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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Resenha DVD: UP - Altas Aventuras


Eu não gosto de animações.

Não gosto, não sei explicar, mas elas não me agradam, assim como filmes de terror. Os filmes de terror pontuaram a minha infância, eu adorava Freddie Kruegger e Jason Vorhees quando era moleque, mas com o tempo (E o desenvolvimento de um senso crítico.) aprendi á apreciar mais em um filme do que a contagem de corpos e de litros de sangue cenográfico.

Mas não gosto de animações. Quem não me conhece poderia dizer que eu sou chato, quem me conhece poderia dizer que sou chato pra cacete, enfim, não gosto de animações. Vi Shrek quando passou na TV á cabo e não achei tudo isso, não curti Toy Story, nem Carros, achei As Bicicletas de Belleville chato demais e A Viagem de Chihiro me deu sono, e nem Wall-E me cativou como á toda a crítica.

Quando fui convidado para assistir UP, eu não estava exatamente empolgado, mas como todos iriam eu resolvi acompanhar a galera, também estava curioso pra ver o cinema 3-D, que á época eu não conhecia.

Então, pra deixar claro, eu, que não gosto de animações, mas alguns meses após assistir UP no cinemas, eu aluguei ele e assisti novamente nesse final de semana.

Up conta a história de Carl Fredricksen, ele é apresentado ainda menino, vibrando no cinema com as aventuras de Charles Muntz, explorador e aventureiro que, acompanhado de seus cachorros treinados em seu zepelin, o Espírito de Aventura, desbrava regiões remotas do mundo. Carl está deslumbrado pensando nas aventuras de Muntz quando conhece Ellie, a menina, também fã de Muntz, que sonha em conhecer o Paraíso das Cachoeiras e imediatamente cativa o guri. Daí pra frente, em uma sequência sem diálogos, vemos Carl e Ellie casando, montando sua casa, trabalhando, ela na ala Sul-Americana do Zoológico, Carl vendendo balões, a decisão de ter um filho, impedida pela infertilidade do casal, a vontade de viajar para a América do Sul, onde Ellie sonhava em viver sendo adiada pelas mazelas da vida cotidiana até Ellie, pouco antes de Carl resolver surpreendê-la com uma viagem á Venezuela, adoecer, e morrer.

Tudo isso mostrado de forma doce, mas sem meias palavras, eu uma sequência excelente de menos de dez minutos, talvez aí repouse um trunfo de UP, jamais tratar a audiência como idiota, um problema recorrente em animações e filmes voltados para platéias jovens de modo geral, mas não UP.

Logo depois, vemos Carl, solitário, meio rabugento, sob as vistas gananciosas de uma corporação que quer comprar sua casa para construir um complexo de arranha-céus, até que, num momento de descuido, ele fere um trabalhador da obra, é intimado e sentenciado á morar em um asilo.

Inconformado ele manda a prudência lá pra casa do Capita, prende milhares de balões na casa que dividia com Ellie e resolve navegá-la até o Paraíso das Cachoeiras para viver onde a esposa queria.

É quando entra em cena Russel, o moleque escoteiro que precisava ajudar um idoso para ganhar o último emblema que falta á sua coleção, e se escondeu na varanda de Carl, inadvertidamente o acompanhando em sua jornada.

Logo somos apresentados á vários personagens memoráveis, como a enorme ave Kevin, Dug, o cão falante (Mas não um desses cães falantes de desenhos tradicionais, quando Dug fala nós temos certeza de ouvir o que um cão diria se falasse nossa língua.), e Muntz e sua matilha.

UP é, além de divertido, tecnicamente impecável, e tocante e corajoso (Quem teria a ousadia de produzir um filme onde o personagem principal é um velhinho de 78 anos?), acima de tudo um filmaço, um dos quatro filmaços que vi nesse ano (Os outros foram Gran Torino, Bastardos Inglórios e Distrito 9.), e deve ser assistido, não importa se você tem 10, 20, 30 ou 90 anos.

Ah, se for alugar, assista a versão dublada, embora hajam nomes reconhecidos no elenco de dubladores originais em inglês, a versão em português lembra os bons tempos em que a dublagem brasileira era sempre excelente, e Chico Anysio dá show no papel de Carl.


