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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Resenha Cinema: Star Trek: Sem Fronteiras


Em dezembro do ano passado, quando foi divulgado o trailer de Star Trek: Beyond, eu escrevi aqui mesmo nesse blog, que a prévia deixava "bem claro: Com Justin Lin na direção, Star Trek é Velozes & Furiosos no espaço.".
Eu realmente não gostei do trailer que, ao som de Sabotage dos Beastie Boys mostrava relances de um filme com uma cara danada de Guardiões da Galáxia e que pouco tinha a ver com o clima do seriado sessentista e a série de filmes dos anos oitenta.
Por sorte, eu disse antes de concluir que entendia o desgosto dos fãs hardcore, que "Star Trek - Beyond, ainda pode ser um filmaço, e muito divertido", e após assistir ao longa nesse sábado, posso dizer, aliviado, que nisso, eu acertei em cheio.
Star Trek: Sem Fronteiras, terceiro episódio da saga da tripulação da Enterprise na linha de tempo alternativa iniciada em Star Trek (2009) se passa dois anos e meio após os eventos de Além da Escuridão: Star Trek, quando o grupo enfrentou a ira de Khan e viveu para contar a história.
A tripulação encabeçada pelo capitão James T. Kirk (Chris Pine), o primeiro oficial Spock (Zachary Quinto), o médico Leonard "magro" McCoy (Karl Urban), a xeno-linguista tenente Nyota Uhura (Zöe Saldaña), o navegador alferes Pavel Chekov (Anton Yelchin), o piloto Hikaru Sulu (John Cho) e o engenheiro Montgomery Scott (Simon Pegg) está no 966° dia de sua missão de cinco anos em espaço profundo, continuando suas viagens em busca de novos mundos, formas de vida e civilizações, exatamente o que Kirk ansiava ao final do último filme.
Entretanto, nós descobrimos através do diário de bordo do capitão que quase mil dias no espaço podem ser algo repetitivos, mesmo que pequenas missões se apresentem aqui e ali conforme a Enterprise vaga pelas áreas mais distantes do espaço não-mapeado firmando novas relações diplomáticas para a Federação.
A natureza episódica da rotina começa a fazer com que Kirk, agora mais velho do que seu pai era ao morrer, repense sua vida, e comece a pensar em sossegar o facho, passando adiante o comando da nave que vem sendo seu lar nos últimos anos.
Quem passa por um dilema semelhante é Spock. O meio vulcano, ao saber da morte do embaixador Spock (Leonard Nimoy, cuja morte foi integrada à história), também repensa sua vida, imaginando se o mais lógico, dada a míngua de seu povo, não seria se estabelecer em Novo Vulcano e "começar a fazer vulcaninhos", o que estremece sua relação com Uhura.
Em meio às dúvidas dos dois chefes da tripulação, a Enterprise chega à estação espacial de Yorktown, o mais avançado posto do espaço da Federação (E um deleite visual com suas ruas e prédios se estendendo por cima uns dos outros como uma montanha-russa de arranha-céus com um tipo muito particular de gravidade curvada), uma enorme base onde todas as raças federadas podem se encontrar e conviver, entendendo, de fato, o que a Federação representa.
É durante o breve período de descanso que uma nave refugiada surge em Yorktown pedindo por ajuda. A capitã, Kalara (Lydia Wilson) pede ajuda. Sua tripulação está perdida em um planeta além do cinturão de asteroides que delimita o espaço federado, e ela precisa de ajuda para resgatá-los.
Kirk prontamente se voluntaria para a missão, porém, após cruzar a necro nuvem da nebulosa, a Enterprise é atacada por um enxame de pequenas espaçonaves de ataque.
O violento ataque aleija a Enterprise, que se desmantela caindo no planeta altamid, onde a maior parte da tripulação é capturada por um alienígena chamado Krall (Idris Elba), um poderoso déspota cuja ferocidade só é igualada por um inexplicável ódio pela Federação.
Os únicos tripulantes que não são capturados são Chekov e Kirk, que permanecem com Kalara, McCoy, que sobrevive à um pouso desastrado junto com Spock, gravemente ferido, e Scotty, que acaba encontrando a alienígena Jaylah (Sophia Boutella), outra prisioneira de Krall em Altamid, procurando desesperadamente por uma forma de escapar.
