curte video game, não se importa com o RPG, quadrinhos, e as mihas outras nerdices, gostamos de algumas músicas e bandas em comum, outras nem um pouco, mas isso é o de menos, já que ambos somos partidários do uso consciente do fone de ouvido. Ela é... Cara, achei. Achei o símile perfeito. Ela é uma personagem feminina dos filmes do Kevin Smith quando ele ainda era um diretor promissor. Sabe do que eu tô falando? Tipo a Amy. Ela é a Amy de Procura-se Amy. É apaixonante daquele jeito, sabe?
-Ela tem a voz enjoada da Amy?
-Mais uma vez: Vai se lascar.
-Tá, tá, então, tá tri, ela é tudo isso, OK, beleza, supondo que ela seja, de fato, a oitava maravilha do mundo moderno, fica uma questão importantíssima em aberto: Ela gosta de ti?
-Ah, velho... Espero que sim... Por que eu gosto demais dela.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

surreal


Francisco estava cansado após mais um dia estafante de trabalho. Era verão, mas ele vendera suas férias. Trabalhava no competitivo ramo da propaganda, e férias eram um luxo ao qual não podia entregar-se. Não precisava. Sentia-se bem trabalhando, no seu emprego era o sujeito a quem os demais recorriam quando não sabiam o que fazer, era o sujeito com todas as respostas, era o cabeça, e era questão de tempo até que os donos da companhia vissem isso e lhe dessem o devido valor. Mas, para ser visto, não podia tirar férias. O que precisava fazer era trabalhar. Chegaria em casa, comeria alguma coisa, e mergulharia de cabeça no novo projeto, até março deeria ter ótimos resultados pra mostrar aos clientes.
Entrou em seu prédio tranquilo. Subiu o elevador, e enfiou a chave na fechadura, a girou e abriu a porta. Foi quando deparou-se, espantado, com um cachorro. O animal se aproximou efusivamente, cheirando suas pernas e abanando uma cauda peluda, tipo espanador. Era um cachorro bonito, grande, felpudo. Francisco colocou a mão no dorso do cachorro tentando entender o que aquele bicho fazia na sua casa. O animal lambeu-lhe a mão com alegria, e então deitou-se aos seus pés de barriga pra cima, como quem espera festa. Francisco, ainda intrigado, coçou a barriga do cachorrão fazendo a pata traseira dele balançar de satisfação. Pensava o que diabos aquele canzarrão amistoso estava fazendo em sua casa. Subitamente, da cozinha, veio uma voz de mulher:
-Limpem os pés! - Ela gritou. Francisco, ainda aturdido e coçando a barriga do cachorro, olhou pro chão e percebeu que seus pés, de fato, estavam um pouco sujos. Mas... Mas quem poderia ser a mulher que o mandava limpar os pés? Teria ele acidentalmente entrado no apartamento errado? Mas como a sua chave funcionara na porta de outro apartamento? Ah, o síndico certamente ouviria poucas e boas quando Francisco o encontrasse. Parou de coçar o cachorro, levantou-se e abriu a porta do apartamento. Talvez conseguisse sair antes de ser notado pelos vizinhos e ter que passar pelo constrangimento de explicar que entrara na casa errada. Olhou o número na porta, 305.
Mas... Mas trezentos e cinco era o número do seu apartamento... Teria entrado no prédio errado? Teria uma família com direito a cachorro e tudo se mudado para o seu apartamento enquanto trabalhava? O que teria acontecido, perguntava-se.
-Amor - Disse uma voz feminina atrás dele. -Leva o lixo pra mim, fa'çoavor?
Virou-se com um olho fechado e o outro aberto, esperando um grito de horror, mas, ao invés disso, ganhou um selinho nos lábios.
-Leva lá pra mim, já que eu trabalhei o dia inteiro, peguei a Lourdes na escola e ainda tô fazendo janta.
