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sábado, 13 de março de 2010

Perfeição...


A maldade humana... Ela não conhece nenhum limite, conhece? Talvez, em algum momento, ela tenha conhecido algum, vá saber. Anos atrás, décadas atrás, quem sabe séculos ou milênios atrás, talvez houvesse um limite. Algo que mesmo a mais torpe das pessoas à época se negaria á fazer. Ou pensaria um pouco e diria "Opa, não. Tá demais. Melhor não fazer isso.". Talvez em algum momento houvesse essa delimitação. Essa fronteira entre o que era uma maldade aceitável e o que se caracterizava como uma atitude tão vil que mesmo uma pessoa desprezível, por mais desprezível que fosse, se negaria á tomar, teria um lampejo, talvez não de decência, mas... Sei lá, de lógica, e preferiria não abrir um precedente. Preferiria não realizar aquela atitude tão vil, tão tenebrosa, por que ela abriria um precedente, e tornaria as outras atitudes vis e tenebrosas tomadas até ali, mais palatáveis do que de fato eram.
Hoje não existe isso. Não há um limite, não há uma fronteira ou barreira de torpeza, não existe mais tábua de salvação. Hoje existe uma bandidagem que comete atrocidades das mais medonhas, indizíveis e abjetas sem nenhuma espécie de critério. Não há consciência.
Essa bandidagem involuída gera medo. Gera pânico. Gera pavor.
E o pavor leva, mesmo as ditas boas pessoas á ansiarem por formas duvidosas de proteção de sua segurança. Ou da ilusão de segurança.
Como a pena de morte.
A pena de morte é uma clara e absoluta ânsia de alguma justiça. Uma forma primitiva, ineficaz e até um pouco covarde de justiça. Ou ilusão de justiça.
A simples ideia de punir um assassino com a pena capital é um paradoxo dos mais tolos: Como é que matar uma pessoa repara a morte de outra?
A resposta é ridiculamente simples:
Não repara.
Apenas gera essa falsa sensação de segurança, ou um sentimento um pouco mais baixo, a vingança. Claro, uma vingança com a legitimidade da justiça, mas ainda assim, vingança. E no momento em que um ente querido de uma pessoa assassinada ou seviciada aplaude a morte do vilão que lhe causou a dor da perda, não está ela descendo ao nível do bandido? Eu talvez seja um bobo por crêr nisso, mas tão importante quanto ter justiça, pra mim, é continuar em paz com a minha consciência, é ter a certeza de ser a melhor pessoa, ou ao menos de tentar, de forma consciente, ser a melhor pessoa.
Outro fator importantíssimo é que a pena de morte não torna os países em que é praticada mais seguros, pelo contrário, veja os Estados Unidos, em que a pena capital nem sequer é praticada em todos os estados, e compare com o Canadá, por exemplo. As nações que permanecem utilizando a pena capital são, de modo geral, nações subdesenvolvidas, Estados onde o clero é parte do governo, e onde dissidentes são as grandes vítimas desse homícidio legitimado por governos corruptos e ditatoriais.
Eu entendo o medo das pessoas, compreendo a ânsia por justiça, sou até mesmo capaz de relevar o desejo de vingança do pai ou da mãe de um filho assassinado, ou da esposa de um marido assassinado, eu entendo. Mas jamais vou concordar. Vivemos em um país que está longe da perfeição, em que cada ser humano em um cargo eletivo é um gângster em potencial, e onde a justiça, via de regra, está á serviço de quem paga mais. Se somos parte de um sistema que, sabemos, não é funcional, será que estamos dispostos, em sã consciência, é colocar a vida de outrem em jogo?
Pois a pena de morte é uma faca de dois gumes. Se partimos do princípio de que, quem mata um inocente merece a execução, basta que um inocente seja injustamente condenado para que eu, você, e todos os outros sejamos, também culpados, e estejamos sujeitos á pena capital.
Entre um culpado vivo e um inocente morto, eu, sem pestanejar, escolho a primeira opção. Não é perfeita, mas é mais digna que vingança travestida de justiça.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Tudo bem...


E quem poderia imaginar?
Vitória certamente não poderia. Ela concebia muitas coisas, se considerava preparada pra muita coisa, tinha lâmpadas de reserva para cada cômodo da casa, tinha lanternas, tinha uma resistência de reserva para o chuveiro, na bolsa, além de um espelho, maquiagem e pente portava um pequeno frasco de gás de mostarda. Mas aquela situação, que agora vivenciava, não estava, certamente, entre as coisas que ela imaginara e para as quais se preparava.
Vitória encarou o pedaço de plástico em sua mão e leu as instruções na caixa de papelão sobre a pia do banheiro. Então olhou o relógio de pulso constatando aflita, que ainda faltavam quarenta e três segundos para fechar os três minutos que as instruções impressas na embalagem demandavam.
Ela cantarolou uma música da Legião Urbana enquanto esperava "...E nem o céu é belo e prateado... E o que eu era eu não sou mais, e não tenho nada pra lembrar... Tararãn-raran, raran..." Esqueceu a letra. Olhou o relógio, passaram-se cerca de quinze segundos. Ela tamborilou os dedos dos pés descalços no piso frio do banheiro, segurou os tornozelos com as mãos, sentada no vaso sanitário. Passou as mãos nos cabelos castanhos ondulados, e então lembrou, com uma ponta de nojo, que não lavara as mãos após o procedimento que acabara de realizar.
Lavou-as. Olhou o relógio, já passara o último minuto que estava esperando. Pegou o pedaço de plástico e olhou o espaço branco entre as palavras "Positivo" e "Negativo" escritas á esquerda e á direita da tira de plástico.
Uma linha azul surgiu. Ela engoliu em seco. Uma linha azul surgiu. O teste de gravidez que ela comprara na farmácia na noite anterior dera positivo. Vitória estava grávida. O que ela faria? O que ela faria?
O que diria para Tadeu? Ela o incentivara á consumar o sexo naquela noite de quinta, duas semanas atrás. Ele, ao constatar que não tinha preservativos, desistiu, sorriu amarelo e disse que ficava pra próxima. Vitória não deixou. Disse que estava tudo bem, que tinha pílula. Ele, á princípio, refugou, mas ela o seduziu. Era mulher, era bonita, inteligente, senhora de si. Podia seduzir qualquer homem. Até Tadeu, com seu bom-mocismo ao mesmo tempo encantador e insuportável.
Aqui cabe dizer que Vitória acreditou, de fato, que tivesse a pílula, mas a do dia seguinte. O problema foi que, na manhã seguinte, acordou tarde por causa das atividades de alcova da noite anterior, tinha que entregar um relatório no trabalho, e foi obrigada á correr para o escritório, a ceninha de desconforto com Tadeu antes de saírem não ajudou. Após o trabalho correu feito louca para a faculdade, onde tinha uma prova para fazer e de onde saiu exausta. Passou dormindo a manhã de sábado, e, á tarde, foi fazer compras com a mãe. Á noite saiu com Carol, sua melhor amiga, de modo que só no domingo pela manhã, lembrou-se da pílula. Correu atrás de uma farmácia, e após passar pelas três drogarias mais próximas de sua casa e dar com o nariz na porta, encontrou uma farmácia aberta no shopping, onde comprou a medicação e a tomou apreenssiva.
Horas depois passou mal. Teve dores de cabeça, enjôos, chegou á vomitar. Mas acreditou que tudo fossem efeitos colaterais da violenta fórmula de hormônios que acabara de ingerir.
Os dias passaram e seu ciclo menstrual atrasou, sentia dores nos seios, apavorou-se. Pesquisou na internet e descobriu que vômitos logo após a ingestão da pílula poderiam acarretar a ineficácia do medicamento. A semana seguinte foi de pânico para Vitória. As dores, enjôos e o atraso do ciclo permaneceram, e ela se viu obrigada á comprar um teste de gravidez na farmácia.