Agora cabe a Kirk reunir sua tripulação, descobrir por que Krall os atraiu até uma armadilha, e como eles podem impedir seu plano de destruir a Federação.
O que é que eu posso dizer?
É sensacional.
Star Trek: Sem Fronteiras é divertidíssimo, um sci-fi competente com doses de aventura, ação e comédia que não esquece o fan-service e entrega uma experiência excitante e divertida.
O roteiro escrito por Simon Pegg e Doug Jung apesar de pirotécnico e extremamente destrutivo (ainda que não tanto quanto os roteiros de Roberto Orci, Damon Lindelof e Alex Kurtzman nas duas primeiras partes) centra sua atenção no cerne de Star Trek:
A tripulação da Enterprise.
Isso é um grande acerto, não apenas porque as relações entre os membros da equipe sempre foram a coisa mais importante da franquia, mas também porque Simon Pegg, um nerd de carteirinha bastante versado no universo trekkie, saca esses personagens e sabe aproveitar a dinâmica entre eles.
A grande prova disso talvez seja Chris Pine.
Se o ator conseguia ser um Kirk convincente desde o primeiro filme, quando evocava de maneira divertida a aura brega/cool do personagem, nesse filme ele alcança um novo patamar de segurança no papel e se mostra um James T. extremamente competente, conseguindo equilibrar a canastrice que William Shatner tornou inerente ao papel com o heroísmo genuíno de um homem disposto a tudo para salvar seus amigos e sua tripulação, e até alguns insights mais profundos, como a entrada do diário de bordo que abre o filme, por exemplo (que além de muito boa, exala o climão da série original).
Outro personagem que ganha nova vida em Sem Fronteiras é o doutor McCoy de Karl Urban.
O neozelandês finalmente ganha espaço para explorar a rabugice paranoica do chefe médico da Enterprise e sua inusitada parceria com Spock é simplesmente brilhante. Quando a tripulação é dispersada, formam-se duplas inesperadas, como Kirk e Chekov, Uhura e Sulu, e McCoy e Spock, facilmente a mais divertida.
Eu poderia assistir um filme inteiro estrelado apenas por Karl Urban e Zachary Quinto, de tão bacanas que os diálogos entre os dois são.
Claro, a apresentação de um novo vilão, um interessante trabalho de Idris Elba mostrando um raivoso alien que é uma contraparte de Kirk sob diversos aspectos (e que merecia mais um par de cenas para dar lastro à sua origem), e de Jaylah, uma personagem muito legal e com mais camadas do que as prévias faziam parecer, acaba fazendo com que nem todos os personagens tenham o merecido tempo de tela.
Uhura, Sulu e especialmente o Chekov do falecido Anton Yelchin têm pouco a fazer no filme, o que é uma pena.
Ainda assim, nas mãos do diretor Justin Lin, egresso da série Velozes & Furiosos, que faz um excelente trabalho tanto nas sequências de ação quanto na condução dos personagens, Sem Fronteiras funciona. E entre sequências pirotécnicas e Beastie Boys (Sim, a música toca no clímax do filme, e tem um papel importante na história e a sequência toda é do caralho) o filme vai cavando seu lugarzinho no coração da audiência ao encontrar, cena a cena, conflito a conflito e vitória a vitória o sabor de um episódio da série original anabolizado com efeitos visuais de última geração.
Sem Fronteiras tem seu próprio ritmo, e assim que nos habituamos a ele, somos surpreendidos por um filme cheio de afeto e reverência aos fãs e ao material original, chegando a arrepiar em seus momentos derradeiros, podendo até arrancar uma lágrima fugidia dos trekkies da antiga.
Com tanto a oferecer, eu francamente não vejo modo melhor de comemorar o jubileu de ouro da série.
Primeiro filme do ano a me deixar com um sorriso infantil de orelha a orelha ao final da projeção, Star Trek: Sem Fronteiras é excelente.
Assista no cinema. Vale demais a pena.