"Eu me escondi embaixo da sua varanda por que eu te amo."

Resenha DVD: O Exterminador do Futuro - A Salvação.


Nesse final de semana, como já tinha dito, resolvi rever filmes em DVD, Star Trek foi o primeiro, agora vamos falar do segundo: Exterminador do Futuro - A Salvação, o T-4.

Todo mundo sabe que os dois primeiros filmes da série cinematográfica são excepcionais. O primeiro um misto de ação e suspense onde a delicada Sarah Connor interpretada por Linda Hamilton (Com um corte de cabelo tenebroso.) é ameaçada pelo andróide assassino vindo do futuro, encarnado com perfeição por Arnold Schwarzennegger enquanto é protegida por outro viajante do tempo, Kyle Reese (Michael Biehn.), que explica que o andróide T-800 veio do futuro para matá-la, impedindo-a de dar á luz John Connor, futuro líder da resistência humana na guerra contra as máquinas da Skynet.

O segundo é o filme de ação definitivo, com Schwarzennegger repetindo o papel do andróide T-800, mas agora protegendo o jovem John Connor (Edward Furlong.) e Linda Hamilton (Já não mais a mocinha delicada do primeiro filme, e evocando um aura neurótica de veterano do Vietnã.), alvo de um modelo mais avançado de andróide, o T-1000 interpretado por Robert Patrick.

Então tivemos um terceiro filme, Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas, na fita John Connor já é um jovem adulto (Nick Stahl), sua mãe, Sarah, está morta, e a ameaça da Skynet foi neutralizada. Ou não. Um novo tipo de exterminador, a T-X interpretada por Kristanna Loken, vem do futuro para eliminar os futuros líderes da rebelião humana enquanto um novo T-800, interpretado novamente pelo Governator Schwarza, retorna para proteger Connor e sua futura esposa, Kate Brewster (Claire Danes.). Á despeito do avanço técnico que permitiu efeitos especiais sensacionais no longa, o filme, apesar de movimentado e divertido usa demais um tom de comédia, criando um resultado irregular, logo não era consenso entre os fãs que um quarto longa devesse existir, por vários motivos.

James Cameron saltara fora da série, entregue á Linda Hamilton no divórcio do casal, á tempos, Schwarzennegger agora se dedicava á vida política no governo da Califórnia, o terceiro filme, de Jonathan Mostow, não chegou á empolgar a crítica e o público, e havia uma (Bacana) série de TV esculhambando a já complexa cronologia da série de cinema, além disso houve um imbróglio envolvendo os direitos da produção.

Mas os executivos de Hollywood não resistem á uma fórmula consagrada, e resolveram mandar tudo lá pra casa do Capita e investir 200 milhões de dólares em uma continuidade pra série, mesmo sem Schwarza.

O diretor McG, dos lastimáveis As Panteras e As Panteras Detonando ficou a cargo do serviço e eis que temos T-4:

O filme se passa em 2018, a guerra entre humanos e máquinas é lutada em um mundo devastado pelos ataques nucleares da Skynet, e John Connor (Christian Bale) se vê entre o papel de messias e de pirado.

Ao mesmo tempo, um homem (Sam Worthington.) acorda 15 anos depois de doar seu corpo á ciência e ser executado na prisão, seu nome é Marcus Wright, e ele não sabe o que aconteceu durante o tempo em que esteve hibernando.

Os caminhos de ambos seguem paralelos enquanto os planos da resistência humana para implementar um ataque total á Skynet esbarram no paradoxo enfrentado por Bale:
Seu futuro pai, Kyle Reese (Anton Yelchin), foi aprisionado pela Skynet, e o ataque á base das máquinas pode significar a morte de Reese e a inexistência de Connor, único homem que pode liderar os humanos á vitória.

Pra não entregar nenhuma surpresa para quem não viu o filme, Connor, mesmo sem confiar em Marcus é obrigado á trabalhar com ele para libertar Reese e garantir que a história para a qual Sarah o preparou venha á existir.