Agora ela vislumbrava com pavor a perspectiva de ser mãe aos vinte e dois anos, tendo recém iniciado o estágio probatório em um trabalho cansativo que precisava ser conciliado com a faculdade á todo o vapor, tendo que pagar o aluguel do apartamento e sonhando com um futuro trabalhando como engenheira, que, subitamente, parecia incrivelmente distante. Teria que trancar a faculdade, grávida não teria energia para trabalhar e estudar, tendo que escolher entre as duas atividades parecia bastante óbvio que seria inevitável abandonar a que consumia dinheiro e permanecer naquela que gerava rendimentos ao final de cada mês. Porém, em algum tempo ela estaria com uma barrigona, seus empregadores notariam, ela já teria terminado o período probatório até a barriga começar a aparecer? Seus empregadores poderiam negar-lhe o emprego se ela surgisse grávida na firma? Como ela poderia evitar isso? Abriria mão de uma licença maternidade? Como? Quem alimentaria o bebê?
Vitória cogitou um aborto. Ouvira falar de drogas abortivas. Medicações que, se tomadas, causavam um aborto espontâneo. Não sabia, porém, se poderia confiar em drogas de qualquer espécie após a peça pregada pela pílula do dia seguinte... Riu sozinha no banheiro. Mas o sorriso virou um soluço, e então um pranto. Vitória não faria isso. Jamais faria um aborto. Não faria uma criança, independente do estágio de gestação, pagar com a vida por um erro que fora dela. Voltaria pra casa da mãe. Paciência. Sairia do emprego, continuaria na faculdade enquanto pudesse, teria o bebê. Sua mãe a ajudaria, jamais lhe viraria as costas, e, aos poucos, ela retomaria sua vida. O período parada seria de quê? Um ano e meio? Dois no máximo? Um pequeno revés. Nada de grave. Vitória poderia superar. Era uma mulher bonita, inteligente, senhora de si. Podia superar aquilo.
Contaria á Tadeu. Ele que agisse como preferisse, ela teria o bebê.
Mas, ao parar pra pensar, raciocinou que, conhecendo Tadeu como conhecia, ele assumiria o bebê. A ajudaria como pudesse, se sacrificaria se fosse necessário. Tadeu era assim. Ela gostava tanto dele por isso. Pelo seu bom-mocismo irritante e encantador na mesma medida. Quando o conhecera já notara essa faceta dele. Tadeu era um bom rapaz. Aparentemente escolhera ser um bom rapaz. Á princípio ela imaginou que, talvez, aquele bom comportamento todo fosse uma fachada, uma arma de sedução usada para se aproximar de mulheres. Conhecera homens desprezíveis na vida, não confiava neles. Mas conforme ela e Tadeu se aproximaram e, ao invés de amantes se tornaram amigos, ela foi percebendo que, consciente ou não, o bom-mocismo de Tadeu era uma qualidade sincera. Vitória jamais descobriu se era uma qualidade que demandava esforço de Tadeu ou se era ao natural, mas isso pouco importava, pois era um comportamento coerente, que ele mantinha sob qualquer tempo.
A amizade deles durava anos, mas, para Vitória e seu histórico de namorados desprezíveis, Tadeu e seu bom-mocismo foram ganhando mais e mais brilho, e ela se pegou, se não apaixonada, extremamente atraída por ele. Com isso ela passou á flertar descaradamente com ele sempre que se ancontravam, mas ele jamais cedia á suas investidas. Á ponto de ela se perguntar se ele não entendia o que ela queria dizer ou se apenas fingia-se de desentendido.
Até aquela noite de quinta, em que, no apartamento dela, ela conseguiu extrair de Tadeu mais do que um sorriso tímido, um abraço fraternal e um "até mais" seguido de um beijo estalado e infantil.
Ela se pegou desejando Tadeu e seus cabelos encaracolados e negros, seu sorriso franco e seus trejeitos algo desajeitados. Foi por isso que ignorou o perigo do sexo desprotegido, e não se arrependeu, pois foi diferente do que ela estava acostumada, foi apaixonado, apaixonante, honesto, cúmplice... Pelo menos até a manhã seguinte, quando ele estava sentado aos pés da cama e perguntou à ela como eles ficavam. Aquilo irritou Vitória. A desencantou. E ela disse que ficavam do mesmo jeito, ainda que não fosse o que ela, de fato, queria.
Se despediu sem abraço fraternal, nem beijo estalado, nem com o abraço apaixonado e o beijo caloroso que imaginara antes de adormecer na noite anterior. E agora, após duas semanas sem falar com Tadeu, aquilo.
Estava grávida dele.
Como seriam as coisas? Talvez Tadeu e ela pudesem... Fazer uma limonada daqueles limões? Quem sabe essa situação servisse para mostrar a ambos que eram bons juntos? Que pertenciam um ao outro mais do que apenas como amigos?
Talvez ficassem juntos, quem sabe Tadeu e seu bom-mocismo a pedissem em casamento? Ela aceitaria? Com mil demônios, sim, sim ela aceitaria. Não tinha certeza se era o que ela queria da vida, pelo menos agora, mas, de qualquer forma, gostava de Tadeu, Talvez o amasse. Se ele fosse o homem que ela imaginava, eles seriam felizes juntos, superariam aquele momento de instabilidade inicial e venceriam juntos, Tadeu, ela e o seu bebê. Criariam a criança e formariam uma família. Ela gostaria de passar o resto da vida com Tadeu. Agora, pensando bem, deixando de lado a raiva daquela manhã de sexta, achava que... Não, não achava. Sabia que o amava. Que podia ser feliz com ele, e que podia fazê-lo feliz se ele lhe desse uma chance. Era uma mulher bonita, inteligente, senhora de si, podia fazer um relacionamento com Tadeu funcionar.
Limpou as lágrimas que ainda lhe escorriam pelo rosto avermelhado, e apanhou o telefone, digitou o número de Tadeu e, enquanto o telefone chamava, olhou novamente o teste de gravidez. A linha azul entre as palavras "Positivo" e "Negativo". Então olhou a embalagem do teste, e viu o diagrama ilustrado na caixa, que mostrava como o resultado do teste era apresetado no produto.
O resultado positivo era representado por duas linhas, uma azul, e uma vermelha. O resultado negativo é que era representado por uma linha azul.
Conferiu a tira plática que tinha na mão:
Uma linha azul. Negativo.
Tadeu atendeu o telefone com a voz sonolenta.
Vitória desligou.
Saltou até o armário do banheiro e o abriu, derrubou algumas caixas e encontrou a embalagem da pílula do dia seguinte. Abriu a bula e encontrou os efeitos colaterais. Hipersensibilidade nos seios, enjôo, confusão no cilco menstrual...
Fez outro teste. Aguardou os três minutos. Constatou a linha azul surgir no campo branco da tira plástica.
Não estava grávida. Não precisaria largar a faculdade, nem abandonar o emprego, nem voltar pra casa da mãe ou tentar engrenar um relacionamento com Tadeu... Estava tudo bem.
Vitória deitou-se na cama, cobriu-se com uma colcha tricotada, e abraçou os joelhos.
Estava tudo bem.
O telefone dela tocou. Ela atendeu, era Tadeu. Ele perguntou, algo sem jeito, se ela havia ligado pra ele. Ela mentiu dizendo que não. Ele respondeu com um "Ah.".
Se desculpou. Perguntou o que ela ia fazer de tarde. Ela dise que não sabia. Ele a convidou pra ir ao cinema ver o filme novo do Tom Hanks. Ela disse que ia pensar, mas que ligava pra ele. Se despediram e ela desligou.
Endireitou-se na cama, encarou o teto e sorriu.
Estava tudo bem.

sábado, 6 de março de 2010

As coisas mudam... ?


Ventava muito naquele dia. O tempo estava seco, ainda não era inverno de fato, mas o outono já arrumava suas malas pensando em se refugiar no hemisfério norte por algum tempo, isso talvez explicasse a temperatura baixa. Estava um friozinho que muitos considerariam gostoso, mas o vento, o ventou açoitava as ruas com um chicote gélido de quando em quando, forçando os transeuntes á procurarem abrigo dentro de grossos casacos e blusas. Ainda assim, era um belo dia. O céu, pintado de um azul sonolento mostrava aqui e ali pequenas rajas brancas de nuvens tênues, o sol brilhava com pouco caso no céu, aparentemente não fazendo esforço algum para aquecer o mundo abaixo.