"-O espaço: A fronteira final...
-Essas são as viagens da nave estelar...
-Enterprise. Sua contínua missão...
-De explorar estranhos novos mundos...
-De buscar novas formas de vida...
-E novas civilizações...
-De audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve."

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Resenha Cinema: Pets: A Vida Secreta dos Bichos


Ontem foi um daqueles dias do ano em que eu abro uma exceção na minha agenda cinematográfica pra assistir a uma animação.
Não sou um xiita.
Se é verdade que eu não sou fã de longas animados, também é que a qualidade do segmento vem crescendo vertiginosamente, em grande parte graças à Pixar, que elevou o padrão de animações ao torná-las muito mais do que um produto infantil. É impossível pensar em longas como Wall-E, Divertida Mente e UP: Altas Aventuras e não perceber que eles falam tanto para as crianças quanto para adultos.
A mesma coisa acontece, ainda que em menor escala, com comédias rasgadas como Shrek, Mega Mente, Kung Fu Panda e Meu Malvado Favorito. É justamente a produtora desse último, a Illumination Company da Universal, responsáveis pela implacável invasão dos Minions que agora tenta algo diferente com esse Pets: A Vida Secreta dos Bichos.
No longa, dirigido por Chris Renaud (de Meu Malvado Favorito 1 e 2 e O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida) e Yarrow Cheney, nós conhecemos o Jack Russel Terrier, Max (voz de Louis C. K.), um cão que vive uma vida de sonho com sua dona Katie (voz de Ellie Kamper).
Os dois têm uma relação perfeita no apartamento que dividem em Manhattan, onde tudo é perfeito exceto aquelas horas do dia em que Katie sai para trabalhar e Max a aguarda ansiosamente para que eles continuem brincando de arremessar a bolinha, saindo para passeios, ou apenas olhando a metrópole da escada de incêndio.
Outra coisa que acontece quando Katie, e todas as outras pessoas saem para trabalhar, é que os animais tomam conta de suas casas.
Se Max fica de olho na porta esperando sua dona, o pug Mel (Bobby Moynihan) se ajeita para latir para os esquilos na árvore em frente à janela. O daschund Buddy (Hannibal Buress)se acaba sendo massageado pela batedeira, enquanto a gata Chloe (Lake Bell) deixa sua ração de lado e acaba com a geladeira de sua dona, e a lulu da pomerânia Giglit (Jenny Slate) só tem olhos para Max do outro lado da rua.
Entre aguardar sua dona e curtir o tempo vago com os outros animais, a vida perfeita de Max sofre um baque quando Katie chega em casa com um novo amigo:
A enorme bola de pelos Duke (Eric Stonestreet, de Modern Family), um cão terra nova abandonado que Katie adota para ser o novo "irmão" de Max.
E se Max já achava que sua vida com Katie estava boa do jeito que estava, a presença de um canzarrão espaçoso na nova casa só o faz ter mais certeza de que Duke tem que sumir.
Enquanto os dois tentam se livrar um do outro, porém, as coisas dão errado, e a dupla acaba na carrocinha, de onde eventualmente são resgatados por um grupo de animais abandonados que pretende começar uma guerra contra os humanos.
Enquanto Duke e Max têm que lidar com o grupo liderado por Snowball (ótimo trabalho de Kevin Hart), Giglit percebe que seu amor platônico não voltou pra casa, e junto com Mel Chloe e Buddy, monta uma força tarefa de resgate que inclui ainda o falcão Tiberius (Albert Brooks), o porco-da-índia Norman (Chris Renaud), o periquito Ervilha (Tara Strong) e o velho basset Pops (Dana Carvey) para ajudar a dupla a voltar pra casa.
Então... A despeito de copiar descaradamente a trama de Toy Story, apenas trocando o "o que seus brinquedos fazem quando você não está por perto" por "o que seus animais de estimação fazem quando você não está por perto", o longa animado até que não é ruim.
Há piadas engraçadas para qualquer pessoa que tenha tido um animal de estimação na vida, um ótimo trabalho de dublagem e a qualidade técnica da animação é absolutamente inegável, infelizmente a qualidade do longa pára por aí.
Não há em A Vida Secreta dos Bichos nada que eleve o filme a alguma aspiração além das risadas descartáveis, a aventura é ingênua e inofensiva, as piadas idem, e quando o filme acena com algo além disso, na linha narrativa sobre o dono perdido de Duke, a ideia logo é abandonada em nome da correria (Não deixa de ser um exercício pensar na quantidade absurda de lágrimas que essa ideia renderia num filme da Pixar).
Enchendo o filme de animais diferentes que vão de víboras de uma presa só a poodles headbangers passando por porcos tatuados, gatos sphinx britânicos e crocodilos os roteiristas Cinco Paul, Ken Daurio e Brian Lynch conseguem ser inofensivamente divertidos, e obter 90 e poucos minutos de atenção e risadas, mas produzem um filme que não dura muito mais tempo do que isso na memória depois que a sessão acaba.
Ainda assim, é um bom programa para qualquer pessoa que goste de animais.
Se for assistir, priorize a versão com as vozes originais em inglês, ela é bem superior à versão em português vista nos trailers.