O resultado é interessante, o John Connor de Christian Bale é um personagem carregado, lembra bastante a Sarah do segundo longa, o que é bacana e reflete sua criação, Anton Yelchin evoca com competência o Reese vivido por Michael Biehn em 84, e Marcus Wright é um personagem bem maneiro, a ação e os efeitos especiais são ótimos, e, no geral, com certeza é melhor do que o longa anterior, que basicamente repetia a fórmula de T-2 com mais efeitos visuais, o filme, porém não foi bem de bilheterias, faturando 371 milhões de dólares no mundo, o que , para o bem ou para o mal, deve fazer com que demore até vermos Connor, exterminadores e a Skynet nas telonas de novo.

Enfim, o filme certamente vale os cinco pilas da locação e as duas horas de atenção, não vai machucar ninguém e é uma experiência divertida.


"Eu sou John Connor. Se você pode me ouvir, você é a resistência."

sábado, 5 de dezembro de 2009

Resenha DVD: Star-Trek, Jornada nas Estrelas



Ontem resolvi rever filmes, fui á locadora e catei logo dois que havia visto no cinema, colei a bunda no sofá e pressionei play pra ver, primeiro, Star Trek
A reinvenção da segunda franquia espacial mais importante do cinema (Sejamos francos, por mais maneiros que fosse, Star Trek jamais teve o alcance de Star Wars, a Força não estava com eles.) pelas mãos do produtor e diretor J. J. Abrams, das séries Felicity e Lost, e de Missão Impossível 3.
O próprio Abrams afirmou que não era um grande fã de Star Trek na juventude, que gostava mais da "outra" saga espacial, por isso titubeou em aceitar a oferta de revitalizar a franquia que é uma religião pra uma imensa comunidade mundo afora.
Mas, para felicidade geral dos amantes de bom entretenimento, ele aceitou, e o resultado final é bem maneiro.
O elenco jovem é encabeçado por Chris Pine, que vive o capitão James T. Kirk e Zachary Quinto, que vive o primeiro oficial Spock.
Se a caracterização do primeiro é perfeita, afinal Chris Pine, como William Shatner, evoca uma aura mezzo brega, mezzo cool, ele tem aquele tipo caipira que se acha, passa por bobalhão, mas tem sacadas muito legais, e um carisma inegável.
O segundo, por outro lado, não tem a mesma sorte, o meio vulcano Spock de Quinto carece da elegância e da sutileza que Leonard Nimoy esbanjava. Quinto interpreta um personagem muito diferente do original, que, ao invés de um sensível conflito interno entre as naturezas humana e vulcana (Ainda me lembro de, moleque, ficar surpreso quando Spock, em um episódio da série clássica mostrava entusiasmo com o retorno de um supostamente morto Kirk.) vive uma guerra aberta entre ambas as faces de sua persona, ora mandando tudo lá pra casa do Capita e tendo explosões e rompantes de ira, ora sendo lógico e racional. Não deixa de ser interessante, mas não é Spock, e empalidece ainda mais quando o cândido intérprete vulcano original surge em cena.
O restante da tripulação está maneiraço, meus personagens preferidos, o doutor Leonard "Bones" MacCoy interpetado pelo "Éomer" Karl Urban tem a mesma aura rabugenta e rebelde que DeForest Kelley emanava com maestria, e o alferes Pavel Chekov, interpretado por um russo de verdade, Anton Yelchin, ganha mais estofo que a versão de Walter Koening, há ainda a Uhura da graciosa Zoe Saldaña, o Hikaru Sulu de John Cho, o Montgomery Scott do impagável Simon Pegg (Com o sotaque escocês mais maneiro do cinema desde o Shrek de Mike Mayers.) e o capitão Christopher Pike de Bruce Greenwood.
O filme mostra, em uma sequência espetacular e emocionante, o primeiro encontro da Frota Estelar com vilão romulano Nero, interpretado por um Eric Bana gritão no piloto automático (mas enfim, o único bom vilão de Star Trek, na minha opinião, é o Khan.), depois parte para o futuro, mostrando flashes da infância de Kirk e de Spock, até apresentar o personagem central, já um jovem adulto, e sua afiliação à Frota Estelar sugerida pelo capitão Pike, a entrada clandestina na Enterprise após trapacear no teste Kobayashi Maru (Olha a Ira de Khan aí, gente.), sua antipatia inicial por Spock, e a formação da equipe.
O filme é movimentado e distrai, há ainda o cuidado em não desagradar os trekkies (Afinal, ninguém quer pessoas com orelhas pontudas e blusas da Frota na porta de Abrams com Teasers ajustados para matar.), pois o filme não reconta a gênese da tripulação da Enterprise, mas, sim, dá um início alternativo, e paralelo ao da série de TV e cinema graças ás idas e vindas temporais do vingativo Nero.
Enfim, vida longa e próspera para a nova franquia, ela é divertida, tem um elenco cativante e tudo pra vingar.