Andando pelas ruas ela sorriu brevemente ao ver um punhado de folhas em tons de laranja, amarelo, vermelho e dourado ser erguido do chão pelo vento apenas para ser derrubado novamente alguns metros adiante. Sorriria novamente após passar por uma janela aberta e ver um gato siamês se espreguiçar. Ela gostava daquilo, de dourado, vermelho, laranja e amarelo, de gatos, de vento e de dias secos e azuis. Eram coisas que a faziam sentir bem, até a carícia do vento frio em seus cabelos lhe trazia uma sensação de paz e acalento.
Mas ela estava dividida. Não dividida... Fizera uma escolha, mas não tinha certeza de ter tomado a decisão correta. Agora, enquanto parava pra pensar, imaginava tudo o que estava abandonando, e em troca de que. E se perguntava se escolhera certo.
Não que fosse voltar atrás, não era mulher de voltar atrás. Acertava e errava pela própria cabeça, sempre tivera um orgulho silêncioso da própria teimosia, e pagara os preços cobrados por ela sem reclamar, pois tinha satisfação de ter feito a si própria.
Claro, quando em vez, se flagrava imaginando como teriam sido as coisas se tivesse feito essa ou aquela escolha. Não podia evitar, ela não era diferente de mim ou de você, também tinha essas dúvidas, quem não as têm?
De toda a sorte, sempre lidara de maneira satisfatória, para os próprios padrões, com essas pequenas reminiscências. Então o que era diferente agora?
Talves o fato de que as coisas iam bem, de que ela estava em uma situação que, se não era ideal, se não era a que sonhava, ao menos era confortável e acolhia, sabe-se lá... Uma perspectiva de crescimento, talvez.
Mas ela escolhera largar isso. Escolhera um reinício. Reinícios são bons, abrem a perspectiva de um novo final, mas como saberemos que final teríamos tido sem o reinício se não permanecermos em um caminho para ver como acabará? Era essa dúvida que a torturava naquele momento. Não estava trocando o certo pelo duvidoso, trocava o menos duvidoso pelo quase desconhecido, o que era uma perspectiva que não a agradava nem um pouco. Por que estava arriscando-se daquela forma?: O que esperevava encontrar? Uma segunda chance? Mas já não tivera uma? Não a estava vivenciando até poucos meses atrás? Queria então uma terceira chance da qual nunca ouvimos falar? Será que não haviam regras contra elas, as terceiras chances? Ela esperava francamente que não.
As coisas pareciam, ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais... Ela gostava dessa perspectiva. Algumas coisas mudam, outras não... Mas será que as coisas que ela gostava não mudariam? Será que as que a incomodavam mudariam? Ela não sabia... Não tinha certeza. Mas não queria voltar atrás.
Ou talvez fosse exatamente o que ela queria.

terça-feira, 2 de março de 2010

As Mulheres Erradas.




Augusto entrou no elevador do hotel, apanhou uma pequena chave do bolso, a encaixou no espaço próprio sob o painel de botões, a girou e apertou o botão onde se liam as letras C e P.
Ele ajeitou cuidadosamente a gravata vermelha que repusava sobre uma camisa branca impecável, e fechou um dos quatro botões do paletó preto imaculado de tão limpo e belíssimamente cortado que usava.
Passou a mão nos cabelos bem penteados e ajeitou os óculos que se equilibravam sobre seu nariz adunco.
Virou de costas para a porta do elevador encarando o espelho que dominava aquela área, viu o próprio reflexo, equilibrou o peso do corpo sobre o pé direito, e então sobre o esquerdo. Passou as costas da mão espalmada pelo ombros removendo uma quase imperceptível partícula branca que o incomodou sobremaneira. Passou a mão pela bochecha constatando que o barbeado da manhã ainda estava em condições embora fossem mais e onze da noite, fez propósito de voltar ao barbeiro no dia seguinte, repetir o barbear e dar uma gorjeta generosa ao sujeito.
Lambeu os dentes verificando se o clareamento que fizera dois meses antes ainda não fora maculado pelo café e pelos cigarros que consumia em quantidade industrial. Pareciam bastante brancos, mas ele não tinha uma base de comparação naquele momento. Apalpou um volume entre o peito e a axila esquerda, e se virou novamente encarando a porta do elevador. Suspirou. Olhou o relógio, marcava onze e dezessete da noite, conferiu o relógio digital no painel do elevador, ele marcava onze e vinte e um. Estava errado, pensou, sentindo uma breve e injustificada sensação de regozijo por ter superado aquele flat caríssimo no tocante ao horário.
Suspirou novamente, bateu o pé no chão duas vezes e observou se podia enxergar o próprio reflexo na superfície do calçado. Não podia. Não se preocupou, sempre encarara esse estigma do brilho dos sapatos como uma licença poética.
Foi quando as luzes dentro do elevador se apagaram, e um solavanco fez o equipamento parar.
Augusto instintivamente se segurou nas paredes com as mãos, ignorando o fato de que se o elevador, de fato, caísse, aquele gesto seria tão útil quanto fogos de artifício embaixo d'água.
Foi até o painel do levador, lembrou-se que no prédio onde sua avó morava quando ele era jovem havia um botão com a legenda campainha, e que, quando aquele botão era pressionado, uma campainha soava como uma trombeta do apocalipse. Ele adorava tocar aquela campainha na infância, o problema é que o zelador do prédio de sua avó não estava em sintonia com as idéias de diversão do, então, pequeno Augusto.
Vasculhou o painel do elevador tentando encontrar algo semelhante ao botão da infância. Havia um abaixo do qual se lia "interfone", o pressionou por um instante sem resposta. Pressionou-o novamente, mantendo o gesto por alguns segundos, entretanto, novamente, não houve nenhum resultado. Associou o interfone á energia elétrica. Não funcionaria se não houvesse luz no edifício.
Procurou seu celular no paletó, retirou o aparelho do bolso interno e tocou na tela, ligando-a. Constatou porém que, embora pudesse usar planilhas, aplicativos, ouvir músicas e ver vídeos, não estava na área de cobertura para o sinal telefônico. Reposicionou o aparelho de volta ao bolso.
Abriu o botão do paletó e, metódicamente, despiu a peça, dobrando-a com cuidado e a pendurando em seguida na barra de metal posicionada sob o espelho do elevador.
Afrouxou o nó da gravata e sentou no chão, apoiando as costas na parede, descansando os braços sobre os joelhos flexionados.
Encarou o elevador sombrio tentando discernir as formas nas quais não prestara atenção ao entrar, mas não conseguiu. Estava escuro demais. Tirou os óculos, fechou as hastes e os colocou no bolso da camisa. Jogou a cabeça pra trás e a escorou na parede, mas imediatamente colocou-a novamente em posição ereta e ajeitou os cabelos.
Olhou para a porta do elevador e suspirou.
Estava cansado. Aquele pequeno imprevisto o lembrara de como estava cansado do trabalho, das viagens, das interações sociais falsas, da vida como a estava vivendo.
Não queria mais fazer aquilo. Era maçante. No início, como em qualquer início, há a sensação de novidade, uma adrenalina intrínseca ao desconhecido e ao aprendizado, mas agora Augusto de tornara um mestre no que fazia. E sabia que o era. Augusto sempre fora vaidoso, sempre tivera orgulho do seu próprio desempenho em tudo que fosse bom. Claro, ele não era bom em tudo. Augusto jamais fora bom com números, por exemplo, ele jamais gostara de matemática, tivera problemas na escola por isso.
As ciências exatas, especialmente matemática, sempre o deixaram sonolento, ele não conseguia se concentrar, prestar atenção em como se faziam as tarefas. Isso o incomodava, mas ele aprendeu á conviver com essa deficiência, aprendeu á conviver com todas as suas deficiências. Não era bom com as palavras. Não que não tivesse um bom vocabulário, possuia um bom vernáculo, porém, não conseguia se expressar na frente das pessoas, começava uma frase, e, na metade, imaginava que poderia tê-la começado melhor, então, terminava a que começara de qualquer jeito, e iniciava outra, querendo dizer a mesmíssima coisa, mas com outras palavras. Posto isso, Augusto não era de falar muito.