"-A revolução começou! Para sempre libertados, jamais domesticados!"

Adeus, Gene


Deu-se ontem o falecimento de Jerome Silberman, nativo de Milwaukee, no estado do Wisconsin, nos Estados Unidos.
O senhor Silberman tinha oitenta e três anos, e vinha, nos últimos três, enfrentando problemas com o mal de Alzheimer.
Talvez a coisa mais notável a respeito de Jerome Silberman para as pessoas em geral seja o fato de que ele era, na verdade, Gene Wilder, cineasta, ator e roteirista indicado ao Oscar, que formou parcerias brilhantes com Richard Pryor, ao lado de quem estrelou O Expresso de Chicago, Loucos de Dar Nó, Cegos, Surdos e Loucos e Um Sem Juízo, Outro Sem Razão, e com Mel Brooks, com quem esteve em Primavera para Hitler (pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante), Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein (pelo qual a dupla foi indicada ao Oscar de melhor roteiro).
Gene Wilder foi a Raposa em O Pequeno Príncipe, e Willy Wonka em A Fantástica Fábrica de Chocolate, e acima de tudo, um dos melhores comediantes da história do cinema.
Talvez o ator com mais facilidade para me fazer rir, e que sempre me faz largar o controle remoto quando aparece em meio ao zapping TV, Wilder deixa uma carreira brilhante, repleta de risadas, e dúzias de frases e momentos marcantes.
E, pra quem duvida do poder de Gene Wilder de fazer rir, eu recomendo apenas que assista O Jovem Frankenstein.
Ontem, enquanto contava a cena com o cadáver na carroça, uma das melhores sequências cômicas da história do cinema, eu ria feito um idiota enquanto tentava mimetizar o gestual do jovem doutor Frankenstein tentando ocultar um defunto que seria usado em seus experimentos do chefe de polícia local. Esse era o poder de Gene Wilder.
Essa risada duradoura que jamais se vai.
Descanse em paz, Gene.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Exterminador em The Batman?

Um vídeo de pouco menos de trinta segundo publicado no Twitter pelo ator e diretor Ben Affleck fez a internet explodir algumas horas atrás.
Nerds de todas as paragens estão arrancando os cabelos e dando hurras pelo que parece o vislumbre do vilão do novo filme solo do homem morcego:
O Exterminador.
Confira o vídeo abaixo:




Ben Affleck vai dirigir o filme solo da mais recente encarnação do homem morcego nos cinemas, apresentada em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça, e que também aparecerá nos dois Liga da Justiça, o longa vinha sendo escrito por Geoff Johns e o próprio Affleck, e ainda não tem data de estréia oficializada.
Não há mais detalhes sobre o filme, mas Ben Affleck falou sobre um conluio de vilões e rumores deram notícia de um longa todo passado em um único cenário, como o game Batman: Arkham Asylum, um Duro de Matar de super-herói.
Com o vídeo, rumores já surgem com o nome de Joe Manganiello no papel do Exterminador.
Nos quadrinhos, Slade Wilson é um ex-militar que ganhou habilidades sobre-humanas após um experimento fracassado para criar um super-soldado perfeito.
O personagem surgiu originalmente como antagonista dos Novos Titãs, e, sendo um mercenário, já foi visto lutando tanto do lado do mal quanto do bem.