"...Indo corajosamente, onde homem algum jamais esteve..."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Astonishing X-Men, a redenção de Ciclope.



Vamos falar de quadrinhos, afinal, é uma das coisas sobre as quais falamos na casa do Capita.
Ontem li um post da Hipólita a respeito do Ciclope no blog Garota dos Quadrinhos, então reli o encadernado Surpreendentes X-Men, compilação das primeiras doze edições da dupla Joss Whedon e John Cassaday à frente do título mutante (e um achado pra qualquer fã de quadrinhos) e resolvi trazer meu testemunho sobre o gibi, e sobre o personagem.
Os Surpreendentes X-Men é, provavelmente, a melhor série com um X na frente do título desde que Claremont e Byrne romperam sua parceria.
Todos os elementos que fizeram do mutantes da Marvel o sucesso que eles são hoje em várias mídias foram resgatados nesses gibis, está lá a ação vertiginosa, o destino da raça mutante nas mãos do super-grupo, as brigas e discussões entre os membros, viagens no espaço, e aquela pieguice meio folhetinesca que dá ao gibi um pouco mais de estofo no quesito coração.
A história do primeiro arco não precisa ser relembrada, ela até virou base (de forma meio porca.) pro filme X-Men 3, mas trata-se da ideia de uma cura mutante, no gibi "patrocinada" por um agente alienígena, e que coloca os X-Men em rota de colisão com a indústria farmacêutica que produz a fórmula, com Ord, o tal alien, e até alguns membros contra os outros, história bacana e que fica melhor ao vermos a excelente caracterização que Joss Whedon, roteirista egresso do cinema (Serenity - A Luta Pelo Amanhã) e principalmente da TV (Buffy - A Caça Vampiros, Angel, Dollhouse.) deu a cada um dos personagens lado a lado com o genial desenhista John Cassaday (De Planetary e Capitão-América.).
Kitty Pryde, a Lince-Negra, que na primeira edição retorna a equipe após alguns anos fora, fazendo parte do supertime de heróis britânicos X-Calibur, aparece mais madura do que a pentelhinha nervosa de suas primeiras participações na equipe, mas segue sendo esperta, compreensiva, a garota dos sonhos de qualquer nerd, e fazendo um papel muito maneiro, o de quem conhecia os X-Men, mas precisa redescobri-los nessa nova fase, entender a nova dinâmica da equipe e das relações entre os personagens e do super-grupo de heróis com a Escola Xavier, é muito legal ter uma personagem fazendo esse papel, já que muitos leitores, a exemplo de mim, estavam afastados dos mutantes há algum tempo (no meu caso, desde a fase Claremont/Lee, nos anos noventa.).
Kitty tem rusgas com Emma Frost, a Rainha Branca, que surge como um fetiche quente/frio, não permitindo que Kitty (e os leitores) saibam se ela está sendo irônica, sarcástica, ou se está apenas exercitando um pouco da maldade que deixou pra trás ao se unir á equipe. Henry "Hank" MacCoy, o Fera, é uma vítima da própria genialidade, lutando contra sua natureza, cada vez mais bestial após suas mutações secundárias e experiências, um homem abraçando a lógica e a razão numa dicotomia que ás vezes chega a emocionar.
Logan, o Wolverine, preferido de sete em dez X-Fãs, está lá, pronto pra briga, destilando seu humor cáustico, mandando o politicamente correto lá pra casa do Capita, rasgando tudo e todos e sendo o melhor no que faz, que é ser um coadjuvante excelente, aliás, parabéns para Whedon, que entendeu isso, e soube dosar o Wolverine na série, dando-lhe momentos de brilho sem precisar fazer dele um protagonista obrigatório.
E, finalmente, Scott Summers, o Ciclope, líder da equipe, meu X-personagem favorito que encontra redenção nas páginas de Whedon.
O sub-aproveitado Scott "Slim" Summers finalmente ganha uma encarnação à altura, se no cinema, nos dois primeiros filmes ele foi um mero coadjuvante e no terceiro foi relegado a coadjuvante que morre nos primeiros minutos de projeção, em Surpreendentes X-Men ele assume o posto de líder máximo do supergrupo mais numeroso e poderoso da terra sem deixar margem para nenhuma dúvida de sua capacidade de fazê-lo.
Joss Whedon o retrata como uma pessoa insegura, cheia de grilos traumas, mas que, como um autêntico herói, supera todos os seus problemas pessoais para proteger seus amigos e sua raça, guiando os X-Men com perícia e autoridade (Quando ele "informa" aos companheiros que aqueles são o grupo que ele escolheu e era isso, fica claro como os membros do time o respeitam.) pelo tortuoso caminho rumo ao sonho de Xavier.
O herói preso atrás dos óculos de quartzo-rubi, uma espécie de coroinha para os fãs do rebelde Wolverine, vai amadurecendo ao longo das edições, sendo forçado por Emma Frost a encarar suas limitações, sua inveja de Logan, e o ciúme da falecida Jean Grey, até se tornar um líder importante o suficiente para proferir a famosa frase "A mim, meus X-Men.", numa página de encher os olhos num plot twist de fazer neguinho arfar de empolgação.
É, sem sombra de dúvida, uma série que merece ser lida, nem que seja pra aqueles que nunca leram um quadrinho dos mutantes na vida e queiram uma ideia de por que eles fazem tanto sucesso.
Surpreendentes X-Men é a quintessência do que são os X-Men.