A mulher era alta, cabelo castanho bem curto, bonita. Francisco recebeu o beijo, os sacos de lixo nas mãos, e um abraço do cachorro. Ainda intrigado, colocou o cachorro no chão, abriu a porta e saiu levando o lixo consigo. O que diabos estaria acontecendo? O que havia se passado enquanto Francisco trabalhava? O que diabos do inferno podia ter ocorrido? Francisco tentou se lembrar do dia anterior, mas era difícil pra ele lembrar até o que comera no almoço, era, afinal de contas, um sujeito ocupado, aterafado, assoberbado pelo peso das responsabilidades. Quem era aquela mulher, por que ela o tratava por amor? Desceu com o lixo. Largou na lixeira. Talvez o zelador soubesse o que estava acontecendo. Chegou a ir até a porta dele, mas refreou-se. E se estivesse tendo algum tipo de alucinação causada pelo estresse? Fazia algum sentido, não é? Afinal, nem era capaz de lembrar da última vez que tirara as preocupações da cabeça e descansara. Sim, pensou Francisco. Era apenas cansaço. Estava imaginando coisas. Voltou ao seu apartamento. Ao colocar a chave na fechadura, ouviu um animal fuçar sob a porta. "O cachorro imaginário.", pensou Francisco. Era o tipo de cachorro com o qual sonhava na infância. Grande, peludo e amigável. Sim. Aquela coisa de cachorro era uma alucinação, claramente. Abriu a porta e sua alucinação o abraçou novamente. Era uma alucinação pesada. Quase o derrubou. Ele se chocou com a porta, e segurou-se pra não cair. Tentou se concentrar para fazer o cachorro imaginário desaparecer. Não conseguiu. O cachorro continuava ali. A mulher bonita apareceu de novo.
-Passa, McCoy, deixa o Francisco! - Esbravejou. O cachorro protestou com um "rworrrrwow", e se refugiou sob a mesa da cozinha. A mulher bonita passou a mão no ombro de Francisco:
-Tu deixa esse cachorro fazer o que quer contigo.
Francisco começava a se preocupar. O que poderia estar acontecendo? Quem era aquela mulher? Que cachorro era aquele?
Uma menina pequena, de seis, talvez sete anos, surgiu correndo. Tinha uma folha de papel ofício na mão. A estendeu a Francisco:
-Ó, pai.
Francisco a olhou horrorizado. Era uma criança bonita. Cabelo castanho escuro escorrido, olhos cor de mel. Ele apanhou a folha e olhou. Um desenho feito com lápis de cor, mostrava uma família na praia.
-A gente vai, pai?
A menina perguntou. Francisco olhou pra ela novamente.
-Quê?
A mulher bonita voltou:
-Não enrola a guria, Chico. A gente vai ver, Lurdinha.
Francisco não sabia o que fazer ou dizer, como proceder, ainda lutava para concatenar o que poderia ter acontecido. A mulher bonita voltou:
-Chico? Cadê o Eltinho?
-Hu... - Chico não sabia de que se tratava. O que devia dizer? Quem era Eltinho? O cachorro? Não, não... O cachorro se chamava McCoy, não era?
A mulher bonita fez um ruído de quem está fula da vida. Apanhou as chaves do carro penduradas no bolso de Francisco.
-Eu achei que ele tinha entrado contigo, mas tava muito silencioso. O mundo ainda não tinha começado a ser destruído no Playstation. Tu esqueceu o meu filho no futebol de novo, Francisco? Pelo amor de Deus. Tu sabe como ele vai ficar nãO é? Tu lembra da última vez... Vem Lourdes. Vamos buscar o mano. Chico, cuida a janta ali pra mim, pelo menos.
A mulher bonita saiu parecendo desapontada, carregando a menina Lourdes pela mão. Saíram pela porta deixando o cachorro amigável tristonho a sós com Francisco.