Resenha DVD: Mogli: O Menino Lobo


Eu não sou exatamente um fã de animações. Se hoje em dia eu volta e meia abro exceções na minha agenda de idas ao cinema pra ver desenhos, isso nem sempre foi regra. Uma das minhas implicâncias juvenis, das quais hoje eu me arrependo, era com as animações da Disney.
Eu tinha uma inexplicável ojeriza para com os desenhos do estúdio que meio que inventou as animações de longa-metragem, por uma razão, e uma razão apenas:
Os números musicais.
Eu odiava, na infância, quando em meio à história os personagens paravam o que estavam fazendo pra cantar uma canção.
Eu era muito intolerante com musicais à época. Ainda mais do que sou hoje. Então, se eu tinha uma ideia vaga de sobre o que se tratava Mogli: O Menino Lobo, não era por conta da premiada animação de 1967. Mas apenas por ter lido ou ouvido falar a respeito da história original, dos livros de Rudyard Kipling aos quais, admito, não li.
Foi, então, com alegria que descobri que Jon Favreau estava trabalhando em uma versão (mais ou menos) live action da história.
Infelizmente, o prazer de assistir ao filme no cinema me foi sonegado à medida em que, em Porto Alegre apenas uma sala reservou um horário para exibição do filme com idioma original, casualmente num dos piores cinemas da cidade, o Cinemark Barra-Shopping sul, onde frequentemente os horários das sessões atrasam e o ar-condicionado da sala é desligado durante a exibição, tornando o cinema, infelizmente, impossível de frequentar.
De modo que, como eu não estava interessado em assistir ao filme com as vozes de um elenco de globais, me restou esperar que o longa alcançasse o mercado de home-video.
Assistido o filme na madrugada de ontem, só me resta erguer o braço em protesto, e amaldiçoar os cinemas de Porto Alegre por não terem pensado em reservar ao menos um horário do dia para adultos alfabetizados irem ao cinema apreciarem a adaptação.
Desde sua sequência inicial, Mogli: O Menino Lobo é um deleite.
E a corrida de Mogli, o estreante Nehil Sethi, com seus irmãos lobos e a pantera-negra Bagheera (brilhante trabalho de dublagem de Ben Kingsley) é apenas o primeiro passo de uma trama episódica que conduz a audiência por uma série de pequenas aventuras, perigos e piadas conforme acompanhamos esse "filhote de homem" encontrado por Bagheera e levado para a alcateia onde o lobo alfa Akela (Giancarlo Esposito) o acolheu, e a loba Raksha (Lupita Nyong'o) o criou como se fosse seu filhote.
A vida de Mogli, tentando se tornar um lobo de verdade, convivendo com os outros animais da selva é alterada quando, uma trégua da água é declarada.
Uma longa estiagem tornou a água escassa e com os animais reconhecendo que beber é mais importante do que comer, a margem do lago é declarada um ponto livre de caça e todas as espécias podem ser encontradas matando a sede juntas.
É nesse momento que surge o tigre Shere Khan (Idris Elba), um poderoso caçador marcado por um encontro prévio com homens.
Khan não suporta a ideia de Mogli viver entre os animais, pois filhotes de homem crescem e se tornam homens, e ele oferece a Akela um ultimato:
Quantas vidas valem a vida de Mogli?
