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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Top 10 Cinema: Uniformes de Personagens de Quadrinhos

Foi após a celeuma em cima do uniforme da Mulher-Gato de Anne Hathaway em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que causou a ira de fãs (E não fãs) do morcego ao mostrar uma Mulher-Gato sem as indefectíveis orelhas e com óculos ao invés de máscara, que eu me pus a pensar nos uniformes de super-heroínas e vilãs em adaptações cinematográficas de HQs.
Isso, claro, só podia dar origem a mais um infâme Top 10 Casa do Capita, este dedicado a super-heroínas e super-vilãs e seus uniformes traduzidos à telona ou, em alguns casos, à telinha:



10 - Supergirl - Supergirl (1984)
A gracinha Helen Slater recheou com graça o collant e a micro saia da Supermoça nesse filme medonho que foi expelido das profundezas do Inferno em 1984. Se alguma coisa se salvou em meio ao festival de canastrice do elenco de apoio e á direção e roteiro totalmente perdidos, foram as coxas de Kara Zor-El.


9 - Tempestade - X-Men - O Filme
O Cabelo pode não ter acertado de primeira, mas a roupa de couro preto envergada por (Uh, tererê) Halle Barry em X-Men, X-2, e X-Men 3 sempre foi bacana em celulóide. Diferente dos trajes de Jean Gray, Vampira e Lince Negra, Ororo Munroe ganhou uma capa com fundo prateado que evocava de forma elegante o traje dos quadrinhos.


8 - Viúva-Negra - Homem de Ferro 2
Deus é justo, mas o uniforme da Viúva-Negra... Os generosos atributos físicos de uma ruivíssima Scarlett Johansson espremidos em um apertado traje preto que ainda tinha os braceletes e o cinto dos quadrinhos por si só já valia um filme inteiro.


7 - Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer) - Batman O Retorno
Se existisse uma enciclopédia maneira de verdade, a foto de Michelle Pfeiffer trajada de Mulher-Gato em Batman - O Retorno estaria ilustrando o verbete "sensualidade". Apesar do estilo excessivamente feitichista, era uma adaptação maneira e hardcore do traje dos quadrinhos, especialmente do de Batman - Ano 1.


6 - Batgirl - Birds Of Prey
Engraçado como as mulheres do universo do Batman se dão bem em celulose. Dina Meyer interpretava a Oráculo Barbara Gordon em Birds Of Prey, série nada saudosa e de curta duração que tentou aproveitar o embalo de Smallville em 2002. Se a série era muito chata, durante um episódio, Dina apareceu em flashback usando um fiel e apetitoso uniforme de Batmoça.


5 - Zatanna - Smallville
Eu nunca soube ao certo o que me atraía no uniforme da Zatanna dos quadrinhos. Provavelmente eram as meias arrastão, pois eu também era fã do traje e das côxas da Canário Negro. Foi numa das últimas temporadas de Smallville que a personagem ganhou uma versão em carne (de primeira) e osso. O traje era idêntico ao dos quadrinhos, e ficava particularmente bem na Serinda Swan, atriz que viveu a heroína.


4 - Elektra - Elektra
Jennifer Garner já tinha feito bonito em Alias e em Demolidor, mas foi no horroroso filme de 2005, usando o tradicionalíssimo traje vermelho que ela, de fato, ganhou o imaginário de dez em dez nerds solitários. Apesar de não ser o maiô e as faixas escarlates do quadrinho, a roupa era funcional, fiel e reveladora na medida (Tá, podia ser um pouquinho mais reveladora, vá...).


3 - Mulher-Gato Lee Marywether/Julie Newmar
O tempo nos prega peças, mesmo. Me lembro de voltar correndo pra casa depois da aula na segunda série pra assistir Batman no SBT. Batman, com Adam West, mesmo. Era divertido quando eu tinha oito anos. Hoje, falando da Anne Hathaway, me lembrei da Julie Newmar, que era linda demais, e do traje que ficava bem a beça nela, e que ficou ainda melhor na Lee Marywether, atriz que substituiu a titular da série no longa metragem do herói. Era um traje ridiculamente simples, mas que, com a pessoa certa no interior, funcionava que era uma beleza.


2 - Mística - X-Men - O Filme
OK, o que Rebbeca Romjin usou na cinessérie dos mutantes nem sequer era uma roupa, a mulher andava praticamente pelada coberta de tinta spray e próteses de silicone estratégicamente coladas aqui e ali. Ainda assim, graças à belíssima estampa da atriz/modelo, ninguém reparou que não havia uniforme (ou ninguém ligou), e ficou muito maneiro na telona.


1 - Mulher Invisível - Quarteto Fantástico
Jessica Alba usou o uniforme mais bacana de quadrinhos no cinema no filme meia-boca de Tim Story. A peça única colada ao corpaço da atriz (Que no mesmo ano dançou vestida (Rá) de vaqueira em Sin City, de Robert Rodriguez) era fiel aos trajes usados por Susan Storm nos quadrinhos, ficava legal em movimento, e, se tinha algum defeito, era não ter ficado invisível mais vezes durante a projeção.