Era educado, polido, genitl, ás vezes em excesso, levava consigo a máxima de tratar as pessoas como gostaria de ser tratado, ás pessoas por vezes, confundiam isso com fraqueza. O destratavam. Augusto, no início, detestava isso, suava de ódio. Rangia os dentes. Apertava as mãos.
Com o tempo passou á desprezar todas as pessoas. Todas, sem exceção. As encarava como vermes. Menos que vermes. Passou á ver todos como ferramentas. Como meios para um fim. Isso foi de encontro á carreira que escolheu.
Na verdade, ele não escolheu sua carreira, a carreira acabou escolhendo á Augusto.
Foi por acaso.
Na adolescência Augusto tinha amigos que usavam drogas ilegais. Augusto jamais usou. Augusto não fumava, não bebia, e não usava drogas. Andava com aqueles jovens independente do fato de eles usarem drogas, gostava deles, e não se importava com o fato de, eventualmente, eles estarem drogados.
Numa ocasião, o traficante local mandou um cobrador "conversar" com um dos amigos de Augusto.
O sujeito foi, obviamente, bruto com o amigo de Augusto. Augusto, naquela época ainda era dado a arroubos de ira. Se atracou com o valentão, e arrebentou-lhe a cara de pancadas, parando apenas ao ser contido por seis pessoas.
O traficante ficou sabendo, mas ao invés de mandar alguém atacar Augusto, entrou em contato com ele. Queria lhe oferecer um trabalho.
Augusto não acreditou. Mas o sujeito insistiu, mandou dinheiro pra Augusto por um dos seus amigos, casualmente o mesmo que fora atacado pelo cobrador e seguia frequentando a mesma boca de fumo. Se Augusto não quisesse, não precisava ter nenhum contato com Cabelo, o traficante, receberia trabalhos e pagamentos á distância.
Augusto recebeu duzentos reais, e um endereço com uma única recomendação escrita á mão com caligrafia apressada e ignorando a gramática:
"Desse a porrada."
Augusto tinha dezesseis anos, duzentos reais significavam um tremendo conforto para seu final de semana adolescente.
Foi até o endereço, uma vila com casas velhas e pobres. Parou em frente á um casebre com pinturas descascadas, acariciou as duas notas de cem reais no bolso da calça jeans, suspirou e entrou.
Lá dentro havia apenas um sujeito de cerca de quarenta anos, muito magro, deitado em um colchão no chão de uma sala vazia que cheirava muito mal.
Augusto hesitou antes de atacá-lo, mas quando o fez, foi com uma ferocidade impressionante. O sujeito estava desacordado quando Augusto parou de surrá-lo.
Na semana seguinte, o amigo de Augusto lhe entregou outro envelope com duzentos reais, um endereço, e uma frase:
"Foi bem a utima, faiz ingual."
Nas oito semanas seguintes Augusto recebeu envelopes e recados semelhantes. Até que um envelope mais grosso chegou. Dentro haviam dois mil reais, um revólver, e um endereço e uma única frase abaixo na mesma caligrafia de sempre:
"Dois negão, apaga."
Augusto contou o dinheiro, olhou a arma e foi pra casa pensativo.
Dois mil reais... Vinte notas de cinquenta e dez de cem reais enroladas em um elástico amarelo.
Augusto poderia fazer tanta coisa com aquele dinheiro... Podia comprar roupas legais, uma TV grande, assinar uma TV á cabo, ou fazer farra com seus amigos em um prostíbulo caro.
Mas matar alguém... Ele jamais pensara em matar ninguém. Era impulsivo, violento quando brigava, achava até que, em um arroubo, poderia, acidentalmente, matar alguém. Mas sair de casa, procurar uma pessoa, e matar essa pessoa de maneira fria... Premeditada... Isso ele não sabia se poderia fazer.
Durante o resto daquela tarde e toda aquela noite, Augusto pensou, pensou até sua cabeça doer e seus olhos se fecharem. Pensou no que estaria fazendo se aceitasse aquele dinheiro, se matasse dois homens.
Pensou em como aquela experiência o alteraria, que preço estaria pagando em um nível metafísico, se preocupava, não apenas com as leis dos homens que transgrediria, mas também com as leis de Deus. Não tinha lá uma crença muito firme em nenhuma religião em particular, sua avó era uma católica devotada, mas estava longe de ser uma boa pessoa. Seu pai não acreditava em nada e sua mãe acreditava em tudo, de Budismo á gnomos. Augusto estava imaginando como seria matar alguém. Remover aquela pessoa da existência. Dois mil reais... Mil por cabeça...
No dia seguinte, em frente á um boteco pouco maior que um cúbiculo de banheiro público, repleto de sacos de pastelina e garrafas de cerveja e cachaças variadas sobre o balcão, Augusto, vestido com calças jeans, agasalho preto e boné verde escuro vislumbrou dois homens negros sentados á uma mesa. Eles dividiam uma cerveja, um deles, mais velho, era gordo e tinha cabelos grisalhos nas têmporas, bebia tranquilamente enquanto o outro, de bigode, magro e de cabeça raspada, olhava para os lados sem parar. Eram as únicas pessoas fora do boteco. Do lado de dentro, um homem e uma mulher estavam sentados em uma mesa e pouco adiante, quase colado ao balcão, havia um homem de idade avançada comendo um pastel de aparência pouco recomendável.
Augusto se aproximou olhando os dois. O gordo dizia alguma coisa que ele não conseguiu entender, o mais jovem fez um sonoro "Tsc", mexendo muito os braços.
Augusto acariciou a arma em seu bolso. Acertaria os dois? Jamais empunhara um revólver na vida. Jamais disparar uma arma de verdade... Queria matar os dois? Estava tão interessado naqueles dois mil reais? O homem gordo riu alto de alguma coisa, e se virou encarando Augusto. Só então ele percebeu o quanto se aproximara.
O gordo olhou para Augusto, e para seu companheiro de mesa, então, novamente para Augusto.
O rapaz agiu mecanicamente. Não pensou, apenas agiu. Tirou a mão do bolso já com o revólver empunhado, apertou duas vezes o gatilho mirando o sujeito magro de bigode, um tiro pegou no rosto, entre o nariz e o olho esquerdo, o outro no peito, bem no meio do peito.
O gordo tentou se levantar, mas Augusto deu dois passos pra trás, e atirou uma vez na nuca do gordo, que caiu pesadamente sobre a cadeira de metal e então, no chão.
Dentro do boteco a mulher gritou e se abaixou protegendo a cabeça, o homem se jogou no assoalho de ladrilhos cor de laranja, e o botequeiro se escondeu atrás do balcão, apenas o velho seguiu impassível, comendo seu pastel, alheio á tudo.
Augusto olhou os dois homens no chão. O mais gordo estava morto. Os olhos abertos e desprovidos de brilho. O outro se retorcia, gemia. Abriu os olhos e mirou Augusto. O rapaz o olhou por um segundo, ergueu o revólver e disparou de novo. Na testa do homem.
Se deteve brevemente olhando o sangue claro e grosso, quase cor de rosa que escapava da cabeça do gordo. Saiu sem dizer nada. Andou por alguns quarteirões, tirou o agasalho que usava sobre a camiseta e o amarrou na cintura, e jogou o boné e a arma no lixo. Antes de largar o revólver, o limpou com cuidado usando a própria camiseta.
Foi a primeira vez que Augusto matou alguém. Ele fez o serviço por mais do que dinheiro. Ele fez o serviço por curiosidade. Queria saber, mais do que, como era matar alguém, como se sentiria após matar alguém.
Após o crime, duas conclusões chegaram-lhe á mente. Uma, ele não sentiu nada de particularmente diferente ao matar aqueles homens. Sentira um frio na barriga, uma leve apreensão, uma injeção de adrenalina antes de puxar o gatilho, mas não fora mais intensa do que o que sentira ao fazer sexo pela primeira vez, nem de como se sentia antes de uma briga.