"Hank é o mais articulado de nós, mas tudo o que as pessoas veem é uma fera. Emma é uma ex-vilã, Wolverine um selvagem. Eu? Eu posso liderar uma equipe, mas não olho ninguém nos olhos desde os quinze anos."

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Na descida da General Auto



Ah, Melissa... Não a sandália, que por sinal acho muito feia, Melissa, a vizinha, a doce vizinha, a vizinha que povoava os sonhos de todos os guris do prédio nos nossos doze, treze anos de idade.
Melissa era muito bonita, os cabelos castanhos ondulados emoldurando um rosto com um par de olhos algo felinos, o corpo esguio, atlético, mas era muito mais que isso, a Melissa era mais velha que a gurizada, devia ter uns quinze anos, pelo menos, era dona de um estilo meio grunge numa época em que os estilos demoravam um pouco mais de 24 horas pra desembarcar por aqui via modem, até por que, naqueles dias, quase ninguém do nosso convívio sabia o que diabos era um modem.
Ela usava jeans preto, e ninguém da nossa turma tinha jeans preto, ela também usava blusas de moletom largas sempre preta, azul-marinho, ou cinza, e usava coturnos de cano alto, canos altos para dentro dos quais enfiava a barra da calça jeans preta.
A Melissa, ao contrário das outras gurias da idade dela, que passavam pelo nosso grupo olhando através de nós, como se não existíssemos, nos dava "oi.", ás vezes parava e conversava conosco, uma vez, pasmem, ela jogou uma partida de taco com a gurizada, e mandou a bolinha lá pra Casa do Capita quando rebateu.
Claro, ela usou um ardil feminino, quando o Karlo, o moleque com cara de Michael Schumacher se preparava pra arremessar a bolinha ela pediu com a voz doce:
-Toca ela rasteirinha que eu mando longe.
O incauto Karlo, querendo se aproveitar da inocência esboçada pela jovem, arremessou a bola pipocando pela calçada, uma tolice, Melissa se inclinou, deixando seu torso paralelo à rua, ergueu os quadris, e, com um suingue certeiro, acertou a bolinha já rindo.
Karlo, ouvindo os xingões de seu parceiro, Wagner, o loiríssimo filho do Alemão do açougue, saiu correndo esbaforido atrás da bola, com pelo menos meio quarteirão de vantagem.
Eu?
Eu era o mais que feliz colega de taco da Melissa.
Nós fizemos a contagem de pontos caminhando de maneira zombeteira, e, ao chegarmos em cem, número de pontos que decretava a vitória, ensaiamos uma breve coreografia como se esgrimássemos antes de cruzar os tacos, eu fiquei tão contente que nem sequer tomei conhecimento dos comentários maldosos (Embora plenamente fundamentados.) de que não foi mérito, mas apenas sorte, que me fez ganhar aquele jogo ao lado da bela Melissa.
Melissa era nossa musa, tinha piá na nossa pequena galera que queria casar com ela.