Chance


Não foi sem uma ponta de sarcasmo que o Manoel, que não era português, embora tivesse descendência lusa, nem burro, embora houvesse feito algumas burradas na vida, deu-se por conta de como andavam as coisas naquelas últimas semanas. E não foi sem uma ponta de sarcasmo (Manoel, ás vezes, achava que sarcasmo era uma importante ferramenta na manutenção da sanidade) que Manoel percebeu como, de vez em quando, um evento relativamente pequeno, era capaz de alterar tanto o curso dos fatos na vida de alguém.
Nesse caso, ele próprio.
Pouco mais de um mês antes, Manoel estava feliz, fazendo planos, trabalhando, estudando e cuidando de sua vida da melhor forma possível, o que não era lá com muito cuidado, mas enfim, garantia um espaço naquele largo patamar do que é "funcional".
Manoel não era muito de se entregar a sentimentos, pois os considerava perigosos. Fora provavelmente na novelização de um dos episódios de Star Wars que Obi-Wan Kenobi dissera a Anakin Skywalker que seus sentimentos em relação à Padmé Amidála eram perigosos. Manoel não era besta de fazer ouvidos moucos aos conselhos de um mestre jedi. Especialmente um descolado como Obi-Wan Kenobi. Tentava, então, manter seus sentimentos sob controle. Ou, ao menos, livres apenas até certo ponto.
Recentemente encontrara alguém que lhe fazia dar mais e mais liberdade ao que sentia. Como nós fazemos com o nosso cachorro em um parque ao perceber que não há perigo próximo.
Não chegava a admitir que estava feliz, o Manoel, mas a verdade é que, no fundo, ele estava, sim. Chegava até a se pegar fazendo planos que envolviam flores, chocolates e Let My Love Open The Door, de Pete Townshend. Mais cafona impossível.
Há, porém, sempre uma ameaça no caminho dos incautos como Manoel, e o que ontem parecia sorte, hoje, pode ser azar, dependendo apenas de acaso.
Quando pequeno, Manoel foi acolhido por uma tia em um momento difícil da infância em que seus pais se puseram a repensar o relacionamento que tinham e as escolhas que haviam feito. Foi sorte que a tia de Manoel fosse viúva e não tivesse filhos, de outro modo, talvez jamais houvesse acolhido Manoel de bom grado como fez.
Era uma feliz coincidência que o pai e a tia de Manoel não se falassem devido a uma briga de alguns anos ntes, ou ele certamente teria ido até lá buscar o menino, ofendido com a ideia de deixar a criação e os cuidados de seu filho nas mãos da irmã.
Sua mãe ficou eternamente grata à cunhada quando, após alguns meses, com tudo já acertado entre ela e o marido, pôde ir buscar o filho são e salvo e dar seguimento à sua vida.
Tudo pareceu sorte à época. Todavia, as coisas ás vezes podem virar à menor das oscilações.
Não foi mais senão acaso que fez com que a tia de Manoel, que praticamente o criara naquele conturbado momento da infância, escorregasse no chuveiro durante o banho e sofresse uma grave lesão cervical, ficando incapacitada de se movimentar.
Não foi nada além de azar que fez com que a tia de Manoel estivesse viúva, e não tivesse tido filhos.
Não foi nada além de chance que fez com que o único irmão da tia de Manoel, seu pai, estivesse brigado com ela a anos e os dois não se falassem, tampouco que a mãe de Manoel, condoída com toda a situação, se dispusesse a cuidar da cunhada em necessidade.
Não foi nada além do senso de responsabilidade nascido dos gibis e livros presenteados pela tia que fez com que Manoel se visse na obrigação de ajudar sua mãe e sua tia não importava o custo.
Manoel sabia, claro, que a situação não era definitiva. Sua tia tinha plenas condições e vontade de se recuperar. A dureza, a aspereza e a persistência teimosa eram características bastante vivas na sua família. Na verdade, Manoel ás vezes se pegava envergonhado ao pensar se teria abraçado as responsabilidades recém surgidas com tanto estoicismo se a situação não fosse claramente passageira. Tão envergonhado que até evitava pensar nisso., Não era lá um grande desafio. Naqueles dias Manoel andava cansado como não se sentia em muito tempo.
Viu-se obrigado a se afastar de uma porção de coisas que prezava. Andava vendo pouco seus amigos. Perdera várias das partidas de futebol que tanto prezava. Estava vendo menos filmes e se afastara dela. Aquela pessoa que significava tanto pra ele. Ele sentia a falta dela, das conversas risos e lágrimas que partilharam. Mas lembrava-se de um trecho de uma história que lera uma vez:
As pessoas permanecem conosco enquanto são lembradas.
E ela estava sempre em seus pensamentos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sombrio, só, não basta