Segundo, após matar aqueles dois desconhecidos, Augusto não se sentiu nada diferente, exceto por estar dois mil reais mais rico. Descobriu, então, que poderia fazer aquilo. Que poderia ser bom naquilo.
Nos meses seguintes, Augusto seguiu surrando devedores do tráfico, após quatro meses, recebeu dois mil reais e uma nova ordem de morte, e cumpriu com a mesma frieza de antes.
Cabelo e ele se encontraram. O traficante felicitou Augusto por seus trabalhos até ali, lhe deu cinco mil reais e uma pistola prateada. Era um trabalho para um sujeito graúdo. Não era um amigo de Cabelo, era um sujeito endinheirado que queria que "apagassem" o namorado da filha. Augusto pegou o dinheiro, recebeu as informações de Cabelo, e saiu.
Fez o trabalho três noites mais tarde. Matou o sujeito saindo de uma danceteria.
Roubou a carteira, o telefone e o relógio do pobre coitado, mais para afastar qualquer suspeita do sujeito "graúdo" que encomendara o assassinato.
Sua fama se espalhou no submundo. Recebia, através de Cabelo, vários trabalhos semelhantes. Matou devedores, matou policiais, matou advogados corruptos, matou um político. Os preços variavam de acordo com a dificuldade e a importância do alvo, o valor mais caro que cobrara fora de setecentos mil reais para matar um candidato á senador. Após quinze anos, Augusto perdeu as contas de quantas pessoas matara. Raramente sabia dos motivos, nunca queria saber. Quanto menos soubesse das vítimas melhor.
Mas agora, aos trinta e um anos, sentado em um elevador parado, ele se perguntava se já não fizera o suficiente.
Estava cansado. Cansado de matar pessoas. Acumulara uma imensa quantia, não passaria por problemas financeiros.
Abrira uma empresa de informática como fachada para o dinheiro que recebia pelos assassinatos, já acumulara mais de uma dezena de milhões de reais. Poderia se aposentar agora e viver bem até o fim da vida. Quem sabe uma casinha no interior do estado?
Casaria com uma boa moça, não as vagabundas caras com quem se distraia e desopilava as suas tensões, uma boa moça, carinhosa, que o amasse. Talvez um filho, ou dois...
A luz voltou. O elevador voltou á se mover. O mostrador digital mostrava o número dezoito, e seguiu em direção ao dezenove.
Augusto levantou, alisou a camisa, recolocou os óculos, ajeitou gravata, vestiu novamente o paletó. Tirou a arma do coldre e encaixou o silenciador no cano da pistola. O elevador parou após o vigésimo nono andar com uma campainha fazendo "ping", e a porta se abriu para um hall bem decorado que separava o elevador de uma porta dupla de madeira. Dois homens gordos vestindo ternos azul-marinho o encararam incrédulos. Augusto matou ambos, um tiro na testa de cada um.
Cruzou o pequeno hall desviando dos cadáveres, abriu a porta de madeira e entrou em uma espetacular suíte duplex lindamente decorada. Subiu as escadas cobertas com um tapete felpudo branco, entrou no quarto onde uma gigantesca cama king size dominava o ambiente. Uma luz alaranjada entrava pelos sacadões, um homem de meia idade e uma mulher muito bonita e jovem devidiam a cama. Augusto pressionou o cano da arma contra a testa do homem e puxou o gatilho antes que ele abrisse os olhos.
Ao tirar os olhos do cadáver deparou-se com a mulher. Ela o encarava com os olhos esbugalhados, apoiada nos cotovelos. Os cabelos loiros e finos estavam sobre seu rosto. Ela olhou o homem morto á seu lado, e, encarando Augusto sussurrou um "Por favor.".
Augusto a encarou. Ela era bonita, jovem. Parecia uma pessoa doce. Foi a impressão que ele teve ao vê-la dormindo, não podia confirmar agora pois ela estava desfigurada de horror. Mas ela tinha um belo corpo, belos olhos. Augusto podia se ver vivendo com uma mulher como aquela. Quem sabe? Poderia poupá-la. A levaria com ele. Ela reconheceria sua compaixão, aprenderia á viver com seus defeitos e a admirar suas qualidades, e ela seria a pessoa que dividiria aquela casinha com ele no interior. Ele abaixou a pistola, e fez uma expressão amigável com o rosto.
Foi quando a mulher, em um movimento rápido, enfiou a mão sob o travesseiro do homem morto, e de lá sacou uma pistola. Ela mirou e disparou duas vezes contra Augusto. Um tiro passou longe dele, o outro, no entanto, atingiu-o na coxa esquerda, arrancando-lhe um grunhido de dor e derrubando-o no chão. A mulher se levantou gritando, largou a arma e correu em direção á escada.
Deitado no chão Augusto mirou nas costas da mulher e atirou. A bala atingiu o alvo e ela rolou pelas escadas. Augusto se ergueu com dificuldade, apanhou os óculos que haviam caído de seu rosto e mancou até o topo da escada. Desceu com dificuldade, parando ao lado da moça, estatelada no meio de uma poça de sangue. Ela o encarou ainda com pavor no olhar, tentou dizer algo, mas seu balbucio saiu gorgolejado de sangue que lhe subia pela garganta.
Augusto apontou a arma para a cabeça da moça, e a matou com um tiro certeiro.
Andou rengueando até o elevador, por onde desceu silenciosamente com uma ponta de aflição de que ele parasse novamente. Isso não ocorreu, e ele saiu tranquilamente do hotel, andou uma quadra e meia com dificuldade e entrou em um táxi.
Foi somente após um médico em necessidade de dinheiro remover a bala de sua coxa, lhe suturar, dar analgésicos, receber mil e quinhentos reais pelos serviços ir embora, que Augusto se deu conta que, em quinze anos de profissão, fora a primeira que se ferira.
Jamais sofrera nada além de um eventual golpe na cabeça ou torso, na época em que surrava devedores. Agora levara um tiro. Justamente quando pensava em largar a atividade, casar e ter filhos.
Não era de acreditar em sinais, mas resolveu interpretar aquilo como um. Apanhou um celular vermelho-escuro de uma gaveta, ligou o aparelho e vasculhou a agenda repleta de nomes femininos. Escolheu um aleatóriamente, falou com uma mulher, combinou um preço e se pôs á esperar pela chegada da prostituta.
Melhor se divertir com as mulheres erradas do que ser alvejado pela mulher certa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Salto


Não tem mistério - Ele pensou. -É só pular. Eu pulo e caio na água, afundo um pouco, claro, vou estar caindo, mas aí, o meu colete, que flutua, vai me puxar de volta á tona. Não tem mistério.
Ele pensou isso, mas continuou parado, com seus calções floreados, a camiseta justa na barriga flácida sob o colete salva-vidas laranja e verde-limão, encarando o rio com cara de quem não tinha lá muita certeza do que iria acontecer á seguir. Atrás dele o instrutor repetia o que ele havia acabado de dizer, em pensamento, á si mesmo.
-Aí tu vai afundar um pouco, é água, mas teu colete vai te puxar de volta pra superfície. Não tem mistério.
Ele virou parcialmente o rosto, sorriu amarelo pro instrutor e deu um passo pra trás, parecia que estava tomando impulso pra pular, mas estacou hesitando de novo. Na água seus amigos gritavam "Vem Castor, pula logo, rapaz.".
Castor. Era o seu apelido desde que ele era capaz de lembrar. Era uma combinação de bochechas generosas, lábio superior curto e dentes avantajados. Castor. Ele não ligava, na verdade até achava bacana ter apelido. Se chamava Cauby. Cauby Peixotto. Pois é. Explica-se aí por que ele gostava de ser chamado de Castor, passara por maus bocados na escola por conta desse nome. Sua mãe, dona Etelvina, era uma fã ardorosa e dedicada de Cauby Peixoto. Adorava o cantor, adorava os cabelos encaracolados e a voz dele, pra ela Roberto Carlos era um usurpador, o rei era o Cauby... Na verdade, Castor achava que sua mãe casara-se com seu pai apenas por ele ter o sobrenome Peixotto, o que lhe oportunizaria batizar seu rebento praticamente como um homônimo de seu grande ídolo.