Eu tinha a sorte de estudar na mesma sala de aula que ela no Colégio Paula Soares, ela estava um ano atrasada, eu, um ano adiantado, e esse feliz acaso me colocava sentado logo atrás dela durante toda a manhã.
Eu, que também sou filho de Deus, era apaixonado por ela como todos os fedelhos da rua, mas mantinha meu amor platônico, e acho que isso a agradava.
Não exatamente a coisa de "amor platônico", mas o fato de eu não a idolatrar abertamente (embora o fizesse em particular.), isso a levava a conversar comigo, trocar frases em inglês, que ninguém mais na nossa sala conhecia, e, pra mim o ponto alto da nossa relação, quando, ao final da aula, ela descia de braços dados comigo a General Auto, do Paula Soares até a esquina com a Fernando Machado, onde nossos caminhos se separavam.
Durante todo aquele ano eu fui o guri de apartamento mais feliz do Centro de Porto Alegre e arredores, mas isso acabou quando, num dia ensolarado de verão, após um desencontro com a minha musa, a vi aos beijos com um sujeito (Nas minhas palavras à época.) super velho, de uns trinta anos.
Descobriria mais tarde o nome do sujeito, em confidência da própria facínora que me arrancou o coração, o qual nem sequer fiz questão de lembrar, e o apelido pelo qual ela o chamava:
Cocada.
Durante um período de um ano, adquiri uma aversão patológica à cocada, o doce, talvez por isso ainda lembre. Por isso e por se tratar do co-protagonista da minha primeira, e acho que única, decepção amorosa.
Enfim, eu passei de ano e fui para uma turma, Melissa foi pra outra e perdemos contato. Anos se passaram e toda a vez que eu subia ou descia a lomba da General Auto que liga a Fernando Machado à Duque de Caxias, eu lembrava com uma melancolia doce daqueles poucos passos que caminhava ao lado da musa da gurizada quase diariamente, outro rosto, outra situação do passado que não volta mais.
Até que, nessa semana, parado na fila do mercado com meu sanduíche de frango e meu suco de laranja, deparei-me com ela, a Melissa em pessoa, não havia mudado nada, continuava bonita como sempre embora, para meu alívio, não fosse mais meio grunge.
O mais bacana?
Ela me reconheceu. Á despeito de hoje, aos vinte e oito anos eu guardar muito poucas semelhanças com aquele moleque de doze anos de idade, ela me reconheceu!
Conversou comigo, repetiu uma das frases em inglês que mais dizíamos, me abraçou na despedida, e mencionou nossos passeios de braços dados lomba abaixo.
Eu abanei quando ela olhou pra trás após alguns passos, ainda enternecido, e me dei conta de que, ás vezes a felicidade, ainda que fugaz, está nas coisas mais singelas.
"-Look at those loosers, Rodycan."
"-No, they disgust me Melissacan."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Brasileirão 2009