Não me lembro ao certo da ordem dos fatos, se foi antes, ou depois de ver a primeira foto de Henry Cavill vestido de Superman (o ex-super-homem, cujo nome a DC não quer mais que se traduza pra fortalecer a marca, como se aquele S estilizado vermelho sobre o fundo amarelo não fosse uma marca mais forte que as fundações da terra...), que li a declaração de Jeff Robinov, o presidente da divisão de cinema da Warner, conglomerado empresarial do entretenimento que é proprietário da DC Comics, editora de quadrinhos do Lanterna, do Batman, do Superman e etc., dizendo que, apesar do fiasco do Lanterna-Verde nas bilheterias estadunidenses, a empresa mantinha a convicção de fazer do longa uma franquia.
Até aí, beleza. Sou nerd, fã de cinema e de quadrinhos, e partidário do pensamento de que todo o super-herói e todo o gibi merece seu dia de tapete vermelho nos cinemas (minha adaptação de Planetary estrelada por Russel Crowe, Salma Hayeck e Ben Foster ainda procura por financiadores, alô, Hollywood!). Então, que bom que o resultado fraco nas bilheterias não assustou a Demoníaca Companhia, e que bom que eles seguem interessados em traduzir seus heróis ao celulóide, certo?
X-Men - Primeira Classe foi o melhor filme de super-heróis desse ano e não foi estupendo no box office gringo e eu espero que a Fox mantenha a ideia de fazer uma sequência, por que desejaria destino diferente a Hal Jordan?
Bom, a minha preocupação, na verdade, veio na declaração seguinte do executivo, que disse que o argumento que a empresa já tinha em mãos para a sequência dofilme do Lanterna sofreria mudanças de tom, para se tornar mais "ousado, sombrio e focado na ação".
OK... Eu não vi Lanterna Verde, que estréia esse mês aqui no Brasil. Eu não sei que tipo de tom o filme tem, e embora tenha ouvido quase todo mundo que já assistiu dizendo que o filme é ruim, não sei se é ruim como Quarteto Fantástico & o Surfista Prateado, que quase todo mundo concorda que é horrível, se é ruim como O Incrível Hulk, que o públco em geral não curtiu mas oito em dez fãs de quadrinhos adoraram, ou se é ruim como Watchmen, que deixou oito em dez fãs da HQ fulos, mas agradou ao público em geral. Eu não sei, não faço nem a mais remota ideia. Tendo Ryan Reynolds em mente, eu diria que é o primeiro caso. Mantenho minha suspeita, nascida do primeiro trailer do filme, que Lanterna Verde foi gerado querendo ser o Homem-de-Ferro, mas nasceu Quarteto Fantástico. Posso, claro, estar enganado. Achava que Chris Evans seria um Capitão-América bocó em um filme murrinha, e Capitão-América é muito divertido e tem uma atuação respeitosa de um Evans sob controle.
De uma forma ou de outra, enquanto Robinov declarava que queria um Lanterna mais sombrio, a própria Warner e sua parceira Legendary Pictures mostravam a primeira imagem de Superman - O Homem-de-Aço, filme que recauchuta o primeiro dos Super-heróis, com um Henry Cavill vestindo um traje azul-escuro/quase preto, com uma capa que vai até os tornozelos, e que encara a câmera com uma expressão que, de tão furiosa, deixava o herói com pinta de vilão.
Enquanto isso, via nos fóruns da internet, as pessoas elogiando o trailer do reboot das aventuras do Homem-Aranha no cinema, O Espetacular Homem-Aranha, por ser "mais sombrio e realista" do que a incursão prévia do herói nas três fitas de Sam Raimi, ao mesmo tempo em que Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (título medonho pro terceiro longa do morcego sob o comando de Christopher Nolan) era alçado a píncaros de glória por ser "sinistro", "pé-no-chão", "realista" e "cru".
Em que se pese que os Batmen de Nolan vá lá, são mesmo, tudo isso, além de serem ótimos filmes, há que se ter em mente que nem todo o super-herói casa com esse tipo de caracterização e atmosfera.
O Batman pode se dar ao luxo de ser "realista" extrapolando um pouquinho as regras e flutuando no limite do possível, embora bem além do provável ou do plausível. O personagem Batman é sombrio. É um herói nascido da tragédia, do medo, e da revolta, que abraça uma persona sinistra para mostrar aos criminosos que eles não são as criaturas mais assustadoras da noite.
Esse herói pode transitar em um espaço obscuro e cru, e aí encontrar sua melhor encarnação até aqui. Beleza. É o Batman.