Quando as chuvas retornam e a ameaça de Shere Khan se torna uma sombra cada vez mais pesada sobre a alcateia, Mogli resolve partir, e, com a ajuda de Bagheera, chegar à aldeia dos homens, onde ele finalmente estará entre os seus e seguro do ódio do tigre.
Mas além da insaciável sede de sangue de Shere Khan, há outros perigos na floresta, e não tarda para que o pequeno Mogli logo se veja frente a frente com criaturas tão distintas quanto a anaconda Kaa (Scarlett Johansson), o enorme orangotango (na verdade um exemplar do ancestral Gigantopitecus) Rei Louie (Christopher Walken), e o urso Baloo (Bill Murray), animais que nem sempre têm a segurança e o bem-estar do filhote de homem em mente.
Conforme segue seu caminho entre essas criaturas tão diferentes, Mogli se vê em um ponto onde precisa descobrir quem é, e qual seu lugar no mundo.
É magnífico.
A parte técnica do filme é um disparate de tão boa, da floresta, renderizada à perfeição como um labirinto de enormes árvores retorcidas, muitas vezes compostas por centenas de vinhas emaranhadas que se erguem do solo ao céu, passando pelas encostas enlameadas do momento das monções, a iluminada caverna de Baloo ou o fantástico palácio de Louie, tudo é encantador, feito, não para emular a realidade, mas para ter o tom fabular e fabuloso que a história pede.
O elenco, de fato, tem apenas o jovem Nehil Sethi em cena, os demais personagens do filme são todos gerados por computador, mas o elenco de dubladores escalado por Favreau é inspiradíssimo.
Muito mais do que uma coleção de celebridades fazendo pontas, cada uma das vozes casa perfeitamente com o animal a quem representam, ou seu papel no filme.
Ben Kingsley dá show como a imponente pantera-negra Bagheera, uma figura de mentor cheia de majestade. O paternalismo solene e digno das vozes de Giancarlo Esposito e Lupita Niong'o como Akela e Raksha é palpável, assim como é a disposição boa-vida na voz de Bill Murray como o divertido Baloo. Christopher Walken está sensacional como o ameaçador rei Louie, e Scarlett Johansson tem um tom de voz tão marcante que já conseguiu tornar um I-pod sensual, e faz a mesma coisa pela hipnótica cobra Kaa, enquanto Idris Elba destrói na sua interpretação assustadora da voz do obstinado Shere Khan. Tão assustadora é sua performance, por sinal, que só quando o filme se encaminhava para o fim eu me dei conta de que, na melhor tradição de bons vilões, suas motivações e pontos de vista são totalmente justificáveis e fundamentados.
Cada um dos personagens está ali com uma função, para ajudar Mogli a crescer e cumprir seu caminho, descobrindo que as coisas que o tornam diferente, sua engenhosidade inata e sua capacidade de usar a "flor vermelha" do fogo, não são necessariamente um mal, e podem ser usados para o bem daqueles que ama.
Embalando uma mensagem de coexistência pacífica entre o homem e a natureza em um espetáculo de efeitos visuais de primeiríssima linha equilibrando ação, aventura, suspense e comédia Mogli: O Menino Lobo encontra seu caminho direto até o coração da audiência graças às sacadas do roteiro de Justin Marks e um trabalho mais do que seguro de Jon Favreau na direção, oferecendo uma roupagem moderna e bela aos escritos centenários de Rudyard Kipling.
Palmas pra eles.
Assista. É um dos melhores filmes do ano.