A irmã mais velha do Castor se chamava Conceição. Outra homenagem velada ao ídolo de dona Etelvina. Mas Conceição não vivia no morro á sonhar com coisas que o mundo não tinha, Conceição era uma moça proativa, cheia de determinação e de ideais, saíra de casa bem antes de Castor para perseguir seus sonhos, tudo contra a vontade de dona Etelvina, que queria que a filha fosse uma moça mais recatada, mais prendada, que casasse e tivesse filhos com um homem de posição... Mas Conceição tinha seus planos, estudou medicina contra a vontade da mãe, uniu-se aos médicins sans frontiére, viajou pelo mundo e só parou depois de três anos em trânsito. Acabou morando em Brasília, e não se casou, morava com uma pessoa. Lúcia, sua namorada. Para desgosto de dona Etelvina Conceição era lésbica, algo que ela jamais poderia conceber. Castor não sabia como se sentia á respeito da irmã. Achava, na maior parte do tempo, que estava feliz por ela, mas ás vezes tinha dúvidas.
Esse sempre fora um problema da dona Etelvina, ela projetava os próprios desejos e vontades nos filhos. Conceição deveria casar com um homem de posição, isso se dava, talvez, por que a própria se casara com um homem de hábitos e pretensões simples. Oswaldo Peixotto era um homem sem grandes atrativos, era bem apessoado na juventude, e era honesto, essa honestidade, na verdade, poderia ser apenas um reflexo de sua falta de ambição, de sua falta de ânimo para tentar melhorar. Trabalhou a vida inteira no mesmo emprego, jamais recebeu nenhuma promoção que não fosse diretamente ligada á tempo de serviço, e, aparentemente, isso jamais o incomodou. Essa letargia, além do lábio superior curto e do sobrenome, Castor herdou do pai, ele sabia disso, mas não ficava bravo, assumia essa responsabilidade, e amava o pai, apesar de não demonstrar nunca.
Para desgosto de dona Etelvina, que certamente preferiria que seu filho fosse um grande homem, se não um artista, como seu homônimo famoso, um advogado, ou, quem sabe, um médico. O que Conceição acabou se tornando, embora não fosse bem do modo que dona Etelvina tivesse em mente, um consultório, um carro do ano, casa na cidade e de veraneio... Conceição vivia de aluguel, se mudava com frequência, e viajava mais pra África do que a maioria das pessoas viaja pro litoral norte.
De qualquer forma, Castor não se tornou médico, nem advogado, nada que lhe garantisse um "Doutor" antes do nome, Castor virou técnico em informática, emprego sem glamour e que dona Etelvina, francamente, nem sequer entendia ou achava minimamente relevante. E Castor, meio á contragosto, concordava com ela.
Castor não se tornou técnico em informática por que gostava de computadores, mas por que foi um curso fácil e que ele podia fazer perto de casa, além disso, abriria um leque interessante de oportunidade de emprego e estabilidade. Castor imaginou que em um mundo inundado de computadores por todos os lados, ele teria mais facilidade para encontrar um emprego se soubesse lidar com computadores. E foi o que fez. Não que fosse o que ele queria fazer. Castor queria mesmo era ser piloto de avião. Mas nem mesmo prestou serviço militar, na época do alistamento, chegou á pensar em surpreender a mãe e o pai e viajar até Canoas para tentar se juntar a FAB, mas acabou com preguiça, com receio de tomar aquela decisão, era mais cômodo ficar perto de casa, e se alistou no Exército, mesmo. Nos testes agiu com a sua modorrice habitual, o que garantiu sua dispensa. Ás vezes ele imaginava se a experiência do quartel não teria enriquecido sua vida de alguma forma, achava que sim, mas evitava pensar nisso. Evitava pensar em muitas coisas. Evitava pensar em Alícia, sua ex-namorada.
Fora ela quem primeiro notara a semelhança de Cauby com o roedor e o apelidara de Castor, o que começara como uma amizade divertida se tornou, com o tempo, um amor companheiro. Alícia amava Cauby, ele correspondia, era devotado, a amava muito á sua própria maneira. Não era um apaixonado dado á arroubos, a amava de forma silenciosa e contrita, com beijos e toques quase acidentais. Era seu modo. Ela não parecia se importar, durante três anos eles permaneceram juntos, e ele visualizava um futuro ao lado de Alícia, imaginava como seria ter filhos com ela. Filhos que tivessem de Alícia os cabelos louros, os olhos castanho-claros, o nariz bem construído, e dele... Bom, Castor ficava feliz que eles tivessem apenas seu sobrenome.
Mas Alícia conseguiu uma bolsa de estudos para fazer mestrado na Alemanha. E deu um ultimato á Castor. O amava, mas não iria desperdiçar aquela oportunidade. Queria que ele fosse com ela para a Alemanha. Ficariam juntos lá, talvez passassem por apertos, talvez sofressem dificuldades no início, mas teriam um ao outro, superariam e poderiam, quem sabe, até construir uma vida juntos, lá.
Mas Cauby refugou. Teve medo. Não sabia se queria passar por apertos e necessidades em um país estranho. Despediu-se de Alícia quatro dias antes de ela embarcar para Hannover. Ela chorava muito, deu um adeus entre soluços pra ele, que não disse nada. Castor não gostava de demonstrar emoções, pra ser franco, não tinha certeza se podia, se as sentia de maneira correta.
Ás vezes acordava de noite pensando em Alícia, mas ela foi se tornando uma imagem mais e mais pálida, e hoje ele não tinha nem certeza se ela era tão fantástica quanto ele se lembrava.
Quando visitava sua mãe, ela lhe dizia com frequência que se Alícia o havia abandonado, era por que não o amava o suficiente, que ela desfizera do amor que ele havia dedicado á ela e fora se aventurar "nas Europa", era a maneira de Etelvina proteger seu filho, fazendo pouco de quem o magoava. Castor não concordava. Castor não concordava com quase nada que a mãe fazia, mas no fundo acreditava que a amava, também. Á despeito do nome e tudo mais. Então ele não retrucava, na verdade, ás vezes tinha ânsias de concordar com ela. Adoraria que fosse verdade. Seria mais fácil de conviver com o rompimento se fosse daquele jeito. Mas Castor sabia que não era. Ele sabia que todas as mazelas de sua vida estavam ligadas á sua letargia, á sua falta de ânimo, á sua covardia na hora de dar um passo á frente ou de saltar.
Agora, ali estava ele encarando o lago, seus amigos o chamavam, o instrutor o incentivava, mas ele estava com medo.
Encarou o lago e respirou fundo:
-É agora ou nunca...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Resenha Cinema: O Lobisomem


Queria ver O Lobisomem.
Saí de casa nessa quarta-feira de cinzas e me dirigi ao cinema mais próximo para conferir um filme que, confesso, só queria ver por causa do elenco. Vendo o que se andou fazendo em matéria de monstros cinematográficos nos últimos anos, é difícil pra mim ir ao cinema ver um filme desse gênero com uma expectativa alta.
Desde que Hugh Jackman colocou o chapelão de Van Helsing e enfrentou Drácula, o lobisomem e o monstro de Frankenstein eu pensava nas desculpas que eram devidas á Peter Cushing, Christopher Lee, Lon Chaney e Boris Karloff.
Quando os vampiros e os lobisomens deixaram de ser criaturas assustadoras que povoam os pesadelos das pessoas e se tornaram rapazes saradinhos e com cara de boneca que se declaram vegetarianos, eu imaginei que estávamos, de fato, diante de um caminho que se estenderia inexoravelmente em direção á uma geração sem monstros no cinema.
Ficaríamos presos ao (bom) Cloverfield como única criatura cinematográfica capaz de arrancar mais do que risos da audiência, como fazem Freddy, Jason e Michael Mayers, que á muito tempo não metem medo em ninguém, ou, pior ainda, capaz apenas de arrancar gritinhos histéricos e lágrimas de coração partido de adolescentes microcéfalas como os meninos delicados da Saga Crepúsculo.