Isso não vai, necessariamente funcionar com o Homem-Aranha. E nem precisa. O Homem-Aranha já mostrou em três longas metragens, sendo um ótimo, outro quase perfeito, e um terceiro meia-boca, vá, que não precisa ser sombrio. Aliás, se faltou alguma coisa aos filmes anteriores do Aranha, jamais foi sombra, jamais foi crueza, ou pés-no-chão. O Aranha de Tobey Maguire ressentia-se, sim, de um pouco mais de profundidade sem a máscara, e de tagarelice e galhofa quando trajando seu uniforme. Afora isso, e meia dúzia de detalhes técnicos que só os fãs mais chatos e exigentes cobrariam (Gwen Stacy antes de Mary Jane, lançadores de teia-mecânicos), os filmes de Raimi fncionavam sendo luminosos e carregando uma ponta de melancolia otimista. Essa atmosfera pode continuar nos filmes. O Aranha pode e deve ser uma pessoa de verdade sob a máscara, e, como uma pessoa de verdade, pode ter momentos sombrios, mas não é um personagem sombrio, muito pelo contrário.
Quem conhece sabe.
Por outro lado, esperar que o Superman seja realista é dose, um personagem que nasce em um planeta fisicamente impossível (o campo gravitacional de Krypton, uma das explicações para a gama de prodígios físicos do herói, seria de 10000 metros por segundo ao quadrado em um planeta mil vezes maior do que a terra. A gravidade, mil vezes maior que a da terra torna o planeta fisicamente impossível...), é lançado à Terra por seu pai biológico para se salvar, aqui, é adotado por um casal de fazendeiros de bom-coração que o tratam como um filho, ensinando-o o valor do sacrifício, da moral, e dos bons costumes e cresce para se tornar o inspirador guardião super-poderoso do planeta que o acolheu, defendendo-o de toda a ameaça, doméstica ou externa não tem como nem porquê ser "realista".
Impossível, todos sabemos. Não existe por quê tentar deixar isso mais realista do que já havia feito Richard Donner em Superman - O Filme, no distante ano de 1978. O Superman não precisa de mais do que aquilo exceto em excelência técnica e eventuais modernizações.
Aquele é o tom correto, é o máximo de verossimilhança (pra usar um termo cunhado por Donner) que o Superman precisa. Coisas como Lois & Clark, Superman - O Retorno e Smallville serviram apenas pra mostrar que ainda hoje, não há nada de errado com o filme de Donner. O Superman não precisa de outra origem, em Grandes Astros - Superman, Grant Morrison contou a origem de Superman em quatro quadrinhos.
Quatro!
E seguiu isso com uma das melhores histórias do personagem em todos os tempos.
O Superman também não precisa ser "mais sombrio". Ele é um personagem diferente do Batman, que funciona em uma sintonia distinta. Ele se veste com cores primárias, é azul, vermelho e amarelo, opera de dia e de noite, esconde sua identidade secreta com um par de óculos e impede que mísseis atinjam a costa oeste e salva gatos em árvores sem se despentear.
Querem mais ação em um filme do Superman? Beleza, eu também quero.
Coloquem Darkseid ou Mongul a invadir a terra. Um Metallo movido a Kryptonita em seu caminho, ressucitem Zod, Ursa e Non, ou transformem um engenheiro incauto no Parasita. Mas não queiram que o Superman seja outro personagem. Ele passou setenta anos nas HQs sem precisar disso.
O êxito do Batman parece ter criado, na mente estreita dos executivos dos estúdios, a ideia de que ser "sombrio", é ser realista e qualificado. Não é. Não necessariamente. Que o digam as trocentas encarnações de O Corvo, todas extremamente sombrias e de onde se salva apenas o primeiro filme, de Alex Proyas com Brendon Lee.
Ser sombrio, só, não basta. Um filme, pra conquistar público, e sucesso além do financeiro, precisa de coração e cérebro, e lembrar que, antes de mostrar sequências de ação ou apresentar personagens, precisa contar uma história. Se não houver uma história a ser contada, pra quê ir ao cinema, ler um livro, um quadrinho ou o quê quer que seja?
Mas, claro, não sou eu que vou enfiar isso na cabeça desses tacanhos. Quem vai fazer isso é a bilheteria dos cinemas, quando algo como uma versão mais sombria de Lanterna-Verde fizer um fiasco ainda mais retumbante que o modelo sessão da tarde.
Como diria Stan "The Man" Lee, um tremendo contador de histórias:
Nuff said.