Francisco recisava descobrir o que era aquilo. Que tipo de anedota era aquela? Teria ele viajado no tempo? Teria ele sido vítima de uma abdução alienígena? Teria sofrido lavagem cerebral dos russos e sido enviado para matar a Dilma?
Saiu andando pelo apartamento. Era o seu apartamento. Algumas daquelas coisas eram suas. Claro, as almofadas coloridas no sofá, o carrinho de controle remoto no chão, aquela Santa Ceia brega na parede, aquilo não era seu. Mas muitas coisas eram. Em cima da mesinha do telefone havia uma foto sua. Jovem ainda, bastante cabelo cheio de gumex. Na escola. Vestia a camiseta do ginásio. Estava abraçado em uma moça. Muito bonita. Cabelos castanhos bem lisos, olhos grandes castanho-claros. Ele lembrava dela daquela época. Como se chamava, mesmo? Tainá! Sim. Tainá era o nome dela. Nossa, ele era louco pela Tainá. Era apaixonado por ela. Seus amigos diziam-lhe que se ele deixasse a Tainá escapar, era louco.
Olhou na estante e encontrou um álbum de fotografias. Abriu o álbum com a tensão movendo os nervos de seus dedos. Ali estavam, mais fotos da Tainá e dele. Ela e ele na praia. Ela e ele em alguma festa de carnaval. Ela e ele em um jantar de... Noivado? Ela e ele casando no civil? Ela e ele casando na igreja... Ela linda, com seu vestido azul-claro, ele de paletó preto e gravata prateada... Que brega... Ela no hospital, com um barrigão de muitos meses de gestação. O Eltinho, recém-nascido, nos braços de Francisco. Eles no zoológico. O Eltinho e a primeira bicicleta. O Eltinho e a Tainá na praia. A Tainá grávida de novo, esperando a Lourdes. Primeiro dia de aula do Eltinho. Um desenho da Lourdes, dobradinho ocupando o espaço de uma foto.
Francisco fechou o álbum com lágrimas nos olhos. Subitamente entendera o que havia acontecido. Ele não esquecera de nada, para esquecer, é preciso ter sabido um dia, pra esquecer de um momento, é necessário ter estado presente, então. Ele não estivera. Francisco era um fantasma, um eco que deperdiçara o tempo mais precioso fazendo nada exceto colher o vil metal.
Agora, pensava, precisava descobrir um modo de recuperar o tempo perdido enquanto havia tempo. Enquanto ainda podia, para não ser ele, mais adiante, o esquecido.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Vazio no sofá


O Jurandir estava cansado. Cansado mesmo. Trabalhara feito uma mula, atendera alguns clientes grosseiros e desagradáveis, tivera que ajeitar a baderna que fizeram nas prateleiras da loja... Quando saíram, ele percebeu a pilha de trabalho acumulado do final de semana, e não teve alternativa, exceto colocá-lo em dia. Acabou saindo do trabalho mais tarde do que devia. Passou no mercado, comprou um vidro de conservas e um bife à milanesa. Nem sequer gostava de bife à milanesa, mas enfim, àquela altura, isso era o de menos. Na venda próxima de sua casa, comprou um picolé e uma garrafa pequena de suco, ambos de uva. Abriu o picolé, e foi comendo-o pra casa. Enquanto procurava a chave de casa no bolso das calças jeans ficando cada vez mais largas, o picolé começou a causar uma geladura em sua boca, ele, em um movimento ágil, o segurou apenas entre os dentes, e uma gota escorreu e pingou em sua camiseta branca. Ele praguejou alguma coisa ininteligível com o picolé entre os dentes, e deu um suspiro de alívio enquanto sacava a chave do bolso.
Entrava no prédio quando ouviu um grito atrás de si, era um senhora que morava no sexto andar, pedindo-lhe que segurasse a porta. Ele segurou, ela passou e agradeceu. Ele, com o picolé entre os dentes, a chave em uma mão e a sacola de compras na outra, apenas acenou com a cabeça. A velhinha não viu. Saiu andando pelo corredor o taxando de mal-criado.