As notícias antes do lançamento do filme não serviram em nada para aumentar as minhas expectativas, o diretor originalmente contratado para o trabalho, Mark Romanek, saltou do barco com duas semanas de pré-produção, deixando o trabalho nas mãos de Joe Johnston, cujo currículo não chega á ser animador (Mar de Fogo, Jurassic Park 3, Jumanji, Rocketeer...).
O compositor Danny Elfman, responsável pela música do filme, também saiu antes da conclusão do trabalho, após a conclusão das filmagens o elenco foi chamado de volta para refazer cenas, o que adiou mais de uma vez a data de estréia, além das brigas da equipe de produção com o estúdio na ilha de edição (Rumores dizem que o filme chegou á ter cinco editores diferentes picotando o filme, entre eles Walter Murch, de Apocalypse Now.), dá pra imaginar que, de modo geral, esse tipo de problemas não resulta em grandes filmes, vide o sofrível O Exorcista - O Início.
Dito isso, fui ao cinema ver O Lobisomem como alguém que não gosta de filmes de terror, que não tem paciência pra "slashers" formulaicos, mas adora cinema, e é um fã declarado de Benicio Del Toro, Hugo Weaving e, claro, Sir Anthony Hopkins.
Sentado na escuridão de uma sala parcialmente vazia (Não devia haver mais do que quinze pessoas no cinema, se tanto, reflexos do carnaval.), abri minhas balas de morango, minha soda limonada e relaxei.
O ano é 1891, Lawrence Talbot (Benicio Del Toro, emprestando nuances e mais nuances ao personagem.), bem sucedido ator de teatro nos Estados Unidos retorna á Inglaterra para uma turnê em Londres.
Ele recebe uma carta de Gwen (Emily Blunt, um acessório, bonita mas sem nenhuma relevância para o filme.), sua futura cunhada, informando o desaparecimento de seu irmão e pedindo sua ajuda.
Ao chegar na mansão de seu pai, sir John Talbot (Anthony Hopkins, brilhantemente macabro.), Lawrence descobre que seu irmão morreu, e decide investigar as circunstâncias misteriosas e sua morte.
Ao tentar obter informações de ciganos na região, Lawrence testemunha o violento ataque de uma terrível criatura, e acaba sendo atacado pelo monstro, e amaldiçoado.
Ele próprio torna-se um lobisomem, além de alvo principal da investigação da Scotland Yard, que envia o inspetor Francis Aberline (Hugo Weaving, bacana como de costume.) á Blackmoore para descobrir o que está acontecendo.
É um filme muito bacana, se eu fosse de dar notas á filmes daria, sem medo de estar sendo excesivamente generoso, um 7,5 ou 8. Muito da qualidade do filme está no elenco, claro, tanto Benicio Del Toro, que carrega Talbot com uma nobreza arruinada e algo relutante durante todas as suas cenas, quanto Hugo Weaving que enche Aberline com uma obstinação fria, mostrando que aquele é o mesmo personagem que não conseguiu capturar Jack O Estripador, anos antes e, especialmente Anthony Hopkins, cuja interpretação de John Talbot flutua entre uma ternura distante e uma malevolência cruel seriam suficientes pra segurar qualquer filme nas costas, mas há ainda um bom roteiro, que presta um tributo ao filme da década de 40 sem esquecer que há uma nova geração de frequentadores de cinema na frente da tela, misturando um pouco do banho de sangue carniceiro que algumas audiências preferem com referências fidelíssimas ao mito da licantropia (Lua cheia, acônito, balas de prata, está tudo lá, nada de adulterações fantasiadas de liberdade poética.), alguns sustos gratuitos, sem jamais deixar desvanecer a tensão entre os personagens principais.
Claro, todas essas qualidades não seriam de grande valia sem um monstro convincente, e, com mil demônios, o monstro criado com maquigem prática pelo mago Ricky Baker (Homens de Preto, O Grynch.) é muito convincente, mais que isso, é genial.
O visual do lobisomem evoca a aparência da criatura dos anos quarenta com focinho achatado e presas inferiores saltando para fora da boca, mas lhe confere mais agilidade e força, o monstro corre sobre quatro patas, como um animal, mas caminha e luta sobre duas, como um homem. Ele joga os braços pra trás e estufa o peito para uivar vestindo os farrapos dos trajes de Talbot, vamos combinar, a criatura esfarrapada se lamentando ou regozijando contra a lua é sempre uma imagem maneiraça.
O filme é perfeito? Não, claro, tem seus defeitos, como a personagem de Emily Blunt, que jamais diz á que veio, ou o final algo aberto, sugerindo uma continuação (Hollywood anda em uma fase criativa tão negra que tudo pode virar franquia...), mas são defeitinhos, pormenores que não tiram o brilho e muito menos a diversão que a experiência de O Lobisomem pode proporcionar. Vá ao cinema e divirta-se. Eu, que não gosto de filmes de terror me diverti muito.

"Coisas terríveis. Você fez coisas terríveis, Lawrence."

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O carnaval do Amadeu



O som de bumbos, tambores e tamborins enchia a cabeça de Amadeu. Entrava por seus ouvidos e reverberava dentro de sua caixa craniana ecoando e fazendo sua cabeça latejar.
Pior era quando os gritos se misturavam e invadiam os pensamentos de Amadeu junto com aquela música.
Ele tentou erguer os olhos mas eles se recusaram a abrir. Ele pensou consigo mesmo que aquele baile de carnaval não estava sendo o que ele esperava.
Amadeu não era afeito ao carnaval enquanto festa do samba. Amadeu não gostava de samba, Amadeu, à bem da verdade, não era um grande fã de música de modo geral. Ele preferia o silêncio. Entretanto, o carnaval tinha um elemento que agradava muito ao Amadeu, um elemento que fazia com que o carnaval fosse a época do ano preferida para ele:
Sexo.
Era incrível, Amadeu pensava, como aqueles dias e aquela música tornavam as mulheres tão fáceis.
Ele achava fabuloso.
Amadeu não era um sujeito de grande lábia, não era bonito, nem tampouco charmoso. Amadeu era a figura da mediocridade. E tinha uma consciência bastante realista disso. Durante o ano inteiro ele tinha um radar ajustado, e andava com mulheres que eram, como ele, pessoas de aparência média, ou até menos. Era uma escolha consciente e calculada. Ele sabia quando uma mulher era areia demais para o seu caminhãozinho, e evitava essas mulheres poupando-se de eventuais foras desnecessários.
No carnaval, porém, ah, no carnaval era tudo diferente, no carnaval as mulheres estavam inebriadas, se não com álcool, com a própria atmosfera sensual do carnaval, com a promessa quase palpável de que os pecados ali cometidos seriam esquecidos ou perdoados, de que as falhas, as pequenas incontinências, as pequenas traições cometidas naqueles três dias de samba suor e cerveja seriam ali esquecidos e jamais lembrados exceto, talvez anos mais tarde quando, por alguma razão, houvesse uma oportunidade pra lembrar daquele verão e alguém diria "Lembra daquele carnaval?" e tudo, ou quase tudo dependendo do estrago que o álcool ingerido houvesse feito àqueles neurônios, voltaria à mente como uma lembrança distante e sem importância, era como se o carnaval fosse uma zona neutra onde havia um passe entregue a todos para que agissem de maneiras totalmente opostas aos seus instintos e crenças comuns.
E Amadeu sabia, e Amadeu usava isso com maestria.
Ele, naqueles dias da festa de Momo, se lavava em corpos lisos e perfeitos, perfumados de suor de dança e música ruim, desprovidos de culpa ou senso crítico.
Amadeu aproveitava o que a sociedade e a mídia vendiam às pessoas, em especial a pós-adolescentes interessadas em festejar como se não houvesse amanhã. No carnaval Amadeu estava feliz no seu ambiente. Mesmo não gostando da música, mesmo sendo um dançarino, no mínimo, ruim, mesmo com sua aparência nada além de mediana, Amadeu era o mestre do Carnaval, ou, pelo menos, assim se sentia.
E tinha razões para tanto.