Bolo de Laranja


Gervásio abriu a porta do escritório e sentiu um cheiro fresco e adocicado. Levou uma fração de segundo, enquanto acendia a luz, para achar um símile para aquele cheiro:
Bolo de laranja.
Não era cheiro de bolo de laranja, de fato, mas era o cheiro mais próximo que Gervásio encontrou para contar à ela, mais tarde, que cheiro sentira ao abrir a porta do escritório naquela manhã. Gervásio fazia sempre essas duas coisas: Ele digeria rapidamente as coisas, no momento em que aconteciam, como forma de narrá-las depois. E sempre fazia isso procurando formas de contá-las, mais tarde, à ela. Ela estava sempre em seus pensamentos. Nas hoas boas e ruins. Quando aquele cheiro fresco e adocicado lhe encheu as narinas, ele, de imediato, pensou em si próprio falando com ela, sorrindo, dizendo-lhe "Coisa mais estranha do mundo, guria! Um cheiro adocicado de bolo de laranja, sabe? Dentro do escritório!". Pensou no que ela diria, talvez lhe perguntasse se ele comera bolo de laranja na semana passada, ao que ele responderia, fazendo cara de pouco caso que claro que não, senão o tal cheiro não seria estranho, seria apenas indício de um pouco de relaxamento. Ou, quem sabe ela virasse a cabeça pro lado, e arqueasse as sombrancelhas dizendo "Parece coisa de macumba!", sabendo que ele não acreditava em nenhuma espécie de maldição ou benção, apenas para provocá-lo a dizer que nada daquilo existia, e ela começaria uma discussão que culminaria com ele, muito maior, agarrando-a com firmeza pelas costas e parte de trás das coxas bem torneadas e a deitando no sofá enquanto a beijava em todo o rosto e pescoço de maneira sucessiva e inclemente, até ela começar a rir e perder o ar, e dizer que desistia.
Ele sorriu enquanto antevia toda a cena. Ele sorriu enquanto a imaginara dizendo as falas que imaginara pra ela com seu jeito de falar e sua voz. Sorriu enquanto imaginava seu nariz se perdendo no cabelo cheiroso dela. Enquanto imaginava os lábios dela e os seus se encontrando. Sorriu enquanto imaginava o quão piegas estava sendo, e como era interessante a sensação de não ter vergonha.
Sorriu enquanto pensava que, alguns meses antes, quiçá um ano, tudo aquilo, toda aquela calidez, ter toda aquela expectativa de melhora e de felicidade parecia, se não impossível, tão distante. Tão inacessível, tão... Tão o oposto de tudo o que ele estava acostumado a sentir, a experimentar, e a esperar receber.
E agora, ali estava ele, enquanto largava sua mochila do lado da escrivaninha, pensando em como contar à ela, com as palavras corretas, com um símile que fizesse justiça ao que sentira, uma coisa que lhe aconteceu ao chegar ao trabalho.
Pensou em não esperar até que a visse. Pensou em não esperar que ela cruzasse a distância. Apanhou o telefone e chegou a começar a escrever a mensagem onde contaria o estranho caso do cheiro de bolo de laranja no escritório. Pensou em contar, também, que a primeira coisa em que pensara naquela manhã, fora nela, quando deu de cara com um gibi que tinham em comum, Apenas uma das coisas que tinham em comum... E como, casualmente, não fora ela a última coisa na qual ele pensara na noite anterior, mas sim em um sushi de salmão que ele, que nem gosta de sushi, havia experimentado e gostado. Peças que a mente nos prega, decerto.
Mas deteve-se. Deteve-se como fazia quase sempre. Deteve-se por tantos motivos que nem sequer sabia por onde começar a listá-los. Insegurança, certamente. Ele era inseguro. Muito. Tão desgraçadamente inseguro que chegava a ser engraçado. Insegurança, incerteza, medo... Tantas coisas que ele havia decidido que deixaria de lado... Tanta coisa que Gervásio supôs poder deixar pra trás tomando apenas meia dúzia de cuidados. Gervásio, não sabia onde ela estava. Não sabia o que ela estava fazendo. Como ela se sentia. Não sabia se ela estava feliz ou triste. Não sabia se ela estava se divertindo ou cumprindo alguma obrigação chata. Não sabia se ela ainda pensava nele, ou se eliminara-o de si como se faz com uma gripe renitente. E se ela já houvesse deixado-o de lado? E se ela já estivesse fazendo o que era, afinal de contas, natural que fizesse? Vivendo sua vida, tratando de suas coisas, sendo quem devia ser, gostando do que devia gostar, e divertindo-se como precisava divertir-se, jovem e cheia de vida que era?
Que direitro tinha ele, quase um troglodita, de reclamar que ela não era capaz de ler os sinais com os quais ele acenava, quando tais sinais eram quase nulos e ininteligíveis? Ele era o culpado. Não ela.
O que restaria a fazer, pensou Gervásio, enquanto guardava o telefone no bolso interno do casaco. Como alguém, que como ele, não acreditava em amor eterno, poderia colocar as coisas nas mãos do acaso, e esperar que tudo fosse seguir seu caminho até dar certo?
Ele não sabia. Sacou o telefone de dentro do casaco de novo, e olhou a foto dela que tinha ali. Lembrou-se, então, que até bem pouco tempo atrás, nem sequer acreditava muito em amor. Quem sabe, talvez, ela o ensinasse, também, a crêr em amor eterno?
Era difícil, mas eles já haviam feito tantas coisas difíceis juntos...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Negação