"-Ele é especial.
-Eu sei que ele é especial. Eu o criei."

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Resenha Cinema: Café Society


O último filme de Woody Allen, Homem Irracional, foi, ao menos pra mim, uma quebra numa boa sequência de filmes do octogenário cineasta.
Eu realmente não gostei do filme, que tinha um elenco de primeira, com Emma Stone e Joaquin Phoenix, mas contou uma história aborrecida e mal ajambrada.
Cheguei a brincar quando escrevi sobre o filme, que Homem Irracional era o tipo de filme que dificultava minha vida na hora de defender Allen nas rodas de conversa sobre cinema.
Não que Allen precise da minha humilde defesa.
Seus eventuais tropeços são perfeitamente desculpáveis considerando a excelência de seus numerosos acertos, e acho que o próprio Allen reconhece que seu cinema, infelizmente, não é pra todo mundo.
Porém, eu sou um dos fãs do diretor de Neblina e Sombras, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, e Tudo Pode Dar Certo, de modo que ontem, junto com outras dez testemunhas estava a postos para a estréia de Café Society, nova empreitada de Allen.
No longa, que abre em uma suntuosa mansão hollywoodiana recebendo uma elegante festa na piscina, conhecemos Phil Stern (Steve Carell), um próspero homem de negócios que atua como agente das mais requisitadas estrelas da Hollywood dos anos 1930.
Phil recebe a ligação de sua irmã Rose Dorfman (Jeannie Berlin), Rose, que mora em Nova York, e lhe pede que ajude seu filho caçula, Bobby a se instalar em Los Angeles, talvez lhe conseguir um emprego.
Bobby (Jesse Eisenberg) é um jovem cheio de energia mas que realmente não sabe o que quer fazer da vida. Seu tio Phil, um homem importante, está sempre muito ocupado, ou talvez desinteressado, para recebê-lo, de modo que leva mais de uma semana para que o executivo possa encontrar uma brecha em sua agenda para o jovem.
Quando isso finalmente ocorre, Bobby se torna um office boy particular para Phil, que , para ajudar o sobrinho torna sua secretária, Vonnie (Kristen Stewart), responsável por ajudá-lo a se aclimatar à vida na Califórnia.
Conhecendo as mansões de astros como Barbara Stanwick, passeando pelas praias de Malibu e frequentando botecos mexicanos não tarda para que Bobby se apaixone por Vonnie, que, para seu azar, tem um namorado a quem ama muito mas que não vê com frequência.
Bobby não desiste, porém, e consegue se tornar amigo de Vonnie, e, com mais tempo, e alguma sorte, seu namorado, ao menos até o antigo namorado voltar à cena complicando de vez a vida do rapaz.
Quando Bobby volta à Nova York para trabalhar com o irmão Ben (Corey Stoll, que novamente faz um ótimo trabalho com pouco tempo em cena com fizera vivendo Ernest Hemingway em Meia-Noite em Paris), um truculento gângster judeu, Bobby agora vacinado quanto às mazelas da vida numa cidade "movida a ego" e com amigos como a agente de modelos Rad Taylor (Parker Posey) e seu marido Steve (Paul Schneider), conhece Veronica (Blake Lively), e logo forma uma vida com ela.
Enquanto lida com os problemas de administrar um night clube e lida com o irmão, a mãe, o pai (Ken Stott, o Balin de O Hobbit, ótimo), a irmã mais velha Evelyn (Sari Lennick) e o cunhado acadêmico Leonard (Stephen Kinken) e cresce se tornando um homem mais responsável e seguro, Bobby balança quando Vonnie ressurge em sua vida, e ele se pergunta o que fazer...
De novo... Woody Allen não é cinema para todos os gostos, e na comparação com os maiores acertos de sua filmografia, mesmo longas como Magia ao Luar e este Café Society são realizações menores, ainda assim, o longa é repleto de qualidades, a começar pelo elenco.
Eisenberg, violenta e merecidamente enxovalhado pela crítica após seu Lex Luthor em Batman V Superman faz um ótimo trabalho como o dublê de Allen em cena.
Seus trejeitos e maneirismos simplesmente casam com o que esperamos do judeu nova yorkino neurótico e niilista dos filmes de Allen, as ele consegue oferecer espectro emocional e uma segurança que são todos seus. Steve Carell manda muito bem como o próspero executivo que conseguiu tudo na vida, enquanto Corey Stoll interpreta um tipo de bandido charmoso e divertido que merecia mais tempo em cena.
Jeannie Berlin e Ken Stott têm ao menos uma cena brilhante no filme, quando discutem religião ates de dormir, uma sequência que é, fácil, o momento mais engraçado do filme e talvez o único que arranque gargalhadas.
Quem também faz um ótimo trabalho é Blake Lively. A loira tem uma participação reduzida no longa, mas rouba todas as cenas em que aparece trabalhando com um roteiro econômico que se esforça para tornar humano. A mulher é puro glamour e faz Kristen Stewart simplesmente desaparecer, tornando a frase de Phil, de que "em questões do coração, as pessoas fazem tolices", simplesmente obrigatória para justificar a dúvida de Bobby entre Vonnie e Veronica.
Outro acerto é a linda fotografia de Vittorio Storaro, que torna o que é o primeiro filme de Woody Allen filmado em formato digital uma obra de arte dourada.
A despeito da natureza episódica do roteiro, que oferece um ritmo ágil ao longa de econômicos 96 minutos, mas ao mesmo tempo torna todo o conflito e drama contido na trama de crime, amor não-correspondido e traição algo superficial, o filme agrada, e quando sobem os créditos, é impossível não se admitir que a experiência foi divertida, ainda que nada memorável.
Para um realizador menor, não seria problema, para Woody Allen, é quase um tropeço.
Tentamos de novo ano que vem, Woody.