Rodada final do Brasileirão 2009, após um certame irregular, Inter e Flamengo, chegam á última rodada como maiores postulantes ao título seguidos de Palmeiras e São Paulo, deveria ser uma rodada emocionante, como foi a antepenúltima e como deveria ter sido a penúltima, mas não será.
Dois dos principais jogos dessa última rodada são entre Internacional e Santo André, no Beira-Rio, e Flamengo e Grêmio no Maracanã, para que o Flamengo, atual líder, não confirme o título, o Internacional deve vencer o Santo André no Beira-Rio, e o Grêmio precisa pontuar contra o rubro-negro.
Eis que o Grêmio, com imenso holofote da mídia, em especial da mídia deste velho pago, alardeia, aos quatro ventos, que poderá, ou não, entregar o jogo para o Flamengo (como já suspeita-se, tenha feito o Corinthians uma rodada antes), visando prejudicar o arqui-rival Internacional. Atletas dão entrevistas com meios sorrisos dizendo o que farão ou deixarão de fazer, torcedores erguem bandeiras e entoam cânticos do adversário da última rodada, abrem web sites e fazem campanhas imaginárias unindo seu escudo ao do Flamengo evocando uma suposta facilitação do Inter contra o São Paulo um ano antes enquanto os seus dirigentes parecem não saber o que fazer, ora armados com a falácia que os caracteriza, ora com o silêncio constrangido de quem não sabe o que fazer com a atenção súbita.
Bem, como torcedor do Internacional, me outorgo o direito de facilitar para os dirigentes, para os atletas e para a torcida do co-irmão:
Eu não quero a ajuda de vocês. Eu prefiro mandar tudo lá pra casa do Capita e afundar nas sombrias raias da segunda-divisão, que o grêmio tão bem conhece, do que depender do Grêmio para erguer uma taça. Eu não quero uma mancha azul maculando um troféu durante uma volta olímpica em vermelho, então entreguem, entreguem como fizeram em 1967 e em 1996.
Digo mais, o Grêmio se traveste de malícia e meias palavras mas esquece-se de um pequeno detalhe:
Nem que quisesse e jogasse com todas as suas forças, como se disputasse uma final de Copa do Mundo ou lutasse pelo proverbial "prato de comida" poderia fazer frente ao Flamengo, pelo simples e inegável fato de que o Grêmio é um time ruim. Um time limitado. Um time tecnicamente pobre que se escora nas defesas de um goleiro que é o único fora-de-série da empobrecida esquadra tricolor.
A diretoria, os jogadores, a torcida podem falar o que quiserem em seu deslumbramento pela atenção da mídia, mas isso não passa, justamente, de deslumbramento pelos holofotes em uma equipe que desde a formação foi nada além de coadjuvante e que subitamente convive com a ilusão de decidir um título.
Então, façam como preferirem, e, por favor, tenham a decência de fazer em silêncio, pois não é o Grêmio quem tira um título do Inter, o Inter perdeu seu título por seus próprios equívocos, e quando ganhar, será por seus próprios méritos como foram todos ao longo desta gloriosa e imaculada história centenária.
Saudações Coloradas.

"Vamo, vamo, Meu Inter, eu te quero e te preciso, nunca paro de cantar, tu és meu melhor amigo..."

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Guarda-Chuva de Elvira.



O sol fustigava as ruas de Porto Alegre como o olho funesto de um deus furioso, e lá estava Elvira andando pela rua, os cabelos castanhos longos, escorridos sobre os ombros dançando com a brisa, o corpo bonito dentro de uma calça jeans nem justa, nem folgada e de uma camisa branca meio amarrotada enquanto seus tênis golpeavam o calçamento da cidade, sob o braço de Elvira se sustentava um guarda-chuva preto de cabo de madeira.


Elvira, bonita, jovem, inteligente, caminhava com um gingado feminino todo natural, não esses rebolados fabricados, apenas um balanço causado pelo formato do corpo de Elvira, que exalava um perfume agradável da nuca, de sob seus cabelos em desalinho, o que destoava da figura de Elvira era aquele guarda-chuva. Era, como já foi mencionado, um dia ensolarado, nem sequer começara com cara de chuva, você sabe, há dias em que você olha pela janela, vê o céu crespo e cinzento e pensa "vai chover.", e, desanimado, apanha o guarda-chuva, veste um casaco, e após andar três quarteirões o sol espicha sua cara amarela e zombeteira por detrás das nuvens e te ilumina como quem diz "trou-xa!". Mas não era o caso de Elvira, quando ela saiu o sol já estava todo pimpão no céu primaveril, ela tampouco ouvira alguma previsão apocalíptica de Cléo Kuhn dizendo com voz anasalada no rádio que o dia começaria bonito, mas depois uma massa de ar polar se chocaria com o ar quente sobre a cidade como os exércitos persas e gregos fazendo o firmamento desabar sobre os incautos porto-alegrenses. Não, nada disso. Elvira sempre, eu disse sempre, fizesse chuva (claro.) ou sol, saía de casa com o guarda-chuva.