O Getúlio acordou um dia e disse "Basta". OK, não foi exatamente assim. O Getúlio acordou um dia, levantou da cama coçando o flanco direito, espremeu uma espinha no queixo enquanto fazia xixi, lavou as mãos, o rosto, escovou os dentes, se vestiu enquanto comia uma maçã e saiu pra trabalhar. Foi apenas na rua que ele disse "basta". E nem disse, mesmo, de verdade. Ele apenas decidiu que havia chegado a algum tipo de limite. O Getúlio resolveu que, daquele dia em diante, dedicação plena, mesmo, ele teria apenas para com o seu cachorro, que sempre o recebia bem quando chegava em casa, sempre tinha um abraço e um pouco de atenção para ele, e demandava em troca apenas a mesma coisa. Um afago e um pouco de atenção.
OK, comida e água, e um banho semanal fora as vacinas. Enfim, ele não se ateria a esses pequenos detalhes.
Getúlio trabalhou naquele dia com o peito estufado. Falou pouco, e com quas ninguém, ciente de que tomara a melhor das decisões, e escolhera o mais acertado dos cursos de ação. Não abriu o seu e-mail a cada dez minutos. Não ficou verificando se o celular recebera uma chamada ou um SMS a cada ida ao banheiro. Estava sereno como a muito tempo não se sentia.
Era, sem sombra de dúvida uma sensação nova aquela para o Getúlio. A serenidade da certeza lhe encheu de esperanças, e preencheu seu peito com a calidez da certeza.
"Sim, com mil demônios", bradou Getúlio, "Eu estou fazendo tudo certo agora, e estive fazendo tudo errado antes!".
Novamente vale destacar que foi um brado metafísico, Getúlio não parou no meio dos corredores da firma bredando "com mil demônios", pois podia pegar mal, e, sei lá, até dar justa-causa, vai saber.
Getúlio almoçou sushi, naquele dia, imagine só. O Getúlio, que não gostava nem de olhar pra peixe em aquário, que não gostava nem de nugget de peixe, comendo peixe cru envolto em arroz e alga marinha! E ele comeu. Comeu sushi de super mercado com molho Shoyu em garrafinha plástica.
Um nojo, mas ele comeu assim, mesmo. Achou que era um dia para estréias.
Trabalhou serenamente o resto do dia, cuidou de seus afazeres com zelo, e ao sair, saiu ouvindo música. Nem sequer virou o pescoço pra ver a bunda da Maria de Lourdes, moça de curvas fartas que cuidava da limpeza e a quem Getúlio sempre reservava um olhar guloso quando ia embora. Não. Getúlio não precisava mais disso. Agora seriam apenas ele e seu cachorro.
Passou pelo mercado, novamente. Comprou bananas e um abacaxi. Sabonete, desodorante e um gel de cabelo. Comprou um sanduíche de atum para si, e uma peça de courino digerível para cães em forma de osso para o seu companheiro.
No elevador do prédio ele chegou a estremecer de antecipação imaginando o momento em que abriria a porta de casa e se depararia com aquele grande monte macio de pêlos amigáveis, e ganharia um abraço apertado, quiçá alguns babados beijos caninos...
Andou sentindo uma ponta de entusiasmo em direção à porta de casa, e já sorrindo, girou a chave na fechadura.
Abriu a porta e...
Lembrou-se: Não tinha um cachorro.
Naquela noite comeu seu sanduíche de atum e viu a novela das oito sofrendo cada vez que olhava para o brinquedo em forma de osso sobre a mesinha de centro. Mas enfim, melhor sofrer de saudades do cão que jamais teve do que sentindo saudades dela. De seu carinho e presença. Que já tivera e não voltaria a ter. A negação era, afinal, uma arte na qual Getúlio aprendera a ser mestre ao longo dos anos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Resenha Cinema: Harry Potter