Perdera as contas de quantas vezes desfrutara prazeres de alcova com mulheres belas que veria tão distantes quanto o Santo Graal em qualquer outro dia do ano, e tudo por que era, afinal de contas, carnaval.
Amadeu ás vezes, se sentia culpado pela própria habilidade, em especial quando acordava ao lado de uma jovem muito bonita e constrangida que só não havia ido embora por que ainda não encontrara toda a roupa, e o olhava com alguma reserva como se estivesse perguntando a si mesma se, de fato, fizera o que parecia que fizera. Mas essa culpa durava pouco.
Amadeu sabia que logo, logo ela estaria de volta à sua rotina, à faculdade, aos pais, ou algo que o valha, e ele seria apenas um eco pálido de um feriadão anos atrás, um fantasma de um carnaval passado, e pra ele estava tudo bem, ele tinha o que fora buscar, e, afinal de contas, os pecados do carnaval eram perdoados.
Com a aproximação de fevereiro Amadeu já começava a traçar seus planos, as festas e os bailes que frequentaria em cada um dos dias, se iria para o interior, se iria para a praia ou se ficaria na capital, ele tinha tudo calculado com, pelo menos, duas semanas de antecedência, era, afinal, a época, como o próprio chamava, de "tirar a barriga da miséria".
E ali estava Amadeu, no meio do baile, confetes, serpentinas, música alta, mulheres em trajes sumários de um lado e outro, casais dançando de maneira provocante e ele ali, olhando ao redor, procurando a mulher que seria nada senão perfeita. Amadeu procurava com olhos de lince pela mulher inacessível que, alcoolizada e no espírito de carnaval, se tornaria acessível, ele vasculhava o salão onde se aglomeravam, pelo menos, mil pessoas, quiçá mais, belas mulheres passavam por ele enquanto ele andava com pés macios, quase como um grande felino, esquadrinhando todas as mulheres que entravam em seu raio de visão, Amadeu sentia seus corpos deslizando de encontro ao dele enquanto andava, algumas, lânguidas, lançavam-lhe olhares sensuais fingindo reprovação, eram quase quatro e meia da manhã, o momento crítico, as meninas já estavam bêbadas o bastante, soltas o bastante, as que não ficaram até aquele ponto não ficariam mais, haviam moças que chegavam a enlaçar o pescoço de Amadeu com os braços alvos, mas ele não queria uma mulher que o enlaçasse com o braço, parte da graça da forma de Amadeu encontrar parceiras nos bailes de carnaval era, justamente, conquistar mulheres inconquistáveis, elas deveriam ser lindas, perfeitas, perfeita como a morena escultural que dançava com os braços parcialmente dobrados à frente do belo rosto e hipnotizou Amadeu com o movimento de seus quadris generosos.
Não só dos quadris, o corpo inteiro dela dançava, ela jogava os cabelos longos para cima em pequenos saltos, os olhos semi cerrados, os lábios entreabertos, suada, a blusa de lurex colada ao corpo, a calça jeans preta tentando inutilmente tolher os movimentos das coxas musculosas, os pés delicados avermelhados dentro das sandálias transparentes no movimento frenético ao ritmo daquela música quase primitiva.
"É ela."
Foi o que pensou Amadeu.
Aquela mulher era a perfeição que Amadeu almejara desde o primeiro baile, desde que a compreensão do que significava o carnaval para aqueles que, como ele eram práticos e tinham a clareza necessária, aquela mulher eras tudo o que ele queria do carnaval.
Amadeu se aproximou por trás dela sorrateiramente e, num movimento audacioso, enlaçou-a pela cintura enquanto a virava de frente para si. Ele olhou para ele por uma fração de segundo, como se medindo-o.
Amadeu sorriu satisfeito, se ela estava medindo ele, certamente não o achara demasiado repelente, estava no papo, a felicidade tomou conta de Amadeu. Ele anteviu as proezas eróticas que realizaria com aquela bela e incauta morena. Se inclinou para a frente, visando os lábios cobertos de brilho da moça. Antes, porém, que os seus lábios encontrassem os dela, Amadeu sentiu um cutucão no ombro, seguido de uma pergunta:
-Tu perdeu a noção do perigo, velho?
Ao se virar, Amadeu quase não teve tempo de ver os contornos do homenzarrão que se avolumava à sua frente, um golpe violento e certeiro atingiu-o no olho.
Amadeu quase caiu, mas se chocou com outros foliões atrás de si, o que o manteve de pé. Outro golpe atingiu Amadeu, no outro olho. As pessoas atrás dele gritaram e o mundo girou.
É quando chegamos ao ponto lá do início:
Ele tentou erguer os olhos mas eles se recusaram a abrir. Ele pensou consigo mesmo que aquele baile de carnaval não estava sendo o que ele esperava.
Amadeu tentou erguer os braços pra proteger a cabeça, porém, foi atingido novamente, nas costelas e na barriga. Um chute violento no joelho o derrubou no chão feito um saco de batatas, e mais dois chutes, um nas costas e outro na cabeça o mergulharam em um torpor doloroso do qual ele só despertaria horas mais tarde, no hospital.
Duas costelas fraturadas, além de uma concussão foi o saldo daquela noite. O restante daquele carnaval seria de dor e leito para Amadeu. No tempo em que ficou deitado, em que até se virar na cama doía, Amadeu se pegou amargo. Ele se pegou odiando a própria burrice. A própria impulsividade, por que não ficara um pouco mais de tempo observando a moça. Por que agira como um adolescente idiota e ansioso? Era responsável pelo próprio infortúnio.
Bem, ele e o bruto que lhe arrebentara, ainda que, na medida do possível, não guardasse mágoas do sujeito. Punha-se em seu lugar e percebera que a reação dele havia sido plenamente justificada.
Enfim. Amadeu concluiu que o que houvera causado sua ruína fora o carnaval.
Sim, o carnaval.
Na mesma medida em que a festa de Momo tornava as mulheres mais desfrutáveis, mais soltas e inconsequentes, ela também o tornara um quase tarado. Um viciado em sexo imparável até, ou concluir o coito, ou ser violentamente surrado.
Eram aqueles tambores primevos. Era aquela atmosfera quase palpável de sensualidade, a promessa de sexo que escorria pelos corpos das mulheres junto com o suor. Sim, foi aquilo. O carnaval causara todos os problemas dele.
Amadeu viraria cento e oitenta graus em suas crenças e preferências. Agora detestaria o carnaval. Teria alergia a tambores, teria pânico de tamborins, atravessaria a rua se visse uma mulher deliciosa em trajes sumários repleta de purpurina na pele suada enquanto arrastava os pés ao som de samba. Assim, pensava ele, se pouparia de infortúnios semelhantes.
Amadeu passou o domingo inteiro amaldiçoando o carnaval e trocando o canal da TV do quarto do hospital enquanto as redes mostravam a festa por todo o Brasil. Foi na madrugada de domingo pra segunda que ela chegou. Uma moça loura, bonita e atraente. Vestia uma camiseta regata branca justa e um short jeans quase pornográfico. Sua perna esquerda estava engessada até a altura do joelho.
Quebrada. Foi no carnaval de rua, ela contou. Uma briga causara alvoroço e correria, ela caiu e acabou pisoteada.
Chamava-se Thaís. Adorava carnaval, não pudera viajar porque trabalharia na segunda-feira à tarde, agora, embora perdesse o final da festa, ganhara a segunda-feira de folga forçada. Sorriu para Amadeu, que sorriu de volta.
Antes que raiasse o dia eles haviam praticado um sexo delicioso, entrecortado de gemidos de dor e de prazer.
No dia seguinte ela foi embora, o convidou para jantar na noite de terça, podiam ver os desfiles pela TV e comer uma pizza. Amadeu precisou negar, ficaria mais um dia em observação devido á concussão, mas pegou o número de Thaís.
Imaginando como seria a noite de terça com uma bela mulher parcialmente imobilizada amaldiçoou a própria sorte. Entretanto,repensou sua posição a respeito do Carnaval.
Continuava não gostando de samba, nem vendo nenhuma importância na celebração desse ritmo.
Mas voltara, rapidamente, a gostar da festa.