Desde a infância sempre que iria sair do aconchego do lar, Elvira empunhava um guarda-chuva. Ela já os colecionava, tinha desde aquelas sombrinhas coloridas e dobráveis até aqueles guarda-chuvões pretos tipo bengala, e era justamente um desses que ela trazia sob o braço fino, eventualmente atraindo o olhar curioso de um transeunte que virasse o pescoço para avaliar se, de costas, ela era tão atraente quanto de frente. De qualquer forma, ali estava Elvira com seu guarda-chuvão, alheia aos olhares que atraia tanto pela beleza quanto pelo inusitado acessório no dia quente e claro.


Havia muito na mente de Elvira, ela recentemente saíra de um relacionamento, ela não gostava dessa palavra, relacionamento, era impessoal, imprecisa, até meio tosca, mas "compromisso" era sério demais, e "namoro" era sério de menos, então, relacionamento. Ela saíra de um relacionamento, um relacionamento relativamente longo, que terminara de forma traumática para ela, e agora aquele Guarda-chuva dava á Elvira uma sensação de proteção, ela queria estar preparada, aquele Guarda-Chuva era um símbolo disso, Elvira se sentiria preparada empunhando o guarda-chuva.


Ela era preparada, afinal, Elvira, como já foi dito, era bonita, era jovem, recém chegara aos trinta anos, e se houve um tempo em que uma mulher de trinta anos já havia dobrado o Cabo-da-Boa-Esperança, Honoré de Balzac já havia desmentido essa bobagem ao permitir que Júlia encontrasse o amor nos braços de Carlos Vandenesse na literatura, então, aos trinta anos, Elvira era, sim, jovem. Ela era inteligente, havia concluído a faculdade e mirava com olhos gulosos por seguir com seus estudos em busca de um doutorado, era competente em seu trabalho como professora de literatura tornando até os livros de Jorge Amado interessantes para seus alunos, enfim, Elvira era um sucesso. Mas ela não se sentia assim.


Elvira se cobrava demais, ela se cobrava por não ter concluído seus estudos mais cedo, se cobrava por não ganhar mais dinheiro, ao mesmo tempo em que se cobrava por estudar demais, por trabalhar demais, por não se dar a chance de se divertir mais. Elvira se cobrava até por falhas que não eram suas. Ela se perguntava se a vida de seu relacionamento teria sido poupada se ela estivesse disposta á trancar os estudos na época e constituir família com Raul, para ela o melhor homem do mundo, se ela houvesse parado de estudar para seguir os passos de sua mãe e cuidar do lar com esmero e afinco, se importando com nada além da criação dos filhos e do bom funcionamento do antro familiar, talvez ela e Raul não tivessem se separado aos gritos de "frígida" e "canalha" após quatro anos de namoro. Namoro, não, "relacionamento".


Ela também se perguntava se, ao invés de ter mandado tudo lá pra casa do Capita e saído pra farrear com as amigas em várias vésperas de provas aos dezesseis anos ela tivesse se empenhado mais nos estudos como demandavam seus pais ela teria concluído a faculdade antes, poupando-se de conhecer o canalha do Raul.


Elvira não fizera nada de errado, ela dera prioridade ao que, então, merecia prioridade, independente das disposições e ansiedades de outros.


Elvira agiu como adolescente na adolescência, e agiu como uma adulta responsável na idade adulta, ela era dedicada ao trabalho, pagava suas contas e estava mais do que vacinada, seus amigos sabiam disso e lhe diziam, mas Elvira, lhes fazia ouvidos moucos, convencida de que deveria ter feito mais aqui, que deveria ter feito menos ali, e embora agisse com correção e tivesse todas as ferramentas pra ser feliz, sempre convivia com o "se", um "se" tolo, inútil e despropositado.


Tão despropositado quanto um guarda-chuva em um dia quente e ensolarado.