Eu não sou fã de Harry Potter. Nunca fui. Pra falar bem a verdade, olhava com antipatia pro bruxo de óculos, a quem via como um descarado plágio da J. K. Rowling ao Tim Hunter de Os Livros da Magia, de Neil Gaiman.
Passei longe dos livros e assisti com tremenda má vontade ao primeiro filme, A Pedra Filosofal, dirigido pelo xarope, careta e mala Chris Columbus, de filmes infanto-juvenis que aprontavam as maiores confusões na Sessão da Tarde. E A Pedra Filosofal era isso, mesmo. Um filme caretinha e sem graça, com a marca de Chris Columbus, que se tinha alguma coisa de bom a oferecer eram os bons nomes do elenco secundário, como Maggie Smith e Alan Rickman, e a boa trilha sonora do mago John Williams.
O segundo longa da série, A CÂâmara Secreta, eu vi no cinema. Não por que eu estivesse muito ansioso em ver a segunda incursão do mago mirim, mas sim por que queria ver o trailer de O Senhor dos Anéis - As Duas Torres, atrelado ao filme infantil (Não me julguem, eu fiz muito isso, assisti O Confronto só pra ver o trailer de Homem-Aranha). A Câmara Secreta foi, no final das contas, mais uma aventura infanto-juvenil xarope com o selo do Chris Columbus garantindo a temperatura morna do longa. Era, enfim, um filme pra fãs que eram crianças, logo, não havia nenhuma razão pra correr riscos, afinal, mesmo se fosse Uwe Boll o diretor das adaptações, rios de dinheiro entrariam nos cofres da Warner.
Estranhamente a Warner resolveu dar uma de audaciosa no terceiro longa, O Prisioneiro de Azkaban, e chamou ninguém menos que Alfonso Cuarón pra dirigir o filme. O cineasta mexicano que havia dirigido o queridinho Grandes Esperanças, e o polêmico E Sua Mãe Também, e que mais tarde faria o excelente Filhos da Esperança. O diretor fez o que talvez tenha sido o filme menos amados pelos fãs da série literária (eu sei pois meu irmão e seus colegas, todos ávidos leitores de Harry Potter e na casa dos 12, 13 anos na época do filme o detestaram), mas, quem sabe, o que levou os "trouxas" como eu a ver a série como algo além de uma máquina de fazer dinheiro pra Rowling e a Warner.
Eu assisti ao quarto filme, O Cálice de Fogo, dirigido por Mike Newell com gosto. Não era um filme espetacular, tinha lá seus furos, mas os dragões eram maneiríssimos, e a adição de Brendan Gleeson ao elenco valia uma espiada por si só. Apesar dos momentos a lá Malhação, como a ciumeira de Ronny com relação à participação de Harry no torneio Tribruxo, o filme funcionava, vá lá, e não me fez dormir.
O quinto longa, porém, mudou um pouco as coisas, pra mim. O filme de David Yates, A Ordem da Fênix, colocava a magia e o encantamento dos filmes anteriores em um segundo plano, pra contar uma história que me era muito mais interessante sobre amadurecimento e desafio à autoridade. Imelda Staunton surgiu como uma nova e detestável diretora de Hogwarts, e Helena Bohan-Carter como uma exagerada Belatrix Lastrange, tudo trabalhando como acessório para que a história fosse bem contada. A Ordem da Fênix não era um filme perfeito, como não fora nenhum dos anteriores, mas era bacana, o mais sombrio até então, e tinha uma luta maneiríssima entre Dumbledore (Michael Gambon) e Voldemort (Ralph Fiennes) no final.
O sexto filme, confesso, não fui assistir após ouvir súplicas lamuriosas. Bastou um convite pra me tirar de casa. Harry Potter e o Enigma do Príncipe foi novamente dirigido por David Yates, e uma vez mais, era uma fita sombria e interessante onde as relações entre os personagens centrais foram bem exploradas e que contou com mais uma ótima adição à série (Jim Broadbent) e outra ótima atuação de Alan Rickman, como Severo Snape. Era um filme cheio de lacunas, que demandava conhecimento prévio dos filmes, dos livros, ou acesso a um adolescente fã da franquia, por sorte eu tinha o meu irmão, fã declarado da série literária e cinematográfica, pra preencher os buracos no roteiro de Steve Kloves, e acabei me satisfazendo bastante com o longa sem fim, que era, a bem da verdade, o primeiro passo de três que acabariam com os longas de Potter.
Chegou, então, As Relíquias da Morte - Parte 1. O único filme da série que eu assisti duas vezes, uma no cinema, outra em DVD, novamente dirigido por Yates, era mais um fragmento de história, As Relíquias da Morte continuava os eventos, não apenas do longa anterior, O Enigma do Príncipe, mas também trazia trocentos pormenores de todos os filmes da franquia e dos livros, uma vez que era um longa de duas horas e meia pra cobrir, sei lá, metade de um livro. Acabou caindo no gosto dos fãs, mas deixando muita gente com cara de "como assim?" com reaparições surpresa pro público em geral, como a do elfo (ex-doméstico, agora livre) dobby, desaparecido desde o segundo longa metragem, e retornando neste em uma participação recheada de importância e drama. Ainda assim, era um ótimo filme, atrevo-me a dizer, mantendo a tendência iniciada com O Prisioneiro de Azkaban, de sempre oferecer ao público um filme melhor em todos os aspectos do que o entecessor.
E, finalmente, após bons dez anos de idas ao cinema pra toda uma geração, quase dez bilhões de dólares de bilheterias, e guriazinhas de terceira série transformadas em gostosudas, Harry Potter chegou ao fim com As Relíquias da Morte - Parte 2.
Harold, Hermione e Ronald continuam procurando Horcruxes, artefatos mágicos carregados com fragmentos da alma de Voldemort, para destruir as quinquilharias e deixar o malvadão vulnerável o suficiente pra ser destruído.
Se o filme anterior teve um desenrolar lento que muita gente considerou prejudicial (eu particularmente achei maneiro, pois reforçava a relação do trio protagonista, que foi crescendo e mostrando que Daniel Radcliffe, apesar do carisma, é o piorzinho da trinca), esse pode começar lento, com os esforços do grupo direcionados a localizar e destruir horcruxes, mas mesmo a primeira metade tem a tensão da invasão disfarçada ao banco, que culmina com uma maneiríssima sequência envolvendo um dragão polonês.
A segunda metade do longa, porém, é até corrida demais. O pau canta em alto e bom som em Hogwarts, com personagens do lado do bem e do mal de todos os outros filmes trocando varinhaços. É bacana ver atores como Maggie Smith, a Minerva McGonagall, que apareceu, mesmo, só nos dois primeiros filmes e depois virou extra de luxo decorando alguns cenários ali parada com seus olhos esbugalhados e chapéu pontudo tendo, novamente um papel de destaque na trama como líder das defesas mágicas da escola. E aí, o filme, conforme avança rumo ao final, vai trazendo de volta em pontas praticamente todos os personagens que já apareceram em algum momento da série, incluindo, aí, gente que já morreu. Nessa correria, personagens importantes e a quem o público aprendera a chamar pelo nome (Eu, pelo menis havia...) não tem o fim que merecem, aparecendo mortos de maneira rápida em contagens de corpos aqui e ali. A mesma coisa vale pra grandes vilões da franquia, que os não-iniciados como eu poderiam querer ver morrer de maneira mais apoteótica, o que não ocorre.
Ainda assim, o filme se desenrola até o desfecho de maneira satisfatória, oferecendo aquela maturação e aumento de escopo com relação ao filme anterior que virou marca. Há o inescapável duelo final Harry x Voldemort, arestas são aparadas, pontas soltas, amarradas, e até temos um vislumbre do futuro. E com o tema de John Willians em um arranjo mais imponente e épico, a mais rentável franquia da história do cinema termina, deixando pra trás uma legião de ex-adolescentes, adolescentes e crianças órfãs da franquia que as ensinou a ler calhamaços em tempo recorde sem resmungar, a esperar por filmes-evento uma vez por ano, e a chamar os adultos de trouxas sem se preocuparem com puxões de orelha. Deixa também oito filmes, dos quais pelo menos quatro são bons, e onde, vá lá, quase todos são bastante divertidos. E uma lacuna que dificilmente um Percy Jackson da vida vai conseguir preencher.
Não vai pra minha estante. Pelo menos, não agora, mas, quem sabe quando eu tiver filhos?