"-A vida é uma comédia, escrita por um sádico escritor de comédias."

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Celeuma Besta


Vem rolando ao longo dos últimos dias uma celeuma na internet.
Como a maioria das celeumas da internet é algo absolutamente sem importância que ganhou proporção nas pontas dos dedos de uma geração que vive pra redes sociais e nada além disso.
De qualquer forma, o ponto de discórdia atual diz respeito ao novo filme do Homem-Aranha, Spider-Man: Homecoming, que estréia no ano que vem.
Uma suposta lista vazada de personagens do longa deu conta de que a cantora e atriz Zendaya Coleman seria a Mary Jane no filme do herói.
A despeito de uma lista semelhante jurar de pés juntos que Jena Malone interpretaria a Oráculo em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, e já ter sido divulgado que Zendaya interpretaria uma personagem chamada Michelle, que poderia aludir à personagem dos quadrinhos Michelle Rodriguez, muita gente chiou.
A Internet virou um vespeiro de gente maldizendo a produção e condenando o filme a nascer morto por tal heresia.
O griteiro foi tão grande que Stan Lee, criador da personagem e James Gunn, diretor e roteirista de Guardiões da Galáxia foram às redes sociais defender a atriz a despeito de a Marvel não ter admitido que personagem Zendaya vive no filme.
Stan Lee disse que se a jovem é uma boa atriz, então está tudo resolvido, enquanto James Gunn foi mais longe.
O cineasta disse que, se a única coisa memorável a respeito de uma personagem é a cor de seu cabelo, então esse deve ser um personagem muito chato.
Eu concordo em partes com Gunn.
Conforme eu escrevi quando Jamie Foxx foi escalado para o papel de Electro em O Espetacular Homem-Aranha 2, eu não vejo a etnia de um ator como um empecilho, embora essa seja uma modinha que eu não veja com bons olhos.
E eu repito o que disse à época: E se fosse o oposto, e mudassem a etnia de um personagem negro?
Se escalassem um ator branco para interpretar Alex Cross, Othelo, ou Luke Cage?
Obviamente que um personagem é muito mais do que a cor de seus cabelos ou de sua pele. Nós vimos Michael B. Jordan fazer um Tocha Humana perfeitamente reconhecível em Quarteto Fant4stico, e que provavelmente teria sido muito bacana em um filme melhor, ainda assim a caracterização de um personagem é importante, outrossim porque é que Dave Bautista e Zoë Saldaña estavam pintados de verde em Guardiões da Galáxia? Porque é que Chris Evans e Henry Cavill malham feito alucinados pra viver Capitão América e Superman? Porque é que o falecido Phillip Seymour Hoffman jamais foi cotado para interpretar o Batman? Por que Robert Downey Jr. cultivou um cavanhaque em Homem de Ferro e Hugh Jackman as costeletas do Wolverine? Porque é que Mark Ruffalo usa aquele infame traje de captura de movimento em Os Vingadores?
A caracterização importa...
Eu não conheço as habilidades dramáticas de Zendaya. Nunca vi nada com ela. Mas vendo suas fotos no set de filmagens, ela não tem nada de Mary Jane, a party girl espevitada e namoradeira que foi a ponta menos preferida de um longevo triângulo amoroso com Peter e Gwen e que brilhava em passarelas e novelas.
Não tem nada a ver com a cor da pele ou dos cabelos dela, que é muito bonita e poderia ser uma Mary Jane muito apaixonante, com a caracterização certa:


Ainda assim, eu acredito que Zendaya não deverá interpretar a MJ por um motivo que vai muito além da etnia da atriz ou da personagem:
Segundo Kevin Feige, a jornada desse novo Homem-Aranha será de crescimento e amadurecimento, e uma das mais duras lições que aprendemos conforme ficamos mais velhos é a de que a imensa maioria de nós, simplesmente não termina com seu primeiro amor.