Subiu as escadas, e procurou a chave da gradedo apartamento no chaveiro. A luz do corredor apagou, ele tentou acendê-la novamente usando o cotovelo, mas errou o interruptor, e acertou a parede. Mordeu seu picolé com força, partindo-o ao meio. Metade dentro da boca, metade batendo nas suas pernas e caindo no chão do corredor. Finalmente encontrou a chave. Abriu a porta e anteviu aliviado o banho que tomaria. Quando largava a carteira e as compras na mesinha da cozinha, viu os dois DVDs que alugara na sexta e que deviam ser entregues ainda hoje. Apanhou os DVDs e desceu correndo as escadas. Lembrou-se que tinha tirado a carteira do bolso. Correu de volta, apanhou a carteira, e andou rápido até a locadora. Devolveu os filmes, voltou pra casa. Tomou seu banho, comeu as conservas e o bife enquanto tomava suco de uva e via o Jornal Nacional.
Quando o noticiário terminou, zapeou pelos canais da TV, mas não sentiu vontade de ver nada.
"Jogo FIFA, ou Assassin's Creed?" se perguntou com o controle do video game na mão. A verdade é que estava com preguiça de jogar video game, ou ver TV, ou continuar lendo O Último Trem de Hiroshima.
Olhou pro espaço vazio no sofá.
-Sabe. - Disse em voz alta. -Seria mais fácil suportar esses dias miseráveis se eu te encontrasse aqui ao anoitecer.
Deixou a TV ligada no National Geographic e deitou sabendo que dormiria ali, mesmo.

Resenha Cinema: O Turista


A Angelina Jolie devia ter sua foto ao lado do verbete Glamour na enciclopédia Basca. Sério. Eu, particularmente, acho ela muito bonita, mas não acho que seja a última bolachinha do pacote, nem a última Coca-Cola do deserto (Até por que, prefiro Fanta e a Charlize Theron), mas é inegável que a mulher é uma das atrizes que mais consegue evocar a aura de "estrela de cinema" que algumas divas da antiga evocavam, além de ser engajada, talentosa e esposa do Brad Pitt.
O Johnny Depp, vou confessar, não acho particularmente excelente. Está ótimo em alguns filmes como Em Busca da Terra do Nunca e Donnie Brasco, verdade, Jack Sparrow é uma das grandes criações cinematográficas da última década, concordo, mas acho que, embora trate-se de um ator talentoso, um pouco do cartaz do astro é meio gratuito, e o Jude Law é muito mais bonito.
Ainda assim, um filme que juntasse os dois, que são hit no momento tanto no quesito talento, quanto no quesito "veja como eu sou cool", como O Turista, merecia ser visto, não é? É... Mais ou menos.
O filme de Florian Henckel von Donnersmarck (Diga isso com a boca cheia de polvilho) mostra Depp como Frank Tupelo, um turista americano de férias na Europa, que é seduzido pela agente do tesouro britânico, Elise Ward de Angelina Jolie, e transformado em isca tanto para a Interpol quanto para gângsters, que procuram pelo seu amante, um notório ladrão que roubou mais de dois bilhões de libras, e não recolheu os impostos devidos. Essa é a premissa para correrias, reviravoltas, e alguma tensão sexual entre Tupelo e Ward.
Quem viu o Globo de Ouro deve lembrar que O Turista recebeu algumas indicações, inclusive para Depp e Jolie como melhor ator e atriz em musical ou comédia. Bom, dois erros, aí. Eles não estão particularmente inspirados, e o filme, embora nunca encontre o tom ou o gênero, certamente não é uma comédia.
No final das contas, O Turista é um sub-produto de marketing, que usa as estampas do casal protagonista para atrair o público que sai do cinema muito mais enganado do que a interpol e os gângsters.

"-Você está faminta.
-Você quer dizer 'fabulosa'?
-Quero."