"-O 'garoto que viveu', chega para morrer..."

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Detalhezinho


A Agnes era assim, uma solitária boa moça. Muito boa moça. Era gentil, educada, estudiosa, dedicada. Cozinhava bem, limpava com esmero, era asseada, e prendada. Sabia cerzir meia. Sabia tirar mancha de mostarda escura de roupa branca sem usar esses removedores de manchas industrializados, tinha a própria mistura que incluia limonada, água com gás e pinho-sol. A Agnes também era boa de matemática, ajudava a vizinha, dona Cenira, a ajustar as contas do mês, sempre sobrava um dinheirinho pra dona Cenira comprar uma roupinha nova graças à ajuda da Agnes. A Agnes era extremamente controlada. Trabalhava na biblioteca local, e era uma apreciadora do silêncio. Não gostava de música alta, ou barulhenta, gostava de clássicas, e de MPB. Não gostava de filmes de ação, preferia romances ou dramas mais contidos. Se vestia com discrição, cabelos loiros e lisos sempre presos sob um chapéu nos dias de frio, pois o calor do corpo, já lhe dizia sua avó, se perde quase todo pela cabeça, os olhos castanho-claros sempre ocultos sob os óculos de descanso prescritos pelo oftalmologista, doutor Azeredo.
Ela se exercitava com frequência, fazia caminhadas, corridas, e praticava Pilates. Fazia musculação de baixo impacto na academia e se alimentava direito. Não era afeita a refrigerantes, nem frituras, ou chocolates e doces em geral.
Na faculdade Agnes entregava os trabalhos sempre no prazo, caprichosamente acomodados dentro de pastas plásticas com canaletas que seguravam as folhas justamente na margem recomendada pela ABNT. Estudava com afinco para as provas e nos livros, lia sempre um capítulo além do recomendado pelos professores.
Raramente aceitava o convite dos colegas e das colegas para reuniões ou confraternizações da turma. Não fazia trabalhos em grupo, exceto se fosse condição imposta pelo professor. Não que a Agnes não gostasse de gente, ela gostava, gostava tanto que era voluntária em um par de ONGs, e inclusive lia para cegos no Instituto Santa Luzia. Era um doce de menina.
Pode-se imaginar que uma moça com tantos predicados não fosse ser atraente. Pode-se pensar que uma menina tão rica em prendas quanto Agnes seria inversamente afortunada em termos de predicados físicos. Não era, porém, o caso.
Agnes era uma menina bonita. Não era linda. Não. Mas era bonita. Bem ajeitada, com maquiagem e roupas que valorizassem as suas formas bem feitas moldadas com exercício, certamente seria até mais do que bonita. E eram todos capazes de ver isso sob a imagem fria que ela deixava visível ao mundo.
Há de se pensar, então, que Agnes fosse solitária por opção.
Não era, exatamente o caso.
Agnes sonhava em ter alguém com quem dividir o tempo. Alguém para fazer a contabilidade do lar com ela ao final de cada mês. Alguém que a pegasse pela mão e a levasse ao show do Djavan, ou para ver o último filme do Lars Von Trier no cinema. Alguém que pudesse aninhá-la junto ao peito e a aconchegasse até que o sono viesse.
Agnes sonhava com isso. Chegara a ter um ou dois pretendentes que achou que seriam essa pessoa especial. Tudo, porém, esbarrava em uma verdade inabalável. Um detalhe inescapável que sepultava todas as chances da doce Agnes de encontrar alguém que a amasse:
A Agnes era chata pra cacete!
Fica a dica, Agnes, se me ver na rua, me erra.